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Depois de ter visto bloqueadas politicamente desde 2004 aquisições de empresas de mineração de recursos e energéticas no Canadá, Estados Unidos e Austrália, uma empresa chinesa avança com a primeira operação hostil sobre uma firma ocidental. A Jilin Jien, da área do níquel, quer comprar a Canadian Royalties, que tem em banho-maria um projecto no norte do Quebeque por falta de financiamento devido à crise de crédito.

Na própria semana em que Jim Flaherty, o Ministro federal das Finanças do Canadá, visita a China para namorar os fundos soberanos e as colossais reservas de 2,1 biliões (triliões, na designação amglo-saxónica) de dólares de Pequim, a Jilin Jien Nickel Industry, da área do níquel, através da sua participada Jien Canada Mining, resolveu avançar com a primeira aquisição hostil da história recente da expansão internacional das novas multinacionais chinesas.

O alvo foi a Canadian Royalties, também da área do níquel, que tem um projecto baptizado Nunavik por financiar, devido à crise, no Quebeque, precisando urgentemente de 500 milhões de dólares (mais de 350 milhões de euros). A Jien oferece 148,5 milhões de dólares canadianos (96 milhões de euros) aos accionistas da firma canadiana, mantendo a oferta aberta até 15 de Setembro.

A Jilin Jien é uma firma estatal cotada na bolsa de Xangai desde 2003 localizada na cidade de Jilin, no nordeste da China. A firma chinesa conta com um parceiro canadiano, a Goldbrook Ventures, de Vancouver, para a operação, tendo formado a Jien Canada Mining. O parceiro canadiano dispõe de uma vasta área de prospecção no norte do Quebeque, na mesma região onde actual a Canadian Royalties, e onde está localizado o projecto Nunavik.

Grandes operações anteriores junto de firmas mineiras “ocidentais” foram, por razões políticas, bloqueadas, como aconteceu em 2004 com a tentativa de aquisição da canadiana Noranda pela China Minmetals, em 2005 com a oferta amigável de compra da Unocal americana pela China National Offshore Oil Corp (conhecida pela sigla CNOOC), e mais recentemente com a operação, também amigável, de aquisição da Oz Minerals australiana pela China Minmetals e com a tentativa de acordo entre a Chinalco e a Rio Tinto de Melbourne (que levou inclusive à retaliação chinesa prendendo quatro executivos da empresa australiana em Xangai).

Apesar de tudo têm ocorrido, recentemente, ou estão em curso algumas operações concretizadas ou concretizáveis no sector dos recursos energéticos em terras “ocidentais”.

O fundo soberano chinês China Investment Corp (CIC) adquiriu, no mês passado, uma participação significativa (17,2% das acções e 6,7% dos direitos de voto) na Teck Resources canadiana, uma grande firma dos minérios sediada em Vancouver. Por outro lado, a China Petroleum Corp, em Junho, acordou comprar a Addax Petroleum Corp, com sede em Genebra, por um montante de 7,6 mil milhões de dólares, considerada a maior compra feita até hoje no estrangeiro.

Já este mês (Agosto), a Yanzhou Coal Mining acordou comprar a australiana Felix Resources (por 2,9 mil milhões de dólares) e a Sinochem Corp (através da Sinochem Resources UK) propôs-se comprar a inglesa Emerald Energy PLC (por 532 milhões de libras, cerca de 615 milhões de euros) para adquirir poços petrolíferos na Síria e na Colômbia. Especula-se que a China National Petroleum Corp (CNPC) chinesa estará interessada em adquirir à Repsol espanhola a YPF argentina.

Desde Dezembro, só as empresas chinesas da área dos recursos energéticos já investiram no estrangeiro – em países em desenvolvimento, como em desenvolvidos – 13 mil milhões de dólares. A estimativa para o ano 2009 cifra-se em 43 mil milhões, quase 50% mais do que no ano passado!

Alguns analistas concluem, no entanto, que a China, com a operação hostil no Canadá, poderá estar a alterar a sua táctica no quadro da estratégia “go global” no plano geoeconómico. Os chineses compreendem que a janela de oportunidade criada pelas desvalorizações bolsistas e pelas descapitalizações provocadas pela crise financeira nas empresas “ocidentais” é o momento ideal. Não podem, por isso, perder tempo.

O total dos pacotes anticrise americanos desde Dezembro de 2007 com verbas em aplicação já soma mais do que todas as grandes intervenções públicas anteriores desde o New Deal dos anos 1930. É a maior intervenção ‘keynesiana’ de sempre na história americana.

Já somaram 4,2 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica, cerca de 3000 mil milhões de euros) as 34 intervenções públicas anticrise realizadas nos Estados Unidos desde Dezembro de 2007 pela Reserva Federal (banco central, FED), pelo Tesouro (equivalente ao Ministério das Finanças na orgânica da Administração americana), pelo FDIC (Federal Deposit Insurance Company, agencia criada pelo Congresso para assegurar os depósitos e supervisionar o sistema financeiro) e pela entidade federal para a área da habitação (Federal Housing Administration), segundo dados do analista Barry Ritholtz. Trata-se da verba já em aplicação e não da autorizada que poderá atingir os 12,8 biliões de dólares (equivalente a 90% do PIB anual americano e a 70% do PIB anual da União Europeia).

2ª Guerra Mundial custou menos

Este total já em curso é superior à soma de todas as grandes intervenções financeiras (monetárias e orçamentais) públicas realizadas pelo Estado americano desde o New Deal dos anos 1930 (excluindo a intervenção na 2ª Guerra Mundial). Os oito maiores pacotes e programas americanos desde o New Deal somam 3,7 biliões de dólares em valores corrigidos da inflação (ou seja comparáveis com os gastos actuais), em que o mais volumoso foi o programa da NASA (uma soma acumulada de 851 mil milhões de dólares), logo seguido do custo da guerra do Vietname (698 mil milhões de dólares). O próprio custo de intervenção americana na 2ª Guerra Mundial – 3,6 biliões de dólares, a valores actuais – foi inferior à intervenção anticrise actual.

Em termos de comparações de políticas anticrise, os casos do New Deal (conjunto de programas anti-Depressão da Administração de Franklin D. Roosevelt entre 1933 e 1937), que envolveu 500 mil milhões de dólares (a valores actuais), e do pacote de intervenção na crise da falência em série de 745 caixas de depósitos e crédito americanas (conhecidas por S&L – savings and loan) entre 1986 e 1995, que implicou 256 mil milhões (a valores actuais), são anões face aos 4,2 biliões actuais.

Os principais itens da actual intervenção centram-se no 2º Pacote de estabilização lançado pelo Tesouro (2009) na ordem dos 787 mil milhões (mais do que o custo da Guerra do Vietname), no Troubled Asset Relief Program (TARP) lançado por George W. Bush e pelo secretário Paulson em Outubro de 2008 envolvendo 599,5 mil milhões (mais do que o New Deal) e na Term Auction Facility da Reserva Federal implicando 468,6 mil milhões (mais do que o custo da Guerra da Coreia) lançada em Dezembro de 2007 face à crise do subprime.

A 9 de Agosto de 2007 um comunicado de imprensa, no mínimo estranho, vinha a público. O banco francês BNP Paribas comunicava ter congelado três fundos por impossibilidade de valorizar investimentos titularizados num veículo financeiro completamente desconhecido dos comuns mortais. De quem era a culpa? “Da completa evaporação da liquidez de certos segmentos do mercado de titularização americana”, dizia-se no comunicado.

Repentinamente o mundo era apanhado de surpresa por uma palavrão financeiro que emergia do escuro das salas dos corretores: sub prime. Rapidamente se tornou tema de conversa de café. Contudo o índice Dow Jones continuou impavidamente o seu frenesim altista…até que se deu, de novo, o improvável no casino: um crash bolsista a 16 de Outubro. Soube-se, depois, com o atraso de um ano, que os Estados Unidos haviam entrado, também, em recessão (contracção da economia) em Dezembro daquele ano.

O povo comum – quer os ‘capitalistas populares’ quer os outros que não vivem nem de um cêntimo de rendas financeiras – foi fazendo uma aprendizagem dolorosa ao longo de 2008: de um discurso monetarista dominante para um súbito acordar com todos os governos, a começar por Washington (então nas mãos dos republicanos), a gritar que “todos somos keynesianos” iniciando logo em Janeiro um rol de pacotes de “estímulos” para evitar o ‘risco sistémico’ (outro palavrão a que nos habituámos); de uma ainda “provável” crise global acompanhada de uma inflação galopante até Julho dos preços das commodities, a começar pela mais sensível de elas todas para a nossa vida do dia-a-dia, o petróleo, para uma crise a sério com perigo de deflação endémica; de mero crash bolsista evoluiu-se para pânico depois da falência do Lehman Brothers a 15 de Setembro e passou-se a ouvir falar de algo esquisito, credit crunch, à letra, esmagamento do crédito, em suma, redução abrupta da disponibilidade para emprestar no e pelo sistema bancário. Resultado: todo um modo de financiamento da economia financeira e da economia real ruiu.

E quando, em pleno Verão deste ano, já nos habituávamos à crise – com coisas incríveis como a falência de um estado, a Islândia, as quedas do pedestal do ‘tigre’ europeu mais endeusado, a Irlanda, ou da construtora de automóveis (esse símbolo do século XX) mais famosa do mundo, a GM, ou o eclipsar de um grupo de notáveis que mandavam no mundo (ou julgavam que mandavam), o G7 – eis que a Goldman Sachs nos vem dizer que a euforia bolsista está de volta, que o crash terminou (o segundo maior da história do Dow Jones segundo as estatísticas), e os políticos juntam a voz a animar-nos que já batemos no fundo, a recessão já passou.

Suspiremos, então, de alívio – antes que os aborrecidos dos pessimistas nos venham dizer que pode haver uma recaída económica, que a bolsa pode apenas estar a viver uma corrida repentina, e que o pior em termos de economia real (falências em série), impacto social (desemprego de longa duração) e monetário (colapso do dólar) ainda está para se sentir.

Mas antes que tudo passe sem termos tempo para parar para pensar, convirá, neste aniversário, alinhar três primeiras hipóteses de conclusões sobre estes dois anos.

1- A vingança do mercado sobre a teoria da “grande moderação”

Durante vinte anos os teóricos da economia convenceram-nos que vivíamos num “mercado eficiente” (de qualquer modo, tinham-lhe colado a etiqueta de “hipótese”—no economês técnico, Efficient market hipothesis) e os práticos – os banqueiros centrais e os governantes – brincaram com a “fantasia” (no dizer do economista L. Randall Wray) de que a política monetária conseguiria uma “grande moderação” dos ciclos, permitindo um crescimento consistente permanente, com a minimização das recessões na economia real e dos estragos em bolsa.

No dia-a-dia, os maestros (como Alan Greenspan, o antigo presidente da Reserva Federal americana) e os homens do leme (os governantes) engendraram várias «bolhas» financeiras sucessivas desde os anos 1980, de que as mais célebres andaram em torno dos hedge funds, depois com as tecnologias digitais (a famosa onda dot-com) e finalmente com o imobiliário.

O ‘pai’ do monetarismo, Milton Friedman, um ano antes de falecer e dois anos antes de rebentar o subprime, ainda elogiava “a experiência natural” com êxito que havia sido a gestão monetária desde os anos 1990 nos EUA (e que serviu de modelo para o resto dos banqueiros centrais). O artigo no Journal of Economic Perspectives (volume 19, nº4) ainda fez furor em 2005. Na realidade, a teoria e prática da “grande moderação” tinha gerado um “consenso monetário” que dominou à direita e à esquerda governantes na OCDE.

Friedman seria poupado à vingança do mercado, que como uma mão invisível colocou um ponto final na fantasia. E essa estranha “mistura” de monetarismo e keynesianismo bastardo que nos governou soçobrou.

E Alan Greenspan, o Maestro, tentou passar como um camelo pelo buraco de uma agulha, aconselhado, aliás, por um spin doctor, o consultor de relações públicas David Dreyer. Quando foi interrogado pelo Congresso em Outubro de 2008 (já depois do choque do tsunami provocado pela falência do Lehman em Setembro), Greenspan admitiu um “erro” (que nós ingénuos ouviremos sem pestanejar): “Cometi o erro de presumir que o interesse próprio das organizações, sobretudo dos bancos e outros, era tal que seriam capazes de proteger os seus próprios accionistas e os activos das suas firmas”. Rematou que estava “chocado” com o que sucedera e concluiu com ar modesto: “Ainda não compreendi totalmente porque aconteceu”.

O presidente do Comité do Congresso, o democrata Henry Waxman, no entanto, apertou-o: “Por outras palavras, descobriu que a sua visão do mundo, a sua ideologia não estava certa. Não funcionava”. A que Greenspan, o sofrido penitente, respondeu: “Precisamente. É essa a razão, justamente, porque estou chocado, porque vivi quarenta anos ou mais com a evidência considerável de que estava a funcionar excepcionalmente bem”.

Ora este “erro” custou-nos a todos nós muito caro. É claro que beneficiou todos os que adoraram o “erro” do Maestro.

2- O capital financeiro não está imunizado

Os historiadores económicos vão recordar os últimos trinta anos como a era da ‘financeirização’ (mais um palavrão derivado do inglês financialization) ao extremo da economia mundial e em particular das economias da OCDE.

Um indicador que é usado, o do peso dos activos financeiros no PIB (financial deepening, no jargão técnico), revela que, em média, os países desenvolvidos, antes do rebentar da crise em 2007, andavam na casa dos 500%, com exageros como o da Irlanda nos 900% ou do Reino Unido ou França nos 700% – na verdade muito mais do que os EUA (o “pai” da inovação financeira nos últimos vinte anos graças aos boys da Wall Street).

Por cima das teorias económicas, emergiu, assim, uma expansão jamais vista de um sistema baseado na maximização de rendas financeiras (alguém já deu dele esta imagem: “uma enorme parada de angariadores de rendas” [Akerlof e Shiller, Animal Spirits, 2009], um sistema viciado nos fees a todos os níveis e em todos os nichos e segmentos possíveis) e um capitalismo financeiro pujante como já não se via desde os finais do século XIX e inícios do século XX quando o economista Rudolf Hilferding baptizou a nova realidade capitalista de “capital financeiro” (e deu título a um livro que desde 1910 se tornou famoso).

A memória dos super-pânicos e das grandes crises financeiras foi-se apagando (1873 foi no tempo dos nossos bisavós ou trisavós e 1929 no tempo dos nossos avós ou bisavós) e gerou-se a ideia de que o capital financeiro estava imune a crises globais. Os sinais dos anos 1980 e 1990 foram menorizados – eram coisas localizadas (ou num só país, como o Japão, ou nos desgraçados países do terceiro mundo, ou focalizados num segmento muito específico da finança como os hedge funds ou as tecnológicas).

Apenas um economista, iconoclasta, remava contra a maré. Com um nome estranho, Hyman Minsky, dizia que o capitalismo financeiro sofria do mesmo mal do capitalismo industrial (que Karl Marx havia analisado), tinha a instabilidade e a fragilidade inscrita no seu ADN. Não estava imune a crises globais e sistémicas. Assim se está a ver.

Mas Minsky (que faleceu em 1996) disse ainda outra coisa perturbadora: o capitalismo financeiro vive de se alimentar de ‘bolhas’ como os vampiros de sangue. Sempre que a oportunidade surge (nomeadamente com legislação favorável) rapidamente se adapta como uma espécie darwiniana, e renasce das cinzas.

Não admira, por isso, que, mesmo, agora, no meio do maior desencanto público em relação ao capital financeiro, ele explore o nicho de um ‘keynesianismo bastardo’ estatal (quer no Ocidente como na China) e amanhã possa reviver com a ‘bolha’ seguinte alavancada em algum sector tecnológico (já se começaram a aceitar apostas)… até que a crise financeira regresse.

3- A geopolítica está sempre a surpreender-nos

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a morte do G7 (o ‘clube’ dos sete países considerados os mais ricos do mundo, criado em 1976) ou a hipótese de contestação do papel internacional do dólar norte-americano. Esta crise trouxe como prendas geopolíticas a ascensão do G20 (o grupo de 20 países que reúne 80% da economia mundial), e em particular a afirmação política do ‘clube’ dos quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), bem como o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

A liquidação do papel do G7 (que associou a Rússia desde 1997 nas cimeiras de chefes de Estado, tendo passado a ser designado por G8) ficou particularmente visível depois da cimeira em L’Aquila, Itália, de 8 a 10 de Julho passado. Pouco depois, a 16 de Julho, em Yekaterimburgo, na Rússia, os BRIC realizariam a sua primeira cimeira oficial a pretexto da crise. A próxima cimeira está prevista para o Brasil em 2010. Em apenas oito anos, os BRIC passaram de uma criação literária da Goldman Sachs projectada como nova geografia do poder económico para depois dos anos 2020 para uma realidade política que aproveitou a oportunidade desta crise inesperada.

O mundo deixou de poder ser analisado pela lente do “unipolarismo” (a tal hegemonia a solo dos Estados Unidos reforçada desde a implosão da União Soviética) ou pela divisão entre “globalizadores” e “anti-globalizadores”. O Planeta é algo bem mais complexo.

O académico Joseph Nye ainda, recentemente, aconselhava a “ler-se” a geo-economia e a geopolítica como se fossem um jogo de xadrez tridimensional. Ao nível de topo, o poder militar (o tal hard power decisivo para a projecção de poder) entre grandes potências continua a ser unipolar (os EUA continuam, ainda, a liderar a larga distância); no patamar do meio, das relações entre grandes economias, o mundo é hoje claramente multipolar e tem-no sido desde há uma década; ao nível mais baixo, das relações transnacionais, a globalização trouxe um resultado inesperado, um poder caoticamente distribuído e difuso onde se movem múltiplos actores não-estatais.

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a hipótese de contestação pública do papel internacional do dólar norte-americano.

Esta crise trouxe como uma das prendas geopolíticas o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

O subir de tom em relação à divisa americana surgiu por ocasião da mais recente reunião (Abril 2009) do G20 (o grupo que reúne os países considerados mais ricos agrupados no G7 e um vasto grupo de países emergentes ou intermédios).

Os BRIC (o clube dos três grandes emergentes, Brasil, Índia e China, e da Rússia, a ex-superpotência procurando reemergir) juntaram a voz em relação aos riscos que o sistema financeiro mundial hoje defronta ao continuar a estar baseado no dólar desde os acordos de Bretton Woods em 1944. Esses quatro países detêm 42% das reservas internacionais, o que significa hoje em dia que uma fatia considerável das reservas mundiais está fora do G7.

A futura estrela ascendente: os SDR

Os críticos do dólar temem o colapso desta divisa e o tsunami que desencadeará e avançam com uma solução de dar mais peso progressivo no comércio internacional e no sistema financeiro mundial aos direitos especiais de saque (SDR, acrónimo para special drawing rights), uma unidade de conta do Fundo Monetário Internacional (FMI) que se baseia num cabaz de quatro divisas (44% para o dólar, 34% para o euro, 11% para o iene japonês e 11% para a libra inglesa, segundo a repartição para o quinquénio que termina em 2010).

O governador do banco central da China chegou a teorizar o assunto em Março (de 2009) provocando, momentaneamente, uma hesitação e uma gafe do novo secretário do Tesouro norte-americano escolhido pelo presidente Obama. A escorregadela do secretário americano (admitindo a hipótese chinesa como discutível) foi logo corrigida – Washington e Wall Street não estão, ainda, na onda de recuo.

O banqueiro central chinês Zhou Xiaochuan chegou mesmo a propor um “plano” de passos a tomar: o uso dos SDR na fixação de preços das commodities (que hoje estão dolarizadas); o lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; e a criação de um fundo aberto denominado em SDR.

A “lição de finanças” do governador chinês foi encarada como um testar das águas e um aviso à navegação de que a China prepara uma estratégia de fuga à armadilha do dólar em que se enredou nos últimos vinte anos.

Na cimeira do G20 de Abril passado, o FMI foi autorizado a emitir mais 250 mil milhões de dólares em novos direitos especiais de saque no sentido de aumentar as reservas daquele fundo. Vários países já anunciaram a disposição de aumentar as suas reservas no FMI, com a China na liderança, envolvendo 7,3 mil milhões de dólares, a Rússia 6,9, a Índia 4,8, o Brasil 3,5 e a Coreia do Sul 3,4. No entanto, isso dependerá da renegociação dos votos das várias grandes potências no seio do fundo. É esperado que o Japão, a China, a Índia e o Brasil aumentem o seu peso decisório.

Em contraste, a China, entre o final de 2008 e o final do Verão de 2009, segundo o grupo de consultoria francês LEAP/E2020, terá disposto de 600 mil milhões de dólares de activos denominados em dólares que aplicou em compras de activos em recursos estratégicos e empréstimos a países com acordos estratégicos um pouco por todo o mundo (exceptuando, et pour cause, os EUA) e terá abdicado de comprar obrigações do Tesouro americano na ordem dos 500 mil milhões a 1 bilião de dólares, começando a tirar o tapete aos americanos.

Situação de impasse

A situação actual é, por isso, de impasse, sublinha Jane D’Arista, uma especialista em história do sistema monetário internacional, investigadora do Political Economy Research Institute, da Universidade do Massachusetts, nos Estados Unidos.

“A incapacidade das famílias americanas continuarem a carregar o fardo de consumidor de último recurso da economia mundial, acabou efectivamente com o século do dólar”, diz a investigadora americana com algum humor. “O problema é que não há divisa que o substitua. Mas essa falência de se avançar com um novo sistema será um factor de manutenção da recessão global e de contínua vulnerabilidade a crises”, acrescenta.

Uma situação deste tipo não é nova – ocorreu nos anos 1930 com o declínio da libra esterlina. E só se resolveu com as alterações no plano geopolítico que ocorreriam nas duas décadas seguintes, recorda a investigadora num estudo que publicou recentemente no Cambridge Journal of Economics. Jane acha que a Zona Euro – que poderá ser fortemente atingida pelo colapso do dólar dada a colaterização das suas dívidas públicas – não está interessada em substituir o dólar, apesar de algumas vozes nesse sentido. “Na minha opinião, deveriam ser os próprios Estados Unidos a tomar a iniciativa da reforma do sistema”, conclui a investigadora.

O exemplo inglês vem logo à memória. Apesar da proposta de John Maynard Keynes, em representação do império britânico, ter sido derrotada em Bretton-Woods pelas manobras americanas que acabaram por impor o dólar “como Sol do sistema solar financeiro”, o famoso economista inglês foi um exemplo de tenacidade, mesmo num contexto geopolítico adverso e apesar de doente. Via Lisboa, ele viajou, desde 1941, umas seis vezes para os EUA, empolgado na sua cruzada.

Os chineses recordam hoje que, provavelmente, a proposta de Keynes de uma unidade de conta internacional (que baptizou de ‘bancor’), baseada num sistema multilateral, teria sido mais «sagaz» do que a imposição de um sistema apoiado numa divisa nacional dominante, sujeita aos ciclos e políticas dessa potência.

Uma imagem vale por mil palavras, costuma dizer-se. E, em diplomacia, provavelmente vale muito mais.

Algumas das fotos mais difundidas da recente cimeira de Washington do G 20, nos dias 14 e 15 de Novembro, falam, de facto, por si. Na foto de família, o protocolo resolveu ladear George W. Bush com os presidentes Lula da Silva, do Brasil, e Hu Jintao, da China. Como no cerimonial do poder mundial nada nasce de caprichos do acaso, o simbolismo representa, sem dúvida, a afirmação de uma nova partilha do poder mundial está em curso.

Os BRIC, um acrónimo criado pela Goldman Sachs em Outubro de 2003 para designar as quatro maiores potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China), deixou de ser «um sonho» (como intitulava o artigo da consultora de há cinco anos atrás) para passar a ser a realidade reclamada pelo próprio comunicado do G 20.

O reconhecimento, finalmente

A cimeira de Washington reconheceu que as instituições internacionais saídas do acordo de Bretton Woods de 1944 (em que se incluem o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial), para manterem “a sua legitimidade e eficácia”, têm de ser reformadas de modo a “mais adequadamente reflectirem a mudança no peso económico” das várias grandes potências.

Basta olhar para as mudanças de peso relativo (ver quadro 1) para se observar que, à excepção da Rússia (depois da dissolução da URSS em 1991), os BRIC aumentaram o seu peso relativo no PIB mundial (medido em paridade de poder de compra) nos últimos quinze anos – com destaque para a China que é hoje a terceira economia do mundo (depois dos Estados Unidos e da União Europeia) e para a Índia que ultrapassou a Rússia. Os «media», em geral, continuam a falar do Japão como terceira (ou segunda, se não se considerar a UE como um todo) economia mundial, ignorando esta mudança decisiva.

Uma guerra contra a rigidez das instituições

A «guerra» geoeconómica de afirmação dos BRIC joga-se em vários tabuleiros e o jogo de ganhos e perdas vai observar-se ainda durante este ano e seguramente no próximo, com uma «batalha» importante na nova cimeira do G 20 marcada para 30 de Abril de 2009.

Ainda este ano, há que acompanhar com atenção o que irá decorrer no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Com base na trégua de um ano acordada, agora, em Washington para evitar decisões políticas de proteccionismo em matéria de investimentos e comércio internacional, a Ronda de Doha vai ser ressuscitada a 10 de Dezembro. Como se sabe foi a dupla China-Índia que abortou a conclusão da Ronda em Julho passado e a Índia já havia boicotado as negociações finais em Julho de 2006 na cimeira de Genebra daquela reunião ministerial.

A incógnita é saber se o grupo informal do G7 criado em 1976 (EUA, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Japão, ou G8, incluindo a Rússia) será definitivamente arrumado no armário do pós-guerra e se um fórum mais “actualizado” surgirá.

A actual crise financeira mundial, e a manifesta incapacidade desse grupo lidar com ela, parece abrir caminho a que essa seja “a primeira rigidez do actual sistema internacional a ser removida”, diz-nos Thomas Bobinger, um jovem especialista alemão em legislação e política de segurança internacional, que trabalha no Instituto Alemão de Direitos Humanos, em Berlim, e que estudou recentemente o papel dos BRIC no novo xadrez do poder, aplicando a teoria dos ciclos de potência nas relações internacionais, em particular a metodologia do projecto «Correlates of War», da Universidade do Michigan.

Inclusive não será de descartar a hipótese da crise financeira «acelerar» o desenvolvimento de algumas tendências de mudança do xadrez geopolítico e geoeconómico.

Uma cimeira dos BRIC poderá realizar-se em 2009 na Rússia, segundo uma proposta que terá sido discutida entre o presidente brasileiro e o russo na recente visita deste último ao Brasil em Novembro.

Uns mais iguais do que outros

Nesse tabuleiro, estão, também, naturalmente as questões de geopolítica, que se prendem com os novos lugares permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Thomas Bobinger, que avaliou as pretensões do designado G 4 (Brasil, Japão, Índia e Alemanha) para se juntar aos cinco permanentes (EUA, Reino Unido, China, França e Rússia, que têm direito de veto), verificou, no seu estudo, que entre os quatro BRIC há uns mais iguais do que outros.

Um dos factos curiosos que Bobinger sublinha, desde logo, é que entre os cinco permanentes das Nações Unidas, apenas a China é uma grande potência em ascensão nos últimos trinta anos, tendo-se assistido ao declínio moderado dos EUA e muito acentuado dos outros três.

Por outro lado, entre os quatro BRIC nota-se uma discrepância, em termos de poder relativo, entre a China – cujos gastos de Defesa a colocam hoje em número dois em termos de peso mundial e com uma grande margem de crescimento em termos de parcela do seu PIB (ver quadro 2) – e os outros três grandes emergentes.

Acresce que a China é, desde Setembro, o maior credor dos Estados Unidos, tendo ultrapassado o Japão: “A China é o banqueiro americano”, diz Fareed Zakaria. Salvas as devidas proporções, algo que faz recordar o momento em que os Estados Unidos se tornaram o principal credor da Inglaterra, então a potência incumbente.

O elo mais crítico

O caso mais problemático, entre os BRIC, é o da Rússia. A sua quebra de poder relativo desde a «perestroika» é abissal – a Rússia caiu em 1998 para 1/3 do poder da antiga superpotência e, apesar da recuperação económica, política e militar com o consulado Putin e de ter um Índice de Desenvolvimento Humano superior aos outros três (ver quadro 3), o seu poder relativo é hoje, ainda, inferior ao da China e, segundo alguns, ao da Índia em termos de curvas de potência.

Bobinger aconselha, por isso, um acompanhamento da trajectória daquele país euro-asiático. Um dos cenários é de um maior risco de turbulência mundial poderá vir, no médio prazo, do desfasamento entre a imagem de poder que as elites russas reclamam que devem voltar a ter (uma hipótese a seguir é avaliar se a Rússia quererá eventualmente restaurar o lugar num núcleo restrito de superpotências, eventualmente uma «troika» com os EUA e a China) e a realidade do poder objectivo (económico, militar e político) que conseguirão alcançar com base no Plano Medvedev até 2020 apresentado em Setembro passado.

Recordemos alguns objectivos desse plano: estado de prontidão permanente; corrida tecnológica no armamento; superioridade aérea; dissuasão nuclear de novo na ordem do dia; militarização do espaço; posicionamento em nichos geográficos no mundo – saltam à vista as Caraíbas (as recentes manobras no Mar das Caraíbas da operação ‘Venrus 2008‘ com a participação de quatro barcos russos a seguir à visita de Medvedev a Caracas em Novembro de 2008 são um primeiro exemplo) e, em geral, a América Latina sensível à grande potência do Norte, o Magrebe e o Árctico -; e, finalmente, o reforço em pontos estratégicos como Sacalina e Península de Kamechateca e os Mares Negro, Cáspio e Báltico.

A teoria da «ascensão do resto»

A afirmação dos BRIC levou os americanos a desenvolverem, recentemente, um novo quadro mental geopolítico em que o «unipolarismo» é substituído pela aceitação de uma situação «multipolar» em que a superpotência incumbente se vê confrontada com “a ascensão do resto” («the rise of the rest», na expressão cunhada por Fareed Zakaria).

Esta nova análise permite manter uma ideia central: os EUA não estão em declínio como líder mundial, a sua superioridade económica e militar é ainda significativa, e os seus recursos em «soft power» são ainda enormes, apesar dos estragos de oito anos de Administração Bush. De facto, a fatia de riqueza «agregada» dos quatro BRIC (22,2% do PIB mundial em paridade de poder de compra) é ligeiramente superior à dos EUA (21,3%), mas o seu poder militar «agregado», medido pelas despesas na área da Defesa, ainda é apenas 34% do norte-americano.

Esta síntese sobre a manutenção do núcleo duro do poder mundial dos EUA é bem explicitada pelo académico Joseph Nye – o teórico da Universidade de Harvard que já referimos noutros artigos – numa entrevista à revista Harvard Business Review (Novembro 2008, rubrica ‘Different Voice’), o que o leva a considerar-se um “optimista de longo prazo sobre os Estados Unidos”.

Também o recente relatório do National Intelligence Council (NIC), intitulado Global Trends 2025, se junta a este consenso e «corrige» a visão «optimista» de 2004 em plena época de ouro de George W. Bush – esta entidade pública independente produz um relatório de quatro em quatro anos, e este é claramente uma «prenda» para a reflexão da próxima Administração Obama. Numa resposta na conferência de imprensa de apresentação do relatório, Thomas Fingar, presidente do NIC, explicitou: “Falamos em termos de poder relativo, não absoluto (…) O que sublinhamos, agora, é a ascensão do resto, mais do que o declínio dos EUA. E isto é uma boa coisa”.

Contudo, o xadrez mundial não é elástico. E se sobe o resto, tem de descer a outra parte, sobretudo num horizonte até 2025. Mas isso é extremamente difícil de visualizar pelos americanos – sobretudo, agora, com as elevadas expectativas na Administração Obama. Como nos referiu Joseph Nye: “Penso que Obama mostrou a capacidade para juntar o «hard» e o «soft» na sua estratégia de campanha, o que augura que possa fazer o mesmo numa estratégia internacional de «smart power»”. «Poder inteligente» em geopolítica é a palavra-chave de Nye, a que já nos referimos em artigo anterior e numa entrevista a propósito do seu último livro.

Esta reafirmação da confiança no estatuto de poder dominante no mundo surge, agora, em virtude das acusações de “inexperência” internacional do Presidente-eleito e de haver uma corrente que advoga abertamente – e que o reclama junto de Obama – um plano de «downsizing» do império.

Preocupante, de qualquer modo, a conclusão tirada pelo relatório do NIC: “As rivalidades estratégicas poderão surgir em torno do comércio, dos investimentos e da inovação e aquisição tecnológica, mas não podemos colocar de parte um cenário do tipo do século XIX, com corrida armamentista, expansão territorial e rivalidades militares”. E, mais adiante: “Poderão reemergir tipos de conflitos que estiveram arredados durante algum tempo – como os conflitos por recursos”. Aspectos a que já nos referimos neste blogue.

QUADROS

Quadro 1
Evolução do Peso no PIB mundial (%)
em paridade de poder de compra

em 1991 e 2007

EUA: 19; 21,3
China: 7,4; 11,5
Rússia: 3,8; 3,2
Índia: 3,7; 4,6
Brasil: 2,5; 2,9
Fonte: Banco Mundial

Quadro 2
Gastos em Defesa

Por % mundial; % do PIB nacional; Gasto por militar no activo (milhares de dólares)
EUA: 48,3; 5; 507,8
China: 8,3; 1,6; 55,5
Rússia: 5; 3,3; 53,8
Índia: 1,8; 0,9; 20,3
Brasil: 1,7; 1,4; 84,7
Fonte: SIPRI e Globalissues.org, dados em 20/02/2008

Quadro 3
Índice do Desenvolvimento Humano

Em 1990 e 2005
EUA: 0,976 ; 0,951
Rússia: 0,908; 0,802
Brasil: 0,759; 0,800
China: 0,614; 0,777
Índia: 0,308; 0,619
Fonte: UNDP, relatórios de 1991 e 2007/2008

Síntese: A surpreendente escalada geopolítica da China em 30 anos. As duas grandes potências da Ásia do Pacífico (China e Japão) dominarão 69% do sistema mundial de poder. Mas só a China terá mais poder do que a soma das duas seguintes, Estados Unidos e Japão. É uma mudança brutal. São as tendências que o investigador Dylan Kissane, da Austrália, extrapolou até 2030, a cujo trabalho inicial já nos referimos.

A actual crise financeira já levou muitos analistas e alguns políticos a falarem do ocaso da “superpotência financeira”. Com os Estados Unidos a sofrerem um «crash» severo do Dow Jones como já não se via desde 1974 e manifestando alguma desorientação na forma de lidar com o pânico e a desconfiança nos mercados financeiros, os factos parecem dar razão ao argumento do inexorável declínio americano.

Apesar de se tratar de um sinal óbvio, o investigador Dylan Kissane, da School of International Studies, da Universidade do Sul da Austrália, perto de Adelaide, recomenda alguma cautela. Mas chama a atenção para o período de vinte anos que temos pela frente. A geopolítica vai sofrer profundas alterações, algumas surpreendentes.

O facto mais relevante do estudo prospectivo de Kissane sobre as tendências de evolução no sistema mundial de grandes potências é que a China ultrapassará os Estados Unidos em poder relativo em 2015 – daqui a sete anos. E que esta potência asiática atingirá uma percentagem de poder relativo quase tão grande quanto a soma do poder das duas grandes potências seguintes, os EUA e o Japão. É, de facto, uma mudança brutal.

A reemergência da Ásia

A viragem do eixo do mundo para o Oriente não é novidade. O economista Angus Maddison divulga, desde há anos, cenários que referem que, em 2030, a Ásia dominará 53% do PIB mundial – com a China representando 24%, a Índia 10% e o Japão 3,6%. Já referimos, noutros trabalhos, o seu último livro Contours of The World Economy: 1-2030 AD (publicado pela Oxford University Press, em 2007), bem como o seu sítio na web na Universidade de Groningen.

Perante esse espaço gigante, os Estados Unidos representarão 17%, a União Europeia (ainda a 15) 13% e a Rússia 2%. No fundo, a Ásia (do Índico ao Pacífico) retomaria o seu lugar de primeiro mercado do mundo que havia ocupado desde os séculos IX (68%) ao XVIII (56%).

Contudo, a evolução em termos de PIB não se traduz automaticamente em poder geopolítico e em hegemonia, ainda que haja uma correlação que convém acompanhar de perto.

Também é de ter em conta outro facto – aparentemente paradoxal – de que uma grande potência pode ter um poder geopolítico muito superior ao seu poder económico. Portugal foi, aliás, um caso paradigmático no século XVI – detinha apenas 0,2% do PIB mundial mas dominava o comércio global da época e era a superpotência marítima. O mesmo se passaria com a Holanda no sec. XVII (1,1% do PIB mundial), a potência marítima dominante. O próprio Reino Unido, no auge da Rule Britannia em 1870, detinha, apenas, 9% do PIB mundial.

A extraordinária reemergência económica da Ásia no século XXI aponta, de facto, para uma tendência geopolítica num dado sentido que os estudos de Kissane sobre os ciclos das principais potências comprovam.

As consequências seriam duas:

a) um disparo “logarítmico” do peso da China no xadrez do poder global (passa de 20% este ano para mais do dobro, 45% em 2030!), atingindo um peso desproporcionado que só o Império Britânico dispôs até meados do século XIX e os Estados Unidos episodicamente no pós-2ª Guerra Mundial até meados dos anos 1950; numa geração, em 30 anos, a China triplicaria o seu peso relativo na geopolítica;

b) e uma subida contínua de peso geopolítico do Japão (passa de 17% actualmente para mais de 20%), que, aliás, se tem observado desde os anos 1950, apesar das suas dores económicas desde os anos 1990 e do seu peso no PIB mundial ser muito inferior ao da China, EUA e Europa. Em 2030, o Japão aproxima-se, surpreendentemente, do poder dos EUA, nesta simulação de Kissane.

O declínio americano numa perspectiva longa

A subida dos dois gigantes asiáticos, a par de uma muito ligeira queda do peso dos Estados Unidos (que se manteria, entre hoje e 2030, em torno dos 25% de peso mundial), significa que o ganho asiático não se faz à custa de um futuro dramático e súbito declínio americano.

O declínio americano vem de trás, desde 1966 (quando os EUA pesavam 32%, sendo a superpotência hegemonista). Depois de uma perca de poder face à URSS nos anos 1980 – em que esta atingiria o seu pico histórico -, os EUA recuperam poder depois da implosão do império soviético, tornando-se a famosa “superpotência sozinha”. Mas voltam a declinar a partir de 2001 ainda que lenta e ligeiramente.

Mas se a China e o Japão crescem sem ser à custa dos EUA, isso significa que outras grandes potências actuais perderão, relativamente, muito poder.

Um dos casos – que pode espantar o leitor – é o da Rússia. Apesar da estratégia de Putin desde o final dos anos 1990, do actual Plano militar de Medvedev até 2020 (acompanhado de projecções de poder nas fronteiras da Europa Oriental e provavelmente nas Caraíbas, aproveitando a oportunidade criada pela Venezuela, ou mesmo no espaço Árctico, indo ao ponto de se tornar o salvador financeiro da estratégica Islândia) e da estratégia de criação de um cartel do gás (para poder manipular politicamente este mercado vital), a Rússia não voltará jamais aos 30% de poder que a URSS dispunha no pico dos anos 1980, antes de implodir, e acentuará, ainda mais, o seu declínio a partir de 2015, até se tornar um poder menor.

O ano simbólico de 2015

O ano de 2015 surge, de facto, como um momento simbólico pela convergência de diversos aspectos. A China ultrapassará em peso político mundial os Estados Unidos e o Japão passará claramente adiante da Rússia. O Pacífico, pela primeira vez, torna-se um “lago quente” com quatro grandes potências nos seus bordos – duas em clara ascensão, uma em queda acentuada e outra em declínio ligeiro.

O que poderá resultar deste ponto de convergência é, ainda, uma incógnita, sublinha Dylan Kissane. Significará essa subida ao primeiro lugar que a China abandonará a sua estratégia actual de «soft power» na projecção mundial para passar a uma opção mais agressiva nomeadamente face à superpotência incumbente. Kissane diz-nos que não: “A China não mudará necessariamente a sua estratégia. Mas, a meu ver, pelo menos até 2015, a China tem todos os incentivos para continuar a actual política mais centrada na supremacia económica, na melhoria da imagem, do que no envolvimento militar”.

O investigador radicado na Austrália ainda não introduziu sistematicamente nos seus cenários a União Europeia nem outros BRIC, como a Índia e o Brasil. O modelo com que tem estado a trabalhar é “fechado” às quatro potências referidas. Pelo que a introdução de outras potências alterará, sem dúvida, os pesos relativos, mas não modificará substancialmente as tendências.

Quanto à Europa, o seu poder geopolítico agregado rondaria, actualmente, os 17%, superior ao da Rússia, mas não o suficiente para evitar a vulnerabilidade das fronteiras orientais do continente, o que é designado pelos especialistas como «shatterbelt», ponto de embate entre potências.

Por isso, Kissane considera que a integração política e militar da Europa é a grande interrogação destas duas primeiras décadas e a única saída política para a União Europeia, se não quiser tornar-se num actor irrelevante no cenário do sistema de poder mundial em 2030.

Nota Metodológica
Dylan Kissane em artigo científico recente (“Forecasting the Storm: Cycle Theory and Conflict in the Major Power System”) explica as modificações a que procedeu nos indicadores usados pelos fundadores da teoria dos ciclos de potência, Charles Doran e Wes Parsons, no artigo de 1980 – “War and the Cycle of Relative Power”, publicado na revista American Political Science Review (nº74). Refere, também, as limitações do seu modelo de extrapolação de tendências, que aborda sobretudo a evolução de três grandes potências, China, Japão e EUA.

O indicador de risco de recessão na América quase duplicou entre Dezembro de 2007 e finais de Janeiro de 2008. Foi divulgado este fim de semana pelo Center for Research on Economic and Financial Cycles, da Universidade da Califórnia, em Riverside, no sul daquele estado americano.

O indicador do risco de recessão americana passou de um nível moderado de 27% para um alerta de 40%, com base nos dados oficiais conhecidos até final de Fevereiro. Os maus resultados das vendas de produtos manufacturados e de consumo, em quebra acentuada desde Janeiro deste ano, fizeram disparar o alerta de crise.

Aguardam-se, agora, os resultados do índice de produção industrial nos Estados Unidos relativo a Fevereiro, o que será divulgado na próxima segunda feira, 17 de Março. Caso a produção industrial tenha desacelerado significativamente no mês passado, a economia americana poderá ter chegado a um ponto de viragem e o indicador de probabilidade de crise poderá atingir os 50%.

Caso essa probabilidade de 50% se mantenha ou suba durante dois meses consecutivos, poderá ser sintoma de que a economia americana entrou em recessão, ou seja começou a decrescer em termos absolutos. O que ainda não terá ocorrido nos Estados Unidos, onde os valores de crescimento conhecidos até ao final do 4º trimestre de 2007 são ainda positivos, ainda que medíocres (abaixo de 1%).

Os economistas americanos dividem-se entre os que falam de uma situação de estagflação (ou seja, crescimento estagnado próximo de 0% com inflação em alta, como tem ocorrido) que poderá durar até final deste ano, e os que alertam para uma recessão que se poderá iniciar já no segundo trimestre do ano.

Apesar de nos «media», incorrectamente, se ter vindo a falar com alguma ligeireza de “crise” e “recessão” desde meados do segundo semestre do ano passado, essa situação ainda não terá ocorrido. O que, apesar de parecer uma nuance, tem a sua importância, porque isso significa que o pior ainda está para vir.

Alguma confusão tem sido feita entre recessão económica e «crash» bolsista. Inclusive, neste último caso, o afundamento das bolsas está ainda em alerta amarelo – um «crash» mais grave está ainda por ocorrer. O analista Peter Cohan referia, no ano passado, que o Dow Jones Industrial Average (DJIA), o índice para a principal bolsa norte-americana, necessitaria de uma «correcção» de 30% desde o seu mais recente pico em 12 de Outubro de 2007 – ora a quebra bolsita no DJIA, desde essa altura até hoje, é ainda de 17%. Ou seja, ainda vai a pouco mais de metade.

A confirmarem-se os prognósticos de risco elevado de recessão no segundo trimestre deste ano, isso significará um atestado muito claro de incompetência política à actual direcção do Banco Central americano, Federal Reserve Board (FED), a à Administração Bush. O que significará que a escolha pelo presidente do FED, Ben Bernanke, de uma política de injecção monetária massiva e de quebra das taxas de juro (que já estão em valores abaixo da inflação, ou seja o dinheiro está a ser emprestado de borla na América) não resulta. O que, aliás, os japoneses sabem desde os anos 1990, por isso se apelida tal política de “morfina japonesa”.

O resultado desta política pseudo-keynesiana tem sido o colapso do dólar face a um cabaz de divisas (entre elas o euro), o disparo dos preços (em dólares) das principais «commodities» mundiais (com destaque para o petróleo) e a exportação da inflação americana sobretudo para a Ásia e países árabes exportadores de crude (que têm as suas moedas indexadas ao dólar).

Aguarda-se, por isso, a decisão que o FED tomará a 18 de Março. Muitos analistas – a quem já alcunham de ‘galinhas keynesianas’ – “pedem” mais um novo corte de 0,5 pontos percentuais. Mas várias vozes internas, nomeadamente diversos presidentes das reservas federais de cada estado americano, começaram a opor-se a nova baixa das taxas de juro.

A taxa directora americana está nos 3%, abaixo da europeia (4%) e da inglesa (5,25%). Em termos reais, a taxa de juro americana é negativa, pois a inflação já se cifra nos 4,2%. Ou seja, o cidadão americano está a financiar, pelo menos, em 1,2% cada dólar que os bancos ou os devedores pedem emprestado.

O indicador de probabilidade de recessão em quase tempo real é mantido pela economista Marcelle Chauvet, responsável pelo Center for Research on Economic and Financial Cycles, permitindo medir com um atraso de um a dois meses a temperatura da economia americana. O modelo previu a entrada em recessão dos Estados Unidos em 2001, muitos meses antes do National Bureau of Economic Research a decretar oficialmente (ironicamente já ela estava no final).

No livro «Portugal, Pioneiro da Globalização» (editora Centro Atlântico, já à venda em Portugal), na sequência de um trabalho de investigação de Tessaleno Devezas (professor da Universidade da Beira Interior e especialista dos ciclos longos) sobre o «encaixe» da época de Quinhentos nos ciclos longos geopolíticos, houve possibilidade de revisitarmos, em conjunto, a História de Portugal.

Desse trabalho extraímos, num diálogo de vários meses, algumas conclusões sobre o que poderá ser a identidade portuguesa.

Chamá-mos-lhe «Matriz das Descobertas» (Capítulo 5 do referido livro), cujo miolo são 10 pontos, que convidamos o leitor a descobrir.

Essa matriz resulta de um voo de helicóptero sobre a História portuguesa, procurando extrair aquilo que pode ser perene, que vai para além do contexto da época, das características ideológicas, políticas, éticas e morais específicas de cada período.

É uma homenagem, também, aos homens de visão geoestratégica daquela época, como Henrique, o Navegador, o príncipe Pedro (irmão de Henrique), o monarca João II, o vice-rei da Índia Francisco de Almeida. Sem com isso, endossar a crueldade, o banditismo, o fanatismo e a rapina, próprios do modus operandi da época.

Essa «extracção» exigiu uma «demarcação» de abordagens anteriores.

Em relação: 

- à visão do «cruzadismo» que sempre tentou as dinastias portuguesas; implicando, em particular, uma crítica ao derradeiro cruzadismo sebastianista;

- ao iberismo, incluindo uma avaliação da monarquia dual dos séculos XVI/XVII e da falência do projecto mundial da dinastia dos Felipes; 

- à «invencionice» criada pelos integralistas sobre a missão imperial do país e à teoria da jangada do tempo do regime ditatorial de Salazar;

- à tentação das políticas de "prioridade das prioridades", erráticas, ao sabor do momento, revelando ausência de uma estratégia de longo prazo, típicas dos vários governos do regime democrático (após a opção estratégica liderada por Mário Soares a favor da adesão à Comunidade Económica Europeia);

- aos atlantismos de todas as cores, procurando amarrar Portugal apenas aos vectores do Atlântico Norte (Estados Unidos, a potência hegemónica no ciclo geopolítico ainda em curso) ou do Atlântico Sul (comunidade de língua oficial portuguesa).

Há três pontos que nos parecem fulcrais neste passeio pela História portuguesa que fazemos neste livro:

1. A resiliência de um pequeno país desde o século XII, um dos mais antigos Estados-Nação do mundo; resiliência que aguentou várias crises dinásticas, uma monarquia dual com um soberano estrangeiro, e um período longo de declínio estratégico desde 1640, com vários momentos críticos;

2. O seu intento globalista; "Go Global" sempre foi o sentido estratégico dos Portugueses, pioneiros em Quinhentos; a nossa história está marcada por uma opção em geometria variável;

3. A actualidade (em pleno século XXI) do «acquis» de relacionamento pioneiro dos portugueses com alguns dos actores emergentes de agora (como a China, Índia e Brasil) e com a região do mundo (Ásia) hoje de novo em ascenso.

É a partir destes aspectos, aqui expostos de um modo muito breve, que interviremos, proximamente, neste espaço, tendo em conta a Presidência Portuguesa da UE no 2º semestre de 2007. 

Não me move nenhuma megalomania de pretender que o país venha a retomar o seu papel de Quinhentos. Julgar que o país readquirirá uma «centralidade» geoestratégica no xadrez mundial é, no mínimo, ingénuo. Muito menos qualquer simpatia pelo saudosismo imperial, tenha ele as cores dinásticas ou salazaristas.

A procura de uma matriz é importante para afinar e projectar uma diferença, uma «uniqueness» (como dizem os anglo-saxónicos) no quadro da actual pertença à União Europeia. 

 

 

Geoscópio – Um olhar sobre a Geoeconomia e a Geopolítica. Sem o ruído dos opinion makers e dos spin doctors

Editores-fundadores

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de www.janelanaweb.com e www.gurusonline.tv. Colaborador do semanário Expresso, em Portugal, e do EuroAsia Journal of Management, China. Coordenador da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão (INDEG e Fundação Getulio Vargas). Autor de livros pela Centro Atlântico, Portugal, INDEG/ICSTE, Portugal, Prentice Hall, UK, Pearson Educación, Espanha. Colunista de www.administradores.com.br. Pode ser contactado em jnr@groupadventus.com

Ruben Eiras, investigador associado no Centro de Administração e Políticas Públicas do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, Portugal. Co-autor de livro pela Centro Atlântico, Portugal. Pode ser contactado em reiras@gmail.com

Colaboradores Permanentes

Mário Murteira, professor jubilado do ISCTE, director da Revista Economia Global e Gestão/Global Economics and Management Review, autor de diversos livros. Pode ser contactado em: mlsmu@mail.telepac.pt

Virgínia Trigo é professora no ISCTE onde coordena e ensina a disciplina de Empreendedorismo a nível de licenciatura e pós-graduação. É directora do Asiânia – Centro de Estudos Asiáticos (ISCTE Business School). Viveu e trabalhou na Ásia durante 13 anos (1989-2002) grande parte deles em Macau, mas também em Cantão, no Japão e ainda nos Estados Unidos. Foi a primeira presidente do Instituto de Formação Turística de Macau. É autora de diversos livros e artigos sobre a Ásia, China em especial e sobre Empreendedorismo, incluindo os livros “Cultura Económica Chinesa: Como negociar na China?” e “Entre o Estado e o Mercado: Empreendedorismo e a Condição do Empreendedor na China”. Pode ser contactada em: virginia.trigo@gmail.com

Alexandre Coutinho, jornalista do semanário Expresso, responsável pelo “canal” Viagens no meu Planeta no portal www.janelanaweb.com e autor de vários livros. Pode ser contactado em: alexcoutinho@vodafone.pt

Contributors (in english)

Arno Tausch, Adjunct Professor of Political Science at Innsbruck University, Austria, Ministerial Counselor, Department of European and International Affairs, Federal Ministry of Social Security, Generations and Consumer Protection, Austria. Specialist in Kondratieff waves. E-mail contact: Arno.Tausch@BMSG.gv.at

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