A agência de notação Standard & Poor’s deu,ao final de sexta-feira, uma machadada no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) ao cortar o rating máximo de triplo A da França e da Áustria, dois pilares da credibilidade do fundo. Colocou, também, a Finlândia, Holanda e Luxemburgo, países com notação de triplo A e também pilares do FEEF, em “perspetiva negativa”.
Esperou pelo fecho de Wall Street para desencadear a emissão pública dos comunicados sobre os cortes de notação em 9 países da zona euro (que atualmente já conta com 18 membros).
A França e a Áustria desceram um nível, do triplo A para AA+, uma classificação idêntica à dos Estados Unidos, como se apressou a referir, ainda durante a tarde, o presidente francês Nicolas Sarkozy, que foi avisado com antecedência da decisão da agência, como é procedimento normal. Desde o meio da tarde, em Paris, que fontes governamentais confirmaram, sob anonimato, a diversas agências de notícias que o corte havia sido feito, como então noticiámos. Os dois países ficaram com “perspetiva negativa”, o que significa que poderão ver a notação voltar a ser cortada este ano ou no próximo.
A S&P é a primeira das três grandes agências de notação internacionais a retirar o triplo A à França, um movimento similar ao que fizera em agosto passado em relação aos Estados Unidos.
Efeitos possíveis em cadeia
Como explicou a agência financeira Markit, “o corte da notação de França e de outros significará que o FEEF perderá, por seu lado, a sua notação de triplo A, o que aumentará o seu custo de financiamento e reduzirá a sua capacidade de emprestar”. Em conclusão, diz a Markit, “colocará sérias dúvidas à sua viabilidade. Já sem mencionar um processo de vendas forçadas de títulos soberanos em virtude da França perder o seu triplo A”. Esta cascata de efeitos marcará a próxima semana. Por ora, a notação do FEEF não foi cortada. A colocação da Finlândia, Holanda e Luxemburgo em perspetiva negativa (significando que a sua notação tem uma probabilidade de 30% de ser mexida ainda este ano ou no ano seguinte) também não é boa notícia.
Por outro lado, os bancos obtêm financiamento mais barato nas câmaras de compensação se utilizarem como colaterais títulos soberanos com notação triplo A do que se usarem títulos com notações mais baixas. Pelo que os investidores poderão vir a livrar-se dos títulos que tiveram baixa de notação e correr aos que se mantêm com triplo A, como é o caso dos Bunds, os títulos alemães.
“Bofetada” em Draghi
A agência de notação norte-americana resolveu, também, colocar em cheque Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), que esta semana afirmara ver sinais positivos no comportamento do mercado da dívida em relação a países como a Itália (a notação desceu, agora, de A para BBB+, já na zona de algum risco) e a Espanha (a notação desceu, agora, de AA- para A).
As notações de Malta (passou de A para A-), Eslovénia (passou de AA- para A+) e Eslováquia (passou de A+ para A) foram cortadas em um nível.
Não foram mexidas as notações da Bélgica (mantém-se em AA), Estónia (mantém-se em AA-), Finlândia (triplo A), Alemanha (triplo A), Irlanda (BBB+), Luxemburgo (triplo A) e Holanda (triplo A).
No entanto, a agência passou uma revoada de 14 “perspectivas negativas”: Áustria, Bélgica, Chipre, Estónia, Finlândia (preocupante), França, Irlanda, Itália, Luxemburgo (também preocupante), Malta, Holanda (também preocupante), Portugal, Eslovénia e Espanha.
Taxa de Recuperação de 30% a 50% em caso de bancarrota portuguesa
Portugal desce dois níveis, de BBB- (em que a dívida não era ainda considerada especulativa) para BB, já em terreno de dívida especulativa (vulgo “lixo”), onde a Fitch e a Moody’s já a haviam colocado no ano passado. Também a notação de Chipre passou de BBB para BB+, que já é nível especulativo.
No caso de Chipre e Portugal, a S&P indica que estima uma taxa de recuperação de 30% a 50%, no caso de ocorrer um incumprimento da dívida soberana.
Os leitores interrogam-se por que razão a S&P faz esta “incursão” quase geral nas notações das dívidas da zona euro, deixando de fora apenas a Alemanha (que mantém o triplo A e passa a ter uma perspetiva “estável”). A agência aponta duas razões fundamentais, que são políticas. A primeira: o acordo conseguido na cimeira europeia de 9 de dezembro “não produziu um avanço com dimensão e âmbito”. A segunda: o processo de reforma “baseado unicamente no pilar da austeridade orçamental arrisca-se a tornar-se auto-liquidacionista”. E com essa dinâmica pode disparar, entre outros efeitos, a “fadiga das reformas”, diz a agência.
Impacto nos mercados financeiros…antes do comunicado oficial
As bolsas europeias e norte-americanas reagiram negativamente aos rumores e fecharam no vermelho. Só a Ásia escapou, com o índice MSCI Asia Apex 50 a subir 1,03%. Na Europa, o índice EuroStoxx 50 caiu 0,33% e o Bloomberg European 500 desceu ligeiramente 0,09%. Wall Street fechou no vermelho, com o Dow Jones a cair 0,39%, o S&P 500 a descer 0,53% e o Nasdaq a diminuir 0,51%.
No conjunto, as bolsas mundiais perderam 0,46%.
Itália sobe ao 9º lugar do clube da bancarrota
O impacto dos rumores sentiu-se, ainda, no mercado dos seguros contra o risco de incumprimento (conhecidos pela designação de credit default swaps, ou pelo acrónimo cds) que fecharam pouco antes do anúncio oficial pela S&P. Segundo dados da CMA DataVision para o fecho às 20H30 (hora de Portugal), Portugal, Irlanda, Hungria, Itália, Espanha, França e Áustria viram a probabilidade de incumprimento subir ao longo da tarde e, no caso dos seis primeiros, fecharam com níveis acima dos do dia anterior.
Particularmente preocupante o caso de Itália que regressou à 9ª posição no “clube da bancarrota” (TOP 10 dos países com maior risco de incumprimento), com o preço dos cds a subir, de novo, acima dos 500 pontos base.
Juros invertem tendência
O efeito dos rumores ao longo da tarde teve também impato ao final da tarde no fecho das yields (juros) da dívida soberana a 10 anos no mercado secundário.
A tendência de baixa observada nos últimos dias (e louvada por Mário Draghi na conferência de imprensa de quinta-feira) e ainda hoje de manhã inverteu-se para Portugal, Hungria, Itália, Espanha, Bélgica, França e Áustria, que fecharam com valores acima dos do dia anterior.
No caso de Itália, que está sob os holofotes, as yields dos títulos do Tesouro subiram de 6,46% de manhã para 6,64% no fecho, ligeiramente acima do valor de quinta-feira.
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