O novo capital financeiro


O analista financeiro Peter Cohan voltou a insistir na sua proposta radical para os Estados Unidos. O crédito à economia real caiu 3% num ano e os bancos aplicaram mais 14,7% em títulos. A muito prestigiada economista Laura Tyson, este fim de semana, propôs a criação de um banco para as infraestruturas.

Desde o pânico financeiro de 2008 que o analista financeiro Peter Cohan vem insistindo no blogue DailyFinancial na necessidade de passar a um Plano B – o de permitir e apoiar a criação, de raiz, de novos bancos no sistema financeiro americano.

Bancos aliviados do peso do “lixo tóxico”, da ameaça de passarem para a “lista negra” de falências e libertos dos estratagemas usados pelo atual sistema bancário que “drenam” o dinheiro barato (aliás com juros negativos, em termos reais) que a Reserva Federal disponibiliza em nome dos cidadãos.

“Desde a crise financeira, que os contribuintes americanos puseram 23,7 biliões de dólares em dinheiro e em garantias para salvar as instituições financeiras com a ideia de que se apoiaria a economia e se geraria emprego. Os resultados estão por ver”, diz Peter Cohan. Recordando os últimos dados, o analista sublinha: “O crescimento neste segundo trimestre foi de 1,6%, abaixo do limiar dos 2,5% que o Prémio Nobel Paul Krugman considera ser indispensável para impedir a taxa de desemprego de subir acima dos 9,5% atuais. A economia real não está a responder”.

Crédito total baixou 3%

O quantitative easing da Reserva Federal, facilitando liquidez aos bancos a juros baixos, quase próximos de 0% em termos nominais, mas, em termos reais, a custo negativo (pois a inflação é superior), serviram para tapar os buracos do “lixo tóxico”, aumentar reservas, inclusive para especulação através dos departamentos de negociação de alta-frequência, nomeadamente em commodities, e para reforçarem aplicações em títulos do Tesouro. Os títulos detidos pelo sistema bancário – 61% dos quais são governamentais – subiram 14,7% entre o primeiro trimestre de 2009 e o primeiro trimestre de 2010. Em compensação, diz Cohan, o crédito total baixou 3%.

Haverá saída para este círculo vicioso? Cohan acha que sim: criando novos bancos de raiz. A ideia não é politicamente correta e foi muito criticada. Mas algumas vozes dentro da mesma onda surgiram, entretanto.

Um cálculo do economista Paul Romer parece dar razão a Cohan: se o governo apoiasse a capitalização destes novos bancos com 350 mil milhões de dólares (menos de 1,5% do que já colocou no sistema financeiro atual) isso poderia gerar 3,5 biliões em capacidade de crédito à economia real.

A proposta de Laura Tyson

Por sua vez, este domingo, a economista Laura Tyson, que presidiu ao conselho de assessores económicos do presidente Clinton, sugeriu que se criasse um banco para o investimento em infraestruturas. O seu objetivo seria financiar 1 bilião de dólares para investimentos adicionais em infraestruturas, como em comboio de alta velocidade interestadual, projetos de autoestradas com portagens e melhorias de aeroportos, envolvendo co-investidores privados.

Peter Cohan admite, que no caso da Europa, situações como a da Irlanda, com o sistema financeiro mergulhado em “lixo tóxico”, ou da Grécia, com uma banca muito frágil, pudessem seguir a mesma linha.

Quase um mês passado sobre a divulgação otimista dos resultados dos testes de stresse ao sistema bancário europeu, quase todo o grupo designado por PIIGS viu as probabilidades de default a cinco anos subirem. A exceção foi Portugal até hoje de manhã. Nas yields houve um ganho generalizado, à exceção da Grécia, que bateu um recorde. A Irlanda reentrou hoje no TOP 10 mundial do default, atualizado diariamente pela CMA DataVision, e bateu o seu anterior recorde em probabilidade de default, chegando perto dos 23%.

Portugal, Irlanda, Itália e Espanha foram quinta-feira (19/08) os países com maior aumento diário de probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos, segundo o monitor da CMA Datavision que abrange mais de seis dezenas de países cujas dívidas são seguradas no mercado especulativo dos credit default swaps (cds).

Também a Grécia – que continua em 2º lugar no clube dos países com maior probabilidade de bancarrota num prazo de cinco anos – manteve a tendência altista que se tem manifestado desde 5 de agosto em todo o grupo dos PIIGS (acrónimo humorístico em inglês para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), com alguns ziguezagues.

Atenas bateu hoje o recorde nas yields (remunerações pagas pelos estados aos tomadores) das obrigações gregas a cinco anos, subindo para 11,56% – mais de 10 pontos percentuais acima das yields pagas aos tomadores das ‘Bunds’ alemãs, que servem de referência na zona euro.

Hoje, o mercado dos cds abriu, de novo, em alta para o grupo dos cinco da zona euro. No fecho da sessão de sexta-feira, a Grécia estava acima dos 52%, a Irlanda a subir, de novo, perto dos 23% (entrando de, novo, no TOP 10 mundial do risco de default) e Portugal acima dos 21%. A Espanha e a Itália, também, sobem, ainda que em patamares inferiores. Mantém-se uma sincronia de aumentos nos PIIGS.

A exceção portuguesa

Apesar do otimismo introduzido pela divulgação dos testes de stresse ao sistema bancário europeu em 23 de julho, praticamente um mês depois verifica-se que quase todo o grupo dos PIIGS viu as suas probabilidades de default subirem num horizonte de cinco anos.

As que mais subiram foram a grega e a irlandesa, o que conduziu o ‘tigre celta’ a ultrapassar Portugal desde 10 de agosto, tendo inclusive entrado no TOP 10 mundial do risco de default a 16 de agosto. Saiu, no entanto, desse clube logo no dia seguinte, mas reentrou hoje, estando já no 8º lugar. A exceção a este agravamento foi Portugal que manteve a probabilidade de default inalterada até hoje de manhã.

Os benefícios do otimismo introduzido pelos testes de stresse observam-se nas yields das obrigações emitidas por Portugal, Irlanda e Espanha que baixaram desde 23 de julho, com destaque, uma vez mais, para o Tesouro lisboeta que assistiu ao maior desagravamento. As yields de Obrigações do Tesouro português a 10 anos baixaram de 5,55% em 23 de julho para 5,18% na quinta-feira. A Irlanda viu as yields das suas obrigações subirem acima das portuguesas, estando com as suas condições de crédito mais agravadas. Na sexta-feira, as yields a 10 anos subiram para 5,22% no caso português e para 5,30% no caso irlandês.

Fora dos PIIGS, o país “intervencionado” pelo FMI desde 2008 que mais beneficiou com o otimismo dos testes de stresse foi a Hungria, apesar da mudança de governo. A probabilidade de default baixou em mais de 1 ponto percentual (retirando-a da fronteira do clube da bancarrota) e as yields das suas obrigações a 10 anos baixaram 0,78 pontos percentuais. As yields das obrigações húngaras mantêm-se, contudo, num patamar muito superior ao irlandês ou português. Fecharam a semana nos 6,62%.

Controvérsia sobre os testes de stresse

Três dias depois da divulgação pelo Banco Central Europeu dos testes de stresse a 91 bancos do sistema financeiro europeu, o Citi divulgou, a 26 de julho, os resultados de uma avaliação similar, ainda que com uma malha mais apertada.

Aplicando os mesmos critérios do BCE, o Citi divulgava 24 bancos em dificuldades em 2011, em vez de 9. Entre os 15 adicionais estavam 5 bancos gregos, mais Cajas e o Banco Pastor no nosso vizinho, e o Allied Irish Banks PLC, o banco com uma situação “tóxica” mais grave no ‘tigre celta’.

Apertando ainda mais a malha, considerando um teste na base de um rácio mais exigente do que o do BCE, o Citi revelava que 57 bancos dos 91 teriam dificuldades em 2011 em enfrentar um cenário de choque mantendo um rácio de capital superior a 6% (no equity Tier 1), e inclusive 23 mostravam um rácio negativo, ou seja um sinal de insolvência.

Neste teste mais exigente não passaria nenhum dos bancos portugueses, nem irlandeses nem gregos. No entanto, nenhum dos bancos portugueses estaria numa situação de insolvência. Em Espanha apenas quatro (BBX, Kutxa, Santander e Unicaja) passariam os testes, três (Intesa, Unicredit e UBI) na Itália e dois (OTP e FHB) na Hungria.

Como concluía a análise feita pelo blogue Calculated Risk, a situação do sistema bancário europeu é mais frágil no caso de um evento extremo do que aparentam os resultados divulgados pelo BCE. Algo que os investidores internacionais sabem.

Apesar da situação das bolsas não ser radiante e dos analistas apontaram para a continuação do que no tecnicalês de Wall Street se designa por período de “urso” (bear), de declínio tendencial do valor das ações e do rácio P/E (preço em relação aos ganhos), o survey global da consultora McKinsey, publicado esta semana no seu McKinsey Quarterly, revela que a maioria dos quase 3000 executivos entrevistados entre 2 e 6 de agosto por todo o mundo declararam que não vão abrandar nos investimentos nem nas oportunidades de aquisição.

De facto, continuamos a assistir a grandes movimentos de consolidação em diversos setores e de operações gigantes de entrada em bolsa.

Depois da oferta pública inicial de venda (o que os americanos designam por IPO) do Banco da Agricultura chinês nas bolsas de Xangai e Hong Kong ter rendido em julho mais de 22 mil milhões de dólares – um novo recorde no Guinness das entradas em bolsa, destronando o seu colega, o Industrial and Commercial Bank of China, com 21,97 mil milhões em 2006 -, a General Motors, intervencionada pelo Estado americano (em 61% das suas ações), anunciou a sua entrada nas bolsas de Nova Iorque e de Toronto visando financiar-se em 12 a 16 mil milhões de dólares.

Por seu lado, o grupo mineiro anglo-australiano BHP Billiton fez uma oferta pública de aquisição (OPA) hostil de cerca de 42 mil milhões de dólares sobre a canadiana Potash, número um em adubos no mundo, o que será a maior OPA do ano até à data.

Por seu lado, a suíça Novartis (nascida da fusão da Ciba e da Sandoz) quer ficar com a totalidade da Alcon (52% ainda nas mãos da Nestlé) especializada no segmento oftalmológico por 28,1 mil milhões de dólares ou mais. Será a maior operação de sempre de consolidação no mercado suíço: depois da Novartis ter adquirido à Nestlé 25% da Alcon em 2008, com os 52% agora em vista, o investimento total será de 49,7 mil milhões de dólares.

A mexicana América Móvil, de Carlos Slim, comprou em junho a Carso Global Telecom (um conglomerado mexicano de participações, por exemplo, na Telmex e Telefonos de Mexico) por 24,3 mil milhões.

Na área da energia, a francesa GDF Suez acaba de fechar a aquisição da britânica International Power por 21,5 mil milhões de dólares.

Finalmente, nestes movimentos com dois dígitos nos milhar de milhões, o grupo francês Sanofi-Aventis quer adquirir a biotecnológica bostoniana Genzyme por mais de 18 mil milhões de dólares.

A entrada em força dos investidores financeiros nos contratos de futuros nos mercados de commodities (mercadorias) está a provocar, de novo, “oscilações selvagens” nos preços e introduziu um factor de volatilidade que o analista Nathan Martin considera “trágico” para a economia real. Estes investidores são designados por “não-comerciais”, por não estarem envolvidos no negócio físico, mas apenas em operações financeiras.

Tais movimentos são encabeçados por hedge funds e divisões de aplicações financeiras de grandes bancos usando ferramentas sofisticadas de negociação (designadas como high-frequency trading, plataformas de grande poder computacional), mas em que se envolve, também, por contágio, a arraia-miúda dos especuladores atraída pelo efeito megafone das notícias nos media.

“Esta volatilidade foi ampliada desde o advento dos exchange trade funds (ETF) e de outras formas de derivados baseados em commodities. A Reserva Federal, no caso americano, com a sua política monetária de taxa básica de juros próxima de zero, inundou-nos de uma liquidez massiva que se encaminhou para estes mercados. O caso da seca na Rússia, por exemplo, apenas acicata os investidores que andam sempre à cata de oportunidades para especular. Dá-se um efeito bola de neve, com cada vez mais gente de fora a entrar, o que amplia ainda mais estes movimentos”, explica Nathan Martin, responsável pelo blogue Nathan’s Economic Edge.

Efeito aterrador

Esta multidão de investidores e a sofisticação da especulação, diz-nos Martin, “tem literalmente um efeito aterrador no planeta, pois a principal característica é uma flutuação muito viva dos preços das matérias-primas alimentares”, uma área muito sensível no nível de vida das populações nos países pobres e emergentes, onde a agroflação (inflação por via da alta de preços dos produtos alimentares) tem um peso significativo no índice de preços. E prossegue: “Estas oscilações selvagens, sem dúvida, que são muito lucrativas para os metidos no negócio da economia do ‘papel’ financeiro, mas são devastadoras para a agricultura real e para o aumento da fome mundial”.

Os dois casos típicos mais recentes de “oscilações selvagens” ocorreram com o cacau (um processo de alta e quebra desde o início do ano, com picos em Janeiro, Março, Abril e Julho) e com o próprio barril de petróleo, com variações significativas dos preços nos dois sentidos. No caso do barril da variedade Brent, o petróleo de referência na Europa, depois de ter iniciado o mês acima de 81 dólares, com uma subida no primeiro dia de negociação de Agosto no mercado spot de quase 4% e de ter prosseguido a alta até próximo dos 83 dólares, iniciou um processo em ziguezague, estando, hoje nos 76 dólares.

Por outro lado, o que está a acontecer este mês com o trigo (o maior disparo entre todas as matérias-primas agrícolas, com um aumento de 25%), o açúcar, a soja e o cobre fez regressar o fantasma do que ocorreu no verão quente de 2008, quando várias commodities atingiram picos históricos, com destaque para o petróleo, o caso, então, mais mediatizado.

Na altura, a polémica estalou sobre as razões de tal disparo súbito no primeiro semestre de 2008, seguido depois por uma queda abrupta quando estalou o pânico financeiro e se iniciou a recessão económica e a quebra do comércio internacional.

Alun H. Thomas, especialista do Fundo Monetário Internacional, juntamente com Martin Muhleisen e Malika Pant, modelizou, recentemente, o comportamento das várias variáveis envolvidas no caso do preço do petróleo. O modelo, explicado em “Peaks, Spikes and Barrels: Modeling Sharp Movements in Oil Prices” (IMF Working Paper, WP/10/186, Agosto 2010) verificou que, para além de um impacto de longo prazo da procura, sobretudo por parte das variações do consumo dos países emergentes, e de variações na oferta, sobretudo por parte dos produtores não-alinhados na OPEP, ocorreu um facto novo recentemente (um tema que já abordámos, também, noutro artigo do diário de bordo da crise).

Sincronização de movimentos

Nota-se, a partir de 2007, uma sincronização entre as variações do preço real do petróleo (avaliado em direitos de saque especiais, a unidade monetária do FMI, para neutralizar as variações do câmbio do dólar) e as decisões dos investidores não-comerciais em termos de saldo líquido das suas posições longas em contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros em commodities). [Para os interessados, o estudo apresenta um painel de gráficos, na Figura 2 – “Oil Prices: Role of Fundamentals and Speculation”, na página 9, sendo o gráfico de referência para este comentário o sexto.]

O preço sobe vertiginosamente acompanhando, a partir de certa altura, o disparo da entrada em força dos especuladores e desce quando o saldo de posições longas baixa. Esta relação não se observou em situações anteriores. “Houve claramente uma mudança nos portefólios financeiros para um investimento massivo em commodities”, afirma Alun Thomas, corroborando a opinião de Nathan Martin.

Segundo dados do Barclay’s Capital Commodity Research, os activos financeiros em commodities sob gestão (AUM, na designação técnica em inglês) passaram de 70 mil milhões de dólares em 2005 para 270 mil milhões no segundo trimestre de 2008. Depois caíram a pique no segundo semestre de 2008 e voltaram a subir em 2009, situando-se no final desse ano nos 263 mil milhões, quase o mesmo do que no Verão quente do ano anterior. Em 2010 continuaram a subir para valores ainda mais altos tendo em Abril chegado próximo dos 294 mil milhões. No final do segundo semestre terão baixado para 292 mil milhões.

Segundo outros cálculos estariam nos 264 mil milhões no final do segundo semestre deste ano. Mesmo assim, o patamar em que se encontram continua a ser quase 4 vezes mais do que há cinco anos, apesar de longe do pico de 310 mil milhões no segundo trimestre de 2008.

No entanto, Alun Thomas explica que, desta vez, “não espera um padrão de disparo dos preços [como no primeiro semestre de 2008], mas um aumento gradual à medida que a economia mundial retome o crescimento”. Mas deixa um “se”: “É evidente que se houver uma repetição da recessão, o preço do petróleo pode oscilar de novo significativamente”.

O especialista estima, também, que a sincronização ocorrida entre os preços do petróleo e os movimentos dos especuladores “vá declinar”. “Na nossa análise, o saldo líquido dos contratos dos não-comerciais não é um determinante significativo dos preços do petróleo no longo prazo”, explica.

Geopolítica não influencia tanto quanto se pensa

Outra verificação curiosa do modelo destes técnicos do FMI, é que a geopolítica tem uma influência menor do que se costuma assinalar [como se pode ver no 5º gráfico da Figura 2 já referida]. Na verdade, a relação até é paradoxal a partir de 2002: “Usando um índice de risco geopolítico [do International Country Risk Guide], não encontramos nenhum prémio no preço quando os riscos aumentam. De facto, verificámos o oposto: o preço do petróleo aumenta quando o risco geopolítico desce”, diz Thomas. E explica porquê: “Os países da OPEP tendem a cumprir mais as quotas definidas, o que até gera uma pressão altista sobre os preços”. Uma situação manifestamente distinta da que ocorreu aquando dos choques petrolíferos dos anos 1970 e 1980.

Este verão parece estar a incendiar, de novo, os preços de algumas commodities (mercadorias). Nada que se compare com a loucura do verão de 2008, mas os analistas destes mercados registam uma sucessão, novamente, de disparos de preços, sobretudo em algumas matérias-primas alimentares e metais industriais.

A tendência altista mais assinalável – mas mediaticamente menos falada – sucede no algodão e no café. Os contratos de futuros destas duas commodities estão, neste mês de Agosto, a atingir picos históricos em média mensal, valores que não se verificaram nem no Verão quente de 2008, aquando do choque inflacionário de preços. O algodão já aumentou 43% em relação a igual período do ano passado e o café mais de 24%.

[Pode seguir este mercado de commodities com base num painel global aqui]

Agroflação no horizonte?

O caso mais mediático é, no entanto, o do trigo – desde Julho que está em alta contínua, mas longe do preço atingido no pico em Março de 2008. O preço dos contratos de futuros disparou na Europa na semana passada, devido ao impacto de fenómenos extremos climáticos que afectaram as searas no Canadá (chuvadas torrenciais) e na Rússia (seca extrema, impacto dos incêndios e decisão do governo russo de fechar as exportações a partir de 15 de Agosto). O valor actual está acima da média mensal de 2008/2010 e o aumento em relação a igual período do ano passado é de quase 25%.

No entanto em 2010, já se assistiu a outros disparos. O preço do açúcar atingiu o seu pico histórico em Janeiro, mas, agora, o preço está abaixo dos valores de Dezembro de 2009. No entanto, este mês, já subiu mais de 12%. O cacau esteve, ultimamente, também, muito mediatizado, em virtude das operações no London International Financial Futures and Options Exchange (Liffe, uma divisão do NYSE Euronext) por parte de Anthony Ward do hedge fund Armajaro Asset Management LLP. Ward é conhecido pela alcunha de Mr. Chocfinger (gesto com o dedo médio). No entanto, o pico do preço dos contratos de futuros do cacau foi em Dezembro de 2009 e Janeiro de 2010, e não agora.

O cobre também está em alta, ainda que longe do pico em Julho de 2008. Já aumentou 22% em relação a igual período do ano passado e 11% já durante este mês. O preço actual dos contratos de futuro deste metal industrial está acima da média mensal de 2008 a 2010. Juntamente com o trigo, o açúcar e a soja, são as quatro commodities com maior crescimento nos últimos trinta dias.

O melhor indicador para avaliar a temperatura do que está a ocorrer nas matérias-primas agrícolas é o índice de preços alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que disparou para 163 pontos em Junho, apenas 28 pontos abaixo do pico no Verão louco de 2008. Vários analistas já falam de “agroflação”, como vector fundamental de inflação com impacto nos custos de clusters alimentares e industriais fundamentais. Pão, café e cacau vão afectar a nossa mesa.

Finalmente, o preço do barril de petróleo voltou a situar-se acima dos 80 dólares nos contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros de commodities do mundo) e a média dos primeiros sete meses deste ano é já superior em 12% ao preço médio do ano anterior. Está, no entanto, ainda abaixo da média mensal entre 2008/2010 e tem revelado ultimamente oscilações muito pronunciadas -”oscilações selvagens”, assim designadas por alguns analistas – acima de 1%, com subidas seguidas de descidas, e vice-versa.

O Verão quente de 2008

O modelo extremado deste “choque” de preços ocorreu em Junho e Julho de há dois anos, antes do pânico financeiro que agravou a recessão. Recorde-se que o preço do barril de crude subiu acima dos 145 dólares, o arroz duplicou em menos de cinco meses e o cacau e a soja atingiram os seus máximos históricos.

A razão desta “anomalia” provocou – e ainda provoca – um debate animado entre os analistas e o mundo académico sobre as suas causas, depois de um interregno de “choques” durante mais de vinte anos. Essa “grande moderação” foi, subitamente, interrompida a partir de 2003. Os preços nominais das commodities ligadas à energia e aos metais aumentaram 230% até 2008; os preços das matérias-primas alimentares duplicaram.

As razões “estruturais” surgem logo à cabeça. O chamado pico do petróleo (ponto a partir do qual o crescimento da produção e da oferta mundial do crude desacelera) justificaria o novo choque petrolífero. As mudanças climáticas, com fenómenos extremos, provocam perdas substanciais na agricultura provocando uma segunda onda de choques nos preços das matérias-primas alimentares. O crescimento espectacular das economias emergentes e particularmente a voracidade da China por todo o tipo de commodities explicaria a fortíssima pressão pelo lado da procura mundial incendiando os preços. A mudança da dieta alimentar e a desertificação do mundo rural são, também, factores com efeito assinalável. A que se junta, finalmente, a geopolítica – a turbulência em regiões produtoras ou de importância logística para as commodities repercute-se imediatamente no estado de espírito dos investidores em futuros e dos compradores de mercadorias e matérias-primas.

O factor novo

Mas um estudo econométrico de John Baffes, economista sénior do Banco Mundial, e de Tassos Haniotis, alto funcionário da Direcção Geral para a Agricultura da Comissão Europeia, publicado na semana passada, veio chamar a atenção para factores “não tradicionais”.

Baffes e Haniotis avaliaram o papel desempenhado ultimamente por dois “isqueiros” da loucura dos preços das matérias-primas: a especulação financeira em todo o tipo de mercadorias e o “desvio” de produção agrícola para alimentar o sector dos biocombustíveis.

“O desvio provocado pela política em torno dos biocombustíveis desempenhou algum papel na alta de preços, mas muito inferior àquele que se pensou inicialmente”, referem os dois especialistas. No entanto, quanto ao caso da especulação financeira em commodities, eles julgam que este “novo factor” dos anos 2000 veio para ficar. “Tem um carácter permanente”, disse-nos John Baffes, que está em missão na Indonésia.

“A financeirização do mundo das matérias-primas foi o factor dominante no que sucedeu entre 2006 e 2008”, prossegue Baffes na entrevista que concedeu a partir da Indonésia, onde está em missão do Banco Mundial.

E juntou-lhe mais dois “detalhes” (ver entrevista rápida a John Baffes; a entrevista completa pode ser lida aqui no original em inglês) que vão marcar o comportamento do preço das matérias-primas nos próximos tempos: o cordão umbilical que as liga entre si, provocando reacções em cadeia nos preços, e a tendência para o acentuar das oscilações de preços.

O que complica o planeamento dos agentes económicos e a política dos governos.

ENTREVISTA RÁPIDA a JOHN BAFFES

P: A financeirização tomou conta também do mercado das matérias-primas nos últimos anos?
R: Talvez tenha sido o factor dominante. Creio ter sido o factor “novo” entre todos os que afectam os preços e que são conhecidos. Sem dúvida, que as tendências são basicamente afectadas pela procura e pela oferta, e sobretudo pela tecnologia e pelos níveis de vida. Mas o facto de as matérias-primas terem passado a ser usadas como veículos financeiros afectou algo essencial – a variação dos preços.

P: Essa variação – por vezes mesmo visível em oscilações ‘selvagens’ nos preços dentro de uma mesma semana – vai ser a tónica dominante do futuro?
R: Todas as evidências que recolhi no estudo realizado com Tassios Haniotis apontam para o facto de que as matérias-primas entraram num período de maior variação dos preços.

P: Os diversos grupos de matérias-primas estão hoje em dia profundamente interligados? Pode dizer-se que formam um ecossistema em termos de comportamento dos preços?
R: Esse é um ponto fundamental da investigação e do estudo que publicámos. Há ligações estreitas, óbvias, entre o grupo das matérias-primas energéticas e das alimentares. Além disso, à medida que o nível de vida aumente nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes será de esperar uma sincronia entre os preços de todas as matérias-primas baseadas em recursos (por exemplo, energia e metais).

A exposição da banca portuguesa a Espanha, Grécia, Irlanda e Itália era de 53 mil milhões de dólares no final de 2009. O equivalente a 23% do PIB desse ano. Mais de metade dessa exposição era relativa a Espanha. Trocado por miúdos: se houver gripe suína nos outros “colegas” do grupo, os créditos que a banca portuguesa tem a haver entram em choque. E vice-versa. É uma teia bem tecida.

A exposição agregada da banca portuguesa a “residentes” no grupo mais frágil da zona euro, denominado humoristicamente por PIIGS (acrónimo em inglês para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), totalizava 53 mil milhões de dólares, em valores consolidados, no final de Dezembro de 2009, segundo dados do Bank for International Settlements (BIS), recorda, esta semana, o relatório do Fundo Monetário Internacional sobre a “saúde” da economia da zona euro.

Esse montante equivalia a 23% do nosso produto interno bruto (PIB), um valor relativo elevado só ultrapassado pela banca da Irlanda, cuja exposição aos outros PIIGS correspondia a 91 mil milhões de dólares, ou seja 40% do seu PIB. O peso da exposição dos bancos espanhóis ou italianos aos outros PIIGS era de 10% e 3% do PIB respectivamente. O relatório do FMI não fornece dados da exposição da banca grega.

A maior fatia da exposição da banca portuguesa aos outros PIIGS dirige-se a Espanha (55% do total), seguida da Grécia (19%) e da Irlanda (16%). Por seu lado, os bancos estrangeiros mais expostos a Portugal são os espanhóis que contam com 36% do total da exposição estrangeira a Portugal. O que revela um cordão umbilical de exposição entre os dois sistemas financeiros. Na lista de exposição a Portugal seguem-se, depois, a alguma distância, os bancos alemães (19,7%) e os franceses (18,9%).

A exposição da banca estrangeira a Portugal somava, no final de 2009, 238 mil milhões de dólares, mais do que a exposição da banca estrangeira à Grécia (que somava 199 mil milhões).

A banca mais exposta aos PIIGS era a francesa (quase 900 mil milhões de dólares, o equivalente ao PIB do México que foi, em 2009, a 14ª economia do mundo), seguida da alemã (mais de 700 mil milhões de dólares). Compreende-se, por isso, a “sensibilidade” da banca francesa e alemã ao que se passa no grupo com maiores probabilidades de default dentro da zona euro.

O país do grupo dos PIIGS com maior exposição da banca estrangeira, no ano passado, foi a Itália (1 bilião de dólares em valores consolidados).

Se a banca portuguesa estava mais exposta a Espanha, e a espanhola a Portugal, a banca irlandesa estava exposta sobretudo a Itália, e a italiana a Espanha. Uma malha bem tecida, em que um resfriado em qualquer um dos PIIGS se repercute em cadeia. No caso da Irlanda, a banca estrangeira mais exposta é, naturalmente, a do vizinho inglês.

Nota: Nos “residentes” incluem-se os sectores bancário e não bancário privados e o público. Por “exposição” entende-se créditos sobre residentes daqueles países.
Fonte: FMI, Country Report 10/221, 22 de Julho de 2010, Economic Health Check, Parte B, página 6, quadro “Bank Exposures to Selected Countries”, Dezembro de 2009.

A expressão inglesa «double-dip», ou recaída na recessão depois de uma tímida retoma, voltou a aquecer os debates na comunidade internacional dos economistas e dos analistas. A fractura nas opiniões é manifesta.

Os sinais dados pela realidade são manifestamente contraditórios. Os “bons números” surgem nos noticiários de abertura, mas logo os “maus números” enchem os títulos de última hora.

O crescimento mundial deverá ficar acima de 4,5% garantiu o Fundo Monetário Internacional (FMI) na semana passada no seu World Economic Outlook Update. Espera-se que o comércio internacional aumente entre 9 e 10%. E consta que há mais de 3,3 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica) de “excedentes” à roda do mundo “parqueados” à espera de boas aplicações.

Mas o nervosismo dos mercados bolsistas – com dias de derrocada frequentes no passado Junho – e dos mercados de derivados, a crise da dívida soberana em diversos países da Europa, um quase escondido cenário mais “pessimista” do FMI temendo uma recessão na Europa e quase estagnação nos Estados Unidos em 2011, as dúvidas sobre o que irá ocorrer com as “bolhas” e a mudança de modelo económico na China e o disparo na cotação do ouro (com a onç a manter-se acima de 1200 dólares) engolem rapidamente a metade “simpática” dos títulos optimistas dos noticiários.

O pessimismo reforçou-se, inesperadamente, com a divulgação em Julho de novas previsões pela Reserva Federal americana (FED), que agravaram as anteriores, divulgadas em Abril. Clima de dúvida que se adensou, a 21 de Julho, com duas palavras fatais do testemunho do presidente da Reserva Federal, Bem Bernanke, perante o Congresso americano falando de um crescimento «extraordinariamente incerto». [As bolsas americanas sentiram, de imediato, o choque. O Dow Jones e o Nasdaq caíram mais de 1% a 21 de Julho.]

O desemprego na América manter-se-á entre 9,2% e 9,5% da população activa em 2010 e ainda poderá andar nos 8,3% a 8,7% no próximo ano e nos 7,1% a 7,5% em 2012. Também, o crescimento americano será inferior ao que era previsto: entre 3% a 3,5% este ano, em vez dos 3,2% a 3,7%, e entre os 3,5% a 4,2% em 2011, abaixo dos 4,5% previstos anteriormente.

Apesar de estarmos a falar de diferenças de décimas, estas revisões pela FED foram como um verdadeiro balde de água fria que teve imediata repercussão (negativa) nas bolsas mundiais.

Medo mata mais

A nível da discussão mais técnica, a última tentação pessimista responde pela expressão inglesa double-dip – ou seja, recaída na recessão, depois de um período de retoma a seguir à primeira fase mais dramática e prolongada de depressão. Não é, ainda, uma constatação, mas um temor.

Os números do FMI afastam essa hipótese para 2010 (4,6% de crescimento mundial, 3,3% de crescimento nos Estados Unidos, 6,7% nos tigres asiáticos, 6,8% de crescimento nos países emergentes e 1% na zona euro, o “ciclista” junto ao carro-vassoura). Mas, em períodos de crise, a psicologia mata mais do que os números finais de um semestre.

Os curiosos pela história económica das grandes crises recordam, agora, o caso anterior de 1937-1938, quatro anos depois do fim oficial da Grande Depressão. A previsão pessimista é que algo similar possa ocorrer agora, para os mais pessimistas, já neste segundo semestre de 2010.

Fomos ouvir, por isso, cinco economistas separados por fusos horários diferentes e com filiações no pensamento económico distintas. O resultado é diversificado – a comunidade de economistas e analistas está literalmente fracturada.

Encontrámos nas respostas três campos de opinião. [As respostas integrais poderão ser lidas na versão em inglês aqui]

O pecado da finança

Comecemos pelo campo do “sim” – a recaída é um risco sério, mesmo que seja difícil predizer a data de concretização. Para a professora Carlota Perez, reconhecida especialista mundial em revoluções tecnológicas e ciclos económicos, uma recaída recessiva estará sempre no horizonte enquanto os decisores mundiais “não entenderem que esta crise não é um acidente que se consegue resolver apenas com mais política monetária e regulação, mas sim um corte estrutural que exige uma separação radical entre o mundo da finança e o da economia real”.

Por seu lado, o investigador americano Mark J. Lundeen, que no site Gold Eagle tem estado a fazer uma comparação diária entre a evolução desta Grande Recessão, desde o seu começo em 2007, e a Grande Depressão dos anos 1930, é mais pessimista: “A questão não é se vai haver ou não uma recaída – ela é inevitável. Mas quanto tempo durará e quanto mais sofrerá o mundo até que os decisores comecem a discutir como liquidar a «má» dívida que nos envolveu nestes últimos 40 anos”. Lundeen é pelo fim das fianças aos prevaricadores, e pela sua bancarrota (incluindo as dívidas soberanas que devem ser reescalonadas ou reestruturadas), mesmo que isso resulte numa situação de deflação massiva – é preferível isso, diz ele, “à hiper-inflação e aos caos económico e geopolítico que resultará inevitavelmente das actuais políticas”.

Política monetária é a salvação

Pelo “não” está o gestor de fundos Bill Whiterell, economista-chefe global da Cumberland Advisors que a partir da Florida aconselha aplicações financeiras em todo o mundo. “Isso é de todo improvável!”, exclama, e acrescenta: “mesmo nas economias desenvolvidas”. “Não prevemos que esta desaceleração a meio do ciclo se deteriore ao ponto de se transformar numa recessão, quer neste segundo semestre como no próximo ano”, diz-nos. Confia que “as políticas monetárias continuarão a «acomodar-se» quer nos EUA como na zona euro ou no Japão. Provavelmente as taxas de juro de curto prazo manter-se-ão próximas de zero nos próximos doze meses”.

Um terceiro campo recusa o “sim” e o “não” à pergunta. Em suma, não se pode falar de recaída – já que nem sequer se saiu da recessão iniciada em 2007 no mundo industrializado, argumenta-se. “Não se pode falar de double-dip, quando ainda nem saímos do single-dip. Penso que temos continuado a estar numa situação consistentemente negativa. Sou muito céptico, em particular, em relação aos números oficiais americanos – cuja realidade é bem pior do que os números divulgados”, ironiza David Caploe, economista-político chefe do EconomyWatch, em Singapura.

Um “L” em vez de um “W”

Continuando com a ironia, Caploe rejeita um desenho em “W” para a evolução desta crise que uma recaída traria. O que vai ocorrer, vaticina, é um longo “L_______________________________________”, em que a “cauda” pode ser muito comprida. O tamanho desta “cauda” depende da China. O analista de Singapura considera que os governantes chineses têm actuado com inteligência face à crise, mas “resta ver como um grupo aparentemente coeso como este conseguirá enfrentar um militantismo sindical crescente que tornou o anterior modelo económico obsoleto”.

O consultor e autor americano Peter Cohan recorda que nem o organismo americano que oficialmente data o começo e o fim das recessões, o National Bureau of Economic Research, decretou, ainda, o fim da recessão para os Estados Unidos. Pelo que prefere não falar de nova recessão. Cohan admite, em breve, uma desaceleração económica “mas não tão má que se transforme em crescimento negativo”. Esta desaceleração poderá advir do que se vai passar na Europa: “Não ficarei de todo surpreendido que o crescimento mais lento – ou mesmo declínio económico – ocorra na Europa, devido aos efeitos da consolidação orçamental”.

CINCO DESTAQUES (de conversas bem mais longas)

#“Se os chineses conseguirem evitar o colapso das suas bolhas imobiliárias merecem uma medalha” – Carlota Perez
#“A nível global, ao fim de quarenta anos, chegámos a um ponto em que os nossos activos se transformaram em passivo. É insustentável” – Mark J. Lundeen
#“Excepto para os membros altamente endividados do Club Med na zona euro, políticas de austeridade significativas no curto prazo não são desejáveis com uma retoma mundial permanecendo tão fraca” – Bill Witherell
#“Os chineses, pelo menos, parecem ter um plano – algo que sinceramente não vejo nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão” – David Caploe
#“O medo de um colapso na zona euro é suficiente para motivar a redução dos défices. Mas resta ver se uma dose massiva de euro-thatcherismo gerará prosperidade” – Peter Cohan

Portugal está na fronteira para a classificação de BBB, segundo a Dagong Credit Rating, sedeada em Beijing, que surpreendeu, ontem, os analistas ao dar classificação de AA e outlook negativo aos Estados Unidos e AA- e outlook negativo ao Reino Unido.

A Dagong Global Credit Rating, sedeada no distrito de Chaoyang, em Beijing, divulgou ontem, pela primeira vez, um relatório sobre a situação de crédito soberano em 50 países, que perfazem 90% do produto mundial. Portugal surge na 29ª posição com uma notação de A- (similar à atribuída pela Standard & Poor’s) e com outlook (perspectiva) negativo.

O nosso país e a Itália estão na fronteira da notação para a classificação de BBB. O relatório sublinha que estes países poderão enfrentar riscos de refinanciamento e de pagamento da dívida dada a vulnerabilidade a “um choque interno ou externo súbito e relativamente grande”.

A surpresa nas notações

A agência de rating chinesa surpreendeu os mercados internacionais ao dar notação de AA (e não triplo A, a nota máxima) e com outlook negativo aos Estados Unidos, colocando inclusive a superpotência na fronteira para a notação abaixo, e ainda pior ao Reino Unido com AA- e outlook negativo, quer em termos de moeda local como em divisas estrangeiras. Também outros membros do G7 recebem a notação de AA- e com outlook negativo, como o Japão e a França.

Há, de facto, uma diferença de fundo entre as notações da Dagong e das três agências mais conhecidas (Moody’s, Fitch e S&P, apelidadas de “big three“): enquanto as agências norte-americanas dão notação de triplo A a mais de 10 países, a agência chinesa é menos generosa, nomeadamente em quatro casos mais significativos (que incluem os EUA, Japão, Reino Unido e Alemanha).

Apenas cinco países recebem a notação de triplo A (a mais alta em termos de solvência e sustentabilidade de longo prazo) e com outlook estável quer na avaliação global do nível de crédito em termos de moeda local como em divisas estrangeiras: Noruega (a liderar), Dinamarca, Luxemburgo, Suíça e Singapura. A Austrália e a Nova Zelândia têm a notação de AAA em termos de moeda local e de AA+ (uma notação abaixo) em divisas estrangeiras. A Alemanha, a referência para a zona euro e a União Europeia, não está neste grupo de sete do topo.

Mais generosa nos emergentes

Na notação da Dagong, a China tem notação AA+ e outlook estável em termos de moeda local, tal como a Alemanha, mas em termos de divisas estrangeiras tem notação máxima de AAA, acima da alemã, da canadiana ou da holandesa, os companheiros neste segundo grupo.

O relatório admite, no entanto, que em relação a países como a China (com AA+), Arábia Saudita e Coreia do Sul (ambas com AA) há problemas derivados “do ajustamento das estruturas económicas ou risco geopolítico derivado de problemas práticos”. A notação atribuída à China é mais elevada do que a atribuída pela Moody’s (A1), S&P (A+) e Fitch (AA-).

Piores notações dadas a Espanha, Grécia e Roménia

No conjunto dos PIGS (acrónimo pejorativo para o grupo da zona euro formado por Portugal, Itália, Grécia e Espanha – a Irlanda não foi incluída na análise pela agência de rating chinesa), a Dagong atribui notação de A e com outlook negativo à Espanha (mais baixa do que as atribuídas pelas agências de notação americanas), de A- com outlook negativo a Itália e Portugal, e de BB com outlook estável à Grécia (mais baixa, também, do que a atribuída pelas outras três agências).

Entre os países de Leste da União Europeia que têm estado em foco, a agência de rating chinesa atribui a notação de BBB com outlook negativo à Hungria e de BB+ com outlook negativo à Roménia (mais baixa do que a atribuída pelas agências norte-americanas) – países que estão em pior situação do que Portugal ou Itália.

Estas notações mais baixas em relação a Espanha, Grécia e Roménia significam que a Oriente alguns elos mais fracos da zona euro e da União Europeia são vistos mais negativamente do que em Nova Iorque pelas três agências de rating internacionais mais poderosas.

Relativamente aos companheiros da China no grupo designado por BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China), a Dagong atribui notação A com outlook estável à Rússia, A- com outlook estável ao Brasil e BBB com outlook estável à Índia, o país em pior situação de avaliação de crédito neste grupo. Nos três casos, a atribuição dada pela agência chinesa é superior às atribuídas pelas três rating norte-americanas.

A Dagong foi criada em 1994 para atribuir notação à dívida das empresas chinesas. Alega ser privada e que a sua metodologia não está imbuída de apreciações ideológicas. É, no entanto, apoiada oficialmente. O próprio anúncio do relatório sobre a notação dos 50 países foi feito ontem na sede da agência de notícias Xinhua. Trata-se de um sinal – mais um – da estratégia de projecção externa da China.

Classificações comparadas para Portugal

Dagong: A-;
Moody’s: Aa2 (até 12/07/2010); A1 (a partir de 13/07/2010);
S&P: A-;
Fitch: AA-

Mais informações aqui.

Há interrogação colocada em título, o analista Peter Cohan responde: provavelmente as duas coisas.

O Banco Popular da China (BPC), o banco central de Beijing, decidiu anunciar no passado fim-de-semana um processo de flutuação da sua moeda, o renminbi (RMB, que significa “dinheiro do povo”) ou yuan (a unidade monetária do RMB). Ao fim de 23 meses, a China abandonou a indexação de facto (fixed peg) ao dólar americano, na base de um câmbio fixo de 6,83 RMB por dólar.

Por isso, ontem (21/07), nos mercados asiáticos, o RMB apreciou-se ligeiramente, num só dia, em 0,43%, baixando para 6,7980 contra o dólar. Ou seja, a moeda americana passou a valer menos em divisas chinesas e, portanto, qualquer produto chinês passou a ficar mais caro ligeiramente no mercado americano e em todos os que usem o dólar. Inversamente, qualquer produto ou serviço com o preço marcado em dólares passou a custar menos em moeda chinesa.

A valorização do RMB face ao dólar é de 0,5% em relação à cotação em 1 de Janeiro de 2010. Em relação ao euro, em virtude da desvalorização deste face ao dólar, o RMB já se valorizou em 15% desde o início do ano – a União Europeia é o principal parceiro comercial da China (16,3% em volume).

Os especialistas da Bloomberg apostam numa valorização do RMB na ordem dos 2,9% no espaço de um ano. Da última vez que a moeda chinesa flutuou entre Julho de 2005 e Julho de 2008, o RMB valorizou-se em 21%.

Euforia inicial esvaziou-se

A decisão chinesa começou por ser bem recebida nas bolsas americanas ao começo da sessão de ontem, empurrando o Dow Jones Industrial Average para uma subida de 140 pontos, mas a euforia esvaziou-se rapidamente ao longo da tarde, acabando Wall Street por fechar no vermelho. As principais bolsas asiáticas, hoje, fecharam, também, no vermelho – só escaparam Xangai e Shenzhen, com ligeiríssimas melhorias.

As reacções dividiram-se entre o optimismo cauteloso oficial nos Estados Unidos e na Europa e a dúvida nos analistas, que se agravou à medida que o comunicado do BPC foi lido na íntegra. A flexibilização da taxa de câmbio da moeda chinesa será gradual e o banco central de Beijing adverte que poderá ocorrer “em ambas as direcções”, atendendo ao clima interno e à estratégia internacional de exportação e investimento dos grandes grupos estatais ou para-estatais chineses. Bem como toda a gestão cambial tomará em conta um cabaz de divisas dos principais clientes da China e não, apenas, o dólar, como explicou diligentemente um “perguntas & respostas” do banco central.

Duplicidade de Beijing

O que motivou, então, os chineses? Peter Cohan, analista financeiro em Boston, é de opinião que foi uma “combinação” de dois desígnios: “É tanto um posicionamento face ao G20 deste fim-de-semana em Toronto como um bónus aos trabalhadores chineses. Poderá ser uma mudança real na estratégia económica chinesa, mas só o tempo o dirá”, diz-nos.

O consenso dos analistas internacionais inclina-se para uma manobra táctica dos chineses destinada a retirar da mesa de discussões na cimeira do G20 de 26 e 27 de Junho este tema incómodo de um RMB artificialmente barato. Os chineses querem neutralizar o ruído da acusação de que são “manipuladores de divisas”.

Cohan chama a atenção, no entanto, que pode estar em gestação uma nova estratégia económica em Pequim. “Um renminbi mais forte será mais um factor para esvaziar a bolha interna chinesa”, sublinha o analista americano. Pode ser o começo de um período de “exportação” da inflação interna chinesa para os seus principais clientes mundiais, como já sublinhámos. “Se a divisa chinesa continuar a valorizar-se, os consumidores americanos e europeus pagarão um preço mais elevado pelos produtos chineses. Esta inflação, juntamente com uma maior relutância das autoridades monetárias chinesas em financiar os défices americanos, obrigará a Reserva Federal americana a subir as taxas de juro. O que provocará um abrandamento na economia americana”.

A era de uma superpotência mercantilista, fábrica do mundo, inundando de produtos baratos os países desenvolvidos pode estar a sair de cena nas mentes estratégicas de Beijing. O reverso dessa guinada, como sublinha Cohan, é o ocaso gradual do papel de financiador de último recurso que a China tem desempenhado em relação aos EUA. O banco central da China, recorde-se, nada em 2,45 biliões de dólares (triliões, na nomenclatura anglo-saxónica) de reservas em divisas estrangeiras. “Se a mudança for sustentada, uma moeda apreciada poderá mudar a China de um exportador barato para uma economia movida pelo consumo”, diz Cohan. O comunicado do BPC vai nesse sentido, dando a entender a necessidade de um soft landing da sobreaquecida economia chinesa e de uma deslocação do investimento para os sectores de serviços.

China mantém margem de manobra

Mas todas as medidas de política económica têm efeitos complexos dentro e fora da China, e dentro desta potência geram tensões entre os diferentes grupos de interesses e lóbis que se criaram nos últimos trinta anos a par das reformas capitalistas. Dois bancos chineses estão hoje entre os 10 maiores do mundo em capitalização. O sector exportador vale quase 40% do PIB chinês e cresceu em Maio passado 48,5% em relação ao ano anterior. Para a União Europeia, as exportações cresceram 49,7%.

Depois de um défice pontual em Março na balança comercial chinesa de mais de 7 mil milhões de dólares, o excedente subiu para 19,5 mil milhões no final de Maio. Alguns analistas de comércio internacional alegam que este disparo se deveu a antecipações de encomendas por parte de importadores antevendo a valorização do RMB.

Verso e reverso – no reino da complexidade

A mudança de política cambial chinesa pode ter um senão – os consumidores dos países desenvolvidos, habituados às pechinchas chinesas, deixarem de ser consumidores fiéis; e as marcas globais que vivem da “deslocalização” e subcontratação barata nas fábricas da China procurarem novos fornecedores e localizações. “Se esta procura mundial baixar demasiado, os estragos na economia chinesa poderão levar a uma flutuação mais limitada do renmimbi”, conclui Peter Cohan. As autoridades chinesas pretendem, por isso, manter essa margem de manobra.

Internamente, a moeda valorizada acalmará, segundo muitos analistas, o descontentamento latente do povo – particularmente da população fabril urbana – aumentando o poder de compra, mas o impacto nos custos nominais unitários do trabalho far-se-á sentir, podendo baixar a competitividade internacional do país.

O disparo do consumismo chinês será, sem dúvida, agradável para as marcas internacionais e locais que criaram notoriedade e presença no imenso mercado chinês. Para a balança comercial chinesa, a valorização do RMB significará o pagamento do petróleo e matérias-primas importadas (preço em dólares) mais barato – a China precisará de menos moeda local para pagar o barril de crude.

Há um dominó da crise interessante: a banca espanhola está “exposta” à dívida portuguesa e a banca francesa e alemã está “exposta” à dívida espanhola. Elos que revela o último relatório do Banco Internacional de Pagamentos (mais conhecido por BIS, Bank for International Settlements).

Portugal era o quarto país no grupo dos PIGS (acrónimo humorístico pejorativo para Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) com maior dívida junto da banca da zona euro, segundo o relatório trimestral do Banco Internacional de Pagamentos (BIS, no acrónimo em inglês) divulgado ontem.

A “exposição” da banca da zona euro ao nosso país, no final de 2009, somava 244 mil milhões de dólares (107% do PIB português em 2009 e cerca de 46% do stock da dívida externa portuguesa no final de 2009, avaliados em dólares).

Os bancos espanhóis eram os mais “expostos” a Portugal, com 45% desse montante. Essa “exposição” espanhola dirige-se em 2/3 ao sector privado não bancário. Seguem-se, por ordem decrescente de exposição ao endividamento português, a banca de França e da Alemanha. Fora da zona euro, a banca americana e inglesa somava uma exposição de cerca de 80 mil milhões de dólares em relação a Portugal.

Nesta dívida de cada país à banca estrangeira estão incluídos os sectores público, bancário, privado não bancário e outros segmentos financeiros (por exemplo, contractos de derivados e garantias).

Razões do nervosismo mundial

Tem subido de tom o nervosismo que percorre a banca europeia face aos riscos de default nos quatro países, apesar das medidas tomadas por Bruxelas em acordo com o Fundo Monetário Internacional aquando da crise de Maio [com a acriação do veículo financeiro especial European Financial Stabilization Facility] e dos vários “pacotes de austeridade” entretanto aprovados ou anunciados, alguns já com efeitos em 2010.

São os bancos sedeados na zona euro que detêm a grande fatia da “exposição” da banca mundial aos quatro PIGS, refere o relatório trimestral do BIS (BIS Quaterly Review, June 2010). A banca mundial está “exposta” em cerca de 2,6 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-saxónica) ao grupo dos PIGS, algo como 16% do PIB da zona euro.

No final de 2009, os bancos da zona euro arcavam com 62% dessa exposição, ou seja tinham a haver cerca de 1,6 biliões de dólares junto dos quatro países da zona euro sujeitos a maior stresse financeiro nos mercados da dívida e cujas probabilidades de default (de incumprimento da dívida soberana) variam hoje entre quase 18-19% (Espanha e Irlanda) e mais de 48% (Grécia).

Banca francesa e alemã de olho em Espanha

O país com maior dívida junto dos bancos da zona euro é Espanha que “absorve” 727 mil milhões de dólares (46% da exposição total dos bancos da zona euro), seguida a alguma distância da Irlanda, com 402 mil milhões (25%), de Portugal com 244 mil milhões (15%) e Grécia com 206 mil milhões (13%).

Os bancos franceses estão expostos em 50% a Espanha, e sobretudo ao sector privado não bancário, enquanto os bancos alemães estão expostos em 43% ao nosso vizinho, mas sobretudo ao sector bancário espanhol.

Por isso, o tema “Espanha” e todos os rumores que têm campeado esta semana sobre a eventual negociação em curso de uma intervenção “à grega” num montante de 250 mil milhões de euros (1/3 da provisão para empréstimos disponível na Facilidade Financeira Europeia de Estabilidade) estão a deixar a banca francesa e alemã à beira de um ataque de nervos, como se pode observar nos reflexos na imprensa local.

Compreende-se que Espanha seja um tema mais sensível que Grécia – pesa, literalmente falando, mais de três vezes na banca europeia. Os “estouvados” da periferia foram financiados por provavelmente alguns “loucos” bancos do núcleo central da zona euro. Actuar junto do receptor ajudará a resolver os problemas a montante.

No caso específico da Irlanda, são os bancos ingleses os mais expostos em particular em relação ao sector privado não bancário.

A dívida pública conta com uma pequena parcela nesta situação – apenas 16% da “exposição” agregada da banca da zona euro ao conjunto do grupo dos PIGS.

No caso português, a banca francesa está exposta ao sector público português em 21 mil milhões de dólares e a banca alemã em 10 mil milhões. Migalhas no stock de mais de 530 mil milhões de dólares de dívida externa bruta total do país em finais de 2009.

A cimeira de ministros e de banqueiros centrais, que terminou sábado na Coreia do Sul, revelou um xadrez muito complexo de temas fracturantes que dividem o grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico. As coligações são, por ora, claramente ad hoc em muitos assuntos, mas a força da China, Brasil, Índia e até do Canadá e Coreia do Sul revela-se.

Para além do discurso politicamente correcto do comunicado final saído da cimeira de ministros de Finanças e Economia e de banqueiros centrais do G20 (grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico no mundo), reunidos ontem e hoje no porto de Busan (ou Pusan), na Coreia do Sul, o ambiente foi de discussões “muito quentes”, como deixou passar para os media Shin Je-Yoon, o vice-ministro das Finanças para os assuntos internacionais do país anfitrião.

«Distracção», acusa o Canadá

Um dos temas que gerou expectativa foi o da iniciativa americana e alemã de um imposto sobre transacções financeiras que alimentasse um fundo para futuros resgates em caso de crise financeira.

O que poderia pensar-se ser pacífico, não o é. Os “fat cats” da alta finança, como lhes chamou Obama, são hoje um alvo politicamente fácil. Mas a ideia encontrou a resistência determinada do Canadá, Brasil, Índia, Austrália e Japão. O ministro canadiano, Jim Flaherty, que surgiu como líder da oposição, acusou mesmo a ideia de ser uma “distracção” em relação “aos problemas de fundo”.

O que está em jogo neste tema fracturante é que uma parte do globo – que não se considera responsável pela crise financeira e que hoje está a começar a dar cartas na geopolítica – não pretende penalizar os seus sistemas financeiros locais que estão em plena ofensiva global, aproveitando as vulnerabilidades dos eixos financeiros incumbentes de Nova Iorque, Londres e Frankfurt.

Os relatos sobre esta discussão são abertamente contraditórios, consoante o ponto geográfico do mundo que os emite. Na Ásia (siga a cobertura pelo The Korea Times) dá-se o assunto desta taxa como encerrado, como não tendo sido incluído sequer na agenda da próxima cimeira de alto nível do G20 em Toronto, no Canadá, a 26 e 27 de Junho. Outros, na Europa e nos EUA, afirmam que o tema regressará, pois é um ponto de honra, sobretudo do secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, e colocam esperanças no relatório que o Fundo Monetário Internacional deverá apresentar em Toronto.

Consolidação orçamental tem apoio maioritário

Outro tema fracturante foi a questão da consolidação orçamental, suscitada pelo alastrar da crise da dívida soberana na União Europeia. Aqui as “coligações” de interesses são curiosamente distintas.

Americanos, franceses e Banco Central Europeu (BCE) repetem em uníssono que a Europa deu os passos adequados e alertam que a consolidação orçamental não pode ser cega nem exagerada, aumentando o risco de uma recaída na recessão.

Por seu lado, os alemães e os asiáticos – ao que parece apoiados por “uma corrente maioritária” no G20, confessou, desapontada, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde – insistem que a consolidação orçamental é a prioridade número um. O Brasil e a China teriam mesmo expressado sérias dúvidas sobre a gestão do problema na Europa.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, garantiu, no final, falando para os mercados financeiros que reabrem na segunda-feira, que teria havido um entendimento “muito bom” sobre o problema. O comunicado final bate palmas, logo no segundo ponto, à acção da União Europeia, do BCE e do FMI na questão.

Fogo sobre o mercantilismo

As alianças ad hoc voltam, de novo, a mudar quando chegamos ao tema da dinamização do comércio internacional e da procura mundial. O secretário do Tesouro americano defendeu que os principais exportadores mundiais de bens com superávites nas suas balanças comerciais (onde se encontram a China, líder mundial da exportação em 2009, Alemanha e Japão) deverão favorecer a importação, facilitando a exportação por parte dos deficitários, e abandonar as suas políticas mercantilistas. O que, naturalmente, não agrada aos visados.

Sobre o tema de fundo da regulação bancária e do sistema financeiro “sombra”, a cimeira de Busan chutou, de novo, o problema para os próximos encontros. Novas regras para exigir transparência às agências de notação, à actuação dos hedge funds e ao uso dos derivados continuam em estudo. Também para a cimeira do G20 em 11 e 12 de Novembro, em Seul, se espera que a Comissão Basel sobre Supervisão Bancária apresente as novas normas com que terão de se coser os bancos, no sentido de restringir o vício da excessiva alavancagem associada às vagas de financeirização desde 1860 e às crises financeiras graves que provocou desde essa altura.

Uma coisa é certa: o FMI vai ter de mudar

Um ponto político parece impor-se: o da urgência de reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI). À margem da cimeira, Coreia do Sul e Brasil assinaram um entendimento sobre a modificação da correlação de forças no FMI (que afectará sobretudo a “representação” dos países europeus) e Seul aproveitou para vender aos brasileiros o seu know how na organização do Campeonato Mundial de 2002 e dos Jogos Olímpicos de 1998. O Brasil, como se sabe, está a organizar o Mundial de 2014 e os Jogos de 2016.
Está convocada nova reunião de ministros e banqueiros para 22 e 23 de Outubro, de novo, na Coreia do Sul.

SEMANA CONTURBADA ENVOLVE A CIMEIRA

O clima escaldante nas reuniões à porta fechada e nos bastidores derivou do contexto específico em que reuniu o G20 em Busan: as contingências da própria semana falam por si. A crise da dívida soberana na Europa “alargou-se” a vários países do Leste, com o incidente mais gravoso na Hungria. Uma má “tradução” de declarações oficiais incendiou os investidores do mercado de credit default swaps sobre a dívida (empurrando a Hungria para dentro do TOP 10 mundial de maior risco de default) e provocou um mini-crash nas bolsas europeias e em Wall Street e Manhattan (Nasdaq), como aqui analisámos no Geoscópio.

No Mediterrâneo oriental, Israel e Gaza voltam a ser um ponto quente no mundo dos conflitos regionais que podem degenerar em algo mais vasto, e a própria península coreana, onde a cimeira se realizou (e onde próximas reuniões até final do ano se irão realizar), continua sob risco permanente das manobras regulares do vizinho de Piongiang. Em Maio, recorde-se, o clima regional aqueceu com o episódio do afundamento de um navio sul-coreano por parte dos norte-coreanos.

Qualquer surpresa nestes quadrantes da geografia pode provocar um impacto decisivo no curso da actual crise. “Cisnes cinzentos”, chamam-lhes os analistas.

Para terminar, nas vésperas da cimeira, o Japão mudou de primeiro-ministro, inesperadamente. O ministro das Finanças, Naoto Kan, e líder do Partido Democrático do Japão, passou a primeiro-ministro – o 6º em quatro anos apenas – e em Busan quem acabou por aparecer foi o vice-ministro das Finanças.

Os dois fundos soberanos da cidade-estado asiática, o GIC e o Temasek, foram os que mais investiram durante os dois anos de Grande Recessão. No conjunto, os oito principais fundos soberanos do mundo investiram 56,4 mil milhões de dólares em grandes operações financeiras.

A Government of Singapore Investment Corporation (GIC) e a Temasek Holdings, os dois fundos soberanos da cidade-estado de Singapura, foram os que mais investiram no sector financeiro internacional durante o período da Grande Recessão entre 2007 e final de 2009.

GIC e Temasek investiram 25,7 mil milhões de dólares em grandes operações de aquisição de posições, durante o pânico financeiro e a recessão, nos bancos UBS, Citigroup, Barclays e Standard Chartered. Foi mais de 45% do esforço total de grandes investimentos realizados pelos 8 principais fundos soberanos do mundo, segundo o estudo “The New Brave World of Sovereign Wealth Funds” publicado esta semana pelo The Lauder Institute of Management and International Studies do Wharton Leadership Center, da Universidade de Pensilvânia, nos Estados Unidos.

A GIC é o segundo em activos entre a mais de meia centena de fundos soberanos existentes no mundo e o Temasek é o 8º no ranking. A maior operação naquele período de crise foi do GIC no banco suíço UBS – 9,8 mil milhões de dólares.

No mesmo período, o segundo fundo soberano que mais investiu em grandes operações financeiras foi a Abu Dhabi Investment Authority, o maior fundo soberano do mundo, que aplicou 9 mil milhões, no UBS e no The Carlyle Group. Seguiu-se a China Investment Corp com um investimento de 8 mil milhões no Morgan Stanley (em Outubro de 2008, o Mitsubishi UFJ Financial group japonês adquiriu 21%, por 9 mil milhões falou-se antes da operação) e no The Blackstone Group LP.

Os oito fundos soberanos com maior actividade de investimento durante a crise foram a GIC de Singapura, a Abu Dhabi Investment Authority, o Temasek Holdings, a China Investment Corp, o Kuwait Investment Office, a Qatar Investment Authority, a Korea Investment Corp e a Saudi Arabian Monetary Agency.

Os alvos financeiros destes grandes investimentos foram o UBS, Citigroup, Morgan Stanley, Merrill Lynch, Barclays, grupo Blackstone, Standard Chartered e grupo Carlyle.

Os maiores fundos soberanos, segundo o levantamento realizado pelo estudo da Wharton, são a Abu Dhabi Invest. Authority (875 mil milhões de dólares de activos), a GIC de Singapura (330 mm), o Fundo de Pensões da Noruega (301 mm), a Saudi Arabian Monetary Agency (270 mm), o Kuwait Investment Office (265 mm), o Russia Stability Fund (225 mm), a CIC da China (200 mm – mas outras fontes apontam para cerca de 300 mm), o Temasek Holdings de Singapura (134 mm) e o Fundo de Pensões do Canadá (121 mm).

Uma lista alternativa pode ser encontrada no Sovereign Wealth Fund Institute.

Falta de tradição na Europa

Na Europa não há grande tradição deste tipo de instrumentos financeiros. Entre os grandes, apenas surge o Fundo de Pensões da Noruega (criado em 1990, ligado ao negócio da exportação de petróleo). Nos mais pequenos, o Fundo de Pensões da Irlanda (criado em 2001) e o recente (final de 2008) Fonds Stratégique d’Investissement, de França.

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