História Económica


O combate à crise durante estes dois últimos anos custou aos estados e às grandes instituições envolvidas (como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu) 13 triliões de dólares (mais de 9,6 biliões de euros), o equivalente a um ano de PIB americano, segundo os dados oficiais apurados até Setembro de 2009 pela Grail Research, uma empresa de investigação estratégica de Boston.

Este valor de envolvimento anticrise soma-se a uma destruição de valor financeiro e de quebra do produto interno mundial e do comércio internacional na ordem dos 52,9 triliões de dólares (39,1 biliões de euros), segundo um apuramento provisório com base em diversas fontes (ver Destaque no fim). Se lhe juntarmos, as perdas projectadas para 2009-2010 do sistema financeiro nos mercados maduros derivadas dos problemas com os veículos “tóxicos”, que deverão atingir um montante de 3,4 triliões de dólares (quase 2,5 biliões de euros), o total do “custo” estimado desta crise chega aos 69,3 triliões de dólares (mais de 51 biliões de euros).

Em suma, foi a 12ª maior recessão mundial desde 1850 e a 4ª maior quebra do comércio mundial desde 1900. A destruição de activos financeiros foi mais de 8 vezes superior ao crash das tecnológicas de 2000. Só no caso dos Estados Unidos, o fosso entre o PIB real actual e o PIB real potencial é de 1 trilião de dólares (um gap de 8%), segundo os cálculos de Mark Thoma, professor da Universidade do Oregão, editor de Economist’s View.

Os Estados Unidos lideraram em ambas as linhas de combate ao pânico financeiro de 2008 e à Grande Recessão que se seguiu, envolvendo cerca de 6 triliões de dólares (mais de 4,4 biliões de euros), cerca de 45% do esforço mundial. O segundo país neste esforço global foi a China que aplicou mais de 2 triliões de dólares (1,48 biliões de euros), 15% do montante global.

Geometria variável

No entanto, a distribuição do esforço global foi muito distinta entre os principais países envolvidos.

Enquanto países, como a China, o Japão, a Arábia Saudita, a Itália e a Coreia do Sul concentraram os seus esforços nos programas de estímulos à economia, um outro conjunto de países viu-se obrigado a focalizar o seu ataque na contenção do risco “sistémico” do seu sistema financeiro, como aconteceu com o Reino Unido, a Rússia, a Alemanha, a Irlanda e a Holanda. Países como os EUA e a Espanha repartiram equilibradamente o seu esforço pelas duas linhas de ataque.

No entanto, se o esforço for olhado em relação ao PIB de cada país, verificamos, de novo, uma geometria variável, com países como a Islândia (que enfrentou uma situação de bancarrota), a Irlanda, os Emirados Árabes Unidos (que agregam o Dubai, que tem estado em foco desde Dezembro passado por risco de incumprimento de dívida soberana) e a Letónia a aplicarem entre 30% (casos dos EAU e Letónia) e 76% (a Islândia) do seu PIB na resolução dos problemas gravíssimos do sistema financeiro. Em relação aos estímulos à economia em percentagem do PIB de cada um, os campeões foram a Arábia Saudita (85,5%), a China (47%), os EUA (34,6%), o Quénia (33,5%) e a África do Sul (33,5%).

Portugal nos PIIGS: a intervenção mais magra em % do PIB

A situação dentro dos designados PIIGS europeus (acrónimo que reúne o chamado Clube Méd mais a Irlanda), que agora tanto têm andado em foco nos mercados da dívida soberana, é, também, muito diversa.

Portugal, segundo a Grail Research, aplicou 5,2 biliões de dólares (3,8 mil milhões de euros) no “socorro” ao sistema financeiro (ou seja, foi nesta área que mais interveio financeiramente) e 2,9 biliões (2,1 mil milhões de euros) em estímulos, no conjunto 3,3% do PIB, muito menos, comparativamente com 6,4% do PIB pela Grécia (sobretudo no “socorro” financeiro), 6,6% pela Itália (que aplicou as verbas sobretudo em estímulos à economia), que é a maior economia deste grupo, 10,5% por Espanha e 48,5% pela Irlanda (sobretudo no “socorro” financeiro).

Segundo, um outro estudo, da autoria do Fundo Monetário Internacional (Working Paper 10/44), até Junho de 2009, Portugal teria aplicado 2,4% do seu PIB (referência de 2008) em injecções de capital e outros 2,4% em financiamentos à cabeça pelo Estado e teria “reservado” 12% do PIB em garantias dadas. A Grécia, por exemplo, teria aplicado 2,1% em injecções de capital, 3,3% em aquisições de activos e empréstimos pelo Tesouro, 5,4% em financiamentos à cabeça pelo estado e 6,2% em garantias dadas.

DESTAQUE

Os Números provisórios da Grande Recessão de 2007/2009
(69,3 triliões de dólares em perdas e estímulos, mais de 51 biliões de euros, 120% do PIB estimado para 2009)

A contabilidade da crise:
a) Perdas globais de 56,4 triliões de dólares e 13 triliões de dólares em estímulos estatais;
b) Perdas financeiras: 50 triliões de dólares (37 biliões de euros);
c) Perdas projectadas do sistema financeiro nos mercados maduros para 2009-2010 derivadas dos problemas com o “lixo tóxico”: 3,4 triliões de dólares (cerca de 2,5 biliões de euros);
d) Quebra do PIB em 2009: 490 biliões de dólares (363 mil milhões de euros); 12ª maior recessão mundial desde 1850;
e) Quebra no comércio internacional em 2009: 2,4 triliões de dólares (1,8 biliões de euros);4ª maior contracção do comércio mundial desde 1900;
f) Estímulos públicos: 13 triliões de dólares (mais de 9,6 biliões de euros).

Cálculos:
. Destruição de activos financeiros à escala mundial: 50 triliões de dólares, o equivalente a 87% do produto interno bruto mundial estimado para 2009, segundo o cálculo de Claudio Loser, presidente do Centenial Group Latin America, publicado no Global Journal of Emerging Market Economies (vol. 1, nº2, Maio 2009) e citado no working paper de Ari Aisen e Michael Franken, do Banco Central do Chile, abrangendo a redução no valor de capitalização bolsista, a perda no valor das obrigações e títulos de vida e a depreciação de divisas em relação ao dólar.

. Quebra dos índices bolsistas americanos: 51% do S&P Compósito (de Robert Shiller) e 53,5% do Dow Jones Industrial Average (DJIA), entre 15 de Outubro de 2007 (pico da ‘bolha’ bolsista) e 9 de Março de 2009 (ponto mais baixo até hoje); segunda maior do DJIA, depois da queda de Outubro de 1929 a Julho de 1932, segundo Mark J. Lundeen.

. Registo de perdas globais actuais e potenciais do sistema financeiro (bancos e outras instituições financeiras) nos mercados maduros projectadas para o período 2009-2010, derivadas de “lixo tóxico”, segundo o “Global Stability Report”, do Fundo Monetário Internacional, actualização de Outubro de 2009. Baixaram de uma primeira estimativa em Abril de 2009 no valor de 4 triliões de dólares para 3,4 triliões.

. Contracção mundial do PIB em 2009: -0,8% (em termos nominais, segundo o Word Economic Outlook de 26/01/2010, do Fundo Monetário Internacional) em relação a 2008, cerca de 490 biliões de dólares; 12ª maior recessão desde 1850 (maiores recessões: -11,1% em 1946, -8,1% em 1945; -6,6% em 1932; -6,4% em 1931), quase similar à de 1876 (-0,7%) e abaixo das de 1893 e 1921.

. Contracção do comércio mundial de mercadorias e serviços em 2009: -12,3% em relação a 2008 (segundo o WEO do FMI, 26/01/10 e confirmado por Pascal Lamy, director-geral da Organização Mundial do Comércio, em 24/02/10), cerca de 2,4 triliões de dólares; período de concentração das quebras: -18% entre Abril de 2008 e Agosto de 2009; a partir desta data o comércio mundial voltou a crescer; quarta maior contracção desde 1900 quase ex aequo com a de 1938 (-12%); contracções anteriores mais graves: -32% em 1932; -29% em 1931; – 20% em 1930. A quebra em 2009 sucedeu a um aumento médio anual de 12% entre 2000 e 2008.

. Total dos estímulos à escala mundial: 13 triliões, segundo o levantamento da Grail Research até Setembro de 2009.

Apenas em uma semana a onda especulativa nos mercados da dívida soberana dos países “periféricos” da Zona Euro abrandou. Mas não esvaziou totalmente.

O mercado de credit default swaps (acrónimo popular: CDS) acalmou para o conjunto dos países designados por PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) depois dos dias negros de 4 e 8 de Fevereiro.

No caso português, o preço dos CDS fechou, ontem (19/02), nos 160 pontos base, segundo a CMA DataVision, tendo caído 34% em relação ao pico de 8 de Fevereiro, quando atingira o máximo histórico de 245,22 pontos base. No caso grego, a queda foi de 17%, apesar da revelação, esta semana, dos contornos de uma operação swap cambial em 2002 engendrada pelo governo de então e pela Goldman Sachs e do rebentamento de uma bomba em Atenas em frente dos escritórios da JP Morgan.

A exposição “sistémica” à Grécia

Mas, nos casos grego e português a onda de especulação ainda não esvaziou. Se tomarmos como linha de partida mais recente, a já famosa declaração em 13 de Janeiro pela agência de rating Moody’s sobre a “morte lenta” da Grécia e de Portugal, os preços dos CDS relativos à dívida soberana portuguesa ainda estão 30% acima do valor nessa data e 7% no caso grego. A Grécia continua, aliás, no clube dos 10 países com maior risco de incumprimento da sua dívida soberana, ainda que em último lugar, com um pé quase fora, disputando a posição com o estado americano da Califórnia.

O núcleo duro da Zona Euro está, de facto, muito exposto à dívida da Grécia. Os bancos franceses e alemães têm uma exposição à dívida grega de mais de 100 mil milhões de euros, o equivalente a mais de 60% do PIB português. Uma bancarrota grega – que abriu falência no séc. XIX por quatro vezes e uma outra vez em 1932 – acarretaria um efeito sistémico no sistema financeiro do eixo franco-alemão.

Contudo a questão não se coloca só em relação à Grécia. No conjunto, os bancos europeus têm uma exposição de 600 mil milhões de euros em relação ao grupo Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal.

Período de convergência

Abre-se, em breve, um novo período crítico para a Grécia, não só devido ao “protectorado” de Bruxelas sobre as contas públicas gregas, como em virtude do país ter de recorrer ao mercado internacional entre Abril e Maio para se refinanciar em mais 20 mil milhões de euros. O governo grego anunciou ir lançar no mercado, em breve, uma colocação de 5 mil milhões de euros de títulos a 10 anos, encarando-a como “um referendo” aos investidores. Por outro lado, a 16 de Março terá de apresentar em Bruxelas um relatório de progresso sobre o plano de austeridade.

Também a questão da dívida remanescente de mais de 15 mil milhões de euros do Dubai World regressará ao palco em Março e Abril. Correm rumores de que a empresa-chave do emirado apenas poderá cumprir com 60% da dívida. Portugal entre Março e Junho terá de refinanciar 12 mil milhões de euros da dívida.

Em suma, há uma convergência de problemas de refinanciamento nos próximos três meses que vai, de novo, exigir da Zona Euro e da União Europeia o debate mais aprofundado do dilema estratégico que se coloca: a) avançar para um controlo político mais apertado, incluindo, em contrapartida, mecanismos de socorro financeiro de emergência aos países em risco de default, ou b) manter o sistema de observação de contas aplicado ao caso grego e ver como a situação evolui, deixando o campo aberto aos movimentos de especuladores e aos diktats das agências de notação.

Esta semana, um académico americano no CBS Money Watch sugeriu a saída deste dilema com a criação de um Fundo Monetário Europeu. O proponente, Mark Thoma, professor da Universidade do Oregão e responsável pelo blogue de economia Ecomomist’s View, duvida que, politicamente, seja pacífica a criação de uma instituição deste tipo, mas admite que é “uma boa ideia” que pode ser forçada pela realidade.

Um problema «fractal» do “Ocidente”

O problema não é, no entanto, apenas, dos PIIGS europeus, como o eixo anglo-americano da imprensa financeira pretende fazer passar deixando a porta aberta para a (desejada) desagregação do jovem euro (que fez 10 anos recentemente) e a janela de oportunidade aos especuladores. Até o Nobel da Economia Paul Krugman, na segunda-feira, argumentando que o problema não era dos défices públicos nos “periféricos” europeus, apontou o dedo “à inflexibilidade do euro” como estando no “coração da crise”.

Martin Feldstein, professor de Harvard, sugeriu, mesmo, no Financial Times, que a Grécia metesse umas férias conjugais em relação à zona euro e voltasse à dracma desvalorizando-a, de seguida, em 30%, com o envolvimento do Fundo Monetário Internacional. O que provocou um debate aceso na blogosfera sob a conclusão que seria bem pior a emenda que o soneto.

Mas a Grécia – ou mesmo o resto dos PIIGS – não está sozinha no clube. Como referia o historiador americano Nial Ferguson, no Financial Times, é um problema da maioria dos países ditos ricos. Há “uma geometria fractal da dívida – o problema é basicamente idêntico da Islândia à Irlanda ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Apenas surge com dimensões diferentes”. Segundo Ferguson, o Japão e o Reino Unido vão ter de realizar um esforço de “emagrecimento” do défice orçamental em relação ao PIB ainda maior do que a Irlanda, a Espanha e a Grécia, e os EUA terão de fazer um ajustamento ainda maior do que Portugal.

Os alemães alegam inclusive que é necessário instituir um travão orçamental constitucional em cada país da Zona Euro, como o fizeram, dentro de portas, no final de 2009 aprovando uma emenda constitucional limitando o défice.

Os casos inglês e americano

Os casos inglês e americano vieram ultimamente à liça. O défice britânico, por exemplo, deverá atingir os 12,8% do PIB acima dos 12,7% no caso grego. Por isso, em Londres, o debate está ao rubro: 60 economistas apoiaram a decisão de Alistair Darling, ministro do Tesouro inglês, de adiar os cortes orçamentais para o próximo ano orçamental, em resposta a um manifesto de 20 economistas que defenderam a necessidade de austeridade desde já, na linha defendida pelos conservadores britânicos. Nos Estados Unidos, o Nobel da Economia Joseph Stiglitz condenou o que chamou de “fetichismo do défice” levantando-se contra as pressões para que se inicie, desde já, uma estratégia de “saída” de resposta à crise, quando, ainda, se corre o risco de uma recaída (double dip, no jargão técnico).

Sinais destas “dúvidas” transpareceram, esta semana, na dança dos preços dos CDS de alguns dos principais bancos americanos e ingleses, com posições acima dos 100 pontos base, como o Bank of America, Morgan Stanley, a própria Goldman Sachs, Royal Bank of Scotland, Lloyds e Barclays.

Por isso, mais importante do que a dança dos preços dos CDS nos casos do Dubai (nível actual acima dos 600 pontos base), da Letónia (acima dos 500 pb) e da Grécia (acima de 350 pb) – os três que estão no clube dos 10 com maior risco -, ou de outras economias pequenas como Hungria (acima dos 240 pb), Portugal (160 pb) e Irlanda (143 pb), serão as oscilações no caso das grandes economias do “ocidente” que nos deverão manter alerta. Para se avaliar se a Grande Recessão passa a uma “segunda fase”, a de uma derrocada na confiança sobre o cumprimento das obrigações das dívidas soberanas desses países.

Nial Ferguson recorda inclusive que a Moody’s já avisou os EUA e que a Fitch fez o mesmo para o Reino Unido, ao recordarem que a notação triplo A (que significa o menor risco de crédito) de ambos “não estava garantida para sempre”. A comissão do orçamento do Congresso norte-americano já sugeriu que os EUA nunca mais conseguirão um orçamento equilibrado. “NUNCA MAIS” – sublinha Ferguson, em maiúsculas.

O gabinete de análise estratégica francês que edita o GlobalEurope Anticipation Bulletin já referiu que os órgãos de comunicação anglo-americanos, particularmente os financeiros, agitam o “arbusto” (a Grécia) para desviar a atenção da floresta, tentando “branquear” o problema crítico das duas economias, EUA e Reino Unido.

DESTAQUE DA SEMANA
O sinal da Reserva Federal
O primeiro passo de “saída” na política monetária foi dado na quinta-feira à noite pela Reserva Federal (FED), subindo em 25 pontos base a taxa de desconto (valor cobrado pela FED nos empréstimos directos a bancos), passando de 0,5% para 0,75%, ainda assim muito abaixo da taxa correspondente europeia de cedência de liquidez que se situa em 1,75%. Esta decisão foi recebida com surpresa, pois se antecipou à reunião dos governadores da Reserva Federal em Março, presidida por Ben Bernanke.

Os analistas da Cumberland Advisors consideraram tal medida como introduzindo um grau de incerteza maior na conjuntura que os mercados financeiros terão de digerir, adicionando um prémio de risco que se vai repercutir em todo o ecossistema de financiamentos à economia real, aos particulares e à dívida soberana.

A FED não mexeu, contudo, na taxa directora norte-americana (a designada por FED Funds Rate) que se mantém no intervalo entre 0 e 0,25%. O Banco Central Europeu mantém a sua taxa principal de refinanciamento em 1% desde Maio de 2009.

Aliás Bernanke declararia em Washington, dias 24 e 25 de Fevereiro, perante o Painel sobre Finanças da Câmara de Representantes do Congresso americano e, depois, no Painel Bancário do Senado, que a situação de desemprego estrutural elevado (e de taxa de desemprego geral próxima de 10%), reflexo de uma retoma muito frágil, “provavelmente justifica” que a taxa directora se mantenha “excepcionalmente a níveis muito baixos por um período extenso” (uma expressão que a FED tem usado desde Dezembro de 2008). Bernanke apresentava o seu relatório semestral sobre política monetária.

Não se espera que Bernanke dê sinais de mudança na taxa directora antes da ida ao Congresso em Julho.

No entanto, o analista Mark J. Lundeen é de opinião que a margem de manobra da FED é hoje muito mais limitada do que há três ou quatro anos atrás, quando a Reserva Federal podia, com segurança, aumentar a taxa directora para valores elevados, como o fez até chegar aos 5,38%. “Em 2010, agora, se a FED quiser subir a taxa directora mesmo que seja só para 3%, todo o sistema colapsará. O mercado da dívida caminha em cima de prateleiras de ovos. O Doutor Bernanke não vai pôr-se a aumentar as taxa de juro, pois tem medo de rebentar esta bolha. Mas se ele não o fizer, alguma coisa o fará”, ironiza Lundeen.

Segundo o relatório (’World Economic Outook Projections’, update de 26/01/2010) de hoje do Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto mundial terá emagrecido 0,8% em 2009, um valor negativo muito inferior à quebra de 2,2% anunciada ainda há pouco tempo pelo Banco Mundial. O FMI reviu a sua estimativa anterior (de Outubro de 2009) que apontava para uma recessão superior, na ordem dos 1,1%.

Esta melhoria do nível de recessão estimado para o ano que findou ficou a dever-se ao facto dos países emergentes terem conseguido segurar um nível de crescimento de 2,1%, com destaque para a China que conseguiu manter um crescimento anual do seu Produto Interno Bruto de 8,7%.

A recessão bateu forte nos países desenvolvidos com uma redução de 3,2% do produto, com um comportamento pior do Japão (contracção de 5,3%) e da Zona Euro (quebra de 3,9%) do que nos Estados Unidos (queda de 2,5%).

Geometria variável

Este desagravamento da profundidade da crise veio mostrar que, durante 2009 – o pior ano da Grande Recessão iniciada em finais de 2007 -, se confirmou a hipótese colocada por muitos economistas de que se assistiria a uma geometria variável nos crescimentos com uma separação (o que tecnicamente se tem designado por decoupling, em inglês) clara entre as dinâmicas dos países desenvolvidos e dos emergentes.

Se este número de 0,8% de quebra for definitivo, 2009 terá sido o quinto pior ano em termos económicos à escala mundial, em período de paz, desde 1900. Os lugares cimeiros estão, ainda, nos três anos críticos da Grande Depressão (1930, 1931 e 1932, com este último com o recorde de uma quebra de 6,6%) e no ano da Grande Recessão de 1908 que se seguiu ao Pânico financeiro internacional de 1907.

Alteração radical

O factor países emergentes que, agora, actuou tem a ver com uma alteração radical ocorrida nas dinâmicas de crescimento: os países de médio rendimento per capita passaram a ser o motor do crescimento da economia mundial.

Entre 2001 e 2007, esses países contribuíram com 55% para o crescimento do produto mundial avaliado em períodos de cinco anos, enquanto os países de alto rendimento per capita contribuíram, apenas, com 35%, segundo um estudo da economista brasileira Heloísa Marone, do Departamento de Estudos sobre o Desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). De acordo com as projecções realizadas por Marone, a contribuição dos países de rendimento médio per capita deverá atingir os 90% para o período de 2006 a 2010 (incluindo, portanto, os anos da Grande Recessão).

Afundamento do comércio mundial

No entanto, esse desagravamento da quebra do produto mundial foi “compensado” por um número para o comércio internacional mais pessimista do que as estimativas anteriores já de si muito negativas. O número anterior, avançado pela Organização Mundial do Comércio, era de 10% de redução das trocas munidas de bens e serviços, mas o FMI avança agora com uma estimativa de 12,3%.

A confirmar-se, trata-se do quarto ano de maior contracção das trocas mundiais desde 1900, mais grave do que as quebras ocorridas em 1938 (depois da recaída em recessão em 1937, com 12% de contracção), em 1975 (7%) e em 1908 (6%). O ano de 2009 ficará na galeria negra depois de 1932 (quebra de 32%, a maior de sempre), de 1931 (29%) e de 1930 (20%).

O interessante artigo de João Silvestre publicado no Expresso (caderno Economia, pg.9) de sábado passado (edição de 23/01/2010), intitulado “Quanto mais gordos menos crescem”, merece leitura, em particular uma olhada no quadro publicado (crescimento médio anual do PIB em %) e uma remissão para o artigo que lhe serve de suporte, da autoria de Reinhart e Rogoff (‘Growth in a Time of Debt, publicado como Working Paper no NBER dos EUA, Janeiro 2010, disponível para compra online).

O que se pode verificar – comparando com o caso português – é que há défices mais iguais que outros, ou seja, pode inferir-se uma hipótese de investigação: há défices públicos, mesmo acima de 60% do PIB, que mantiveram um efeito multiplicador na taxa de crescimento, que foram “virtuosos”, ou seja em que a engorda da despesa pública teve impacto keynesiano.
No caso português, o efeito do défice crescente é em plano bem inclinado, mas no caso da Austrália, da Nova Zelândia ou da Bélgica, mesmo com défices acima de 90%, não o é; os crescimentos do PIB são superiores a 3% nestas excepções.

No caso português, o efeito desacelerador sobre o crescimento por parte do défice público superior a 60% do PIB é acentuado (crescimento médio reduziu-se para 1,4% ao ano), o que dá uma imagem da ineficiência das suas aplicações. Mas, isso não aconteceu, em países com o mesmo nível de défice, entre 60 e 90%, como a Grécia, a Irlanda, a Finlândia e o Japão. Os efeitos, nestes casos, começaram a sentir-se, mais agudamente (Japão) ou mais moderadamente, no patamar a seguir.

No entanto, uma “lei de ferro” parece actuar para o núcleo duro dos países do capitalismo OCDE: com défices públicos acima de 90%, casos como os Estados Unidos (este é mesmo o mais grave), a Itália e o Japão sofrem de quase estagnação ou de recessão.

Mesmo depois da recessão técnica terminar, mesmo depois de se entrar no que os economistas chamam de “vala” (trough, no economês) entre dois ciclos, mesmo face aos primeiros sinais de retoma, o desemprego não desce automaticamente, pelo contrário, continua numa dinâmica de crescimento líquido por algum tempo.

A destruição de empregos continua, mesmo já em zona de ‘vala’ e de primeiros sinais de retoma, a ser superior à criação de emprego. A reestruturação do tecido económico entra num pico e a criação líquida de postos de trabalho depende da afirmação de novos sectores (criadores de emprego em actividades diferentes) ou da retoma efectiva nos que sobreviveram.

Mas é, sempre, preferível referir dados concretos do que repetir teorias.

Os americanos publicaram, recentemente, um estudo sobre o comportamento do emprego depois das principais recessões que os Estados Unidos viveram desde o princípio dos anos 1970 (entre 1975-1976, entre 1982-1983, entre 1991-1992, entre 2001-2002).

Eric Rosengren, presidente e CEO do Federal Reserve Bank of Boston desde 2007, divulgou, no princípio do mês, um documento intitulado Prospects for Employment: Evidence from Prior Recoveries.

Uma leitura, mesmo de helicóptero, olhando sobretudo alguns gráficos, deixa-nos perplexos com uma mudança, que é chocante.

A situação agravou-se desde os anos 1990.

No caso dos primeiros trimestres de retoma em 1975-1976 e em 1982-1983, o período de destruição líquida de empregos, desde o trough, foi inferior ou próximo de um trimestre. Nos dois casos de 1991-1992 e 2001-2002, a destruição líquida continuou por quatro trimestres, em que o nível se manteve abaixo do próprio patamar saído do trough.

Ou seja, enquanto nos dois casos de 1975-1976 e de 1982-1983 se assistiu, em regra, a uma taxa de crescimento do emprego ao longo de um ano nos vários sectores (com uma excepção, no caso da construção, em 1975-1976), nos outros dois casos assistimos a uma taxa negativa durante quatro trimestres, com particular incidência na construção (6% de quebra de emprego) em 1991-1992 e na produção (5,5% de quebra de emprego) em 2001-2002. Neste último período, foi nítida a desindustrialização da América.

A década que agora finda saldou-se por uma quebra bolsista de 22%, segundo o índice Standard & Poor’s (S&P) entre Janeiro de 2000 e Dezembro de 2009, tendo em conta a base de dados mantida pelo professor Robert Shiller da Universidade de Yale. Shiller tem um repositório histórico do comportamento deste índice desde 1871 (o S&P foi criado em 1860).

No entanto, no período de mais de 130 anos que acompanhou o comportamento bolsista de Wall Street e as vagas de desenvolvimento do capital financeiro moderno, os efeitos do crash bolsista, a partir de Outubro de 2007, e da Grande Recessão económica recente são muito inferiores à destruição de capitalização ocorrida na década subsequente ao crash de Outubro de 1929. A década de 1930 saldou-se por uma quebra de 43%, quase o dobro.

A terceira pior década de Wall Street situou-se entre 1910 e 1919, um período que sofreu, à escala global, a 1ª Guerra Mundial e o impacto geopolítico da Revolução bolchevique russa. O desgaste decenal da riqueza bolsista foi de 11,5%.

Grandes correcções são excepcionais

Estes períodos decenais de profunda correcção bolsista são, no entanto, excepcionais. Desde 1871, apenas três décadas se saldaram negativamente.

Mesmo na década de 1900, apesar do grande crash bolsista de 1907 e da Grande Recessão mundial de 1908 (uma das crises globais, segundo Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em This Times is Different, Princeton University Press, 2009), o saldo foi largamente positivo – Wall Street cresceu em ganhos 69%, o quinto melhor resultado de sempre na história do índice S&P. Também, no período em que ocorreu a 2ª Guerra Mundial, apesar do seu carácter devastador, e de termos assistido à maior quebra mundial do Produto Interno Bruto (PIB), no pós Revolução Industrial, em 1945 e 1946, a Wall Street comportou-se no positivo (+34,5%).

A própria profundidade da correcção bolsista – recorde-se, 43% na década iniciada em 1930, 22% na começada em 2000 e 11,5% na iniciada em 1910 – foi ténue em relação as ganhos acumulados nas décadas imediatamente anteriores. Entre Janeiro de 1920 a Dezembro de 1929 havíamos assistido a um crescimento de 142% (quarto maior), entre Janeiro de 1990 e Dezembro de 1999 a um disparo de 320% (o maior de sempre na história deste índice) e entre Janeiro de 1900 e Dezembro de 1909 a um ganho já referido de 69% (quinto maior).

As melhores décadas

As melhores décadas em bolsa em Wall Street foram a de 1990/1999 (crescimento de 320%), a de 1950/1959 (253%) e a de 1980/1989 (214%).

Em termos históricos, o período de 1980 a 1999 revelou-se o de maior euforia bolsista americana, com um disparo do peso na riqueza por parte do novo capital financeiro e das rendas financeiras. Recorde-se que, em termos de economia “real”, estas duas décadas marcaram a “prisão” do crescimento real do PIB americano num patamar de 3,1%, umas décimas abaixo do ocorrido na década de 1970 e mais de um ponto percentual abaixo das médias das décadas de 1950 e 1960, segundo dados de John Bellamy Foster e Fred Magdoff (The Great Financial Crisis, Monthly Review Press, 2009).

A correcção ocorrida, agora, na década entre 2000 e 2009 (que já entra no século XXI), surge 90 anos após a correcção de 1910-1919. Se, por mera especulação, a correcção definitiva dos excessos da vaga financeira actual (segundo alguns historiadores económicos iniciada na década de 1970) seguir o mesmo padrão daquela iniciada em 1860/1870, daqui a vinte anos teríamos um crash de maiores proporções e eventualmente uma Grande Depressão mais violenta que a actual Grande Recessão.

A radiografia das valorizações bolsistas e das quedas catastróficas em Wall Street na década que findou (2000-2009) ficou marcada por uma economia a duas velocidades, com 61 sectores no positivo e 39 no vermelho.

Segundo o estudo realizado pelo analista americano Mark J. Lundeen ao comportamento do índice norte-americano Dow Jones Industrial Average (DJIA) relativo aos preços semanais de fecho das acções em 100 sectores em bolsa durante a primeira década do século XXI, o melhor e o pior pode ser agrupado em dois grupos de 10 campeões das capitalizações e 10 grandes perdedores.

Apesar do crash do Nasdaq logo em 2000 e da correcção ocorrida entre finais de 2007 e Março de 2009, dez sectores revelaram-se verdadeiros campeões dos ganhos em bolsa. O mais extraordinário salto foi o do sector do carvão, cujas empresas cotadas se valorizaram 919,94%!, ou seja quase 100% ao ano.

Seguem-se no clube dos supervalorizados, o sector dos tabacos (296,07%, benefícios dos malefícios de um vício), o minério de cobre (285,57% por libra de peso), a onça de ouro (279,16%), os caminhos-de-ferro (225,06%), o sector da mineração dos minerais não-ferrosos (218,34%), a onça de prata (213,33%), os fornecedores de serviços de cuidados de saúde (206,86%), as utilitites do sector da água (188,32%) e a construção e engenharia (164,59%).

Na cauda da listagem do estudo, entre os que tiveram quebras de capitalização superiores a 62%, há uma galeria de dez sectores com recordes no vermelho: seguros gama completa (94,41%), telemóveis (87,88%), construção automóvel (76,17%), tecnologias de comunicação (72,74%), produtos de entretenimento (65,88%), publicidade (64.6%), equipamentos electrónicos (63,89%), linhas aéreas (63,67%), companhias de telefones fixos (62,38%) e mineração de alumínio (62,24%).

Depois de os ter apodado de “gatos gordos” (fat cats), o Presidente Obama reuniu ontem (14 de Dezembro) na Casa Branca com os representantes do capital financeiro privado americano. Avisou-os de que pretende regular o sector e satisfazer algumas das reclamações da arraia-miúda empresarial e do homem da rua (Main Street) que culpa os “gatos gordos” pela crise.

Entre os convivas estava a nata da alta finança americana, entre eles Ken Chenault, presidente e CEO da American Express, Jamie Dimon, presidente e CEO do JP Morgan Chase, Ken Lewis, Presidente do Bank of America e Gregory Palm, vice-presidente executivo da Goldman Sachs. Lloyd Blankfein, president e CEO da Goldman Sachs, John Mack, presidente e CEO do Morgan Stanley, e Dick Parsons, presidente do Citigroup não conseguiram voar para Washington DC por causa do mau tempo.

Palavras duras presidenciais

A conversa girou em torno dos temas quentes dos últimos dias: a intenção da maioria do Partido Democrático fazer passar no Congresso americano legislação de controlo do sector financeiro, como não haverá memória desde os tempos de Franklin D. Roosevelt nos anos 1930, e as admoestações públicas do presidente contra o mau comportamento dos ‘gatos gordos’ da alta finança em plena crise.

O homem da rua reteve na memória de 2009 os bónus galácticos dos administradores e os lucros astronómicos, a continuação da concentração do sector em entidades financeiras cada vez mais gigantes (cada vez mais demasiado gigantes para falirem mesmo que estejam em insolvência confessa) e a nova euforia especulativa na Bolsa de Nova Iorque desde Março.

Obama tinha-se atirado no domingo aos “gatos gordos” com estas palavras duras: “Não concorri para a presidência para agora andar ao colo com um bando de banqueiros gatos gordos em Wall Street”, disse ele preto no branco no programa 60 minutos da CBS.

A reunião e as palavras usadas surtiram, aparentemente, algum efeito. O patrão do Bank of America, à saída da Casa Branca, anunciou que iria estender o crédito às PME em, pelo menos, 5 mil milhões de dólares em 2010. Por seu lado, o chefe da JP Morgan Chase garantiu que apoiará os objectivos da Administração Obama.

Correcção de tiro político na economia

Depois de vários meses focalizado noutros temas (como a reforma dos serviços de saúde), o presidente acabou por, ao 11º mês de mandato, se fazer porta-voz da Main Street e do small-business contra a Wall Street, contra a “imoralidade” dos bónus dos administradores do sistema financeiro e contra a falta de crédito bancário para a economia real.

Uma correcção de tiro político que já se começara a ver na estratégia para a extensão até Outubro de 2010 do programa anticrise conhecido pelo acrónimo TARP, que pretende dar prioridade, de futuro, aos desempregados das famílias hipotecadas e ao tecido empresarial de pequenos e médios negócios.

Uma guinada política que deverá levar outros governantes do social-financismo, nomeadamente na Europa, a reflectir sobre o seu significado.

O pacote de sexta-feira

As palavras duras de Obama seguiram-se à aprovação (223 contra 203, em que, note-se, 27 democratas votaram ao lado da totalidade dos republicanos) pela Casa dos Representantes do Congresso americano de um pacote de regulação financeira na sexta-feira passada (11 de Dezembro) que, agora, terá de passar no Senado pelo crivo de negociações até final do ano.

O pacote tem um conjunto de medidas que são tidas como atacando algumas manifestações do problema do financeirização, nomeadamente: uma nova agência governamental de protecção do consumidor face aos produtos financeiros (como se viu houve muito gato vendido por lebre e excessos no crédito ao consumo); a possibilidade do governo ordenar a divisão de entidades financeiras mesmo saudáveis se forem uma ameaça para o sistema financeiro no seu todo; os accionistas passarão a ter direito de voto na definição dos pacotes de compensações dos administradores; a agência FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation) recolherá contribuições de grandes entidades financeiras para criar um fundo de 150 mil milhões de dólares para intervenções futuras de salvação de bancos.

Falar de social-financismo pode parecer provocatório aos ouvidos mais sensíveis. E quando refiro incerteza não o faço no sentido pejorativo, mas no sentido keynesiano do termo.

O social-financismo é um híbrido fruto da confluência da vaga da financeirização das últimas duas ou três décadas com a social-democracia (termo que aqui uso no sentido original do termo, reformista) governante e o totalitarismo socialista (no sentido original do termo, nomeadamente no caso do comunismo chinês, que mantém a etiqueta ideológica e política inicial) reformista.

Nasceu e desenvolveu-se, por isso, em dois berços distintos: nos países democráticos desenvolvidos depois dos choques petrolíferos e na China pós-reformas, sobretudo depois de 1992, após a célebre viagem de Deng Xiaoping a Wuchang, Shenzhen, Zhuhai e Xangai.

No mundo democrático, o social-financismo encontra as suas expressões mais refinadas no centro-esquerda americano (o Partido Democrata), e particularmente na era de ouro das clintonomics (1993-2001), e na “terceira via” inglesa (The Third Way: The Renewal of Social Democracy, 1998, Anthony Giddens). Esta última teoria política, com mais sal ou menos pimenta, foi adoptada como arquétipo da gestão social-democrata europeia (nos países mediterrânicos conserva, ainda, a etiqueta de socialista e operária entre os membros da Internacional Socialista refundada em 1951) e, mesmo, por alguns governantes que se reclamam da esquerda no chamado mundo em desenvolvimento com democracias instituídas (de que o caso paradoxal do PT de Lula é exemplo ensurdecedor).

No espaço dos regimes totalitários, o social-financismo tem uma expressão ainda mais gritante do que a divergência entre a Wall Street e a Main Street americanas. Convive e alimenta-se, no caso da China, a maior potência do mundo do espaço totalitário, de uma especulação imobiliária e bolsista, também, desenfreada, e de uma cultura indescritível de zhuang-jia, de modus vivendi rentier, particularmente desde os anos 1990.

A Grande Recessão dos últimos dois anos e meio provocou um choque nesta lua-de-mel.

O edifício teórico e político em que assentava ruiu. Não foi só o liberalismo integrista que quebrou. A “bolha” matou um “modelo” de crescimento artificial, rentier, tanto no Ocidente social-democrata como na China.

Todos se converteram a um keynesianismo apressado, mas sem tocar no coração da financeirização, pelo mesmo até à data. Ao contrário de FD Roosevelt que, em 60 a 100 dias, quando em 1933 tomou as rédeas do poder na América, ao fim de quatro anos de Grande Depressão, atacou, na raiz, a financeirização. FDR deixou uma herança que perdurou algumas décadas. O livro de William E. Leuchtenburg, Franklin D. Roosevelt and the New Deal 1932-1940 (Harper & Row, 1963, e, agora, reeditado pela Harper Perennial, no princípio de 2009) continua a ser um bom guia para se recordar a estratégia daquele presidente americano.

Hoje, apesar da retórica, mesmo Obama e Geithner (o seu homem para o Tesouro) não beliscaram, ainda a dinâmica essencial da Wall Street – bem, pelo contrário, uma míni-bolha regressou. Apesar de agora tentarem “corrigir” alguns tiros, na política de continuação do pacote anticrise conhecido por TARP.

Na China, a nomenclatura dirigente sente o dilema em que vive. Entre uma financeirização galopante, um modelo exportador-especulativo posto em causa pela depressão internacional, uma degradação do mundo rural e uma classe média ascendente cada vez mais reclamante.

O que gera dilemas complexos e contradições difíceis de gerir.

O que ocorrer durante a Administração Obama e ao longo do próximo quinquénio da liderança chinesa marcará o futuro do social-financismo, mais do que a habilidade ou inabilidade política de alguns dirigentes social-democratas europeus.

Todos os que estudaram Economia (mesmo os que a estudaram vagamente, como eu) tiveram obrigatoriamente de passar por Samuelson.

Hoje faleceu aos 94 anos, anunciou o MIT.

Samuelson foi o popularizador de uma certa visão do keynesianismo e da teoria económica ensinada durante décadas nas universidades. O livro publicado em 1948, Economics: An Introductory Analysis (mais de 600 páginas, na altura; as edições mais recentes vão nas 800, já com as revisões feitas por William Nordhaus), é quase como uma bíblia escolar, e a sua longevidade provavelmente superará a de Samuelson. Vai em 19 edições, traduziu-se em mais de 40 línguas, e já vendeu mais de 4 milhões de exemplares.

Samuelson baseou esta “introdução” na popularização de um diagrama simples representando as relações entre poupança, investimento e rendimento nacional. Nele, também, se massificou o conceito de “síntese neoclássica” que procurava estabelecer uma ponte entre o neoclassicismo e o keynesianismo.

Hoje diríamos, em linguagem da cadeia de valor, que Samuelson surge como um verdadeiro assembler.

O diagrama e a “síntese” bebiam nos trabalhos de John Hicks publicados em 1937 que produziriam um dos modelos formalistas mais conhecidos da Economia: o IS/LM, relacionando investimento (I) e poupança (S) com liquidez (L) e oferta de moeda (M), com base na mais célebre obra de Keynes, A Teoria Geral (1936; existe uma reedição recente em paperback, de Junho de 2009).

Na ocasião, os dois discípulos mais militantes de Keynes, Joan Robinson e Richard Kahn (a quem Keynes alcunhava carinhosamente de Alexandre, e a quem devemos em 1931 a invenção do “multiplicador” da despesa pública, bem como a provável revisão técnica de A Teoria Geral) acharam o trabalho de Hicks como uma “supersimplificação” do Keynesianismo, e o próprio Hicks, mais tarde, reconheceria que o seu modelo se esquecia de vários aspectos do núcleo duro do pensamento de Keynes, nomeadamente a questão da incerteza.

Contudo, as “sínteses” de Hicks e Samuelson ajudaram, sem duvida, o keynesianismo a conquistar o mainstream na escola americana até aos anos 1970.

Mas, segundo outros, esse triunfo trouxe um presente envenenado, uma mistura “bastarda”, uma simplificação excessiva e um formalismo e sofisticação matemática que acabou por enterrar a economia politica.

Na ocasião da sua morte, dois comentários distintos sobre o papel de Paul A. Samuelson que recomendo a leitura. O de Paul Krugman no The New York Times (Cito este pedaço: “O homem que, na verdade, trouxe o pensamento económico keynesiano para a América”) e o de Carlos Santos em português (Cito, quase a finalizar: “Mais vale um arrependido”).

O artigo de William White na revista do FMI é, de facto, um bom ponto de partida para uma discussão, como alguns comentários ao post colocado em A Regra do Jogo reflectem.

A simulação económica (por via das TI) é, por exemplo, uma área que os econofísicos utilizam hoje e é um método de visualização de causas e efeitos, da complexidade das suas relações, e sobretudo de resultados inesperados e surpreendentes que o economista de secretária, ou especialista em retórica ou mesmo praxeológico não chega lá.

Mas, a meu ver, toda a Economia é economia política, ou seja o que é crítico diz respeito à visão política (e, por vezes, mesmo geopolítica), ou se quiseram ao paradigma (para usar um termo mais caro), que fundamenta as recomendações ou “hipóteses” dos académicos ou as práticas dos homens do leme governativo que se movem com maior ou menor inteligência política na turbulência e no stresse do dia-a-dia.

William White não o diz, mas parece-me querer fazer uma cirurgia nesses dois pedaços do pensamento económico.

A crítica dos austríacos à política de “bolha”

1- Recuperar a corrente austríaca do laissez-faire como tendo a capacidade de sinalizar, na fase ascendente do ciclo ou mesmo no imediato pós-crise, a linha de fronteira que separa uma situação politicamente gestionável de uma dinâmica de “bolha”, de endividamento e de défice.

Dinâmica essa que está, sempre, profundamente ligada, a duas coisas: à inovação financeira do segmento rentier do capitalismo desde 1860, e às políticas pró-cíclicas das autoridades monetárias (desde que passaram a existir, como a Reserva Federal em 1913) e ao fechar de olhos ou aprovação pró-activa dos governos que vêm na “bolha” especulativa a prenda de Natal para compensar o crescimento medíocre da economia real.

O namoro entre as clintonomics (1993-2001) e Alan Greenspan (1987-2006) é o exemplo acabado desta união de facto, que, como avisava o falecido keynesiano Hyman Minsky (morreu em 1996), daria asneira e da grossa. Como deu.

Um Keynesianismo sem abastardamento

2- Regressar à “pureza” do Keynesianismo, limpando-o dos “bastardos”.

a) Quer na forma de agir face à recessão e à depressão, usando a política orçamental como a monetária. Keynes tinha razão contra Hayek nesta questão nos anos 1930.

A postura da corrente austríaca conduziria a uma política orçamental e monetária cruel (é o termo mais adequado), que agravaria, ainda mais, a situação, sobretudo das grandes massas, dando, também, trunfos aos adversários geopolíticos da época. Quer ao totalitarismo nazi-fascista (que desde o final dos anos 1920 iniciara um intervencionismo à outrance através da política orçamental, industrial e monetária dirigida a uma economia orientada para a guerra), como ao totalitarismo estalinista (a influência do movimento comunista internacional e do seu sindicalismo vermelho -era o termo usado – era enorme na Europa e mesmo na América), preocupações geopolíticas e ideológicas sempre presentes no Mestre de Cambridge.

Para quem tenha lido o “austríaco” Murray N. Rothbard falar da Grande Depressão de 1929/1933 (no livro America’s Great Depression, publicado pelo Instituto Ludwig von Mises, 1963) e do que deveria ter sido feito ao estilo laissez-faire sente a crueldade e o tiro no pé que seria uma tal abordagem;

b) Quer na concepção original de Keynes de que a intervenção anticrise que advogava era excepcional e não uma doutrina de gestão do Estado, a que se agarram, sempre, os saudosistas do “planismo” e do sector empresarial do Estado em posição dominante. Keynes explicitou-o numa carta ao The New York Times, em 1934 – nela falava de “uma despesa governamental anormal”. O termo escolhido era “anormal” – e o Mestre de Cambridge era, sempre, muito meticuloso na escrita;

c) Quer na sua ideia de encarar a gestão da coisa económica como balizada pela incerteza e não por expectativas modelizáveis sejam elas abstractas, fruto de elucubrações académicas (as tais certezas cretinas sobre o equilíbrio e a eficiência dos mercados), ou saídas de algum breviário de esperteza saloia política (seja ele o idealismo tecnologista, o optimismo triunfalista dos spin doctors e outras variantes para enganar tolos);

d) Quer no seu desprezo pelo financismo, que o levava, algumas vezes, a recordar o americano T. Veblen e a crítica deste aos rentier, apesar da suprema ironia de Keynes ser um especulador bolsista de primeira água por conta própria e para fins terceiros.

O número negro do ano 2009 poderá ser o 10 – Pascal Lamy, o director geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), disse hoje em Seul, na Coreia do Sul, no decurso de um fórum económico, que a quebra do comércio mundial este ano poderá atingir os 10%.

Acrescentando um ponto percentual mais ao que a OMC tinha estimado em Março em termos de quebra no volume do comércio mundial.

Lamy adiantou que seria algo “sem precedentes”. No entanto, historicamente (como já referimos), houve outros anos bem piores. O ranking de anos negros, até à data, é o seguinte: 1932: 32%; 1931: 29%; 1930: 20%; 1938: 12%; 1975: 7%; 1908: 6%. A confirmarem-se os 10%, será o quinto pior ano da história do capitalismo desde o início do século XX.

As quatro quebras históricas dos anos 1930 derivaram da Grande Depressão e da sua recaída pontual no final da década. As outras duas, até à data registadas, derivaram do ano turbulento de 1975 (em que não ocorreu, no entanto, uma crise económica global) e do ano de Grande Recessão global de 1908 após o pânico financeiro mundial de 1907.

Actualização: Segundo os dados divulgados pelo FMI em 26/01/2010, a quebra do comércio internacional em 2009 teria sido de 12,3%, ou seja superior à registada em 1938, o que transforma a crise de comércio global em 2009 na 4ª mais grave do capitalismo desde 1900.

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