História Económica


Nas últimas duas semanas, a probabilidade de incumprimento (risco de default) da dívida portuguesa não tem parado, desde que galgou o patamar dos 65% a 17 de janeiro.

A meio da manhã de sexta-feira, o risco de default num horizonte de cinco anos atingiu um pico de 70,9%, segundo os dados intercalares da CMA DataVision. No novo relatório da situação, ao final da manhã, o risco descera ligeiramente para 70,47% e chegara mesmo a um mínimo de 69,90%, para voltar a subir e fechar em 70,53%.

A continuação das negociações em torno da reestruturação parcial da dívida grega, ainda sem acordo, e a decisão da agência Fitch de proceder ao corte de notação de cinco países da zona euro, entre eles Itália e Espanha, duas grandes economias “periféricas”, pesou no clima de final do dia no mercado dos credit default swaps (cds).

A título de exemplo, a Grécia, que atravessa uma situação de alto risco de um evento de crédito (eventualmente um default selectivo),está com a probabilidade de incumprimento em 82,51%, apenas cerca de 12 pontos percentuais acima.

O fosso em relação à Irlanda, o terceiro país da zona euro com um plano de resgate, é, agora, de quase trinta pontos percentuais. Ou seja, a diferença entre o segundo lugar para Portugal no TOP 10 da bancarrota e um sétimo lugar para a Irlanda. A Grécia, naturalmente, continua a liderar esse “clube”.

Pela primeira vez, o custo dos credit default swaps a 5 anos- seguros contra o risco de incumprimento, conhecidos pelo acrónimo cds – esteve a meio da manhã acima de 1450 pontos base. Ao final da manhã, desceu ligeiramente para 1436,17 pontos base e viria a fechar o dia em 1436,87 pontos base. O que significa que por cada 10 milhões de dólares segurados contra o risco de default, o tomador do seguro tem de pagar cerca de 1,44 milhões de dólares de prémio.

Em sete dias o que a Grécia percorreu em um mês

A evolução ao longo de janeiro é elucidativa: o risco de incumprimento fechou o primeiro dia de negociação do ano com 60,6% e 1075 pontos base de custo dos cds e ontem fechou com 68,69% de risco e 1365,30 pontos base.

A Grécia galgou a barreira dos 65% a 18 de abril de 2011 e o patamar dos 70% foi atingido a 24 de maio do mesmo ano. O que a Grécia fez em um mês, Portugal percorreu em sete dias úteis.

Pela primeira vez, a agência de informação financeira Markit, refere que os cds para a dívida portuguesa a 5 anos já estão a receber cotações em “pontos à cabeça” (points upfront, na designação técnica), ou seja, o tomador de um cds tem de pagar à cabeça um certo valor em função de uma escala que vai de 0 a 100. Nessa escala, segundo a Markit, os cds soberanos estavam com uma cotação de 39 pontos à cabeça, enquanto a Grécia estava com 63,1.

Acto I matinal: As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português estão em alta em todas as maturidades no mercado secundário. Nos prazos de 5, 6 e 10 anos já fixaram máximos intradiários. Veremos como fecham ao final do dia.

Os juros das OT a 6 anos (este prazo é a maturidade média da dívida soberana) atingiram um máximo, situando-se em 20,1%, segundo dados da Bloomberg, ao final da manhã.

Também, ao final da manhã, os juros das OT a 5 anos estão em máximos, ao atingirem 19,63%, e os juros das OT a 10 anos subiram para 14,98%, um novo máximo.

Os juros das OT a 3 anos subiram ao final da manhã para 20,85%, aproximando-se do máximo de 20,95% atingido em meados de julho de 2011.

Acto II: A probabilidade de incumprimento (default) da dívida portuguesa continua a bater recordes – subiu, ao final da manhã, segundo o balanço das 12H30 da CMA DataVision, para 67,69%, e ao final da tarde disparou para 69,4%. Acabaria por fechar em 68,69%, um novo máximo em valor de fecho, no último balanço do dia daquela agência de informação financeira. Na quarta-feira fechara em 67,05%.

Portugal liderou quinta-feira as subidas no indicador de probabilidade de default em mais de oito dezenas de países monitorizados pela CMA DataVision.

O custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida a 5 anos) atingiu um pico de 1390,37 pontos base ao final da tarde, e acabou por fechar em 1365,30 pontos base, um novo máximo de fecho.

Depois de ter ultrapassado esta semana a barreira dos 1300 pontos base – que fez notícia nos media financeiros mundiais -, o custo dos cds aproxima-se, agora, de novo patamar.

No mercado secundário da dívida, as yields (juros) das obrigações do Tesouro fixaram novos máximos nos prazos a 5, a 6 e a 10 anos, com valores de fecho de 19,45%, 20,37% e 14,8% respetivamente, segundo dados da Bloomberg.

Dublin surpreendeu quarta-feira (25 de janeiro) os mercados com o anúncio de uma oferta de troca de títulos soberanos a 2 anos no âmbito de uma dívida de €11,8 mil milhões que vence em janeiro de 2014. Os novos títulos têm a maturidade alargada para fevereiro de 2015. O Tesouro irlandês folgaria as costas um ano e um mês.

A National Treasury Management Agency (NTMA), que gere a dívida soberana, conseguiu convencer os detentores destes títulos num montante de €3,5 mil milhões. Dublin já não ia ao mercado da dívida desde setembro de 2010. A NTMA considerou positivo o facto de que 1/3 dos detentores dos títulos, em termos de valor, tenha aceitado a troca.

Os mercados da dívida encararam este resultado positivamente, diz a agência de informação financeira Markit. A probabilidade de default do ex-tigre celta baixou para 41,5% quinta-feira de manhã (no início da semana estava em 43%) e o custo de segurar contra o risco de incumprimento baixou para 620 pontos base, o nível mais baixo desde maio do ano passado.

O que o Tesouro irlandês propôs aos credores foi trocar títulos com prazo a 2 anos, que terminavam no começo de 2014, com um cupão de 4%, por novos títulos com prazo um ano depois com um cupão mais elevado, de 4,5%.

Um modo pouco ortodoxo, diz Constantin Gurdgiev (Trinity College)

“Não se trata de uma reestruturação de dívida. É um modo pouco ortodoxo de estender uma maturidade para evitar algo fundamental em 2014: um pico de títulos a vencer. Com a troca, empurram uma parte da maturidade para 2015″, diz-nos Constantin Gurdgiev, professor no Trinity College, em Dublin.

O contexto da manobra é simples, explica Gurdgiev: “A Irlanda verá o pacote de resgate da troika terminar no final de 2013 e enfrenta logo no ano seguinte e em 2016 vencimentos de dívida em montantes elevados. Como nada garante que a Irlanda consiga ir ao mercado nessa altura, realizou esta operação”. E conclui: “A meu ver é um sinal de que o governo irlandês está cada vez mais ciente de que em 2014 não terá a vida fácil em obter financiamentos no mercado”.

Os economistas irlandeses esperam pelos resultados da análise de sustentabilidade da dívida soberana do país realizada regularmente pelo Fundo Monetário Internacional, que deverá ser divulgada dentro de algumas semanas.

Por mais paradoxal que pareça, o país que está à beira de uma bancarrota externa, a Grécia, tinha uma dívida total que era, apenas, 267% do seu produto interno bruto (PIB) em meados do ano passado. O que é quase uma ninharia comparada com 663% do PIB para o caso da Irlanda e 507% para o Reino Unido, segundo uma comparação entre oito países da União Europeia, realizada pelo McKinsey Global Institute (MGI) no seu recente relatório “Debt and deleveraging”, publicado este mês.

A dívida total portuguesa era de 356% do PIB e, neste grupo de oito, ficou em 4.º lugar, depois da Irlanda, Reino Unido e Espanha (com 363% do PIB). Em melhor posição do que Portugal, ficaram França (com 346%), Itália (com 314%), Alemanha (com 278%) e Grécia (com 267%).

Por dívida total entende-se a dívida de famílias, empresas, entidades financeiras e governo. Os dados referem-se ao segundo trimestre de 2011 e, no caso português, irlandês e italiano, ao primeiro trimestre do ano passado.

No caso da Grécia, o elo mais fraco da zona euro que conduziu ao trilho da bancarrota externa, é a dívida pública, que representava 132% do PIB, mais do que a italiana que pesava 111% ou a francesa que pesava 90%. Nesta comparação, a dívida pública portuguesa pesava 79%.

Os dois países com a situação mais grave em termos de endividamento das entidades financeiras em relação à riqueza criada no país são a Irlanda e o Reino Unido.

As entidades financeiras irlandesas deviam 259% do PIB e as britânicas 219% do PIB. No caso das portuguesas a dívida é apenas de 55% do PIB. A melhor situação é a grega (7%).

No caso do endividamento das empresas, as duas piores situações são a irlandesa, com 194% do PIB, e a espanhola, com 134%. Nesta divisão do endividamento, Portugal vem logo em terceiro lugar, com a dívida das empresas a pesar 128%. A melhor situação é a alemã (49%).

Finalmente, no campo do endividamento das famílias, a pior situação é, uma vez mais, a irlandesa, com 124% do PIB, logo seguida do Reino Unido, com 98%, e de Portugal, com 94%. As melhores situações são as de Itália (apenas 45% do PIB) e de França (48%), com uma riqueza líquida das famílias sólida a nível europeu.

A título de exemplo, realizando uma comparação com o estudo anterior da consultora (publicado em janeiro de 2010), verificamos movimentos interessantes em três casos simbólicos para os quais há dados comparáveis em dois momentos distintos desta crise em curso. Em Itália o peso do endividamento do governo aumentou dois pontos percentuais do PIB e o das famílias quatro pontos percentuais; nos outros segmentos houve desalavancagem. Em Espanha, apenas aumentou o peso do endividamento do governo, em 15 pontos percentuais do PIB. No Reino Unido, aumentou 22 pontos percentuais do PIB o endividamento do governo e 25 pontos percentuais o endividamento das entidades financeiras.

Em resumo, sobre Portugal, avaliando a relação com a riqueza criada anualmente, nesta amostra de oito países “periféricos” e do “centro” da União Europeia: 4.º na dívida total; 3.º na dívida das empresas; 3º na dívida nas famílias; 7.º na dívida pública; 7.º na dívida das entidades financeiras. Comparativamente, as situações mais graves são ao nível das empresas e das famílias. Deduz-se que são os “segmentos” onde a desalavancagem vai ser mais violenta.

O estudo do MGI pretende avaliar o esforço de desalavancagem da dívida total em dez países do mundo (Japão, com o maior peso da dívida no PIB, neste grupo, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Canadá, por ordem decrescente de peso da dívida no PIB).

A agência de notação Standard & Poor’s deu,ao final de sexta-feira, uma machadada no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) ao cortar o rating máximo de triplo A da França e da Áustria, dois pilares da credibilidade do fundo. Colocou, também, a Finlândia, Holanda e Luxemburgo, países com notação de triplo A e também pilares do FEEF, em “perspetiva negativa”.

Esperou pelo fecho de Wall Street para desencadear a emissão pública dos comunicados sobre os cortes de notação em 9 países da zona euro (que atualmente já conta com 18 membros).

A França e a Áustria desceram um nível, do triplo A para AA+, uma classificação idêntica à dos Estados Unidos, como se apressou a referir, ainda durante a tarde, o presidente francês Nicolas Sarkozy, que foi avisado com antecedência da decisão da agência, como é procedimento normal. Desde o meio da tarde, em Paris, que fontes governamentais confirmaram, sob anonimato, a diversas agências de notícias que o corte havia sido feito, como então noticiámos. Os dois países ficaram com “perspetiva negativa”, o que significa que poderão ver a notação voltar a ser cortada este ano ou no próximo.

A S&P é a primeira das três grandes agências de notação internacionais a retirar o triplo A à França, um movimento similar ao que fizera em agosto passado em relação aos Estados Unidos.

Efeitos possíveis em cadeia

Como explicou a agência financeira Markit, “o corte da notação de França e de outros significará que o FEEF perderá, por seu lado, a sua notação de triplo A, o que aumentará o seu custo de financiamento e reduzirá a sua capacidade de emprestar”. Em conclusão, diz a Markit, “colocará sérias dúvidas à sua viabilidade. Já sem mencionar um processo de vendas forçadas de títulos soberanos em virtude da França perder o seu triplo A”. Esta cascata de efeitos marcará a próxima semana. Por ora, a notação do FEEF não foi cortada. A colocação da Finlândia, Holanda e Luxemburgo em perspetiva negativa (significando que a sua notação tem uma probabilidade de 30% de ser mexida ainda este ano ou no ano seguinte) também não é boa notícia.

Por outro lado, os bancos obtêm financiamento mais barato nas câmaras de compensação se utilizarem como colaterais títulos soberanos com notação triplo A do que se usarem títulos com notações mais baixas. Pelo que os investidores poderão vir a livrar-se dos títulos que tiveram baixa de notação e correr aos que se mantêm com triplo A, como é o caso dos Bunds, os títulos alemães.

“Bofetada” em Draghi

A agência de notação norte-americana resolveu, também, colocar em cheque Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), que esta semana afirmara ver sinais positivos no comportamento do mercado da dívida em relação a países como a Itália (a notação desceu, agora, de A para BBB+, já na zona de algum risco) e a Espanha (a notação desceu, agora, de AA- para A).

As notações de Malta (passou de A para A-), Eslovénia (passou de AA- para A+) e Eslováquia (passou de A+ para A) foram cortadas em um nível.

Não foram mexidas as notações da Bélgica (mantém-se em AA), Estónia (mantém-se em AA-), Finlândia (triplo A), Alemanha (triplo A), Irlanda (BBB+), Luxemburgo (triplo A) e Holanda (triplo A).

No entanto, a agência passou uma revoada de 14 “perspectivas negativas”: Áustria, Bélgica, Chipre, Estónia, Finlândia (preocupante), França, Irlanda, Itália, Luxemburgo (também preocupante), Malta, Holanda (também preocupante), Portugal, Eslovénia e Espanha.

Taxa de Recuperação de 30% a 50% em caso de bancarrota portuguesa

Portugal desce dois níveis, de BBB- (em que a dívida não era ainda considerada especulativa) para BB, já em terreno de dívida especulativa (vulgo “lixo”), onde a Fitch e a Moody’s já a haviam colocado no ano passado. Também a notação de Chipre passou de BBB para BB+, que já é nível especulativo.

No caso de Chipre e Portugal, a S&P indica que estima uma taxa de recuperação de 30% a 50%, no caso de ocorrer um incumprimento da dívida soberana.

Os leitores interrogam-se por que razão a S&P faz esta “incursão” quase geral nas notações das dívidas da zona euro, deixando de fora apenas a Alemanha (que mantém o triplo A e passa a ter uma perspetiva “estável”). A agência aponta duas razões fundamentais, que são políticas. A primeira: o acordo conseguido na cimeira europeia de 9 de dezembro “não produziu um avanço com dimensão e âmbito”. A segunda: o processo de reforma “baseado unicamente no pilar da austeridade orçamental arrisca-se a tornar-se auto-liquidacionista”. E com essa dinâmica pode disparar, entre outros efeitos, a “fadiga das reformas”, diz a agência.

Impacto nos mercados financeiros…antes do comunicado oficial

As bolsas europeias e norte-americanas reagiram negativamente aos rumores e fecharam no vermelho. Só a Ásia escapou, com o índice MSCI Asia Apex 50 a subir 1,03%. Na Europa, o índice EuroStoxx 50 caiu 0,33% e o Bloomberg European 500 desceu ligeiramente 0,09%. Wall Street fechou no vermelho, com o Dow Jones a cair 0,39%, o S&P 500 a descer 0,53% e o Nasdaq a diminuir 0,51%.

No conjunto, as bolsas mundiais perderam 0,46%.

Itália sobe ao 9º lugar do clube da bancarrota

O impacto dos rumores sentiu-se, ainda, no mercado dos seguros contra o risco de incumprimento (conhecidos pela designação de credit default swaps, ou pelo acrónimo cds) que fecharam pouco antes do anúncio oficial pela S&P. Segundo dados da CMA DataVision para o fecho às 20H30 (hora de Portugal), Portugal, Irlanda, Hungria, Itália, Espanha, França e Áustria viram a probabilidade de incumprimento subir ao longo da tarde e, no caso dos seis primeiros, fecharam com níveis acima dos do dia anterior.

Particularmente preocupante o caso de Itália que regressou à 9ª posição no “clube da bancarrota” (TOP 10 dos países com maior risco de incumprimento), com o preço dos cds a subir, de novo, acima dos 500 pontos base.

Juros invertem tendência

O efeito dos rumores ao longo da tarde teve também impato ao final da tarde no fecho das yields (juros) da dívida soberana a 10 anos no mercado secundário.

A tendência de baixa observada nos últimos dias (e louvada por Mário Draghi na conferência de imprensa de quinta-feira) e ainda hoje de manhã inverteu-se para Portugal, Hungria, Itália, Espanha, Bélgica, França e Áustria, que fecharam com valores acima dos do dia anterior.

No caso de Itália, que está sob os holofotes, as yields dos títulos do Tesouro subiram de 6,46% de manhã para 6,64% no fecho, ligeiramente acima do valor de quinta-feira.

N

O pior não ocorreu. Nas previsões para 2011, recolhidas há um ano junto de onze académicos – e publicadas no Expresso e na janenaweb.com – , os “cisnes negros” (factos impensáveis) tiveram como candidatos a fragmentação da zona euro, o rebentar da “bolha” chinesa e o deflagrar de uma guerra regional inesperada com impacto global. Nenhum apareceu no lago.

Mas a previsão de um redesenho da zona euro, adiantada por Michael Pettis, um académico americano em Beijing, não andou longe. Bem como a ideia de que o Banco Central Europeu se poderia tornar no camião de recolha de títulos soberanos “tóxicos” da zona euro por via direta e/ou indireta, expressa pelo professor alemão Ansgar Belke, não ficou, também, longe da verdade.

Não se concretizou, também, o risco de reestruturações das dívidas soberanas na Europa, nem mesmo a negociação da reestruturação parcial da dívida grega, entretanto decidida, ainda foi concluída com os credores privados. Os temores de que algo desagradável poderia acontecer com Espanha acabaram por não se concretizar e foi Itália que subiu às luzes da ribalta da crise do euro.

O consultor indiano Ashutosh Sheshabalaya previu que a notação de crédito de França fosse cortada, mas acabou por serem os EUA a inaugurarem a saída do rating triplo A com uma crise política no verão. Algo surpreendente para a maioria dos analistas, que nunca esperariam que uma grande agência de notação – além do mais detida por um grupo financeiro norte-americano – tocasse na superpotência que detém o privilégio da divisa mundial e do poder militar global. Se houve um “cisne cinzento” (improvável, mas não impensável), o corte da notação norte-americana pode ser o principal candidato de 2011.

Os piores cenários de um aprofundamento da crise também não se concretizaram, apesar de, no verão, a economia mundial ter estado à beira da “tempestade perfeita”, como então relatámos – com a convergência de uma crise aguda na zona euro de cimeira em cimeira ineficaz, de uma crise política em Washington e risco de um incumprimento seletivo da dívida nos EUA, e de um surto inflacionário na China.

A Primavera Árabe, um “cisne negro” da geopolítica mundial, acabou por nascer em dezembro de 2010 nas ruas de Tripoli com a auto imolação do jovem Mohamed Bouazizi, um vendedor de rua de frutas e legumes, ainda que o seu impacto se tenha feito sentir ao longo de 2011 em todo o Magrebe e Médio Oriente. O temor de um choque sobre o preço do petróleo, repetindo o verão de 2008, acabou por não acontecer em 2011.

Os dois BRIC vão avançar com legislação em janeiro. China faz primeira mudança desde outubro 2007. E Índia autoriza investidores individuais estrangeiros a adquirir ações no mercado bolsista.

O novo ano abre com mexidas na China e na Índia – dois dos BRIC – favoráveis ao investimento estrangeiro.

O Ministério do Comércio da China e a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma anunciou no final do ano que procedeu a uma revisão das regras sobre investimento estrangeiro a entrar em execução a partir de 30 de janeiro de 2012. Segundo a revista chinesa independente Caixin, a China abre mais as portas em 9 sectores de serviços, incluindo o capital de risco e a proteção de direitos intelectuais, bem como nas tecnologias, com destaque para a indústria de equipamentos de alto valor acrescentado, para a biotecnologia, para as tecnologias de informação e para energias alternativas e indústrias que sejam eficientes em termos energéticos.

Além deste alargamento nestes setores considerados “de encorajamento” ao capital estrangeiro, a China removeu os tetos na participação de capital estrangeiro em 11 sectores bem como no leasing e no sector de saúde. Em compensação, a China fechará os apoios no sector da construção automóvel, alegando que já há sobrecapacidade instalada.

Por seu lado, o Banco Central da Índia e o Regulador dos Mercados Financeiros informou que o país passará a permitir, a partir de 15 de janeiro, que investidores individuais estrangeiros possam adquirir ações nos mercados bolsistas locais. Esta decisão já tinha sido avançada como estando em estudo em outubro de 2010 e foi confirmada em novembro passado por R. Gopalan, secretário de assuntos económicos no Ministério das Finanças. O objectivo é alargar o segmento dos investidores, atrair mais fundos estrangeiros e reduzir a volatilidade do mercado bolsista indiano. No ano passado, os investidores estrangeiros alienaram cerca de 500 milhões de dólares em ações. A Índia não quer que isso volte a acontecer.

Bolsas mundiais perdem €4 biliões em 2011. Foi este o valor do crash. A capitalização bolsista mundial caiu de 54 biliões de dólares para 48,9 biliões entre dezembro de 2010 e dezembro de 2011. O índice mundial das bolsas desceu 9,4% nesses doze meses. Ouro e barril de Brent valorizaram-se, mas preço da prata acabou por cair.

Depois de dois anos de recuperação bolsista em 2009 e 2010, o índice mundial das bolsas (MSCI AC World Index) voltou ao vermelho, caiu 9,4% entre o final de 2010 e o final de 2011.

No pico da crise financeira, as bolsas mundiais perderam 46,5% do seu valor ao longo de 2008, eliminando cerca de 28,3 biliões de dólares (28.300 mil milhões de dólares, ou 28,3 triliões na designação norte-americana). Ao longo de 2011 perderam 5,1 biliões de dólares, cerca de €4 biliões. O “urso” regressou, mas a “limpeza” foi muito inferior à derrocada de 2008.

O sector financeiro cotado perdeu 21,5% da sua capitalização bolsista em 2011, revelando onde se deu o maior impacto da crise.

Também o preço da onça de prata caiu 9,7% entre o final de 2010 e o final de 2011, depois de alguma euforia no primeiro semestre, tendo chegado a 48,58 dólares por onça (não longe do máximo histórico de 49,45 dólares dos anos 1980).

Pelo contrário, a onça de ouro viu o seu preço aumentar 10,2% e o barril de Brent valorizou-se 13%. No entanto, o valor de fecho da onça de ouro a 30 de dezembro de 2011 foi de 1566,8 dólares, longe do pico de 1889,70 dólares (em valor de fecho diário) no verão. No caso do barril de Brent, apesar do aumento, não se verificou um novo choque petrolífero, com um disparo como o do verão de 2008.

A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) disparou em quatro casos da zona euro: subiu, desde o final do ano passado, 93% para França, 80% para Itália, 70% para Portugal e 60% para a Grécia, segundo dados da CMA DataVision.

Estes quatro países acabaram por ser os protagonistas da crise da dívida da zona euro em 2011, ainda que em patamares de risco muito distintos.

A Grécia manteve o primeiro lugar do “clube da bancarrota” (TOP 10 dos países com maior risco de incumprimento). Findou o ano de 2010 com 58,76% de risco e terminou 2011 com 94,22%, numa evolução similar à argentina ao longo de 2001, ainda que não tenha ocorrido um evento de crédito (um default) formal, como no país das Pampas, e continuando a decorrer uma negociação de reestruturação da dívida grega na mão de credores privados. As yields (juros) dos títulos gregos a 10 anos no mercado secundário agravaram-se 180%, saltando de 12,47% no final de 2010 para 34,96% a 30 de dezembro de 2011. Pelo meio ficou aprovado um segundo pacote de resgate financeiro ao país.

Portugal viu a sua situação agravar-se substancialmente. O risco saltou de 35,85% no final de 2010 para 60,86% a 30 de dezembro de 2011. Acabou por subir do 4º para o 2º lugar no “clube da bancarrota”, ultrapassando a Irlanda, que desceria do 3º para o 6º lugar. As yields das obrigações do Tesouro português a 10 anos dispararam 102%, saltando de 6,6% em 31 de dezembro de 2010 para 13,36% em 30 de dezembro de 2011. Pelo meio, Lisboa acabou por assinar com a troika um plano de resgate financeiro.

A Itália acabaria por ser a grande surpresa do ano. Entrou para o “clube da bancarrota” e não conseguiu, na ponta final do ano, baixar as yields dos títulos do Tesouro a 10 anos do limiar crítico dos 7%, como já referimos num artigo de balanço anterior sobre o caso italiano, que tem sido o foco das atenções no final do ano.

A França foi a outra surpresa. Ainda que as yields (juros) dos títulos franceses a 10 anos tenham baixado entre o final de 2010 e final de 2011, caindo ligeiramente de 3,36% para 3,15%, o risco de default disparou – foi o maior aumento do ano, de 93%. Esta probabilidade subiu de 9,2% no final de 2010 para 17,80% no final de 2011. Em virtude deste agravamento quase para o dobro que coloca o hexágono gaulês muito acima dos 8,7% de risco da Alemanha e dos 4,2% dos Estados Unidos, os rumores de que, em breve, Paris perderá a notação de risco de triplo A têm-se multiplicado.

Espanha, que era dada no início do ano como séria candidata a seguir o curso da Grécia, Irlanda e Portugal nos planos de resgate, acabou por ver os juros das obrigações espanholas a 10 anos baixar de 5,45% para 5,09%, distanciando-se da dinâmica italiana. O risco de incumprimento subiu de 26,93% no final de 2010 para 28,6% no final de 2011, mas Espanha saiu do “clube da bancarrota”. No final de 2010 estava em 9º lugar; no final de 2011 está a 5 pontos percentuais da Itália, que ocupa o 10º lugar.

Os dois valores de refúgio que se afirmaram ao longo de 2011 foram os Bunds, os títulos alemães, e os títulos do Tesouro norte-americano no prazo a 10 anos. Entre o final de 2010 e o final de 2011, a descida das yields destes títulos foi muito significativa no mercado secundário: de 2,96% para 1,83% no caso dos Bunds, e de 3,29% para 1,88% no caso dos títulos do Tesouro norte-americano.

A Itália não conseguiu baixar a pressão sobre a dívida soberana. O ano fechou com os juros dos títulos a 10 anos em 7,11%. Há um ano, fechara em 4,82%. Termina em 10º lugar no “clube da bancarrota”.

Apesar dos leilões de dívida realizados pelo Departamento do Tesouro em Roma, nas últimas semanas, terem corrido bem, segundo os analistas, e das intervenções do Banco Central Europeu diretamente no mercado secundário e indiretamente com as linhas de liquidez a 3 anos aos bancos (potenciando a aquisição de títulos de dívida soberana), as yields (juros) dos títulos do Tesouro (BTP) a 10 anos no mercado secundário fecharam o ano acima do limiar crítico dos 7%, segundo dados da Bloomberg.

A 31 de dezembro de 2010, as yields dos BTP a 10 anos fecharam em 4,82%. Doze meses depois, subiram para 7,11%, um aumento de 47,5%. Não foi um disparo tão significativo, como no caso grego (cujos juros aumentaram180%) ou português (102%), mas o seu impacto na zona euro é maior, pois a Itália é a terceira economia da união monetária, um dos seus pilares.

A probabilidade de incumprimento (default) da dívida italiana aumentou 80% em doze meses. No final de 2010, situava-se em 19,32% e a Itália não integrava o “clube da bancarrota” (o TOP 10 dos países com maior risco de default), segundo dados da CMA DataVision. A 30 de dezembro de 2011, o risco de incumprimento subiu para 34,79% e o país ocupa o 10º lugar daquele “clube”.

O caso italiano acabou por ser uma surpresa. No final de 2010, era a Espanha que estava na berlinda nos mercados da dívida ocupando o 9º lugar no “clube da bancarrota”. A Itália acabaria por ultrapassar a Espanha na degradação da situação de crédito. “No início de 2011, a Itália estava claramente longe do epicentro da crise da zona euro. As yields estavam abaixo de 5% e os leilões de emissão de dívida pelo Tesouro eram seguros e garantidos. Hoje, a Itália é o grande doente da zona euro. O grande desafio para o começo de 2012 vai ser conseguir manter as yields abaixo dos 7% e realizar com êxito os leilões de dívida logo no primeiro trimestre que deverão atingir os €30 mil milhões”, refere-nos, em jeito de balanço, Fabrizio Goria, editor do Linkiesta.

Acto I: China nº1 em patentes registadas. Em quantidade, as empresas e entidades chinesas ultrapassaram as norte-americanas e japonesas, segundo o índice Thomson Reuters Derwent World Patents divulgado esta semana.

O registo anual de patentes atingiu na China o número recorde de 314 mil em 2010, segundo o índice Thomson Reuters Derwent World Patents divulgado esta semana, ultrapassando os Estados Unidos e o Japão.

No entanto, o World Intellectual Property Indicators (da Organização Mundial da Propriedade Intelectual ) forneceu, também esta semana, dados distintos para 2010: os EUA ainda lideram com o registo de 490 mil patentes, contra 391 mil na China e 344 mil no Japão. A União Europeia, neste campeonato, registou, apenas, cerca de 151 mil patentes.

Segundo o estudo da Thomson Reuters, o registo anual na China deverá chegar aos 500 mil em 2015, contra 400 mil nos Estados Unidos e 300 mil no Japão. Ainda segundo os dados divulgados, 73% desses registos em 2010 já foram feitos por empresas chinesas.

Os analistas referem, no entanto, que quantidade não significa qualidade na China e que a corrida ao registo se tem devido ao aumento dos contenciosos jurídicos dentro do próprio país. E muito menos significa que sejam, depois, concedidas – por exemplo, em 2008, das 203.481 registadas na China, só 48.814 foram concedidas.

A Thomson Reuters iniciou aquele índice em 1963 e conta até à data com mais de 21 milhões de registos.

Segundo os últimos dados disponíveis, existiam mais de 1,8 milhões de patentes com força de lei nos Estados Unidos, 1,2 milhões no Japão e mais de 800 mil na China.

Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, a China ganhou, também, simbolicamente nos lugares cimeiros. Em 2010, a ZTE, gigante das telecomunicações, era já numero dois em registo de patentes no estrangeiro, logo a seguir à Panasonic japonesa. E em quarto lugar, depois da Qualcomm norte-americana, surgia outro gigante chinês, a Huawei.

Acto II: China nº1 em entradas em bolsa. Pelo segundo ano consecutivo, o valor das entradas em bolsa em 2010 na China foi superior ao valor somado em todas as bolsas dos países desenvolvidos. O disparo de 2007 para 2010 foi de 230%.

A China foi, pela segunda vez, em 2010 o maior mercado mundial para entradas de empresas em bolsa. Representou 125 mil milhões de dólares, 44% do total das entradas em bolsa (IPO, na designação em inglês) em todo o mundo, segundo dados divulgados recentemente pelo McKinsey Global Institute na sua publicação Mapping Global Capital Markets 2011.

As entradas em bolsa de novas empresas na China somaram um valor superior aos 106 mil milhões de dólares de IPO na City londrina, em Wall Street e Nasdaq e nas restantes bolsas dos países desenvolvidos.

Essa situação já ocorrera em 2009, quando os IPO na China somaram 54 mil milhões de dólares e as entradas nas bolsas do mundo desenvolvido apenas 42 mil milhões. A diferença ampliou-se significativamente no ano seguinte.

Em 2007, antes do eclodir da crise financeira, os IPO na China somavam apenas 38 mil milhões de dólares, contra 47 mil milhões em Nova Iorque (Nasdaq e Wall Street) e 52 mil milhões na City. O disparo, no caso da China, foi de 230% entre 2007 e 2010, enquanto o valor dos IPO na City encolheram 75% e em Nova Iorque 26%.

A crise financeira tornou o mercado de IPO na China o líder mundial.

Dados do 1º semestre de 2011

Segundo a Federação Mundial de Bolsas, para dados apurados no final do primeiro semestre de 2011, o número de IPO (não se trata do valor envolvido) continuou a subir, com uma variação positiva de 13%, sobretudo devido à entrada de PME em bolsa.

Num total de 939 operações entre janeiro e junho de 2011, 440 realizaram-se na Ásia-Pacífico.

As três bolsas que estão a liderar o número de IPO são a de Toronto, com 148 entradas em bolsa, a de Shenzhen (perto de Hong Kong), com 144, e a de Varsóvia com 101.

É a interrogação que coloca hoje (21 de dezembro) o Le Figaro. Para o jornal francês a pasta da troika vai passar para o Fundo Monetário Internacional a partir de 2012. Uma prenda para Christine Lagarde que fará 56 anos a 1 de janeiro.

A última reunião por conferência telefónica do Eurogrupo (reunião de ministros dos 17 membros da zona euro) decidiu avançar na segunda-feira (19 de dezembro), ao fim de três horas, com um pacote de empréstimos bilaterais de €150 mil milhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI). São €50 mil milhões a menos do que o previsto na última cimeira europeia, mas alguns países fora da zona euro terão de consultar os seus parlamentos sobre esta participação e o Reino Unido reservou a sua posição para o âmbito do G20. Ou seja, o Reino Unido procurará acertar o seu passo em função dos movimentos que farão outras grandes potências do G20, como os EUA, o Japão e os BRIC.

Mas, segundo o jornal francês Le Figaro, Christine Madeleine Odette Lagarde, a diretora-geral do FMI, não receberia só o dinheiro, mas também conseguiria a concretização do seu objetivo geopolítico de tornar o Fundo o efetivo agente de gestão da crise da dívida soberana da zona euro e dos seus efeitos sistémicos à escala mundial. “O único a mandar”, refere o jornal. Uma prenda para Lagarde que fará 56 anos a 1 de janeiro. Uma agenda que Lagarde tem prosseguido desde a sua nomeação para a chefia do Fundo. O jornal interroga-se inclusive a fechar o artigo: “Virá a ser, de facto, Christine Lagarde a primeira ministra das Finanças da zona euro?”.
Troika fica obsoleta

O jornal adianta que uma das consequências será tornar obsoleto o conceito de troika. “No programa de vigilância de Itália, o FMI já é o único a comandar a bordo, sem a troika”, referiu ao jornal francês Jean Pisani-Ferry, diretor do think-tank Bruegel, sediado em Bruxelas.

Resta saber até onde irá essa “obsoletização” da troika, dado que esta gere, atualmente, três programas de resgate (Grécia, Irlanda e Portugal). E sabendo-se do risco, no curto prazo, de cortes de notação de alguns países europeus com nota máxima de triplo A, nomeadamente a França, o próprio Fundo Europeu de Estabilização Europeia (FEEF) corre o risco de perder a notação de triplo A e de deixar de ser credível para os investidores internacionais.

Será interessante observar, de facto, se a estratégia seguida pela zona euro face à crise da dívida – planos de resgate com troika, FEEF até 2013 e Mecanismo de Estabilização Europeu a partir do próximo ano – ficará em cacos nos próximos meses e o FMI ocupará o lugar do leme.

Christine Lagarde terá, pelo seu lado, de convencer as outras grandes potências fora da União Europeia a financiar a ideia. Ela tem dramatizado a situação: “a economia mundial está num ponto de viragem perigoso”, repetiu ainda ontem a partir da Nigéria. E tem dado a entender que os parceiros da zona euro continuam embrulhados nas suas guerras intestinas de hegemonia da zona euro – algo que ela conhece bem da sua experiência anterior como ministra das Finanças de Nicolas Sarkozy – incapazes de responder em tempo útil.

A próxima cimeira europeia está convocada para final de Janeiro e o próximo encontro de chefes de estado e de governo do G20 está previsto para Los Cabos, no México californiano, para junho de 2012. Antes decorrerá, certamente, a reunião dos ministros das Finanças e banqueiros centrais do grupo.

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