O novo capital financeiro


A Alemanha colocou segunda-feira (23 de janeiro) de manhã dívida no montante de €2,54 mil milhões, com uma procura 2,2 vezes superior ao adjudicado.

Os investidores na dívida alemã compraram os títulos alemães apesar da remuneração ser apenas de 0,07%, quando na operação anterior similar havia sido de 0,346%.

A procura foi, no entanto, inferior à registada na operação anterior, que fora de 4,3 vezes o adjudicado.

Os investidores na dívida alemã, desta vez, aceitaram uma remuneração muito baixa, mas mesmo assim positiva em termos nominais. Recorde-se que a 9 de janeiro deste ano, os investidores aceitaram ser remunerados com uma taxa nominal negativa de -0,0122% num leilão em que o Tesouro alemão arrecadou €3,9 mil milhões em títulos a seis meses.

Os títulos alemães são considerados seguros pelos investidores no mercado da dívida, mesmo que sejam remunerados com taxas negativas em termos reais (se se contar o efeito da inflação, como é o caso de hoje) ou mesmo em termos nominais (como foi o caso do leilão de 9 de janeiro).

No mercado secundário, as yields (juros) dos títulos alemães a 1 ano estavam em 0,098% aquando do leilão.

O Bundesbank admitiu hoje que a Alemanha poderá ter tido uma contração no última trimestre de 2011.

Simon Wolfson, dono da Next, cadeia retalhista de moda, vai atribuir um prémio de 290 mil euros ao economista que apresentar até 31 de janeiro a melhor proposta de como um ou vários membros da zona euro poderão “sair ordenadamente” da moeda única.

O atual dono da cadeia retalhista britânica Next, Simon Wolfson, está irritado com a crise da zona euro, pelo que decidiu criar um Prémio de Economia Wolfson de cerca de €290 mil (250 mil libras) para o economista que surgir com uma proposta de “saída ordeira” de um ou mais membros da zona euro.

Simon Wolfson, de 43 anos, que é filho do fundador da Next, e que dá pelo título de Lorde Wolfson, Barão de Aspley Guise, tem as inscrições abertas para o Prémio até 31 de janeiro. Os interessados poderão consultar as regras no link seguinte: http://www.policyexchange.org.uk/pages/wolfsoneconomicsprize.cgi

Curiosamente as regras estão disponíveis em sete línguas: inglês, francês, espanhol, alemão, italiano, grego e chinês. Sim, o leitor leu bem, em chinês também, e certamente notou que falta o português (o que pode ser sinal de que, nas contas do Barão, Portugal pode não ser candidato à saída).

O júri é formado pelo britânico Derek Scott, que preside, ex-conselheiro do primeiro-ministro Tony Blair, pelo alemão Manfred Neumann, professor de Economia da Universidade de Bona, pelo britânico Charles Goodhart, Professor de Finanças da London School of Economics, pelo francês Jean-Jacques Rosa, Professor de Economia e Finanças da Universidade Sciences Po, de Paris, e ex-membro do conselho de análise económica do ex-primeiro-ministro francês Lionel Jospin, e pelo italiano Francesco Giavazzi, Professor de Economia da Universidade Bocconi, de Milão, e ex-conselheiro de Mario Monti, atual primeiro-ministro italiano e ex-presidente da Comissão Europeia.

O pior não ocorreu. Nas previsões para 2011, recolhidas há um ano junto de onze académicos – e publicadas no Expresso e na janenaweb.com – , os “cisnes negros” (factos impensáveis) tiveram como candidatos a fragmentação da zona euro, o rebentar da “bolha” chinesa e o deflagrar de uma guerra regional inesperada com impacto global. Nenhum apareceu no lago.

Mas a previsão de um redesenho da zona euro, adiantada por Michael Pettis, um académico americano em Beijing, não andou longe. Bem como a ideia de que o Banco Central Europeu se poderia tornar no camião de recolha de títulos soberanos “tóxicos” da zona euro por via direta e/ou indireta, expressa pelo professor alemão Ansgar Belke, não ficou, também, longe da verdade.

Não se concretizou, também, o risco de reestruturações das dívidas soberanas na Europa, nem mesmo a negociação da reestruturação parcial da dívida grega, entretanto decidida, ainda foi concluída com os credores privados. Os temores de que algo desagradável poderia acontecer com Espanha acabaram por não se concretizar e foi Itália que subiu às luzes da ribalta da crise do euro.

O consultor indiano Ashutosh Sheshabalaya previu que a notação de crédito de França fosse cortada, mas acabou por serem os EUA a inaugurarem a saída do rating triplo A com uma crise política no verão. Algo surpreendente para a maioria dos analistas, que nunca esperariam que uma grande agência de notação – além do mais detida por um grupo financeiro norte-americano – tocasse na superpotência que detém o privilégio da divisa mundial e do poder militar global. Se houve um “cisne cinzento” (improvável, mas não impensável), o corte da notação norte-americana pode ser o principal candidato de 2011.

Os piores cenários de um aprofundamento da crise também não se concretizaram, apesar de, no verão, a economia mundial ter estado à beira da “tempestade perfeita”, como então relatámos – com a convergência de uma crise aguda na zona euro de cimeira em cimeira ineficaz, de uma crise política em Washington e risco de um incumprimento seletivo da dívida nos EUA, e de um surto inflacionário na China.

A Primavera Árabe, um “cisne negro” da geopolítica mundial, acabou por nascer em dezembro de 2010 nas ruas de Tripoli com a auto imolação do jovem Mohamed Bouazizi, um vendedor de rua de frutas e legumes, ainda que o seu impacto se tenha feito sentir ao longo de 2011 em todo o Magrebe e Médio Oriente. O temor de um choque sobre o preço do petróleo, repetindo o verão de 2008, acabou por não acontecer em 2011.

O antigo primeiro-ministro de François Mitterand afirma hoje (3 de janeiro) no jornal francês Le Monde que a dívida que vence nos estados da zona euro deveria ser refinanciada com juros muito baixos que tornem possível “respirar” às economias aflitas.

Em 2012, os países da zona euro vão ter de refinanciar €1 bilião (1000 mil milhões) da dívida soberana que vence. No caso de Itália serão €440 mil milhões e no caso de França €300 mil milhões. O refinanciamento da dívida não inclui as novas emissões de dívida que terão de ser realizadas para “tapar” os défices orçamentais de 2012.

Face a esta avalancha de refinanciamentos, o antigo primeiro-ministro francês Michel Rocard e o economista Pierre Larrouturou escandalizam-se com o facto de que os bancos comerciais da zona euro se possam refinanciar a juros de 1% junto do Banco Central Europeu (BCE), mas, em contrapartida, os estados têm de pagar múltiplos desse nível de juros para lidar com a dívida soberana. Rocard e Larrouturou questionam estes dois pesos e duas medidas num artigo publicado hoje (3 de janeiro) no jornal francês Le Monde. Rocard foi primeiro-ministro do presidente Mitterand entre 1988 e 1991 e ainda hoje é deputado europeu.

Por isso, sugerem que “a ‘velha dívida’ [a dívida soberana que vence] dos nossos Estados possa ser refinanciada a juros próximos de 0%”.

Alegam que, para tal, os tratados da união não precisam sequer de ser alterados. “Certamente que o BCE não está autorizado a emprestar aos estados membros, mas pode emprestar, sem limite, a organismos públicos de crédito (segundo o artigo 21.3 do estatuto do sistema europeu de bancos centrais) e a organismos internacionais (artigo 23 do mesmo estatuto)”, refere o artigo no Le Monde. “O BCE pode emprestar a 0,01%, por exemplo, ao Banco Europeu de Investimentos (BEI) e à Caisse des Dépôts [francesa], que, por sua vez, podem emprestar a 0,02% aos Estados que tenham de se endividar para refinanciar as suas velhas dívidas”, concluem Rocard e Larrouturou.

O valor de 0,01% advém do facto de se referir hoje em dia o juro que a Reserva Federal norte-americana (Fed) aplicou nos empréstimos secretos à banca norte-americana durante a crise financeira. A Bloomberg apurou que a Fed emprestou 1,2 biliões de dólares (1200 mil milhões) àquela taxa incrivelmente baixa em termos nominais e largamente negativa em termos reais.

Uma nova bazuca para o BCE

O que os dois economistas franceses propõem seria uma nova “bazuca” do BCE – uma “bazuca” que atuaria diretamente junto de instituições públicas de crédito nacionais e de organismos internacionais de âmbito europeu (como é o caso do BEI) que funcionariam como plataformas de intermediação. O peso dos juros que os países aflitos da zona euro tem de suportar atualmente é incomportável, tornando em muitos casos um problema de liquidez num problema de insolvência a curto ou médio prazo.

O BCE já avançou, em dezembro, com uma nova linha de liquidez (LTRO) aos bancos comerciais da zona euro a 3 anos a juros de 1%. Alguns analistas alegam que tal linha permite a estes bancos regressar à compra de títulos do tesouro dos países da zona euro, mas não é líquido que isso esteja a acontecer na dimensão necessária para baixar a pressão sobre os estados que maior volume de refinanciamento e nova emissão de dívida terão de fazer em 2012. A desalavancagem em curso nos bancos comerciais limita dois movimentos: quer a canalização de crédito para a economia real, como para a dívida soberana dos estados.

Por outro lado, a última cimeira europeia de 9 de dezembro avançou com a proposta de uma transferência de €150 mil milhões para o Fundo Monetário Internacional (FMI), ainda que uma tal verba não possa regressar automaticamente, como se se tratasse de um sistema de vasos comunicantes, via empréstimos do FMI a países aflitos da zona euro. E muito menos a juros ao nível do que Rocard e Larrouturou propõem.

Os dois BRIC vão avançar com legislação em janeiro. China faz primeira mudança desde outubro 2007. E Índia autoriza investidores individuais estrangeiros a adquirir ações no mercado bolsista.

O novo ano abre com mexidas na China e na Índia – dois dos BRIC – favoráveis ao investimento estrangeiro.

O Ministério do Comércio da China e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma anunciou no final do ano que procedeu a uma revisão das regras sobre investimento estrangeiro a entrar em execução a partir de 30 de janeiro de 2012. Segundo a revista chinesa independente Caixin, a China abre mais as portas em 9 sectores de serviços, incluindo o capital de risco e a proteção de direitos intelectuais, bem como nas tecnologias, com destaque para a indústria de equipamentos de alto valor acrescentado, para a biotecnologia, para as tecnologias de informação e para energias alternativas e indústrias que sejam eficientes em termos energéticos.

Além deste alargamento nestes setores considerados “de encorajamento” ao capital estrangeiro, a China removeu os tetos na participação de capital estrangeiro em 11 sectores bem como no leasing e no sector de saúde. Em compensação, a China fechará os apoios no sector da construção automóvel, alegando que já há sobrecapacidade instalada.

Por seu lado, o Banco Central da Índia e o Regulador dos Mercados Financeiros informou que o país passará a permitir, a partir de 15 de janeiro, que investidores individuais estrangeiros possam adquirir ações nos mercados bolsistas locais. Esta decisão já tinha sido avançada como estando em estudo em outubro de 2010 e foi confirmada em novembro passado por R. Gopalan, secretário de assuntos económicos no Ministério das Finanças. O objectivo é alargar o segmento dos investidores, atrair mais fundos estrangeiros e reduzir a volatilidade do mercado bolsista indiano. No ano passado, os investidores estrangeiros alienaram cerca de 500 milhões de dólares em ações. A Índia não quer que isso volte a acontecer.

Bolsas mundiais perdem €4 biliões em 2011. Foi este o valor do crash. A capitalização bolsista mundial caiu de 54 biliões de dólares para 48,9 biliões entre dezembro de 2010 e dezembro de 2011. O índice mundial das bolsas desceu 9,4% nesses doze meses. Ouro e barril de Brent valorizaram-se, mas preço da prata acabou por cair.

Depois de dois anos de recuperação bolsista em 2009 e 2010, o índice mundial das bolsas (MSCI AC World Index) voltou ao vermelho, caiu 9,4% entre o final de 2010 e o final de 2011.

No pico da crise financeira, as bolsas mundiais perderam 46,5% do seu valor ao longo de 2008, eliminando cerca de 28,3 biliões de dólares (28.300 mil milhões de dólares, ou 28,3 triliões na designação norte-americana). Ao longo de 2011 perderam 5,1 biliões de dólares, cerca de €4 biliões. O “urso” regressou, mas a “limpeza” foi muito inferior à derrocada de 2008.

O sector financeiro cotado perdeu 21,5% da sua capitalização bolsista em 2011, revelando onde se deu o maior impacto da crise.

Também o preço da onça de prata caiu 9,7% entre o final de 2010 e o final de 2011, depois de alguma euforia no primeiro semestre, tendo chegado a 48,58 dólares por onça (não longe do máximo histórico de 49,45 dólares dos anos 1980).

Pelo contrário, a onça de ouro viu o seu preço aumentar 10,2% e o barril de Brent valorizou-se 13%. No entanto, o valor de fecho da onça de ouro a 30 de dezembro de 2011 foi de 1566,8 dólares, longe do pico de 1889,70 dólares (em valor de fecho diário) no verão. No caso do barril de Brent, apesar do aumento, não se verificou um novo choque petrolífero, com um disparo como o do verão de 2008.

A Itália não conseguiu baixar a pressão sobre a dívida soberana. O ano fechou com os juros dos títulos a 10 anos em 7,11%. Há um ano, fechara em 4,82%. Termina em 10º lugar no “clube da bancarrota”.

Apesar dos leilões de dívida realizados pelo Departamento do Tesouro em Roma, nas últimas semanas, terem corrido bem, segundo os analistas, e das intervenções do Banco Central Europeu diretamente no mercado secundário e indiretamente com as linhas de liquidez a 3 anos aos bancos (potenciando a aquisição de títulos de dívida soberana), as yields (juros) dos títulos do Tesouro (BTP) a 10 anos no mercado secundário fecharam o ano acima do limiar crítico dos 7%, segundo dados da Bloomberg.

A 31 de dezembro de 2010, as yields dos BTP a 10 anos fecharam em 4,82%. Doze meses depois, subiram para 7,11%, um aumento de 47,5%. Não foi um disparo tão significativo, como no caso grego (cujos juros aumentaram180%) ou português (102%), mas o seu impacto na zona euro é maior, pois a Itália é a terceira economia da união monetária, um dos seus pilares.

A probabilidade de incumprimento (default) da dívida italiana aumentou 80% em doze meses. No final de 2010, situava-se em 19,32% e a Itália não integrava o “clube da bancarrota” (o TOP 10 dos países com maior risco de default), segundo dados da CMA DataVision. A 30 de dezembro de 2011, o risco de incumprimento subiu para 34,79% e o país ocupa o 10º lugar daquele “clube”.

O caso italiano acabou por ser uma surpresa. No final de 2010, era a Espanha que estava na berlinda nos mercados da dívida ocupando o 9º lugar no “clube da bancarrota”. A Itália acabaria por ultrapassar a Espanha na degradação da situação de crédito. “No início de 2011, a Itália estava claramente longe do epicentro da crise da zona euro. As yields estavam abaixo de 5% e os leilões de emissão de dívida pelo Tesouro eram seguros e garantidos. Hoje, a Itália é o grande doente da zona euro. O grande desafio para o começo de 2012 vai ser conseguir manter as yields abaixo dos 7% e realizar com êxito os leilões de dívida logo no primeiro trimestre que deverão atingir os €30 mil milhões”, refere-nos, em jeito de balanço, Fabrizio Goria, editor do Linkiesta.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) estaria a pressionar o comité de credores privados da dívida grega a aceitar um “corte de cabelo” (hair cut, na designação técnica) que poderá chegar aos 65% do valor líquido atual dessa dívida, segundo noticiou a agência Bloomberg na quinta-feira.

Um corte dessa dimensão no valor líquido atual em mão de credores privados significaria um abate de mais de €130 mil milhões nos €206 mil milhões em dívida a privados. Os restantes €70 mil milhões seriam trocados por novos títulos com um cupão de 5%, que se regeriam pela lei inglesa, e teriam o mesmo estatuto de senioridade que as dívidas de Atenas à troika de emprestadores envolvidos nos dois planos de resgate.

Recorde-se que o hedge fund Veja Asset Management saiu, recentemente, da negociação por não aceitar um “corte de cabelo” superior a 50% no valor líquido atual.

O Japão foi o maior credor do mundo em 2010, em termos líquidos, ou seja diminuindo aos ativos detidos no estrangeiro as responsabilidades sobre o estrangeiro, segundo o relatório mais recente do McKinsey Global Institute sobre a geografia dos mercados de capital globais.

Apesar de ser número quatro em ativos detidos no estrangeiro, vindo a seguir aos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, o Japão detém uma situação líquida de mais de 3 biliões de dólares (3000 mil milhões, 3 triliões na designação americana). É o líder mundial. Em segundo lugar, está a China, com uma situação líquida de cerca de 2,2 biliões de dólares, apesar de não estar entre os cinco que mais investem no mundo.

Em termos de credores líquidos, a classificação por ordem decrescente em dólares é a seguinte: Japão, com 3 biliões; China com 2,19 biliões; Alemanha com 1,2 biliões; Arábia Saudita com 882 mil milhões; Suíça com 698 mil milhões; Hong Kong com 691 mil milhões; Taiwan com 626 mil milhões; Emirados Árabes Unidos com 585 mil milhões; Singapura com 492 mil milhões; e Noruega com 360 mil milhões. O peso da Ásia é esmagador nesta geografia. Na Europa, um polo financeiro global, a Suíça, e um exportador líquido, a Noruega.

Convém referir que o Japão é o país com a maior dívida pública em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), com um nível superior a 220%, mas essa dívida de 11,6 biliões de dólares (11600 mil milhões) é em 90% detida por japoneses (bancos, empresas e aforradores locais).

A lista dos maiores devedores, em termos líquidos, é encabeçada pelos Estados Unidos, com um saldo negativo de mais de 3 biliões de dólares, como se fosse a imagem invertida do Japão. O que representa 21% do PIB norte-americano. Em segundo lugar, surge a Espanha com um saldo negativo de 1,2 biliões, o que representa 91% do PIB espanhol. Nas posições seguintes, abaixo de 800 mil milhões, estão Austrália, Brasil, Itália, Reino Unido, México, Grécia, França e Polónia.

O presidente do Banco Central Europeu admitiu hoje, numa audição no Parlamento Europeu, que a proposta de novo tratado saída da última cimeira europeia “poderia ter sido muito melhor”.

Para muitos analistas foi uma frase mortal para a proposta de tratado em torno do “compacto orçamental” saída da última cimeira europeia de 8 e 9 de dezembro. Sobretudo da boca de quem veio.

Mário Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), respondendo no Parlamento Europeu, numa audição no Comité de Assuntos Económicos e Monetários, hoje em Bruxelas, afirmou que o texto da proposta saído da cimeira “poderia ter sido muito melhor”.

Admitiu, ainda, que as obrigações europeias (mais conhecidas pela designação inglesa de eurobonds) façam sentido numa união orçamental.

Secundando a “desdramatização” já feita pelo presidente francês Nicolas Sarkozy afirmou também que um corte de notação da dívida francesa não será “uma coisa terrível”. Mas, admite, que esse corte, se acontecer, não venha sozinho, mas acompanhado de outros cortes de rating.

Referindo-se às agências de notação, referiu que as notações que elas emitem são apenas um dos elementos que leva em consideração. “Não nos baseamos mecânicamente nessas avaliações”, frisou. Por isso mesmo, explicou, o BCE resolveu, temporariamente, suspender a aplicação de um mínimo de notação requerido no caso de instrumentos de dívida emitidos ou garantidos por alguns governos da zona euro que estejam a aplicar planos de resgate.

No conjunto, as bolsas mundiais caíram todos os dias da semana de 14 a 18 de novembro. A queda acumulada foi de 4% nos cinco dias de negociação, tendo em conta o índice MSCI AC World Index.

As perdas acumuladas foram de cerca de 1,45 biliões de euros (€1450 mil milhões, o equivalente a 2 triliões de dólares na designação usada nos EUA), se se tiver em conta o número da World Federation of Exchanges para a capitalização bolsista mundial no final de outubro.

O sector financeiro cotado caiu mais do que o índice global: 5,5%, segundo o índice MSCI AC World Financials Index.

Desde o final de 2010, as bolsas mundiais já perderam até sexta-feira passada 11% da sua capitalização, e o sector financeiro quebrou 23%. A perda de capitalização global desde o final do ano passado foi de €4,4 biliões (€4400 mil milhões, o equivalente a 6 triliões de dólares na designação nos EUA).
Wall Street e City caem menos

Contudo, esta derrocada não é equitativamente distribuída pelas bolsas. O analista Doug Short acompanha, semanalmente, em dshort.com, a evolução de 8 índices ligados às principais bolsas do mundo.

Segundo a análise comparativa, Wall Street e a City londrina são as praças que têm resistido melhor à derrocada desde o início do ano. As principais bolsas mundiais com maiores quebras são a de Paris e a de Mumbai (Índia).

As quebras desde ínício do ano, por ordem decrescente, nos oito índices são as seguintes: 21,23% CAC 40 (França); 20,17% BSE Sensex (Índia); 19,73% Hang Seng (Hong Kong); 18,13% Nikkei 225 (Japão); 16,11% DAX (Alemanha); 13,94% Xangai (China); 9,10% FTSE 100 (Reino Unido); e 3,34% S&P 500 (EUA).

O crash de 2011 prossegue. O “urso” não larga as bolsas.

Acto I – Enquanto, se aguarda que o ainda primeiro-ministro Sílvio Berlusconi apresente a sua demissão ao presidente Giorgio Napolitano, uma multidão de manifestantes continua a gritar “Demissão” em frente ao Palácio Chigi (sede do conselho de ministros).

Outra concentração de manifestantes está já em frente do Palácio do Quirinale, sede da Presidência da República, em ambiente festivo, ouvindo-se em fundo o “Aleluia”. A multidão assobiava, gritando “Demissão! Demissão!” e “Palhaço! Palhaço!”. Surgiram, entretanto, alguns cortejos de viaturas a buzinar festivamente. À sua chegada às 19h58 (hora de Portugal), o coro de insultos da multidão foi ensurdecedor.
Giorgio Napolitano já promulgou as leis aprovadas hoje à tarde na Câmara de Deputados respeitantes ao pacote de austeridade e reformas exigido pela União Europeia e Banco Central Europeu.

Entretanto, da reunião do partido de Berlusconi, o Popolo della Libertà, saiu a decisão, por “unanimidade”, de que só apoiará um governo de Mário Monti, se o programa for limitado às medidas previstas na carta de exigências da União Europeia, segundo o jornal La Repubblica.

Acto II – O Presidente Giorgio Napolitano deverá prosseguir em Roma as consultas aos grupos políticos até às 17 horas (de Portugal).

Napolitano começou por receber no Palácio Quirinale os presidentes do Senado e da Câmara de Deputados, respetivamente Renato Schifani e Gianfranco Fini. Seguem-se os pequenos partidos e os grandes ao longo do dia.

O nome mais falado para ser indigitado como novo primeiro-ministro é, desde a semana passada, Mario Monti, que recolheria o apoio do G2 da zona euro – conhecido por Merkozy -, do Banco Central Europeu (Monti reuniu-se ontem com Mario Draghi, outro italiano que é o atual presidente do banco central), e de diversas correntes políticas em Itália.

Conforme noticiámos, o próprio primeiro-ministro Berlusconi, agora chefiando um governo de gestão, ao entregar ontem o seu pedido de demissão a Napolitano, indicou a preferência do seu partido, o Popolo dela Libertà (PdL), por Monti. Isso mesmo declarava a nota da presidência do PdL ontem divulgada à noite, minutos antes de Berlusconi se dirigir ao Palácio do Quirinale.

Entre os pesos pesados da política italiana, a Lega Nord (Liga do Norte pela Independência da Padânia), chefiada por Umberto Bossi, já declarou, hoje de manhã, que não apoiará um governo Monti. À saída do Quirinale, a delegação declarou: “A Lega será oposição, uma oposição séria, responsável e em defesa do nosso território”.

Mas nem o programa de austeridade é de implementação simples, nem o ecossistema de má governação italiano é fácil de remover.

Quem é Monti

Mario Monti é um economista e presidente da Universidade Bocconi desde 1994, onde se licenciou quando jovem. Graduou-se na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, onde foi orientado pelo Nobel James Tobin (o da famosa taxa que foi batizada com o seu nome).

Entre 1995 e 2004 fez carreira como Comissário Europeu. Em 1994 foi indicado para Comissário Europeu precisamente pelo primeiro governo chefiado por Berlusconi. A partir do ano seguinte, foi responsável, na Comissão Europeia, pelo posto do Mercado Interno, Serviços Financeiros e integração financeira, Alfandegas e Impostos. Reconfirmado em 1999, passou a ser responsável pela pasta europeia da Concorrência, onde ficou conhecido como “Super Mário” enfrentando a Microsoft, e depois bloqueando a fusão entre a GE e a Honeywell. O segundo governo Berlusconi não o reconfirmou em 2004.

Em 2010, Durão Barroso, enquanto presidente da Comissão Europeia, encomendou-lhe o estudo sobre o futuro do mercado único, onde se propuseram medidas para a sua concretização plena. Em setembro desse ano, Monti apoiou a iniciativa do grupo Spinelli, no sentido da federalização.

Monti é ainda presidente do think tank Bruegel, membro da Comissão Trilateral e do Grupo de Bilderberg, duas poderosas redes de influência global.

Na semana passada, durante a crise política, Napolitano nomeou-o Senador vitalício.

Como curiosidade, o economista é um egiptólogo, patrono do Museu Egípcio de Turim, que é especializado em arqueologia daquela civilização da Antiguidade.

Acto III -O economista e académico Mario Monti foi finalmente indigitado primeiro-ministro pelo presidente Giorgio Napolitano.

Três economistas italianos consideraram Monti “o homem certo no lugar certo no momento certo”.
“Homem de grande competência e rigor”, diz-nos Alberto Bisin, professor na Universidade de Nova Iorque, que prossegue: “Terá, certamente, a capacidade para enfrentar os problemas económicos do país. Espero que tenha a coragem para o fazer e o apoio do sistema político”. A sua primeira tarefa, diz Bisin, são “as reformas estruturais”.

Luigi Guiso, professor de Economia do Instituto Universitário Europeu, em Florença, acha que Monti é inclusive “o único que neste contexto particular pode ajudar Itália a readquirir realismo e credibilidade”. “Noutros momentos, um governo liderado por Monti teria sido igualmente desejável e provavelmente teria evitado a emergência dos problemas que vivemos nos últimos meses”, acrescenta.
Guiso antevê que os próprios mercados financeiros reagirão bem a esta escolha de Napolitano.

Mesmo sem Monti ter sido indigitado, apenas o agitar do seu nome como “primo-ministeriável” ajudou a intervenção do Banco Central Europeu (BCE) no mercado secundário dos títulos soberanos na semana passada, travando a escalada das yields dos títulos do Tesouro. “Isso é também reflexo da confiança que os mercados têm em Monti”, afirma o professor de Florença. “Espero, por isso, que a própria intervenção do BCE em breve deixe de ser necessária. Sabemos que é útil no curto prazo, mas que apenas dá alívio temporário. Se o país não for capaz de reganhar a confiança dos mercados, não haverá intervenção do BCE que evite que o prémio de risco cresça”, acrescenta.

Eleições antecipadas ou só no fim da legislatura?

Por seu lado, para Marco Fortis, professor na Universidade Católica de Milão, “a sua carreira profissional no campo académico e o seu nível internacional como ex-comissário europeu são uma sólida garantia do seu valor”. “Se os partidos políticos lhe derem apoio, pode liderar uma equipa de ministros técnica e politicamente preparados para cumprir com as metas orçamentais e de dívida definidas pela Comissão Europeia”.

Fortis considera mesmo que Monti pode ir mais além: “Ele conseguirá, certamente, melhorar ainda mais o programa de estabilidade e arranjará maneira de reduzir inclusive até zero os 1,3% remanescentes do défice público previsto para o final do programa de ajustamento. Estou convencido que Monti dará um impulso á liberalização dos serviços públicos e das ordens profissionais e reduzirá a carga fiscal sobre as empresas e os trabalhadores”.

Alberto Bisin opina inclusive que “não vê razões para colocar um limite de tempo” ao governo saído desta crise. “Esperámos tantos anos por um governo competente”, conclui.

Para Luigi Guiso, “seria desejável que o governo de Monti pudesse durar até ao final desta legislatura [2013], para dar ao governo um período de tempo razoável para implementar as reformas, que são tudo menos fáceis de concretizar”. “Mas há sempre uma diferença entre o que é desejável e o que é possível”, remata.
Está, de facto, por clarificar se este governo etiquetado de “técnico” será interino, como o chefiado por Lucas Papademos em Atenas, até eleições em fevereiro de 2012, ou se o seu mandato será mais alargado.

O défice de governação

No entanto, a missão de Monti não será um passeio triunfal do género cheguei, vi e venci. O “berlusconismo” é uma peça de um ecossistema mais vasto minado por um cancro, como nos sublinha Cinzia Alcidi, outra economista italiana, do Centre for European Policy Studies, um think tank europeu sediado em Bruxelas.

O cancro é o que, eufemisticamente, poderíamos designar por “défice de governação”. Na última década, assistiu-se em Itália a uma deterioração da governação, como revela o Worldwide Governance Indicators, do Banco Mundial. A Itália é o pior país da zona euro nestes indicadores – corrupção, funcionamento do estado de direito e eficácia da administração pública. “Trabalhar nesta frente será mais benéfico do que qualquer estratégia baseada apenas nas ditas reformas estruturais”, conclui Cinzia Alcidi.

Este ecossistema de governação chegou a um ponto de encruzilhada. É mais uma vítima da onda das crises soberanas europeias.

Para Cinzia Alcidi e Marco Fortis, a economia real italiana tem vários pontos fortes que a distinguem na Europa. Lidera, na zona euro, em três sectores industriais de exportação e é número dois, depois da Alemanha, em outros quatro. Fruto dessa dinâmica exportadora, o país tem o segundo maior saldo líquido de exportação de produtos manufaturados na zona euro, depois da Alemanha, e o mais baixo défice externo nos cinco países “periféricos”. A riqueza financeira das famílias em termos líquidos e em percentagem do PIB é superior (178%) à situação na Alemanha (132%) e em França (137%). A riqueza média das famílias (financeira e não financeira) é 1,7 vezes superior à média de França e 2,7 vezes superior à da Alemanha.

O problema da quase estagnação da economia italiana – que cresceu, em média, 0,7% ao ano, entre 1999 e 2010 – centra-se naquele ecossistema.

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