Sex 16 Mar 2012
14 de março: Dilma Rousseff (Brasil) ataca política monetária euro-americana — diário de bordo 570
Por JNR na secção A questão dos impérios , crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, acusa as políticas monetárias de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação técnica em inglês) da Reserva Federal norte-americana (Fed) e de fornecimento de liquidez a 3 anos a 1% (conhecida por LTRO) do Banco Central Europeu (BCE) como armas “protecionistas” dos países ricos tentando gerar desvalorizações cambiais artificiais das suas divisas e ameaçar as economias emergentes com o risco de arbitragem (exploração de diferenças de preço entre instrumentos financeiros similares ou idênticos).
“O problema é que essa desvalorização cambial artificial é a forma de protecionismo mais feroz que se tem. Há um discurso dos países centrais de que são defensores do comércio livre, mas praticam o protecionismo mais feroz que se tem. E essa desvalorização artificial da moeda não está regulada pela Organização Mundial do Comércio. Então, não venham reclamar de algumas medidas absolutamente defensivas que o Brasil toma”, refere Dilma Rousseff em entrevista a Luis Nassif, publicada no portal online deste jornalista.
Dilma referia-se ao “alívio quantitativo” prosseguido por Ben Bernanke, o presidente da Fed, no sentido de “empurrar a crise com a barriga”, bem como, no caso da Europa, a estratégia de “desvalorizar o euro e jogar a conta sobre os países emergentes que têm câmbio flutuante”. Estas injeções de liquidez, diz Dilma Rousseff, não entraram na economia real. Estão criando uma enorme bolha monetária, sublinha a presidente brasileira.
Esquizofrenia europeia
“Hoje em dia, via tsunami monetário, está em curso, no mundo, a prática das desvalorizações competitivas, o que se chama de empobreça o seu vizinho. É uma situação esquizofrénica na Europa, que não consegue uma solução de crescimento. Muitos países estão com graus de desemprego do ponto de vista político incompatíveis com sistemas democráticos abertos. A dívida grega não é financiável, assim como a de Portugal”, refere, ainda, a presidente.
“No caso da Europa são um bilião de euros emprestados a 1% ao ano, que em breve entrarão na ciranda financeira. Irão investir em títulos da Itália e de Espanha, aumentando sua exposição? Não, Virão fazer arbitragem aqui e em outros países [com câmbio flutuante]. Temos uma enorme bolha a caminho”, afirma na entrevista. Dilma refere-se ao programa de liquidez LTRO a 3 anos impulsionado por Mário Draghi, o novo presidente do BCE, que já realizou duas operações em final de dezembro do ano passado e em final de fevereiro deste ano. Este programa é conhecido como a “bazuca” de Draghi.
Recessão com excesso de liquidez
E deixa um vaticínio: “Aqui não temos dúvida que a economia mundial caminha para a recessão com excesso de liquidez”. A que acresce a viragem de grandes economias para “uma tendência a uma volta aos mercados domésticos”, o que já seria visível com a China, ao decidir abrandar a meta de crescimento (para 7,5% em 2012, abaixo do limiar mágico dos 8%) e mudar o modelo económico do apoio na exportação para o fortalecimento do mercado interno.
E o que fará o Brasil? “Vai institucionalmente tomar medidas para garantir que o nosso mercado interno não seja canibalizado”. Uma das medidas já tomadas pelo Banco Central do Brasil foi a da redução dos juros. O diferencial entre os juros brasileiros (taxa Selic com meta em 9,75%) e os juros de referência de países ricos (como o Fed funds rate atualmente em 0,25% variando entre 0 e 0,25% ou a fixed rate- taxa principal de refinanciamento de operações do BCE em 1%) é responsável pela maior arbitragem que existe no mundo. A 7 de março, na semana passada, o Copom (Comité de Política Monetária) decidiu reduzir a taxa Selic para 9,75%. Em janeiro, o Copom havia cortado a taxa Selic de 11% para 10,5%.
Sétima potência económica do mundo
Apesar de ser um dos quatro BRIC (acrónimo criado por Jim O’Neill da Goldman Sachs em 2001 para as quatro grandes economias emergentes), o Brasil tem manifestado um crescimento com oscilações importantes, desde o início da crise financeira em meados de 2007: o produto interno bruto cresceu 5,7% em 2007; abrandou para 5,1% em 2008; entrou em recessão ligeira em 2009, com um decréscimo de 0,6%; retomou significativamente, com um crescimento de 7,5% em 2009; para ter um abrandamento abrupto, para uma taxa de crescimento de 2,9% em 2011. A previsão para 2012 é de um crescimento de 3%.
O Brasil, no entanto, subiu do 14º lugar na economia mundial em 1970 para 10º em 1990 e 7º em 2010. Segundo, O’Neill, depois da China é a mais espantosa história de crescimento das últimas duas décadas. Contudo, devido às oscilações do seu crescimento, não está entre os cinco países/zonas monetárias que mais contribuíram para o crescimento do PIB mundial na década de 2000 a 2010, onde se classificaram a China (contribuindo 22,12% para o aumento do PIB mundial), União Europeia (14,46%), Estados Unidos (14,24%), Índia (7,74%) e Rússia (3,46%).