Inteligência Económica


A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, acusa as políticas monetárias de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação técnica em inglês) da Reserva Federal norte-americana (Fed) e de fornecimento de liquidez a 3 anos a 1% (conhecida por LTRO) do Banco Central Europeu (BCE) como armas “protecionistas” dos países ricos tentando gerar desvalorizações cambiais artificiais das suas divisas e ameaçar as economias emergentes com o risco de arbitragem (exploração de diferenças de preço entre instrumentos financeiros similares ou idênticos).

“O problema é que essa desvalorização cambial artificial é a forma de protecionismo mais feroz que se tem. Há um discurso dos países centrais de que são defensores do comércio livre, mas praticam o protecionismo mais feroz que se tem. E essa desvalorização artificial da moeda não está regulada pela Organização Mundial do Comércio. Então, não venham reclamar de algumas medidas absolutamente defensivas que o Brasil toma”, refere Dilma Rousseff em entrevista a Luis Nassif, publicada no portal online deste jornalista.

Dilma referia-se ao “alívio quantitativo” prosseguido por Ben Bernanke, o presidente da Fed, no sentido de “empurrar a crise com a barriga”, bem como, no caso da Europa, a estratégia de “desvalorizar o euro e jogar a conta sobre os países emergentes que têm câmbio flutuante”. Estas injeções de liquidez, diz Dilma Rousseff, não entraram na economia real. Estão criando uma enorme bolha monetária, sublinha a presidente brasileira.

Esquizofrenia europeia

“Hoje em dia, via tsunami monetário, está em curso, no mundo, a prática das desvalorizações competitivas, o que se chama de empobreça o seu vizinho. É uma situação esquizofrénica na Europa, que não consegue uma solução de crescimento. Muitos países estão com graus de desemprego do ponto de vista político incompatíveis com sistemas democráticos abertos. A dívida grega não é financiável, assim como a de Portugal”, refere, ainda, a presidente.

“No caso da Europa são um bilião de euros emprestados a 1% ao ano, que em breve entrarão na ciranda financeira. Irão investir em títulos da Itália e de Espanha, aumentando sua exposição? Não, Virão fazer arbitragem aqui e em outros países [com câmbio flutuante]. Temos uma enorme bolha a caminho”, afirma na entrevista. Dilma refere-se ao programa de liquidez LTRO a 3 anos impulsionado por Mário Draghi, o novo presidente do BCE, que já realizou duas operações em final de dezembro do ano passado e em final de fevereiro deste ano. Este programa é conhecido como a “bazuca” de Draghi.
Recessão com excesso de liquidez

E deixa um vaticínio: “Aqui não temos dúvida que a economia mundial caminha para a recessão com excesso de liquidez”. A que acresce a viragem de grandes economias para “uma tendência a uma volta aos mercados domésticos”, o que já seria visível com a China, ao decidir abrandar a meta de crescimento (para 7,5% em 2012, abaixo do limiar mágico dos 8%) e mudar o modelo económico do apoio na exportação para o fortalecimento do mercado interno.

E o que fará o Brasil? “Vai institucionalmente tomar medidas para garantir que o nosso mercado interno não seja canibalizado”. Uma das medidas já tomadas pelo Banco Central do Brasil foi a da redução dos juros. O diferencial entre os juros brasileiros (taxa Selic com meta em 9,75%) e os juros de referência de países ricos (como o Fed funds rate atualmente em 0,25% variando entre 0 e 0,25% ou a fixed rate- taxa principal de refinanciamento de operações do BCE em 1%) é responsável pela maior arbitragem que existe no mundo. A 7 de março, na semana passada, o Copom (Comité de Política Monetária) decidiu reduzir a taxa Selic para 9,75%. Em janeiro, o Copom havia cortado a taxa Selic de 11% para 10,5%.

Sétima potência económica do mundo

Apesar de ser um dos quatro BRIC (acrónimo criado por Jim O’Neill da Goldman Sachs em 2001 para as quatro grandes economias emergentes), o Brasil tem manifestado um crescimento com oscilações importantes, desde o início da crise financeira em meados de 2007: o produto interno bruto cresceu 5,7% em 2007; abrandou para 5,1% em 2008; entrou em recessão ligeira em 2009, com um decréscimo de 0,6%; retomou significativamente, com um crescimento de 7,5% em 2009; para ter um abrandamento abrupto, para uma taxa de crescimento de 2,9% em 2011. A previsão para 2012 é de um crescimento de 3%.

O Brasil, no entanto, subiu do 14º lugar na economia mundial em 1970 para 10º em 1990 e 7º em 2010. Segundo, O’Neill, depois da China é a mais espantosa história de crescimento das últimas duas décadas. Contudo, devido às oscilações do seu crescimento, não está entre os cinco países/zonas monetárias que mais contribuíram para o crescimento do PIB mundial na década de 2000 a 2010, onde se classificaram a China (contribuindo 22,12% para o aumento do PIB mundial), União Europeia (14,46%), Estados Unidos (14,24%), Índia (7,74%) e Rússia (3,46%).

O preço do barril de Brent, o petróleo de referência na Europa, atingiu terça-feira (13 de março) os 96,63 euros, no valor de fecho, segundo dados do Finanzen.ch. Durante o dia havia atingido 97,04 euros, o segundo valor mais alto, depois desse máximo intra-diário ter sido fixado em 98,27 euros no dia 1 de março. Hoje, o preço do barril abriu ligeiramente em baixa.

A atenção na Europa deixou de se focalizar no preço em dólares do Brent, que está num patamar de 125 dólares por barril. Apesar do preço em dólares ainda estar longe dos máximos do verão de 2008 (perto dos 147 dólares por barril de Brent), em virtude da variação no cambio entre o euro e o dólar, o contravalor em euros do preço do barril de Brent está hoje mais alto do que na altura do “choque petrolífero” de meados de há quatro anos.

A Europa está a viver um verdadeiro “choque petrolífero” regional.

Em Paris, pela primeira vez, a gasolina sem chumbo de 95 octanas atingiu um preço de 2,02 euros por litro numa estação de serviço do 4º bairro.

Depois de ter “ultrapassado” na sexta-feira a Itália no nível de risco de incumprimento da dívida soberana, Espanha reentrou hoje no “clube da bancarrota” (o TOP 10 dos países com maior probabilidade de entrarem em incumprimento num horizonte de cinco anos), de onde saíra em 23 de setembro de 2011.

O risco de incumprimento de Espanha abriu hoje em 27,88%, acima do fecho na sexta-feira (27,22%) e já com algum distanciamento do risco italiano, que abriu hoje em 26,99%, segundo dados da CMA DataVision. A meio da manhã, o risco de incumprimento da dívida espanhola subiu para 28,5%.

A atenção dos mercados da dívida regressou a Espanha, um dos “elefantes” na loja de porcelanas da zona euro. Para a Eurointelligence, a forma como a dívida espanhola está a ser encarada nos mercados de derivados é o primeiro sinal do falhanço do “compacto orçamental”, assinado na quinta-feira passada. A clara opção política de Madrid por uma política mais gradualista de austeridade, “revendo” a meta “irrealista” de défice orçamental imposta por Bruxelas para 2012, sinalizou aos investidores que a situação de Espanha é mais grave do que a versão oficial europeia pretendia.

Risco português continua a subir

Este movimento de subida do risco espanhol é acompanhado por uma subida conjunta de Portugal (o risco ascendeu a 63,43% e com mais de 1200 pontos base no preço dos credit default swaps, seguros contra o risco de incumprimento), Irlanda, Itália, Bélgica, França e Áustria.

Apenas a Grécia abriu ligeiramente em baixa, mantendo, no entanto, a probabilidade de default acima de 96%. Os mercados da dívida aguardam no próximo dia 8 de março (quinta-feira) os resultados da participação dos credores privados na operação de oferta de troca de títulos no âmbito da reestruturação parcial da dívida grega. O governo grego apontou para um limiar mínimo de participação dos credores privados na ordem dos 75%. Os rumores mais díspares sobre se tal limiar foi já atingido ou não influenciam os investidores nos mercados de derivados financeiros.

No “clube da bancarrota” estão, agora, presentes a Grécia, que lidera, Portugal em segundo lugar, a Irlanda na sétima posição e Espanha no décimo lugar. Itália que havia entrado no “clube”, no ano passado, desde o início da agonia do governo Berlusconi, saiu em final de fevereiro.

O anúncio caiu como uma bomba na Ásia na segunda-feira. O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao disse no primeiro dia da reunião anual Congresso Nacional do Povo (equivalente ao Parlamento, na estrutura de estado da China) que a meta de crescimento para 2012 ficará nos 7,5%, pela primeira vez abaixo do teto do “baoba” (o mágico número 8).

A revisão em baixa da taxa de crescimento do PIB provocou um efeito de stresse imediato nos activos ligados aos sectores de commodities, cuja dinâmica está hoje fortemente dependente das importações chinesas. Os países dependentes da exportação para a China terão de reavaliar a sua estratégia.
Bolsas quebram

Segundo dados da Bloomberg, as bolsas mundiais (índice MSCI World) caíram na segunda-feira 0,61% e a capitalização bolsista do sector financeiro (índice MSCI World Financials) diminuiu 0,8%. Mas o maior impacto ocorreu com a capitalização bolsista dos produtores de commodities (índice World Commodity Producers) que desceu 1,04%.

Este anúncio surge no meio de uma controvérsia que está a dominar os media chineses em torno dos benefícios e dos malefícios do que é designado, por alguns, como “capitalismo de Estado”, bem como sobre o “modelo” de crescimento do futuro, mantendo a matriz exportadora até ao limite ou enveredando por uma estratégia mais equilibrada.

Esta reunião anual do Congresso Nacional assume importância por se realizar seis meses antes do Congresso do Partido Comunista da China em outubro, onde se procederá a uma mudança significativa no topo dos quadros dirigentes.

Um relatório do Banco Mundial sobre a China em 2030, publicado na semana passada, trouxe algumas achas para o debate interno. Pela primeira vez o Banco Mundial produziu um estudo em conjunto com o Centro de Investigação e Desenvolvimento (CID) do Conselho de Estado da China (o conselho de ministros). Nas 468 páginas, o relatório alerta para que a China evite ficar prisioneira de uma armadilha, a de “um país de rendimento médio”. Esta armadilha conduziria a China para uma tendência de abrandamento da economia no longo prazo. O Banco Mundial e o CID propõem estratégias para que a China se transforme no horizonte de 2030 em uma “sociedade de alto rendimento” (per capita).

Seis estratégias para evitar uma armadilha

“O relatório recomenda seis estratégias para os próximos vinte anos, diz-nos Xu Hongcai, professor de Finanças na Universidade de Pequim e diretor no China Center for International Economic Exchanges, um dos grupos de reflexão (think tanks) mais importantes do país. “A primeira estratégia é repensar o papel do Estado e do sector privado par encorajar mais concorrência na economia. A segunda, é encorajar a inovação e adotar um sistema aberto de inovação com ligações à investigação global e às redes de desenvolvimento. A terceira, é dar atenção ao desenvolvimento ‘verde’, como uma enorme oportunidade de crescimento. A quarta, é promover a igualdade de oportunidades e a proteção social. A quinta, fortalecer o sistema fiscal e melhorar a sustentatibilidade orçamental. Finalmente, assegurar que a China continua a sua integração nos mercados globais”. Segundo o especialista chinês, o momento atual é o indicado para acelerar estas reformas.

Uma corrente dentro da China insiste na importância de prosseguir as reformas face a um lóbi poderoso que se consolidou. “A política da taxa de juro real negativa foi implementada nos últimos dois anos com resultados na depreciação das poupanças. As empresas detidas pelo estado agarraram lucros de monopólio gigantes, mas pagaram dividendos escassos. Além do mais, os rendimentos da população civil não acompanharam o passo do crescimento económico”, conclui Xu Hongcai, em declarações ao Expresso no primeiro dia de abertura do Congresso Nacional Popular.

Os media privados apontam o dedo claramente ao “capitalismo de Estado”. “Há duas escolas de pensamento na China a propósito do capitalismo de Estado”, afirma Hu Shuli, a reitora da Escola de Comunicação e Design da Universidade de Sun Yat-sen, em Cantão, e editora do semanário “Century Weekly”, do grupo de media Caixin, que esta ex-guarda vermelha dos anos 1960 criou com um grupo de investidores em 2010. O artigo foi publicado em inglês no South China Morning Post, que se publica em Hong Kong.

A força motriz da China

As duas linhas de pensamento, segundo Hu Shuli, são claras. “Um grupo de académicos discorda que o capitalismo de Estado seja a razão para os sucessos da economia chinesa. A força motriz foi a dinâmica de mercado desencadeada por 30 anos de reformas rurais, pelo crescimento do sector privado, e pela política de abertura, de globalização”, refere a editora chinesa.

O grupo oposto à prossecução da dinâmica dos últimos 30 anos desenvolveu-se nos últimos dez anos: “A China assistiu a um renascimento do capitalismo de estado como parcela de um desenvolvimento muito amplo do mercado. Mas não pode ser a corrente dominante e não pode ser a meta”. E, mais adiante: “A evidência empírica mostra repetidamente que o capitalismo de Estado é menos eficiente do que o capital privado”. “Se não for efetivamente controlado, o capitalismo de Estado da China pode tornar-se um capitalismo de compadrio”, prossegue Hu Shuli, que conclui com veemência. “Trata-se de grupos de interesse especiais que atuam como actores de mercado e a sua presença distorce o mercado. (…) O capitalismo de Estado deve ser forçado a sair das indústrias competitivas. (…) Se o nosso passo reformista continuar atrás da expansão do capital estatal, começaremos, em breve, a ouvir falar não do crescimento, mas da crise, do capitalismo de Estado”.

As especulações sobre um novo “relaxamento” da política monetária chinesa já dominavam os media há algum tempo. Finalmente concretizaram-se. Esta semana, o banco central – o Banco Popular da China – deu mais um passo. Baixou o rácio de reservas para os grandes bancos em mais meio ponto percentual, para 20,5%. “Trata-se de um claro sinal de uma política de expansão da oferta de moeda para evitar uma queda no crescimento económico da China, no contexto atual de uma complicada situação internacional e doméstica”, diz-nos Xu Hong Kai, professor da Universidade de Pequim e dirigente do China Center for International Economic Exchanges, o mais importante grupo de reflexão chinês.

Em final de novembro do ano passado, o banco central já havia tomado esse caminho, interrompendo a estratégia de aperto da política monetária que vinha seguindo desde 2009, procurando contra-atacar a inflação, particularmente nos produtos do cabaz alimentar, e a “bolha” imobiliária. Em 2011, o banco central havia aumentado o rácio das reservas bancárias em seis momentos e mexido três vezes nos juros dos depósitos e dos empréstimos. Na altura, o banco central baixou o rácio de reservas dos grandes bancos de 21,5% para 21% e dos pequenos bancos para 19%.

Onda internacional

Estima-se que a decisão do banco central permita alargar a capacidade de financiamento da economia em €41,7 a 47,8 mil milhões. Alguns analistas falam de mais descidas nos próximos seis meses. O movimento dos banqueiros centrais chineses junta-se a uma onda de “alívios quantitativos”, com diferentes desenhos, em vigor. A Reserva Federal norte-americana mantém a “Operação Twist” e deu indicação de que manterá o nível de juros próximo de 0% até bem dentro de 2014. O Banco de Inglaterra anunciou recentemente uma extensão em mais 50 mil milhões de libras (€59 mil milhões) do seu programa de “alívio quantitativo”. O Banco Central Europeu, apesar de repudiar as estratégias de “alívio quantitativo”, lançou um programa adicional de fornecimento de liquidez à banca da zona euro conhecido por LTRO a 3 anos, cuja primeira operação foi em dezembro e a próxima agora no final de fevereiro.

Esta onda internacional pretende evitar o regresso de uma recessão mundial ou impedir agravamento de situações de recessão económica em alguns países ou de estagnação. No caso da China, a dor de cabeça é a taxa de crescimento. Há um limiar sagrado, a que os chineses chamam baobá, de 8%, um limiar abaixo do qual o crescimento anual não poderá descer, sob pena de colocar em risco toda a estratégia económica do país desde a revolução capitalista de Deng Xiaoping no final dos anos 1970.

A trajetória tem sido descendente: “A economia chinesa cresceu 9,2% em 2011, abaixo dos 10,3% de 2010. Entretanto no quarto trimestre de 2011 baiou para 8,9%, o crescimento mais baixo nos últimos dez trimestres. A previsão para 2012 é ainda mais baixa, uma média anual de 8,5%. Recentemente, as pequenas e médias empresas manifestaram problemas de financiamento e a crise externa, com a crise da dívida europeia e a alta taxa de desemprego nos Estados Unidos, tiveram impacto na procura de produtos chineses. O comércio bilateral entre a China e a União Europeia caiu mais de 7% em janeiro deste ano”, refere-nos Xu.

Quatro desafios

O problema de fundo é o da transição de um “modelo” económico para outro. “O abrandamento do crescimento reflete a enorme dificuldade em mover o modelo orientado para a exportação noutra direção”, diz Xu, que vê “quatro desafios pela frente”.

O primeiro tem a ver com a dinamização do consumo interno, tanto mais que há uma desigualdade crescente nos rendimentos – “um problema ainda mais sério que pode ameaçar a estabilidade social e a sustentabilidade do desenvolvimento económico”, sublinha o académico. “O objetivo de estimular o consumo das famílias continua difícil”, conclui.

O segundo desafio é lidar com os efeitos das crises externas. O que se liga com o problema da mudança do modelo. “Até agora a economia chinesa continua baseada nas exportações e no investimento governamental em capital fixo”, alerta o economista.

O terceiro é a dívida interna muito elevada dos governos locais. “Um legado do plano de estímulos de €440 mil milhões que levou a investimentos em grandes projetos de infraestrutura que, provavelmente, conduziram a crédito mal parado dos bancos”, adianta. Xu toca no que considera um ponto fulcral: “O governo protegeu excessivamente os interesses do sector bancário, o que prejudicou, até certo ponto, os interesses das famílias e das empresas. E, desse modo, essa política distorceu a estrutura económica”.

Finalmente, há o desafio da competitividade, sobretudo das empresas privadas. Estas começaram a lidar com o problema do aumento dos custos do trabalho e da apreciação progressiva da moeda chinesa e até há algum tempo atrás com a falta de financiamento. Uma tenaz que requer ser eliminada.

O governo chefiado pelo tecnocrata Lucas Papademos acabou por aprovar por unanimidade, sexta-feira já de noite, o novo plano adicional de austeridade exigido pelo Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro) na quinta-feira, depois de seis ministros terem abandonado o gabinete ao longo dos dias 9 e 10 de fevereiro. Um dos partidos da coligação, o LAOS, de extrema-direita (e com 16 deputados nos 300 eleitos), retirou o apoio ao governo – os seus ministros pediram demissão – e clamou que não aceitará a “bota alemã”. O Banco da Grécia foi renomeado com spray como “Banco de Berlim” por ativistas. Os outros dois partidos da coligação – PASOK e Nova Democracia – estão, também, em ebulição.

O documento de centenas de páginas – 350 em inglês, 450 em grego – foi remetido para o Parlamento. A primeira etapa é a sua discussão e votação hoje à tarde na Comissão Parlamentar de Assuntos Económicos. Os 300 deputados deverão votá-lo no domingo à noite numa sessão para o efeito. Papademos conta, teoricamente, com 236 deputados em 300. As estimativas citadas pelo jornal grego Kathimerini apontam para 50 votos contra apenas. Mas a expectativa é enorme. O primeiro-ministro referiu, ontem, que ou se aprova o novo plano, ou será o “caos”.

Pacotão legislativo

O “pacotão legislativo” inclui, segundo o jornal grego ProtoThema, 4 artigos descrevendo a re-estruturação da dívida negociada com os credores privados (o que é conhecido pelo acrónimo PSI), a recapitalização dos bancos e o apoio aos fundos; 3 enormíssimos anexos com metas de austeridade, e uma “Carta de Intenções” para ser enviada ao Eurogrupo, ao comissário europeu Olli Rehn e ao presidente do Banco Central Europeu. Na carta admite-se que “ações de correção que se tornem apropriadas” poderão ser necessárias “se as circunstâncias mudarem”. O que fica nas mãos de um triunvirato – Lucas Papademos, o primeiro-ministro, Evangelos Venizelos, o ministro das Finanças (e apontado como futuro presidente do PASOK), e George Provopoulos, o governador do Banco da Grécia.

O plano refere um corte do salário mínimo em 22%, cortes nos pensionistas num montante de 300 milhões de euros por ano, bem como cortes nas despesas militares e de saúde. Curiosamente, o documento não refere o montante do segundo plano de resgate. O número que foi falado na cimeira europeia aponta para €130 mil milhões, mas há quem afirme que haverá que adicionar mais €15 mil milhões para a recapitalização dos bancos gregos depois da re-estruturação parcial da dívida ser concluída com a troca de títulos e um “corte de cabelo” (hair cut) no seu valor atual.

O PASOK – que governou o país desde o final de 2009 até à sua substituição em novembro de 2011 pelo governo de coligação chefiado por Lucas Papademos – e a Nova Democracia – que em finais de 2009 deixou a Grécia à beira da bancarrota – reúnem hoje os seus estados-maiores para decidir o voto no domingo.

Entretanto, o sindicato de polícia declarou os membros da troika como criminosos. E rumores de um golpe de estado em germinação percorreram Atenas lançados por alguns diplomatas ocidentais.

Uma manifestação está convocada para a Praça Sintagma no domingo em frente ao Parlamento.

Calendário crítico das próximas semanas

O Eurogrupo deverá reunir na quarta-feira e, depois, de novo, dia 20 de fevereiro. O Parlamento alemão – o Bundestag – deverá votar o propósito de um segundo plano de resgate da troika à Grécia a 27 de fevereiro. A 29 de fevereiro, o Banco Central Europeu tem previsto a abertura da segunda operação de financiamento de liquidez a 3 anos, conhecida pela sigla LTRO, e a que se espera que ainda mais bancos acorram, envolvendo um montante ainda maior do que os anteriores cerca de 500 mil milhões, que muitos consideram a verdadeira “bazuca” que tem segurado os “sucessos” das colocações de dívida soberana na zona euro. A cimeira da União Europeia está prevista para dias 1 e 2 de março.

A Grécia deveria lançar uma oferta de reestruturação da dívida aos credores privados até meados deste mês – meio da próxima semana – para poder proceder à troca de títulos em tempo útil antes do refinanciamento de um montante de dívida de €14,5 mil milhões a 20 de março, considerado o dia “D”. O Tesouro grego tem um leilão de dívida de muito curto prazo, de bilhetes com vencimento a 3 meses, para 14 de fevereiro.

O léxico da crise das dívidas soberanas na zona euro está mais rico. Surgiu, esta semana, o “Grexit”, para Greece e exit, em inglês – saída [do euro] por parte da Grécia.

O termo foi criado por dois analistas do Citigroup, Willem Buiter e Ebrahim Rahbari, que atribuíram uma probabilidade de 50% da Grécia sair da zona euro no próximo ano e meio. A probabilidade anterior que atribuíam era de 25-30%.

Depois dos acrónimos em inglês “PSI” (para envolvimento do sector privado, uma forma tecnocrática de referir a reestruturação parcial da dívida negociando com os credores privados) e “OSI” (para envolvimento do sector “oficial”, ou seja do Banco Central Europeu e dos bancos centrais da zona euro), o temor do “Grexit” provocou o inundar das redes sociais com um conjunto de números-chave sobre a situação de pré-bancarrota da Grécia.

Os empréstimos à Grécia somam €95 mil milhões até à data, em que os países da União Europeia, através do memorando de entendimento de resgate, detêm €53 mil milhões e o Fundo Monetário Internacional uma fatia de €20 mil milhões. O restante de empréstimos soma €22 mil milhões. A última parte do primeiro plano de resgate no montante de €110 mil milhões, acordado em maio de 2010, tem sido adiada em função do processo de negociação do segundo plano de resgate com a troika e do plano de reestruturação da dívida com os credores privados.

A outra componente da dívida soberana grega tem a ver com o que está titulado. O total é de €260 mil milhões.

O Banco Central Europeu (BCE) deterá entre €50 a 60 mil milhões através do plano de intervenção (programa SMP criado por Jean-Claude Trichet, o anterior presidente do BCE) de aquisição de títulos no mercado secundário da dívida. É sobre este montante que hoje se discute, nos bastidores, um “envolvimento do sector oficial” (um OSI), tendo já surgido vários rumores sobre o seu desenho.

Os outros credores detentores de títulos de dívida abrangem €30 mil milhões por parte de fundos da segurança social grega e o restante em credores privados abarca: €70 mil milhões nas mãos dos mais variados fundos; €50 mil milhões em mãos de bancos gregos; €40 mil milhões em mãos de bancos europeus; e €15 mil milhões em mãos de seguradoras europeias.

A exposição dos bancos portugueses à dívida soberana grega é pequena: €178,9 milhões no caso do BPI e €344 milhões no caso do BCP.

As negociações com os credores privados (o tal PSI) envolvem cerca de €200 mil milhões, não se sabendo, ainda, qual o “corte de cabelo” final que vai ser aplicado ao valor dessa dívida.

Momento Lehman em março?

A Grécia tem títulos a vencer proximamente em março num total de €17,5 mil milhões (dos quais €14,5 mil milhões a 20 de março), o que é considerado o momento crítico. Alguns analistas já designam essa data como a candidata a um “momento Lehman” (como o que ocorreu com o banco norte-americano do mesmo nome no último trimestre de 2008 que agravaria irreversivelmente a crise financeira mundial).

Depois, em maio, o Tesouro grego terá de refinanciar mais €10 mil milhões, e em agosto mais €8 mil milhões, só para citar momentos de refinanciamento de volume elevado. Num total para o ano de 2012 de €48 mil milhões.

O objetivo oficial, ditado pela cimeira europeia e confirmado pelo FMI, é de fazer baixar a dívida grega do atual nível de 159,1% do produto interno bruto para 120% em 2020, como sendo um nível considerado sustentável e que graduaria o país para fugir a uma situação sistémica de insolvência.

Já depois da aplicação do programa de resgate, a dívida grega subiu de 138,8% em final de 2010 para 159,1% em final de 2011.

Contudo, os estudos históricos, realizados pelos investigadores norte-americanos Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff apontam para um limiar máximo de sustentabilidade da dívida soberana, para economias com problemas estruturais crónicos, na ordem dos 60 a 80% do PIB.

“É provavelmente ainda muito cedo para falar de um investimento da China no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Primeiro, os países com problemas deverão ajustar a sua estrutura industrial e realizar mais esforços para equilibrar o orçamento. Entretanto, no curto prazo, o Banco Central Europeu terá de desempenhar um papel muito mais ativo”, recomenda Xu Hongcai, diretor-adjunto do poderoso think tank China Center for International and Economic Exchanges (CCIEE).

Este professor de Finanças da Universidade de Economia e Gestão da capital chinesa, autor de “As estratégias financeiras do nosso grande país”, publicou na quinta-feira um artigo no “Asia Pacific Memo”, intitulado sugestivamente “Por que razão a China não está a comprar os títulos para resgates na zona euro (ainda)”. O “memorando 128″ surgiu precisamente durante a estadia da chanceler alemã Ângela Merkel em Beijing. Merkel deslocou-se hoje para Guangzhou (cidade de Cantão) na sua visita oficial. O “Asia Pacific Memo” é editado pelo Institute of Asian Research em Vancouver, no Canadá.

Ingredientes fundamentais

Xu Hongcai é muito claro sobre o problema. A intervenção de Beijing requer “três ingredientes fundamentais”:

- primeiro, a atuação do “Banco Central Europeu como emprestador de último recurso”, facto a que “a Alemanha se tem oposto, atrasando o processo”;

- segundo, os líderes europeus têm de tornar o FEEF “operacional e seguro para investidores de fora”, já que o que os chineses observam é que a notação do FEEF perdeu o triplo A (na recente decisão da agência Standard & Poor’s), os alemães resistem a aumentar o valor envolvido, e faltam “detalhes operacionais”;

- terceiro, os chineses preferem “ajudar a Europa através do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, apesar de “ainda ninguém ter dado uma resposta aos chineses”, em virtude dos fatores de “rigidez dentro da governação do FMI e da preferência por certos países-chave”.

Em suma, diz um dos homens fortes do CCIEE, “os países europeus e o FMI têm de apresentar um mecanismo de investimento credível à China (e a outros possíveis investidores) “.

Merkel estende a mão e Lagarde a mala de mão

Os jornais alemães referiram que a chanceler se deslocou à China com vários pontos na agenda – desde a questão das sanções ao Irão, ao facto de a China passar a ser este ano o principal mercado de exportação alemão (deixando de ser o vizinho francês), até à crise da dívida da zona euro. Muitos analistas colocaram Merkel na posição de estender a mão aos chineses para financiar os fundos europeus de resgate. Sabe-se que 40% das colocações de dívida já realizadas pelo FEEF estão em mãos de asiáticos, particularmente de japoneses, mas a China ainda não declarou se tem participado ou vai participar nessas emissões.

Já Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, em Davos, no último Fórum Económico Mundial levantaria a sua chique mala de mão para pedir aos presentes que investissem no “guarda-chuva” que o FMI pretende criar em abril para responder às crises da dívida. Foi um momento televisivo com o sorriso da diretora-geral e alguns risos na plateia.

O jornal Financial Times divulgou esta madrugada um documento que contém as duas condições fundamentais para o segundo pacote de resgate à Grécia passar no Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças dos membros da zona euro) e ter o visto positivo da troika, com vista à sua implementação. O documento estará a circular entre os ministros das Finanças dos membros da zona euro. Na próxima segunda-feira reúne uma cimeira europeia informal.

A primeira é que os rendimentos do estado grego deem total prioridade ao pagamento futuro do serviço da dívida. E a segunda que o parlamento grego transfira a soberania sobre o orçamento do país. O documento apelida as condições para este segundo Memorando de Entendimento (MoU, no acrónimo em inglês) como “elementos de inovação institucional”. E conclui: “Só se e quando forem implementadas, o novo programa poderá começar”. O documento pretende que as duas condições, classificadas como “mecanismo de vigilância”, passem a documento legal, “de preferência através de uma emenda constitucional”. As exigências são atribuídas a um diktat da Alemanha.

A primeira condição dita que os rendimentos do estado são para ser usados prioritariamente para pagar o serviço futuro da dívida contraída junto dos emprestadores internacionais (a troika) e dos credores privados que assinarem o acordo de reestruturação da dívida. “Só o remanescente poderá ser usado para financiar os gastos primários”, escreve-se. O objetivo da medida: “a eliminação de facto da possibilidade de incumprimento”, ou do uso da ameaça política de incumprimento por parte do governo grego. O documento exige que o Parlamento grego apoie esta exigência e que a torne lei.

A segunda condição é que o ajustamento, – a consolidação orçamental – seja controlado por novas disposições, em que a sua soberania é transferida para “o nível europeu por um certo período de tempo”. Para o efeito um “comissário do orçamento” será nomeado pelo Eurogrupo, com poderes para vetar decisões e assegurar que é cumprida a prioridade estabelecida na primeira condição.

Deitar gasolina para a fogueira

Vários analistas estão a interpretar estas exigências como um encostar à parede do governo e do parlamento gregos e um convite a este membro da zona euro sair da moeda única, além de outras eventuais consequências políticas.

A divulgação deste documento surge no momento em que as negociações entre Atenas e os credores privados da dívida ainda prosseguem, em virtude de um braço de ferro entre as exigências da última reunião do Eurogrupo de segunda-feira passada e os limites até à data aceitáveis pelos credores privados, e em que as reuniões entre a troika e o governo de Atenas sobre o andamento do cumprimento do Memorando de Entendimento chegaram a uma rotura na sexta-feira em torno de dois pontos politicamente sensíveis: o corte do salário mínimo (que é de €863 por mês, se o valor anual for dividido por 12 meses), alegando que é “mais alto do que em Portugal [€566*] e em Espanha [€748]“, e a eliminação de dois subsídios equivalentes a mais dois salários anuais no sector privado. Segundo o jornal grego Kathimerini, a troika teria inclusive rejeitado as propostas alternativas feitas pelos sindicatos e pelas patronais gregas.

Nota:* Na mesma lógica de valor mensal se o valor anual for dividido por 12 meses. O salário mínimo em Portugal é de €485 mas multiplicado por 14 meses.

Agenda grega

A Grécia tem um momento crítico em março quando vencem €14,5 mil milhões da dívida. Para evitar um evento de crédito nesse momento, o acordo com os credores privados deverá ser firmado antes de 15 de fevereiro, disse ontem o ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos.

O primeiro-ministro grego, o “tecnocrata” Lucas Papademus, reúne ainda sábado com a troika e no domingo com os líderes políticos que suportam a coligação tripartida que deu forma ao governo. Segunda-feira reúne-se em Bruxelas a cimeira europeia informal. As negociações sobre o acordo de reestruturação da dívida prosseguem na próxima semana. Eleições legislativas estão previstas para abril.

Nas últimas duas semanas, a probabilidade de incumprimento (risco de default) da dívida portuguesa não tem parado, desde que galgou o patamar dos 65% a 17 de janeiro.

A meio da manhã de sexta-feira, o risco de default num horizonte de cinco anos atingiu um pico de 70,9%, segundo os dados intercalares da CMA DataVision. No novo relatório da situação, ao final da manhã, o risco descera ligeiramente para 70,47% e chegara mesmo a um mínimo de 69,90%, para voltar a subir e fechar em 70,53%.

A continuação das negociações em torno da reestruturação parcial da dívida grega, ainda sem acordo, e a decisão da agência Fitch de proceder ao corte de notação de cinco países da zona euro, entre eles Itália e Espanha, duas grandes economias “periféricas”, pesou no clima de final do dia no mercado dos credit default swaps (cds).

A título de exemplo, a Grécia, que atravessa uma situação de alto risco de um evento de crédito (eventualmente um default selectivo),está com a probabilidade de incumprimento em 82,51%, apenas cerca de 12 pontos percentuais acima.

O fosso em relação à Irlanda, o terceiro país da zona euro com um plano de resgate, é, agora, de quase trinta pontos percentuais. Ou seja, a diferença entre o segundo lugar para Portugal no TOP 10 da bancarrota e um sétimo lugar para a Irlanda. A Grécia, naturalmente, continua a liderar esse “clube”.

Pela primeira vez, o custo dos credit default swaps a 5 anos- seguros contra o risco de incumprimento, conhecidos pelo acrónimo cds – esteve a meio da manhã acima de 1450 pontos base. Ao final da manhã, desceu ligeiramente para 1436,17 pontos base e viria a fechar o dia em 1436,87 pontos base. O que significa que por cada 10 milhões de dólares segurados contra o risco de default, o tomador do seguro tem de pagar cerca de 1,44 milhões de dólares de prémio.

Em sete dias o que a Grécia percorreu em um mês

A evolução ao longo de janeiro é elucidativa: o risco de incumprimento fechou o primeiro dia de negociação do ano com 60,6% e 1075 pontos base de custo dos cds e ontem fechou com 68,69% de risco e 1365,30 pontos base.

A Grécia galgou a barreira dos 65% a 18 de abril de 2011 e o patamar dos 70% foi atingido a 24 de maio do mesmo ano. O que a Grécia fez em um mês, Portugal percorreu em sete dias úteis.

Pela primeira vez, a agência de informação financeira Markit, refere que os cds para a dívida portuguesa a 5 anos já estão a receber cotações em “pontos à cabeça” (points upfront, na designação técnica), ou seja, o tomador de um cds tem de pagar à cabeça um certo valor em função de uma escala que vai de 0 a 100. Nessa escala, segundo a Markit, os cds soberanos estavam com uma cotação de 39 pontos à cabeça, enquanto a Grécia estava com 63,1.

As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português fixaram hoje novos máximos históricos desde a adesão ao euro nos prazos a 3, a 5 e a 10 anos, segundo dados da Bloomberg. Os juros subiram em todas as maturidades, e no prazo a 6 anos ficaram ligeiramente abaixo do máximo fixado ontem.

Os juros das OT a 3 anos atingiram pela primeira vez os 21%, fechando em 21,11%, acima do máximo anterior de 20,9% de 18 de julho do ano passado. O stresse nestes prazos menores está de novo a afirmar-se. No caso das OT a 2 anos, os juros subiram para 17,18%, ainda a alguma distância do máximo de 20,36% em 18 de julho do ano passado.

Quanto aos juros das OT a 5 anos fixaram um novo máximo em 19,82%. O caso mais emblemático ocorreu hoje com os juros das OT a 10 anos, que, em geral, servem de referência para comparações – pela primeira vez fecharam acima da barreira dos 15%, em 15,22%. A 2 de janeiro, no primeiro dia de negociação do ano, fecharam em 13,36%.

Já depois do fecho do mercado secundário da dívida na sexta-feira (27 de janeiro), a agência de notação Fitch anunciou o corte de rating de cinco países da zona euro e a colocação em perspetiva negativa (ou seja 50% de probabilidade de haver novo corte num horizonte de dois anos) de seis países da moeda única.

Apesar dos cortes de notação nenhum dos cinco países foi colocado em situação de dívida especulativa (vulgo junk status, o que costuma ser traduzido por “lixo”) – o Chipre escapou a descer para esse nível, passando de BBB para BBB- e a Irlanda não levou nenhum corte, mantendo-se em BBB+.

Itália e Espanha em foco

A Espanha desceu de escalão, do duplo A para o A simples, mais especificamente de AA- para A, uma quebra de dois níveis. No caso de Itália, a baixa foi, também, de dois níveis dentro do escalão A – Roma viu a notação da dívida passar de A+ para A-.

As razões para estes dois cortes mais importantes prendem-se à dinâmica da dívida em Itália e às perspetivas negativas económicas e orçamentais de Espanha.

Estes dois casos – Espanha e Itália – indiciam que o stresse no mercado secundário vai ampliar-se, podendo vir a exigir ainda mais atenção do Banco Central Europeu através do seu programa de aquisição de títulos soberanos aflitos, conhecido pela sigla SMP. O que deixará menos margem de manobra para acudir a outros fogos.

A Fitch cortou, ainda, a notação da Bélgica de AA+ para AA e da Eslovénia de AA- para A (neste caso com descida de escalão do duplo A para o A simples).

A agência de notação, dominada por um grupo financeiro francês, decidiu colocar em perspetiva negativa os seis países acima referidos.

Episódios de volatilidade severa vão continuar

A Fitch analisa o contexto global da zona euro mencionando que a sua apreciação se aplica também a França (que ainda mantém o triplo A, na classificação desta agência) e a Portugal (que está classificado com BB+, já em terreno de dívida especulativa).

Diz a agência: “Na ausência de maior clareza sobre a estrutura final de uma zona euro reformada no fundamental, a abordagem gradualista, adotada pelos políticos [europeus] em relação à reforma sistémica, continuará a ser pontuada por episódios de volatilidade financeira severa, acarretando um custo económico e financeiro que provoca uma erosão na qualidade de crédito das dívidas soberanas. Significa, também, que uma ‘fragmentação’ da zona euro não pode ser totalmente colocada de parte, ainda que, na opinião da Fitch, o risco de uma eventualidade dessas continue diminuto”.

A agência não mexeu na classificação de triplo A da Alemanha, Áustria, Finlândia, França, Holanda e Luxemburgo, deixando os suportes do Fundo Europeu de Estabilização Europeia intactos. Ao contrário do que fez a 13 de janeiro a Standard% Poor’s que cortou o triplo A a França e Áustria.

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