Geoprotagonistas


A probabilidade de incumprimento da dívida soberana de Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica e Áustria continua a agravar-se numn horizonte de cinco anos, segundo dados da CMA DataVision para a abertura de hoje. Portugal, Irlanda e Espanha pertencem ao “clube” dos 10 países com mais elevada probabilidade de entrarem em default, que é liderado pela Grécia.

A agência Reuters divulgou hoje que o Institute of International Finance (IIF), o lóbi internacional de credores privados das dívidas soberanas, calcula que um incumprimento “desordenado” na Grécia provocará um impacto de mais de um bilião de euros, colocando a Espanha e a Itália no corredor dos países da zona euro com necessidade de assistência financeira, além da necessidade de um segundo pacote de resgate a Portugal e a Irlanda.

O documento do IIF, intitulado “IIF Staff Note: Confidential”, e datado de 18 de fevereiro, refere, nas contas, que Portugal e Irlanda necessitariam de mais 380 mil milhões de euros durante cinco anos, enquanto Espanha e Itália teriam de ter uma ajuda imediata anti-contágio de 350 mil milhões de euros. Custos adicionais de recapitalização de bancos somariam 160 mil milhões de euros.

Apesar do IIF manter um discurso externo de que a negociação da troca de títulos está a correr bem, e que 12 grandes detentores de títulos gregos já estão envolvidos no acordo representando 90 mil milhões de euros de títulos (em 205 mil milhões de euros nas mãos de privados), multiplicam-se os rumores de que o nível de adesão “voluntária” poderá não atingir na quinta-feira a meta colocada pelo governo grego. Segundo uma fonte anónima da troika que acompanha a Grécia, citada pelo Financial Times Deutschland, o governo de Atenas terá de acabar por desencadear o processo de cláusulas de acção colectiva (CAC, obrigando todos os credores privados com dívida sob jurisdição grega), pois a participação “voluntária” será insuficiente. O jornal alemão alvitra que se a participação for inferior a 2/3, Atenas não poderá ativar as CAC e todo o negócio de reestruturação de 53,5% do valor da dívida em mãos de credores privados poderá ir por água abaixo. É este cenário pessimista que motiva os receios secretos do IIF.

Além da incerteza sobre o desfecho da negociação da reestruturação parcial da dívida grega, têm-se avolumado duas situações adicionais de stresse, na Irlanda e em Espanha.

Irlanda e Espanha em foco

A Irlanda deverá realizar um referendo sobre o “compacto orçamental” (o novo tratado assinado na semana passada por 25 membros da União Europeia) em maio ou junho, num contexto em que a agência de notação Moody’s prevê que se torne clara a necessidade de um segundo pacote de resgate a Dublin. As sondagens já realizadas apontam para uma vitória do “sim”.

A Irlanda já gastou 2/3 dos 67,5 mil milhões de euros do primeiro pacote de resgate aprovado em novembro de 2010, previsto para cobrir as necessidades de financiamento até finais de 2013. A Moody’s refere, no entanto, que a Irlanda terá dificuldades em se financiar na totalidade nos mercados da dívida em 2013. O governo de Dublin pretende testar a situação ainda no final deste ano, se os juros dos títulos no mercado secundário derem indicações positivas. Neste momento, as yields dos títulos irlandeses a 9 anos – dado que os títulos a 10 anos não têm estado em negociação no mercado secundário desde outubro de 2011 – estão ligeiramente abaixo do limiar crítico dos 7%, e as yields dos títulos a 5 anos situam-se ligeiramente acima de 5,1%.

Soube-se, também, hoje que a Irlanda poderá atrasar um pagamento de promissórias emitidas para financiar os resgates do Anglo Irish Bank e do Irish Nationwide, num total de 3,1 mil milhões de euros que vencerá a 31 de março. O governo de Dublin poderá ser autorizado a emitir novas promissórias ou reestruturar estes títulos, diz a agência Markit.

Outra situação que irrompeu recentemente foi a de Espanha, um país que tinha saído das luzes da ribalta da crise da dívida em finais de setembro do ano passado. O novo governo de Madrid teve de “rever” a meta do défice orçamental para 2012 imposta por Bruxelas subindo-a de 4,4% para 5,8% do PIB. Mesmo assim trata-se de obter uma redução brutal do défice, que atingiu 8,5% em 2011. Segundo o jornal El País, a componente estrutural do défice terá de ser cortada, este ano, de 7% para 3,5% do PIB, ou seja para metade. O ajustamento a ser realizado este ano somará 29,5 mil milhões de euros, com o país em recessão (estimativa de 1% de descida do PIB) e o desemprego (22,85% da população ativa no final de fevereiro, segundo a última Encuesta de Población Activa, mais de 5 milhões de desempregados) nos mais altos níveis da União Europeia.

Depois de ter “ultrapassado” na sexta-feira a Itália no nível de risco de incumprimento da dívida soberana, Espanha reentrou hoje no “clube da bancarrota” (o TOP 10 dos países com maior probabilidade de entrarem em incumprimento num horizonte de cinco anos), de onde saíra em 23 de setembro de 2011.

O risco de incumprimento de Espanha abriu hoje em 27,88%, acima do fecho na sexta-feira (27,22%) e já com algum distanciamento do risco italiano, que abriu hoje em 26,99%, segundo dados da CMA DataVision. A meio da manhã, o risco de incumprimento da dívida espanhola subiu para 28,5%.

A atenção dos mercados da dívida regressou a Espanha, um dos “elefantes” na loja de porcelanas da zona euro. Para a Eurointelligence, a forma como a dívida espanhola está a ser encarada nos mercados de derivados é o primeiro sinal do falhanço do “compacto orçamental”, assinado na quinta-feira passada. A clara opção política de Madrid por uma política mais gradualista de austeridade, “revendo” a meta “irrealista” de défice orçamental imposta por Bruxelas para 2012, sinalizou aos investidores que a situação de Espanha é mais grave do que a versão oficial europeia pretendia.

Risco português continua a subir

Este movimento de subida do risco espanhol é acompanhado por uma subida conjunta de Portugal (o risco ascendeu a 63,43% e com mais de 1200 pontos base no preço dos credit default swaps, seguros contra o risco de incumprimento), Irlanda, Itália, Bélgica, França e Áustria.

Apenas a Grécia abriu ligeiramente em baixa, mantendo, no entanto, a probabilidade de default acima de 96%. Os mercados da dívida aguardam no próximo dia 8 de março (quinta-feira) os resultados da participação dos credores privados na operação de oferta de troca de títulos no âmbito da reestruturação parcial da dívida grega. O governo grego apontou para um limiar mínimo de participação dos credores privados na ordem dos 75%. Os rumores mais díspares sobre se tal limiar foi já atingido ou não influenciam os investidores nos mercados de derivados financeiros.

No “clube da bancarrota” estão, agora, presentes a Grécia, que lidera, Portugal em segundo lugar, a Irlanda na sétima posição e Espanha no décimo lugar. Itália que havia entrado no “clube”, no ano passado, desde o início da agonia do governo Berlusconi, saiu em final de fevereiro.

O anúncio caiu como uma bomba na Ásia na segunda-feira. O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao disse no primeiro dia da reunião anual Congresso Nacional do Povo (equivalente ao Parlamento, na estrutura de estado da China) que a meta de crescimento para 2012 ficará nos 7,5%, pela primeira vez abaixo do teto do “baoba” (o mágico número 8).

A revisão em baixa da taxa de crescimento do PIB provocou um efeito de stresse imediato nos activos ligados aos sectores de commodities, cuja dinâmica está hoje fortemente dependente das importações chinesas. Os países dependentes da exportação para a China terão de reavaliar a sua estratégia.
Bolsas quebram

Segundo dados da Bloomberg, as bolsas mundiais (índice MSCI World) caíram na segunda-feira 0,61% e a capitalização bolsista do sector financeiro (índice MSCI World Financials) diminuiu 0,8%. Mas o maior impacto ocorreu com a capitalização bolsista dos produtores de commodities (índice World Commodity Producers) que desceu 1,04%.

Este anúncio surge no meio de uma controvérsia que está a dominar os media chineses em torno dos benefícios e dos malefícios do que é designado, por alguns, como “capitalismo de Estado”, bem como sobre o “modelo” de crescimento do futuro, mantendo a matriz exportadora até ao limite ou enveredando por uma estratégia mais equilibrada.

Esta reunião anual do Congresso Nacional assume importância por se realizar seis meses antes do Congresso do Partido Comunista da China em outubro, onde se procederá a uma mudança significativa no topo dos quadros dirigentes.

Um relatório do Banco Mundial sobre a China em 2030, publicado na semana passada, trouxe algumas achas para o debate interno. Pela primeira vez o Banco Mundial produziu um estudo em conjunto com o Centro de Investigação e Desenvolvimento (CID) do Conselho de Estado da China (o conselho de ministros). Nas 468 páginas, o relatório alerta para que a China evite ficar prisioneira de uma armadilha, a de “um país de rendimento médio”. Esta armadilha conduziria a China para uma tendência de abrandamento da economia no longo prazo. O Banco Mundial e o CID propõem estratégias para que a China se transforme no horizonte de 2030 em uma “sociedade de alto rendimento” (per capita).

Seis estratégias para evitar uma armadilha

“O relatório recomenda seis estratégias para os próximos vinte anos, diz-nos Xu Hongcai, professor de Finanças na Universidade de Pequim e diretor no China Center for International Economic Exchanges, um dos grupos de reflexão (think tanks) mais importantes do país. “A primeira estratégia é repensar o papel do Estado e do sector privado par encorajar mais concorrência na economia. A segunda, é encorajar a inovação e adotar um sistema aberto de inovação com ligações à investigação global e às redes de desenvolvimento. A terceira, é dar atenção ao desenvolvimento ‘verde’, como uma enorme oportunidade de crescimento. A quarta, é promover a igualdade de oportunidades e a proteção social. A quinta, fortalecer o sistema fiscal e melhorar a sustentatibilidade orçamental. Finalmente, assegurar que a China continua a sua integração nos mercados globais”. Segundo o especialista chinês, o momento atual é o indicado para acelerar estas reformas.

Uma corrente dentro da China insiste na importância de prosseguir as reformas face a um lóbi poderoso que se consolidou. “A política da taxa de juro real negativa foi implementada nos últimos dois anos com resultados na depreciação das poupanças. As empresas detidas pelo estado agarraram lucros de monopólio gigantes, mas pagaram dividendos escassos. Além do mais, os rendimentos da população civil não acompanharam o passo do crescimento económico”, conclui Xu Hongcai, em declarações ao Expresso no primeiro dia de abertura do Congresso Nacional Popular.

Os media privados apontam o dedo claramente ao “capitalismo de Estado”. “Há duas escolas de pensamento na China a propósito do capitalismo de Estado”, afirma Hu Shuli, a reitora da Escola de Comunicação e Design da Universidade de Sun Yat-sen, em Cantão, e editora do semanário “Century Weekly”, do grupo de media Caixin, que esta ex-guarda vermelha dos anos 1960 criou com um grupo de investidores em 2010. O artigo foi publicado em inglês no South China Morning Post, que se publica em Hong Kong.

A força motriz da China

As duas linhas de pensamento, segundo Hu Shuli, são claras. “Um grupo de académicos discorda que o capitalismo de Estado seja a razão para os sucessos da economia chinesa. A força motriz foi a dinâmica de mercado desencadeada por 30 anos de reformas rurais, pelo crescimento do sector privado, e pela política de abertura, de globalização”, refere a editora chinesa.

O grupo oposto à prossecução da dinâmica dos últimos 30 anos desenvolveu-se nos últimos dez anos: “A China assistiu a um renascimento do capitalismo de estado como parcela de um desenvolvimento muito amplo do mercado. Mas não pode ser a corrente dominante e não pode ser a meta”. E, mais adiante: “A evidência empírica mostra repetidamente que o capitalismo de Estado é menos eficiente do que o capital privado”. “Se não for efetivamente controlado, o capitalismo de Estado da China pode tornar-se um capitalismo de compadrio”, prossegue Hu Shuli, que conclui com veemência. “Trata-se de grupos de interesse especiais que atuam como actores de mercado e a sua presença distorce o mercado. (…) O capitalismo de Estado deve ser forçado a sair das indústrias competitivas. (…) Se o nosso passo reformista continuar atrás da expansão do capital estatal, começaremos, em breve, a ouvir falar não do crescimento, mas da crise, do capitalismo de Estado”.

As especulações sobre um novo “relaxamento” da política monetária chinesa já dominavam os media há algum tempo. Finalmente concretizaram-se. Esta semana, o banco central – o Banco Popular da China – deu mais um passo. Baixou o rácio de reservas para os grandes bancos em mais meio ponto percentual, para 20,5%. “Trata-se de um claro sinal de uma política de expansão da oferta de moeda para evitar uma queda no crescimento económico da China, no contexto atual de uma complicada situação internacional e doméstica”, diz-nos Xu Hong Kai, professor da Universidade de Pequim e dirigente do China Center for International Economic Exchanges, o mais importante grupo de reflexão chinês.

Em final de novembro do ano passado, o banco central já havia tomado esse caminho, interrompendo a estratégia de aperto da política monetária que vinha seguindo desde 2009, procurando contra-atacar a inflação, particularmente nos produtos do cabaz alimentar, e a “bolha” imobiliária. Em 2011, o banco central havia aumentado o rácio das reservas bancárias em seis momentos e mexido três vezes nos juros dos depósitos e dos empréstimos. Na altura, o banco central baixou o rácio de reservas dos grandes bancos de 21,5% para 21% e dos pequenos bancos para 19%.

Onda internacional

Estima-se que a decisão do banco central permita alargar a capacidade de financiamento da economia em €41,7 a 47,8 mil milhões. Alguns analistas falam de mais descidas nos próximos seis meses. O movimento dos banqueiros centrais chineses junta-se a uma onda de “alívios quantitativos”, com diferentes desenhos, em vigor. A Reserva Federal norte-americana mantém a “Operação Twist” e deu indicação de que manterá o nível de juros próximo de 0% até bem dentro de 2014. O Banco de Inglaterra anunciou recentemente uma extensão em mais 50 mil milhões de libras (€59 mil milhões) do seu programa de “alívio quantitativo”. O Banco Central Europeu, apesar de repudiar as estratégias de “alívio quantitativo”, lançou um programa adicional de fornecimento de liquidez à banca da zona euro conhecido por LTRO a 3 anos, cuja primeira operação foi em dezembro e a próxima agora no final de fevereiro.

Esta onda internacional pretende evitar o regresso de uma recessão mundial ou impedir agravamento de situações de recessão económica em alguns países ou de estagnação. No caso da China, a dor de cabeça é a taxa de crescimento. Há um limiar sagrado, a que os chineses chamam baobá, de 8%, um limiar abaixo do qual o crescimento anual não poderá descer, sob pena de colocar em risco toda a estratégia económica do país desde a revolução capitalista de Deng Xiaoping no final dos anos 1970.

A trajetória tem sido descendente: “A economia chinesa cresceu 9,2% em 2011, abaixo dos 10,3% de 2010. Entretanto no quarto trimestre de 2011 baiou para 8,9%, o crescimento mais baixo nos últimos dez trimestres. A previsão para 2012 é ainda mais baixa, uma média anual de 8,5%. Recentemente, as pequenas e médias empresas manifestaram problemas de financiamento e a crise externa, com a crise da dívida europeia e a alta taxa de desemprego nos Estados Unidos, tiveram impacto na procura de produtos chineses. O comércio bilateral entre a China e a União Europeia caiu mais de 7% em janeiro deste ano”, refere-nos Xu.

Quatro desafios

O problema de fundo é o da transição de um “modelo” económico para outro. “O abrandamento do crescimento reflete a enorme dificuldade em mover o modelo orientado para a exportação noutra direção”, diz Xu, que vê “quatro desafios pela frente”.

O primeiro tem a ver com a dinamização do consumo interno, tanto mais que há uma desigualdade crescente nos rendimentos – “um problema ainda mais sério que pode ameaçar a estabilidade social e a sustentabilidade do desenvolvimento económico”, sublinha o académico. “O objetivo de estimular o consumo das famílias continua difícil”, conclui.

O segundo desafio é lidar com os efeitos das crises externas. O que se liga com o problema da mudança do modelo. “Até agora a economia chinesa continua baseada nas exportações e no investimento governamental em capital fixo”, alerta o economista.

O terceiro é a dívida interna muito elevada dos governos locais. “Um legado do plano de estímulos de €440 mil milhões que levou a investimentos em grandes projetos de infraestrutura que, provavelmente, conduziram a crédito mal parado dos bancos”, adianta. Xu toca no que considera um ponto fulcral: “O governo protegeu excessivamente os interesses do sector bancário, o que prejudicou, até certo ponto, os interesses das famílias e das empresas. E, desse modo, essa política distorceu a estrutura económica”.

Finalmente, há o desafio da competitividade, sobretudo das empresas privadas. Estas começaram a lidar com o problema do aumento dos custos do trabalho e da apreciação progressiva da moeda chinesa e até há algum tempo atrás com a falta de financiamento. Uma tenaz que requer ser eliminada.

“É provavelmente ainda muito cedo para falar de um investimento da China no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Primeiro, os países com problemas deverão ajustar a sua estrutura industrial e realizar mais esforços para equilibrar o orçamento. Entretanto, no curto prazo, o Banco Central Europeu terá de desempenhar um papel muito mais ativo”, recomenda Xu Hongcai, diretor-adjunto do poderoso think tank China Center for International and Economic Exchanges (CCIEE).

Este professor de Finanças da Universidade de Economia e Gestão da capital chinesa, autor de “As estratégias financeiras do nosso grande país”, publicou na quinta-feira um artigo no “Asia Pacific Memo”, intitulado sugestivamente “Por que razão a China não está a comprar os títulos para resgates na zona euro (ainda)”. O “memorando 128″ surgiu precisamente durante a estadia da chanceler alemã Ângela Merkel em Beijing. Merkel deslocou-se hoje para Guangzhou (cidade de Cantão) na sua visita oficial. O “Asia Pacific Memo” é editado pelo Institute of Asian Research em Vancouver, no Canadá.

Ingredientes fundamentais

Xu Hongcai é muito claro sobre o problema. A intervenção de Beijing requer “três ingredientes fundamentais”:

- primeiro, a atuação do “Banco Central Europeu como emprestador de último recurso”, facto a que “a Alemanha se tem oposto, atrasando o processo”;

- segundo, os líderes europeus têm de tornar o FEEF “operacional e seguro para investidores de fora”, já que o que os chineses observam é que a notação do FEEF perdeu o triplo A (na recente decisão da agência Standard & Poor’s), os alemães resistem a aumentar o valor envolvido, e faltam “detalhes operacionais”;

- terceiro, os chineses preferem “ajudar a Europa através do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, apesar de “ainda ninguém ter dado uma resposta aos chineses”, em virtude dos fatores de “rigidez dentro da governação do FMI e da preferência por certos países-chave”.

Em suma, diz um dos homens fortes do CCIEE, “os países europeus e o FMI têm de apresentar um mecanismo de investimento credível à China (e a outros possíveis investidores) “.

Merkel estende a mão e Lagarde a mala de mão

Os jornais alemães referiram que a chanceler se deslocou à China com vários pontos na agenda – desde a questão das sanções ao Irão, ao facto de a China passar a ser este ano o principal mercado de exportação alemão (deixando de ser o vizinho francês), até à crise da dívida da zona euro. Muitos analistas colocaram Merkel na posição de estender a mão aos chineses para financiar os fundos europeus de resgate. Sabe-se que 40% das colocações de dívida já realizadas pelo FEEF estão em mãos de asiáticos, particularmente de japoneses, mas a China ainda não declarou se tem participado ou vai participar nessas emissões.

Já Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, em Davos, no último Fórum Económico Mundial levantaria a sua chique mala de mão para pedir aos presentes que investissem no “guarda-chuva” que o FMI pretende criar em abril para responder às crises da dívida. Foi um momento televisivo com o sorriso da diretora-geral e alguns risos na plateia.

Atacar o problema da sustentabilidade orçamental dos Estados Unidos não é incompatível com o objetivo de garantir que a retoma do crescimento económico prossiga.

Os decisores em assuntos orçamentais devem evitar “dificultar desnecessariamente a retoma económica em curso”, disse quinta-feira Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal (o banco central norte-americano) perante a Comissão de análise do orçamento da Câmara de Representantes dos Estados Unidos. “Felizmente os dois objetivos de alcançar uma sustentabilidade orçamental no longo prazo e de evitar ventos contrários adicionais no plano orçamental que prejudiquem a retoma económica em curso são totalmente compatíveis – aliás, reforçam-se mutuamente”, sublinhou.

Particularmente perturbado

Nesta intervenção perante os congressistas em Washington DC, o presidente do banco central manifestou-se preocupado com dois problemas críticos da economia americana – o disparo no desemprego de longa duração (que já domina 40% dos desempregados), um número que o deixou “particularmente perturbado”, e o trilho orçamental insustentável.

Bernanke referiu que o sector empresarial está a exportar e a produção industrial está a crescer, mas esse ponto forte da retoma americana em curso não se traduz no emprego.

Possibilidade de uma crise orçamental súbita

Por outro lado, a “dinâmica [do défice] é claramente insustentável”, frisou o homem forte da Reserva Federal. O défice público será de mais de 4% do PIB no ano fiscal de 2017, disse aos congressistas, mesmo partindo do princípio que a economia estará, então, próxima do pleno emprego.

Nesta dinâmica pesa sobremaneira o envelhecimento da população norte-americana e o disparo dos custos da saúde. A forma de tapar este buraco tem sido o recurso ao endividamento externo com implicações previsíveis: “uma parte substancial do nosso rendimento futuro terá de ser devotado ao pagamento de juros aos detentores estrangeiros de dívida federal”.

Bernanke não colocou de lado inclusive “a possibilidade crescente de uma crise orçamental súbita”, se a trajetória se mantiver. Colocar a política orçamental num caminho sustentável “é uma prioridade de topo”, avisou.

O jornal Financial Times divulgou esta madrugada um documento que contém as duas condições fundamentais para o segundo pacote de resgate à Grécia passar no Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças dos membros da zona euro) e ter o visto positivo da troika, com vista à sua implementação. O documento estará a circular entre os ministros das Finanças dos membros da zona euro. Na próxima segunda-feira reúne uma cimeira europeia informal.

A primeira é que os rendimentos do estado grego deem total prioridade ao pagamento futuro do serviço da dívida. E a segunda que o parlamento grego transfira a soberania sobre o orçamento do país. O documento apelida as condições para este segundo Memorando de Entendimento (MoU, no acrónimo em inglês) como “elementos de inovação institucional”. E conclui: “Só se e quando forem implementadas, o novo programa poderá começar”. O documento pretende que as duas condições, classificadas como “mecanismo de vigilância”, passem a documento legal, “de preferência através de uma emenda constitucional”. As exigências são atribuídas a um diktat da Alemanha.

A primeira condição dita que os rendimentos do estado são para ser usados prioritariamente para pagar o serviço futuro da dívida contraída junto dos emprestadores internacionais (a troika) e dos credores privados que assinarem o acordo de reestruturação da dívida. “Só o remanescente poderá ser usado para financiar os gastos primários”, escreve-se. O objetivo da medida: “a eliminação de facto da possibilidade de incumprimento”, ou do uso da ameaça política de incumprimento por parte do governo grego. O documento exige que o Parlamento grego apoie esta exigência e que a torne lei.

A segunda condição é que o ajustamento, – a consolidação orçamental – seja controlado por novas disposições, em que a sua soberania é transferida para “o nível europeu por um certo período de tempo”. Para o efeito um “comissário do orçamento” será nomeado pelo Eurogrupo, com poderes para vetar decisões e assegurar que é cumprida a prioridade estabelecida na primeira condição.

Deitar gasolina para a fogueira

Vários analistas estão a interpretar estas exigências como um encostar à parede do governo e do parlamento gregos e um convite a este membro da zona euro sair da moeda única, além de outras eventuais consequências políticas.

A divulgação deste documento surge no momento em que as negociações entre Atenas e os credores privados da dívida ainda prosseguem, em virtude de um braço de ferro entre as exigências da última reunião do Eurogrupo de segunda-feira passada e os limites até à data aceitáveis pelos credores privados, e em que as reuniões entre a troika e o governo de Atenas sobre o andamento do cumprimento do Memorando de Entendimento chegaram a uma rotura na sexta-feira em torno de dois pontos politicamente sensíveis: o corte do salário mínimo (que é de €863 por mês, se o valor anual for dividido por 12 meses), alegando que é “mais alto do que em Portugal [€566*] e em Espanha [€748]“, e a eliminação de dois subsídios equivalentes a mais dois salários anuais no sector privado. Segundo o jornal grego Kathimerini, a troika teria inclusive rejeitado as propostas alternativas feitas pelos sindicatos e pelas patronais gregas.

Nota:* Na mesma lógica de valor mensal se o valor anual for dividido por 12 meses. O salário mínimo em Portugal é de €485 mas multiplicado por 14 meses.

Agenda grega

A Grécia tem um momento crítico em março quando vencem €14,5 mil milhões da dívida. Para evitar um evento de crédito nesse momento, o acordo com os credores privados deverá ser firmado antes de 15 de fevereiro, disse ontem o ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos.

O primeiro-ministro grego, o “tecnocrata” Lucas Papademus, reúne ainda sábado com a troika e no domingo com os líderes políticos que suportam a coligação tripartida que deu forma ao governo. Segunda-feira reúne-se em Bruxelas a cimeira europeia informal. As negociações sobre o acordo de reestruturação da dívida prosseguem na próxima semana. Eleições legislativas estão previstas para abril.

Já depois do fecho do mercado secundário da dívida na sexta-feira (27 de janeiro), a agência de notação Fitch anunciou o corte de rating de cinco países da zona euro e a colocação em perspetiva negativa (ou seja 50% de probabilidade de haver novo corte num horizonte de dois anos) de seis países da moeda única.

Apesar dos cortes de notação nenhum dos cinco países foi colocado em situação de dívida especulativa (vulgo junk status, o que costuma ser traduzido por “lixo”) – o Chipre escapou a descer para esse nível, passando de BBB para BBB- e a Irlanda não levou nenhum corte, mantendo-se em BBB+.

Itália e Espanha em foco

A Espanha desceu de escalão, do duplo A para o A simples, mais especificamente de AA- para A, uma quebra de dois níveis. No caso de Itália, a baixa foi, também, de dois níveis dentro do escalão A – Roma viu a notação da dívida passar de A+ para A-.

As razões para estes dois cortes mais importantes prendem-se à dinâmica da dívida em Itália e às perspetivas negativas económicas e orçamentais de Espanha.

Estes dois casos – Espanha e Itália – indiciam que o stresse no mercado secundário vai ampliar-se, podendo vir a exigir ainda mais atenção do Banco Central Europeu através do seu programa de aquisição de títulos soberanos aflitos, conhecido pela sigla SMP. O que deixará menos margem de manobra para acudir a outros fogos.

A Fitch cortou, ainda, a notação da Bélgica de AA+ para AA e da Eslovénia de AA- para A (neste caso com descida de escalão do duplo A para o A simples).

A agência de notação, dominada por um grupo financeiro francês, decidiu colocar em perspetiva negativa os seis países acima referidos.

Episódios de volatilidade severa vão continuar

A Fitch analisa o contexto global da zona euro mencionando que a sua apreciação se aplica também a França (que ainda mantém o triplo A, na classificação desta agência) e a Portugal (que está classificado com BB+, já em terreno de dívida especulativa).

Diz a agência: “Na ausência de maior clareza sobre a estrutura final de uma zona euro reformada no fundamental, a abordagem gradualista, adotada pelos políticos [europeus] em relação à reforma sistémica, continuará a ser pontuada por episódios de volatilidade financeira severa, acarretando um custo económico e financeiro que provoca uma erosão na qualidade de crédito das dívidas soberanas. Significa, também, que uma ‘fragmentação’ da zona euro não pode ser totalmente colocada de parte, ainda que, na opinião da Fitch, o risco de uma eventualidade dessas continue diminuto”.

A agência não mexeu na classificação de triplo A da Alemanha, Áustria, Finlândia, França, Holanda e Luxemburgo, deixando os suportes do Fundo Europeu de Estabilização Europeia intactos. Ao contrário do que fez a 13 de janeiro a Standard% Poor’s que cortou o triplo A a França e Áustria.

Por mais paradoxal que pareça, o país que está à beira de uma bancarrota externa, a Grécia, tinha uma dívida total que era, apenas, 267% do seu produto interno bruto (PIB) em meados do ano passado. O que é quase uma ninharia comparada com 663% do PIB para o caso da Irlanda e 507% para o Reino Unido, segundo uma comparação entre oito países da União Europeia, realizada pelo McKinsey Global Institute (MGI) no seu recente relatório “Debt and deleveraging”, publicado este mês.

A dívida total portuguesa era de 356% do PIB e, neste grupo de oito, ficou em 4.º lugar, depois da Irlanda, Reino Unido e Espanha (com 363% do PIB). Em melhor posição do que Portugal, ficaram França (com 346%), Itália (com 314%), Alemanha (com 278%) e Grécia (com 267%).

Por dívida total entende-se a dívida de famílias, empresas, entidades financeiras e governo. Os dados referem-se ao segundo trimestre de 2011 e, no caso português, irlandês e italiano, ao primeiro trimestre do ano passado.

No caso da Grécia, o elo mais fraco da zona euro que conduziu ao trilho da bancarrota externa, é a dívida pública, que representava 132% do PIB, mais do que a italiana que pesava 111% ou a francesa que pesava 90%. Nesta comparação, a dívida pública portuguesa pesava 79%.

Os dois países com a situação mais grave em termos de endividamento das entidades financeiras em relação à riqueza criada no país são a Irlanda e o Reino Unido.

As entidades financeiras irlandesas deviam 259% do PIB e as britânicas 219% do PIB. No caso das portuguesas a dívida é apenas de 55% do PIB. A melhor situação é a grega (7%).

No caso do endividamento das empresas, as duas piores situações são a irlandesa, com 194% do PIB, e a espanhola, com 134%. Nesta divisão do endividamento, Portugal vem logo em terceiro lugar, com a dívida das empresas a pesar 128%. A melhor situação é a alemã (49%).

Finalmente, no campo do endividamento das famílias, a pior situação é, uma vez mais, a irlandesa, com 124% do PIB, logo seguida do Reino Unido, com 98%, e de Portugal, com 94%. As melhores situações são as de Itália (apenas 45% do PIB) e de França (48%), com uma riqueza líquida das famílias sólida a nível europeu.

A título de exemplo, realizando uma comparação com o estudo anterior da consultora (publicado em janeiro de 2010), verificamos movimentos interessantes em três casos simbólicos para os quais há dados comparáveis em dois momentos distintos desta crise em curso. Em Itália o peso do endividamento do governo aumentou dois pontos percentuais do PIB e o das famílias quatro pontos percentuais; nos outros segmentos houve desalavancagem. Em Espanha, apenas aumentou o peso do endividamento do governo, em 15 pontos percentuais do PIB. No Reino Unido, aumentou 22 pontos percentuais do PIB o endividamento do governo e 25 pontos percentuais o endividamento das entidades financeiras.

Em resumo, sobre Portugal, avaliando a relação com a riqueza criada anualmente, nesta amostra de oito países “periféricos” e do “centro” da União Europeia: 4.º na dívida total; 3.º na dívida das empresas; 3º na dívida nas famílias; 7.º na dívida pública; 7.º na dívida das entidades financeiras. Comparativamente, as situações mais graves são ao nível das empresas e das famílias. Deduz-se que são os “segmentos” onde a desalavancagem vai ser mais violenta.

O estudo do MGI pretende avaliar o esforço de desalavancagem da dívida total em dez países do mundo (Japão, com o maior peso da dívida no PIB, neste grupo, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Canadá, por ordem decrescente de peso da dívida no PIB).

O ministro das Finanças nipónico anunciou hoje em Tóquio que, pela primeira vez desde 1980, a terceira maior economia do mundo fechou 2011 com um défice equivalente a cerca de €25 mil milhões.

Os efeitos do tremor de terra e do tsunami sobre a produção, a exportação (automóveis desceram 10,6% e eletrónica 14,2%) e o fornecimento de energia com base no nuclear, bem como a valorização do iene (9,2% em relação ao dólar) e o aumento do preço do petróleo (21,3%) são os responsáveis por este mau resultado. A valorização do iene tem provocado, também, a deslocalização da produção para outros pontos do globo.

Em 1980, o défice comercial japonês atingiu um recorde, até hoje não superado – 2,6 biliões de ienes; em 2011 foi de 2, 49 biliões. Em 2010, o Japão teve um excedente de 6,63 biliões de ienes.

O défice comercial com a China, o principal parceiro comercial, foi 5 vezes superior ao de 2010.

A taxa de juro de referência norte-americana (fed funds rate) fixada pela Reserva Federal (Fed, banco central) deverá manter-se “excecionalmente baixa” inclusive durante 2014.

Ben Bernanke, o presidente da Fed, decidiu estender esta estratégia monetária “altamente acomodativa” para além de meados de 2013, como inicialmente estava previsto. Apesar de reconhecer, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião, que a “capacidade [da Fed] para prever a 3 ou 4 anos é obviamente limitada”.

Anunciou a decisão hoje em Washington na sequência da reunião do Federal Open Market Committee. Apenas uma voz se levantou contra a explicitação do período – o presidente do Banco da Reserva Federal de Richmond, Jeffrey Lacker.

QE 3 “em cima da mesa”

A atual taxa de juro de referência situa-se entre 0% e 0,25%, em termos nominais, o que significa que, em termos reais, a taxa é negativa. Ou seja, a Fed empresta dinheiro, perdendo em termos reais, pois a previsão para a inflação ronda os 2%. Bernanke reconheceu, na conferência de imprensa, que esta estratégia de juros nominais próximos de 0% “prejudica os aforradores”.

Bernanke sinaliza aos investidores internacionais que a política de dinheiro barato se manterá num horizonte de quase três anos.

O presidente da Fed admitiu, ainda, que a opção por aquisição de títulos do Tesouro, o que tem sido designado de “alívio quantitativo” (já com dois programas) ou QE, no acrónimo em inglês, “está em cima da mesa”, caso a situação o exija.

Wall Street reagiu positivamente. Os índices Dow Jones e S&P 500 entraram em terreno positivo.

A previsão para o crescimento nos Estados Unidos em 2012 aponta, agora, para um intervalo entre 2,2% e 2,7%, uma ligeira revisão do anterior intervalo que apontava para 2,5%-2,9%.

Vento contrário sopra da Europa

Ben Bernanke, na conferência de imprensa que decorreu depois da reunião da Fed, declarou que tem observado “noticias encorajadoras na economia”, mas que não está preparado “para declarar que já entrámos numa nova fase mais forte”.

A razão principal: o “vento contrário” que sopra da Europa.

A Alemanha colocou segunda-feira (23 de janeiro) de manhã dívida no montante de €2,54 mil milhões, com uma procura 2,2 vezes superior ao adjudicado.

Os investidores na dívida alemã compraram os títulos alemães apesar da remuneração ser apenas de 0,07%, quando na operação anterior similar havia sido de 0,346%.

A procura foi, no entanto, inferior à registada na operação anterior, que fora de 4,3 vezes o adjudicado.

Os investidores na dívida alemã, desta vez, aceitaram uma remuneração muito baixa, mas mesmo assim positiva em termos nominais. Recorde-se que a 9 de janeiro deste ano, os investidores aceitaram ser remunerados com uma taxa nominal negativa de -0,0122% num leilão em que o Tesouro alemão arrecadou €3,9 mil milhões em títulos a seis meses.

Os títulos alemães são considerados seguros pelos investidores no mercado da dívida, mesmo que sejam remunerados com taxas negativas em termos reais (se se contar o efeito da inflação, como é o caso de hoje) ou mesmo em termos nominais (como foi o caso do leilão de 9 de janeiro).

No mercado secundário, as yields (juros) dos títulos alemães a 1 ano estavam em 0,098% aquando do leilão.

O Bundesbank admitiu hoje que a Alemanha poderá ter tido uma contração no última trimestre de 2011.

« Página anteriorPágina Seguinte »