Globalização


Apesar da situação das bolsas não ser radiante e dos analistas apontaram para a continuação do que no tecnicalês de Wall Street se designa por período de “urso” (bear), de declínio tendencial do valor das ações e do rácio P/E (preço em relação aos ganhos), o survey global da consultora McKinsey, publicado esta semana no seu McKinsey Quarterly, revela que a maioria dos quase 3000 executivos entrevistados entre 2 e 6 de agosto por todo o mundo declararam que não vão abrandar nos investimentos nem nas oportunidades de aquisição.

De facto, continuamos a assistir a grandes movimentos de consolidação em diversos setores e de operações gigantes de entrada em bolsa.

Depois da oferta pública inicial de venda (o que os americanos designam por IPO) do Banco da Agricultura chinês nas bolsas de Xangai e Hong Kong ter rendido em julho mais de 22 mil milhões de dólares – um novo recorde no Guinness das entradas em bolsa, destronando o seu colega, o Industrial and Commercial Bank of China, com 21,97 mil milhões em 2006 -, a General Motors, intervencionada pelo Estado americano (em 61% das suas ações), anunciou a sua entrada nas bolsas de Nova Iorque e de Toronto visando financiar-se em 12 a 16 mil milhões de dólares.

Por seu lado, o grupo mineiro anglo-australiano BHP Billiton fez uma oferta pública de aquisição (OPA) hostil de cerca de 42 mil milhões de dólares sobre a canadiana Potash, número um em adubos no mundo, o que será a maior OPA do ano até à data.

Por seu lado, a suíça Novartis (nascida da fusão da Ciba e da Sandoz) quer ficar com a totalidade da Alcon (52% ainda nas mãos da Nestlé) especializada no segmento oftalmológico por 28,1 mil milhões de dólares ou mais. Será a maior operação de sempre de consolidação no mercado suíço: depois da Novartis ter adquirido à Nestlé 25% da Alcon em 2008, com os 52% agora em vista, o investimento total será de 49,7 mil milhões de dólares.

A mexicana América Móvil, de Carlos Slim, comprou em junho a Carso Global Telecom (um conglomerado mexicano de participações, por exemplo, na Telmex e Telefonos de Mexico) por 24,3 mil milhões.

Na área da energia, a francesa GDF Suez acaba de fechar a aquisição da britânica International Power por 21,5 mil milhões de dólares.

Finalmente, nestes movimentos com dois dígitos nos milhar de milhões, o grupo francês Sanofi-Aventis quer adquirir a biotecnológica bostoniana Genzyme por mais de 18 mil milhões de dólares.

A entrada em força dos investidores financeiros nos contratos de futuros nos mercados de commodities (mercadorias) está a provocar, de novo, “oscilações selvagens” nos preços e introduziu um factor de volatilidade que o analista Nathan Martin considera “trágico” para a economia real. Estes investidores são designados por “não-comerciais”, por não estarem envolvidos no negócio físico, mas apenas em operações financeiras.

Tais movimentos são encabeçados por hedge funds e divisões de aplicações financeiras de grandes bancos usando ferramentas sofisticadas de negociação (designadas como high-frequency trading, plataformas de grande poder computacional), mas em que se envolve, também, por contágio, a arraia-miúda dos especuladores atraída pelo efeito megafone das notícias nos media.

“Esta volatilidade foi ampliada desde o advento dos exchange trade funds (ETF) e de outras formas de derivados baseados em commodities. A Reserva Federal, no caso americano, com a sua política monetária de taxa básica de juros próxima de zero, inundou-nos de uma liquidez massiva que se encaminhou para estes mercados. O caso da seca na Rússia, por exemplo, apenas acicata os investidores que andam sempre à cata de oportunidades para especular. Dá-se um efeito bola de neve, com cada vez mais gente de fora a entrar, o que amplia ainda mais estes movimentos”, explica Nathan Martin, responsável pelo blogue Nathan’s Economic Edge.

Efeito aterrador

Esta multidão de investidores e a sofisticação da especulação, diz-nos Martin, “tem literalmente um efeito aterrador no planeta, pois a principal característica é uma flutuação muito viva dos preços das matérias-primas alimentares”, uma área muito sensível no nível de vida das populações nos países pobres e emergentes, onde a agroflação (inflação por via da alta de preços dos produtos alimentares) tem um peso significativo no índice de preços. E prossegue: “Estas oscilações selvagens, sem dúvida, que são muito lucrativas para os metidos no negócio da economia do ‘papel’ financeiro, mas são devastadoras para a agricultura real e para o aumento da fome mundial”.

Os dois casos típicos mais recentes de “oscilações selvagens” ocorreram com o cacau (um processo de alta e quebra desde o início do ano, com picos em Janeiro, Março, Abril e Julho) e com o próprio barril de petróleo, com variações significativas dos preços nos dois sentidos. No caso do barril da variedade Brent, o petróleo de referência na Europa, depois de ter iniciado o mês acima de 81 dólares, com uma subida no primeiro dia de negociação de Agosto no mercado spot de quase 4% e de ter prosseguido a alta até próximo dos 83 dólares, iniciou um processo em ziguezague, estando, hoje nos 76 dólares.

Por outro lado, o que está a acontecer este mês com o trigo (o maior disparo entre todas as matérias-primas agrícolas, com um aumento de 25%), o açúcar, a soja e o cobre fez regressar o fantasma do que ocorreu no verão quente de 2008, quando várias commodities atingiram picos históricos, com destaque para o petróleo, o caso, então, mais mediatizado.

Na altura, a polémica estalou sobre as razões de tal disparo súbito no primeiro semestre de 2008, seguido depois por uma queda abrupta quando estalou o pânico financeiro e se iniciou a recessão económica e a quebra do comércio internacional.

Alun H. Thomas, especialista do Fundo Monetário Internacional, juntamente com Martin Muhleisen e Malika Pant, modelizou, recentemente, o comportamento das várias variáveis envolvidas no caso do preço do petróleo. O modelo, explicado em “Peaks, Spikes and Barrels: Modeling Sharp Movements in Oil Prices” (IMF Working Paper, WP/10/186, Agosto 2010) verificou que, para além de um impacto de longo prazo da procura, sobretudo por parte das variações do consumo dos países emergentes, e de variações na oferta, sobretudo por parte dos produtores não-alinhados na OPEP, ocorreu um facto novo recentemente (um tema que já abordámos, também, noutro artigo do diário de bordo da crise).

Sincronização de movimentos

Nota-se, a partir de 2007, uma sincronização entre as variações do preço real do petróleo (avaliado em direitos de saque especiais, a unidade monetária do FMI, para neutralizar as variações do câmbio do dólar) e as decisões dos investidores não-comerciais em termos de saldo líquido das suas posições longas em contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros em commodities). [Para os interessados, o estudo apresenta um painel de gráficos, na Figura 2 – “Oil Prices: Role of Fundamentals and Speculation”, na página 9, sendo o gráfico de referência para este comentário o sexto.]

O preço sobe vertiginosamente acompanhando, a partir de certa altura, o disparo da entrada em força dos especuladores e desce quando o saldo de posições longas baixa. Esta relação não se observou em situações anteriores. “Houve claramente uma mudança nos portefólios financeiros para um investimento massivo em commodities”, afirma Alun Thomas, corroborando a opinião de Nathan Martin.

Segundo dados do Barclay’s Capital Commodity Research, os activos financeiros em commodities sob gestão (AUM, na designação técnica em inglês) passaram de 70 mil milhões de dólares em 2005 para 270 mil milhões no segundo trimestre de 2008. Depois caíram a pique no segundo semestre de 2008 e voltaram a subir em 2009, situando-se no final desse ano nos 263 mil milhões, quase o mesmo do que no Verão quente do ano anterior. Em 2010 continuaram a subir para valores ainda mais altos tendo em Abril chegado próximo dos 294 mil milhões. No final do segundo semestre terão baixado para 292 mil milhões.

Segundo outros cálculos estariam nos 264 mil milhões no final do segundo semestre deste ano. Mesmo assim, o patamar em que se encontram continua a ser quase 4 vezes mais do que há cinco anos, apesar de longe do pico de 310 mil milhões no segundo trimestre de 2008.

No entanto, Alun Thomas explica que, desta vez, “não espera um padrão de disparo dos preços [como no primeiro semestre de 2008], mas um aumento gradual à medida que a economia mundial retome o crescimento”. Mas deixa um “se”: “É evidente que se houver uma repetição da recessão, o preço do petróleo pode oscilar de novo significativamente”.

O especialista estima, também, que a sincronização ocorrida entre os preços do petróleo e os movimentos dos especuladores “vá declinar”. “Na nossa análise, o saldo líquido dos contratos dos não-comerciais não é um determinante significativo dos preços do petróleo no longo prazo”, explica.

Geopolítica não influencia tanto quanto se pensa

Outra verificação curiosa do modelo destes técnicos do FMI, é que a geopolítica tem uma influência menor do que se costuma assinalar [como se pode ver no 5º gráfico da Figura 2 já referida]. Na verdade, a relação até é paradoxal a partir de 2002: “Usando um índice de risco geopolítico [do International Country Risk Guide], não encontramos nenhum prémio no preço quando os riscos aumentam. De facto, verificámos o oposto: o preço do petróleo aumenta quando o risco geopolítico desce”, diz Thomas. E explica porquê: “Os países da OPEP tendem a cumprir mais as quotas definidas, o que até gera uma pressão altista sobre os preços”. Uma situação manifestamente distinta da que ocorreu aquando dos choques petrolíferos dos anos 1970 e 1980.

O consumo de cereais no mundo vai crescer em mais de 45 milhões de toneladas métricas, mas a produção vai diminuir nesta campanha 2010 e 2011 em 13,7 milhões, segundo dados ontem divulgados pelo World Agricultural Supply and Demand Estimates (WASDE) do Departamento de Agricultura (equivalente a Ministério) do governo dos Estados Unidos.

O resultado vai ser um ‘buraco’ de 32,48 milhões de toneladas métricas entre o consumo (que crescerá 2 % em relação a 2009 e 2010) e a produção (que se contrairá em 0,6% em relação à campanha de 2009 e 2010) e uma redução dos stocks finais na mesma quantidade. O que não aconteceu na campanha cerealífera anterior de 2009 e 2010, em que houve um excedente de 26,8 milhões de toneladas métricas.

O principal contribuinte para o ‘buraco’ vai ser o trigo, que verá a produção reduzir-se em 15,3 milhões de toneladas métricas.

A produção mundial de cereais para 2010/2011 deverá atingir 2.212,8 milhões de toneladas métricas e o consumo 2.245,28 milhões. Os stocks finais projectados deverão ser de 444,32 milhões de toneladas métricas.

O resultado será a agroflação [inflação por via dos preços das commodities agrícolas]?, interrogam-se os analistas.

Trigo é o caso mais grave

Muitos dos cereais têm registado uma alta de preços durante 2010, como já referimos no post anterior (diário de bordo 114). O caso mais em destaque é o trigo, com uma variação do preço em relação ao mês anterior de 35,05% (a mais alta em todas as categorias de mercadorias) e de cerca de 25% em termos anuais (a mais alta nos cereais e a segunda mais alta, depois do algodão, nas matérias-primas agrícolas).

O preço deste cereal, além do impacto da especulação financeira generalizada nas commodities, está a sofrer a pressão das secas e das cheias nos países principais produtores e particularmente as reduções projectadas de produção de 8 milhões de toneladas na Rússia, de 4 milhões na União Europeia, 3 milhões na Ucrânia e 2 milhões no Cazaquistão para a campanha de 2010/2011. A produção diminuirá, também, na Argélia, Brasil, Uruguai, Bielorrússia e Croácia. Em compensação, a Índia, Estados Unidos, Austrália e Uzbequistão vão ter aumentos de produção.

A Rússia, o terceiro produtor mundial de trigo, afectado profundamente pelas secas (que já destruíram ¼ da superfície cerealífera do país) e incêndios, decidiu a partir de domingo e até final do ano proibir as exportações deste cereal.

Este verão parece estar a incendiar, de novo, os preços de algumas commodities (mercadorias). Nada que se compare com a loucura do verão de 2008, mas os analistas destes mercados registam uma sucessão, novamente, de disparos de preços, sobretudo em algumas matérias-primas alimentares e metais industriais.

A tendência altista mais assinalável – mas mediaticamente menos falada – sucede no algodão e no café. Os contratos de futuros destas duas commodities estão, neste mês de Agosto, a atingir picos históricos em média mensal, valores que não se verificaram nem no Verão quente de 2008, aquando do choque inflacionário de preços. O algodão já aumentou 43% em relação a igual período do ano passado e o café mais de 24%.

[Pode seguir este mercado de commodities com base num painel global aqui]

Agroflação no horizonte?

O caso mais mediático é, no entanto, o do trigo – desde Julho que está em alta contínua, mas longe do preço atingido no pico em Março de 2008. O preço dos contratos de futuros disparou na Europa na semana passada, devido ao impacto de fenómenos extremos climáticos que afectaram as searas no Canadá (chuvadas torrenciais) e na Rússia (seca extrema, impacto dos incêndios e decisão do governo russo de fechar as exportações a partir de 15 de Agosto). O valor actual está acima da média mensal de 2008/2010 e o aumento em relação a igual período do ano passado é de quase 25%.

No entanto em 2010, já se assistiu a outros disparos. O preço do açúcar atingiu o seu pico histórico em Janeiro, mas, agora, o preço está abaixo dos valores de Dezembro de 2009. No entanto, este mês, já subiu mais de 12%. O cacau esteve, ultimamente, também, muito mediatizado, em virtude das operações no London International Financial Futures and Options Exchange (Liffe, uma divisão do NYSE Euronext) por parte de Anthony Ward do hedge fund Armajaro Asset Management LLP. Ward é conhecido pela alcunha de Mr. Chocfinger (gesto com o dedo médio). No entanto, o pico do preço dos contratos de futuros do cacau foi em Dezembro de 2009 e Janeiro de 2010, e não agora.

O cobre também está em alta, ainda que longe do pico em Julho de 2008. Já aumentou 22% em relação a igual período do ano passado e 11% já durante este mês. O preço actual dos contratos de futuro deste metal industrial está acima da média mensal de 2008 a 2010. Juntamente com o trigo, o açúcar e a soja, são as quatro commodities com maior crescimento nos últimos trinta dias.

O melhor indicador para avaliar a temperatura do que está a ocorrer nas matérias-primas agrícolas é o índice de preços alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que disparou para 163 pontos em Junho, apenas 28 pontos abaixo do pico no Verão louco de 2008. Vários analistas já falam de “agroflação”, como vector fundamental de inflação com impacto nos custos de clusters alimentares e industriais fundamentais. Pão, café e cacau vão afectar a nossa mesa.

Finalmente, o preço do barril de petróleo voltou a situar-se acima dos 80 dólares nos contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros de commodities do mundo) e a média dos primeiros sete meses deste ano é já superior em 12% ao preço médio do ano anterior. Está, no entanto, ainda abaixo da média mensal entre 2008/2010 e tem revelado ultimamente oscilações muito pronunciadas -”oscilações selvagens”, assim designadas por alguns analistas – acima de 1%, com subidas seguidas de descidas, e vice-versa.

O Verão quente de 2008

O modelo extremado deste “choque” de preços ocorreu em Junho e Julho de há dois anos, antes do pânico financeiro que agravou a recessão. Recorde-se que o preço do barril de crude subiu acima dos 145 dólares, o arroz duplicou em menos de cinco meses e o cacau e a soja atingiram os seus máximos históricos.

A razão desta “anomalia” provocou – e ainda provoca – um debate animado entre os analistas e o mundo académico sobre as suas causas, depois de um interregno de “choques” durante mais de vinte anos. Essa “grande moderação” foi, subitamente, interrompida a partir de 2003. Os preços nominais das commodities ligadas à energia e aos metais aumentaram 230% até 2008; os preços das matérias-primas alimentares duplicaram.

As razões “estruturais” surgem logo à cabeça. O chamado pico do petróleo (ponto a partir do qual o crescimento da produção e da oferta mundial do crude desacelera) justificaria o novo choque petrolífero. As mudanças climáticas, com fenómenos extremos, provocam perdas substanciais na agricultura provocando uma segunda onda de choques nos preços das matérias-primas alimentares. O crescimento espectacular das economias emergentes e particularmente a voracidade da China por todo o tipo de commodities explicaria a fortíssima pressão pelo lado da procura mundial incendiando os preços. A mudança da dieta alimentar e a desertificação do mundo rural são, também, factores com efeito assinalável. A que se junta, finalmente, a geopolítica – a turbulência em regiões produtoras ou de importância logística para as commodities repercute-se imediatamente no estado de espírito dos investidores em futuros e dos compradores de mercadorias e matérias-primas.

O factor novo

Mas um estudo econométrico de John Baffes, economista sénior do Banco Mundial, e de Tassos Haniotis, alto funcionário da Direcção Geral para a Agricultura da Comissão Europeia, publicado na semana passada, veio chamar a atenção para factores “não tradicionais”.

Baffes e Haniotis avaliaram o papel desempenhado ultimamente por dois “isqueiros” da loucura dos preços das matérias-primas: a especulação financeira em todo o tipo de mercadorias e o “desvio” de produção agrícola para alimentar o sector dos biocombustíveis.

“O desvio provocado pela política em torno dos biocombustíveis desempenhou algum papel na alta de preços, mas muito inferior àquele que se pensou inicialmente”, referem os dois especialistas. No entanto, quanto ao caso da especulação financeira em commodities, eles julgam que este “novo factor” dos anos 2000 veio para ficar. “Tem um carácter permanente”, disse-nos John Baffes, que está em missão na Indonésia.

“A financeirização do mundo das matérias-primas foi o factor dominante no que sucedeu entre 2006 e 2008”, prossegue Baffes na entrevista que concedeu a partir da Indonésia, onde está em missão do Banco Mundial.

E juntou-lhe mais dois “detalhes” (ver entrevista rápida a John Baffes; a entrevista completa pode ser lida aqui no original em inglês) que vão marcar o comportamento do preço das matérias-primas nos próximos tempos: o cordão umbilical que as liga entre si, provocando reacções em cadeia nos preços, e a tendência para o acentuar das oscilações de preços.

O que complica o planeamento dos agentes económicos e a política dos governos.

ENTREVISTA RÁPIDA a JOHN BAFFES

P: A financeirização tomou conta também do mercado das matérias-primas nos últimos anos?
R: Talvez tenha sido o factor dominante. Creio ter sido o factor “novo” entre todos os que afectam os preços e que são conhecidos. Sem dúvida, que as tendências são basicamente afectadas pela procura e pela oferta, e sobretudo pela tecnologia e pelos níveis de vida. Mas o facto de as matérias-primas terem passado a ser usadas como veículos financeiros afectou algo essencial – a variação dos preços.

P: Essa variação – por vezes mesmo visível em oscilações ‘selvagens’ nos preços dentro de uma mesma semana – vai ser a tónica dominante do futuro?
R: Todas as evidências que recolhi no estudo realizado com Tassios Haniotis apontam para o facto de que as matérias-primas entraram num período de maior variação dos preços.

P: Os diversos grupos de matérias-primas estão hoje em dia profundamente interligados? Pode dizer-se que formam um ecossistema em termos de comportamento dos preços?
R: Esse é um ponto fundamental da investigação e do estudo que publicámos. Há ligações estreitas, óbvias, entre o grupo das matérias-primas energéticas e das alimentares. Além disso, à medida que o nível de vida aumente nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes será de esperar uma sincronia entre os preços de todas as matérias-primas baseadas em recursos (por exemplo, energia e metais).

A exposição da banca portuguesa a Espanha, Grécia, Irlanda e Itália era de 53 mil milhões de dólares no final de 2009. O equivalente a 23% do PIB desse ano. Mais de metade dessa exposição era relativa a Espanha. Trocado por miúdos: se houver gripe suína nos outros “colegas” do grupo, os créditos que a banca portuguesa tem a haver entram em choque. E vice-versa. É uma teia bem tecida.

A exposição agregada da banca portuguesa a “residentes” no grupo mais frágil da zona euro, denominado humoristicamente por PIIGS (acrónimo em inglês para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), totalizava 53 mil milhões de dólares, em valores consolidados, no final de Dezembro de 2009, segundo dados do Bank for International Settlements (BIS), recorda, esta semana, o relatório do Fundo Monetário Internacional sobre a “saúde” da economia da zona euro.

Esse montante equivalia a 23% do nosso produto interno bruto (PIB), um valor relativo elevado só ultrapassado pela banca da Irlanda, cuja exposição aos outros PIIGS correspondia a 91 mil milhões de dólares, ou seja 40% do seu PIB. O peso da exposição dos bancos espanhóis ou italianos aos outros PIIGS era de 10% e 3% do PIB respectivamente. O relatório do FMI não fornece dados da exposição da banca grega.

A maior fatia da exposição da banca portuguesa aos outros PIIGS dirige-se a Espanha (55% do total), seguida da Grécia (19%) e da Irlanda (16%). Por seu lado, os bancos estrangeiros mais expostos a Portugal são os espanhóis que contam com 36% do total da exposição estrangeira a Portugal. O que revela um cordão umbilical de exposição entre os dois sistemas financeiros. Na lista de exposição a Portugal seguem-se, depois, a alguma distância, os bancos alemães (19,7%) e os franceses (18,9%).

A exposição da banca estrangeira a Portugal somava, no final de 2009, 238 mil milhões de dólares, mais do que a exposição da banca estrangeira à Grécia (que somava 199 mil milhões).

A banca mais exposta aos PIIGS era a francesa (quase 900 mil milhões de dólares, o equivalente ao PIB do México que foi, em 2009, a 14ª economia do mundo), seguida da alemã (mais de 700 mil milhões de dólares). Compreende-se, por isso, a “sensibilidade” da banca francesa e alemã ao que se passa no grupo com maiores probabilidades de default dentro da zona euro.

O país do grupo dos PIIGS com maior exposição da banca estrangeira, no ano passado, foi a Itália (1 bilião de dólares em valores consolidados).

Se a banca portuguesa estava mais exposta a Espanha, e a espanhola a Portugal, a banca irlandesa estava exposta sobretudo a Itália, e a italiana a Espanha. Uma malha bem tecida, em que um resfriado em qualquer um dos PIIGS se repercute em cadeia. No caso da Irlanda, a banca estrangeira mais exposta é, naturalmente, a do vizinho inglês.

Nota: Nos “residentes” incluem-se os sectores bancário e não bancário privados e o público. Por “exposição” entende-se créditos sobre residentes daqueles países.
Fonte: FMI, Country Report 10/221, 22 de Julho de 2010, Economic Health Check, Parte B, página 6, quadro “Bank Exposures to Selected Countries”, Dezembro de 2009.

A expressão inglesa «double-dip», ou recaída na recessão depois de uma tímida retoma, voltou a aquecer os debates na comunidade internacional dos economistas e dos analistas. A fractura nas opiniões é manifesta.

Os sinais dados pela realidade são manifestamente contraditórios. Os “bons números” surgem nos noticiários de abertura, mas logo os “maus números” enchem os títulos de última hora.

O crescimento mundial deverá ficar acima de 4,5% garantiu o Fundo Monetário Internacional (FMI) na semana passada no seu World Economic Outlook Update. Espera-se que o comércio internacional aumente entre 9 e 10%. E consta que há mais de 3,3 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica) de “excedentes” à roda do mundo “parqueados” à espera de boas aplicações.

Mas o nervosismo dos mercados bolsistas – com dias de derrocada frequentes no passado Junho – e dos mercados de derivados, a crise da dívida soberana em diversos países da Europa, um quase escondido cenário mais “pessimista” do FMI temendo uma recessão na Europa e quase estagnação nos Estados Unidos em 2011, as dúvidas sobre o que irá ocorrer com as “bolhas” e a mudança de modelo económico na China e o disparo na cotação do ouro (com a onç a manter-se acima de 1200 dólares) engolem rapidamente a metade “simpática” dos títulos optimistas dos noticiários.

O pessimismo reforçou-se, inesperadamente, com a divulgação em Julho de novas previsões pela Reserva Federal americana (FED), que agravaram as anteriores, divulgadas em Abril. Clima de dúvida que se adensou, a 21 de Julho, com duas palavras fatais do testemunho do presidente da Reserva Federal, Bem Bernanke, perante o Congresso americano falando de um crescimento «extraordinariamente incerto». [As bolsas americanas sentiram, de imediato, o choque. O Dow Jones e o Nasdaq caíram mais de 1% a 21 de Julho.]

O desemprego na América manter-se-á entre 9,2% e 9,5% da população activa em 2010 e ainda poderá andar nos 8,3% a 8,7% no próximo ano e nos 7,1% a 7,5% em 2012. Também, o crescimento americano será inferior ao que era previsto: entre 3% a 3,5% este ano, em vez dos 3,2% a 3,7%, e entre os 3,5% a 4,2% em 2011, abaixo dos 4,5% previstos anteriormente.

Apesar de estarmos a falar de diferenças de décimas, estas revisões pela FED foram como um verdadeiro balde de água fria que teve imediata repercussão (negativa) nas bolsas mundiais.

Medo mata mais

A nível da discussão mais técnica, a última tentação pessimista responde pela expressão inglesa double-dip – ou seja, recaída na recessão, depois de um período de retoma a seguir à primeira fase mais dramática e prolongada de depressão. Não é, ainda, uma constatação, mas um temor.

Os números do FMI afastam essa hipótese para 2010 (4,6% de crescimento mundial, 3,3% de crescimento nos Estados Unidos, 6,7% nos tigres asiáticos, 6,8% de crescimento nos países emergentes e 1% na zona euro, o “ciclista” junto ao carro-vassoura). Mas, em períodos de crise, a psicologia mata mais do que os números finais de um semestre.

Os curiosos pela história económica das grandes crises recordam, agora, o caso anterior de 1937-1938, quatro anos depois do fim oficial da Grande Depressão. A previsão pessimista é que algo similar possa ocorrer agora, para os mais pessimistas, já neste segundo semestre de 2010.

Fomos ouvir, por isso, cinco economistas separados por fusos horários diferentes e com filiações no pensamento económico distintas. O resultado é diversificado – a comunidade de economistas e analistas está literalmente fracturada.

Encontrámos nas respostas três campos de opinião. [As respostas integrais poderão ser lidas na versão em inglês aqui]

O pecado da finança

Comecemos pelo campo do “sim” – a recaída é um risco sério, mesmo que seja difícil predizer a data de concretização. Para a professora Carlota Perez, reconhecida especialista mundial em revoluções tecnológicas e ciclos económicos, uma recaída recessiva estará sempre no horizonte enquanto os decisores mundiais “não entenderem que esta crise não é um acidente que se consegue resolver apenas com mais política monetária e regulação, mas sim um corte estrutural que exige uma separação radical entre o mundo da finança e o da economia real”.

Por seu lado, o investigador americano Mark J. Lundeen, que no site Gold Eagle tem estado a fazer uma comparação diária entre a evolução desta Grande Recessão, desde o seu começo em 2007, e a Grande Depressão dos anos 1930, é mais pessimista: “A questão não é se vai haver ou não uma recaída – ela é inevitável. Mas quanto tempo durará e quanto mais sofrerá o mundo até que os decisores comecem a discutir como liquidar a «má» dívida que nos envolveu nestes últimos 40 anos”. Lundeen é pelo fim das fianças aos prevaricadores, e pela sua bancarrota (incluindo as dívidas soberanas que devem ser reescalonadas ou reestruturadas), mesmo que isso resulte numa situação de deflação massiva – é preferível isso, diz ele, “à hiper-inflação e aos caos económico e geopolítico que resultará inevitavelmente das actuais políticas”.

Política monetária é a salvação

Pelo “não” está o gestor de fundos Bill Whiterell, economista-chefe global da Cumberland Advisors que a partir da Florida aconselha aplicações financeiras em todo o mundo. “Isso é de todo improvável!”, exclama, e acrescenta: “mesmo nas economias desenvolvidas”. “Não prevemos que esta desaceleração a meio do ciclo se deteriore ao ponto de se transformar numa recessão, quer neste segundo semestre como no próximo ano”, diz-nos. Confia que “as políticas monetárias continuarão a «acomodar-se» quer nos EUA como na zona euro ou no Japão. Provavelmente as taxas de juro de curto prazo manter-se-ão próximas de zero nos próximos doze meses”.

Um terceiro campo recusa o “sim” e o “não” à pergunta. Em suma, não se pode falar de recaída – já que nem sequer se saiu da recessão iniciada em 2007 no mundo industrializado, argumenta-se. “Não se pode falar de double-dip, quando ainda nem saímos do single-dip. Penso que temos continuado a estar numa situação consistentemente negativa. Sou muito céptico, em particular, em relação aos números oficiais americanos – cuja realidade é bem pior do que os números divulgados”, ironiza David Caploe, economista-político chefe do EconomyWatch, em Singapura.

Um “L” em vez de um “W”

Continuando com a ironia, Caploe rejeita um desenho em “W” para a evolução desta crise que uma recaída traria. O que vai ocorrer, vaticina, é um longo “L_______________________________________”, em que a “cauda” pode ser muito comprida. O tamanho desta “cauda” depende da China. O analista de Singapura considera que os governantes chineses têm actuado com inteligência face à crise, mas “resta ver como um grupo aparentemente coeso como este conseguirá enfrentar um militantismo sindical crescente que tornou o anterior modelo económico obsoleto”.

O consultor e autor americano Peter Cohan recorda que nem o organismo americano que oficialmente data o começo e o fim das recessões, o National Bureau of Economic Research, decretou, ainda, o fim da recessão para os Estados Unidos. Pelo que prefere não falar de nova recessão. Cohan admite, em breve, uma desaceleração económica “mas não tão má que se transforme em crescimento negativo”. Esta desaceleração poderá advir do que se vai passar na Europa: “Não ficarei de todo surpreendido que o crescimento mais lento – ou mesmo declínio económico – ocorra na Europa, devido aos efeitos da consolidação orçamental”.

CINCO DESTAQUES (de conversas bem mais longas)

#“Se os chineses conseguirem evitar o colapso das suas bolhas imobiliárias merecem uma medalha” – Carlota Perez
#“A nível global, ao fim de quarenta anos, chegámos a um ponto em que os nossos activos se transformaram em passivo. É insustentável” – Mark J. Lundeen
#“Excepto para os membros altamente endividados do Club Med na zona euro, políticas de austeridade significativas no curto prazo não são desejáveis com uma retoma mundial permanecendo tão fraca” – Bill Witherell
#“Os chineses, pelo menos, parecem ter um plano – algo que sinceramente não vejo nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão” – David Caploe
#“O medo de um colapso na zona euro é suficiente para motivar a redução dos défices. Mas resta ver se uma dose massiva de euro-thatcherismo gerará prosperidade” – Peter Cohan

Portugal está na fronteira para a classificação de BBB, segundo a Dagong Credit Rating, sedeada em Beijing, que surpreendeu, ontem, os analistas ao dar classificação de AA e outlook negativo aos Estados Unidos e AA- e outlook negativo ao Reino Unido.

A Dagong Global Credit Rating, sedeada no distrito de Chaoyang, em Beijing, divulgou ontem, pela primeira vez, um relatório sobre a situação de crédito soberano em 50 países, que perfazem 90% do produto mundial. Portugal surge na 29ª posição com uma notação de A- (similar à atribuída pela Standard & Poor’s) e com outlook (perspectiva) negativo.

O nosso país e a Itália estão na fronteira da notação para a classificação de BBB. O relatório sublinha que estes países poderão enfrentar riscos de refinanciamento e de pagamento da dívida dada a vulnerabilidade a “um choque interno ou externo súbito e relativamente grande”.

A surpresa nas notações

A agência de rating chinesa surpreendeu os mercados internacionais ao dar notação de AA (e não triplo A, a nota máxima) e com outlook negativo aos Estados Unidos, colocando inclusive a superpotência na fronteira para a notação abaixo, e ainda pior ao Reino Unido com AA- e outlook negativo, quer em termos de moeda local como em divisas estrangeiras. Também outros membros do G7 recebem a notação de AA- e com outlook negativo, como o Japão e a França.

Há, de facto, uma diferença de fundo entre as notações da Dagong e das três agências mais conhecidas (Moody’s, Fitch e S&P, apelidadas de “big three“): enquanto as agências norte-americanas dão notação de triplo A a mais de 10 países, a agência chinesa é menos generosa, nomeadamente em quatro casos mais significativos (que incluem os EUA, Japão, Reino Unido e Alemanha).

Apenas cinco países recebem a notação de triplo A (a mais alta em termos de solvência e sustentabilidade de longo prazo) e com outlook estável quer na avaliação global do nível de crédito em termos de moeda local como em divisas estrangeiras: Noruega (a liderar), Dinamarca, Luxemburgo, Suíça e Singapura. A Austrália e a Nova Zelândia têm a notação de AAA em termos de moeda local e de AA+ (uma notação abaixo) em divisas estrangeiras. A Alemanha, a referência para a zona euro e a União Europeia, não está neste grupo de sete do topo.

Mais generosa nos emergentes

Na notação da Dagong, a China tem notação AA+ e outlook estável em termos de moeda local, tal como a Alemanha, mas em termos de divisas estrangeiras tem notação máxima de AAA, acima da alemã, da canadiana ou da holandesa, os companheiros neste segundo grupo.

O relatório admite, no entanto, que em relação a países como a China (com AA+), Arábia Saudita e Coreia do Sul (ambas com AA) há problemas derivados “do ajustamento das estruturas económicas ou risco geopolítico derivado de problemas práticos”. A notação atribuída à China é mais elevada do que a atribuída pela Moody’s (A1), S&P (A+) e Fitch (AA-).

Piores notações dadas a Espanha, Grécia e Roménia

No conjunto dos PIGS (acrónimo pejorativo para o grupo da zona euro formado por Portugal, Itália, Grécia e Espanha – a Irlanda não foi incluída na análise pela agência de rating chinesa), a Dagong atribui notação de A e com outlook negativo à Espanha (mais baixa do que as atribuídas pelas agências de notação americanas), de A- com outlook negativo a Itália e Portugal, e de BB com outlook estável à Grécia (mais baixa, também, do que a atribuída pelas outras três agências).

Entre os países de Leste da União Europeia que têm estado em foco, a agência de rating chinesa atribui a notação de BBB com outlook negativo à Hungria e de BB+ com outlook negativo à Roménia (mais baixa do que a atribuída pelas agências norte-americanas) – países que estão em pior situação do que Portugal ou Itália.

Estas notações mais baixas em relação a Espanha, Grécia e Roménia significam que a Oriente alguns elos mais fracos da zona euro e da União Europeia são vistos mais negativamente do que em Nova Iorque pelas três agências de rating internacionais mais poderosas.

Relativamente aos companheiros da China no grupo designado por BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China), a Dagong atribui notação A com outlook estável à Rússia, A- com outlook estável ao Brasil e BBB com outlook estável à Índia, o país em pior situação de avaliação de crédito neste grupo. Nos três casos, a atribuição dada pela agência chinesa é superior às atribuídas pelas três rating norte-americanas.

A Dagong foi criada em 1994 para atribuir notação à dívida das empresas chinesas. Alega ser privada e que a sua metodologia não está imbuída de apreciações ideológicas. É, no entanto, apoiada oficialmente. O próprio anúncio do relatório sobre a notação dos 50 países foi feito ontem na sede da agência de notícias Xinhua. Trata-se de um sinal – mais um – da estratégia de projecção externa da China.

Classificações comparadas para Portugal

Dagong: A-;
Moody’s: Aa2 (até 12/07/2010); A1 (a partir de 13/07/2010);
S&P: A-;
Fitch: AA-

Mais informações aqui.

O FMI prevê para o próximo ano um crescimento mundial umas décimas abaixo do estimado para este ano mas a desaceleração no comércio internacional rondará quase 3 pontos percentuais. A zona euro será o último do pelotão em matéria de crescimento e, no cenário mais pessimista, poderá reentrar, mesmo, em recessão. Um alerta para os governos da zona euro colocarem as barbas de molho. Para o cidadão comum: prepare-se, 2011 vai vir com brinde: novo choque.

O crescimento mundial deverá rondar os 4,3% e o comércio internacional crescerá 6,3% em volume no próximo ano – este é o cenário “de referência” apresentado esta semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Não são números desencorajadores, depois da recessão na produção mundial (quase 1%) e da quebra espetacular de 11,3% nas exportações e importações em 2009, o ano negro da Grande Recessão que tocou a economia mundial desde 2007. O FMI, no documento sobre “Perspectivas da Economia Mundial” (World Economic Outlook Update), divulgado esta semana, não dá guarida ao receio de uma recaída na recessão (com crescimento negativo do produto mundial, contracção) no próximo ano, mas admite um ligeiro arrefecimento, mais pronunciado no comércio mundial.

As estimativas do FMI para 2011 revelam que o crescimento mundial irá desacelerar três décimas em relação ao estimado para 2010 e que o comércio internacional verá a sua dinâmica anual baixar de 9% para 6,3%.

Mas, na parte final do documento, admite-se um cenário “mais pessimista” (de que falaremos adiante) em 2011 que reduziria a taxa de crescimento em 39% em relação à estimada para 2010. Este cenário “mais pessimista” implicaria que a zona euro entrasse no próximo ano em recessão (em vez de 1,3% de crescimento médio, cairia abruptamente para 2,2% de contracção) e os EUA crescessem apenas 0,4%.

Num documento mais recente, sobre a “saúde” da economia da zona euro [Economic Health Check, 21 de Julho de 2010], o FMI admitia, ainda, outra “possibilidade distinta”, a de “um período prolongado de estagnação”. (Pág.9 do relatório). O que reflecte bem a “incerteza” nas equipas do Fundo.

Ben Bernanke, no seu testemunho sobre política monetária perante o Congresso americano, no mesmo dia, falaria no mesmo tom sobre o futuro do crescimento americano: “extraordinariamente incerto” (unusually uncertain), duas palavras fatais que logo deitaram abaixo naquela tarde o Dow Jones e o Nasdaq.

A liga dos campeões

A liga dos campeões do crescimento continuará em 2011 a ser formada pelos países emergentes asiáticos, com destaque para a China e a Índia, verdadeiras “locomotivas” do produto mundial. O crescimento médio anual deste grupo situar-se-á nos 8,5%, quase duas vezes mais que a média mundial, mas sete décimas abaixo do crescimento estimado para 2010. Em 2011 a China voltará a ser o campeão incontestado com um crescimento na ordem dos 9,6%, logo seguida da Índia com 8,4%. Um ligeiro arrefecimento de quase 1 ponto percentual na China e de 1 ponto percentual na Índia. Alguns analistas vêm neste ligeiro abrandamento um exercício de soft-landing de duas economias consideradas sobreaquecidas.

No entanto, o papel indiscutível dos emergentes da Ásia como motores do crescimento mundial é indiscutível. O FMI estima que, até 2012, a China represente 34% desse crescimento anual – compare-se com a contribuição da zona euro que não ultrapassará os 3%.

Mas onde o arrefecimento da dinâmica vai ser mais acentuado é no grupo dos países que o FMI designa como “novas economias industrializadas da Ásia” – os famosos “tigres” asiáticos (Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan) – que “descerão” de um crescimento médio de 6,7% em 2010 para 4,7% e no Brasil, que verá a sua taxa de crescimento descer de 7,1% em 2010 para 4,7% no ano seguinte.

Papel secundário do G7

O papel secundário do G7 (o grupo geopolítico obsoleto reunindo as sete maiores economias do mundo) é visível nas taxas de crescimento estimadas para 2010 e 2011. Os EUA crescerão 3,3% em 2010 e descerão para 2,9% no ano seguinte, abaixo da média mundial. A zona euro melhorará ligeiramente, mas não passará de um crescimento de 1,3% em 2011, o comportamento mais medíocre no Planeta, que conduz o FMI a apontar a região como o elo mais fraco da economia mundial.

Elo mais fraco onde os “choques financeiros” e a desconfiança dos investidores internacionais são mais sentidos em virtude do risco de defaults em série em países mais frágeis da zona euro (os denominados PIGS, designação pejorativa para Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) e em parte do bloco de Leste (Roménia, Bulgária, Hungria) e Báltico (Letónia, Lituânia) aderente da União Europeia. Também a situação envolvente em países como a Ucrânia (com uma alta probabilidade de default; tal como a Grécia no TOP 5 do risco mundial) e na Croácia não tranquilizam a Europa. Em 2011, o grupo de cinco países denominados PIIGS (que inclui, além dos quatro referidos anteriormente, mais a Itália) apresentará 380 mil milhões de euros em necessidades de refinanciamento face a dívidas soberanas que vencem, segundo o “Global Financial Stability Report” do FMI, publicado este mês.

O Japão descerá de 2,4% para 1,8%. O Reino Unido será o país do G7 com a maior subida – de 1,2% em 2010 para 2,1% no ano seguinte.

Cenário mais pessimista foi simulado

O problema do “elo mais fraco” – a Europa – é abordado pelo FMI que admite que “as projecções que elaborou incorporam um efeito negativo modesto [provocado pelas tensões financeiras] sobre o crescimento na zona euro”. O termo “modesto” é um eufemismo para evidenciar que este exercício do FMI está envolto “num contexto de incerteza”.
Aliás, mais adiante, o documento de Perspectivas admite “um cenário mais pessimista” derivado da deterioração da situação nos mercados financeiros.

Uma simulação realizada pelo modelo de projecções do FMI (Global Projection Model), tomando em linha de conta uma situação de contágio negativo nos mercados financeiros, derivado da deterioração na zona euro, aponta para um “corte” de 1,5 pontos percentuais na projecção do crescimento mundial para 2011. Ou seja, em vez de 4,3%, o aumento da produção mundial seria corrigido em baixa para 2,8%, um crescimento muito “modesto”. A simulação não apresenta o impacto no comércio internacional que será muito maior.

Brinde para a zona euro em 2011?

O caso da zona euro seria o mais dramático em 2011 neste cenário – a correcção do crescimento seria na ordem dos 3,5 pontos percentuais, o que provocaria uma reviravolta na situação económica: de um crescimento fraco de 1,3% para uma contracção de 2,2%, menor do que a recessão de 2009 (o produto da zona euro caiu 4,1%), mas digna de ser apelidada de um verdadeiro double-dip (recaída na recessão).

Há interrogação colocada em título, o analista Peter Cohan responde: provavelmente as duas coisas.

O Banco Popular da China (BPC), o banco central de Beijing, decidiu anunciar no passado fim-de-semana um processo de flutuação da sua moeda, o renminbi (RMB, que significa “dinheiro do povo”) ou yuan (a unidade monetária do RMB). Ao fim de 23 meses, a China abandonou a indexação de facto (fixed peg) ao dólar americano, na base de um câmbio fixo de 6,83 RMB por dólar.

Por isso, ontem (21/07), nos mercados asiáticos, o RMB apreciou-se ligeiramente, num só dia, em 0,43%, baixando para 6,7980 contra o dólar. Ou seja, a moeda americana passou a valer menos em divisas chinesas e, portanto, qualquer produto chinês passou a ficar mais caro ligeiramente no mercado americano e em todos os que usem o dólar. Inversamente, qualquer produto ou serviço com o preço marcado em dólares passou a custar menos em moeda chinesa.

A valorização do RMB face ao dólar é de 0,5% em relação à cotação em 1 de Janeiro de 2010. Em relação ao euro, em virtude da desvalorização deste face ao dólar, o RMB já se valorizou em 15% desde o início do ano – a União Europeia é o principal parceiro comercial da China (16,3% em volume).

Os especialistas da Bloomberg apostam numa valorização do RMB na ordem dos 2,9% no espaço de um ano. Da última vez que a moeda chinesa flutuou entre Julho de 2005 e Julho de 2008, o RMB valorizou-se em 21%.

Euforia inicial esvaziou-se

A decisão chinesa começou por ser bem recebida nas bolsas americanas ao começo da sessão de ontem, empurrando o Dow Jones Industrial Average para uma subida de 140 pontos, mas a euforia esvaziou-se rapidamente ao longo da tarde, acabando Wall Street por fechar no vermelho. As principais bolsas asiáticas, hoje, fecharam, também, no vermelho – só escaparam Xangai e Shenzhen, com ligeiríssimas melhorias.

As reacções dividiram-se entre o optimismo cauteloso oficial nos Estados Unidos e na Europa e a dúvida nos analistas, que se agravou à medida que o comunicado do BPC foi lido na íntegra. A flexibilização da taxa de câmbio da moeda chinesa será gradual e o banco central de Beijing adverte que poderá ocorrer “em ambas as direcções”, atendendo ao clima interno e à estratégia internacional de exportação e investimento dos grandes grupos estatais ou para-estatais chineses. Bem como toda a gestão cambial tomará em conta um cabaz de divisas dos principais clientes da China e não, apenas, o dólar, como explicou diligentemente um “perguntas & respostas” do banco central.

Duplicidade de Beijing

O que motivou, então, os chineses? Peter Cohan, analista financeiro em Boston, é de opinião que foi uma “combinação” de dois desígnios: “É tanto um posicionamento face ao G20 deste fim-de-semana em Toronto como um bónus aos trabalhadores chineses. Poderá ser uma mudança real na estratégia económica chinesa, mas só o tempo o dirá”, diz-nos.

O consenso dos analistas internacionais inclina-se para uma manobra táctica dos chineses destinada a retirar da mesa de discussões na cimeira do G20 de 26 e 27 de Junho este tema incómodo de um RMB artificialmente barato. Os chineses querem neutralizar o ruído da acusação de que são “manipuladores de divisas”.

Cohan chama a atenção, no entanto, que pode estar em gestação uma nova estratégia económica em Pequim. “Um renminbi mais forte será mais um factor para esvaziar a bolha interna chinesa”, sublinha o analista americano. Pode ser o começo de um período de “exportação” da inflação interna chinesa para os seus principais clientes mundiais, como já sublinhámos. “Se a divisa chinesa continuar a valorizar-se, os consumidores americanos e europeus pagarão um preço mais elevado pelos produtos chineses. Esta inflação, juntamente com uma maior relutância das autoridades monetárias chinesas em financiar os défices americanos, obrigará a Reserva Federal americana a subir as taxas de juro. O que provocará um abrandamento na economia americana”.

A era de uma superpotência mercantilista, fábrica do mundo, inundando de produtos baratos os países desenvolvidos pode estar a sair de cena nas mentes estratégicas de Beijing. O reverso dessa guinada, como sublinha Cohan, é o ocaso gradual do papel de financiador de último recurso que a China tem desempenhado em relação aos EUA. O banco central da China, recorde-se, nada em 2,45 biliões de dólares (triliões, na nomenclatura anglo-saxónica) de reservas em divisas estrangeiras. “Se a mudança for sustentada, uma moeda apreciada poderá mudar a China de um exportador barato para uma economia movida pelo consumo”, diz Cohan. O comunicado do BPC vai nesse sentido, dando a entender a necessidade de um soft landing da sobreaquecida economia chinesa e de uma deslocação do investimento para os sectores de serviços.

China mantém margem de manobra

Mas todas as medidas de política económica têm efeitos complexos dentro e fora da China, e dentro desta potência geram tensões entre os diferentes grupos de interesses e lóbis que se criaram nos últimos trinta anos a par das reformas capitalistas. Dois bancos chineses estão hoje entre os 10 maiores do mundo em capitalização. O sector exportador vale quase 40% do PIB chinês e cresceu em Maio passado 48,5% em relação ao ano anterior. Para a União Europeia, as exportações cresceram 49,7%.

Depois de um défice pontual em Março na balança comercial chinesa de mais de 7 mil milhões de dólares, o excedente subiu para 19,5 mil milhões no final de Maio. Alguns analistas de comércio internacional alegam que este disparo se deveu a antecipações de encomendas por parte de importadores antevendo a valorização do RMB.

Verso e reverso – no reino da complexidade

A mudança de política cambial chinesa pode ter um senão – os consumidores dos países desenvolvidos, habituados às pechinchas chinesas, deixarem de ser consumidores fiéis; e as marcas globais que vivem da “deslocalização” e subcontratação barata nas fábricas da China procurarem novos fornecedores e localizações. “Se esta procura mundial baixar demasiado, os estragos na economia chinesa poderão levar a uma flutuação mais limitada do renmimbi”, conclui Peter Cohan. As autoridades chinesas pretendem, por isso, manter essa margem de manobra.

Internamente, a moeda valorizada acalmará, segundo muitos analistas, o descontentamento latente do povo – particularmente da população fabril urbana – aumentando o poder de compra, mas o impacto nos custos nominais unitários do trabalho far-se-á sentir, podendo baixar a competitividade internacional do país.

O disparo do consumismo chinês será, sem dúvida, agradável para as marcas internacionais e locais que criaram notoriedade e presença no imenso mercado chinês. Para a balança comercial chinesa, a valorização do RMB significará o pagamento do petróleo e matérias-primas importadas (preço em dólares) mais barato – a China precisará de menos moeda local para pagar o barril de crude.

A Grande Recessão entrou na fase de “deslocação geopolítica global”, diz o Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP)/Europa 2020, um think tank francês de prospectiva, que publica mensalmente um GlobalEurope Anticipation Bulletin (GEAB).

O LEAP adianta que essa fase trará quatro “pontos singulares de colapso” em que qualquer desarranjo num deles provocará o bloqueio do sistema mundial, como numa rede computacional.

Esses quatro pontos são, no entender dos especialistas franceses:
a) a consolidação do problema do endividamento soberano ocidental como “intolerável”;
b) o abandono da retórica e políticas de prioridade à retoma a favor da “estabilidade estrutural” (vulgo programas de austeridade);
c) o início pela China da fase de “exportação” do seu sobreaquecimento económico inflacionário (alimentado em particular pela estratégia mercantilista de exportação baseada em uma moeda subvalorizada artificialmente nos últimos dois anos);
d) a inevitabilidade dos Estados Unidos avançarem para um programa federal de austeridade (arrisca-se o número de 1 bilião de dólares[trilião, na nomenclatura anglo-saxónica] em cortes orçamentais nos próximos 3 a 5 anos) face ao risco de bancarrota de alguns Estados da federação (como se tem observado nos casos mais graves da Califórnia e de Illinois) e ao próprio agravamento político interno com o primeiro teste eleitoral da Administração Obama nas eleições de meio do mandato em Novembro para o Congresso, o Senado, parlamentos estaduais e governadores. A consequência será uma recaída na contracção e uma média anual muito longe dos 3,5% de crescimento em 2010 anunciados pelo presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke.

G20 não é vinha vindimada para os EUA

A principal consequência geopolítica (e esse será o 5º choque), arrisca o LEAP, será a manifesta incapacidade dos Estados Unidos, a primeira potência do mundo, em liderar o G20, de que se começaram a observar sinais na cimeira de Copenhaga em Dezembro de 2009 e, mais recentemente, a 3 e 4 de Junho, na reunião de ministros das Finanças do grupo dos 20 em Busan/Pusan, na Coreia do Sul. A multiplicação, por ora, de alianças à la carte e o aumento de linhas de fractura no G20 poderá ser o resultado. O que este choque geopolítico nos reserva serão as cenas dos próximos capítulos.

Há um dominó da crise interessante: a banca espanhola está “exposta” à dívida portuguesa e a banca francesa e alemã está “exposta” à dívida espanhola. Elos que revela o último relatório do Banco Internacional de Pagamentos (mais conhecido por BIS, Bank for International Settlements).

Portugal era o quarto país no grupo dos PIGS (acrónimo humorístico pejorativo para Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) com maior dívida junto da banca da zona euro, segundo o relatório trimestral do Banco Internacional de Pagamentos (BIS, no acrónimo em inglês) divulgado ontem.

A “exposição” da banca da zona euro ao nosso país, no final de 2009, somava 244 mil milhões de dólares (107% do PIB português em 2009 e cerca de 46% do stock da dívida externa portuguesa no final de 2009, avaliados em dólares).

Os bancos espanhóis eram os mais “expostos” a Portugal, com 45% desse montante. Essa “exposição” espanhola dirige-se em 2/3 ao sector privado não bancário. Seguem-se, por ordem decrescente de exposição ao endividamento português, a banca de França e da Alemanha. Fora da zona euro, a banca americana e inglesa somava uma exposição de cerca de 80 mil milhões de dólares em relação a Portugal.

Nesta dívida de cada país à banca estrangeira estão incluídos os sectores público, bancário, privado não bancário e outros segmentos financeiros (por exemplo, contractos de derivados e garantias).

Razões do nervosismo mundial

Tem subido de tom o nervosismo que percorre a banca europeia face aos riscos de default nos quatro países, apesar das medidas tomadas por Bruxelas em acordo com o Fundo Monetário Internacional aquando da crise de Maio [com a acriação do veículo financeiro especial European Financial Stabilization Facility] e dos vários “pacotes de austeridade” entretanto aprovados ou anunciados, alguns já com efeitos em 2010.

São os bancos sedeados na zona euro que detêm a grande fatia da “exposição” da banca mundial aos quatro PIGS, refere o relatório trimestral do BIS (BIS Quaterly Review, June 2010). A banca mundial está “exposta” em cerca de 2,6 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-saxónica) ao grupo dos PIGS, algo como 16% do PIB da zona euro.

No final de 2009, os bancos da zona euro arcavam com 62% dessa exposição, ou seja tinham a haver cerca de 1,6 biliões de dólares junto dos quatro países da zona euro sujeitos a maior stresse financeiro nos mercados da dívida e cujas probabilidades de default (de incumprimento da dívida soberana) variam hoje entre quase 18-19% (Espanha e Irlanda) e mais de 48% (Grécia).

Banca francesa e alemã de olho em Espanha

O país com maior dívida junto dos bancos da zona euro é Espanha que “absorve” 727 mil milhões de dólares (46% da exposição total dos bancos da zona euro), seguida a alguma distância da Irlanda, com 402 mil milhões (25%), de Portugal com 244 mil milhões (15%) e Grécia com 206 mil milhões (13%).

Os bancos franceses estão expostos em 50% a Espanha, e sobretudo ao sector privado não bancário, enquanto os bancos alemães estão expostos em 43% ao nosso vizinho, mas sobretudo ao sector bancário espanhol.

Por isso, o tema “Espanha” e todos os rumores que têm campeado esta semana sobre a eventual negociação em curso de uma intervenção “à grega” num montante de 250 mil milhões de euros (1/3 da provisão para empréstimos disponível na Facilidade Financeira Europeia de Estabilidade) estão a deixar a banca francesa e alemã à beira de um ataque de nervos, como se pode observar nos reflexos na imprensa local.

Compreende-se que Espanha seja um tema mais sensível que Grécia – pesa, literalmente falando, mais de três vezes na banca europeia. Os “estouvados” da periferia foram financiados por provavelmente alguns “loucos” bancos do núcleo central da zona euro. Actuar junto do receptor ajudará a resolver os problemas a montante.

No caso específico da Irlanda, são os bancos ingleses os mais expostos em particular em relação ao sector privado não bancário.

A dívida pública conta com uma pequena parcela nesta situação – apenas 16% da “exposição” agregada da banca da zona euro ao conjunto do grupo dos PIGS.

No caso português, a banca francesa está exposta ao sector público português em 21 mil milhões de dólares e a banca alemã em 10 mil milhões. Migalhas no stock de mais de 530 mil milhões de dólares de dívida externa bruta total do país em finais de 2009.

A cimeira de ministros e de banqueiros centrais, que terminou sábado na Coreia do Sul, revelou um xadrez muito complexo de temas fracturantes que dividem o grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico. As coligações são, por ora, claramente ad hoc em muitos assuntos, mas a força da China, Brasil, Índia e até do Canadá e Coreia do Sul revela-se.

Para além do discurso politicamente correcto do comunicado final saído da cimeira de ministros de Finanças e Economia e de banqueiros centrais do G20 (grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico no mundo), reunidos ontem e hoje no porto de Busan (ou Pusan), na Coreia do Sul, o ambiente foi de discussões “muito quentes”, como deixou passar para os media Shin Je-Yoon, o vice-ministro das Finanças para os assuntos internacionais do país anfitrião.

«Distracção», acusa o Canadá

Um dos temas que gerou expectativa foi o da iniciativa americana e alemã de um imposto sobre transacções financeiras que alimentasse um fundo para futuros resgates em caso de crise financeira.

O que poderia pensar-se ser pacífico, não o é. Os “fat cats” da alta finança, como lhes chamou Obama, são hoje um alvo politicamente fácil. Mas a ideia encontrou a resistência determinada do Canadá, Brasil, Índia, Austrália e Japão. O ministro canadiano, Jim Flaherty, que surgiu como líder da oposição, acusou mesmo a ideia de ser uma “distracção” em relação “aos problemas de fundo”.

O que está em jogo neste tema fracturante é que uma parte do globo – que não se considera responsável pela crise financeira e que hoje está a começar a dar cartas na geopolítica – não pretende penalizar os seus sistemas financeiros locais que estão em plena ofensiva global, aproveitando as vulnerabilidades dos eixos financeiros incumbentes de Nova Iorque, Londres e Frankfurt.

Os relatos sobre esta discussão são abertamente contraditórios, consoante o ponto geográfico do mundo que os emite. Na Ásia (siga a cobertura pelo The Korea Times) dá-se o assunto desta taxa como encerrado, como não tendo sido incluído sequer na agenda da próxima cimeira de alto nível do G20 em Toronto, no Canadá, a 26 e 27 de Junho. Outros, na Europa e nos EUA, afirmam que o tema regressará, pois é um ponto de honra, sobretudo do secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, e colocam esperanças no relatório que o Fundo Monetário Internacional deverá apresentar em Toronto.

Consolidação orçamental tem apoio maioritário

Outro tema fracturante foi a questão da consolidação orçamental, suscitada pelo alastrar da crise da dívida soberana na União Europeia. Aqui as “coligações” de interesses são curiosamente distintas.

Americanos, franceses e Banco Central Europeu (BCE) repetem em uníssono que a Europa deu os passos adequados e alertam que a consolidação orçamental não pode ser cega nem exagerada, aumentando o risco de uma recaída na recessão.

Por seu lado, os alemães e os asiáticos – ao que parece apoiados por “uma corrente maioritária” no G20, confessou, desapontada, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde – insistem que a consolidação orçamental é a prioridade número um. O Brasil e a China teriam mesmo expressado sérias dúvidas sobre a gestão do problema na Europa.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, garantiu, no final, falando para os mercados financeiros que reabrem na segunda-feira, que teria havido um entendimento “muito bom” sobre o problema. O comunicado final bate palmas, logo no segundo ponto, à acção da União Europeia, do BCE e do FMI na questão.

Fogo sobre o mercantilismo

As alianças ad hoc voltam, de novo, a mudar quando chegamos ao tema da dinamização do comércio internacional e da procura mundial. O secretário do Tesouro americano defendeu que os principais exportadores mundiais de bens com superávites nas suas balanças comerciais (onde se encontram a China, líder mundial da exportação em 2009, Alemanha e Japão) deverão favorecer a importação, facilitando a exportação por parte dos deficitários, e abandonar as suas políticas mercantilistas. O que, naturalmente, não agrada aos visados.

Sobre o tema de fundo da regulação bancária e do sistema financeiro “sombra”, a cimeira de Busan chutou, de novo, o problema para os próximos encontros. Novas regras para exigir transparência às agências de notação, à actuação dos hedge funds e ao uso dos derivados continuam em estudo. Também para a cimeira do G20 em 11 e 12 de Novembro, em Seul, se espera que a Comissão Basel sobre Supervisão Bancária apresente as novas normas com que terão de se coser os bancos, no sentido de restringir o vício da excessiva alavancagem associada às vagas de financeirização desde 1860 e às crises financeiras graves que provocou desde essa altura.

Uma coisa é certa: o FMI vai ter de mudar

Um ponto político parece impor-se: o da urgência de reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI). À margem da cimeira, Coreia do Sul e Brasil assinaram um entendimento sobre a modificação da correlação de forças no FMI (que afectará sobretudo a “representação” dos países europeus) e Seul aproveitou para vender aos brasileiros o seu know how na organização do Campeonato Mundial de 2002 e dos Jogos Olímpicos de 1998. O Brasil, como se sabe, está a organizar o Mundial de 2014 e os Jogos de 2016.
Está convocada nova reunião de ministros e banqueiros para 22 e 23 de Outubro, de novo, na Coreia do Sul.

SEMANA CONTURBADA ENVOLVE A CIMEIRA

O clima escaldante nas reuniões à porta fechada e nos bastidores derivou do contexto específico em que reuniu o G20 em Busan: as contingências da própria semana falam por si. A crise da dívida soberana na Europa “alargou-se” a vários países do Leste, com o incidente mais gravoso na Hungria. Uma má “tradução” de declarações oficiais incendiou os investidores do mercado de credit default swaps sobre a dívida (empurrando a Hungria para dentro do TOP 10 mundial de maior risco de default) e provocou um mini-crash nas bolsas europeias e em Wall Street e Manhattan (Nasdaq), como aqui analisámos no Geoscópio.

No Mediterrâneo oriental, Israel e Gaza voltam a ser um ponto quente no mundo dos conflitos regionais que podem degenerar em algo mais vasto, e a própria península coreana, onde a cimeira se realizou (e onde próximas reuniões até final do ano se irão realizar), continua sob risco permanente das manobras regulares do vizinho de Piongiang. Em Maio, recorde-se, o clima regional aqueceu com o episódio do afundamento de um navio sul-coreano por parte dos norte-coreanos.

Qualquer surpresa nestes quadrantes da geografia pode provocar um impacto decisivo no curso da actual crise. “Cisnes cinzentos”, chamam-lhes os analistas.

Para terminar, nas vésperas da cimeira, o Japão mudou de primeiro-ministro, inesperadamente. O ministro das Finanças, Naoto Kan, e líder do Partido Democrático do Japão, passou a primeiro-ministro – o 6º em quatro anos apenas – e em Busan quem acabou por aparecer foi o vice-ministro das Finanças.

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