Um reflexão sobre uma situação de overstretch do sistema português
(Inicialmente publicado no blogue A Regra do Jogo)
Parte I – Do regime
O país chegou provavelmente a uma situação em que se colocam diversos dilemas estratégicos. Depende do ângulo em que nos colocamos, para saber em qual deles “pegamos”.
Isso acontece quando um determinado “desenho” de um regime atinge o seu overstretch. É o caso, a meu ver.
Neste primeiro post, vou colocar em equação os dilemas estratégicos à direita e ao centro direita. São hipóteses de trabalho.
Tenho referido que há uma mancha de óleo a que tenho chamado de direita inorgânica. Nela incluo os descamisados Armani, os tremendistas com eco nos media e na blogosfera, as fracções rupturistas dos partidos e suas constituencies, alguns detentores de cargos institucionais (sem poder executivo), movimentos de aberta alteração dos equilíbrios na alta finança, e franco atiradores em que se misturam agendas pessoais e puros acasos da vida.
Os crudes que a alimentam já andam nos pipelines há muito tempo, mas só, agora, a mancha tomou forma. Isto a meu ver é novo no contexto político.
Essa constelação – que ainda não me parece ser um ecossistema – encontra-se perante um dilema estratégico, pois as dinâmicas eleitorais até à data seguidas esgotaram-se, pois nem as sondagens as abençoam nem depois os resultados no hemiciclo são satisfatórios.
Resultado, observado de um modo extremado: basta uma Moody’s ou uma Fitch espirrarem, para citarmos episódios recentes, e a direita orgânica parlamentar fica numa camisa-de-forças empurrada para o negocismo ou os tais “consensos moles”.
Por essa razão de esgotamento, parecem desenhar-se à direita duas opções “teóricas”:
a) uma de presidencialização do regime, através da alavancagem do lugar da presidência da república e da promoção de uma revisão formal ou de facto dos equilíbrios do semi-presidencialismo em nome da garantia de governabilidade (liberta das guerras intestinas parlamentares e da sua fragilidade, mesmo quando há maiorias), e
b) outra de presidencialização do lugar de primeiro-ministro através de um forcing eleitoral em tons plebiscitários de “salvação nacional” que projecte uma figura à direita com carisma e dinâmica que subalternize ou neutralize o PR e alcance uma maioria absoluta parlamentar meramente instrumental para um projecto de longo prazo, cujos contornos poderão ir emergindo.
No meio desta matriz, poderemos admitir soluções de interlúdio: o chefe de partido serve de batedor para a presidencialização, ou o batedor larga o papel subalterno e liberta-se do “chefe”, a criatura ganha vida própria. Por exemplo, se o PR ganhador não for um compadre.
Neste último caso, a presidencialização do lugar de primeiro-ministro pode fazer-se por um confronto sistemático, orgânico e inorgânico, institucional e de rua, contra o PR.
Qualquer uma das duas vias acarreta trade offs para várias parcelas da direita orgânica. Emagrece-lhes o papel parlamentar, atrofia a possibilidade de crescimento das franjas, manda às urtigas o reformismo negociado ao centro ou o liberalismo tecnocrático. Carrega uma enorme incerteza face à radicalização das divisões no país. Tem, por isso, vários anticorpos.
Já experimentámos, no passado mais longínquo do regime republicano, as duas opções mas no contexto do putchismo e do golpismo da época: com o sidonismo presidencialista e depois com a presidencialização de primeiro-ministro findo o casting para ditador. Mas os anos entre 1915 e 1933 eram outros tempos (pelos quais não vou entrar). Não repetíveis.
A direita tem, pois, o desafio de romper com o overstretch actual e de fazer opções que, se concretizadas, abalarão o regime nesta década.
O risco de presidencialização do regime foi colocado por Manuel Alegre com clareza e como razão inclusive da sua candidatura.
A situação do país, entretanto, agravou-se por efeito da “colagem” do país ao caos grego por parte do wisdom dos meios financeiros internacionais, particularmente americanos e londrinos, de alguns políticos europeus interessados em esmagar as periferias e dos implacáveis movimentos de especuladores.
A somar aos riscos de colapso social em zonas do país, ao crescimento do desemprego e das falências, às dúvidas sobre a retoma e às incertezas sobre o risco de uma recaída, a balbúrdia política com momentos de verdadeira antologia de “choldra” criou uma psicologia estridente de descamisados (só que, neste caso, com logótipos Armani e similares).
Foi um processo galopante nestas últimas semanas que mudou a percepção da situação a muita gente à direita e no centro-direita. Deu forma à tal mancha de óleo, naturalmente ajudada por um clímax de “casos” internos que minam os intestinos da esquerda governante.
Parte II – Do social-financismo
Estou em crer que o problema do desenho do regime é mais uma preocupação da direita do que da esquerda democrática.
A direita está pelos cabelos com a “alternância”, com a necessidade de disputa de eleitorado ao centro (umas centenas de milhar que bailam em todas as eleições).
A direita cansou-se das alternâncias entre ciclos de semi-presidencialismo “de pendor governativo reforçado” (com maiorias absolutas de um só partido, PSD ou PS, ou de uma coligação de próximos à direita quer para o PS como para o PSD) e de “pendor parlamentar” (quando há governos baseados em maioria relativa e com necessidade de negociar adhoc na AR, até ao extremo “limiano”, como foi o caso do PS, ou o em curso negociando abstenções), para usar uma distinção (muito discutível) formulada por Carlos Blanco de Morais.
A direita está farta de aturar a clivagem “sociológica” do país entre os costumes e o simbólico à direita e os costumes e o simbólico à esquerda. A direita acha que chegou ao fim a necessidade de ter de repartir o bolo da alta finança e da alavancagem do ecossistema económico em torno do Estado com a esquerda governante. Por isso, as rupturas vocais contra o “socialismo”, quer de radicais de direita como de liberais tecnocratas, procurando isolar o “centrão”.
Por isso, para a direita, o problema do desenho do regime é crítico. Terá de conseguir a sua reengenharia por vias não-putchistas, que isso do putchismo mesmo cosmetizado no quadro da União Europeia é tecnicamente uma impossibilidade legal.
É outro o problema à esquerda
Para a esquerda, a questão não é tão pertinente. Retirando, naturalmente, as franjas que sonharão com a alavancagem do lugar institucional da presidência, não ao estilo chávista (um prec desse tipo não tem por cá horizonte), mas que vá para além da magistratura de influência (à la Soares) ou mesmo da magistratura transversal apoiada na reconstrução de um simbólico para Portugal (como parece ser o desenho que andará na cabeça do candidato Alegre).
A esquerda democrática contenta-se, por isso, com o desenho das maiorias absolutas parlamentares e, sempre que possível, da bicefalia monocolor governo-presidência. No quadro democrático, o semi-presidencialismo é um palco de optimização da acção política da esquerda democrática.
De uma esquerda democrática que não vislumbra, à escala nacional, condições de um “compromisso histórico” com a sua esquerda de inspiração totalitária e que, ainda, não dispõe, no mercado político, da possibilidade de encontrar ao centro–direita um partido mais pequeno que seja proxy. Evitando a tradição soarista de recurso do negocismo com o CDS.
O problema para a esquerda democrática (ED) é, por isso, do ponto de vista do médio prazo, outro. Outro bem mais sério que o de (re)desenho de regime.
O embeded no social-financismo
O problema para a ED é o seu enrodilhamento, o seu embeded, no social-financismo (problema que comecei a abordar aqui), na tendência galopante e vitoriosa da segunda vaga de financeirização global desde os anos 1970.
A financeirização significou, nos países OCDE, o triunfo de um ecossistema de maximização de rendas sobre as dinâmicas da economia real, incluindo a economia empreendedora do discurso da “terceira revolução industrial” (dos anos 1990, em que tecnocratas e liberais à esquerda e à direita sempre se reviram), do empreendedorismo da Nova Economia ou da economia do conhecimento, ou, mais recentemente, da esperança na “quarta revolução industrial” do verde como alavanca da retoma.
Esta financeirização significou ganhos para uma parte da economia (a dos rentistas) e uma perda sistemática global da capacidade de crescimento (as taxas de crescimento médio decenais estão em plano inclinado em toda a OCDE).
Aos socialistas, de tradição social-democrata reformista, ideologicamente revisionista (em relação ao socialismo marxista e depois leninista), tem-se-lhes imposto um caminho surpreendente desde 1891. Mário Soares inovou, nos anos 1970, ao perceber avant la lettre que esse socialismo histórico reformista, ainda com muito simbólico do socialismo original (que ainda hoje transparece na nossa própria Constituição) tinha de ser posto na gaveta.
Mas o problema não era só simbólico e de uma prática governativa eficaz (face à bancarrota cambial que se temia então e que trouxe o FMI a Portugal). Era um problema de ecossistema também. Durante muito tempo, o socialismo reformista e o centro-direita viveram da herança do sector empresarial e financeiro do Estado (SEE) herdado do prec, desenvolveram uma base de apoio tecnocrática de managers públicos, quer de base engenharial quer financeiros.
O SEE foi emagrecendo o seu peso ao longo de vários governos nos anos 1980, e sobretudo após a adesão à CEE. E a plataforma, o ecossistema de vida de uma burguesia e pequena burguesia de esquerda e de centro, teve de reconstruir-se. O centro reajustou-se, então, rapidamente – foi para o business privado em força e já, mais do que a esquerda socialista (esta viveu mais do business do lóbi da advocacia).
O surpreendente
A reconstrução foi a emergência de um ecossistema que, paradoxalmente, ironicamente, surpreendentemente, a esquerda democrática consolidou, mais do que a direita e o centro-direita, que, após a queda do cavaquismo, esteve episodicamente (e quase em estilo de opereta) na governação.
O ecossistema que se gerou, em pleno boom da financeirização dos anos 2000 (após o crash do Nasdaq e da recessão americana e europeia de 2001/2002), mistura três ingredientes básicos:
a) a alavancagem do que resta no sector financeiro (a operação BCP é hoje um case study) e nas golden share e participações em empresas cotadas;
b) o entrelançamento com todo o business privado que vive da despesa pública, não só do consumo intermédio como do investimento de iniciativa pública (quer do famoso PIDDAC como das PPP);
c) uma entente com uma parte da alta finança, entendida esta num sentido amplo, mais do que estrito, incluindo sectores oligopolistas como a distribuição, e outros sectores rentier, como o imobiliário.
De facto, e verdadeiramente assombroso, é que este ecossistema, típico de uma gestão “económica” simbolicamente de direita, emergiu, tijolo a tijolo, com uma gestão de esquerda.
A árvore e a floresta
É este ecossistema que está na base de muitos “casos”, como caldo não só de cultura (de estilo de governação), como própria plataforma prática de muitas decisões ou de “fixações” (para usar parte da expressão elegante de António Vitorino).
Discutir “casos” – sejam nos media, ou noutros sectores menos na ribalta ultimamente – como árvores fora da floresta é um bom entretimento para a chicana política e extraparlamentar.
Mas não é o essencial – a prova material dos “casos” é um processo que exige rigor, em alguns casos será mais fumo do que fogo, noutros as comadres ainda nem se zangaram para que as verdades venham ao de cima.
E, sobretudo, não pode ser deixado na rua, ou muito menos ao fogo dos media (onde o direito à desobediência civil por razões superiores de interesse público não é líquido que esteja a seguir regras deontológicas em todos os intervenientes) ou ao prec da direita descamisada Armani e botox. Atropelos aos princípios básicos do funcionamento de um Estado Direito são proto-ditadura. Julgamentos por descamisados (mesmo que de estilo Armani ou com botox) são proto-totalitarismo; gangsterismo político.
Ora com a Grande Recessão iniciada em finais de 2007, todo este edifício da financeirização está em apuros. Por pressão da própria depressão económica (desemprego galopante, manchas do país em pré-colapso social), por efeito da incerteza que continua a pairar (recaída/retoma?), pela rápida adaptação da alta finança (veja-se o que se passa nos EUA, uma dor de cabeça para Obama), enfim pelo cansaço e pela revolta da Main Street, e, finalmente, pela crise ligada à percepção de que há um risco na dívida soberana em muitos países OCDE (em que um dos sinais são esses malditos credit default swaps).
O ecossistema do social-financismo está em overstretch. Não tenham ilusões, senhores do spin ou gabinetes.
Andamento final
A esquerda democrática tem, por isso, um dilema estratégico:
a) continuar a manter o ecossistema, limitando os danos, conservando os seus símbolos e o seu estilo de governação, dando campo à imaginação dos spins e ao contorcionismo dos políticos, tentando manobrar dentro da chicana política; ou
b) fazer, também, ela uma ruptura com o desenho de equilíbrios na economia, diminuindo drasticamente o peso da lógica rentier, retirando o Estado, de vez, das tentações da economia (e, neste campo, retirando espaço, por antecipação, à própria direita radical e liberal), e focalizando-se na Main Street.
A primeira opção tem custos enormes – a continuação da degradação e da fragilização da actual solução até à queda final. Cenário que já não é cenário.
A segunda exige coragem política. Tem custos também para todos os que vivem da mama do actual ecossistema.
O futuro da esquerda democrática como solução de governação joga-se nesta década. A seguinte poderá trazer desafios ainda mais complexos. Mas isso sai fora do problema actual da doença do social-financismo. Extirpem-na se querem sobreviver politicamente.