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O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de divulgar segunda-feira (21 de novembro) que a Hungria, onde se encontra uma equipa do Fundo, acaba de endereçar cartas a Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, e a Bruxelas, à Comissão Europeia, solicitando “uma possível assistência financeira”.

O Ministério das Finanças húngaro declarou que procura um “novo tipo de cooperação que permita promover o crescimento económico em vez de medidas de austeridade”. O ministro adiantou que esta “assistência” não aumentará a dívida do país. A ideia é que as duas instituições funcionem como seguro para os investidores. O novo acordo deverá ser concluído nos primeiros meses de 2012.

A Hungria recebeu assistência financeira do FMI e da União Europeia em novembro de 2008, num montante de €20 mil milhões, mas o novo governo em Budapeste, que tomou posse em junho de 2010, rompeu as negociações com o FMI e deixou a linha expirar em outubro desse ano.

A Hungria é membro da União Europeia desde maio de 2004, mas não da zona euro, estando planeada a sua adesão para 2014, ano em que haverá eleições legislativas.

É o nono membro do “clube da bancarrota” (TOP 10 dos países com maior probabilidade de incumprimento da dívida soberana), andando ultimamente num sobe-e-desce com Espanha, que se encontra no décimi lugar. As yields (juros) dos títulos húngaros fecharam na sexta-feira acima de 8% quer nos prazos a 5 como a 10 anos. A probabilidade de incumprimento subiu hoje de manhã para 33,6%, contra 33,10% no fecho de sexta-feira.

1º andamento: Grécia: Como era previsível, as yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro gregos batem recordes. Os juros dos títulos a 2 anos ultrapassaram, agora a meio da tarde, a barreira dos 50% – estão em 50,3%. Os juros dos títulos a 12 meses chegaram a 82%.

Também os juros das obrigações do Tesouro português (OT) e dos títulos irlandeses estão com aumentos diários muito significativos: os juros das OT a 2 anos estão em 13,75% (fecharam ontem 12,82%) e dos títulos irlandeses em 8,85%.

Outro sinal de alarme é a evolução dos juros das obrigações espanholas e dos títulos do Tesouro italianos a 10 anos – subiram, agora a meio da tarde, para 5,25% e 5.56% respetivamente.

Valores de fecho: Risco de default em 87,42% (ainda não fixa novo máximo, que está em 88,32% em 18 de julho); custo dos cds em 3292,16 pontos base (acima do recorde anterior de 3086,97 pn em 18 de julho); juros dos títulos gregos a 2 anos em 50,30%.

2º andamento: Itália: a subida para 7º lugar

A Itália ultrapassou hoje a Ucrânia no “clube” da bancarrota – o TOP 10 dos países do mundo com maior probabilidade de entrada em incumprimento da sua dívida soberana. Subiu para a 7ª posição com mais de 32% de risco de default, segundo dados da CMA DataVision.

As yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro italiano (BTP) dispararam no caso dos prazos a 2 e a 3 anos.

Os juros dos BTP a 2 anos subiram de 3,52% na sexta-feira para 4,09% no fecho de hoje. Os juros dos BTP a 3 anos passaram de 3,96% no final da semana passada para 4,11% hoje, segundo dados da Bloomberg.

Também, os juros dos BTP a 10 anos continuam a teimar subir acima dos 5%. Fecharam hoje em 5,56%,

Colagem da Itália à Grécia

A convergência de declarações públicas do presidente do Conselho Europeu (distinto da Comissão Europeia), Herman Van Rompuy, em declarações à rádio flamenga VRT e da chanceler alemã Ângela Merkel junto de parlamentares do seu partido, a CDU, colando a Itália à Grécia, agravaram a situação italiana.

Merkel teria dito que as situações da Grécia e de Itália eram “extremamente frágeis”. E Van Rompuy afirmou que “os mercados vêm que há problemas na aplicação dos planos de ajustamento na Grécia e Itália” e que, por isso, “a Europa deve aumentar a pressão para que levem a cabo as medidas que desenharam”.

Esta “colagem” da Itália à Grécia, em matéria de credibilidade de planos de austeridade, apesar da situação muito distinta dos dois países, ajudou Espanha a distanciar-se da trajetória italiana, apesar do risco de default da dívida espanhola ter aumentado hoje significativamente, para 30,10%, e dos juros das obrigações espanholas (OE) terem aumentado em todas as maturidades, com destaque para os juros das OE a 10 anos que subiram para 5,26%.

Recorde-se que a Itália é a 8ª economia do mundo (logo a seguir ao Brasil, um dos BRICS) e a 3ª da zona euro.

O “clube” da bancarrota conta com 5 membros da zona euro: Grécia, que lidera este TOP 10, Portugal em 2º lugar, Irlanda na 4ª posição, Itália no 7º lugar, e Espanha em 9º. O grupo conta, ainda, com a Hungria, membro da União Europeia, na 10ª posição.

A bolsa grega foi ontem bafejada pelo anúncio de uma operação de fusão entre dois dos maiores bancos privados do país, o Alpha e o Eurobank. O índice bolsista ateniense disparou 14,37%, depois de várias derrocadas durante agosto. Hoje, a bolsa já regressou ao vermelho.

No entanto, segundo analistas gregos, a fusão dos dois bancos privados pode apontar para um padrão de concentração bancária, num país em que o sistema financeiro é considerado muito fragmentado, e de recapitalização.

O aviso de Lagarde

Esta recapitalização por via de uma fusão e entrada de um acionista forte extra-comunitário – no caso, árabe – surge depois de Christine Largarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional ter chamado à atenção para a necessidade de uma recapitalização da banca europeia “em força e já”, no encontro realizado, no fim de semana, pela Reserva Federal norte-americana em Jackson Hole, nos Estados Unidos.

O Alpha Bank e o Eurobank EFG decidiram juntar os trapinhos numa operação que se vai concretizar no primeiro semestre de 2012. A fusão permitirá ao novo banco, Alpha Eurobank, passar a constar dos 25 maiores da Europa, com ativos no valor de €146 mil milhões, ultrapassando os €118 mil milhões do Banco Nacional Grego (BNG), o mais antigo banco grego criado por George Stavros em 1841, que em fevereiro tinha tentado comprar o Alpha Bank. O BNG é detido em 12,1% do capital por fundos de pensões ligados ao Estado.

O novo banco tem uma projeção externa com particular destaque na região dos Balcãs. O presidente do Eurobank, Yannis Costopoulos, disse que com esta fusão será criado o maior banco privado da Grécia que poderá alcançar a posição de 22º ou 23º na lista dos 25 maiores bancos europeus.

A fusão envolverá uma venda de ativos dos dois bancos, uma troca de ações e uma emissão de títulos coberta pela Paramount Services (Holdings) Limited no valor de €500 milhões, que passará a deter 17% do capital da nova entidade, passando largamente à frente das duas famílias gregas detentoras dos dois bancos, os Latsis (donos do atual Eurobank, que passarão a deter 13%) e os Costopoulos (que detém o Alpha, e que passarão a ter 4% do novo banco).

Operação já inclui um “corte de cabelo”

O novo banco já incorporará a previsão de um hair cut (“corte de cabelo”, designação para uma diminuição do valor facial) de pelo menos 20% do valor do portefólio em títulos do Tesouro grego que os dois bancos detêm, e cuja renegociação da dívida está em curso pelo Ministério das Finanças de Atenas com um grupo de credores privados, incluindo bancos gregos.

A Paramount Services (Holdings) Limited é um fundo do Qatar domiciliado em Londres desde 1993 que reúne a gestão da fortuna de uma das famílias proeminentes daquele emirado árabe. O fundo já detém 7% do grupo Barclays e 10% do Crédit Suisse.

Num comunicado publicado na noite de 5ª feira (11 de agosto), a Autoridade de Regulação Financeira Europeia (ESMA, que começou a funcionar em janeiro deste ano) anunciou a restrição das vendas a descoberto – conhecidas na gíria técnica como short-selling – a partir de dia 12 de agosto, uma operação concertada, de imediato anunciada pelos reguladores nacionais da França, Itália, Espanha e Bélgica, e que durará nos próximos quinze dias, podendo ser prorrogada. A Grécia já havia introduzido esta medida a 8 de agosto.

Recorde-se que particularmente o mercado bolsista francês ontem e hoje esteve sob forte ataque de rumores. As vendas a descoberto são um conhecido mecanismo de especulação que precipitam a queda abrupta do valor das ações das empresas atacadas e o disparo da volatilidade.

No caso de França, o regulador, a AMF-Autorité des Marchés Financiers colocou debaixo da aplicação da proibição 11 títulos de bancos e seguradoras, entre eles a Société Générale que tem sido o principal alvo de rumores. Em Espanha, a CMVM (Comisión Nacional del Mercado de Valores) abrangeu 16 entidades bancárias e financeiras.

O regulador holandês pronunciou-se contra. No entanto, noutro continente, na Coreia do Sul – que tem tido quebras sucessivas na bolsa -, as vendas a descoberto foram banidas para todos os títulos listados em bolsa desde dia 9 de agosto. Em Hong Kong, o regulador obriga que sejam informadas todas as posições a descoberto acima de um certo valor.

Esta estratégia – utilizada em 2008 aquando do pico da crise financeiro – é encarada, por alguns analistas, como podendo dar indicação aos mercados financeiros que algo de grave pode estar a aproximar-se para ser tomada esta medida de emergência.

Recorde-se que, em 19 de setembro de 2008, quatro dias depois do colapso do Lehman Brothers, o regulador norte-americano, a Securities and Exchange Commission, decidiu banir temporariamente, por três semanas, as vendas a descoberto relacionadas com 799 entidades bancárias e financeiras. O Reino Unido, na altura, fez o mesmo.

O maior investidor individual na dívida soberana portuguesa é o Banco Central Europeu (BCE) com um envolvimento de 13,3%, ou seja €21 mil milhões num total de €158 mil milhões, segundo as contas feitas pela RCB Capital Markets para o The Wall Street Journal. (Texto JNR Gráficos JPO LISWires.com)

Seguem-se na lista de principais entidades, o FMI/EU com 11,4% do total (18 mil milhões) e os bancos nacionais com 10,8% (€17 mil milhões). Os bancos alemães, franceses e espanhóis detêm a mesma percentagem, 3,8% da dívida em cada caso (6 mil milhões por cada país de origem).

No entanto, quase 49% da dívida é detida por gestores de ativos, fundos soberanos e outros bancos centrais (para além do BCE), num montante de €77 mil milhões.

As situações são diferentes nos três casos de países da zona euro “intervencionados” pela troika.

VISUALIZAÇÃO DOS DETENTORES DA DÍVIDA EM PT, GR e IRL

No caso da Grécia, o principal credor é o duo FMI/EU com 15,5% do total da dívida helénica de €341 mil milhões. Seguem-se o grupo dos bancos gregos com 14,7% (é o país dos três em que a banca doméstica está mais exposta à dívida do próprio país) e o BCE com 13,8%. O conjunto dos gestores de ativos, fundos soberanos e outros bancos centrais detém €151 mil milhões, ou seja 44,3%.

Finalmente, no caso irlandês, o perfil dos principais credores é uma “mistura” dos perfis português e grego: o principal credor é o duo FMI/EU com 19,5% da dívida total de €113 mil milhões e o segundo é o BCE com 16,8%. O conjunto dos gestores de ativos, fundos soberanos e outros bancos centrais detém 46%, ou seja €52 mil milhões.

Troika detém 29% da dívida dos três países

No conjunto dos três países “intervencionados”, a troika (FMI/UE/BCE) detém 29% dos €612 mil milhões de dívidas soberanas da Grécia, Portugal e Irlanda.

O duo FMI/UE já aplicou €93 mil milhões e o BCE, ainda recentemente mimoseado pelo blogue Zero Edge como “o maior e mais subcapitalizado hedge fund do mundo”, €87 mil milhões nos três países.

A troika varia a sua participação na dívida dos três países entre 36,3% para a Irlanda, 29,3% para a Grécia e 24,7% para Portugal.

Fonte original no The Wall Street Journal.

[Parceria Geoscopio.tv e LISWires.com]

Geoscopio.tv e LISwires.com e iniciam uma colaboração estratégica sobre informação económica e financeira, geoeconomia e geopolítica em língua portuguesa e inglesa com interesse para leitores especializados. Os links são http://geoscopio.tv e http://LISwires.com. Jorge Nascimento Rodrigues (editor de janelanaweb.com e geoscopio.tv e colaborador do semanário Expresso em Portugal) e João Proença Oliveira (editor de @dedraGrip e @euroGrip) são os responsáveis por esta parceria.

O impasse é a nota dominante nas negociações no seio da União Europeia – e particularmente dentro da zona euro – sobre o novo plano de resgate para a Grécia. Uma solução de compromisso deverá ser tentada por Angela Merkel e Nicolas Sarkozi, o “diretório” da zona euro, na sexta-feira, a que se seguirá uma reunião do Eurogrupo no domingo. T

Compromisso tanto mais necessário já que os mercados financeiros estão ao rubro – o risco de default da Grécia subiu hoje para quase 77%, o de Portugal para quase 48% e o da Irlanda para mais de 47,5%, novos recordes. Espanha “sente” o contágio com um risco próximo de 22%, ainda que muito distante da situação dos outros três. Os juros das obrigações do Tesouro portuguesas a 3 anos dispararam para 13,59% e os dos títulos gregos com a mesma maturidade para 28,40%.

Uma coisa parece certa: o “plano A”, a estratégia de resgate gizada em maio do ano passado e transposta para o MoU (memorando de entendimento) da troika com Atenas, é considerada um fracasso. Em virtude desta constatação, dirigentes da zona euro começaram a falar na necessidade de adicionar um segundo pacote de resgate (um segundo empréstimo a somar aos € 110 mil milhões iniciais) com novas condições associadas. Entre as novas condições a ideia de um “envolvimento dos privados” nesse segundo pacote.

Plano B: o re-profiling com “envolvimento dos privados”

Assim surgiu o Plano B: o “envolvimento dos privados” traduzir-se-ia por uma troca de títulos gregos que vençam e que estejam na mão de bancos, fundos de pensões e seguradoras por novos títulos com um novo prazo de mais sete anos. Ou seja, com essa aceitação de um reescalonamento dos prazos da dívida, os privados ajudariam a Grécia em cerca de €30 mil milhões, segundo as estimativas. Jean-Claude Juncker, o primeiro-ministro luxemburguês e presidente do Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro), chamou-lhe em maio um re-profiling (um termo inexistente no léxico dos mercados financeiros e das agências de notação) da dívida e os alemães, pela voz do ministro das Finanças Wolfgang Schauble, tornaram este Plano B em doutrina oficial de “reestruturação suave”. Holandeses e austríacos apoiam esta solução, atendendo à justificação política de que não só os “contribuintes europeus deverão ser envolvidos na fatura, mas também os investidores privados”.

Mas esta solução tem colhido a oposição das agências de rating (que consideram tal mecanismo um evento de crédito seletivo, como o deixou bem claro recentemente a Standard & Poor’s, que calcula um “corte de cabelo” associado de 50 a 70% do valor facial dos investimentos dos privados), do Banco Central Europeu (BCE), da Comissão Europeia e da França, o segundo pilar do “diretório” europeu. A Moody’s avisou claramente os franceses que a notação dos seus principais bancos seria afetada dada a exposição à dívida grega e um relatório confidencial da Comissão Europeia apontava para um custo adicional desse re-profiling na ordem dos €20 mil milhões só para recapitalizar a banca grega.

Face a esta oposição, os alemães e Juncker procuram um compromisso. Steffen Kampeter, secretário de Estado de Schauble, disse ontem explicitamente que “não faremos nada que vá explicitamente contra a opinião do BCE”.

Plano C: Adaptar a Iniciativa de Viena

Pelo que os protagonistas procuram um Plano C. Uma das ideias que eventualmente poderia obter consenso seria uma solução do tipo da “Iniciativa de Viena”. Mario Draghi, o indigitado presidente do BCE depois do final do mandato de Jean-Claude Trichet em novembro, inclinou-se para esta solução como uma plataforma negociável. O comissário Olli Rehn, finlandês, falou, também, no mesmo sentido: “um acordo na base da Iniciativa de Viena, em que os bancos prolongam a duração dos seus empréstimos [à Grécia] de maneira voluntária”, ou seja uma recondução voluntária das dívidas gregas que cheguem ao seu término (ao rollover) por parte dos credores privados.

A “Iniciativa de Viena”, denominada European Bank Coordination Initiative, dirigiu-se a cinco países do leste europeu – Bósnia, Hungria, Letónia, Roménia e Sérvia – e propunha que os bancos transfronteiriços europeus e outras entidades expostas à dívida destes países conservassem a sua exposição, e não debandassem. A iniciativa foi lançada em janeiro de 2009 e pretendia evitar os erros do que ocorrera em crises da dívida nos anos 1990. Foi um programa conjunto do BERD- Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Europeu de Investimento, do Banco Mundial e da União Europeia, com o Banco Central Europeu como observador.

Curiosamente, por imposição dos finlandeses, essa condição acabou por ficar em letra de forma no MoU do plano de resgate a Portugal: “As autoridades portuguesas deverão encorajar os investidores privados a manterem a sua exposição global numa base voluntária”. Foi a primeira vez que se colocou uma condição destas nos resgates aos países da zona euro, salientam os analistas. E cuja substância pode ser mais do que simbólica – como se está a ver agora.

Este plano parece ter recebido um sinal positivo por parte da agência de notação Fitch. Segundo o Financial Times Deutschland, a Fitch admitiu dia 15 de junho que, no caso de uma solução similar à Iniciativa de Viena, se possa limitar a baixar o rating para “default restrito”, mas não descendo a notação da dívida grega de longo prazo de CCC para níveis abaixo. Isto permitiria ao BCE continuar a aceitar os títulos gregos como colateral.

Plano D: Reestruturação com filhos e enteados

Mas as propostas não se ficam por aqui. Um Plano D foi apresentado esta semana por Sony Kapoor, diretor do think tank europeu Re-Define, num comentário no Financial Times a uma análise de Nouriel Roubini sobre a probabilidade de uma reestruturação em breve da dívida grega e de outros membros da zona euro.

Kapoor pensa que uma re-estruturação é inevitável e que é preferível, agora, do que em meados de 2013, como politicamente parece ser tentador, adiando por ora o problema. Mas coloca um conjunto de condições que passam pela “diferenciação dos vários grupos de credores” – em que os credores oriundos do BCE (detém 13,8% da dívida total grega), dos veículos financeiros europeus (detém 15,5%) e dos bancos gregos (detêm 14,7%) deveriam ser tratados “preferencialmente”.

No fundo, o fardo deveria ser concentrado nos credores privados externos, nomeadamente os bancos franceses e alemães (os dois grupos de bancos devem deter €28 mil milhões numa dívida total de 341 mil milhões, ou seja pouco mais de 8%), que Kapoor acha que aguentariam o embate. O “corte de cabelo” (hair cut, no jargão financeiro) provável será na ordem dos 50% desses investimentos feitos por bancos e outros investidores privados institucionais. Mas é preferível, agora, do que depois de julho de 2013, altura em que o “corte de cabelo” deverá andar na ordem dos 75%, diz Kappor.

Para evitar o contágio aos outros, Kapoor sugere que seja introduzida no Mecanismo Europeu de Estabilização a funcionar depois de meados de 2013 uma cláusula que permita este tipo de reestruturação quando o peso da dívida pública no PIB for superior a 120% e quando o peso do serviço de dívida no PIB ultrapassar os 6%. O que, por ora, deixaria de fora, diz Kapoor, a Irlanda e Portugal.

Plano E: Eurobonds quando o tempo for oportuno

A ideia de eurobonds (e-bonds) como um novo instrumento europeu de dívida voltou a surgir esta semana no Parlamento Europeu quando o indigitado presidente do BCE, Mario Draghi, interrogado sobre o assunto, respondeu que se trata de “algo completamente legítimo de se pensar logo que haja uma união mais estreita”. Draghi acentuou que tal união é “um pré-requisito para uma divida partilhada”. Mas o banqueiro central italiano logo acrescentou que “por ora, a zona euro deverá reforçar as suas regras em vez de pensar em instituições adicionais ou mesmo em orçamentos partilhados”.

A proposta dos eurobonds foi avançada a 5 de dezembro do ano passado no Financial Times por Jean-Claude Juncker e pelo ministro de Economia e Finanças italiano Giulio Tremonti na sequência da ideia de criar uma Agência de Dívida Europeia que substituísse a Facilidade Europeia de Estabilização Financeira em 2013. O novo instrumento de dívida deveria ir substituindo progressivamente as dívidas nacionais dos estados membros da zona euro e permitiria criar um mercado de títulos, em dimensão e em liquidez, similar ao norte-americano.

A proposta foi, no entanto, imediatamente rejeitada pela chanceler Merkel e pelo presidente Sarkozy. Alguns analistas comentaram que se tratava de uma boa proposta provavelmente ainda fora do tempo. Resta saber se a crise grega a recolocará na agenda.

Plano F: Simulação de um “Jubileu” da dívida soberana na Europa

O professor inglês Anthony Evans e os colegas da Europe Business School (ESCP), em Paris, lançaram em maio como simulador para os seus estudantes a solução de um “jubileu” da dívida soberana , através de um processo de liquidação mútua das dívidas entre os membros da União Europeia, por exemplo de um modo bilateral ou mesmo tripartido.

Segundo a simulação de Evans, a dívida soberana dos 8 países estudados (Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, França, Grécia, Portugal e Reino Unido) poderia ser reduzida em 64% através do cancelamento cruzado das dívidas, baixando a dívida total em relação ao PIB de 40,47% para 14,58%. Seis países – Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, França e Reino Unido – poderiam eliminar 50% da dívida existente. A rede de cruzamentos de dívida (valores em dólares) foi publicada pelo The New York Times recentemente.

No caso português, a simulação dos cruzamentos implicaria uma redução de mais de 1/3 da dívida.

Esta simulação tem granjeado enorme interesse na blogosesfera económica.

Debate no programa Negócios Estrangeiros, do Económico TV, com Jorge Seguro e Ruben Eiras, com moderação de Vasco Rato

A apetência do mercado dos cds (credit default swaps) pelos quatro países da Zona Euro não deve surpreender se tomarmos em linha de conta a situação da dívida externa total (pública e privada) dos quatro países pejorativamente designados por PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), segundo os dados divulgados esta semana pelo CIA World Fact Book 2010.

O líder, neste grupo, em valores absolutos é a Espanha com uma dívida externa total de mais de 2,4 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-americana), mas, em termos relativos, comparando com o seu produto interno bruto (PIB), é apenas de 168% da riqueza nacional criada em 2009. A Espanha é, aliás, o 6º país do mundo mais endividado em termos absolutos, logo seguido da Irlanda.

Mas o campeão em termos relativos é, de facto, a Irlanda. Aliás, é número um à escala mundial neste indicador. Tem uma dívida externa total superior a 2,3 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-americana) que representa mais de 1000% do PIB irlandês, um valor relativo que é o mais alto de todo o mundo – mesmo superior ao islandês que se situava nos 924% do PIB respectivo.

Portugal em 8º lugar no “clube”

Portugal apresentava uma dívida externa total superior a 500 mil milhões de dólares na mesma data de referência (30 de Junho de 2009) utilizada pelo ranking do CIA World Fact Book, o que significava 230% do PIB. Na lista dos mais endividados, à escala mundial, em relação à riqueza nacional criada, Portugal surge em 8º lugar. No ranking mundial, em termos absolutos, está em 20º. Medida em euros, de acordo com a última informação do Banco de Portugal divulgada no final de 2009, mas relativa a Setembro, a dívida externa total rondaria os €367,5 mil milhões, o que equivale a 223% do PIB estimado para o ano passado, não lhe retirando o 8º lugar no clube. O país “colega” mais próximo é a Áustria, com 222% do PIB “capturado” pela dívida externa total.

Apesar de ter sido o país em que a crise da dívida se agudizou este ano, a Grécia é, nos quatro PIGS, o que tem uma dívida externa total menos elevada em termos de PIB, de 164%. Em termos absolutos, o montante da dívida é de 553 mil milhões de dólares. Mas, fruto das manipulações operadas pelo governo grego anterior, quer no valor da dívida externa (que foi “reduzida” em 70% entre 2007 e 2008) como no défice orçamental, a desconfiança dos mercados financeiros alastrou rapidamente e ficou “embebida” na imagem de Atenas. A Grécia está a ser “empurrada” para uma situação de pré-default como ocorrera na Islândia, mesmo partindo de um indicador mais “baixo” em matéria de dívida externa em relação ao PIB.

A dívida de curto prazo

Outro dos indicadores que tem sido referido como importante para “sinalizar” a gravidade da situação da dívida externa é a avaliação do peso da dívida de curto prazo. A Islândia atingiu, em Setembro do ano passado, o recorde europeu, entre os países desenvolvidos, com 48,5% da sua dívida externa no curto prazo, enquanto no caso da Irlanda essa percentagem é de 41% e quanto a Portugal é de 31%.

Só tendo em conta a dívida pública externa, o peso da dívida de curto prazo era em Setembro de 2009, de 15% para Portugal e de 12,3% para a Grécia.

Nota: O CIA World Fact Book 2010 omitiu no seu ranking a posição da dívida externa total da Bélgica que era superior à da Suíça em 2008. No CIA World Fact Book de 2009 referia-se o referido país na posição correcta em finais de 2008.

Finalmente, a Cimeira dos negociadores e assistentes sem sono terminou. Com o documento possível, disse o secretário-geral das Nações Unidas.

A decisão final da Cimeira fala de “tomar nota” do acordo escrito alcançado pelos Cinco (EUA, China, Índia, Brasil e África do Sul) e o secretário executivo da UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change), que organiza estas reuniões, limitou-se a referir a existência de uma “carta de intenções” que faltará traduzir em “algo real, mensurável e verificável”.

Essa tradução ficou adiada para reuniões de negociação em Bona, na Alemanha da chancelerina Merkel, entre 31 de Maio e 11 de Junho e a revisão do tema far-se-á, de novo, na próxima conferência anual que, em finais de 2010, será na cidade do México.

A soma dos actores

No fecho da cortina, e já com os delegados em sono solto ou apagando as mágoas ou festejando o triunfo do possível na noite de Copenhaga, fica-nos uma aritmética simples escrita na parede: 5 + 3 + 5 + (n-13).

Sem grande introdução à matemática geopolítica, aqui fica a tradução:

5=os cinco grandes da célebre mesa do “acordo” (EUA, China, Índia, Brasil e África do Sul);

3=os três grandes politicamente eclipsados (Europa, Rússia e Japão);

5=o eixo bolivariano-castrista (Venezuela com a voz marcante de uma Claudia Salerno Caldera muito activa, Cuba, Bolívia e Nicarágua, apoiados pelo muito recomendável Sudão) dos “marginais” deixados a falar sozinhos pelas grandes potências emergentes, o que significa que já nem para compagnons de route servem nomeadamente das estratégias chinesa e brasileira;

N-13=as outras partes da cimeira, o residual geopolítico, com destaque para a projecção alcançada pelos pequenos países insulares, as vítimas da linha da frente dos 0,8 ºC de aquecimento global já verificado, com destaque para a Alliance of Small Island States (22 países, onde se incluem os arquipélagos africanos de língua oficial portuguesa e Timor-Leste) e para o activismo de Tuvalu (tv., na nomenclatura da Internet, onde muitos domínios estão registados, como o do geoscopio.tv e de gurusonline.tv), pequeno estado com 10 mil habitantes ao longo de 24 km.

Antiglobalismo ferido de morte?

Fora das mais de 190 “partes” sentadas nas cadeiras da cimeira, fica, também, a constatação de que o movimento antiglobalização perde fôlego, mesmo quando “colado” a temas como o da mudança climática, onde frutificou ao longo dos anos um mosaico de movimentos ambientalistas hoje globais.

O movimento antiglobalista perdeu, também, a sua projecção no xadrez das grandes potências, por dois movimentos que, como uma tenaz, o apertam, e amanhã o poderão asfixiar.

Por um lado, a assumida estratégia autónoma de grande potência do Brasil (que albergou inclusive o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, como espaço alternativo) que deixa os antiglobalistas sem um padrinho de peso.

Por outro, o surgimento da franja contestatária bolivariana-castrista que pretende alcandorar-se a líder da luta antiglobalista, reduzindo a margem de manobra dos movimentos antiglobalistas.

Em certo sentido simbólico, o movimento antiglobalista é outro dos derrotados pela mesa dos Cinco.

A onça do metal precioso amarelo fechou a sessão de hoje com novo máximo histórico próximo dos 1090 dólares, depois de três semanas em movimentos de ziguezague. E no mesmo dia em que se soube que a Índia comprou metade do ouro que o Fundo Monetário Internacional tinha à venda.

A onça de ouro valia hoje no fecho da sessão 1084,6 dólares. É um novo máximo histórico, desde que a 13 de Outubro havia chegado aos1063,9 dólares, prosseguindo um movimento de subida que se vinha a verificar há mais de um mês. Nas três semanas seguintes, o preço sofreu oscilações, mas acabou, hoje, por galgar rapidamente mais dois patamares. A proximidade da onça a $1100 – de que falávamos no final do mês passado – gera, agora, expectativa.

Recorde-se que o preço do ouro voltou a ultrapassar a barreira dos $1000 em 8 de Setembro passado e superou o anterior máximo histórico de $1011 alcançado no dia da aquisição do banco de investimentos Bear Stearns pelo banco JP Morgan Chase em 17 de Março de 2008. Esta aquisição forçada foi o prelúdio do Pânico Financeiro que viria a despoletar em Setembro daquele ano na Wall Street.

Este comportamento do preço do ouro revela que as dúvidas sobre a retoma económica e sobre o mercado bolsista permanecem, o que leva investidores a agarrarem-se a este valor refúgio, independentemente do que dizem os políticos e os académicos.

Índia compra ouro ao FMI

Este novo recorde ocorreu no dia em que se soube que o Banco Central da Índia (BCI) havia adquirido, entre 19 e 30 de Outubro, cerca de metade das toneladas de ouro que o Fundo Monetário Internacional (FMI) tinha colocado em venda fora do mercado, em negociações directas com bancos centrais.

O BCI adquiriu 200 toneladas das 403,3 que o FMI decidiu, em Setembro, alienar para realizar fundos. Por esta aquisição, o BCI pagou 6700 milhões de dólares (o equivalente a 4200 milhões de direitos de saque especiais). E, entretanto, desde a compra, já ganhou 35 cêntimos de dólar por onça.

A Índia saltou, assim, do 10º para o 7º lugar (depois da Zona Euro, EUA, FMI, China, Suíça e Japão) na classificação por reservas de ouro oficiais na posse dos bancos centrais (não incluindo os países da Zona Euro individualmente, mas apenas a Zona Euro no conjunto). Passou por cima de Portugal (se considerado individualmente) e do Banco Central Europeu. Aumentou de 357,7 toneladas para 557,7.

Este movimento da Índia é convergente com a postura das potências emergentes em relação ao metal amarelo. Os bancos centrais desses países estão a diversificar aplicações e a considerar o ouro como um activo estratégico. A Rússia já adquiriu, este ano, 48,9 toneladas (9% do seu total actual) e a China desde 2003 aumentou as suas reservas oficiais em 454 toneladas (43% do seu total actual), passando a ocupar o 4º lugar.

Recorde-se que a Índia é o maior mercado de ouro do mundo. As reservas totais, incluindo as em mãos de privados, somam 25 a 30 mil toneladas (45 a 54 vezes as oficiais nos cofres do banco central), o dobro do número para os Estados Unidos.

Um estatuto para a criação de algo similar a uma “OPEP” (cartel petrolífero) para o sector estratégico do gás natural estará em fase final de aprovação entre os principais exportadores e detentores de reservas mundiais, segundo o director executivo da National Iranian Gas Company, Azizollah Ramezani, declarou numa entrevista em Buenos Aires, durante a conclusão da 24ª Conferência Mundial do Gás, que decorreu esta semana.

A ameaça de criação de um cartel anda no ar há alguns anos. Estão incluídos nesta iniciativa, a tríade de superpotências no gás – Rússia (que detém 26% das reservas mundiais provadas de gás, as maiores do mundo, controla 19% das exportações de gás natural, sendo o exportador número um, e é, ainda, o principal produtor do mundo), Irão (que detém 15% das reservas, sendo o segundo neste ranking, é o quinto produtor do mundo, mas não se encontra entre os dez principais exportadores) e Qatar (que detém 14% das reservas, sendo o terceiro, e é sétimo exportador do mundo) – e outros parceiros relevantes, por ordem alfabética, Argélia (quarto exportador, nono em reservas e sétimo em produção), Bolívia, Brunei, Egipto, Emirados Árabes Unidos (quinto em reservas), Indonésia (oitavo em exportações), Líbia, Malásia (nono em exportações), Nigéria (sétimo em reservas), Trindade e Tobago e Venezuela (oitavo em reservas).

Encontram-se fora do potencial cartel, exportadores de topo, como Canadá (12% das exportações mundiais), Noruega (9% das exportações mundiais), Holanda (5º no ranking) e Turquemenistão (6º no ranking), e grandes detentores de reservas provadas como Arábia Saudita (4º no ranking), Estados Unidos (6º no ranking) e Iraque (10º no ranking).

A sede do cartel do gás deverá ficar no Qatar.

Os analistas do sector, intervenientes na 24ª Conferência Mundial do Gás, afirmaram que o século XXI será “o século do gás” e que o seu peso na matriz energética subirá dos 28% actuais para 32% em 2030. Será um sector de bonanza de investimento, atraindo 230 mil milhões de dólares por ano até 2030.

Nota: Rankings sobre produtores, exportadores e detentores de reservas mundiais podem ser consultados aqui.

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