Ter 6 Mar 2012
6 de março: se plano grego falha … 1 bilião de impacto — diário de bordo 561
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Geoprotagonistas , Gestão do riscoainda sem comentários
A probabilidade de incumprimento da dívida soberana de Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica e Áustria continua a agravar-se numn horizonte de cinco anos, segundo dados da CMA DataVision para a abertura de hoje. Portugal, Irlanda e Espanha pertencem ao “clube” dos 10 países com mais elevada probabilidade de entrarem em default, que é liderado pela Grécia.
A agência Reuters divulgou hoje que o Institute of International Finance (IIF), o lóbi internacional de credores privados das dívidas soberanas, calcula que um incumprimento “desordenado” na Grécia provocará um impacto de mais de um bilião de euros, colocando a Espanha e a Itália no corredor dos países da zona euro com necessidade de assistência financeira, além da necessidade de um segundo pacote de resgate a Portugal e a Irlanda.
O documento do IIF, intitulado “IIF Staff Note: Confidential”, e datado de 18 de fevereiro, refere, nas contas, que Portugal e Irlanda necessitariam de mais 380 mil milhões de euros durante cinco anos, enquanto Espanha e Itália teriam de ter uma ajuda imediata anti-contágio de 350 mil milhões de euros. Custos adicionais de recapitalização de bancos somariam 160 mil milhões de euros.
Apesar do IIF manter um discurso externo de que a negociação da troca de títulos está a correr bem, e que 12 grandes detentores de títulos gregos já estão envolvidos no acordo representando 90 mil milhões de euros de títulos (em 205 mil milhões de euros nas mãos de privados), multiplicam-se os rumores de que o nível de adesão “voluntária” poderá não atingir na quinta-feira a meta colocada pelo governo grego. Segundo uma fonte anónima da troika que acompanha a Grécia, citada pelo Financial Times Deutschland, o governo de Atenas terá de acabar por desencadear o processo de cláusulas de acção colectiva (CAC, obrigando todos os credores privados com dívida sob jurisdição grega), pois a participação “voluntária” será insuficiente. O jornal alemão alvitra que se a participação for inferior a 2/3, Atenas não poderá ativar as CAC e todo o negócio de reestruturação de 53,5% do valor da dívida em mãos de credores privados poderá ir por água abaixo. É este cenário pessimista que motiva os receios secretos do IIF.
Além da incerteza sobre o desfecho da negociação da reestruturação parcial da dívida grega, têm-se avolumado duas situações adicionais de stresse, na Irlanda e em Espanha.
Irlanda e Espanha em foco
A Irlanda deverá realizar um referendo sobre o “compacto orçamental” (o novo tratado assinado na semana passada por 25 membros da União Europeia) em maio ou junho, num contexto em que a agência de notação Moody’s prevê que se torne clara a necessidade de um segundo pacote de resgate a Dublin. As sondagens já realizadas apontam para uma vitória do “sim”.
A Irlanda já gastou 2/3 dos 67,5 mil milhões de euros do primeiro pacote de resgate aprovado em novembro de 2010, previsto para cobrir as necessidades de financiamento até finais de 2013. A Moody’s refere, no entanto, que a Irlanda terá dificuldades em se financiar na totalidade nos mercados da dívida em 2013. O governo de Dublin pretende testar a situação ainda no final deste ano, se os juros dos títulos no mercado secundário derem indicações positivas. Neste momento, as yields dos títulos irlandeses a 9 anos – dado que os títulos a 10 anos não têm estado em negociação no mercado secundário desde outubro de 2011 – estão ligeiramente abaixo do limiar crítico dos 7%, e as yields dos títulos a 5 anos situam-se ligeiramente acima de 5,1%.
Soube-se, também, hoje que a Irlanda poderá atrasar um pagamento de promissórias emitidas para financiar os resgates do Anglo Irish Bank e do Irish Nationwide, num total de 3,1 mil milhões de euros que vencerá a 31 de março. O governo de Dublin poderá ser autorizado a emitir novas promissórias ou reestruturar estes títulos, diz a agência Markit.
Outra situação que irrompeu recentemente foi a de Espanha, um país que tinha saído das luzes da ribalta da crise da dívida em finais de setembro do ano passado. O novo governo de Madrid teve de “rever” a meta do défice orçamental para 2012 imposta por Bruxelas subindo-a de 4,4% para 5,8% do PIB. Mesmo assim trata-se de obter uma redução brutal do défice, que atingiu 8,5% em 2011. Segundo o jornal El País, a componente estrutural do défice terá de ser cortada, este ano, de 7% para 3,5% do PIB, ou seja para metade. O ajustamento a ser realizado este ano somará 29,5 mil milhões de euros, com o país em recessão (estimativa de 1% de descida do PIB) e o desemprego (22,85% da população ativa no final de fevereiro, segundo a última Encuesta de Población Activa, mais de 5 milhões de desempregados) nos mais altos níveis da União Europeia.