Gestão do risco


Foi a surpresa da semana. Chipre saiu da sombra da crise grega para o 2º lugar no TOP 10 dos países com mais alta probabilidade de incumprimento da sua dívida num horizonte de cinco anos (o que temos designado de “clube da bancarrota”). Ultrapassou sexta-feira nove membros do “clube” de um só golpe com o risco a disparar para 62,23%, segundo dados da CMA DataVision. O preço dos credit default swaps (seguros financeiros contra o risco de incumprimento) atingiu os 1150 pontos base, a uma distância de menos de 150 pontos do custo dos cds para a dívida portuguesa.

Chipre veio fazer companhia a Portugal no topo do “clube”. A diferença de risco entre os dois países é de pouco mais de 3 pontos percentuais e a distância para o terceiro e o quarto “classificados”, o Paquistão e a Irlanda, é de quase vinte pontos percentuais.

Segundo o Cyprus Mail, de Nicósia, dois fatores convergiram para o disparo de sexta-feira que tornou Chipre o protagonista do dia. O ministro das Finanças, Kikis Kazamias, pediu a demissão, dias depois da agência de notação Moody’s ter cortado o rating da dívida cipriota para o estatuto de “especulativa” (vulgo “lixo”), baixando a notação de Baa3 para Ba1, e adicionando uma perspetiva negativa (o que significa que poderá voltar a cortar a notação). Já anteriormente a Standard & Poor’s (S&P) havia cortado a notação para BB+, em terreno especulativo.

Comparativamente, a notação da dívida portuguesa desceu, desde fevereiro, para Ba3 (dois níveis abaixo da cipriota), segundo a Moody’s, e para BB (um nível abaixo do cipriota), desde janeiro, segundo a S&P.

Exposição à Grécia e financiamento russo

As razões deste corte de notação derivam da enorme exposição da banca cipriota à Grécia. Estima-se que a recapitalização dos bancos cipriotas exija um esforço equivalente a 20% do PIB da pequena economia insular do Mediterrâneo Oriental. Chipre pode ser a principal vítima da reestruturação parcial da dívida grega e o primeiro elo do “contágio”.

A terceira mais pequena economia da zona euro, com um PIB anual de apenas 17 mil milhões de euros, sobrevive graças a um empréstimo bilateral da Rússia de 2,5 mil milhões de euros. Desde maio de 2011 que Chipre não consegue emitir dívida junto dos mercados financeiros.

As yields (juros) dos títulos cipriotas a dez anos estão em 13%, segundo a Reuters, um nível no mesmo patamar dos juros das obrigações do Tesouro português com a mesma maturidade, que fecharam na sexta-feira em 13,66%.

A partir de 1 de julho, Chipre assume, por um semestre, a presidência do Conselho da União Europeia.

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, acusa as políticas monetárias de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação técnica em inglês) da Reserva Federal norte-americana (Fed) e de fornecimento de liquidez a 3 anos a 1% (conhecida por LTRO) do Banco Central Europeu (BCE) como armas “protecionistas” dos países ricos tentando gerar desvalorizações cambiais artificiais das suas divisas e ameaçar as economias emergentes com o risco de arbitragem (exploração de diferenças de preço entre instrumentos financeiros similares ou idênticos).

“O problema é que essa desvalorização cambial artificial é a forma de protecionismo mais feroz que se tem. Há um discurso dos países centrais de que são defensores do comércio livre, mas praticam o protecionismo mais feroz que se tem. E essa desvalorização artificial da moeda não está regulada pela Organização Mundial do Comércio. Então, não venham reclamar de algumas medidas absolutamente defensivas que o Brasil toma”, refere Dilma Rousseff em entrevista a Luis Nassif, publicada no portal online deste jornalista.

Dilma referia-se ao “alívio quantitativo” prosseguido por Ben Bernanke, o presidente da Fed, no sentido de “empurrar a crise com a barriga”, bem como, no caso da Europa, a estratégia de “desvalorizar o euro e jogar a conta sobre os países emergentes que têm câmbio flutuante”. Estas injeções de liquidez, diz Dilma Rousseff, não entraram na economia real. Estão criando uma enorme bolha monetária, sublinha a presidente brasileira.

Esquizofrenia europeia

“Hoje em dia, via tsunami monetário, está em curso, no mundo, a prática das desvalorizações competitivas, o que se chama de empobreça o seu vizinho. É uma situação esquizofrénica na Europa, que não consegue uma solução de crescimento. Muitos países estão com graus de desemprego do ponto de vista político incompatíveis com sistemas democráticos abertos. A dívida grega não é financiável, assim como a de Portugal”, refere, ainda, a presidente.

“No caso da Europa são um bilião de euros emprestados a 1% ao ano, que em breve entrarão na ciranda financeira. Irão investir em títulos da Itália e de Espanha, aumentando sua exposição? Não, Virão fazer arbitragem aqui e em outros países [com câmbio flutuante]. Temos uma enorme bolha a caminho”, afirma na entrevista. Dilma refere-se ao programa de liquidez LTRO a 3 anos impulsionado por Mário Draghi, o novo presidente do BCE, que já realizou duas operações em final de dezembro do ano passado e em final de fevereiro deste ano. Este programa é conhecido como a “bazuca” de Draghi.
Recessão com excesso de liquidez

E deixa um vaticínio: “Aqui não temos dúvida que a economia mundial caminha para a recessão com excesso de liquidez”. A que acresce a viragem de grandes economias para “uma tendência a uma volta aos mercados domésticos”, o que já seria visível com a China, ao decidir abrandar a meta de crescimento (para 7,5% em 2012, abaixo do limiar mágico dos 8%) e mudar o modelo económico do apoio na exportação para o fortalecimento do mercado interno.

E o que fará o Brasil? “Vai institucionalmente tomar medidas para garantir que o nosso mercado interno não seja canibalizado”. Uma das medidas já tomadas pelo Banco Central do Brasil foi a da redução dos juros. O diferencial entre os juros brasileiros (taxa Selic com meta em 9,75%) e os juros de referência de países ricos (como o Fed funds rate atualmente em 0,25% variando entre 0 e 0,25% ou a fixed rate- taxa principal de refinanciamento de operações do BCE em 1%) é responsável pela maior arbitragem que existe no mundo. A 7 de março, na semana passada, o Copom (Comité de Política Monetária) decidiu reduzir a taxa Selic para 9,75%. Em janeiro, o Copom havia cortado a taxa Selic de 11% para 10,5%.

Sétima potência económica do mundo

Apesar de ser um dos quatro BRIC (acrónimo criado por Jim O’Neill da Goldman Sachs em 2001 para as quatro grandes economias emergentes), o Brasil tem manifestado um crescimento com oscilações importantes, desde o início da crise financeira em meados de 2007: o produto interno bruto cresceu 5,7% em 2007; abrandou para 5,1% em 2008; entrou em recessão ligeira em 2009, com um decréscimo de 0,6%; retomou significativamente, com um crescimento de 7,5% em 2009; para ter um abrandamento abrupto, para uma taxa de crescimento de 2,9% em 2011. A previsão para 2012 é de um crescimento de 3%.

O Brasil, no entanto, subiu do 14º lugar na economia mundial em 1970 para 10º em 1990 e 7º em 2010. Segundo, O’Neill, depois da China é a mais espantosa história de crescimento das últimas duas décadas. Contudo, devido às oscilações do seu crescimento, não está entre os cinco países/zonas monetárias que mais contribuíram para o crescimento do PIB mundial na década de 2000 a 2010, onde se classificaram a China (contribuindo 22,12% para o aumento do PIB mundial), União Europeia (14,46%), Estados Unidos (14,24%), Índia (7,74%) e Rússia (3,46%).

O preço do barril de Brent, o petróleo de referência na Europa, atingiu terça-feira (13 de março) os 96,63 euros, no valor de fecho, segundo dados do Finanzen.ch. Durante o dia havia atingido 97,04 euros, o segundo valor mais alto, depois desse máximo intra-diário ter sido fixado em 98,27 euros no dia 1 de março. Hoje, o preço do barril abriu ligeiramente em baixa.

A atenção na Europa deixou de se focalizar no preço em dólares do Brent, que está num patamar de 125 dólares por barril. Apesar do preço em dólares ainda estar longe dos máximos do verão de 2008 (perto dos 147 dólares por barril de Brent), em virtude da variação no cambio entre o euro e o dólar, o contravalor em euros do preço do barril de Brent está hoje mais alto do que na altura do “choque petrolífero” de meados de há quatro anos.

A Europa está a viver um verdadeiro “choque petrolífero” regional.

Em Paris, pela primeira vez, a gasolina sem chumbo de 95 octanas atingiu um preço de 2,02 euros por litro numa estação de serviço do 4º bairro.

É a primeira reação pública de investidores que não aceitaram a proposta do governo de Atenas para a reestruturação da dívida grega nas mãos de credores privados. A associação alemã de defesa dos pequenos investidores SDK declarou que, em nome dos seus associados, está a estudar processar a Grécia.

O governo de Atenas decidiu na sexta-feira acionar as designadas cláusulas de ação coletiva (conhecidas pelo acrónimo CAC) que permitem forçar a reestruturação parcial da dívida grega junto dos credores privados sujeitos à lei grega que não aceitaram a proposta de troca de títulos com um “corte-de-cabelo” no valor dos títulos de 53,5%.

Europa, República das bananas?

Segundo a SDK, esta decisão de forçar os detentores de títulos gregos que não se “voluntariaram” viola os princípios fundamentais do direito. O que será “um sinal fatal” que transformará a Europa “numa República das bananas”, nas palavras de Daniel Bauer, diretor da SDK. A associação prevê “um processo judicial que durará vários anos e que acabará certamente no Tribunal de Justiça Europeu”.

A probabilidade de incumprimento da dívida soberana de Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica e Áustria continua a agravar-se numn horizonte de cinco anos, segundo dados da CMA DataVision para a abertura de hoje. Portugal, Irlanda e Espanha pertencem ao “clube” dos 10 países com mais elevada probabilidade de entrarem em default, que é liderado pela Grécia.

A agência Reuters divulgou hoje que o Institute of International Finance (IIF), o lóbi internacional de credores privados das dívidas soberanas, calcula que um incumprimento “desordenado” na Grécia provocará um impacto de mais de um bilião de euros, colocando a Espanha e a Itália no corredor dos países da zona euro com necessidade de assistência financeira, além da necessidade de um segundo pacote de resgate a Portugal e a Irlanda.

O documento do IIF, intitulado “IIF Staff Note: Confidential”, e datado de 18 de fevereiro, refere, nas contas, que Portugal e Irlanda necessitariam de mais 380 mil milhões de euros durante cinco anos, enquanto Espanha e Itália teriam de ter uma ajuda imediata anti-contágio de 350 mil milhões de euros. Custos adicionais de recapitalização de bancos somariam 160 mil milhões de euros.

Apesar do IIF manter um discurso externo de que a negociação da troca de títulos está a correr bem, e que 12 grandes detentores de títulos gregos já estão envolvidos no acordo representando 90 mil milhões de euros de títulos (em 205 mil milhões de euros nas mãos de privados), multiplicam-se os rumores de que o nível de adesão “voluntária” poderá não atingir na quinta-feira a meta colocada pelo governo grego. Segundo uma fonte anónima da troika que acompanha a Grécia, citada pelo Financial Times Deutschland, o governo de Atenas terá de acabar por desencadear o processo de cláusulas de acção colectiva (CAC, obrigando todos os credores privados com dívida sob jurisdição grega), pois a participação “voluntária” será insuficiente. O jornal alemão alvitra que se a participação for inferior a 2/3, Atenas não poderá ativar as CAC e todo o negócio de reestruturação de 53,5% do valor da dívida em mãos de credores privados poderá ir por água abaixo. É este cenário pessimista que motiva os receios secretos do IIF.

Além da incerteza sobre o desfecho da negociação da reestruturação parcial da dívida grega, têm-se avolumado duas situações adicionais de stresse, na Irlanda e em Espanha.

Irlanda e Espanha em foco

A Irlanda deverá realizar um referendo sobre o “compacto orçamental” (o novo tratado assinado na semana passada por 25 membros da União Europeia) em maio ou junho, num contexto em que a agência de notação Moody’s prevê que se torne clara a necessidade de um segundo pacote de resgate a Dublin. As sondagens já realizadas apontam para uma vitória do “sim”.

A Irlanda já gastou 2/3 dos 67,5 mil milhões de euros do primeiro pacote de resgate aprovado em novembro de 2010, previsto para cobrir as necessidades de financiamento até finais de 2013. A Moody’s refere, no entanto, que a Irlanda terá dificuldades em se financiar na totalidade nos mercados da dívida em 2013. O governo de Dublin pretende testar a situação ainda no final deste ano, se os juros dos títulos no mercado secundário derem indicações positivas. Neste momento, as yields dos títulos irlandeses a 9 anos – dado que os títulos a 10 anos não têm estado em negociação no mercado secundário desde outubro de 2011 – estão ligeiramente abaixo do limiar crítico dos 7%, e as yields dos títulos a 5 anos situam-se ligeiramente acima de 5,1%.

Soube-se, também, hoje que a Irlanda poderá atrasar um pagamento de promissórias emitidas para financiar os resgates do Anglo Irish Bank e do Irish Nationwide, num total de 3,1 mil milhões de euros que vencerá a 31 de março. O governo de Dublin poderá ser autorizado a emitir novas promissórias ou reestruturar estes títulos, diz a agência Markit.

Outra situação que irrompeu recentemente foi a de Espanha, um país que tinha saído das luzes da ribalta da crise da dívida em finais de setembro do ano passado. O novo governo de Madrid teve de “rever” a meta do défice orçamental para 2012 imposta por Bruxelas subindo-a de 4,4% para 5,8% do PIB. Mesmo assim trata-se de obter uma redução brutal do défice, que atingiu 8,5% em 2011. Segundo o jornal El País, a componente estrutural do défice terá de ser cortada, este ano, de 7% para 3,5% do PIB, ou seja para metade. O ajustamento a ser realizado este ano somará 29,5 mil milhões de euros, com o país em recessão (estimativa de 1% de descida do PIB) e o desemprego (22,85% da população ativa no final de fevereiro, segundo a última Encuesta de Población Activa, mais de 5 milhões de desempregados) nos mais altos níveis da União Europeia.

Depois de ter “ultrapassado” na sexta-feira a Itália no nível de risco de incumprimento da dívida soberana, Espanha reentrou hoje no “clube da bancarrota” (o TOP 10 dos países com maior probabilidade de entrarem em incumprimento num horizonte de cinco anos), de onde saíra em 23 de setembro de 2011.

O risco de incumprimento de Espanha abriu hoje em 27,88%, acima do fecho na sexta-feira (27,22%) e já com algum distanciamento do risco italiano, que abriu hoje em 26,99%, segundo dados da CMA DataVision. A meio da manhã, o risco de incumprimento da dívida espanhola subiu para 28,5%.

A atenção dos mercados da dívida regressou a Espanha, um dos “elefantes” na loja de porcelanas da zona euro. Para a Eurointelligence, a forma como a dívida espanhola está a ser encarada nos mercados de derivados é o primeiro sinal do falhanço do “compacto orçamental”, assinado na quinta-feira passada. A clara opção política de Madrid por uma política mais gradualista de austeridade, “revendo” a meta “irrealista” de défice orçamental imposta por Bruxelas para 2012, sinalizou aos investidores que a situação de Espanha é mais grave do que a versão oficial europeia pretendia.

Risco português continua a subir

Este movimento de subida do risco espanhol é acompanhado por uma subida conjunta de Portugal (o risco ascendeu a 63,43% e com mais de 1200 pontos base no preço dos credit default swaps, seguros contra o risco de incumprimento), Irlanda, Itália, Bélgica, França e Áustria.

Apenas a Grécia abriu ligeiramente em baixa, mantendo, no entanto, a probabilidade de default acima de 96%. Os mercados da dívida aguardam no próximo dia 8 de março (quinta-feira) os resultados da participação dos credores privados na operação de oferta de troca de títulos no âmbito da reestruturação parcial da dívida grega. O governo grego apontou para um limiar mínimo de participação dos credores privados na ordem dos 75%. Os rumores mais díspares sobre se tal limiar foi já atingido ou não influenciam os investidores nos mercados de derivados financeiros.

No “clube da bancarrota” estão, agora, presentes a Grécia, que lidera, Portugal em segundo lugar, a Irlanda na sétima posição e Espanha no décimo lugar. Itália que havia entrado no “clube”, no ano passado, desde o início da agonia do governo Berlusconi, saiu em final de fevereiro.

Acto I: Ainda as assinaturas no novo “compacto orçamental” estavam frescas e já a probabilidade de incumprimento num horizonte de cinco anos das dívidas soberanas dos designados “PIIGS” (acrónimo jocoso para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) e de França subia.

Segundo dados da CMA DataVision para o encerramento dos mercados da dívida na sexta-feira (2 de março), os riscos de default (incumprimento) dos “periféricos” da zona euro e de França – um dos países do “centro” e considerado um pilar do eixo franco-alemão – fechava a semana com valores mais altos do que os do fecho de quinta-feira.

A situação agravou-se mais acentuadamente nos casos da Irlanda e de Espanha. O risco de incumprimento da dívida irlandesa subiu na sexta-feira mais de um ponto percentual, apesar do visto dado pelo Fundo Monetário Internacional ao andamento do cumprimento do acordo do plano de resgate.

O referendo ao “compacto orçamental” (que o governo irlandês assinou na quinta-feira em Bruxelas) deverá realizar-se em maio ou junho, o que deixa uma nuvem de incerteza.

O risco irlandês subiu para 39,73% quando no final da semana passada era de 38,46%. A Irlanda mantém-se na 7ª posição do “clube da bancarrota” (o TOP 10 de países com mais alta probabilidade de incumprimento, segundo o monitor da CMA DataVision).

Semente de rebelião?

No caso de Espanha, o risco subiu um ponto percentual, colocando o país ibérico à beira do limiar de entrada no “clube da bancarrota”, cujo 10º lugar é ocupado pelo Líbano com um risco de default na ordem de 27,82%. O risco da dívida espanhola fechou esta sexta-feira em 27,40%. Deste modo, Espanha “ultrapassou” Itália, algo que não sucedia desde agosto do ano passado.

O governo espanhol viu-se obrigado a rever a meta de défice orçamental para 2012 fixada em anterior acordo com Bruxelas em 4,4% para 5,8% do PIB, em virtude dos riscos de agravamento da situação económica e social e de manifesto “irrealismo” da meta anterior.

Tal meta anterior era inclusive mais baixa do que o valor que está previsto para a Holanda este ano, segundo o Netherlands Bureau for Economic Policy Analysis, que deverá chegar aos 4,5% do PIB.

A Markit viu na posição do governo espanhol a “primeira semente de uma rebelião”. O jornal espanhol ABC titula em capa na edição de sábado: “Rajoy marca o seu território”. A agência Eurointelligence considerava, também, na sexta-feira, que o “compacto orçamental” já “estava em colapso em Espanha” logo com poucas horas de vida.

Situação grega e portuguesa agrava-se

O risco de incumprimento grego continua no corredor para os 100% (iminência de default). Hoje fechou em 96,68% e o custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento, acrónimo cds) disparou para mais de 24.000 pontos base, fixando novo recorde. Os “pontos à cabeça” (points upfront, que funcionam como um indicador do pagamento à cabeça necessário para um contrato de cds ser estabelecido) subiram para 75, numa escala de 1 a 100. Há uma semana, o custo dos cds era de menos de 14.000 pontos base e os “pontos à cabeça” estavam em 72.

O comportamento destes indicadores está marcado pelo andamento do processo de reestruturação parcial da dívida grega. O limite para o processo de aceitação da troca de títulos pelos credores privados está fixado nas 20h (hora de Atenas) da próxima quinta-feira dia 8 de março. Nessa ocasião se averiguará qual o grau de adesão dos credores privados (que detém €206 mil milhões em títulos soberanos) ao acordo proposto pelo executivo de Lucas Papademos. Segundo o jornal grego online Bankingnews, a adesão dos credores privados rondará os 68 a 72%.

Sinal da situação indefinida da Grécia, o segundo pacote de resgate só foi, na prática, parcialmente aprovado pela cimeira. Apenas €73,5 mil milhões foram aprovados – €35,5 mil milhões como “adoçantes” para os participantes no acordo de reestruturação; €23 mil milhões para a recapitalização dos bancos gregos na sequência do corte de cabelo no valor dos seus portefólios em títulos gregos; e mais €35 mil milhões para assegurar o acesso dos bancos gregos aos instrumentos de liquidez do Banco Central Europeu. O restante montante aguarda conclusão das 38 medidas “prévias” exigidas pela cimeira europeia.

No caso português, e apesar da aprovação pela troika do andamento do programa de resgate (ainda que tenham sido sublinhadas internacionalmente as declarações do novo representante do Fundo Monetário Internacional), o risco de incumprimento subiu de 60,81% há uma semana para 62,82% no fecho de hoje.

A Grécia continua a liderar o “clube da bancarrota” e Portugal encontra-se na segunda posição.

O risco de incumprimento da dívida italiana subiu para 26,5% e o de França para 13,64%.

Acto II: A semana foi penalizadora para a dívida portuguesa no mercado secundário. As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) fecharam, na sexta-feira, em alta em todas as maturidades em relação ao fecho do dia anterior e atingiram valores, também, superiores aos de há uma semana.

Os juros das OT a 2 anos que haviam fechado a semana passada em 12,92% subiram para 13,11% no fecho de sexta-feira (2 de março). Os juros das OT a 3 anos que haviam fechado em 15,18% há uma semana, fecharam agora em 16,51%. Os juros das OT a 5 anos que fecharam em 15,36% há uma semana, fecharam em 16,68% esta sexta-feira. No caso das OT a 6 anos, a evolução dos juros foi de 15,74% para 16,86%; e, no caso das OT a 10 anos, a variação foi de 12,77% para 13,81%, naquele período. O agravamento é claro em todos os prazos.

O prémio de risco em relação à dívida alemã subiu para 12 pontos percentuais no final de sexta-feira.

Estes valores estão, no entanto, abaixo dos máximos históricos ocorridos a 30 de janeiro.

Espanha “ultrapassa” Itália

O outro facto importante da semana tem a ver com Espanha. Os juros das obrigações espanholas (OE) no prazo a 10 anos igualaram hoje os juros dos títulos do Tesouro italiano (BTP), o que já não acontecia desde agosto do ano passado. Desde a agonia do governo Berlusconi, em Roma, que os juros dos BTP tinham ultrapassado os juros das OE, colocando Itália numa situação de maior stresse do que Espanha.

Os juros das OE a 10 anos fecharam hoje em 4,91%, valor idêntico ao dos juros dos BTP no mesmo prazo. Trata-se, no entanto, de um valor muito abaixo do limiar crítico dos 7%, pelo que a situação não é, ainda, de alarme.

A conclusão de que Espanha não conseguirá alcançar o objetivo do défice orçamental para 2012 (previsto por Bruxelas para baixar para 4,4% do PIB, mas que o governo de Mariano Rajoy “reviu” para 5,8%) tornou mais transparente para os investidores da dívida a situação difícil de Madrid. A recusa de Rajoy em enveredar por uma política de redução orçamental excessiva que agrave ainda mais a situação económica do país lançou hoje um primeiro sinal, segundo a Markit, de que poderemos estar a assistir a umas primeiras “sementes de rebelião” na zona euro.

Apesar dos bancos espanhóis terem injectado em janeiro €22,8 mil milhões na aquisição de obrigações espanholas, sendo o mais elevado movimento de aplicações na dívida soberana na zona euro por parte de bancos (superior aos €20,8 mil milhões no caso de Itália), a situação da dívida espanhola não viu os seus elementos fundamentais serem alterados. Os analistas atribuem essa injeção ao dinheiro emprestado aos bancos espanhóis no âmbito da linha de liquidez do Banco Central Europeu a 3 anos designada por LTRO, cuja primeira operação decorreu em dezembro. A segunda operação decorreu. agora, em 29 de fevereiro. No caso português, em janeiro, os bancos portugueses desinvestiram, em termos líquidos, das obrigações do Tesouro.

As especulações sobre um novo “relaxamento” da política monetária chinesa já dominavam os media há algum tempo. Finalmente concretizaram-se. Esta semana, o banco central – o Banco Popular da China – deu mais um passo. Baixou o rácio de reservas para os grandes bancos em mais meio ponto percentual, para 20,5%. “Trata-se de um claro sinal de uma política de expansão da oferta de moeda para evitar uma queda no crescimento económico da China, no contexto atual de uma complicada situação internacional e doméstica”, diz-nos Xu Hong Kai, professor da Universidade de Pequim e dirigente do China Center for International Economic Exchanges, o mais importante grupo de reflexão chinês.

Em final de novembro do ano passado, o banco central já havia tomado esse caminho, interrompendo a estratégia de aperto da política monetária que vinha seguindo desde 2009, procurando contra-atacar a inflação, particularmente nos produtos do cabaz alimentar, e a “bolha” imobiliária. Em 2011, o banco central havia aumentado o rácio das reservas bancárias em seis momentos e mexido três vezes nos juros dos depósitos e dos empréstimos. Na altura, o banco central baixou o rácio de reservas dos grandes bancos de 21,5% para 21% e dos pequenos bancos para 19%.

Onda internacional

Estima-se que a decisão do banco central permita alargar a capacidade de financiamento da economia em €41,7 a 47,8 mil milhões. Alguns analistas falam de mais descidas nos próximos seis meses. O movimento dos banqueiros centrais chineses junta-se a uma onda de “alívios quantitativos”, com diferentes desenhos, em vigor. A Reserva Federal norte-americana mantém a “Operação Twist” e deu indicação de que manterá o nível de juros próximo de 0% até bem dentro de 2014. O Banco de Inglaterra anunciou recentemente uma extensão em mais 50 mil milhões de libras (€59 mil milhões) do seu programa de “alívio quantitativo”. O Banco Central Europeu, apesar de repudiar as estratégias de “alívio quantitativo”, lançou um programa adicional de fornecimento de liquidez à banca da zona euro conhecido por LTRO a 3 anos, cuja primeira operação foi em dezembro e a próxima agora no final de fevereiro.

Esta onda internacional pretende evitar o regresso de uma recessão mundial ou impedir agravamento de situações de recessão económica em alguns países ou de estagnação. No caso da China, a dor de cabeça é a taxa de crescimento. Há um limiar sagrado, a que os chineses chamam baobá, de 8%, um limiar abaixo do qual o crescimento anual não poderá descer, sob pena de colocar em risco toda a estratégia económica do país desde a revolução capitalista de Deng Xiaoping no final dos anos 1970.

A trajetória tem sido descendente: “A economia chinesa cresceu 9,2% em 2011, abaixo dos 10,3% de 2010. Entretanto no quarto trimestre de 2011 baiou para 8,9%, o crescimento mais baixo nos últimos dez trimestres. A previsão para 2012 é ainda mais baixa, uma média anual de 8,5%. Recentemente, as pequenas e médias empresas manifestaram problemas de financiamento e a crise externa, com a crise da dívida europeia e a alta taxa de desemprego nos Estados Unidos, tiveram impacto na procura de produtos chineses. O comércio bilateral entre a China e a União Europeia caiu mais de 7% em janeiro deste ano”, refere-nos Xu.

Quatro desafios

O problema de fundo é o da transição de um “modelo” económico para outro. “O abrandamento do crescimento reflete a enorme dificuldade em mover o modelo orientado para a exportação noutra direção”, diz Xu, que vê “quatro desafios pela frente”.

O primeiro tem a ver com a dinamização do consumo interno, tanto mais que há uma desigualdade crescente nos rendimentos – “um problema ainda mais sério que pode ameaçar a estabilidade social e a sustentabilidade do desenvolvimento económico”, sublinha o académico. “O objetivo de estimular o consumo das famílias continua difícil”, conclui.

O segundo desafio é lidar com os efeitos das crises externas. O que se liga com o problema da mudança do modelo. “Até agora a economia chinesa continua baseada nas exportações e no investimento governamental em capital fixo”, alerta o economista.

O terceiro é a dívida interna muito elevada dos governos locais. “Um legado do plano de estímulos de €440 mil milhões que levou a investimentos em grandes projetos de infraestrutura que, provavelmente, conduziram a crédito mal parado dos bancos”, adianta. Xu toca no que considera um ponto fulcral: “O governo protegeu excessivamente os interesses do sector bancário, o que prejudicou, até certo ponto, os interesses das famílias e das empresas. E, desse modo, essa política distorceu a estrutura económica”.

Finalmente, há o desafio da competitividade, sobretudo das empresas privadas. Estas começaram a lidar com o problema do aumento dos custos do trabalho e da apreciação progressiva da moeda chinesa e até há algum tempo atrás com a falta de financiamento. Uma tenaz que requer ser eliminada.

O governo chefiado pelo tecnocrata Lucas Papademos acabou por aprovar por unanimidade, sexta-feira já de noite, o novo plano adicional de austeridade exigido pelo Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro) na quinta-feira, depois de seis ministros terem abandonado o gabinete ao longo dos dias 9 e 10 de fevereiro. Um dos partidos da coligação, o LAOS, de extrema-direita (e com 16 deputados nos 300 eleitos), retirou o apoio ao governo – os seus ministros pediram demissão – e clamou que não aceitará a “bota alemã”. O Banco da Grécia foi renomeado com spray como “Banco de Berlim” por ativistas. Os outros dois partidos da coligação – PASOK e Nova Democracia – estão, também, em ebulição.

O documento de centenas de páginas – 350 em inglês, 450 em grego – foi remetido para o Parlamento. A primeira etapa é a sua discussão e votação hoje à tarde na Comissão Parlamentar de Assuntos Económicos. Os 300 deputados deverão votá-lo no domingo à noite numa sessão para o efeito. Papademos conta, teoricamente, com 236 deputados em 300. As estimativas citadas pelo jornal grego Kathimerini apontam para 50 votos contra apenas. Mas a expectativa é enorme. O primeiro-ministro referiu, ontem, que ou se aprova o novo plano, ou será o “caos”.

Pacotão legislativo

O “pacotão legislativo” inclui, segundo o jornal grego ProtoThema, 4 artigos descrevendo a re-estruturação da dívida negociada com os credores privados (o que é conhecido pelo acrónimo PSI), a recapitalização dos bancos e o apoio aos fundos; 3 enormíssimos anexos com metas de austeridade, e uma “Carta de Intenções” para ser enviada ao Eurogrupo, ao comissário europeu Olli Rehn e ao presidente do Banco Central Europeu. Na carta admite-se que “ações de correção que se tornem apropriadas” poderão ser necessárias “se as circunstâncias mudarem”. O que fica nas mãos de um triunvirato – Lucas Papademos, o primeiro-ministro, Evangelos Venizelos, o ministro das Finanças (e apontado como futuro presidente do PASOK), e George Provopoulos, o governador do Banco da Grécia.

O plano refere um corte do salário mínimo em 22%, cortes nos pensionistas num montante de 300 milhões de euros por ano, bem como cortes nas despesas militares e de saúde. Curiosamente, o documento não refere o montante do segundo plano de resgate. O número que foi falado na cimeira europeia aponta para €130 mil milhões, mas há quem afirme que haverá que adicionar mais €15 mil milhões para a recapitalização dos bancos gregos depois da re-estruturação parcial da dívida ser concluída com a troca de títulos e um “corte de cabelo” (hair cut) no seu valor atual.

O PASOK – que governou o país desde o final de 2009 até à sua substituição em novembro de 2011 pelo governo de coligação chefiado por Lucas Papademos – e a Nova Democracia – que em finais de 2009 deixou a Grécia à beira da bancarrota – reúnem hoje os seus estados-maiores para decidir o voto no domingo.

Entretanto, o sindicato de polícia declarou os membros da troika como criminosos. E rumores de um golpe de estado em germinação percorreram Atenas lançados por alguns diplomatas ocidentais.

Uma manifestação está convocada para a Praça Sintagma no domingo em frente ao Parlamento.

Calendário crítico das próximas semanas

O Eurogrupo deverá reunir na quarta-feira e, depois, de novo, dia 20 de fevereiro. O Parlamento alemão – o Bundestag – deverá votar o propósito de um segundo plano de resgate da troika à Grécia a 27 de fevereiro. A 29 de fevereiro, o Banco Central Europeu tem previsto a abertura da segunda operação de financiamento de liquidez a 3 anos, conhecida pela sigla LTRO, e a que se espera que ainda mais bancos acorram, envolvendo um montante ainda maior do que os anteriores cerca de 500 mil milhões, que muitos consideram a verdadeira “bazuca” que tem segurado os “sucessos” das colocações de dívida soberana na zona euro. A cimeira da União Europeia está prevista para dias 1 e 2 de março.

A Grécia deveria lançar uma oferta de reestruturação da dívida aos credores privados até meados deste mês – meio da próxima semana – para poder proceder à troca de títulos em tempo útil antes do refinanciamento de um montante de dívida de €14,5 mil milhões a 20 de março, considerado o dia “D”. O Tesouro grego tem um leilão de dívida de muito curto prazo, de bilhetes com vencimento a 3 meses, para 14 de fevereiro.

Portugal manteve esta semana a tendência de descida nas yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) no mercado secundário e na probabilidade de incumprimento da dívida soberana (risco de default).

Tal como o mercado secundário da dívida e o mercado dos seguros contra o risco de incumprimento (credit default swaps, acrónimo cds) sinalizaram um disparo no final de janeiro, agora sinalizam uma dissociação do andamento do processo grego e inclusive uma evolução a contra corrente do que sucede com outros “periféricos” da zona euro.

O trilho irlandês ou o trilho grego?

As interrogações que ficam são estas: a dissociação vai consolidar-se, afastando Portugal definitivamente do trilho grego? Iremos assistir a um processo de melhoria similar ao que ocorreu com a Irlanda a partir de 18 de julho de 2011?

No caso irlandês verificou-se uma descida brutal que levou os juros a 9 anos a cair dos picos de então em 15,51% para os 7% atuais (mesmo assim um nível ainda considerado insustentável para a dívida de longo prazo).

No mesmo período em que a Irlanda operou aquela melhoria, o risco português de entrada em incumprimento da sua dívida soberana subiu de 65% a 18 de julho de 2011 para um máximo de 73,32% em 30 de janeiro de 2012 e de 12,67% para um máximo de 17,39% nos juros das obrigações do Tesouro a 10 anos naquele mesmo período.

A quebra muito recente nos níveis de juros é significativa, se tomarmos para comparação os máximos de 30 de janeiro. Os juros das OT a 2 anos desceram de 21% no final do mês passado para 14,48% no fecho de hoje; os das OT a 3 anos de 24,5% para 15,89%; os das OT a 5 anos de 22,87% para 15,75%; os das OT a 6 anos de 22,87% para 15,85%; e os das OT a 10 anos de 17,39% para 12,48%, segundo dados da Bloomberg. O nível dos juros está hoje sensivelmente numa posição similar à do período entre agosto e novembro de 2011.

Fruto desta melhoria da situação de crédito, o prémio de risco (o spread entre os juros das OT e os juros dos Bunds, os títulos alemães, no prazo a 10 anos) baixou de 11,49 pontos percentuais para 10,57 pontos percentuais.

O mesmo movimento de descida se verificou na probabilidade de incumprimento (risco de default) da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos. Fechou a semana em 61,46%, segundo dados da CMA DataVision. Há sete dias fechara em 65,14%. A 30 de janeiro atingira o máximo de 73,32%. Descida similar no que é designado por “pontos à cabeça” (points upfront, uma medida do pagamento à cabeça de quem recorre à compra de cds) – de 43 pontos no pico a 30 de janeiro para 33,5 hoje. Em termos de comparação, os “pontos à cabeça” para os cds da dívida grega estão em 65 pontos.

Apesar desta descida, o risco de default da dívida portuguesa continua a colocar Portugal em segundo lugar, logo a seguir à Grécia (com um risco de 86,5%), no TOP 10 dos países com maior probabilidade de incumprimento (“clube da bancarrota”). A distância do risco português em relação ao risco da dívida paquistanesa é de mais de 15 pontos percentuais, e em relação ao risco irlandês há um fosso de quase 23 pontos percentuais.

Foco em Espanha e na Itália

O caso de Espanha foi sinalizado ao longo da semana. Os juros das obrigações espanholas (OE) subiram hoje muito acentuadamente nos prazos a 2 e a 3 anos. A evolução dos vários prazos foi a seguinte entre sexta-feira da semana passada e o fecho hoje: de 2,58% para 2,85% nos juros de OE a 2 anos; de 3,04% para 3,3% no caso a 3 anos; de 3,65% para 3,94% no caso a 5 anos; e de 4,99% para 5,3% no caso a 10 anos.

Um dos aspetos que tem sido sublinhado é a “aproximação” da situação espanhola à italiana. No prémio de risco é muito visível no fecho de hoje: 3,4 pontos percentuais para o caso de Espanha e 3,7 pontos percentuais para o caso de Itália.

A distância entre os dois países alargou-se hoje, porque os juros dos títulos do Tesouro italiano (BTP) também subiram, particularmente nos prazos a 2 e a 3 anos, tal como aconteceu com as OE. De qualquer modo, apesar deste stresse, os juros dos BTP a 10 anos estão longe do limiar crítico dos 7% – fecharam hoje em 5,46%. Acrescente-se que o movimento de subida atingiu esta sexta-feira, também, a Bélgica, a França e a Hungria (que não é membro da zona euro).

A Itália conserva o 10º lugar no referido TOP 10 com um risco de 28,7%, enquanto Espanha se mantém fora.

Mais um dia de stresse nos grandes bancos

Dez bancos mundiais estiverem hoje sob stresse no mercado dos cds ligados às suas dívidas, com subidas superiores a 5% no preço daqueles derivados financeiros. Ontem haviam sido cinco.

A situação de maior subida ocorreu com o Royal Bank of Scotland, com uma variação de mais de 12% no preço dos cds para a sua dívida. Seguiram-se, com variações diárias de dois dígitos, o Deutsche Bank e o Bank of Scotland.

Com variações em alta no preço dos cds entre 5% e 9,6% estiveram hoje, por ordem decrescente da variação, o Lloyds, Santander, Barclays, Goldman Sachs, Crédit Agricole, Unicredit e Bank of America.

O léxico da crise das dívidas soberanas na zona euro está mais rico. Surgiu, esta semana, o “Grexit”, para Greece e exit, em inglês – saída [do euro] por parte da Grécia.

O termo foi criado por dois analistas do Citigroup, Willem Buiter e Ebrahim Rahbari, que atribuíram uma probabilidade de 50% da Grécia sair da zona euro no próximo ano e meio. A probabilidade anterior que atribuíam era de 25-30%.

Depois dos acrónimos em inglês “PSI” (para envolvimento do sector privado, uma forma tecnocrática de referir a reestruturação parcial da dívida negociando com os credores privados) e “OSI” (para envolvimento do sector “oficial”, ou seja do Banco Central Europeu e dos bancos centrais da zona euro), o temor do “Grexit” provocou o inundar das redes sociais com um conjunto de números-chave sobre a situação de pré-bancarrota da Grécia.

Os empréstimos à Grécia somam €95 mil milhões até à data, em que os países da União Europeia, através do memorando de entendimento de resgate, detêm €53 mil milhões e o Fundo Monetário Internacional uma fatia de €20 mil milhões. O restante de empréstimos soma €22 mil milhões. A última parte do primeiro plano de resgate no montante de €110 mil milhões, acordado em maio de 2010, tem sido adiada em função do processo de negociação do segundo plano de resgate com a troika e do plano de reestruturação da dívida com os credores privados.

A outra componente da dívida soberana grega tem a ver com o que está titulado. O total é de €260 mil milhões.

O Banco Central Europeu (BCE) deterá entre €50 a 60 mil milhões através do plano de intervenção (programa SMP criado por Jean-Claude Trichet, o anterior presidente do BCE) de aquisição de títulos no mercado secundário da dívida. É sobre este montante que hoje se discute, nos bastidores, um “envolvimento do sector oficial” (um OSI), tendo já surgido vários rumores sobre o seu desenho.

Os outros credores detentores de títulos de dívida abrangem €30 mil milhões por parte de fundos da segurança social grega e o restante em credores privados abarca: €70 mil milhões nas mãos dos mais variados fundos; €50 mil milhões em mãos de bancos gregos; €40 mil milhões em mãos de bancos europeus; e €15 mil milhões em mãos de seguradoras europeias.

A exposição dos bancos portugueses à dívida soberana grega é pequena: €178,9 milhões no caso do BPI e €344 milhões no caso do BCP.

As negociações com os credores privados (o tal PSI) envolvem cerca de €200 mil milhões, não se sabendo, ainda, qual o “corte de cabelo” final que vai ser aplicado ao valor dessa dívida.

Momento Lehman em março?

A Grécia tem títulos a vencer proximamente em março num total de €17,5 mil milhões (dos quais €14,5 mil milhões a 20 de março), o que é considerado o momento crítico. Alguns analistas já designam essa data como a candidata a um “momento Lehman” (como o que ocorreu com o banco norte-americano do mesmo nome no último trimestre de 2008 que agravaria irreversivelmente a crise financeira mundial).

Depois, em maio, o Tesouro grego terá de refinanciar mais €10 mil milhões, e em agosto mais €8 mil milhões, só para citar momentos de refinanciamento de volume elevado. Num total para o ano de 2012 de €48 mil milhões.

O objetivo oficial, ditado pela cimeira europeia e confirmado pelo FMI, é de fazer baixar a dívida grega do atual nível de 159,1% do produto interno bruto para 120% em 2020, como sendo um nível considerado sustentável e que graduaria o país para fugir a uma situação sistémica de insolvência.

Já depois da aplicação do programa de resgate, a dívida grega subiu de 138,8% em final de 2010 para 159,1% em final de 2011.

Contudo, os estudos históricos, realizados pelos investigadores norte-americanos Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff apontam para um limiar máximo de sustentabilidade da dívida soberana, para economias com problemas estruturais crónicos, na ordem dos 60 a 80% do PIB.

Desde o início de fevereiro, como temos referido, o comportamento das yields (juros) das obrigações espanholas tem indicado uma subida em todos os prazos.

A 31 de janeiro, os juros das obrigações espanholas (OE) a 10 anos – que são usados como referência nas comparações entre países – estavam em 4,97%; ontem fecharam em 5,07% e hoje dispararam para 5,24% às 10H30, segundo dados da Bloomberg. Acabaram por fechar em 5,22%, representando uma variação diária de 3%.

O prémio de risco (spread) entre os juros da dívida espanhola a 10 anos e os juros dos Bunds – os títulos alemães, que servem de referência – com o mesmo vencimento subiram de 3,187 pontos percentuais a 31 de janeiro para 3,24 pontos percentuais no fecho de hoje.

Os analistas espanhóis referem o encurtar de distância entre Itália (que esteve sob maior stresse nos últimos meses) e Espanha. Os juros a 10 anos dos títulos italianos (BTP) fecharam em 5,58% e o prémio de risco da dívida italiana fechou em 3,60 pontos percentuais. A maior proximidade verifica-se sobretudo nos juros dos títulos com vencimentos a 2 e a 3 anos: 2,70% e 3,14% para as OE, e 2,97% e 3,44% para os BTP.

Face ao movimento geral de baixa do risco de incumprimento entre os “periféricos” da zona euro (com destaque para Portugal), apenas Grécia e Espanha foram exceção, segundo dados da CMA DataVision. A probabilidade de default da dívida espanhola subiu para 26,39%, enquanto o risco da dívida italiana desceu para 27,59% (o que levou à saída de Itália do “clube da bancarrota”, o TOP 10 dos países com maior risco de incumprimento).

Colocação sindicada de €4 mil milhões

O disparo de hoje, deteriorando a situação da dívida espanhola, deveu-se ao anúncio surpresa de que o Tesouro espanhol decidiu convocar pela manhã um grupo de bancos – Barclays Capital, BBVA, Deutsche Bank, Goldman Sachs, Santander e Société Générale – para uma colocação sindicada de ampliação da emissão de OE a 10 anos realizada em 19 de janeiro, quando arrecadou €3 mil milhões.

Trata-se de uma colocação com um cupão (taxa anual que se aplica ao valor nominal para apurar o montante do rendimento da obrigação) de 5,85% onde o Tesouro espanhol acabou por arrecadar €4 mil milhões, muito mais do que o previsto que variava num intervalo entre €2 mil e €3 mil milhões.

Estas colocações sindicadas dirigem-se a um pequeno grupo de bancos que recebem ordens diretas de investidores, que habitualmente não vêm aos leilões de dívida, às emissões de dívida pelo Tesouro no mercado primário. E, segundo dados do Tesouro, teve uma procura do dobro do arrecadado.

O Tesouro espanhol aproveitou, desde o início do ano, uma janela de oportunidade de descida dos juros da dívida fruto das disponibilidades de liquidez proporcionadas aos bancos pelo Banco Central Europeu através da linha LTRO a 3 anos. Madrid já colocou 25% das necessidades de financiamento de todo o ano. A estratégia de colocação desta emissão sindicada insere-se na mesma “pressa”, mas o cupão de quase 6% deu sinal negativo aos investidores.

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