Acto I – Enquanto, se aguarda que o ainda primeiro-ministro Sílvio Berlusconi apresente a sua demissão ao presidente Giorgio Napolitano, uma multidão de manifestantes continua a gritar “Demissão” em frente ao Palácio Chigi (sede do conselho de ministros).
Outra concentração de manifestantes está já em frente do Palácio do Quirinale, sede da Presidência da República, em ambiente festivo, ouvindo-se em fundo o “Aleluia”. A multidão assobiava, gritando “Demissão! Demissão!” e “Palhaço! Palhaço!”. Surgiram, entretanto, alguns cortejos de viaturas a buzinar festivamente. À sua chegada às 19h58 (hora de Portugal), o coro de insultos da multidão foi ensurdecedor.
Giorgio Napolitano já promulgou as leis aprovadas hoje à tarde na Câmara de Deputados respeitantes ao pacote de austeridade e reformas exigido pela União Europeia e Banco Central Europeu.
Entretanto, da reunião do partido de Berlusconi, o Popolo della Libertà, saiu a decisão, por “unanimidade”, de que só apoiará um governo de Mário Monti, se o programa for limitado às medidas previstas na carta de exigências da União Europeia, segundo o jornal La Repubblica.
Acto II – O Presidente Giorgio Napolitano deverá prosseguir em Roma as consultas aos grupos políticos até às 17 horas (de Portugal).
Napolitano começou por receber no Palácio Quirinale os presidentes do Senado e da Câmara de Deputados, respetivamente Renato Schifani e Gianfranco Fini. Seguem-se os pequenos partidos e os grandes ao longo do dia.
O nome mais falado para ser indigitado como novo primeiro-ministro é, desde a semana passada, Mario Monti, que recolheria o apoio do G2 da zona euro – conhecido por Merkozy -, do Banco Central Europeu (Monti reuniu-se ontem com Mario Draghi, outro italiano que é o atual presidente do banco central), e de diversas correntes políticas em Itália.
Conforme noticiámos, o próprio primeiro-ministro Berlusconi, agora chefiando um governo de gestão, ao entregar ontem o seu pedido de demissão a Napolitano, indicou a preferência do seu partido, o Popolo dela Libertà (PdL), por Monti. Isso mesmo declarava a nota da presidência do PdL ontem divulgada à noite, minutos antes de Berlusconi se dirigir ao Palácio do Quirinale.
Entre os pesos pesados da política italiana, a Lega Nord (Liga do Norte pela Independência da Padânia), chefiada por Umberto Bossi, já declarou, hoje de manhã, que não apoiará um governo Monti. À saída do Quirinale, a delegação declarou: “A Lega será oposição, uma oposição séria, responsável e em defesa do nosso território”.
Mas nem o programa de austeridade é de implementação simples, nem o ecossistema de má governação italiano é fácil de remover.
Quem é Monti
Mario Monti é um economista e presidente da Universidade Bocconi desde 1994, onde se licenciou quando jovem. Graduou-se na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, onde foi orientado pelo Nobel James Tobin (o da famosa taxa que foi batizada com o seu nome).
Entre 1995 e 2004 fez carreira como Comissário Europeu. Em 1994 foi indicado para Comissário Europeu precisamente pelo primeiro governo chefiado por Berlusconi. A partir do ano seguinte, foi responsável, na Comissão Europeia, pelo posto do Mercado Interno, Serviços Financeiros e integração financeira, Alfandegas e Impostos. Reconfirmado em 1999, passou a ser responsável pela pasta europeia da Concorrência, onde ficou conhecido como “Super Mário” enfrentando a Microsoft, e depois bloqueando a fusão entre a GE e a Honeywell. O segundo governo Berlusconi não o reconfirmou em 2004.
Em 2010, Durão Barroso, enquanto presidente da Comissão Europeia, encomendou-lhe o estudo sobre o futuro do mercado único, onde se propuseram medidas para a sua concretização plena. Em setembro desse ano, Monti apoiou a iniciativa do grupo Spinelli, no sentido da federalização.
Monti é ainda presidente do think tank Bruegel, membro da Comissão Trilateral e do Grupo de Bilderberg, duas poderosas redes de influência global.
Na semana passada, durante a crise política, Napolitano nomeou-o Senador vitalício.
Como curiosidade, o economista é um egiptólogo, patrono do Museu Egípcio de Turim, que é especializado em arqueologia daquela civilização da Antiguidade.
Acto III -O economista e académico Mario Monti foi finalmente indigitado primeiro-ministro pelo presidente Giorgio Napolitano.
Três economistas italianos consideraram Monti “o homem certo no lugar certo no momento certo”.
“Homem de grande competência e rigor”, diz-nos Alberto Bisin, professor na Universidade de Nova Iorque, que prossegue: “Terá, certamente, a capacidade para enfrentar os problemas económicos do país. Espero que tenha a coragem para o fazer e o apoio do sistema político”. A sua primeira tarefa, diz Bisin, são “as reformas estruturais”.
Luigi Guiso, professor de Economia do Instituto Universitário Europeu, em Florença, acha que Monti é inclusive “o único que neste contexto particular pode ajudar Itália a readquirir realismo e credibilidade”. “Noutros momentos, um governo liderado por Monti teria sido igualmente desejável e provavelmente teria evitado a emergência dos problemas que vivemos nos últimos meses”, acrescenta.
Guiso antevê que os próprios mercados financeiros reagirão bem a esta escolha de Napolitano.
Mesmo sem Monti ter sido indigitado, apenas o agitar do seu nome como “primo-ministeriável” ajudou a intervenção do Banco Central Europeu (BCE) no mercado secundário dos títulos soberanos na semana passada, travando a escalada das yields dos títulos do Tesouro. “Isso é também reflexo da confiança que os mercados têm em Monti”, afirma o professor de Florença. “Espero, por isso, que a própria intervenção do BCE em breve deixe de ser necessária. Sabemos que é útil no curto prazo, mas que apenas dá alívio temporário. Se o país não for capaz de reganhar a confiança dos mercados, não haverá intervenção do BCE que evite que o prémio de risco cresça”, acrescenta.
Eleições antecipadas ou só no fim da legislatura?
Por seu lado, para Marco Fortis, professor na Universidade Católica de Milão, “a sua carreira profissional no campo académico e o seu nível internacional como ex-comissário europeu são uma sólida garantia do seu valor”. “Se os partidos políticos lhe derem apoio, pode liderar uma equipa de ministros técnica e politicamente preparados para cumprir com as metas orçamentais e de dívida definidas pela Comissão Europeia”.
Fortis considera mesmo que Monti pode ir mais além: “Ele conseguirá, certamente, melhorar ainda mais o programa de estabilidade e arranjará maneira de reduzir inclusive até zero os 1,3% remanescentes do défice público previsto para o final do programa de ajustamento. Estou convencido que Monti dará um impulso á liberalização dos serviços públicos e das ordens profissionais e reduzirá a carga fiscal sobre as empresas e os trabalhadores”.
Alberto Bisin opina inclusive que “não vê razões para colocar um limite de tempo” ao governo saído desta crise. “Esperámos tantos anos por um governo competente”, conclui.
Para Luigi Guiso, “seria desejável que o governo de Monti pudesse durar até ao final desta legislatura [2013], para dar ao governo um período de tempo razoável para implementar as reformas, que são tudo menos fáceis de concretizar”. “Mas há sempre uma diferença entre o que é desejável e o que é possível”, remata.
Está, de facto, por clarificar se este governo etiquetado de “técnico” será interino, como o chefiado por Lucas Papademos em Atenas, até eleições em fevereiro de 2012, ou se o seu mandato será mais alargado.
O défice de governação
No entanto, a missão de Monti não será um passeio triunfal do género cheguei, vi e venci. O “berlusconismo” é uma peça de um ecossistema mais vasto minado por um cancro, como nos sublinha Cinzia Alcidi, outra economista italiana, do Centre for European Policy Studies, um think tank europeu sediado em Bruxelas.
O cancro é o que, eufemisticamente, poderíamos designar por “défice de governação”. Na última década, assistiu-se em Itália a uma deterioração da governação, como revela o Worldwide Governance Indicators, do Banco Mundial. A Itália é o pior país da zona euro nestes indicadores – corrupção, funcionamento do estado de direito e eficácia da administração pública. “Trabalhar nesta frente será mais benéfico do que qualquer estratégia baseada apenas nas ditas reformas estruturais”, conclui Cinzia Alcidi.
Este ecossistema de governação chegou a um ponto de encruzilhada. É mais uma vítima da onda das crises soberanas europeias.
Para Cinzia Alcidi e Marco Fortis, a economia real italiana tem vários pontos fortes que a distinguem na Europa. Lidera, na zona euro, em três sectores industriais de exportação e é número dois, depois da Alemanha, em outros quatro. Fruto dessa dinâmica exportadora, o país tem o segundo maior saldo líquido de exportação de produtos manufaturados na zona euro, depois da Alemanha, e o mais baixo défice externo nos cinco países “periféricos”. A riqueza financeira das famílias em termos líquidos e em percentagem do PIB é superior (178%) à situação na Alemanha (132%) e em França (137%). A riqueza média das famílias (financeira e não financeira) é 1,7 vezes superior à média de França e 2,7 vezes superior à da Alemanha.
O problema da quase estagnação da economia italiana – que cresceu, em média, 0,7% ao ano, entre 1999 e 2010 – centra-se naquele ecossistema.