Inteligência Económica


O analista financeiro Peter Cohan voltou a insistir na sua proposta radical para os Estados Unidos. O crédito à economia real caiu 3% num ano e os bancos aplicaram mais 14,7% em títulos. A muito prestigiada economista Laura Tyson, este fim de semana, propôs a criação de um banco para as infraestruturas.

Desde o pânico financeiro de 2008 que o analista financeiro Peter Cohan vem insistindo no blogue DailyFinancial na necessidade de passar a um Plano B – o de permitir e apoiar a criação, de raiz, de novos bancos no sistema financeiro americano.

Bancos aliviados do peso do “lixo tóxico”, da ameaça de passarem para a “lista negra” de falências e libertos dos estratagemas usados pelo atual sistema bancário que “drenam” o dinheiro barato (aliás com juros negativos, em termos reais) que a Reserva Federal disponibiliza em nome dos cidadãos.

“Desde a crise financeira, que os contribuintes americanos puseram 23,7 biliões de dólares em dinheiro e em garantias para salvar as instituições financeiras com a ideia de que se apoiaria a economia e se geraria emprego. Os resultados estão por ver”, diz Peter Cohan. Recordando os últimos dados, o analista sublinha: “O crescimento neste segundo trimestre foi de 1,6%, abaixo do limiar dos 2,5% que o Prémio Nobel Paul Krugman considera ser indispensável para impedir a taxa de desemprego de subir acima dos 9,5% atuais. A economia real não está a responder”.

Crédito total baixou 3%

O quantitative easing da Reserva Federal, facilitando liquidez aos bancos a juros baixos, quase próximos de 0% em termos nominais, mas, em termos reais, a custo negativo (pois a inflação é superior), serviram para tapar os buracos do “lixo tóxico”, aumentar reservas, inclusive para especulação através dos departamentos de negociação de alta-frequência, nomeadamente em commodities, e para reforçarem aplicações em títulos do Tesouro. Os títulos detidos pelo sistema bancário – 61% dos quais são governamentais – subiram 14,7% entre o primeiro trimestre de 2009 e o primeiro trimestre de 2010. Em compensação, diz Cohan, o crédito total baixou 3%.

Haverá saída para este círculo vicioso? Cohan acha que sim: criando novos bancos de raiz. A ideia não é politicamente correta e foi muito criticada. Mas algumas vozes dentro da mesma onda surgiram, entretanto.

Um cálculo do economista Paul Romer parece dar razão a Cohan: se o governo apoiasse a capitalização destes novos bancos com 350 mil milhões de dólares (menos de 1,5% do que já colocou no sistema financeiro atual) isso poderia gerar 3,5 biliões em capacidade de crédito à economia real.

A proposta de Laura Tyson

Por sua vez, este domingo, a economista Laura Tyson, que presidiu ao conselho de assessores económicos do presidente Clinton, sugeriu que se criasse um banco para o investimento em infraestruturas. O seu objetivo seria financiar 1 bilião de dólares para investimentos adicionais em infraestruturas, como em comboio de alta velocidade interestadual, projetos de autoestradas com portagens e melhorias de aeroportos, envolvendo co-investidores privados.

Peter Cohan admite, que no caso da Europa, situações como a da Irlanda, com o sistema financeiro mergulhado em “lixo tóxico”, ou da Grécia, com uma banca muito frágil, pudessem seguir a mesma linha.

Portugal voltou a entrar no clube dos de maior risco de incumprimento da dívida com um disparo de mais de 19% no aumento da sua probabilidade de default (incumprimento de dívida soberana) a cinco anos em apenas uma semana. O país ultrapassou nesse campeonato a Irlanda, que viu a sua notação de crédito ser revista em baixa e com perspetiva negativa.

O grupo de países designados pejorativamente por PIIGS (acrónimo humorístico para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) viu as probabilidades de incumprimento da dívida soberana dos seus membros num horizonte de cinco anos aumentar significativamente esta semana, de acordo com o monitor da CMA DataVision.

O campeão dos aumentos foi Portugal com 19% de crescimento da probabilidade de default (PD) a cinco anos, logo seguido da Irlanda com 13,5%. Fora do grupo, a Hungria, que também está “intervencionada” pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) tal como a Grécia, viu a sua PD crescer 14%.

Em virtude da aceleração do aumento da PD relativa à dívida soberana portuguesa, o país re-entrou, esta semana, para o TOP 10 mundial de maior risco, de onde havia saído a 29 de junho, e ultrapassou inclusive a Irlanda, situando-se, agora, no 8º lugar, abaixo do Dubai e acima do “tigre celta”.

O risco português neste âmbito da dívida soberana está, ainda, longe do máximo histórico alcançado aquando da crise de 6 de maio (com 32,63%) da zona euro, mas já ultrapassa os 25%. No início da semana estava nos 21,4% e, em 23 de julho, aquando da divulgação dos resultados dos testes de stresse à banca europeia, situava-se nos 20,8%.

Trio no foco dos especuladores

O processo de aumento da PD dos cinco PIIGS tem-se mostrado sincronizado, ainda, que em patamares diferentes e com taxas de crescimento diferenciadas. Há um trio que viu crescer, esta semana, o seu risco mais do que os outros – Portugal, Irlanda e Itália.

O foco de atenção dos especuladores dos mercados financeiros ligados à dívida soberana esteve virado para este eixo, fruto da continuação da gravíssima crise bancária na Irlanda e da instabilidade política crescente em Lisboa e em Roma.

A situação irlandesa, levou a que, esta semana, a agência de rating Standard & Poor’s baixasse a notação da Irlanda de AA para AA-, a mais baixa desde 1995, e com um Outlook negativo, um sinal que coincidiu com uma derrocada bolsista de quase 6% em Dublin no dia do anúncio dessa baixa de notação.

A agência tocou no ponto fraco irlandês: o problema do peso do “lixo tóxico” no seu sistema bancário, um fardo que pesa dramaticamente sobre o orçamento irlandês (que este ano ainda será de 12,5% do PIB) e sobre a subida galopante do endividamento público (passará de 25% do PIB em 2007 para 87,3% no final de 2010), apesar dos “fundamentais” do ex-tigre celta serem considerados saudáveis (por exemplo, perspetiva de crescimento de 3% em 2011, capacidade exportadora de alto valor acrescentado e excedentes na balança de pagamentos), como nos referiu o economista e analista Marc Coleman, de Dublin.

A recapitalização do sistema bancário irlandês poderá custar 50 mil milhões de euros, quase 1/3 do PIB, segundo aquela agência de notação de crédito. Em setembro, 30 mil milhões de euros de títulos de dívida dos bancos garantidos pelo governo terão de ser refinanciados, substituindo a dívida antiga por nova (situação de roll over, no tecnicalês financeiro), segundo a Nomura International. “Uma muralha que chega à maturidade”, clamam alguns mais pessimistas.

Grécia bate máximo histórico

No entanto, desde a divulgação dos testes de stresse a 23 de julho, o maior agravamento ocorreu com a Grécia que consolidou o seu lugar de 2º país de maior risco de incumprimento no mundo. Atualmente, inclusive, o seu PD (53,57%) é superior ao anterior máximo histórico (52,71%) atingido na crise da zona euro de 6 de Maio.

Apesar da intervenção do FMI e do chapéu protetor de Bruxelas, a desconfiança sobre a Grécia agravou-se e os especuladores no mercado dos credit default swaps (cds, no acrónimo técnico, uma espécie de derivados para segurar o risco de incumprimento da dívida) continuam a apostar que Atenas acabará por declarar default ou re-estruturar a sua dívida num horizonte de cinco anos, mesmo que isso seja negado politicamente.

No quadro do sistema bancário europeu, a Markit, outra empresa de informação sobre estes mercados financeiros ligados à dívida soberana e privada, chamou, esta semana, a atenção para quatro bancos europeus, dois portugueses, um espanhol e um italiano, que mais viram o custo dos seus cds subirem nos últimos 28 dias: BBVA (36% de agravamento), Monte dei Paschi di Siena (32%) e, com menores aumentos, o BES (com o custo atual dos cds mais elevado do que os outros três – 411 pontos base, mais do que o próprio custo dos cds da dívida soberana portuguesa que estão nos 346 pontos base) e o BCP.

Condições de crédito agravam-se

As condições de crédito de dois dos PIIGS – a Grécia e a Irlanda – agravaram-se mais acentuadamente, esta semana.

O “tigre celta” viu, esta semana, as yields (remunerações) das suas obrigações a 10 anos aumentar 7% e Atenas 5%. As yields das obrigações gregas ultrapassaram os 12% no caso das maturidades a 5 anos e quase 11,5% nas maturidades a 10 anos, em média mais de 1 ponto percentual acima das condições em 23 de julho. Os máximos históricos anteriores de 5 de maio de 2010 – 14,6% a 5 anos e 12,45% a 10 anos – ainda não foram batidos, mas a proximidade encurta-se,

A Irlanda vê-se obrigada a remunerar as suas obrigações a 10 anos nos 5,72% (acima das yields a 23 de julho, aquando da divulgação dos testes de stresse) e Portugal nos 5,49% (ainda abaixo das yields a 23 de julho).

O índice bolsista de Dublin caiu terça-feira quase 6%, o ponto mais baixo desde Julho de 2009. A probabilidade de default da dívida soberana irlandesa subiu, de novo, situando-se acima de 23% e consolidando o 8º lugar no TOP 10 mundial do risco de incumprimento.

Desde 9 de agosto que as yields (remunerações) das obrigações irlandesas a 10 anos ultrapassaram as portuguesas e que a probabilidade de default do país ultrapassou, também, a de Portugal. A 16 de agosto, a Irlanda entrou para o clube de maior risco, de onde Portugal havia saído em 29 de junho, e onde re-entrou hoje, terça-feira. As yields de obrigações irlandesas com maturidades a 10 anos subiram hoje, terça-feira, para os 5,36%, acima das portuguesas (5,25%, que desceram em relação a ontem) e mais de 3 pontos percentuais acima das remunerações das ‘Bunds’ do estado alemão. O que significa um agravamento das condições de crédito a mais longo-prazo.

Entretanto, a agência de notação Standard & Poor’s baixou o rating da Irlanda de AA para AA- com outlook negativo, alegando a gravidade da situação do sistema bancário irlandês e das implicações da gestão deste problema para a flexibilidade orçamental de médio-prazo. A recapitalização do sistema bancário poderá custar 50 mil milhões de euros, quase 1/3 do PIB, segundo aquela agência de notação de crédito. Em Setembro, 30 mil milhões de euros de títulos de dívida dos bancos garantidos pelo governo terão de ser refinanciados, substituindo a dívida antiga por nova (situação de roll over, no tecnicalês financeiro). “Uma muralha que chega à maturidade”, clamam alguns mais pessimistas.

Marc Coleman, colunista do The Sunday Independent, editor de um programa de rádio sobre economia e autor de vários livros sobre a economia irlandesa, recusa uma visão imediatista sobre a situação crítica por que está a passar a Irlanda.

No final da sessão bolsista de hoje, terça-feira, em Dublin, sublinhou-nos que reagir a quente a eventos isolados pode destruir a confiança e auto-alimentar o pessimismo.

A volatilidade de hoje derivou do mau desempenho de um grande grupo de construção, a CRH (Celtic Resources Holdings Plc, envolvida em algumas polémicas ao longo dos anos), que tem um forte impacto no índice bolsista irlandês.

Excedente na balança de pagamentos

Por isso, Coleman propõe que se refocalize a atenção nos “fundamentais” do seu país que são mais sólidos do que os de outros companheiros do grupo designado por PIIGS que tem estado sob pressão dos especuladores.

“A Irlanda é o único dos cinco países que terá um excedente saudável na balança de pagamentos”, sublinha. O país mantém uma dinâmica de exportação assinalável e de alto valor acrescentado, que já não se resume à computação, não sendo este setor sequer o dominante. Sublinhe-se, ainda, diz o nosso interlocutor, que todo o high-tech irlandês “depende hoje mais da retoma na Ásia e na Europa do que nos Estados Unidos”, ameaçados por um pessimismo crescente de que entrarão em double-dip.

Abordando a questão do défice orçamental, que rondará os 21 mil milhões de euros este ano, cerca de 12,5% do PIB estimado para 2010 (um défice que será quase uma vez e meia superior ao oficialmente definido como objetivo para Portugal), Coleman “disseca-o”: “É composto em 1/3 por investimento de capital e noutro terço por um défice cíclico, que caso ocorra uma retoma deverá desaparecer por volta de 2014. O remanescente, o défice estrutural, é da ordem dos 7 mil milhões”.

Marc sublinha, de seguida, o esforço político feito pelo governo irlandês: “Apreciando a correção estrutural de cerca de 3 mil milhões só no último orçamento, o problema terá sido reduzido para metade quando se iniciar o próximo orçamento”. E acrescenta: “O ajustamento feito nos dois últimos anos fiscais atinge os 5% do PIB e é o maior de todos os países europeus nos tempos recentes e provavelmente durante a história orçamental moderna”.

O suporte otimista de toda esta análise: os 3% de crescimento real esperado para 2011, um número que será “o dobro da média da zona euro”.

Segundo muitos analistas, o problema crítico irlandês é o sistema bancário que esteve fortemente envolvido na alavancagem de uma “bolha” especulativa sem precedentes, centrada no imobiliário, que conduziu a uma acumulação de “lixo tóxico” que, segundo várias estimativas, é mais de 50% do PIB. Se a malha dos testes de stresse ao sistema bancário realizados em julho fosse apertada, como o fez o Citi numa simulação alternativa divulgada três dias depois dos resultados anunciados pelo Banco Central Europeu, nenhum dos bancos irlandeses passaria.

Manter sangue frio

A postura que Coleman recomenda face ao mau período porque está a passar o ex-tigre Celta é, no entanto, clara: “Mantendo o sangue frio não nos livra de uma recessão global se for isso que vai ocorrer. Mas ajudará, certamente, uma retoma se for isso que estiver em armazém. Também ajudará a antecipar uma situação interina em que uma retoma seja possível, mas que poderá ir por água abaixo por falta de confiança”.

Quase um mês passado sobre a divulgação otimista dos resultados dos testes de stresse ao sistema bancário europeu, quase todo o grupo designado por PIIGS viu as probabilidades de default a cinco anos subirem. A exceção foi Portugal até hoje de manhã. Nas yields houve um ganho generalizado, à exceção da Grécia, que bateu um recorde. A Irlanda reentrou hoje no TOP 10 mundial do default, atualizado diariamente pela CMA DataVision, e bateu o seu anterior recorde em probabilidade de default, chegando perto dos 23%.

Portugal, Irlanda, Itália e Espanha foram quinta-feira (19/08) os países com maior aumento diário de probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos, segundo o monitor da CMA Datavision que abrange mais de seis dezenas de países cujas dívidas são seguradas no mercado especulativo dos credit default swaps (cds).

Também a Grécia – que continua em 2º lugar no clube dos países com maior probabilidade de bancarrota num prazo de cinco anos – manteve a tendência altista que se tem manifestado desde 5 de agosto em todo o grupo dos PIIGS (acrónimo humorístico em inglês para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), com alguns ziguezagues.

Atenas bateu hoje o recorde nas yields (remunerações pagas pelos estados aos tomadores) das obrigações gregas a cinco anos, subindo para 11,56% – mais de 10 pontos percentuais acima das yields pagas aos tomadores das ‘Bunds’ alemãs, que servem de referência na zona euro.

Hoje, o mercado dos cds abriu, de novo, em alta para o grupo dos cinco da zona euro. No fecho da sessão de sexta-feira, a Grécia estava acima dos 52%, a Irlanda a subir, de novo, perto dos 23% (entrando de, novo, no TOP 10 mundial do risco de default) e Portugal acima dos 21%. A Espanha e a Itália, também, sobem, ainda que em patamares inferiores. Mantém-se uma sincronia de aumentos nos PIIGS.

A exceção portuguesa

Apesar do otimismo introduzido pela divulgação dos testes de stresse ao sistema bancário europeu em 23 de julho, praticamente um mês depois verifica-se que quase todo o grupo dos PIIGS viu as suas probabilidades de default subirem num horizonte de cinco anos.

As que mais subiram foram a grega e a irlandesa, o que conduziu o ‘tigre celta’ a ultrapassar Portugal desde 10 de agosto, tendo inclusive entrado no TOP 10 mundial do risco de default a 16 de agosto. Saiu, no entanto, desse clube logo no dia seguinte, mas reentrou hoje, estando já no 8º lugar. A exceção a este agravamento foi Portugal que manteve a probabilidade de default inalterada até hoje de manhã.

Os benefícios do otimismo introduzido pelos testes de stresse observam-se nas yields das obrigações emitidas por Portugal, Irlanda e Espanha que baixaram desde 23 de julho, com destaque, uma vez mais, para o Tesouro lisboeta que assistiu ao maior desagravamento. As yields de Obrigações do Tesouro português a 10 anos baixaram de 5,55% em 23 de julho para 5,18% na quinta-feira. A Irlanda viu as yields das suas obrigações subirem acima das portuguesas, estando com as suas condições de crédito mais agravadas. Na sexta-feira, as yields a 10 anos subiram para 5,22% no caso português e para 5,30% no caso irlandês.

Fora dos PIIGS, o país “intervencionado” pelo FMI desde 2008 que mais beneficiou com o otimismo dos testes de stresse foi a Hungria, apesar da mudança de governo. A probabilidade de default baixou em mais de 1 ponto percentual (retirando-a da fronteira do clube da bancarrota) e as yields das suas obrigações a 10 anos baixaram 0,78 pontos percentuais. As yields das obrigações húngaras mantêm-se, contudo, num patamar muito superior ao irlandês ou português. Fecharam a semana nos 6,62%.

Controvérsia sobre os testes de stresse

Três dias depois da divulgação pelo Banco Central Europeu dos testes de stresse a 91 bancos do sistema financeiro europeu, o Citi divulgou, a 26 de julho, os resultados de uma avaliação similar, ainda que com uma malha mais apertada.

Aplicando os mesmos critérios do BCE, o Citi divulgava 24 bancos em dificuldades em 2011, em vez de 9. Entre os 15 adicionais estavam 5 bancos gregos, mais Cajas e o Banco Pastor no nosso vizinho, e o Allied Irish Banks PLC, o banco com uma situação “tóxica” mais grave no ‘tigre celta’.

Apertando ainda mais a malha, considerando um teste na base de um rácio mais exigente do que o do BCE, o Citi revelava que 57 bancos dos 91 teriam dificuldades em 2011 em enfrentar um cenário de choque mantendo um rácio de capital superior a 6% (no equity Tier 1), e inclusive 23 mostravam um rácio negativo, ou seja um sinal de insolvência.

Neste teste mais exigente não passaria nenhum dos bancos portugueses, nem irlandeses nem gregos. No entanto, nenhum dos bancos portugueses estaria numa situação de insolvência. Em Espanha apenas quatro (BBX, Kutxa, Santander e Unicaja) passariam os testes, três (Intesa, Unicredit e UBI) na Itália e dois (OTP e FHB) na Hungria.

Como concluía a análise feita pelo blogue Calculated Risk, a situação do sistema bancário europeu é mais frágil no caso de um evento extremo do que aparentam os resultados divulgados pelo BCE. Algo que os investidores internacionais sabem.

Apesar da situação das bolsas não ser radiante e dos analistas apontaram para a continuação do que no tecnicalês de Wall Street se designa por período de “urso” (bear), de declínio tendencial do valor das ações e do rácio P/E (preço em relação aos ganhos), o survey global da consultora McKinsey, publicado esta semana no seu McKinsey Quarterly, revela que a maioria dos quase 3000 executivos entrevistados entre 2 e 6 de agosto por todo o mundo declararam que não vão abrandar nos investimentos nem nas oportunidades de aquisição.

De facto, continuamos a assistir a grandes movimentos de consolidação em diversos setores e de operações gigantes de entrada em bolsa.

Depois da oferta pública inicial de venda (o que os americanos designam por IPO) do Banco da Agricultura chinês nas bolsas de Xangai e Hong Kong ter rendido em julho mais de 22 mil milhões de dólares – um novo recorde no Guinness das entradas em bolsa, destronando o seu colega, o Industrial and Commercial Bank of China, com 21,97 mil milhões em 2006 -, a General Motors, intervencionada pelo Estado americano (em 61% das suas ações), anunciou a sua entrada nas bolsas de Nova Iorque e de Toronto visando financiar-se em 12 a 16 mil milhões de dólares.

Por seu lado, o grupo mineiro anglo-australiano BHP Billiton fez uma oferta pública de aquisição (OPA) hostil de cerca de 42 mil milhões de dólares sobre a canadiana Potash, número um em adubos no mundo, o que será a maior OPA do ano até à data.

Por seu lado, a suíça Novartis (nascida da fusão da Ciba e da Sandoz) quer ficar com a totalidade da Alcon (52% ainda nas mãos da Nestlé) especializada no segmento oftalmológico por 28,1 mil milhões de dólares ou mais. Será a maior operação de sempre de consolidação no mercado suíço: depois da Novartis ter adquirido à Nestlé 25% da Alcon em 2008, com os 52% agora em vista, o investimento total será de 49,7 mil milhões de dólares.

A mexicana América Móvil, de Carlos Slim, comprou em junho a Carso Global Telecom (um conglomerado mexicano de participações, por exemplo, na Telmex e Telefonos de Mexico) por 24,3 mil milhões.

Na área da energia, a francesa GDF Suez acaba de fechar a aquisição da britânica International Power por 21,5 mil milhões de dólares.

Finalmente, nestes movimentos com dois dígitos nos milhar de milhões, o grupo francês Sanofi-Aventis quer adquirir a biotecnológica bostoniana Genzyme por mais de 18 mil milhões de dólares.

A entrada em força dos investidores financeiros nos contratos de futuros nos mercados de commodities (mercadorias) está a provocar, de novo, “oscilações selvagens” nos preços e introduziu um factor de volatilidade que o analista Nathan Martin considera “trágico” para a economia real. Estes investidores são designados por “não-comerciais”, por não estarem envolvidos no negócio físico, mas apenas em operações financeiras.

Tais movimentos são encabeçados por hedge funds e divisões de aplicações financeiras de grandes bancos usando ferramentas sofisticadas de negociação (designadas como high-frequency trading, plataformas de grande poder computacional), mas em que se envolve, também, por contágio, a arraia-miúda dos especuladores atraída pelo efeito megafone das notícias nos media.

“Esta volatilidade foi ampliada desde o advento dos exchange trade funds (ETF) e de outras formas de derivados baseados em commodities. A Reserva Federal, no caso americano, com a sua política monetária de taxa básica de juros próxima de zero, inundou-nos de uma liquidez massiva que se encaminhou para estes mercados. O caso da seca na Rússia, por exemplo, apenas acicata os investidores que andam sempre à cata de oportunidades para especular. Dá-se um efeito bola de neve, com cada vez mais gente de fora a entrar, o que amplia ainda mais estes movimentos”, explica Nathan Martin, responsável pelo blogue Nathan’s Economic Edge.

Efeito aterrador

Esta multidão de investidores e a sofisticação da especulação, diz-nos Martin, “tem literalmente um efeito aterrador no planeta, pois a principal característica é uma flutuação muito viva dos preços das matérias-primas alimentares”, uma área muito sensível no nível de vida das populações nos países pobres e emergentes, onde a agroflação (inflação por via da alta de preços dos produtos alimentares) tem um peso significativo no índice de preços. E prossegue: “Estas oscilações selvagens, sem dúvida, que são muito lucrativas para os metidos no negócio da economia do ‘papel’ financeiro, mas são devastadoras para a agricultura real e para o aumento da fome mundial”.

Os dois casos típicos mais recentes de “oscilações selvagens” ocorreram com o cacau (um processo de alta e quebra desde o início do ano, com picos em Janeiro, Março, Abril e Julho) e com o próprio barril de petróleo, com variações significativas dos preços nos dois sentidos. No caso do barril da variedade Brent, o petróleo de referência na Europa, depois de ter iniciado o mês acima de 81 dólares, com uma subida no primeiro dia de negociação de Agosto no mercado spot de quase 4% e de ter prosseguido a alta até próximo dos 83 dólares, iniciou um processo em ziguezague, estando, hoje nos 76 dólares.

Por outro lado, o que está a acontecer este mês com o trigo (o maior disparo entre todas as matérias-primas agrícolas, com um aumento de 25%), o açúcar, a soja e o cobre fez regressar o fantasma do que ocorreu no verão quente de 2008, quando várias commodities atingiram picos históricos, com destaque para o petróleo, o caso, então, mais mediatizado.

Na altura, a polémica estalou sobre as razões de tal disparo súbito no primeiro semestre de 2008, seguido depois por uma queda abrupta quando estalou o pânico financeiro e se iniciou a recessão económica e a quebra do comércio internacional.

Alun H. Thomas, especialista do Fundo Monetário Internacional, juntamente com Martin Muhleisen e Malika Pant, modelizou, recentemente, o comportamento das várias variáveis envolvidas no caso do preço do petróleo. O modelo, explicado em “Peaks, Spikes and Barrels: Modeling Sharp Movements in Oil Prices” (IMF Working Paper, WP/10/186, Agosto 2010) verificou que, para além de um impacto de longo prazo da procura, sobretudo por parte das variações do consumo dos países emergentes, e de variações na oferta, sobretudo por parte dos produtores não-alinhados na OPEP, ocorreu um facto novo recentemente (um tema que já abordámos, também, noutro artigo do diário de bordo da crise).

Sincronização de movimentos

Nota-se, a partir de 2007, uma sincronização entre as variações do preço real do petróleo (avaliado em direitos de saque especiais, a unidade monetária do FMI, para neutralizar as variações do câmbio do dólar) e as decisões dos investidores não-comerciais em termos de saldo líquido das suas posições longas em contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros em commodities). [Para os interessados, o estudo apresenta um painel de gráficos, na Figura 2 – “Oil Prices: Role of Fundamentals and Speculation”, na página 9, sendo o gráfico de referência para este comentário o sexto.]

O preço sobe vertiginosamente acompanhando, a partir de certa altura, o disparo da entrada em força dos especuladores e desce quando o saldo de posições longas baixa. Esta relação não se observou em situações anteriores. “Houve claramente uma mudança nos portefólios financeiros para um investimento massivo em commodities”, afirma Alun Thomas, corroborando a opinião de Nathan Martin.

Segundo dados do Barclay’s Capital Commodity Research, os activos financeiros em commodities sob gestão (AUM, na designação técnica em inglês) passaram de 70 mil milhões de dólares em 2005 para 270 mil milhões no segundo trimestre de 2008. Depois caíram a pique no segundo semestre de 2008 e voltaram a subir em 2009, situando-se no final desse ano nos 263 mil milhões, quase o mesmo do que no Verão quente do ano anterior. Em 2010 continuaram a subir para valores ainda mais altos tendo em Abril chegado próximo dos 294 mil milhões. No final do segundo semestre terão baixado para 292 mil milhões.

Segundo outros cálculos estariam nos 264 mil milhões no final do segundo semestre deste ano. Mesmo assim, o patamar em que se encontram continua a ser quase 4 vezes mais do que há cinco anos, apesar de longe do pico de 310 mil milhões no segundo trimestre de 2008.

No entanto, Alun Thomas explica que, desta vez, “não espera um padrão de disparo dos preços [como no primeiro semestre de 2008], mas um aumento gradual à medida que a economia mundial retome o crescimento”. Mas deixa um “se”: “É evidente que se houver uma repetição da recessão, o preço do petróleo pode oscilar de novo significativamente”.

O especialista estima, também, que a sincronização ocorrida entre os preços do petróleo e os movimentos dos especuladores “vá declinar”. “Na nossa análise, o saldo líquido dos contratos dos não-comerciais não é um determinante significativo dos preços do petróleo no longo prazo”, explica.

Geopolítica não influencia tanto quanto se pensa

Outra verificação curiosa do modelo destes técnicos do FMI, é que a geopolítica tem uma influência menor do que se costuma assinalar [como se pode ver no 5º gráfico da Figura 2 já referida]. Na verdade, a relação até é paradoxal a partir de 2002: “Usando um índice de risco geopolítico [do International Country Risk Guide], não encontramos nenhum prémio no preço quando os riscos aumentam. De facto, verificámos o oposto: o preço do petróleo aumenta quando o risco geopolítico desce”, diz Thomas. E explica porquê: “Os países da OPEP tendem a cumprir mais as quotas definidas, o que até gera uma pressão altista sobre os preços”. Uma situação manifestamente distinta da que ocorreu aquando dos choques petrolíferos dos anos 1970 e 1980.

O consumo de cereais no mundo vai crescer em mais de 45 milhões de toneladas métricas, mas a produção vai diminuir nesta campanha 2010 e 2011 em 13,7 milhões, segundo dados ontem divulgados pelo World Agricultural Supply and Demand Estimates (WASDE) do Departamento de Agricultura (equivalente a Ministério) do governo dos Estados Unidos.

O resultado vai ser um ‘buraco’ de 32,48 milhões de toneladas métricas entre o consumo (que crescerá 2 % em relação a 2009 e 2010) e a produção (que se contrairá em 0,6% em relação à campanha de 2009 e 2010) e uma redução dos stocks finais na mesma quantidade. O que não aconteceu na campanha cerealífera anterior de 2009 e 2010, em que houve um excedente de 26,8 milhões de toneladas métricas.

O principal contribuinte para o ‘buraco’ vai ser o trigo, que verá a produção reduzir-se em 15,3 milhões de toneladas métricas.

A produção mundial de cereais para 2010/2011 deverá atingir 2.212,8 milhões de toneladas métricas e o consumo 2.245,28 milhões. Os stocks finais projectados deverão ser de 444,32 milhões de toneladas métricas.

O resultado será a agroflação [inflação por via dos preços das commodities agrícolas]?, interrogam-se os analistas.

Trigo é o caso mais grave

Muitos dos cereais têm registado uma alta de preços durante 2010, como já referimos no post anterior (diário de bordo 114). O caso mais em destaque é o trigo, com uma variação do preço em relação ao mês anterior de 35,05% (a mais alta em todas as categorias de mercadorias) e de cerca de 25% em termos anuais (a mais alta nos cereais e a segunda mais alta, depois do algodão, nas matérias-primas agrícolas).

O preço deste cereal, além do impacto da especulação financeira generalizada nas commodities, está a sofrer a pressão das secas e das cheias nos países principais produtores e particularmente as reduções projectadas de produção de 8 milhões de toneladas na Rússia, de 4 milhões na União Europeia, 3 milhões na Ucrânia e 2 milhões no Cazaquistão para a campanha de 2010/2011. A produção diminuirá, também, na Argélia, Brasil, Uruguai, Bielorrússia e Croácia. Em compensação, a Índia, Estados Unidos, Austrália e Uzbequistão vão ter aumentos de produção.

A Rússia, o terceiro produtor mundial de trigo, afectado profundamente pelas secas (que já destruíram ¼ da superfície cerealífera do país) e incêndios, decidiu a partir de domingo e até final do ano proibir as exportações deste cereal.

Este verão parece estar a incendiar, de novo, os preços de algumas commodities (mercadorias). Nada que se compare com a loucura do verão de 2008, mas os analistas destes mercados registam uma sucessão, novamente, de disparos de preços, sobretudo em algumas matérias-primas alimentares e metais industriais.

A tendência altista mais assinalável – mas mediaticamente menos falada – sucede no algodão e no café. Os contratos de futuros destas duas commodities estão, neste mês de Agosto, a atingir picos históricos em média mensal, valores que não se verificaram nem no Verão quente de 2008, aquando do choque inflacionário de preços. O algodão já aumentou 43% em relação a igual período do ano passado e o café mais de 24%.

[Pode seguir este mercado de commodities com base num painel global aqui]

Agroflação no horizonte?

O caso mais mediático é, no entanto, o do trigo – desde Julho que está em alta contínua, mas longe do preço atingido no pico em Março de 2008. O preço dos contratos de futuros disparou na Europa na semana passada, devido ao impacto de fenómenos extremos climáticos que afectaram as searas no Canadá (chuvadas torrenciais) e na Rússia (seca extrema, impacto dos incêndios e decisão do governo russo de fechar as exportações a partir de 15 de Agosto). O valor actual está acima da média mensal de 2008/2010 e o aumento em relação a igual período do ano passado é de quase 25%.

No entanto em 2010, já se assistiu a outros disparos. O preço do açúcar atingiu o seu pico histórico em Janeiro, mas, agora, o preço está abaixo dos valores de Dezembro de 2009. No entanto, este mês, já subiu mais de 12%. O cacau esteve, ultimamente, também, muito mediatizado, em virtude das operações no London International Financial Futures and Options Exchange (Liffe, uma divisão do NYSE Euronext) por parte de Anthony Ward do hedge fund Armajaro Asset Management LLP. Ward é conhecido pela alcunha de Mr. Chocfinger (gesto com o dedo médio). No entanto, o pico do preço dos contratos de futuros do cacau foi em Dezembro de 2009 e Janeiro de 2010, e não agora.

O cobre também está em alta, ainda que longe do pico em Julho de 2008. Já aumentou 22% em relação a igual período do ano passado e 11% já durante este mês. O preço actual dos contratos de futuro deste metal industrial está acima da média mensal de 2008 a 2010. Juntamente com o trigo, o açúcar e a soja, são as quatro commodities com maior crescimento nos últimos trinta dias.

O melhor indicador para avaliar a temperatura do que está a ocorrer nas matérias-primas agrícolas é o índice de preços alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que disparou para 163 pontos em Junho, apenas 28 pontos abaixo do pico no Verão louco de 2008. Vários analistas já falam de “agroflação”, como vector fundamental de inflação com impacto nos custos de clusters alimentares e industriais fundamentais. Pão, café e cacau vão afectar a nossa mesa.

Finalmente, o preço do barril de petróleo voltou a situar-se acima dos 80 dólares nos contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros de commodities do mundo) e a média dos primeiros sete meses deste ano é já superior em 12% ao preço médio do ano anterior. Está, no entanto, ainda abaixo da média mensal entre 2008/2010 e tem revelado ultimamente oscilações muito pronunciadas -”oscilações selvagens”, assim designadas por alguns analistas – acima de 1%, com subidas seguidas de descidas, e vice-versa.

O Verão quente de 2008

O modelo extremado deste “choque” de preços ocorreu em Junho e Julho de há dois anos, antes do pânico financeiro que agravou a recessão. Recorde-se que o preço do barril de crude subiu acima dos 145 dólares, o arroz duplicou em menos de cinco meses e o cacau e a soja atingiram os seus máximos históricos.

A razão desta “anomalia” provocou – e ainda provoca – um debate animado entre os analistas e o mundo académico sobre as suas causas, depois de um interregno de “choques” durante mais de vinte anos. Essa “grande moderação” foi, subitamente, interrompida a partir de 2003. Os preços nominais das commodities ligadas à energia e aos metais aumentaram 230% até 2008; os preços das matérias-primas alimentares duplicaram.

As razões “estruturais” surgem logo à cabeça. O chamado pico do petróleo (ponto a partir do qual o crescimento da produção e da oferta mundial do crude desacelera) justificaria o novo choque petrolífero. As mudanças climáticas, com fenómenos extremos, provocam perdas substanciais na agricultura provocando uma segunda onda de choques nos preços das matérias-primas alimentares. O crescimento espectacular das economias emergentes e particularmente a voracidade da China por todo o tipo de commodities explicaria a fortíssima pressão pelo lado da procura mundial incendiando os preços. A mudança da dieta alimentar e a desertificação do mundo rural são, também, factores com efeito assinalável. A que se junta, finalmente, a geopolítica – a turbulência em regiões produtoras ou de importância logística para as commodities repercute-se imediatamente no estado de espírito dos investidores em futuros e dos compradores de mercadorias e matérias-primas.

O factor novo

Mas um estudo econométrico de John Baffes, economista sénior do Banco Mundial, e de Tassos Haniotis, alto funcionário da Direcção Geral para a Agricultura da Comissão Europeia, publicado na semana passada, veio chamar a atenção para factores “não tradicionais”.

Baffes e Haniotis avaliaram o papel desempenhado ultimamente por dois “isqueiros” da loucura dos preços das matérias-primas: a especulação financeira em todo o tipo de mercadorias e o “desvio” de produção agrícola para alimentar o sector dos biocombustíveis.

“O desvio provocado pela política em torno dos biocombustíveis desempenhou algum papel na alta de preços, mas muito inferior àquele que se pensou inicialmente”, referem os dois especialistas. No entanto, quanto ao caso da especulação financeira em commodities, eles julgam que este “novo factor” dos anos 2000 veio para ficar. “Tem um carácter permanente”, disse-nos John Baffes, que está em missão na Indonésia.

“A financeirização do mundo das matérias-primas foi o factor dominante no que sucedeu entre 2006 e 2008”, prossegue Baffes na entrevista que concedeu a partir da Indonésia, onde está em missão do Banco Mundial.

E juntou-lhe mais dois “detalhes” (ver entrevista rápida a John Baffes; a entrevista completa pode ser lida aqui no original em inglês) que vão marcar o comportamento do preço das matérias-primas nos próximos tempos: o cordão umbilical que as liga entre si, provocando reacções em cadeia nos preços, e a tendência para o acentuar das oscilações de preços.

O que complica o planeamento dos agentes económicos e a política dos governos.

ENTREVISTA RÁPIDA a JOHN BAFFES

P: A financeirização tomou conta também do mercado das matérias-primas nos últimos anos?
R: Talvez tenha sido o factor dominante. Creio ter sido o factor “novo” entre todos os que afectam os preços e que são conhecidos. Sem dúvida, que as tendências são basicamente afectadas pela procura e pela oferta, e sobretudo pela tecnologia e pelos níveis de vida. Mas o facto de as matérias-primas terem passado a ser usadas como veículos financeiros afectou algo essencial – a variação dos preços.

P: Essa variação – por vezes mesmo visível em oscilações ‘selvagens’ nos preços dentro de uma mesma semana – vai ser a tónica dominante do futuro?
R: Todas as evidências que recolhi no estudo realizado com Tassios Haniotis apontam para o facto de que as matérias-primas entraram num período de maior variação dos preços.

P: Os diversos grupos de matérias-primas estão hoje em dia profundamente interligados? Pode dizer-se que formam um ecossistema em termos de comportamento dos preços?
R: Esse é um ponto fundamental da investigação e do estudo que publicámos. Há ligações estreitas, óbvias, entre o grupo das matérias-primas energéticas e das alimentares. Além disso, à medida que o nível de vida aumente nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes será de esperar uma sincronia entre os preços de todas as matérias-primas baseadas em recursos (por exemplo, energia e metais).

A probabilidade de default (incumprimento) da dívida soberana portuguesa reduziu-se em mais de 25% desde o princípio de julho. Os juros a pagar aos detentores de obrigações do tesouro estão abaixo de 4% a 5 anos e quase nos 5% a 10 anos. Mas continua alguma volatilidade nos movimentos intra-diários.

Nos quatro PIGS (designação humorística para o grupo da zona euro formado por Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), a probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) que mais desceu foi a relativa a Espanha, logo seguida da relacionada com Portugal. Desde 1 dejulho houve uma redução de 28,6% no caso da espanhola e de 25,5% no caso da portuguesa, de acordo com o monitor da CMA DataVision.

A probabilidade de default da dívida soberana portuguesa baixou de 23,20% em 1 de julho para 17,29% no fecho de ontem (28/07). O ponto mais baixo (17,16%) ocorreu ao final da manhã do dia 27 de julho, mas logo voltou a subir com oscilações. Como, aliás, está a acontecer hoje nesta sessão da manhã.

O risco português saiu do TOP 10 mundial da bancarrota em final de junho e baixou para menos de 20% desde 26 de julho, na segunda-feira seguinte ao anúncio dos resultados dos testes de stresse dos 91 bancos europeus, que não incluíram em situação crítica nenhum dos bancos portugueses testados. O último pico da probabilidade de default relativa à dívida soberana portuguesa havia ocorrido aquando da crise na zona euro de 6 de maio (32,63%).

O movimento de “emagrecimento” deste risco foi sincronizado ao grupo dos PIGS desde 1 de julho. Desceu 20,9% no caso da Irlanda e 14% no caso da Grécia (que continua, no entanto, em segundo lugar no TOP 10 mundial com uma probabilidade de default superior a 45%). A Espanha já se situa nos 14,63% de probabilidade de incumprimento e a Irlanda nos 16,21%.

Apesar desta onda de baixa, continuam a verificar-se oscilações intra-diárias.
A pressão dos especuladores continua a sentir-se na Europa em relação à Roménia (apesar de uma redução de 15% na probabilidade de default desde 1 de Julho), que continua em 9º lugar no TOP 10 mundial, à Letónia e à Islândia. Estes dois últimos países trocam amiúde de posições entre si ou com o estado da Califórnia (que está agora em 10º lugar no TOP 10).

Movimento similar nas yields

A diminuição significativa do stresse sobre a dívida soberana de Portugal, Espanha e Irlanda, foi acompanhada desde 1 de julho por um movimento similar de descida das taxas de rendimento a pagar aos detentores de obrigações públicas a 5 e a 10 anos. Portugal viu a yield a 5 anos baixar para menos de 4% e a referente a 10 anos para quase 5%. Depois da Grécia (acima dos 10%) e da Hungria (acima dos 7%; mas este país não pertence à zona euro), são as yields mais elevadas.

As yields a pagar pelo Tesouro português aos financiadores internacionais baixaram em 0,39 pontos percentuais quer para as obrigações a 5 anos como para as a 10 anos. A título meramente ilustrativo, no caso dos 14 mil milhões de euros de necessidade de financiamento por parte do Estado português estimada para 2010, essa redução das yields significaria uma poupança de 54,6 milhões de euros.

Desde 1 de julho, a maior descida das yields a 5 anos ocorreu com as obrigações gregas que passaram de 11,03% para 10,61%. A maior descida das yields a 10 anos deu-se com as obrigações irlandesas que passaram de 5,4% para 4,98%.

A Roménia está no último lugar do clube mundial dos dez países mais aflitos em termos de probabilidade de bancarrota. Ocupa a posição portuguesa desde 30 de Junho, apesar dos seus indicadores financeiros básicos serem inclusive menos gravosos do que os portugueses. A instabilidade governativa ameaçou a execução do acordo com o FMI.

Uma exposição sobre Vlad III Bassarab (ou Vlad Tepes), um sanguinário príncipe do século XV da Transilvânia mais conhecido por Conde Drácula, abriu no Museu Nacional de Arte em Bucareste ao mesmo tempo que o país atravessava um clima político e financeiro de grande agitação.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) atrasou por uns dias no final de Junho o desbloqueamento da quinta tranche de financiamento à Roménia, ao abrigo do acordo assinado no ano passado e que envolve um montante global de ajuda na ordem dos 14 mil milhões de euros.

Durante uma semana, o nervosismo atingiu o clímax com 913 milhões de euros “parqueados” no FMI à espera que a instável coligação que suporta o governo do primeiro-ministro democrata-liberal Emil Boc se decidisse a começar a aplicar os pontos mais duros do plano de austeridade combinado com o FMI, como nos sublinhou o especialista financeiro Dragos Cabat, de 43 anos, director da Financial View Consulting e articulista no Financiarul(ver entrevista no final).

Este compasso de espera – e a própria ameaça de que o governo poderia cair e recriar uma situação de vazio de poder executivo como aconteceu no ano passado durante quatro meses – foi o suficiente para fazer disparar o custo dos credit default swaps (cds, seguros sobre o incumprimento da dívida soberana romena num horizonte de cinco anos) e a probabilidade de default.

Turbulência política

A Roménia acabou no final de Junho por desalojar Portugal no décimo lugar do “clube” mundial dos dez países com risco mais elevado de incumprimento e tem-se mantido nessa posição, num jogo de sobe e desce, com a Islândia (o primeiro país a entrar em quase-default em Outubro de 2008).

A pátria de Drácula mantém, segundo o monitor da CMA DataVision, uma probabilidade de default superior a 22%, dois pontos percentuais acima da portuguesa e um pouco mais de um ponto percentual acima da probabilidade para a Hungria que, na última semana, viu, de novo, a sua situação de risco agravar-se.

A substituição de Portugal naquele “clube” ocorreu, apesar dos indicadores críticos romenos, em termos de défice público e da exposição externa em percentagem do Produto Interno Bruto, quer em 2009 como estimados para 2010, serem menos gravosos do que os portugueses. No entanto, a Roménia terá hoje uma produtividade equivalente a pouco mais de 1/3 da portuguesa e corre o risco de continuar em recessão este ano.

Emil Boc acabou por decidir o aumento do IVA de 19% para 24% a partir de 1 de Julho, mesmo contra a voz do Presidente da República, e iniciou cortes radicais nos salários e complementos na função pública que vão entre 25% e 50% (em alguns casos, como o dos diplomatas), que deverão gerar um Verão quente de contestação pelos sindicatos do sector. Numa outra medida simbólica, o governo reduziu as secretarias de Estado de 57 para 32 e despediu um vice-presidente em cada grande município do país. Difícil será a implementação de um corte de 15% nas pensões, uma outra exigência do plano do FMI, como nos sublinha Dragos Cabat. O Tribunal Constitucional reprovou tal pretensão, que valeria 1 ponto percentual de redução da despesa pública no PIB.

Olhar português

A situação da Roménia desperta a atenção em Portugal em virtude de muitos gabinetes de consultoria e de empresas ligadas a infra-estruturas estarem a desenvolver actividade, em muitos casos em projectos até 2012 ao abrigo dos 20 mil milhões de euros de fundos estruturais concedidos por Bruxelas. Os portugueses aproveitaram várias vantagens: a imagem de Portugal como pequeno país detentor de conhecimento na transição para a União Europeia e a proximidade da língua.

“A fase dos fundos europeus para a transição da Roménia para a União Europeia está a virar a página”, diz-nos Paulo Pedroso, ex-ministro, que está a liderar uma equipa internacional de assistência técnica à autoridade romena de gestão do Fundo Social Europeu. Mas isso não significa o fim da oportunidade: “Os consultores que conhecerem o mercado têm boas hipóteses de apoiar investidores portugueses ou mesmo de continuara a apoiar entidades romenas”. Opinião que é corroborada por Pedro das Neves, da I.Zone Knowledge Systems, que participa num dos 10 projectos para a Roménia considerados estratégicos pela Comissão Europeia.

Entrevista rápida a Dragos Cabat

P: Porque razão a Roménia subitamente apareceu no radar dos especuladores?
R: Por causa do medo ao contágio. Além disso, tivemos um problema com a aprovação do Plano de Austeridade, o que levou ao adiamento da tranche do FMI durante algum tempo.

P: Como está o clima social? Similar ao da Grécia?
R: Globalmente, indiferente. Mas há interesses políticos que são suportados pelos sindicatos. Isso poderá gerar agitação social proximamente.

P: A Roménia tem condições para entrar em transição para o euro em 2012 e vir a usar a moeda única em 2015?
R: Isso será provavelmente adiado de 2 a 3 anos. A Roménia tem poucas possibilidades de cumprir com os critérios de Maastricht nos próximos três anos.

NÚMEROS
. Roménia com o dobro da população portuguesa produz 70% do PIB português
. PIB por habitante em paridade de poder de compra na Roménia é 49% do português
. Défice público em % do PIB da Roménia estimado para 2010 é inferior ao português (6,8% no caso romeno e 8,3% no caso português)
. Défice externo romeno em % do PIB estimado para 2010 é inferior ao português (6,8% no caso romeno e 7,9% no caso português)
. Dívida externa bruta em % do PIB em 2009 foi de 56,5% contra 225% no caso português
. Projecções sobre o PIB romeno para 2010 variam entre uma recessão de 2,5% e uma situação de estagnação

Restaurar o crescimento é uma questão central para a zona euro, recorda o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a “saúde” económica da zona da moeda única, divulgado dia 21 de Julho.

A Europa tem estado confrontada com um crescimento anémico e, face à Grande Depressão, ficou entalada na sua margem de manobra Keynesiana com um disparo do défice público em relação ao produto (PIB), que passou de uma média de 65% em 2007 para cerca de 90% agora. Uma situação de stresse das finanças públicas que bloqueia as pulsões para o activismo do Estado. Um quebra-cabeças.

Agora e imediata

Mas o FMI é claro: “Na sua discussão do relatório, os directores [do FMI, um comité executivo de 24 membros] sublinharam que o problema de há muito de um crescimento anémico tem de ser tratado agora. O crescimento não é só importante em si, mas também essencial para afastar as preocupações com a dívida pública”, escreve-se no relatório, que acrescenta: “A acção deve ser imediata e não, apenas, limitada aos países com desequilíbrios excessivos. Deve ser desencadeada por toda a zona euro para gerar confiança, mostrar coesão e melhorar as perspectivas globais de investimento e crescimento”.

Recorde-se que a perspectiva de “crescimento anémico” na zona euro baseia-se em estimativas de aumento do produto interno da região em 1% em 2010 e 1,3% em 2011, no cenário optimista do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado no World Economic Outlook de 7 de Julho . É a pior situação à escala mundial. No cenário pessimista do FMI, o “corte” na estimativa para 2011 pode ser da ordem de 3,5 pontos percentuais – ou seja, assistiríamos ao regresso da recessão na zona euro. Neste relatório de 21 de Julho, o FMI admite inclusive uma “possibilidade distinta” de “um período prolongado de estagnação” nesta zona.

Apesar do comunicado do FMI, na sua linguagem técnica habitual, colocar em paralelo o restauro da confiança com base no resultado dos testes de stresse ao sistema bancário europeu (91 bancos) que será divulgado amanhã, na sustentabilidade orçamental, na saída da ratoeira de um crescimento anémico e na necessidade de uma “governação económica” reforçada em toda a zona euro, fica implícito que as duas palavras “agora” e “imediata” relativas ao problema estrutural do crescimento são fulcrais.

Selectivos e amigos da procura

As recomendações de disciplina orçamental têm em conta a questão do crescimento. O relatório refere que os cortes na despesa pública devem ser “selectivos” e “amigos da procura o mais possível”. A redução das distorções no sistema fiscal deve ser tida em conta – “por exemplo, alargando a base de incidência dos impostos ou mudando a sua estrutura”.

Devido à assimetria de problemas relativos à crise da dívida soberana, o FMI recomenda que mais autoridade política no campo orçamental seja transferida para o nível da zona euro, por exemplo fixando limites para o défice e incentivando a que, a nível de cada país, regras locais reflitam estes limites.

O FMI insiste em que a zona euro deverá aumentar o seu nível de “governança económica” e que ,em diversas áreas, deverá procurar “um certo grau de harmonização”, como nos impostos sobre o trabalho, na protecção do emprego, nos sistemas de subsídios ao desemprego, e também na convergência quanto às regulamentações de mercado.

A exposição da banca portuguesa a Espanha, Grécia, Irlanda e Itália era de 53 mil milhões de dólares no final de 2009. O equivalente a 23% do PIB desse ano. Mais de metade dessa exposição era relativa a Espanha. Trocado por miúdos: se houver gripe suína nos outros “colegas” do grupo, os créditos que a banca portuguesa tem a haver entram em choque. E vice-versa. É uma teia bem tecida.

A exposição agregada da banca portuguesa a “residentes” no grupo mais frágil da zona euro, denominado humoristicamente por PIIGS (acrónimo em inglês para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), totalizava 53 mil milhões de dólares, em valores consolidados, no final de Dezembro de 2009, segundo dados do Bank for International Settlements (BIS), recorda, esta semana, o relatório do Fundo Monetário Internacional sobre a “saúde” da economia da zona euro.

Esse montante equivalia a 23% do nosso produto interno bruto (PIB), um valor relativo elevado só ultrapassado pela banca da Irlanda, cuja exposição aos outros PIIGS correspondia a 91 mil milhões de dólares, ou seja 40% do seu PIB. O peso da exposição dos bancos espanhóis ou italianos aos outros PIIGS era de 10% e 3% do PIB respectivamente. O relatório do FMI não fornece dados da exposição da banca grega.

A maior fatia da exposição da banca portuguesa aos outros PIIGS dirige-se a Espanha (55% do total), seguida da Grécia (19%) e da Irlanda (16%). Por seu lado, os bancos estrangeiros mais expostos a Portugal são os espanhóis que contam com 36% do total da exposição estrangeira a Portugal. O que revela um cordão umbilical de exposição entre os dois sistemas financeiros. Na lista de exposição a Portugal seguem-se, depois, a alguma distância, os bancos alemães (19,7%) e os franceses (18,9%).

A exposição da banca estrangeira a Portugal somava, no final de 2009, 238 mil milhões de dólares, mais do que a exposição da banca estrangeira à Grécia (que somava 199 mil milhões).

A banca mais exposta aos PIIGS era a francesa (quase 900 mil milhões de dólares, o equivalente ao PIB do México que foi, em 2009, a 14ª economia do mundo), seguida da alemã (mais de 700 mil milhões de dólares). Compreende-se, por isso, a “sensibilidade” da banca francesa e alemã ao que se passa no grupo com maiores probabilidades de default dentro da zona euro.

O país do grupo dos PIIGS com maior exposição da banca estrangeira, no ano passado, foi a Itália (1 bilião de dólares em valores consolidados).

Se a banca portuguesa estava mais exposta a Espanha, e a espanhola a Portugal, a banca irlandesa estava exposta sobretudo a Itália, e a italiana a Espanha. Uma malha bem tecida, em que um resfriado em qualquer um dos PIIGS se repercute em cadeia. No caso da Irlanda, a banca estrangeira mais exposta é, naturalmente, a do vizinho inglês.

Nota: Nos “residentes” incluem-se os sectores bancário e não bancário privados e o público. Por “exposição” entende-se créditos sobre residentes daqueles países.
Fonte: FMI, Country Report 10/221, 22 de Julho de 2010, Economic Health Check, Parte B, página 6, quadro “Bank Exposures to Selected Countries”, Dezembro de 2009.

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