O novo capital financeiro


Acto I: do François. O dia “D” parece estar apontado para quarta-feira da próxima semana quando a chanceler alemã e o novo presidente gaulês se reunirem em Berlim. A forma de “calçar” o “pacto de crescimento” (growth compact) deverá ser o tema principal.

A chanceler Ângela Merkel convidou François Hollande, o novo presidente eleito de França, para a sua primeira visita oficial ao estrangeiro, logo após a sua investidura em Paris. A reunião deverá realizar-se a 16 de maio, numa viagem simbólica a Berlim.

Hollande tem uma agenda apertada logo de seguida com as cimeiras do G8 (os sete países desenvolvidos mais a Rússia) a 18 e 19 e da NATO a 20 e 21 de maio em Camp David, nos Estados Unidos. Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, informou que o presidente Obama já convidou Hollande para um encontro bilateral antes das cimeiras, onde contam abordar “um conjunto de dossiers difíceis em matéria económica e de segurança”.

Acabar com o diretório

François Hollande declarou à revista “Slate” que quer acabar com o “duopólio” franco-alemão, em suma prosseguir a parceria estratégica, mas deitar fora o papel de diretório.

A sua resposta à revista merece ser transcrita na íntegra: “Ainda que eu acredite na parceria franco-alemã, contesto a ideia de um duopólio. A construção europeia está baseada numa parceria bem equilibrada e de mútuo respeito entre a França e a Alemanha. As parcerias entre Schmidt e Giscard, Kohl e Mitterrand, e mesmo entre Chirac e Schroeder, mostraram que as diferenças políticas não significam que não possamos trabalhar em conjunto. Mas estes chefes de estado combinaram uma metodologia intergovernamental com os processos da União Europeia. Esta é a melhor forma de evitar que os nossos parceiros se sintam excluídos, ou, pior ainda, subordinados. Ora, este equilíbrio mudou nos últimos anos. A relação franco-alemã foi exclusiva. As instituições europeias foram ignoradas e alguns países, especialmente os mais frágeis, tiveram o sentimento desagradável de enfrentarem um diretório”.

Se as eleições presidências francesas indicaram que a estratégia anterior designada por “Merkozy”, em que a França inclusive desempenhou um lugar subalterno, está condenada, os resultados das eleições legislativas na Grécia foram um sinal de alarme ainda maior.

Com uma geografia parlamentar em Atenas que torna o país ingovernável em virtude da fragmentação e da perda de atração do centro político (o chamado “arco de poder”), toda a estratégia dos “memorando de entendimento” e dos planos de resgate para o país ficou em cheque. Mesmo os dois partidos da alternância tradicional, Nova Democracia (direita) e PASOK (socialistas), são abertamente pela revisão dos acordos firmados ainda recentemente e que conduziram a uma reestruturação parcial da dívida e a um segundo plano de resgate. Evangelos Venizelos, o líder do PASOK, e que negociou e liderou a recente reestruturação de dívida e o fecho do segundo pacote de resgate, afirmou que é indispensável uma extensão do novo período de ajustamento de dois para três anos. No entanto, a ingovernabilidade do país, com base nos resultados atuais, aponta para novas eleições antecipadas em junho que poderão coincidir com o período em que deveria ser aprovada uma nova tranche de 11 mil milhões de euros de financiamento a Atenas.

Se a União Europeia e a zona euro não oferecerem nada de novo à Grécia, as próximas eleições apenas conduzirão a uma radicalização do espectro político e a uma provável saída “caótica” do euro (e, segundo alguns analistas, da própria União Europeia), com desfecho incerto no quadro geopolítico da região em que o país se insere.

Cedências simbólicas

O jornal El País afirma hoje que a Comissão Europeia poderá ceder no que respeita ao plano de ajustamento em Espanha. O governo de Mariano Rajoy, depois de ter imposto unilateralmente uma meta para o défice deste ano em 5,3% do PIB (inferior em umas décimas à meta exigida por Bruxelas ao governo anterior), poderá conseguir um alongamento do prazo do ajustamento, ganhando mais um ano. A meta de 3% do PIB seria relegada para 2014.

Será uma nova cedência simbólica da Comissão Europeia, depois de já ter recuado em relação ao não pagamento anual da promissória irlandesa que garantiu o financiamento do sistema bancário literalmente falido depois da crise de 2008. O não pagamento da promissória levou Dublin a arquitetar uma reengenharia financeira para o efeito no final de março.

Com um pano de fundo de 8 dos 17 países da zona euro em recessão, até Mário Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), já elaborou sobre um “pacto de crescimento” (growth compact). Primeiro, lançou o tema no Parlamento Europeu em Bruxelas a 25 de abril e, depois, levantou o véu na conferência de imprensa em Barcelona na sequência da última reunião do conselho de governadores do banco a 3 de maio. “A redução da despesa pública não pode ser obtida através da redução da despesa de capital, dos investimentos”, e referiu que os investimentos em infraestruturas na zona euro e a intervenção do Banco Europeu de Investimentos (BEI) são aspetos a tomar em linha de conta.

Pontos em discussão

Este “pacto de crescimento”, que foi um dos cavalos de batalha sobre temas europeus da campanha eleitoral de Hollande, estará na agenda da cimeira em Berlim a 15 de maio. O presidente eleito já veio afirmar que a Alemanha não pode bloquear em simultâneo todas as saídas da negociação, quer sejam as euro-obrigações (eurobonds) ou a atuação do BEI.

Em contrapartida, Hollande foi claro que não pugna pelo regresso ao despesismo público com base no endividamento e no défice como solução “nacional” (num movimento para tranquilizar os mercados financeiros e deixar margem de manobra a Merkel junto do seu eleitorado e da irredutibilidade do Bundesbank, o banco central alemão). No entanto, estenderá o reajustamento orçamental em França até 2017. O presidente eleito pretende que os estímulos ao crescimento sejam concretizados através das políticas europeias. O papel do BEI, a reorientação dos fundos estruturais no sentido da inovação, um imposto europeu sobre as transações financeiras, e uma nova linha de orientação no BCE estão em cima da mesa. Em Itália, o porta-voz económico do PdL (Il Popolo della Libertà), o partido de Berlusconi, já veio hoje apoiar a ideia de euro-obrigações e de participação do BCE nos leilões de dívida no mercado primário.

Também hoje, o presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata Martin Schulz, retomou ideias de Hollande e da Comissão Europeia num artigo publicado no Economy Watch. Admitiu, ainda, que “no longo prazo, poderemos revisitar a ideia das euro-obrigações” (dando a entender que não será tema para já) e que a reforma da Política Agrícola Comum “não deverá continuar um tabu”, pois “nem assegura a sustentabilidade da agricultura nem permite rendimentos decentes aos agricultores”.

Segundo o jornal alemão Suddeutsche Zeitung publica hoje, Merkel poderá ceder em dois pontos: no uso dos fundos estruturais, baixando a exigência de cofinanciamento pelos estados que a eles recorram, para níveis entre 5 e 10%; e no aumento do capital do BEI com um reforço de 10 mil milhões de euros. Entretanto, a Comissão Europeia prepara um pacote de 200 mil milhões de euros, virado ao crescimento, para apresentar na cimeira europeia de junho. Este pacote insere-se na Iniciativa conhecida como “Europe 2020 Project Bond” destinada a dinamizar os mercados de capitais para financiar projetos de infraestruturas europeus nas áreas de transporte, energia e tecnologias de informação.

Acto II: do Dallara. O patrão do lóbi bancário mundial, Charles Dallara, cujo nome se tornou mediático durante as negociações da reestruturação da dívida grega, deu hoje um soco no estômago dos advogados da política de austeridade e juntou mais uma voz ao coro da necessidade de uma estratégia de crescimento (que tem sido designada por “pacto de crescimento”, growth compact, em inglês). O recado à Alemanha foi claro.

Recorde-se que Dallara defendeu os credores privados da dívida grega na renegociação que se concluiu este ano com o governo de Atenas sob pressão da troika.

Em entrevista à cadeia norte-americana CNBC, o diretor do Instituto de Finanças Internacionais (cuja sigla em inglês é IIF), afirmou que “a economia europeia se desligou do marco político”. “A focalização nos cortes orçamentais a curto prazo não se ajustou à realidade económica”, disse perante a surpresa de muitos. “Este enfoque criou a sensação de que a situação não tem fundo”, acrescentou.
Opção muito menos custosa

Aconselhou que se “reequilibre a equação crescimento-austeridade e se alivie o caminho do ajustamento orçamental em alguns países que já estão a ajustar-se”. “Isto pode obrigar a um maior financiamento nos próximos anos, mas é uma opção muito menos custosa do que deixar a situação deteriorar-se em países como a Grécia, Portugal, Espanha e Itália”, explicou.

Acrescentou, ainda, que “a Alemanha, juntamente com alguns parceiros europeus, terá de reavaliar a atual estratégia económica e considerar adaptações para colocar a economia da zona euro num caminho mais credível”.

A China Investment Corp (CIC), fundo soberano chinês, que este ano recebeu uma injeção de 50 mil milhões de dólares por parte do governo de Pequim, declarou em Adis Abeba, durante a reunião do World Economic Forum sobre África, que a sua estratégia de aplicações financeiras na Europa é clara: procurar oportunidades de investimento em ativos, não investir em dívida soberana.

“O que está a acontecer atualmente na Europa é, sem dúvida, preocupante”, afirmou Gao Xiqing, presidente do CIC. “Continuamos a procurar oportunidades na Europa, ainda que não queiramos comprar nenhuns títulos soberanos”, concluiu.

A China abriu uma nova etapa nas reformas capitalistas iniciadas por Deng Xioaping no final dos anos 1970, depois do fim da era maoista. O Conselho de Estado (conselho de ministros) em Pequim anunciou, na semana que findou, um programa piloto que permitirá a financeiros privados criarem entidades para emprestar a PME.

O local escolhido para a “experiência piloto” – o método usado desde o início das reformas de Deng, antes da generalização de reformas a todo o país – foi Wenzhou, na província costeira de Zhejiang, a cidade conhecida pelo seu pioneirismo na iniciativa privada na era pós-maoista.

Com os rumores de “golpe de estado” tentado por parte de uma fação (alegadamente revivalista da Revolução Cultural) a campearem pelas redes sociais chinesas, esta notícia quase passou despercebida.

Finança ao sol

O governo chinês “legaliza” uma atividade financeira privada que tem estado “submersa”. Segundo Gu Shengzu, professor de Economia na Universidade de Wuhan, citado pela revista privada independente Caixin, “um dos pontos da agenda da reunião [do Conselho de Estado] foi a necessidade de trazer os desenvolvimentos da finança privada para o sol e de levá-la a atuar de um modo racional”.

Na realidade, em virtude da criação de uma classe rica na China, com liquidez financeira, floresceu um sector informal de financiamento a empresários e empresas, em virtude do aperto no crédito por parte dos bancos (públicos) e do “filtro” criado pelos critérios políticos de estratégia das diversas cidades e províncias, ou mesmo definidos a nível central. O professor de Wuhan, citado pela Caixin, sublinha a importância de colocar ordem nesta finança paralela em virtude dos riscos potenciais que gera. Nada como legalizá-la.

O programa piloto permite, ainda, que os residentes na cidade possam investir diretamente em instituições financeiras no estrangeiro.

Cidade pioneira

Wenzhou é conhecida como cidade pioneira do capitalismo privado contemporâneo e um antigo porto de comércio internacional. Tem 240 mil empresários em nome individual, 130 mil empresas privadas e 180 grupos económicos privados.

Ali foi criada uma das três companhias aéreas privadas da China, a Juneyao Airlines, que opera a partir dos dois aeroportos de Xangai (Pudong e Hongqiao) voos domésticos com 24 Airbus (estando encomendados mais 6).

O alarme soou nos Estados Unidos e o subcomité de Política Monetária e Tecnologia do Congresso está a realizar hoje uma audição para avaliar se a estratégia da Reserva Federal (Fed) de facilitar liquidez em dólares ao Banco Central Europeu não acarreta riscos graves.

A liquidez é fornecida através de linhas de swap, em que a Fed troca divisas estrangeiras por dólares por um período de tempo (desde uma semana a três meses), com uma taxa de câmbio fixa e um juro. Esta linha não funciona apenas com o BCE, mas também com os bancos centrais da Suíça, Inglaterra, Japão e Canadá, ainda que seja o relacionamento com a zona euro que tem estado em foco.

Os congressistas norte-americanos estão preocupados com dois aspetos: a qualidade dos ativos do Banco Central Europeu, a contraparte da zona euro nesta operação, que muitos analistas consideram ter uma parcela significativa de títulos soberanos dos seus países membros, com risco elevado (ou seja, com valor muito inferior ao facial ou mesmo sendo considerados papéis de dívida especulativa, vulgo “lixo”), e se a liquidez em dólares fornecida a um juro muito baixo não está a levar os bancos da zona euro (que recorrem a essa linha através do BCE) a usar essa liquidez fora da zona euro, aplicando-a em ativos em dólares, agravando ainda mais os problemas de liquidez europeia e, ao mesmo tempo, “aquecendo” alguns mercados de ativos.

As linhas de swap em dólares geridas pelo Banco da Reserva Federal de Nova Iorque deveriam ter terminado em janeiro de 2011, mas foram renovadas até fevereiro de 2013, e inclusive a taxa for reduzida, estando muito abaixo das taxas praticadas no mercado. Em 14 de março, o montante em dívida estava num valor próximo de 65 mil milhões de dólares, um valor equivalente à quota dos EUA no Fundo Monetário Internacional. Sendo um montante inferior a 12% do pico atingido excecionalmente durante a crise financeira em 2008-2009, quando estas linhas de swap atingiram 583 mil milhões, a situação preocupa os norte-americanos interessados em perceber que uso tem sido dado a esse recurso de liquidez por parte da Europa.

Por outro lado, os congressistas seguem com atenção o balanço do BCE. Apesar de a sua alavancagem ser inferior à da Reserva Federal (36/1 contra 54/1), os norte-americanos duvidam da qualidade dos ativos em mãos do BCE.

Entretanto na audição de hoje, William C. Dudley, presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, admitiu que a Fed detém “um pequeno montante de dívida soberana europeia”, sem especificar o valor e de que títulos se tratam (é, naturalmente, diferente um Bund – título alemão – de um título dos países “periféricos” do euro), o que já provocou o nervosismo em muitos analistas norte-americanos.

Em 2025, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos no Produto Interno Bruto (PIB) e depois de 2030 “o renminbi [a divisa chinesa, ou moeda do povo em chinês] deverá estar praticamente a par do dólar como divisa chave”, segundo a previsão de Chen Yulu, reitor da Universidade Renmin (Universidade Popular da China), num artigo publicado no “Diário do Povo” esta semana.

A estratégia recomendada pretende que o “grau de internacionalização da divisa chinesa entre 2030 e 2040 chegue a 20%, o que assegurará, em duas ou três décadas, que o sistema monetário internacional deixe de ser dominado pelo dólar norte-americano para assumir uma estrutura envolvendo o dólar, o euro e o renminbi”, diz Chen Yulu.

A internacionalização da divisa chinesa não será só importante para a sustentabilidade da prosperidade económica interna, mas também “um veículo para o seu soft e hard power”, dimensões do poder a nível geopolítico, afirma Chen Yulu, que é da geração já nascida no final dos anos 1960, e especialista em Finanças.

Chen Yulu tem um doutoramento em Economia e foi professor Fullbright na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, bem como professor visitante na Universidade de Tilburg, na Holanda. É o mais jovem reitor de uma universidade chinesa.

Três fases

Chen Yulu refere três “fases” na estratégia de internacionalização. A primeira fase já foi iniciada e consistiu em fomentar o uso da moeda chinesa no comércio internacional por parte das empresas em todas as regiões do país, e estão em curso vários protocolos bilaterais no sentido de haver pagamentos nas próprias divisas, de países em desenvolvimento ou emergentes, envolvidos em trocas comerciais com a China.

O dólar seria eliminado das transações. O Standard Bank sul-africano, o maior banco de África, afirmou num estudo recente que o uso do renminbi nas trocas comerciais terá particular sucesso naquele continente mais do que em qualquer outro lugar “pois, muitas das moedas locais são fracas e em certa medida muito localizadas”.

O comércio internacional denominado em divisa chinesa representou 9% do total de importações e exportações em 2011.

Simultaneamente, a China abriu um mercado de swaps nos câmbios (existindo já acordos com 14 países) e transformou Hong Kong num centro offshore da sua divisa em 2009 e está a alargar essa função a Singapura e Londres (por muitos já considerada a plataforma financeira da China para o Ocidente). Um país de África, a Nigéria, já integrou no ano passado o renminbi no seu sistema de reservas.

Estas medidas já levaram a que o grau de internacionalização da divisa chinesa saltasse de 0,02% em 2010 para 0,41% em 2011.

A segunda fase envolve o passo seguinte, a convertibilidade total do renminbi. Chen Yulu considera que serão necessários apenas quatro anos para a concluir, entre 2016 e 2020, contrastando com “o Japão que levou 16 anos, o Reino Unido que levou 18 anos e a Rússia que levou 20 anos”. Um dos problemas que esse passo acarretará será a apreciação da divisa chinesa e o seu impacto no facto da China ter uma posição específica nas cadeias de valor mundiais, adverte.

Os produtos ‘Made in China’ serão mais caros no comércio internacional (abrindo oportunidades a países em desenvolvimento exportadores com custos mais baixos), aumentarão os défices da China com parceiros na Ásia seus fornecedores, e diminuirão os créditos em relação aos países desenvolvidos clientes da China, com quem Pequim tem excedentes comerciais ano após ano.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (Working Paper No. 12/88: “Spillover Effects of Exchange Rates: A Study of the Renminbi”), publicado esta semana, estima que a apreciaçao de 30% do renminbi em relação ao dólar, ocorrida entre 2000 e 2008, deverá ter implicado um aumento de 4,5% a 6% das exportações para os EUA de países em desenvolvimento concorrentes da China.

Enfrentar esses percalços exige que a China “aprenda com a experiência dos Estados Unidos” no desenvolvimento de “um padrão baseado em três pilares – legal, tecnológico e financeiro”.

A terceira fase coincidirá com a consagração geoeconómica do país. “Se o crescimento da China ultrapassar o dos Estados Unidos numa média anual de cinco pontos percentuais e a apreciação do renminbi continuar a uma taxa anual de 2 a 3%, a China terá o maior PIB do mundo em 2025″, refere o reitor. Com essa fase virá a paridade com o dólar e o renminbi transformar-se-á numa divisa de reserva sobretudo para o mundo em desenvolvimento.

O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, anfitrião em Nova Delhi da 4ª Cimeira dos BRICS – o novo bloco geopolítico formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, apresentará dia 29 de março aos quatro presidentes convidados a proposta de criação de um banco de desenvolvimento.

Segundo os analistas, a nova instituição bancária pretenderá afirmar-se como uma espécie de banco paralelo ao Banco Mundial (BM) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A ideia do primeiro-ministro indiano é criar um mecanismo financeiro, autónomo dos jogos de poder dentro do FMI e do BM, que permita o lançamento de projetos nos países em desenvolvimento. A presidência da instituição seria rotativa entre os cinco integrantes.

Por outro lado, este novo banco servirá como arma política de pressão sobre o FMI e o BM no sentido da mudança da correlação de forças interna, há muito reclamada pelas economias emergentes. Por exemplo, na estrutura dirigente do FMI há 24 membros, oito dos quais têm assento permanente (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, China, Rússia e Arábia Saudita) e 16 outros são eleitos por biénio.

Ainda que a ideia possa ser aprovada formalmente, a negociação da sua concretização será, certamente, um processo prolongado.

Nesta cimeira de Nova Delhi, além do primeiro-ministro indiano, participam Dilma Rousseff, presidente do Brasil, Dmitri Medvedev, ainda presidente da Rússia, Hu Jintao, presidente da China, e Jacob Zuma, presidente da África do Sul.

A primeira cimeira dos BRIC realizou-se na Rússia em 2009 e a África do Sul passou a integrar o “clube” em 2011, altura em que o acrónimo, criado por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, mudou para BRICS.

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, acusa as políticas monetárias de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação técnica em inglês) da Reserva Federal norte-americana (Fed) e de fornecimento de liquidez a 3 anos a 1% (conhecida por LTRO) do Banco Central Europeu (BCE) como armas “protecionistas” dos países ricos tentando gerar desvalorizações cambiais artificiais das suas divisas e ameaçar as economias emergentes com o risco de arbitragem (exploração de diferenças de preço entre instrumentos financeiros similares ou idênticos).

“O problema é que essa desvalorização cambial artificial é a forma de protecionismo mais feroz que se tem. Há um discurso dos países centrais de que são defensores do comércio livre, mas praticam o protecionismo mais feroz que se tem. E essa desvalorização artificial da moeda não está regulada pela Organização Mundial do Comércio. Então, não venham reclamar de algumas medidas absolutamente defensivas que o Brasil toma”, refere Dilma Rousseff em entrevista a Luis Nassif, publicada no portal online deste jornalista.

Dilma referia-se ao “alívio quantitativo” prosseguido por Ben Bernanke, o presidente da Fed, no sentido de “empurrar a crise com a barriga”, bem como, no caso da Europa, a estratégia de “desvalorizar o euro e jogar a conta sobre os países emergentes que têm câmbio flutuante”. Estas injeções de liquidez, diz Dilma Rousseff, não entraram na economia real. Estão criando uma enorme bolha monetária, sublinha a presidente brasileira.

Esquizofrenia europeia

“Hoje em dia, via tsunami monetário, está em curso, no mundo, a prática das desvalorizações competitivas, o que se chama de empobreça o seu vizinho. É uma situação esquizofrénica na Europa, que não consegue uma solução de crescimento. Muitos países estão com graus de desemprego do ponto de vista político incompatíveis com sistemas democráticos abertos. A dívida grega não é financiável, assim como a de Portugal”, refere, ainda, a presidente.

“No caso da Europa são um bilião de euros emprestados a 1% ao ano, que em breve entrarão na ciranda financeira. Irão investir em títulos da Itália e de Espanha, aumentando sua exposição? Não, Virão fazer arbitragem aqui e em outros países [com câmbio flutuante]. Temos uma enorme bolha a caminho”, afirma na entrevista. Dilma refere-se ao programa de liquidez LTRO a 3 anos impulsionado por Mário Draghi, o novo presidente do BCE, que já realizou duas operações em final de dezembro do ano passado e em final de fevereiro deste ano. Este programa é conhecido como a “bazuca” de Draghi.
Recessão com excesso de liquidez

E deixa um vaticínio: “Aqui não temos dúvida que a economia mundial caminha para a recessão com excesso de liquidez”. A que acresce a viragem de grandes economias para “uma tendência a uma volta aos mercados domésticos”, o que já seria visível com a China, ao decidir abrandar a meta de crescimento (para 7,5% em 2012, abaixo do limiar mágico dos 8%) e mudar o modelo económico do apoio na exportação para o fortalecimento do mercado interno.

E o que fará o Brasil? “Vai institucionalmente tomar medidas para garantir que o nosso mercado interno não seja canibalizado”. Uma das medidas já tomadas pelo Banco Central do Brasil foi a da redução dos juros. O diferencial entre os juros brasileiros (taxa Selic com meta em 9,75%) e os juros de referência de países ricos (como o Fed funds rate atualmente em 0,25% variando entre 0 e 0,25% ou a fixed rate- taxa principal de refinanciamento de operações do BCE em 1%) é responsável pela maior arbitragem que existe no mundo. A 7 de março, na semana passada, o Copom (Comité de Política Monetária) decidiu reduzir a taxa Selic para 9,75%. Em janeiro, o Copom havia cortado a taxa Selic de 11% para 10,5%.

Sétima potência económica do mundo

Apesar de ser um dos quatro BRIC (acrónimo criado por Jim O’Neill da Goldman Sachs em 2001 para as quatro grandes economias emergentes), o Brasil tem manifestado um crescimento com oscilações importantes, desde o início da crise financeira em meados de 2007: o produto interno bruto cresceu 5,7% em 2007; abrandou para 5,1% em 2008; entrou em recessão ligeira em 2009, com um decréscimo de 0,6%; retomou significativamente, com um crescimento de 7,5% em 2009; para ter um abrandamento abrupto, para uma taxa de crescimento de 2,9% em 2011. A previsão para 2012 é de um crescimento de 3%.

O Brasil, no entanto, subiu do 14º lugar na economia mundial em 1970 para 10º em 1990 e 7º em 2010. Segundo, O’Neill, depois da China é a mais espantosa história de crescimento das últimas duas décadas. Contudo, devido às oscilações do seu crescimento, não está entre os cinco países/zonas monetárias que mais contribuíram para o crescimento do PIB mundial na década de 2000 a 2010, onde se classificaram a China (contribuindo 22,12% para o aumento do PIB mundial), União Europeia (14,46%), Estados Unidos (14,24%), Índia (7,74%) e Rússia (3,46%).

As especulações sobre um novo “relaxamento” da política monetária chinesa já dominavam os media há algum tempo. Finalmente concretizaram-se. Esta semana, o banco central – o Banco Popular da China – deu mais um passo. Baixou o rácio de reservas para os grandes bancos em mais meio ponto percentual, para 20,5%. “Trata-se de um claro sinal de uma política de expansão da oferta de moeda para evitar uma queda no crescimento económico da China, no contexto atual de uma complicada situação internacional e doméstica”, diz-nos Xu Hong Kai, professor da Universidade de Pequim e dirigente do China Center for International Economic Exchanges, o mais importante grupo de reflexão chinês.

Em final de novembro do ano passado, o banco central já havia tomado esse caminho, interrompendo a estratégia de aperto da política monetária que vinha seguindo desde 2009, procurando contra-atacar a inflação, particularmente nos produtos do cabaz alimentar, e a “bolha” imobiliária. Em 2011, o banco central havia aumentado o rácio das reservas bancárias em seis momentos e mexido três vezes nos juros dos depósitos e dos empréstimos. Na altura, o banco central baixou o rácio de reservas dos grandes bancos de 21,5% para 21% e dos pequenos bancos para 19%.

Onda internacional

Estima-se que a decisão do banco central permita alargar a capacidade de financiamento da economia em €41,7 a 47,8 mil milhões. Alguns analistas falam de mais descidas nos próximos seis meses. O movimento dos banqueiros centrais chineses junta-se a uma onda de “alívios quantitativos”, com diferentes desenhos, em vigor. A Reserva Federal norte-americana mantém a “Operação Twist” e deu indicação de que manterá o nível de juros próximo de 0% até bem dentro de 2014. O Banco de Inglaterra anunciou recentemente uma extensão em mais 50 mil milhões de libras (€59 mil milhões) do seu programa de “alívio quantitativo”. O Banco Central Europeu, apesar de repudiar as estratégias de “alívio quantitativo”, lançou um programa adicional de fornecimento de liquidez à banca da zona euro conhecido por LTRO a 3 anos, cuja primeira operação foi em dezembro e a próxima agora no final de fevereiro.

Esta onda internacional pretende evitar o regresso de uma recessão mundial ou impedir agravamento de situações de recessão económica em alguns países ou de estagnação. No caso da China, a dor de cabeça é a taxa de crescimento. Há um limiar sagrado, a que os chineses chamam baobá, de 8%, um limiar abaixo do qual o crescimento anual não poderá descer, sob pena de colocar em risco toda a estratégia económica do país desde a revolução capitalista de Deng Xiaoping no final dos anos 1970.

A trajetória tem sido descendente: “A economia chinesa cresceu 9,2% em 2011, abaixo dos 10,3% de 2010. Entretanto no quarto trimestre de 2011 baiou para 8,9%, o crescimento mais baixo nos últimos dez trimestres. A previsão para 2012 é ainda mais baixa, uma média anual de 8,5%. Recentemente, as pequenas e médias empresas manifestaram problemas de financiamento e a crise externa, com a crise da dívida europeia e a alta taxa de desemprego nos Estados Unidos, tiveram impacto na procura de produtos chineses. O comércio bilateral entre a China e a União Europeia caiu mais de 7% em janeiro deste ano”, refere-nos Xu.

Quatro desafios

O problema de fundo é o da transição de um “modelo” económico para outro. “O abrandamento do crescimento reflete a enorme dificuldade em mover o modelo orientado para a exportação noutra direção”, diz Xu, que vê “quatro desafios pela frente”.

O primeiro tem a ver com a dinamização do consumo interno, tanto mais que há uma desigualdade crescente nos rendimentos – “um problema ainda mais sério que pode ameaçar a estabilidade social e a sustentabilidade do desenvolvimento económico”, sublinha o académico. “O objetivo de estimular o consumo das famílias continua difícil”, conclui.

O segundo desafio é lidar com os efeitos das crises externas. O que se liga com o problema da mudança do modelo. “Até agora a economia chinesa continua baseada nas exportações e no investimento governamental em capital fixo”, alerta o economista.

O terceiro é a dívida interna muito elevada dos governos locais. “Um legado do plano de estímulos de €440 mil milhões que levou a investimentos em grandes projetos de infraestrutura que, provavelmente, conduziram a crédito mal parado dos bancos”, adianta. Xu toca no que considera um ponto fulcral: “O governo protegeu excessivamente os interesses do sector bancário, o que prejudicou, até certo ponto, os interesses das famílias e das empresas. E, desse modo, essa política distorceu a estrutura económica”.

Finalmente, há o desafio da competitividade, sobretudo das empresas privadas. Estas começaram a lidar com o problema do aumento dos custos do trabalho e da apreciação progressiva da moeda chinesa e até há algum tempo atrás com a falta de financiamento. Uma tenaz que requer ser eliminada.

O léxico da crise das dívidas soberanas na zona euro está mais rico. Surgiu, esta semana, o “Grexit”, para Greece e exit, em inglês – saída [do euro] por parte da Grécia.

O termo foi criado por dois analistas do Citigroup, Willem Buiter e Ebrahim Rahbari, que atribuíram uma probabilidade de 50% da Grécia sair da zona euro no próximo ano e meio. A probabilidade anterior que atribuíam era de 25-30%.

Depois dos acrónimos em inglês “PSI” (para envolvimento do sector privado, uma forma tecnocrática de referir a reestruturação parcial da dívida negociando com os credores privados) e “OSI” (para envolvimento do sector “oficial”, ou seja do Banco Central Europeu e dos bancos centrais da zona euro), o temor do “Grexit” provocou o inundar das redes sociais com um conjunto de números-chave sobre a situação de pré-bancarrota da Grécia.

Os empréstimos à Grécia somam €95 mil milhões até à data, em que os países da União Europeia, através do memorando de entendimento de resgate, detêm €53 mil milhões e o Fundo Monetário Internacional uma fatia de €20 mil milhões. O restante de empréstimos soma €22 mil milhões. A última parte do primeiro plano de resgate no montante de €110 mil milhões, acordado em maio de 2010, tem sido adiada em função do processo de negociação do segundo plano de resgate com a troika e do plano de reestruturação da dívida com os credores privados.

A outra componente da dívida soberana grega tem a ver com o que está titulado. O total é de €260 mil milhões.

O Banco Central Europeu (BCE) deterá entre €50 a 60 mil milhões através do plano de intervenção (programa SMP criado por Jean-Claude Trichet, o anterior presidente do BCE) de aquisição de títulos no mercado secundário da dívida. É sobre este montante que hoje se discute, nos bastidores, um “envolvimento do sector oficial” (um OSI), tendo já surgido vários rumores sobre o seu desenho.

Os outros credores detentores de títulos de dívida abrangem €30 mil milhões por parte de fundos da segurança social grega e o restante em credores privados abarca: €70 mil milhões nas mãos dos mais variados fundos; €50 mil milhões em mãos de bancos gregos; €40 mil milhões em mãos de bancos europeus; e €15 mil milhões em mãos de seguradoras europeias.

A exposição dos bancos portugueses à dívida soberana grega é pequena: €178,9 milhões no caso do BPI e €344 milhões no caso do BCP.

As negociações com os credores privados (o tal PSI) envolvem cerca de €200 mil milhões, não se sabendo, ainda, qual o “corte de cabelo” final que vai ser aplicado ao valor dessa dívida.

Momento Lehman em março?

A Grécia tem títulos a vencer proximamente em março num total de €17,5 mil milhões (dos quais €14,5 mil milhões a 20 de março), o que é considerado o momento crítico. Alguns analistas já designam essa data como a candidata a um “momento Lehman” (como o que ocorreu com o banco norte-americano do mesmo nome no último trimestre de 2008 que agravaria irreversivelmente a crise financeira mundial).

Depois, em maio, o Tesouro grego terá de refinanciar mais €10 mil milhões, e em agosto mais €8 mil milhões, só para citar momentos de refinanciamento de volume elevado. Num total para o ano de 2012 de €48 mil milhões.

O objetivo oficial, ditado pela cimeira europeia e confirmado pelo FMI, é de fazer baixar a dívida grega do atual nível de 159,1% do produto interno bruto para 120% em 2020, como sendo um nível considerado sustentável e que graduaria o país para fugir a uma situação sistémica de insolvência.

Já depois da aplicação do programa de resgate, a dívida grega subiu de 138,8% em final de 2010 para 159,1% em final de 2011.

Contudo, os estudos históricos, realizados pelos investigadores norte-americanos Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff apontam para um limiar máximo de sustentabilidade da dívida soberana, para economias com problemas estruturais crónicos, na ordem dos 60 a 80% do PIB.

“É provavelmente ainda muito cedo para falar de um investimento da China no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Primeiro, os países com problemas deverão ajustar a sua estrutura industrial e realizar mais esforços para equilibrar o orçamento. Entretanto, no curto prazo, o Banco Central Europeu terá de desempenhar um papel muito mais ativo”, recomenda Xu Hongcai, diretor-adjunto do poderoso think tank China Center for International and Economic Exchanges (CCIEE).

Este professor de Finanças da Universidade de Economia e Gestão da capital chinesa, autor de “As estratégias financeiras do nosso grande país”, publicou na quinta-feira um artigo no “Asia Pacific Memo”, intitulado sugestivamente “Por que razão a China não está a comprar os títulos para resgates na zona euro (ainda)”. O “memorando 128″ surgiu precisamente durante a estadia da chanceler alemã Ângela Merkel em Beijing. Merkel deslocou-se hoje para Guangzhou (cidade de Cantão) na sua visita oficial. O “Asia Pacific Memo” é editado pelo Institute of Asian Research em Vancouver, no Canadá.

Ingredientes fundamentais

Xu Hongcai é muito claro sobre o problema. A intervenção de Beijing requer “três ingredientes fundamentais”:

- primeiro, a atuação do “Banco Central Europeu como emprestador de último recurso”, facto a que “a Alemanha se tem oposto, atrasando o processo”;

- segundo, os líderes europeus têm de tornar o FEEF “operacional e seguro para investidores de fora”, já que o que os chineses observam é que a notação do FEEF perdeu o triplo A (na recente decisão da agência Standard & Poor’s), os alemães resistem a aumentar o valor envolvido, e faltam “detalhes operacionais”;

- terceiro, os chineses preferem “ajudar a Europa através do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, apesar de “ainda ninguém ter dado uma resposta aos chineses”, em virtude dos fatores de “rigidez dentro da governação do FMI e da preferência por certos países-chave”.

Em suma, diz um dos homens fortes do CCIEE, “os países europeus e o FMI têm de apresentar um mecanismo de investimento credível à China (e a outros possíveis investidores) “.

Merkel estende a mão e Lagarde a mala de mão

Os jornais alemães referiram que a chanceler se deslocou à China com vários pontos na agenda – desde a questão das sanções ao Irão, ao facto de a China passar a ser este ano o principal mercado de exportação alemão (deixando de ser o vizinho francês), até à crise da dívida da zona euro. Muitos analistas colocaram Merkel na posição de estender a mão aos chineses para financiar os fundos europeus de resgate. Sabe-se que 40% das colocações de dívida já realizadas pelo FEEF estão em mãos de asiáticos, particularmente de japoneses, mas a China ainda não declarou se tem participado ou vai participar nessas emissões.

Já Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, em Davos, no último Fórum Económico Mundial levantaria a sua chique mala de mão para pedir aos presentes que investissem no “guarda-chuva” que o FMI pretende criar em abril para responder às crises da dívida. Foi um momento televisivo com o sorriso da diretora-geral e alguns risos na plateia.

Nas últimas duas semanas, a probabilidade de incumprimento (risco de default) da dívida portuguesa não tem parado, desde que galgou o patamar dos 65% a 17 de janeiro.

A meio da manhã de sexta-feira, o risco de default num horizonte de cinco anos atingiu um pico de 70,9%, segundo os dados intercalares da CMA DataVision. No novo relatório da situação, ao final da manhã, o risco descera ligeiramente para 70,47% e chegara mesmo a um mínimo de 69,90%, para voltar a subir e fechar em 70,53%.

A continuação das negociações em torno da reestruturação parcial da dívida grega, ainda sem acordo, e a decisão da agência Fitch de proceder ao corte de notação de cinco países da zona euro, entre eles Itália e Espanha, duas grandes economias “periféricas”, pesou no clima de final do dia no mercado dos credit default swaps (cds).

A título de exemplo, a Grécia, que atravessa uma situação de alto risco de um evento de crédito (eventualmente um default selectivo),está com a probabilidade de incumprimento em 82,51%, apenas cerca de 12 pontos percentuais acima.

O fosso em relação à Irlanda, o terceiro país da zona euro com um plano de resgate, é, agora, de quase trinta pontos percentuais. Ou seja, a diferença entre o segundo lugar para Portugal no TOP 10 da bancarrota e um sétimo lugar para a Irlanda. A Grécia, naturalmente, continua a liderar esse “clube”.

Pela primeira vez, o custo dos credit default swaps a 5 anos- seguros contra o risco de incumprimento, conhecidos pelo acrónimo cds – esteve a meio da manhã acima de 1450 pontos base. Ao final da manhã, desceu ligeiramente para 1436,17 pontos base e viria a fechar o dia em 1436,87 pontos base. O que significa que por cada 10 milhões de dólares segurados contra o risco de default, o tomador do seguro tem de pagar cerca de 1,44 milhões de dólares de prémio.

Em sete dias o que a Grécia percorreu em um mês

A evolução ao longo de janeiro é elucidativa: o risco de incumprimento fechou o primeiro dia de negociação do ano com 60,6% e 1075 pontos base de custo dos cds e ontem fechou com 68,69% de risco e 1365,30 pontos base.

A Grécia galgou a barreira dos 65% a 18 de abril de 2011 e o patamar dos 70% foi atingido a 24 de maio do mesmo ano. O que a Grécia fez em um mês, Portugal percorreu em sete dias úteis.

Pela primeira vez, a agência de informação financeira Markit, refere que os cds para a dívida portuguesa a 5 anos já estão a receber cotações em “pontos à cabeça” (points upfront, na designação técnica), ou seja, o tomador de um cds tem de pagar à cabeça um certo valor em função de uma escala que vai de 0 a 100. Nessa escala, segundo a Markit, os cds soberanos estavam com uma cotação de 39 pontos à cabeça, enquanto a Grécia estava com 63,1.

Por mais paradoxal que pareça, o país que está à beira de uma bancarrota externa, a Grécia, tinha uma dívida total que era, apenas, 267% do seu produto interno bruto (PIB) em meados do ano passado. O que é quase uma ninharia comparada com 663% do PIB para o caso da Irlanda e 507% para o Reino Unido, segundo uma comparação entre oito países da União Europeia, realizada pelo McKinsey Global Institute (MGI) no seu recente relatório “Debt and deleveraging”, publicado este mês.

A dívida total portuguesa era de 356% do PIB e, neste grupo de oito, ficou em 4.º lugar, depois da Irlanda, Reino Unido e Espanha (com 363% do PIB). Em melhor posição do que Portugal, ficaram França (com 346%), Itália (com 314%), Alemanha (com 278%) e Grécia (com 267%).

Por dívida total entende-se a dívida de famílias, empresas, entidades financeiras e governo. Os dados referem-se ao segundo trimestre de 2011 e, no caso português, irlandês e italiano, ao primeiro trimestre do ano passado.

No caso da Grécia, o elo mais fraco da zona euro que conduziu ao trilho da bancarrota externa, é a dívida pública, que representava 132% do PIB, mais do que a italiana que pesava 111% ou a francesa que pesava 90%. Nesta comparação, a dívida pública portuguesa pesava 79%.

Os dois países com a situação mais grave em termos de endividamento das entidades financeiras em relação à riqueza criada no país são a Irlanda e o Reino Unido.

As entidades financeiras irlandesas deviam 259% do PIB e as britânicas 219% do PIB. No caso das portuguesas a dívida é apenas de 55% do PIB. A melhor situação é a grega (7%).

No caso do endividamento das empresas, as duas piores situações são a irlandesa, com 194% do PIB, e a espanhola, com 134%. Nesta divisão do endividamento, Portugal vem logo em terceiro lugar, com a dívida das empresas a pesar 128%. A melhor situação é a alemã (49%).

Finalmente, no campo do endividamento das famílias, a pior situação é, uma vez mais, a irlandesa, com 124% do PIB, logo seguida do Reino Unido, com 98%, e de Portugal, com 94%. As melhores situações são as de Itália (apenas 45% do PIB) e de França (48%), com uma riqueza líquida das famílias sólida a nível europeu.

A título de exemplo, realizando uma comparação com o estudo anterior da consultora (publicado em janeiro de 2010), verificamos movimentos interessantes em três casos simbólicos para os quais há dados comparáveis em dois momentos distintos desta crise em curso. Em Itália o peso do endividamento do governo aumentou dois pontos percentuais do PIB e o das famílias quatro pontos percentuais; nos outros segmentos houve desalavancagem. Em Espanha, apenas aumentou o peso do endividamento do governo, em 15 pontos percentuais do PIB. No Reino Unido, aumentou 22 pontos percentuais do PIB o endividamento do governo e 25 pontos percentuais o endividamento das entidades financeiras.

Em resumo, sobre Portugal, avaliando a relação com a riqueza criada anualmente, nesta amostra de oito países “periféricos” e do “centro” da União Europeia: 4.º na dívida total; 3.º na dívida das empresas; 3º na dívida nas famílias; 7.º na dívida pública; 7.º na dívida das entidades financeiras. Comparativamente, as situações mais graves são ao nível das empresas e das famílias. Deduz-se que são os “segmentos” onde a desalavancagem vai ser mais violenta.

O estudo do MGI pretende avaliar o esforço de desalavancagem da dívida total em dez países do mundo (Japão, com o maior peso da dívida no PIB, neste grupo, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Canadá, por ordem decrescente de peso da dívida no PIB).

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