História Económica


A entrada em força dos investidores financeiros nos contratos de futuros nos mercados de commodities (mercadorias) está a provocar, de novo, “oscilações selvagens” nos preços e introduziu um factor de volatilidade que o analista Nathan Martin considera “trágico” para a economia real. Estes investidores são designados por “não-comerciais”, por não estarem envolvidos no negócio físico, mas apenas em operações financeiras.

Tais movimentos são encabeçados por hedge funds e divisões de aplicações financeiras de grandes bancos usando ferramentas sofisticadas de negociação (designadas como high-frequency trading, plataformas de grande poder computacional), mas em que se envolve, também, por contágio, a arraia-miúda dos especuladores atraída pelo efeito megafone das notícias nos media.

“Esta volatilidade foi ampliada desde o advento dos exchange trade funds (ETF) e de outras formas de derivados baseados em commodities. A Reserva Federal, no caso americano, com a sua política monetária de taxa básica de juros próxima de zero, inundou-nos de uma liquidez massiva que se encaminhou para estes mercados. O caso da seca na Rússia, por exemplo, apenas acicata os investidores que andam sempre à cata de oportunidades para especular. Dá-se um efeito bola de neve, com cada vez mais gente de fora a entrar, o que amplia ainda mais estes movimentos”, explica Nathan Martin, responsável pelo blogue Nathan’s Economic Edge.

Efeito aterrador

Esta multidão de investidores e a sofisticação da especulação, diz-nos Martin, “tem literalmente um efeito aterrador no planeta, pois a principal característica é uma flutuação muito viva dos preços das matérias-primas alimentares”, uma área muito sensível no nível de vida das populações nos países pobres e emergentes, onde a agroflação (inflação por via da alta de preços dos produtos alimentares) tem um peso significativo no índice de preços. E prossegue: “Estas oscilações selvagens, sem dúvida, que são muito lucrativas para os metidos no negócio da economia do ‘papel’ financeiro, mas são devastadoras para a agricultura real e para o aumento da fome mundial”.

Os dois casos típicos mais recentes de “oscilações selvagens” ocorreram com o cacau (um processo de alta e quebra desde o início do ano, com picos em Janeiro, Março, Abril e Julho) e com o próprio barril de petróleo, com variações significativas dos preços nos dois sentidos. No caso do barril da variedade Brent, o petróleo de referência na Europa, depois de ter iniciado o mês acima de 81 dólares, com uma subida no primeiro dia de negociação de Agosto no mercado spot de quase 4% e de ter prosseguido a alta até próximo dos 83 dólares, iniciou um processo em ziguezague, estando, hoje nos 76 dólares.

Por outro lado, o que está a acontecer este mês com o trigo (o maior disparo entre todas as matérias-primas agrícolas, com um aumento de 25%), o açúcar, a soja e o cobre fez regressar o fantasma do que ocorreu no verão quente de 2008, quando várias commodities atingiram picos históricos, com destaque para o petróleo, o caso, então, mais mediatizado.

Na altura, a polémica estalou sobre as razões de tal disparo súbito no primeiro semestre de 2008, seguido depois por uma queda abrupta quando estalou o pânico financeiro e se iniciou a recessão económica e a quebra do comércio internacional.

Alun H. Thomas, especialista do Fundo Monetário Internacional, juntamente com Martin Muhleisen e Malika Pant, modelizou, recentemente, o comportamento das várias variáveis envolvidas no caso do preço do petróleo. O modelo, explicado em “Peaks, Spikes and Barrels: Modeling Sharp Movements in Oil Prices” (IMF Working Paper, WP/10/186, Agosto 2010) verificou que, para além de um impacto de longo prazo da procura, sobretudo por parte das variações do consumo dos países emergentes, e de variações na oferta, sobretudo por parte dos produtores não-alinhados na OPEP, ocorreu um facto novo recentemente (um tema que já abordámos, também, noutro artigo do diário de bordo da crise).

Sincronização de movimentos

Nota-se, a partir de 2007, uma sincronização entre as variações do preço real do petróleo (avaliado em direitos de saque especiais, a unidade monetária do FMI, para neutralizar as variações do câmbio do dólar) e as decisões dos investidores não-comerciais em termos de saldo líquido das suas posições longas em contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros em commodities). [Para os interessados, o estudo apresenta um painel de gráficos, na Figura 2 – “Oil Prices: Role of Fundamentals and Speculation”, na página 9, sendo o gráfico de referência para este comentário o sexto.]

O preço sobe vertiginosamente acompanhando, a partir de certa altura, o disparo da entrada em força dos especuladores e desce quando o saldo de posições longas baixa. Esta relação não se observou em situações anteriores. “Houve claramente uma mudança nos portefólios financeiros para um investimento massivo em commodities”, afirma Alun Thomas, corroborando a opinião de Nathan Martin.

Segundo dados do Barclay’s Capital Commodity Research, os activos financeiros em commodities sob gestão (AUM, na designação técnica em inglês) passaram de 70 mil milhões de dólares em 2005 para 270 mil milhões no segundo trimestre de 2008. Depois caíram a pique no segundo semestre de 2008 e voltaram a subir em 2009, situando-se no final desse ano nos 263 mil milhões, quase o mesmo do que no Verão quente do ano anterior. Em 2010 continuaram a subir para valores ainda mais altos tendo em Abril chegado próximo dos 294 mil milhões. No final do segundo semestre terão baixado para 292 mil milhões.

Segundo outros cálculos estariam nos 264 mil milhões no final do segundo semestre deste ano. Mesmo assim, o patamar em que se encontram continua a ser quase 4 vezes mais do que há cinco anos, apesar de longe do pico de 310 mil milhões no segundo trimestre de 2008.

No entanto, Alun Thomas explica que, desta vez, “não espera um padrão de disparo dos preços [como no primeiro semestre de 2008], mas um aumento gradual à medida que a economia mundial retome o crescimento”. Mas deixa um “se”: “É evidente que se houver uma repetição da recessão, o preço do petróleo pode oscilar de novo significativamente”.

O especialista estima, também, que a sincronização ocorrida entre os preços do petróleo e os movimentos dos especuladores “vá declinar”. “Na nossa análise, o saldo líquido dos contratos dos não-comerciais não é um determinante significativo dos preços do petróleo no longo prazo”, explica.

Geopolítica não influencia tanto quanto se pensa

Outra verificação curiosa do modelo destes técnicos do FMI, é que a geopolítica tem uma influência menor do que se costuma assinalar [como se pode ver no 5º gráfico da Figura 2 já referida]. Na verdade, a relação até é paradoxal a partir de 2002: “Usando um índice de risco geopolítico [do International Country Risk Guide], não encontramos nenhum prémio no preço quando os riscos aumentam. De facto, verificámos o oposto: o preço do petróleo aumenta quando o risco geopolítico desce”, diz Thomas. E explica porquê: “Os países da OPEP tendem a cumprir mais as quotas definidas, o que até gera uma pressão altista sobre os preços”. Uma situação manifestamente distinta da que ocorreu aquando dos choques petrolíferos dos anos 1970 e 1980.

Abril 2010 vai ficar na história financeira portuguesa do pós 25 de Abril como o mês em que não houve cravos vermelhos a sorrir no cano da dívida, mas Vénus papa-moscas, uma planta carnívora de recorte peculiar que come todos os insectos e aracnídeos que nela poisam. Como a dionéia (Dionaea muscipula), os mercados da dívida “sugam” todos os que se colocam a jeito na armadilha.

Desde o início do mês de Abril, o risco português agravou-se 83%, mais do que o grego (que aumentou 69%). Desde que a agência de notação Moody’s decretou a “morte lenta” de Portugal, a 13 de Janeiro num célebre despacho sobre a slow death, o risco português de default (incumprimento das obrigações da dívida soberana) disparou 130%, mais do que no caso grego (118%).

Portugal foi indiscutivelmente a “estrela”internacional – pela negativa – desde o início do ano neste mercado de derivados financeiros que seguram a dívida soberana, conhecido por mercado dos credit default swaps (acrónimo cds), um palavrão financeiro que entrou no ouvido dos portugueses à hora dos telejornais pelas piores razões.

No radar dos grandes “especuladores”

O que este recorde significa é que os grandes investidores institucionais passaram a ter Portugal no radar diário, o que não acontecia em 2009 (quando o risco do país era muito baixo, inferior a 7%), aproveitando as vulnerabilidades do país (instabilidade e chicana políticas elevadas, sintomas de ingovernabilidade, paralisação da aplicação do PEC, peso da dívida externa total no PIB que nos coloca em 8º lugar mundial, problemas graves na poupança líquida que tem sido a pior da zona euro, etc.) então mais expostas para maximizar os seus ganhos financeiros especulativos apostando na probabilidade de default.

Uma comparação com a Grécia – que tem um custo dos seus cds 2,5 vezes superior ao português e que fechou o mês situando-se em 2º lugar no TOP 10 com 44% de risco – beneficia naturalmente Portugal, mas os grandes investidores olham para um bando de cinco aves na zona euro com uma hierarquia de voo. (Um benchmarking dos dois países pode ser lido aqui, em inglês, incluindo a opinião de cinco analistas e economistas estrangeiros).

Aliás essa formação de risco foi identificada pelo último relatório do Fundo Monetário Internacional (Global Financial Stability Report, Abril 2010), identificando, em termos de “indicadores de vulnerabilidade”, Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha (que humoristicamente se tem designado pejorativamente por PIIGS), com diferentes posições, mas que são oportunidades de especulação financeira dada a incerteza sobre se as obrigações das suas dívidas soberanas (e de algumas das suas grandes empresas e bancos) serão cumpridas nos meses próximos e no futuro. Também a Bélgica, dentro da zona euro, será um país a dar atenção, ainda que muito longe deste grupo. (Fora da moeda única, e por ora, fora das bocas do mundo, a Hungria, o Reino Unido e a Roménia, deverão estar no radar).

Terça-feira negra

Inclusive dois dias depois das comemorações do 25 de Abril, da queda da ditadura, o país sofreria neste mercado de cds o seu pior dia de sempre, atingindo um pico de 28,43% de probabilidade de bancarrota e situando-se no 6º lugar desse TOP 10 de má fama mundial, segundo o painel de monitorização diária levado a cabo pela CMA DataVision, uma firma de Londres especializada em informação de crédito desde 2001.

Foi o dia em que a agência de notação Standard & Poor’s, além de passar a dívida grega ao estatuto de “lixo”, resolveu cortar o rating português para A- (um nível – notch, na linguagem técnica – que ainda não é dramático). A agência é hoje muito contestada politica e até tecnicamente (vide um despacho recente da Reuters, por exemplo) pela decisão que tomou, fruto do seu funcionamento “pró-cíclico”, servindo de megafone às oportunidades de especulação quer em período de ‘bolha’ ou em derrocada.

Alguns economistas consideram a etiqueta de “pró-cíclico” como um eufemismo, sobretudo em relação ao período de “bolha” anterior a 2007. Paul Krugman, numa coluna de opinião recente no The New York Times (humoristicamente intitulada “Berating de Raters“, o que poderíamos traduzir como atribuam um B às agências de notação), afirmava, mesmo, que se tratava de um “sistema corrupto”. A investigação que está a correr no subcomité permanente do Senado americano sobre o ecossistema financeiro que conduziu à crise, encontrou correspondência electrónica que indicia uso de “ajustamento de critérios” e “massagem” de dados praticadas pelas agências de notação.

Mas a “desclassificação” relativa a Portugal seria de esperar tendo em conta a percepção que os investidores internacionais – gente que tem rosto: grandes fundos de pensões, grandes fundos de investimento privado, hedge funds, fundos soberanos, braços financeiros dos bancos e entidades financeiras “tradicionais” no sistema “sombra” desregulado, etc., os bullies, como lhe chama o economista Frederick Lehmann, radicado em Portugal – têm tido do país desde meados de Janeiro. Os bullies financeiros têm “PT” (Portugal) no seu birdwatching.

Maio, vermelho Maio, carregado de ???

O mês de Maio entra com algumas incógnitas políticas no ar (como irá a rua na Grécia responder à austeridade FMI e como os alemães irão votar nas regionais a 9 de Maio na Renânia do Norte-Vestfália) e com duas certezas (Grécia tem um refinanciamento da dívida a terminar a 19 de Maio e Portugal a 20 e 21).

Em relação à Grécia não está ainda claro se a tendência altista de risco em Abril será invertida – Atenas continuava ontem, no fecho do mês, a manter-se em 2º lugar, com o custo dos cds a subir ao final da noite -, mesmo com o apoio político da União Europeia (decorre este fim de semana uma reunião informal do Eurogrupo, ministros das Finanças e Economia dos 16 países da zona euro) e com o anúncio eventual de um “pacote” de austeridade acordado pelo governo do PASOK (socialista) com o FMI, Banco Central Europeu e UE.

Sobre Portugal, a expectativa é mais moderada, mas fechou ontem ainda acima de 22% de risco de default, conservando o 9º lugar no TOP 10, distanciado da Irlanda (15% de probabilidade de incumprimento, e apenas um aumento de 16% desde Janeiro) que chegou a ultrapassar o nosso país no nível de risco durante Abril. Irlanda, onde subsiste um problema complexo com o seu sistema bancário inundado de “lixo tóxico” (50% do PIB!) e uma dívida externa total em relação ao PIB, verdadeiramente recordista mundial (1050%! em 2009, se excluirmos o Luxemburgo ou o Mónaco desse campeonato).

O número começou a rolar hoje de manhã nos media internacionais: €600 mil milhões – o equivalente ao plano de emergência lançado nos Estados Unidos para evitar o efeito sistémico da derrocada do Lehman Brothers em finais de 2008, que ficou conhecido pelo acrónimo TARP (Trouble Asset Relief Program). O cálculo foi feito em Londres por David Mackie, economista-chefe, a nível europeu, do J.P.Morgan. Representa 5% do PIB da União Europeia.

Esse será o custo de uma “almofada” de empréstimos bonificados que a zona euro deverá disponibilizar para evitar o risco de contágio de um “ébola” (o célebre vírus descoberto no rio do mesmo nome no Zaire em 1976) financeiro no terreno das dívidas soberanas de alguns dos seus membros mais vulneráveis. “Ébola” foi a designação – tétrica – que o chefe da OCDE, Angel Gurría, usou ontem.

Por seu lado, Dominique Strauss-Kahn, director geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), terá adiantado, também ontem, em reuniões com deputados alemães – a pátria da maior resistência a um plano anti-bancarrota dentro da zona euro – que 100 a 135 mil milhões de euros terão de estar em prontidão para o caso grego nos próximos três anos.

Por seu lado, o The New York Times, em dólares, desdobrava o pacote de emergência (em dólares cerca de 790 mil milhões) para os próximos três anos para três casos, estimando $120 mil milhões para a Grécia, $53 mil milhões para Portugal e $466 mil milhões para Espanha. Ainda que os números não batam certo com as estimativas europeias, dão ideia dos patamares em que se poderá situar a intervenção.

Não é fenómeno novo

O risco de defaults (incumprimentos da dívida soberana) em série não é novo na história económica – um vaga letal ocorreu no século XIX na Europa, envolvendo, na altura, Portugal (cinco vezes), Espanha (seis vezes) e a Grécia (quatro vezes), como recordam os trabalhos de investigação recentes de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, a que nos temos referido.

O palavrão técnico – default – passou a entrar na conversa de almoço dos cidadãos, tal como os cds (acrónimo paracredit default swaps) ou o rating (a notação do crédito). Uma trilogia de estranhas palavras inglesas que não largam as economias e que cada vez mais têm influência na vida do cidadão comum.

Depois do relatório do FMI da semana passada – e da exposição de um conjunto de indicadores macroeconómicos de “vulnerabilidade” que analisámos aqui – o desenho do espaço geográfico deste risco (zona euro) ficou confirmado na cabeça dos grandes investidores institucionais, com os famosos PIIGS (acrónimo humorístico pejorativo para o grupo Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) como alvo central.

Não pode espantar, por isso, o que é designado por “ataque” aos mercados de seguros sobre a dívida soberana (os tais cds), onde actuam os grandes investidores institucionais e todo o “sistema financeiro sombra” que especulam neste e noutros mercados (de acções, de commodities, todo o tipo de veículos financeiros “derivados” e “sintéticos”) onde haja oportunidade de maximização de ganhos para os seus portfólios.

No clube desses grandes investidores estão conhecidos hedge funds (que tiveram uma célebre reunião, baptizada de “idea dinner”, a 8 de Fevereiro em Manhattan, Nova Iorque), poderosos fundos de pensões, braços financeiros no tal sistema “sombra” de bancos e outras instituições mais tradicionais. Também as agências de notação de crédito, as tristemente famosas senhoras do rating, funcionam como, um analista já lhes chamou, de megafone “pró-cíclico”, ou seja dão indicações negativas ou positivas aos investidores no sentido de detectarem as janelas de oportunidade de maximização de rendas financeiras. Esta semana, a Standard & Poor’s já bateu à porta três vezes: Grécia baixa de BBB+ para BB+ (“lixo”) e Portugal de A+ para A-, a 27 de Abril (terça-feira negra no risco e nas bolsas), e Espanha de AA+ para AA, ontem.

Sinais políticos que contam

Contudo, a dinâmica destes mercados de expectativas sobre as dívidas soberanas e sobre as dívidas de privados (nomeadamente bancos e seguradoras, que têm estado em foco, como no caso da Península Ibérica e da Irlanda) não se guiam só pelos sinais das agências de rating – mas, também, e em grande medida pelo ruído político. Ou seja, pelos sinais políticos que são dados a partir dos países em risco e das entidades internacionais que se podem envolver na resolução dos problemas financeiros que vão emergindo.

E os sinais políticos são contraditórios, o que tem provocado a enorme volatilidade a que temos assistido na classificação do risco de default no caso dos quatro países europeus da zona euro: uma terça-feira negra de disparo do risco de bancarrota, seguida de uma quarta-feira com algum sobe e desce, e com um amanhecer hoje de nítida melhoria do clima (Grécia baixou para 3º lugar no clube do risco mundial, Portugal desceu para 9º, e a Irlanda e Espanha viram os níveis de risco descer também alguns pontos percentuais, segundo dados da CMA DataVision).

Os investidores estão “ensanduichados” entre o manifesto eleitoralismo da chanceler alemã Angela Merkel (com eleições a 9 de Maio num estado crucial para manter a sua maioria no parlamento de estados regionais da federação) e os sinais que são dados pelos líderes do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional, ou mesmo da OCDE e das estruturas da União Europeia. Até o presidente Obama terá dado algum conselho à chanceler alemã na conversa que terão tido ontem. Esperam-nos quinze dias que poderão parecer os mais longos da história recente do euro (eleições na Renânia-Norte Vestefália a 9 de Maio; cimeira europeia a 10 de Maio; limite de refinanciamento da dívida grega a 19 de Maio).

Até Axel Weber, o presidente do Bundesbank, o banco central alemão, disse hoje ao jornal alemão Bild que era urgente a colocação em prática do “pacote” em direcção à Grécia. O temor da tal vaga “sistémica” de ébola de bancarrota paira sobre Berlim.

O resultado de todo este cenário político dentro da zona euro foi o impensável há um ano atrás – transformar uma crise política “periférica” (a descoberta de vigarices nas estatísticas gregas e de alegadas manipulações da dívida pública externa pela Goldman Sachs e pelo anterior governo de direita em Atenas substituído em eleições) num rastilho de uma vaga de near-defaults (quase bancarrotas, à beira de incumprimento, ou de reescalonamento ou reestruturação de dívidas soberanas) em série.

Como na fábula de Jean de La Fontaine, as principais vítimas desta Grande Recessão vão ser as “cigarras”, os países que viveram manifestamente no faz-de-conta, afirmou-nos o economista francês François Heisbourg, de 60 anos, presidente do International Institute for Strategic Studies, sediado em Londres.

O ex-primeiro secretário da Missão Permanente da França nas Nações Unidas nos anos 1970 e 1980 admite que a “morte lenta” das “cigarras” (de que o caso grego é, provavelmente, o mais presente, e Portugal um forte candidato, atendendo às evoluções recentes) possa ser um problema doloroso. Tal como o choque nas “andorinhas que voaram com a globalização”, elogiadas pelos seus “milagres económicos”, e que, subitamente, com esta grande crise, se vêm com recessões mais prolongadas (como a Irlanda e a Espanha) e, em alguns casos, chutadas inclusive para níveis altos de risco de bancarrota (como o Dubai, a Islândia, a Letónia e, mais distante, a Hungria).

O elefante ganhador

Mas esta recessão trouxe mudanças decisivas na cena mundial. “Assistimos à transformação profunda da paisagem geoeconómica e geopolítica. As consequências são directas e bem visíveis”, alega o autor de “Vencedores e Vencidos”, um livro publicado recentemente em Paris. A principal, diz-nos Heisbourg numa entrevista (que pode ler aqui, na íntegra, em francês), tem a ver com a China: “Ela passou de um estatuto de potencial grande potência para a realidade dessa posição. É um salto qualitativo comparável, no plano geoeconómico e geopolítico, ao da emergência da Alemanha imperial no final do século XIX”.

O especialista francês, recorrendo a uma nomenclatura da fauna da crise, chama-lhe “um elefante, um animal com talentos múltiplos”, classificação que estende à Índia e ao Brasil que conseguiram “atravessar a crise apoiando-se numa base económica diversificada”.

Apesar da expectativa de que os Estados Unidos sairiam de rastos desta Grande Recessão, Heisbourg acha que a superpotência se aguenta “como número um, apesar de tudo”, devido a uma característica profunda que mantém: “a sua resiliência, apoiada na criatividade tecnológica, na flexibilidade social, na vitalidade demográfica e na existência de um estado federal”. Por isso, o economista duvida das “teses declinistas” sobre a América que rapidamente se propagaram.

Também, a Rússia não lhe parece que tenha levado uma estocada mortal, por ora, apesar de ser “um dinossauro mono-produtor”, um ponto fraco que é, hoje, o tema central dos debates em Moscovo tendo em vista as presidenciais de 2012, diz Heisbourg.

O principal perdedor

O mais importante «vencido» desta crise poderá ser a União Europeia (UE). “Esta Grande Recessão acentuou os riscos de um declínio terminal”, afirma, com algum pessimismo. A ideia estratégica de uma “tríade” com os EUA e a China parece morrer na praia.

A UE tem dois problemas de fundo, refere o especialista: o risco de ter uma crise grave do euro, da moeda única, bem como uma perspectiva enevoada de crescimento a longo prazo. “A Europa, no conjunto, corre o risco de se japonizar em termos de crescimento”, conclui.

O risco de “japonização” na Europa

O Japão, tal como a Itália, recorda François Heisbourg, são campeões de uma doença: um crescimento de longo prazo medíocre (abaixo de 2%), que, no caso do Japão, que nos anos 1990 tivera a ambição de subir ao escalão das superpotências, já o empurrou definitivamente para “uma marginalização estratégica”. Uma sina que já dura desde a crise de 1991. O antigo império do Sol Nascente está, hoje, numa camisa de varas: “entre o protector americano e o consumidor chinês”.

O recente World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional divulgado esta semana acaba de prognosticar um crescimento medíocre de apenas 1% para o conjunto da zona euro em 2010 (a região do mundo com crescimento mais baixo) e em Espanha, no blogue Nada es Gratis, o economista Antonio Cabrales interrogava-se se a Espanha irá viver uma década similar à japonesa nos anos 1990.

5 colaterais da crise
1- O principal vencedor foi a China, mas a sua janela de oportunidade vai até 2025
2- Apesar de tudo, a América mantém-se como número 1, mas a sua projecção global vai ser afectada pelo défice público e a dívida externa
3- Ficou a nu o risco de declínio terminal da União Europeia e do seu projecto de uma tríade com os EUA e a China
4- Assistimos à marginalização estratégica do Japão
5- Os “milagres económicos” de muitos “tigres” esfumaram-se

Apesar da sua diversidade, as quatro potências globais emergentes reuniram pela segunda vez, e parecem querer dizer ao mundo que a grande crise e a habilidade geo-estratégica de Obama não paralisou o grupo.

Os três presidentes do Brasil, Rússia e China com o primeiro-ministro da Índia encontraram-se em Brasília nesta sexta-feira para realizar a 2ª Cimeira do que foi baptizado pela Goldman Sachs de BRIC – acrónimo para os quatro países. A 1ª cimeira havia-se realizado em Ecaterimburgo, na Rússia, em 16 de Junho de 2009. Como então escrevemos, o sinal que ela transmitiu para o mundo podia resumir-se numa frase: assistíamos ao princípio do fim do século americano.

As quatro potências aproveitaram, agora, para dar um outro sinal: que, no final das contas, são elas que saem desta Grande Recessão como “ganhadoras”, como nos sublinha (versão em francês) o especialista em geopolítica e geoeconomia François Heisbourg.

Se podemos puxar por frases simbólicas, ficam duas – a de Lula da Silva, de que estamos perante “uma nova geografia mundial” e a de um comentário irónico num jornal indiano, The Hindu, de que, a partir de agora, “no jobs for the boys” do Ocidente nos organismos internacionais, sobretudo nos ligados ao sistema económico e financeiro mundial.

Um artigo publicado por Lula da Silva no The Christian Science Monitor no dia 16 de Abril, no dia seguinte à cimeira de Brasília, merece ser lido na íntegra: “hoje os BRIC tornaram-se actores essenciais no processo de decisão internacional; estamos conscientes do nosso potencial como agentes de mudança, de modo a tornar a governação global mais transparente e democrática”. Lula reforça que a cena internacional não voltará a ser a mesma, de antes da crise: “estamos empenhados em construir uma abordagem diplomática conjunta”.

Cinco pontos a seguir

Do comunicado final de Brasília sai uma cartilha de objectivos geopolíticos muito clara e dura, que pode ser resumida em cinco pontos principais, cuja concretização terá de ser acompanhada ao longo do ano:

1. Reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde já têm assento a Rússia e a China. Revindicação de que o Brasil e a Índia devem ganhar assento permanente;
2. Reforma do poder de voto do Banco Mundial nas próximas reuniões da Primavera;
3. Reforma das quotas no Fundo Monetário Internacional (FMI) a ser concluída até à cimeira do G20 em Novembro (como diz literalmente Lula no artigo citado: “não injectámos quase 100 mil milhões de dólares no FMI para deixar tudo na mesma como dantes”);
4. “No jobs for the (West) boys” nas posições de direcção da Banco Mundial e do FMI;
5. Estudo, sugerido pela Rússia, da viabilidade de desenvolvimento do comércio entre as quatro economias com bases nas divisas respectivas.

Lula da Silva e Dimitri Medvedev insistiram na proposta de substituir o dólar americano como divisa de referência no comércio internacional e nos fluxos financeiros globais, mas tal insistência foi amaciada no comunicado final.

O quinto passageiro

Os quatro procuraram, também, “colar” a África do Sul a este grupo, reforçando o papel geoestratégico daquele país. Desta vez, o motivo foi a realização também em Brasília da IVª cimeira do IBAS, um acrónimo mais, para Índia, Brasil e África do Sul, um eixo que é encarado como a matriz do “Sul” do planeta, assumindo que Rússia e China se situam geograficamente no “norte”.

A “colagem” da África do Sul ao grupo já havia sido testada na famosa “mesa” ad hoc em que se sentaram Estados Unidos, Brasil, China, Índia e África do Sul aquando da cimeira mundial de Copenhaga, e que acabou por ficar como foto simbólica daquele evento internacional a 18 de Dezembro.

A reunião do G24 em 22 de Abril: confirmação da agenda

A 22 de Abril realizar-se-ia em Washington a reunião de ministros do G24 para assuntos monetários que confirmaria esta agenda de Brasília.

O G24 reúne 9 países em desenvolvimento de África, 7 da Ásia, 8 da América Latina e arrasta alguns observadores, como a China, Marrocos e a OPEP. Os três eixos deste grupo são o Brasil, a Índia e a África do Sul. Guido Mantega, ministro da Fazenda brasileira, presidiu a reunião, que teve como convidados os “patrões” do FMI e do Banco Mundial.

A agenda concretizou alguns pontos de Brasília:
1. Para terminar a Ronda de Doha na área do comércio internacional o preço que os ricos terão de pagar é diminuir os benefícios do seu lóbi agrícola;
2. No FMI deverá haver uma “deslocação” de 7% de quotas dos países membros desenvolvidos para os em desenvolvimento;
3. O FMI deverá aumentar o peso dos DSE (direitos de saque especiais, a unidade de conta do Fundo) no sistema monetário internacional;
4. Um novo critério de escolha dos chefes do FMI e do Banco Mundial já na próxima eleição e uma nova estratégia de selecção da gestão sénior e dos funcionários em geral, dada “a severa subrepresentação de algumas regiões e países”;
5. Paridade de poder de voto no Banco Mundial entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

O Comité de datação dos ciclos económicos nos Estados Unidos, o National Bureau of Economic Research (NBER), decidiu ainda não declarar o fim da Grande Recessão, iniciada em Dezembro de 2007, naquele país.

No comunicado que hoje divulgou, com base nas conclusões da reunião realizada em Cambridge (Boston, EUA) no dia 8 de Abril, o comité não considerou que existam dados que possam indicar o final do ciclo recessivo, anunciando uma data para o que tecnicamente se designa em inglês por “trough” (vala, depressão, entre dois ciclos).

O comunicado foi explícito ao declarar que seria “prematuro” anunciar tal data, apesar de vários indicadores já serem hoje nos EUA positivos. “Muitos indicadores são preliminares neste momento e poderão ser revistos nos próximos meses”, sublinha o NBER.

O NBER confirmou Dezembro de 2007 como o pico do ciclo anterior e o início da Grande Recessão que ainda estamos a viver.

O anúncio de um “trough” equivale a indicar que o ciclo recessivo terminou a sua fase descendente e que uma fase ascendente de um novo ciclo de expansão se abriu.Ao não anunciar este marco, o NBER deitou um balde de água fria em muitas análises optimistas.

O analista Peter Cohan, a partir de Boston, faz uma análise detalhada dos meandros políticos de uma decisão deste tipo e das implicações na conjuntura desta decisão.

O risco de bancarrota grega amainou no fecho desta semana. O “ciclo mortal” – de que falou George Soros esta semana em entrevista – em que a Grécia se envolveu nos últimos dias foi travado, por ora.

A probabilidade de falência baixou para 29,88% no fecho hoje (9/04) do mercado dos credit default swaps (cds). Mas a Grécia continua, mesmo assim, em quinto lugar no ranking mundial da probabilidade de default. A bolsa em Atenas voltou hoje aos ganhos, com uma subida significativa (quase 5%), depois de três dias de quebras (numa queda acumulada de quase 10%).

Depois de uma quinta-feira «negra» (8/04) com o risco de falência do país a atingir o recorde histórico de 33% (um nível próximo do dos quatro campeões – Venezuela, Argentina, Paquistão e Ucrânia), dois factos vieram colocar água na fervura.

Primeiro, as declarações tranquilizadoras do presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet. Depois, os rumores sobre uma proposta acordada hoje durante o dia para ser apresentada na próxima reunião informal do Ecofin (conselho dos ministros de Economia e Finanças dos 27 membros da União Europeia, a que assistem, também, os presidentes do Banco Central Europeu e do Banco Europeu de Investimentos) em Madrid no final da próxima semana (15 a 18 de Abril) com vista à operacionalização do mecanismo de apoio a países em risco de bancarrota.

Clima de pânico

O risco de bancarrota grega tinha disparado quando se soube que teria ocorrido uma fuga de capitais massiva de 10 mil milhões de euros nos dois primeiros meses do ano (metade do montante de 20 mil milhões que o governo grego tem de arranjar até final de Maio para financiar a dívida externa) e que a economia grega deverá continuar em recessão em 2010 (estima-se, agora, em 2,5%). Assistiu-se, assim, a um pânico entre os investidores na dívida grega.

Os bancos gregos, entretanto, preparavam-se para pedir ao governo uma ajuda de 17 mil milhões de euros, ao abrigo do plano de salvação do sistema financeiro, no sentido de atacar o problema de liquidez. A desconfiança e incerteza apoderou-se dos investidores em geral e o sentimento geral de “vender” tornou-se uma bola de neve.

Inversão da derrocada

O pânico, entretanto, estancou. Trichet falou na quinta-feira (8/04) na conferência de imprensa a seguir à reunião do Banco Central Europeu e deu algumas entrevistas, entre elas ao diário italiano Il Sole 24 Ore – a frase de alívio geral foi simples: “[A bancarrota grega] não se coloca”, respondendo a uma pergunta muito directa se o default grego era uma possibilidade material. O banqueiro dos banqueiros centrais europeus explicou, também, que nunca se opusera à intervenção do FMI na zona euro, mas sim ao “seu envolvimento sozinho”. E admitiu que é natural que exista dentro da zona euro “um certo grau de dispersão dos parâmetros económicos”.

Por outro lado, elementos dos ministérios das Finanças e dos Banco centrais reuniram hoje (9/04) em Bruxelas preparando a reunião de Madrid. As “fugas” de informação alegam que um consenso teria sido conseguido sobre as condições de empréstimo por parte de membros da zona euro em caso de resgate de alguma situação de pré-default, como pode ser a grega. Aliás, o mercado do preço dos cds relativos à dívida grega “acompanhou” a oscilação destes rumores – subiu durante a manhã até 31,93% e baixou, depois, a meio da tarde, quando os despachos das agências davam conta de um alegado consenso.

Neutralização da Fitch

Esse rumor conseguiu até neutralizar o comunicado da agência de notação Fitch que baixou hoje (9/04) o rating de crédito da Grécia de BBB+ para BBB-, mantendo também uma perspectiva negativa (o que poderá significar nova despromoção). Se uma nova despromoção ocorrer, a notação grega adquirirá um estatuto de “lixo”, o que será, pela primeira vez, uma nódoa negra num país da zona euro.

A Fitch recomendava, no entanto, que a Grécia trabalhasse no sentido de um programa do FMI “explícito” para gerar confiança nos mercados financeiros. O Financial Times Deutschland reagiu muito negativamente à recomendação da Fitch alegando que a Grécia deveria aguardar até à reunião de 17 de Maio da Comissão Europeia (quando esta apresentar o seu relatório sobre o andamento do plano de austeridade grego), esperando para ver como os mercados reagem até lá… deixando a fogueira arder com os gregos no churrasco.

A dimensão geopolítica da crise grega

Jens Bastian, economista da fundação ateniense ELIAMEP, sublinhou-nos a importância de se analisar a crise grega não só do ponto de vista dos problemas internos da zona euro (o enfoque que tem sido dominante), como da expressão geopolítica regional no sudeste europeu.
Ora, a Grécia, recorda Bastian, tem desempenhado um papel geoeconómico na região como alavanca de investimentos em todos os Balcãs. O que se perderá.

Há, depois, um problema de confiança na própria UE por parte dos que estão dentro na região e dos que estão em lista de espera ou com ilusões disso. “Estes países não estão indiferentes ao que se passa à sua porta”, afirma o economista.

O efeito de contágio grego observa-se já no próprio mercado da dívida relativo à Roménia (com intervenção do FMI, da UE, do Banco Mundial e do Banco para a Reconstrução e Desenvolvimento), Bulgária, Sérvia (com intervenção do FMI), Turquia (em discussão com o FMI), Hungria (com programa com o FMI). No caso de membros da UE, os preços dos cds da Bulgária e da Roménia estão acima dos 200 pontos base (pb) e os da Hungria acima dos 180pb.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) ganhou a corrida de “salvar” a Grécia e “entra” pela primeira vez na coutada da zona euro.

Já desde Janeiro que os técnicos de Washington assessoravam directamente o governo socialista de George Papandreou e o seu dedo é visível no plano de austeridade, como nos referiu Jens Bastian, economista da fundação ateniense sobre Política Europeia e Estrangeira (ELIAMEP), numa entrevista que foi publicada na edição impressa de sábado do jornal português Expresso, mas que pode ser lida, numa versão ampliada em inglês, aqui.

A “rendição” ao FMI acabou por ser geral, sublinham os analistas internacionais, mesmo contra os desejos do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, a quem não agrada este pé financeiro de Washington na zona euro, no que foi seguido por alguns políticos europeus. Não propriamente por causa do montante de 22,1 mil milhões de euros que Atenas precisa, como pão para a boca, de arranjar nos mercados financeiros entre 13 de Abril até final de Maio, a uma taxa de juro não letal, mas porque o que se discute nas cimeiras europeias já não é mais a crise grega.

Desavenças no eixo franco-alemão

O que veio,inesperadamente, para a ribalta é, sim, a crise da zona euro, diz Bastian, face ao ataque especulativo à moeda comum (o euro vale pouco mais de 1,3 dólares, uma quebra de 7% em relação ao final de 2009 e de 11% em relação ao máximo mais próximo de 22 de Outubro de 2009 quando o euro valia mais de 1,5 dólares) e devido às agendas políticas divergentes dos seus principais protagonistas, nomeadamente dentro do poderoso eixo franco-alemão.

Um “eixo” que, apesar de estar condenado a andar de “mãos dadas”, enfrenta uma conjuntura doméstica complexa: o governo francês de Nicolas Sarkozy acaba de sair de uma derrota eleitoral nas regionais e Angela Merkel tem de ter em conta a o “estado de alma” dos seus eleitores e da sua coligação que vai a votos na Renânia do Norte-Vestefália a 9 de Maio. O risco que Merkel corre, internamente, é perdendo aquela região perder a maioria na Câmara Alta, na Bundesrat, formada pelos 16 estados alemães.

A par destes constrangimentos políticos domésticos, soma-se um crescente “desentendimento” sobre o modelo europeu de desenvolvimento de saída da crise. Para os alemães, baseado no seu tradicional modelo “mercantilista” exportador (cada vez mais ameaçado pela liderança exportadora mundial pela China), e para os franceses nas políticas industriais agressivas com iniciativa estratégica do Estado (um modelo cada vez mais constrangido pela dívida externa e os défices públicos nos países ricos).

A solução “mista”

Mas as circunstâncias empurraram os dois chefes políticos, Merkel e Sarkozy, para um compromisso que cedeu o passo ao FMI e ao estado de alma dos alemães que querem uma disciplina orçamental com tolerância zero na zona euro e mesmo a “expulsão” dos prevaricadores repetentes, no limite. Ou seja, alguns dos membros do designado “clube Méd” (como a Grécia, Espanha e Portugal), precisamente uma parte dos denominados pejorativamente PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), que muitos alemães e nórdicos gostariam que nunca tivessem entrado na zona euro.

“Com a Alemanha a mudar de posição de semana para semana, sempre recomendei que se desse o lugar ao FMI. Isso ajudará a despolitizar o problema e a evitar uma crise maior”, refere-nos Bill Witherell, da Cumberland Associates, um fundo global. Ainda se pensou na criação de um Fundo Monetário Europeu, uma ideia proposta pelo economista americano Mark Thoma no início da crise de dívida grega (e de que fizemos eco) e que pareceu recolher alguma simpatia na União Europeia, mas que Jens Bastian acha que “já virá tarde para os gregos”.

Laurence Boone, analista do Barclays Capital (BarCap), em Paris, adiantou que o FMI poderá disponibilizar, de imediato, entre 10 a 15 mil milhões, que poderão ser complementados com empréstimos bilaterais de outros membros europeus “coordenados pela Comissão Europeia”, como deseja Jean-Claude Juncker, o primeiro ministro do Luxemburgo, chefe do Eurogrupo. Uma solução “mista”, diz a analista, que se poderá aproximar da solução para a Letónia (que está fora da zona euro), que tem hoje um risco de bancarrota (perto dos 23%) inferior ao grego e ao islandês no clube dos 10 de maior risco à escala mundial, segundo a CMA Datavision.

Segundo o jornal francês Le Monde, a repartição dos créditos eventuais futuros, a que a Grécia poderá recorrer, em caso de emergência, se tiver problemas nos mercados financeiros, será em 2/3 proveniente da eurozona e em 1/3 do FMI, que poderá disponibilizar financiamentos a taxas de juro baixas. Dentro da eurozona, o esforço será proporcional ao peso dos diversos países no Banco Central Europeu, ou seja os líderes, Alemanha e França, seriam responsáveis por quase 50%. Os créditos europeus não terão colados nenhuns subsídios.

Este mecanismo “misto” parece agradar ao poderoso lóbi banqueiro e de fundos financeiros europeu que está profundamente exposto à dívida grega e que não gostaria de “pagar” a factura de uma bancarrota grega se os mercados financeiros internacionais “lessem” o comportamento alemão como um sinal de deixar cair em default, de vez, a Grécia. O principal credor da dívida pública grega é a França (banca e fundos privados), com 16,5% do bolo, seguindo-se a Alemanha, com 9,5%, a Itália, com 6,7%, e a Bélgica, Holanda e Luxemburgo com mais de 5% cada um.

Em suma, esta solução “mista” poderá passar a ser o modelo operativo de rede de segurança de ultimo recurso para outros casos que surjam na zona euro.

O FMI, neste momento, além da Letónia (onde actua em parceria com a União Europeia) que fixou o objectivo de entrar no euro em 2014, interveio na Hungria, na Roménia e na Polónia.

Crise na sombra

Apesar da vinda do FMI ajudar a “despolitizar” o problema grego no imediato, há um problema de fundo que se manteve na “sombra” até há umas semanas atrás, diz David Caploe, economista chefe em Singapura do EcomomyWatch.com: “O caso do Dubai é uma referência, pois exemplifica a uma escala micro o dilema. Ou o tio rico ajuda o familiar em apuros, ou a fraqueza de uma zona de moeda única fica exposta, e lança a questão, até quando poderá perdurar?”.

Um dos membros da direcção do BCE, Lorenzo Bibi Smaghi, disse publicamente em entrevista ao jornal alemão Die Zelt, antes do início da cimeira de Bruxelas na quinta-feira, que a “imagem que se dá do euro é de uma moeda que só sobrevive graças ao apoio externo de uma organização internacional, onde aliás americanos e asiáticos são cada vez mais influentes”. Um problema geopolítico sério para a Europa.

Milton Friedman, o patriarca do “liberalismo”, predisse que a moeda única colapsaria depois de uma década ou duas. O inglês Robert Skidelsky acha que, se calhar, ocorrerá antes, pois falta na União Europeia uma forma centralizada de lidar com “choques assimétricos”. Um grupo de personalidades “eurocépticas” alemães ameaçou avançar com uma acção judicial caso os países da zona euro violem a regra europeia que proíbe o salvamento financeiro de países em bancarrota externa. Esse grupo alemão insiste que a Grécia deve sair da zona euro. No que é acompanhado, por razões diversas, por grupos políticos de pressão gregos.

O próprio problema do risco de crises em série relacionadas com a dívida externa de alguns países vai perdurar por todo o ano na zona euro. Segundo o jornal alemão Der Spiegel, as necessidades de refinanciamento ao longo de 2010 para os cinco países designados por PIIGS monta a cerca de 405 mil milhões de euros, com os meses mais complicados (com maior volume) em Abril, Junho e Julho.

Efeitos colaterais

A confusão sobre a solução face à Grécia, gerou, ao longo desta semana, um reaquecimento, temporário, do mercado dos credit default swaps (cds), os seguros relativos à dívida soberana a cinco anos. Atenas, depois de ter assistido a uma acalmia ao longo das primeiras semanas de Março, voltou a assistir ao preço dos cds galgar, de novo, o patamar dos 300 pontos base (pb).

E, apesar de estar ainda distante do máximo histórico de 4 de Fevereiro (quando atingiu um recorde de mais de 426 pb), a Grécia subiu no clube do risco mundial para 7º lugar, ultrapassando, a meio desta semana, a Letónia e o Dubai. Mas, depois do acordo franco-alemão de ontem (25/03), desceu, no fecho da semana, para 9º lugar no clube dos 10 mais, situando-se o preço dos cds abaixo dos 300 pb. A yield das obrigações gregas a 10 anos chegou a aumentar seis pontos base para 6,36% durante a semana.

Também, Portugal, se viu afectado por esta turbulência, depois de um comunicado da agência de rating Fitch ter agravado, na quarta-feira, a apreciação sobre o risco português, despromovendo a notação do país de AA para AA-. Os cds relativos a Portugal subiram para próximo dos 140 pb – ainda muito longe, no entanto, do máximo histórico de mais de 245 pb em 8 de Fevereiro -, mas o suficiente para a yield relativa ao mesmo tipo de obrigações ter subido 3 pontos base para 4,34% durante a semana. Contudo, depois de conhecida a solução saída de Bruxelas, a alta parou e o preço dos cds relativos a Portugal voltou a baixar (estando no fecho de sexta-feira, 26 de Março, em 131,59).

Tudo indica que os mercados da dívida “acomodaram” positivamente as decisões de Bruxelas, no imediato. O que não significa que para a semana a situação se mantenha em lua-de-mel. Estes mercados vivem num ambiente de alta volatilidade. O mecanismo de Bruxelas está, ainda, por testar.

Finalmente, uma decisão do Banco Central Europeu de manter para além do final de 2010 as regras de excepção – em vigor durante esta Grande Recessão – quanto ao mínimo de notação requerida, que está no nível BBB-, é interpretada como a contribuição de Jean-Claude Trichet para a “salvação” da Grécia (e de outros na mesma linha de risco futuro) das garras das agências de rating. A Grécia, segundo a agência de rating Standard & Poor’s, tem uma notação de BBB+, ou seja na fronteira.

O combate à crise durante estes dois últimos anos custou aos estados e às grandes instituições envolvidas (como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu) 13 triliões de dólares (mais de 9,6 biliões de euros), o equivalente a um ano de PIB americano, segundo os dados oficiais apurados até Setembro de 2009 pela Grail Research, uma empresa de investigação estratégica de Boston.

Este valor de envolvimento anticrise soma-se a uma destruição de valor financeiro e de quebra do produto interno mundial e do comércio internacional na ordem dos 52,9 triliões de dólares (39,1 biliões de euros), segundo um apuramento provisório com base em diversas fontes (ver Destaque no fim). Se lhe juntarmos, as perdas projectadas para 2009-2010 do sistema financeiro nos mercados maduros derivadas dos problemas com os veículos “tóxicos”, que deverão atingir um montante de 3,4 triliões de dólares (quase 2,5 biliões de euros), o total do “custo” estimado desta crise chega aos 69,3 triliões de dólares (mais de 51 biliões de euros).

Em suma, foi a 12ª maior recessão mundial desde 1850 e a 4ª maior quebra do comércio mundial desde 1900. A destruição de activos financeiros foi mais de 8 vezes superior ao crash das tecnológicas de 2000. Só no caso dos Estados Unidos, o fosso entre o PIB real actual e o PIB real potencial é de 1 trilião de dólares (um gap de 8%), segundo os cálculos de Mark Thoma, professor da Universidade do Oregão, editor de Economist’s View.

Os Estados Unidos lideraram em ambas as linhas de combate ao pânico financeiro de 2008 e à Grande Recessão que se seguiu, envolvendo cerca de 6 triliões de dólares (mais de 4,4 biliões de euros), cerca de 45% do esforço mundial. O segundo país neste esforço global foi a China que aplicou mais de 2 triliões de dólares (1,48 biliões de euros), 15% do montante global.

Geometria variável

No entanto, a distribuição do esforço global foi muito distinta entre os principais países envolvidos.

Enquanto países, como a China, o Japão, a Arábia Saudita, a Itália e a Coreia do Sul concentraram os seus esforços nos programas de estímulos à economia, um outro conjunto de países viu-se obrigado a focalizar o seu ataque na contenção do risco “sistémico” do seu sistema financeiro, como aconteceu com o Reino Unido, a Rússia, a Alemanha, a Irlanda e a Holanda. Países como os EUA e a Espanha repartiram equilibradamente o seu esforço pelas duas linhas de ataque.

No entanto, se o esforço for olhado em relação ao PIB de cada país, verificamos, de novo, uma geometria variável, com países como a Islândia (que enfrentou uma situação de bancarrota), a Irlanda, os Emirados Árabes Unidos (que agregam o Dubai, que tem estado em foco desde Dezembro passado por risco de incumprimento de dívida soberana) e a Letónia a aplicarem entre 30% (casos dos EAU e Letónia) e 76% (a Islândia) do seu PIB na resolução dos problemas gravíssimos do sistema financeiro. Em relação aos estímulos à economia em percentagem do PIB de cada um, os campeões foram a Arábia Saudita (85,5%), a China (47%), os EUA (34,6%), o Quénia (33,5%) e a África do Sul (33,5%).

Portugal nos PIIGS: a intervenção mais magra em % do PIB

A situação dentro dos designados PIIGS europeus (acrónimo que reúne o chamado Clube Méd mais a Irlanda), que agora tanto têm andado em foco nos mercados da dívida soberana, é, também, muito diversa.

Portugal, segundo a Grail Research, aplicou 5,2 biliões de dólares (3,8 mil milhões de euros) no “socorro” ao sistema financeiro (ou seja, foi nesta área que mais interveio financeiramente) e 2,9 biliões (2,1 mil milhões de euros) em estímulos, no conjunto 3,3% do PIB, muito menos, comparativamente com 6,4% do PIB pela Grécia (sobretudo no “socorro” financeiro), 6,6% pela Itália (que aplicou as verbas sobretudo em estímulos à economia), que é a maior economia deste grupo, 10,5% por Espanha e 48,5% pela Irlanda (sobretudo no “socorro” financeiro).

Segundo, um outro estudo, da autoria do Fundo Monetário Internacional (Working Paper 10/44), até Junho de 2009, Portugal teria aplicado 2,4% do seu PIB (referência de 2008) em injecções de capital e outros 2,4% em financiamentos à cabeça pelo Estado e teria “reservado” 12% do PIB em garantias dadas. A Grécia, por exemplo, teria aplicado 2,1% em injecções de capital, 3,3% em aquisições de activos e empréstimos pelo Tesouro, 5,4% em financiamentos à cabeça pelo estado e 6,2% em garantias dadas.

DESTAQUE

Os Números provisórios da Grande Recessão de 2007/2009
(69,3 triliões de dólares em perdas e estímulos, mais de 51 biliões de euros, 120% do PIB mundial estimado para 2009)

A contabilidade da crise:
a) Perdas globais de 56,4 triliões de dólares e 13 triliões de dólares em estímulos estatais;
b) Perdas financeiras: 50 triliões de dólares (37 biliões de euros);
c) Perdas projectadas do sistema financeiro nos mercados maduros para 2009-2010 derivadas dos problemas com o “lixo tóxico”: 3,4 triliões de dólares (cerca de 2,5 biliões de euros);
d) Quebra do PIB em 2009: 490 biliões de dólares (363 mil milhões de euros); 12ª maior recessão mundial desde 1850;
e) Quebra no comércio internacional em 2009: 2,4 triliões de dólares (1,8 biliões de euros);4ª maior contracção do comércio mundial desde 1900;
f) Estímulos públicos: 13 triliões de dólares (mais de 9,6 biliões de euros).

Cálculos:
. Destruição de activos financeiros à escala mundial: 50 triliões de dólares, o equivalente a 87% do produto interno bruto mundial estimado para 2009, segundo o cálculo de Claudio Loser, presidente do Centenial Group Latin America, publicado no Global Journal of Emerging Market Economies (vol. 1, nº2, Maio 2009) e citado no working paper de Ari Aisen e Michael Franken, do Banco Central do Chile, abrangendo a redução no valor de capitalização bolsista, a perda no valor das obrigações e títulos de vida e a depreciação de divisas em relação ao dólar.

. Quebra dos índices bolsistas americanos: 51% do S&P Compósito (de Robert Shiller) e 53,5% do Dow Jones Industrial Average (DJIA), entre 15 de Outubro de 2007 (pico da ‘bolha’ bolsista) e 9 de Março de 2009 (ponto mais baixo até hoje); segunda maior do DJIA, depois da queda de Outubro de 1929 a Julho de 1932, segundo Mark J. Lundeen.

. Registo de perdas globais actuais e potenciais do sistema financeiro (bancos e outras instituições financeiras) nos mercados maduros projectadas para o período 2009-2010, derivadas de “lixo tóxico”, segundo o “Global Stability Report”, do Fundo Monetário Internacional, actualização de Outubro de 2009. Baixaram de uma primeira estimativa em Abril de 2009 no valor de 4 triliões de dólares para 3,4 triliões.

. Contracção mundial do PIB em 2009: -0,8% (em termos nominais, segundo o Word Economic Outlook de 26/01/2010, do Fundo Monetário Internacional) em relação a 2008, cerca de 490 biliões de dólares; 12ª maior recessão desde 1850 (maiores recessões: -11,1% em 1946, -8,1% em 1945; -6,6% em 1932; -6,4% em 1931), quase similar à de 1876 (-0,7%) e abaixo das de 1893 e 1921.

. Contracção do comércio mundial de mercadorias e serviços em 2009: -12,3% em relação a 2008 (segundo o WEO do FMI, 26/01/10 e confirmado por Pascal Lamy, director-geral da Organização Mundial do Comércio, em 24/02/10), cerca de 2,4 triliões de dólares; período de concentração das quebras: -18% entre Abril de 2008 e Agosto de 2009; a partir desta data o comércio mundial voltou a crescer; quarta maior contracção desde 1900 quase ex aequo com a de 1938 (-12%); contracções anteriores mais graves: -32% em 1932; -29% em 1931; – 20% em 1930. A quebra em 2009 sucedeu a um aumento médio anual de 12% entre 2000 e 2008.

. Total dos estímulos à escala mundial: 13 triliões, segundo o levantamento da Grail Research até Setembro de 2009.

Apenas em uma semana a onda especulativa nos mercados da dívida soberana dos países “periféricos” da Zona Euro abrandou. Mas não esvaziou totalmente.

O mercado de credit default swaps (acrónimo popular: CDS) acalmou para o conjunto dos países designados por PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) depois dos dias negros de 4 e 8 de Fevereiro.

No caso português, o preço dos CDS fechou, ontem (19/02), nos 160 pontos base, segundo a CMA DataVision, tendo caído 34% em relação ao pico de 8 de Fevereiro, quando atingira o máximo histórico de 245,22 pontos base. No caso grego, a queda foi de 17%, apesar da revelação, esta semana, dos contornos de uma operação swap cambial em 2002 engendrada pelo governo de então e pela Goldman Sachs e do rebentamento de uma bomba em Atenas em frente dos escritórios da JP Morgan.

A exposição “sistémica” à Grécia

Mas, nos casos grego e português a onda de especulação ainda não esvaziou. Se tomarmos como linha de partida mais recente, a já famosa declaração em 13 de Janeiro pela agência de rating Moody’s sobre a “morte lenta” da Grécia e de Portugal, os preços dos CDS relativos à dívida soberana portuguesa ainda estão 30% acima do valor nessa data e 7% no caso grego. A Grécia continua, aliás, no clube dos 10 países com maior risco de incumprimento da sua dívida soberana, ainda que em último lugar, com um pé quase fora, disputando a posição com o estado americano da Califórnia.

O núcleo duro da Zona Euro está, de facto, muito exposto à dívida da Grécia. Os bancos franceses e alemães têm uma exposição à dívida grega de mais de 100 mil milhões de euros, o equivalente a mais de 60% do PIB português. Uma bancarrota grega – que abriu falência no séc. XIX por quatro vezes e uma outra vez em 1932 – acarretaria um efeito sistémico no sistema financeiro do eixo franco-alemão.

Contudo a questão não se coloca só em relação à Grécia. No conjunto, os bancos europeus têm uma exposição de 600 mil milhões de euros em relação ao grupo Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal.

Período de convergência

Abre-se, em breve, um novo período crítico para a Grécia, não só devido ao “protectorado” de Bruxelas sobre as contas públicas gregas, como em virtude do país ter de recorrer ao mercado internacional entre Abril e Maio para se refinanciar em mais 20 mil milhões de euros. O governo grego anunciou ir lançar no mercado, em breve, uma colocação de 5 mil milhões de euros de títulos a 10 anos, encarando-a como “um referendo” aos investidores. Por outro lado, a 16 de Março terá de apresentar em Bruxelas um relatório de progresso sobre o plano de austeridade.

Também a questão da dívida remanescente de mais de 15 mil milhões de euros do Dubai World regressará ao palco em Março e Abril. Correm rumores de que a empresa-chave do emirado apenas poderá cumprir com 60% da dívida. Portugal entre Março e Junho terá de refinanciar 12 mil milhões de euros da dívida.

Em suma, há uma convergência de problemas de refinanciamento nos próximos três meses que vai, de novo, exigir da Zona Euro e da União Europeia o debate mais aprofundado do dilema estratégico que se coloca: a) avançar para um controlo político mais apertado, incluindo, em contrapartida, mecanismos de socorro financeiro de emergência aos países em risco de default, ou b) manter o sistema de observação de contas aplicado ao caso grego e ver como a situação evolui, deixando o campo aberto aos movimentos de especuladores e aos diktats das agências de notação.

Esta semana, um académico americano no CBS Money Watch sugeriu a saída deste dilema com a criação de um Fundo Monetário Europeu. O proponente, Mark Thoma, professor da Universidade do Oregão e responsável pelo blogue de economia Ecomomist’s View, duvida que, politicamente, seja pacífica a criação de uma instituição deste tipo, mas admite que é “uma boa ideia” que pode ser forçada pela realidade.

Um problema «fractal» do “Ocidente”

O problema não é, no entanto, apenas, dos PIIGS europeus, como o eixo anglo-americano da imprensa financeira pretende fazer passar deixando a porta aberta para a (desejada) desagregação do jovem euro (que fez 10 anos recentemente) e a janela de oportunidade aos especuladores. Até o Nobel da Economia Paul Krugman, na segunda-feira, argumentando que o problema não era dos défices públicos nos “periféricos” europeus, apontou o dedo “à inflexibilidade do euro” como estando no “coração da crise”.

Martin Feldstein, professor de Harvard, sugeriu, mesmo, no Financial Times, que a Grécia metesse umas férias conjugais em relação à zona euro e voltasse à dracma desvalorizando-a, de seguida, em 30%, com o envolvimento do Fundo Monetário Internacional. O que provocou um debate aceso na blogosfera sob a conclusão que seria bem pior a emenda que o soneto.

Mas a Grécia – ou mesmo o resto dos PIIGS – não está sozinha no clube. Como referia o historiador americano Nial Ferguson, no Financial Times, é um problema da maioria dos países ditos ricos. Há “uma geometria fractal da dívida – o problema é basicamente idêntico da Islândia à Irlanda ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Apenas surge com dimensões diferentes”. Segundo Ferguson, o Japão e o Reino Unido vão ter de realizar um esforço de “emagrecimento” do défice orçamental em relação ao PIB ainda maior do que a Irlanda, a Espanha e a Grécia, e os EUA terão de fazer um ajustamento ainda maior do que Portugal.

Os alemães alegam inclusive que é necessário instituir um travão orçamental constitucional em cada país da Zona Euro, como o fizeram, dentro de portas, no final de 2009 aprovando uma emenda constitucional limitando o défice.

Os casos inglês e americano

Os casos inglês e americano vieram ultimamente à liça. O défice britânico, por exemplo, deverá atingir os 12,8% do PIB acima dos 12,7% no caso grego. Por isso, em Londres, o debate está ao rubro: 60 economistas apoiaram a decisão de Alistair Darling, ministro do Tesouro inglês, de adiar os cortes orçamentais para o próximo ano orçamental, em resposta a um manifesto de 20 economistas que defenderam a necessidade de austeridade desde já, na linha defendida pelos conservadores britânicos. Nos Estados Unidos, o Nobel da Economia Joseph Stiglitz condenou o que chamou de “fetichismo do défice” levantando-se contra as pressões para que se inicie, desde já, uma estratégia de “saída” de resposta à crise, quando, ainda, se corre o risco de uma recaída (double dip, no jargão técnico).

Sinais destas “dúvidas” transpareceram, esta semana, na dança dos preços dos CDS de alguns dos principais bancos americanos e ingleses, com posições acima dos 100 pontos base, como o Bank of America, Morgan Stanley, a própria Goldman Sachs, Royal Bank of Scotland, Lloyds e Barclays.

Por isso, mais importante do que a dança dos preços dos CDS nos casos do Dubai (nível actual acima dos 600 pontos base), da Letónia (acima dos 500 pb) e da Grécia (acima de 350 pb) – os três que estão no clube dos 10 com maior risco -, ou de outras economias pequenas como Hungria (acima dos 240 pb), Portugal (160 pb) e Irlanda (143 pb), serão as oscilações no caso das grandes economias do “ocidente” que nos deverão manter alerta. Para se avaliar se a Grande Recessão passa a uma “segunda fase”, a de uma derrocada na confiança sobre o cumprimento das obrigações das dívidas soberanas desses países.

Nial Ferguson recorda inclusive que a Moody’s já avisou os EUA e que a Fitch fez o mesmo para o Reino Unido, ao recordarem que a notação triplo A (que significa o menor risco de crédito) de ambos “não estava garantida para sempre”. A comissão do orçamento do Congresso norte-americano já sugeriu que os EUA nunca mais conseguirão um orçamento equilibrado. “NUNCA MAIS” – sublinha Ferguson, em maiúsculas.

O gabinete de análise estratégica francês que edita o GlobalEurope Anticipation Bulletin já referiu que os órgãos de comunicação anglo-americanos, particularmente os financeiros, agitam o “arbusto” (a Grécia) para desviar a atenção da floresta, tentando “branquear” o problema crítico das duas economias, EUA e Reino Unido.

DESTAQUE DA SEMANA
O sinal da Reserva Federal
O primeiro passo de “saída” na política monetária foi dado na quinta-feira à noite pela Reserva Federal (FED), subindo em 25 pontos base a taxa de desconto (valor cobrado pela FED nos empréstimos directos a bancos), passando de 0,5% para 0,75%, ainda assim muito abaixo da taxa correspondente europeia de cedência de liquidez que se situa em 1,75%. Esta decisão foi recebida com surpresa, pois se antecipou à reunião dos governadores da Reserva Federal em Março, presidida por Ben Bernanke.

Os analistas da Cumberland Advisors consideraram tal medida como introduzindo um grau de incerteza maior na conjuntura que os mercados financeiros terão de digerir, adicionando um prémio de risco que se vai repercutir em todo o ecossistema de financiamentos à economia real, aos particulares e à dívida soberana.

A FED não mexeu, contudo, na taxa directora norte-americana (a designada por FED Funds Rate) que se mantém no intervalo entre 0 e 0,25%. O Banco Central Europeu mantém a sua taxa principal de refinanciamento em 1% desde Maio de 2009.

Aliás Bernanke declararia em Washington, dias 24 e 25 de Fevereiro, perante o Painel sobre Finanças da Câmara de Representantes do Congresso americano e, depois, no Painel Bancário do Senado, que a situação de desemprego estrutural elevado (e de taxa de desemprego geral próxima de 10%), reflexo de uma retoma muito frágil, “provavelmente justifica” que a taxa directora se mantenha “excepcionalmente a níveis muito baixos por um período extenso” (uma expressão que a FED tem usado desde Dezembro de 2008). Bernanke apresentava o seu relatório semestral sobre política monetária.

Não se espera que Bernanke dê sinais de mudança na taxa directora antes da ida ao Congresso em Julho.

No entanto, o analista Mark J. Lundeen é de opinião que a margem de manobra da FED é hoje muito mais limitada do que há três ou quatro anos atrás, quando a Reserva Federal podia, com segurança, aumentar a taxa directora para valores elevados, como o fez até chegar aos 5,38%. “Em 2010, agora, se a FED quiser subir a taxa directora mesmo que seja só para 3%, todo o sistema colapsará. O mercado da dívida caminha em cima de prateleiras de ovos. O Doutor Bernanke não vai pôr-se a aumentar as taxa de juro, pois tem medo de rebentar esta bolha. Mas se ele não o fizer, alguma coisa o fará”, ironiza Lundeen.

Segundo o relatório (‘World Economic Outook Projections’, update de 26/01/2010) de hoje do Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto mundial terá emagrecido 0,8% em 2009, um valor negativo muito inferior à quebra de 2,2% anunciada ainda há pouco tempo pelo Banco Mundial. O FMI reviu a sua estimativa anterior (de Outubro de 2009) que apontava para uma recessão superior, na ordem dos 1,1%.

Esta melhoria do nível de recessão estimado para o ano que findou ficou a dever-se ao facto dos países emergentes terem conseguido segurar um nível de crescimento de 2,1%, com destaque para a China que conseguiu manter um crescimento anual do seu Produto Interno Bruto de 8,7%.

A recessão bateu forte nos países desenvolvidos com uma redução de 3,2% do produto, com um comportamento pior do Japão (contracção de 5,3%) e da Zona Euro (quebra de 3,9%) do que nos Estados Unidos (queda de 2,5%).

Geometria variável

Este desagravamento da profundidade da crise veio mostrar que, durante 2009 – o pior ano da Grande Recessão iniciada em finais de 2007 -, se confirmou a hipótese colocada por muitos economistas de que se assistiria a uma geometria variável nos crescimentos com uma separação (o que tecnicamente se tem designado por decoupling, em inglês) clara entre as dinâmicas dos países desenvolvidos e dos emergentes.

Se este número de 0,8% de quebra for definitivo, 2009 terá sido o quinto pior ano em termos económicos à escala mundial, em período de paz, desde 1900. Os lugares cimeiros estão, ainda, nos três anos críticos da Grande Depressão (1930, 1931 e 1932, com este último com o recorde de uma quebra de 6,6%) e no ano da Grande Recessão de 1908 que se seguiu ao Pânico financeiro internacional de 1907.

Alteração radical

O factor países emergentes que, agora, actuou tem a ver com uma alteração radical ocorrida nas dinâmicas de crescimento: os países de médio rendimento per capita passaram a ser o motor do crescimento da economia mundial.

Entre 2001 e 2007, esses países contribuíram com 55% para o crescimento do produto mundial avaliado em períodos de cinco anos, enquanto os países de alto rendimento per capita contribuíram, apenas, com 35%, segundo um estudo da economista brasileira Heloísa Marone, do Departamento de Estudos sobre o Desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). De acordo com as projecções realizadas por Marone, a contribuição dos países de rendimento médio per capita deverá atingir os 90% para o período de 2006 a 2010 (incluindo, portanto, os anos da Grande Recessão).

Afundamento do comércio mundial

No entanto, esse desagravamento da quebra do produto mundial foi “compensado” por um número para o comércio internacional mais pessimista do que as estimativas anteriores já de si muito negativas. O número anterior, avançado pela Organização Mundial do Comércio, era de 10% de redução das trocas munidas de bens e serviços, mas o FMI avança agora com uma estimativa de 12,3%.

A confirmar-se, trata-se do quarto ano de maior contracção das trocas mundiais desde 1900, mais grave do que as quebras ocorridas em 1938 (depois da recaída em recessão em 1937, com 12% de contracção), em 1975 (7%) e em 1908 (6%). O ano de 2009 ficará na galeria negra depois de 1932 (quebra de 32%, a maior de sempre), de 1931 (29%) e de 1930 (20%).

O interessante artigo de João Silvestre publicado no Expresso (caderno Economia, pg.9) de sábado passado (edição de 23/01/2010), intitulado “Quanto mais gordos menos crescem”, merece leitura, em particular uma olhada no quadro publicado (crescimento médio anual do PIB em %) e uma remissão para o artigo que lhe serve de suporte, da autoria de Reinhart e Rogoff (‘Growth in a Time of Debt, publicado como Working Paper no NBER dos EUA, Janeiro 2010, disponível para compra online).

O que se pode verificar – comparando com o caso português – é que há défices mais iguais que outros, ou seja, pode inferir-se uma hipótese de investigação: há défices públicos, mesmo acima de 60% do PIB, que mantiveram um efeito multiplicador na taxa de crescimento, que foram “virtuosos”, ou seja em que a engorda da despesa pública teve impacto keynesiano.
No caso português, o efeito do défice crescente é em plano bem inclinado, mas no caso da Austrália, da Nova Zelândia ou da Bélgica, mesmo com défices acima de 90%, não o é; os crescimentos do PIB são superiores a 3% nestas excepções.

No caso português, o efeito desacelerador sobre o crescimento por parte do défice público superior a 60% do PIB é acentuado (crescimento médio reduziu-se para 1,4% ao ano), o que dá uma imagem da ineficiência das suas aplicações. Mas, isso não aconteceu, em países com o mesmo nível de défice, entre 60 e 90%, como a Grécia, a Irlanda, a Finlândia e o Japão. Os efeitos, nestes casos, começaram a sentir-se, mais agudamente (Japão) ou mais moderadamente, no patamar a seguir.

No entanto, uma “lei de ferro” parece actuar para o núcleo duro dos países do capitalismo OCDE: com défices públicos acima de 90%, casos como os Estados Unidos (este é mesmo o mais grave), a Itália e o Japão sofrem de quase estagnação ou de recessão.

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