Geoprotagonistas


Este verão parece estar a incendiar, de novo, os preços de algumas commodities (mercadorias). Nada que se compare com a loucura do verão de 2008, mas os analistas destes mercados registam uma sucessão, novamente, de disparos de preços, sobretudo em algumas matérias-primas alimentares e metais industriais.

A tendência altista mais assinalável – mas mediaticamente menos falada – sucede no algodão e no café. Os contratos de futuros destas duas commodities estão, neste mês de Agosto, a atingir picos históricos em média mensal, valores que não se verificaram nem no Verão quente de 2008, aquando do choque inflacionário de preços. O algodão já aumentou 43% em relação a igual período do ano passado e o café mais de 24%.

[Pode seguir este mercado de commodities com base num painel global aqui]

Agroflação no horizonte?

O caso mais mediático é, no entanto, o do trigo – desde Julho que está em alta contínua, mas longe do preço atingido no pico em Março de 2008. O preço dos contratos de futuros disparou na Europa na semana passada, devido ao impacto de fenómenos extremos climáticos que afectaram as searas no Canadá (chuvadas torrenciais) e na Rússia (seca extrema, impacto dos incêndios e decisão do governo russo de fechar as exportações a partir de 15 de Agosto). O valor actual está acima da média mensal de 2008/2010 e o aumento em relação a igual período do ano passado é de quase 25%.

No entanto em 2010, já se assistiu a outros disparos. O preço do açúcar atingiu o seu pico histórico em Janeiro, mas, agora, o preço está abaixo dos valores de Dezembro de 2009. No entanto, este mês, já subiu mais de 12%. O cacau esteve, ultimamente, também, muito mediatizado, em virtude das operações no London International Financial Futures and Options Exchange (Liffe, uma divisão do NYSE Euronext) por parte de Anthony Ward do hedge fund Armajaro Asset Management LLP. Ward é conhecido pela alcunha de Mr. Chocfinger (gesto com o dedo médio). No entanto, o pico do preço dos contratos de futuros do cacau foi em Dezembro de 2009 e Janeiro de 2010, e não agora.

O cobre também está em alta, ainda que longe do pico em Julho de 2008. Já aumentou 22% em relação a igual período do ano passado e 11% já durante este mês. O preço actual dos contratos de futuro deste metal industrial está acima da média mensal de 2008 a 2010. Juntamente com o trigo, o açúcar e a soja, são as quatro commodities com maior crescimento nos últimos trinta dias.

O melhor indicador para avaliar a temperatura do que está a ocorrer nas matérias-primas agrícolas é o índice de preços alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que disparou para 163 pontos em Junho, apenas 28 pontos abaixo do pico no Verão louco de 2008. Vários analistas já falam de “agroflação”, como vector fundamental de inflação com impacto nos custos de clusters alimentares e industriais fundamentais. Pão, café e cacau vão afectar a nossa mesa.

Finalmente, o preço do barril de petróleo voltou a situar-se acima dos 80 dólares nos contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros de commodities do mundo) e a média dos primeiros sete meses deste ano é já superior em 12% ao preço médio do ano anterior. Está, no entanto, ainda abaixo da média mensal entre 2008/2010 e tem revelado ultimamente oscilações muito pronunciadas -”oscilações selvagens”, assim designadas por alguns analistas – acima de 1%, com subidas seguidas de descidas, e vice-versa.

O Verão quente de 2008

O modelo extremado deste “choque” de preços ocorreu em Junho e Julho de há dois anos, antes do pânico financeiro que agravou a recessão. Recorde-se que o preço do barril de crude subiu acima dos 145 dólares, o arroz duplicou em menos de cinco meses e o cacau e a soja atingiram os seus máximos históricos.

A razão desta “anomalia” provocou – e ainda provoca – um debate animado entre os analistas e o mundo académico sobre as suas causas, depois de um interregno de “choques” durante mais de vinte anos. Essa “grande moderação” foi, subitamente, interrompida a partir de 2003. Os preços nominais das commodities ligadas à energia e aos metais aumentaram 230% até 2008; os preços das matérias-primas alimentares duplicaram.

As razões “estruturais” surgem logo à cabeça. O chamado pico do petróleo (ponto a partir do qual o crescimento da produção e da oferta mundial do crude desacelera) justificaria o novo choque petrolífero. As mudanças climáticas, com fenómenos extremos, provocam perdas substanciais na agricultura provocando uma segunda onda de choques nos preços das matérias-primas alimentares. O crescimento espectacular das economias emergentes e particularmente a voracidade da China por todo o tipo de commodities explicaria a fortíssima pressão pelo lado da procura mundial incendiando os preços. A mudança da dieta alimentar e a desertificação do mundo rural são, também, factores com efeito assinalável. A que se junta, finalmente, a geopolítica – a turbulência em regiões produtoras ou de importância logística para as commodities repercute-se imediatamente no estado de espírito dos investidores em futuros e dos compradores de mercadorias e matérias-primas.

O factor novo

Mas um estudo econométrico de John Baffes, economista sénior do Banco Mundial, e de Tassos Haniotis, alto funcionário da Direcção Geral para a Agricultura da Comissão Europeia, publicado na semana passada, veio chamar a atenção para factores “não tradicionais”.

Baffes e Haniotis avaliaram o papel desempenhado ultimamente por dois “isqueiros” da loucura dos preços das matérias-primas: a especulação financeira em todo o tipo de mercadorias e o “desvio” de produção agrícola para alimentar o sector dos biocombustíveis.

“O desvio provocado pela política em torno dos biocombustíveis desempenhou algum papel na alta de preços, mas muito inferior àquele que se pensou inicialmente”, referem os dois especialistas. No entanto, quanto ao caso da especulação financeira em commodities, eles julgam que este “novo factor” dos anos 2000 veio para ficar. “Tem um carácter permanente”, disse-nos John Baffes, que está em missão na Indonésia.

“A financeirização do mundo das matérias-primas foi o factor dominante no que sucedeu entre 2006 e 2008”, prossegue Baffes na entrevista que concedeu a partir da Indonésia, onde está em missão do Banco Mundial.

E juntou-lhe mais dois “detalhes” (ver entrevista rápida a John Baffes; a entrevista completa pode ser lida aqui no original em inglês) que vão marcar o comportamento do preço das matérias-primas nos próximos tempos: o cordão umbilical que as liga entre si, provocando reacções em cadeia nos preços, e a tendência para o acentuar das oscilações de preços.

O que complica o planeamento dos agentes económicos e a política dos governos.

ENTREVISTA RÁPIDA a JOHN BAFFES

P: A financeirização tomou conta também do mercado das matérias-primas nos últimos anos?
R: Talvez tenha sido o factor dominante. Creio ter sido o factor “novo” entre todos os que afectam os preços e que são conhecidos. Sem dúvida, que as tendências são basicamente afectadas pela procura e pela oferta, e sobretudo pela tecnologia e pelos níveis de vida. Mas o facto de as matérias-primas terem passado a ser usadas como veículos financeiros afectou algo essencial – a variação dos preços.

P: Essa variação – por vezes mesmo visível em oscilações ‘selvagens’ nos preços dentro de uma mesma semana – vai ser a tónica dominante do futuro?
R: Todas as evidências que recolhi no estudo realizado com Tassios Haniotis apontam para o facto de que as matérias-primas entraram num período de maior variação dos preços.

P: Os diversos grupos de matérias-primas estão hoje em dia profundamente interligados? Pode dizer-se que formam um ecossistema em termos de comportamento dos preços?
R: Esse é um ponto fundamental da investigação e do estudo que publicámos. Há ligações estreitas, óbvias, entre o grupo das matérias-primas energéticas e das alimentares. Além disso, à medida que o nível de vida aumente nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes será de esperar uma sincronia entre os preços de todas as matérias-primas baseadas em recursos (por exemplo, energia e metais).

A expressão inglesa «double-dip», ou recaída na recessão depois de uma tímida retoma, voltou a aquecer os debates na comunidade internacional dos economistas e dos analistas. A fractura nas opiniões é manifesta.

Os sinais dados pela realidade são manifestamente contraditórios. Os “bons números” surgem nos noticiários de abertura, mas logo os “maus números” enchem os títulos de última hora.

O crescimento mundial deverá ficar acima de 4,5% garantiu o Fundo Monetário Internacional (FMI) na semana passada no seu World Economic Outlook Update. Espera-se que o comércio internacional aumente entre 9 e 10%. E consta que há mais de 3,3 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica) de “excedentes” à roda do mundo “parqueados” à espera de boas aplicações.

Mas o nervosismo dos mercados bolsistas – com dias de derrocada frequentes no passado Junho – e dos mercados de derivados, a crise da dívida soberana em diversos países da Europa, um quase escondido cenário mais “pessimista” do FMI temendo uma recessão na Europa e quase estagnação nos Estados Unidos em 2011, as dúvidas sobre o que irá ocorrer com as “bolhas” e a mudança de modelo económico na China e o disparo na cotação do ouro (com a onç a manter-se acima de 1200 dólares) engolem rapidamente a metade “simpática” dos títulos optimistas dos noticiários.

O pessimismo reforçou-se, inesperadamente, com a divulgação em Julho de novas previsões pela Reserva Federal americana (FED), que agravaram as anteriores, divulgadas em Abril. Clima de dúvida que se adensou, a 21 de Julho, com duas palavras fatais do testemunho do presidente da Reserva Federal, Bem Bernanke, perante o Congresso americano falando de um crescimento «extraordinariamente incerto». [As bolsas americanas sentiram, de imediato, o choque. O Dow Jones e o Nasdaq caíram mais de 1% a 21 de Julho.]

O desemprego na América manter-se-á entre 9,2% e 9,5% da população activa em 2010 e ainda poderá andar nos 8,3% a 8,7% no próximo ano e nos 7,1% a 7,5% em 2012. Também, o crescimento americano será inferior ao que era previsto: entre 3% a 3,5% este ano, em vez dos 3,2% a 3,7%, e entre os 3,5% a 4,2% em 2011, abaixo dos 4,5% previstos anteriormente.

Apesar de estarmos a falar de diferenças de décimas, estas revisões pela FED foram como um verdadeiro balde de água fria que teve imediata repercussão (negativa) nas bolsas mundiais.

Medo mata mais

A nível da discussão mais técnica, a última tentação pessimista responde pela expressão inglesa double-dip – ou seja, recaída na recessão, depois de um período de retoma a seguir à primeira fase mais dramática e prolongada de depressão. Não é, ainda, uma constatação, mas um temor.

Os números do FMI afastam essa hipótese para 2010 (4,6% de crescimento mundial, 3,3% de crescimento nos Estados Unidos, 6,7% nos tigres asiáticos, 6,8% de crescimento nos países emergentes e 1% na zona euro, o “ciclista” junto ao carro-vassoura). Mas, em períodos de crise, a psicologia mata mais do que os números finais de um semestre.

Os curiosos pela história económica das grandes crises recordam, agora, o caso anterior de 1937-1938, quatro anos depois do fim oficial da Grande Depressão. A previsão pessimista é que algo similar possa ocorrer agora, para os mais pessimistas, já neste segundo semestre de 2010.

Fomos ouvir, por isso, cinco economistas separados por fusos horários diferentes e com filiações no pensamento económico distintas. O resultado é diversificado – a comunidade de economistas e analistas está literalmente fracturada.

Encontrámos nas respostas três campos de opinião. [As respostas integrais poderão ser lidas na versão em inglês aqui]

O pecado da finança

Comecemos pelo campo do “sim” – a recaída é um risco sério, mesmo que seja difícil predizer a data de concretização. Para a professora Carlota Perez, reconhecida especialista mundial em revoluções tecnológicas e ciclos económicos, uma recaída recessiva estará sempre no horizonte enquanto os decisores mundiais “não entenderem que esta crise não é um acidente que se consegue resolver apenas com mais política monetária e regulação, mas sim um corte estrutural que exige uma separação radical entre o mundo da finança e o da economia real”.

Por seu lado, o investigador americano Mark J. Lundeen, que no site Gold Eagle tem estado a fazer uma comparação diária entre a evolução desta Grande Recessão, desde o seu começo em 2007, e a Grande Depressão dos anos 1930, é mais pessimista: “A questão não é se vai haver ou não uma recaída – ela é inevitável. Mas quanto tempo durará e quanto mais sofrerá o mundo até que os decisores comecem a discutir como liquidar a «má» dívida que nos envolveu nestes últimos 40 anos”. Lundeen é pelo fim das fianças aos prevaricadores, e pela sua bancarrota (incluindo as dívidas soberanas que devem ser reescalonadas ou reestruturadas), mesmo que isso resulte numa situação de deflação massiva – é preferível isso, diz ele, “à hiper-inflação e aos caos económico e geopolítico que resultará inevitavelmente das actuais políticas”.

Política monetária é a salvação

Pelo “não” está o gestor de fundos Bill Whiterell, economista-chefe global da Cumberland Advisors que a partir da Florida aconselha aplicações financeiras em todo o mundo. “Isso é de todo improvável!”, exclama, e acrescenta: “mesmo nas economias desenvolvidas”. “Não prevemos que esta desaceleração a meio do ciclo se deteriore ao ponto de se transformar numa recessão, quer neste segundo semestre como no próximo ano”, diz-nos. Confia que “as políticas monetárias continuarão a «acomodar-se» quer nos EUA como na zona euro ou no Japão. Provavelmente as taxas de juro de curto prazo manter-se-ão próximas de zero nos próximos doze meses”.

Um terceiro campo recusa o “sim” e o “não” à pergunta. Em suma, não se pode falar de recaída – já que nem sequer se saiu da recessão iniciada em 2007 no mundo industrializado, argumenta-se. “Não se pode falar de double-dip, quando ainda nem saímos do single-dip. Penso que temos continuado a estar numa situação consistentemente negativa. Sou muito céptico, em particular, em relação aos números oficiais americanos – cuja realidade é bem pior do que os números divulgados”, ironiza David Caploe, economista-político chefe do EconomyWatch, em Singapura.

Um “L” em vez de um “W”

Continuando com a ironia, Caploe rejeita um desenho em “W” para a evolução desta crise que uma recaída traria. O que vai ocorrer, vaticina, é um longo “L_______________________________________”, em que a “cauda” pode ser muito comprida. O tamanho desta “cauda” depende da China. O analista de Singapura considera que os governantes chineses têm actuado com inteligência face à crise, mas “resta ver como um grupo aparentemente coeso como este conseguirá enfrentar um militantismo sindical crescente que tornou o anterior modelo económico obsoleto”.

O consultor e autor americano Peter Cohan recorda que nem o organismo americano que oficialmente data o começo e o fim das recessões, o National Bureau of Economic Research, decretou, ainda, o fim da recessão para os Estados Unidos. Pelo que prefere não falar de nova recessão. Cohan admite, em breve, uma desaceleração económica “mas não tão má que se transforme em crescimento negativo”. Esta desaceleração poderá advir do que se vai passar na Europa: “Não ficarei de todo surpreendido que o crescimento mais lento – ou mesmo declínio económico – ocorra na Europa, devido aos efeitos da consolidação orçamental”.

CINCO DESTAQUES (de conversas bem mais longas)

#“Se os chineses conseguirem evitar o colapso das suas bolhas imobiliárias merecem uma medalha” – Carlota Perez
#“A nível global, ao fim de quarenta anos, chegámos a um ponto em que os nossos activos se transformaram em passivo. É insustentável” – Mark J. Lundeen
#“Excepto para os membros altamente endividados do Club Med na zona euro, políticas de austeridade significativas no curto prazo não são desejáveis com uma retoma mundial permanecendo tão fraca” – Bill Witherell
#“Os chineses, pelo menos, parecem ter um plano – algo que sinceramente não vejo nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão” – David Caploe
#“O medo de um colapso na zona euro é suficiente para motivar a redução dos défices. Mas resta ver se uma dose massiva de euro-thatcherismo gerará prosperidade” – Peter Cohan

Portugal está na fronteira para a classificação de BBB, segundo a Dagong Credit Rating, sedeada em Beijing, que surpreendeu, ontem, os analistas ao dar classificação de AA e outlook negativo aos Estados Unidos e AA- e outlook negativo ao Reino Unido.

A Dagong Global Credit Rating, sedeada no distrito de Chaoyang, em Beijing, divulgou ontem, pela primeira vez, um relatório sobre a situação de crédito soberano em 50 países, que perfazem 90% do produto mundial. Portugal surge na 29ª posição com uma notação de A- (similar à atribuída pela Standard & Poor’s) e com outlook (perspectiva) negativo.

O nosso país e a Itália estão na fronteira da notação para a classificação de BBB. O relatório sublinha que estes países poderão enfrentar riscos de refinanciamento e de pagamento da dívida dada a vulnerabilidade a “um choque interno ou externo súbito e relativamente grande”.

A surpresa nas notações

A agência de rating chinesa surpreendeu os mercados internacionais ao dar notação de AA (e não triplo A, a nota máxima) e com outlook negativo aos Estados Unidos, colocando inclusive a superpotência na fronteira para a notação abaixo, e ainda pior ao Reino Unido com AA- e outlook negativo, quer em termos de moeda local como em divisas estrangeiras. Também outros membros do G7 recebem a notação de AA- e com outlook negativo, como o Japão e a França.

Há, de facto, uma diferença de fundo entre as notações da Dagong e das três agências mais conhecidas (Moody’s, Fitch e S&P, apelidadas de “big three“): enquanto as agências norte-americanas dão notação de triplo A a mais de 10 países, a agência chinesa é menos generosa, nomeadamente em quatro casos mais significativos (que incluem os EUA, Japão, Reino Unido e Alemanha).

Apenas cinco países recebem a notação de triplo A (a mais alta em termos de solvência e sustentabilidade de longo prazo) e com outlook estável quer na avaliação global do nível de crédito em termos de moeda local como em divisas estrangeiras: Noruega (a liderar), Dinamarca, Luxemburgo, Suíça e Singapura. A Austrália e a Nova Zelândia têm a notação de AAA em termos de moeda local e de AA+ (uma notação abaixo) em divisas estrangeiras. A Alemanha, a referência para a zona euro e a União Europeia, não está neste grupo de sete do topo.

Mais generosa nos emergentes

Na notação da Dagong, a China tem notação AA+ e outlook estável em termos de moeda local, tal como a Alemanha, mas em termos de divisas estrangeiras tem notação máxima de AAA, acima da alemã, da canadiana ou da holandesa, os companheiros neste segundo grupo.

O relatório admite, no entanto, que em relação a países como a China (com AA+), Arábia Saudita e Coreia do Sul (ambas com AA) há problemas derivados “do ajustamento das estruturas económicas ou risco geopolítico derivado de problemas práticos”. A notação atribuída à China é mais elevada do que a atribuída pela Moody’s (A1), S&P (A+) e Fitch (AA-).

Piores notações dadas a Espanha, Grécia e Roménia

No conjunto dos PIGS (acrónimo pejorativo para o grupo da zona euro formado por Portugal, Itália, Grécia e Espanha – a Irlanda não foi incluída na análise pela agência de rating chinesa), a Dagong atribui notação de A e com outlook negativo à Espanha (mais baixa do que as atribuídas pelas agências de notação americanas), de A- com outlook negativo a Itália e Portugal, e de BB com outlook estável à Grécia (mais baixa, também, do que a atribuída pelas outras três agências).

Entre os países de Leste da União Europeia que têm estado em foco, a agência de rating chinesa atribui a notação de BBB com outlook negativo à Hungria e de BB+ com outlook negativo à Roménia (mais baixa do que a atribuída pelas agências norte-americanas) – países que estão em pior situação do que Portugal ou Itália.

Estas notações mais baixas em relação a Espanha, Grécia e Roménia significam que a Oriente alguns elos mais fracos da zona euro e da União Europeia são vistos mais negativamente do que em Nova Iorque pelas três agências de rating internacionais mais poderosas.

Relativamente aos companheiros da China no grupo designado por BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China), a Dagong atribui notação A com outlook estável à Rússia, A- com outlook estável ao Brasil e BBB com outlook estável à Índia, o país em pior situação de avaliação de crédito neste grupo. Nos três casos, a atribuição dada pela agência chinesa é superior às atribuídas pelas três rating norte-americanas.

A Dagong foi criada em 1994 para atribuir notação à dívida das empresas chinesas. Alega ser privada e que a sua metodologia não está imbuída de apreciações ideológicas. É, no entanto, apoiada oficialmente. O próprio anúncio do relatório sobre a notação dos 50 países foi feito ontem na sede da agência de notícias Xinhua. Trata-se de um sinal – mais um – da estratégia de projecção externa da China.

Classificações comparadas para Portugal

Dagong: A-;
Moody’s: Aa2 (até 12/07/2010); A1 (a partir de 13/07/2010);
S&P: A-;
Fitch: AA-

Mais informações aqui.

O FMI prevê para o próximo ano um crescimento mundial umas décimas abaixo do estimado para este ano mas a desaceleração no comércio internacional rondará quase 3 pontos percentuais. A zona euro será o último do pelotão em matéria de crescimento e, no cenário mais pessimista, poderá reentrar, mesmo, em recessão. Um alerta para os governos da zona euro colocarem as barbas de molho. Para o cidadão comum: prepare-se, 2011 vai vir com brinde: novo choque.

O crescimento mundial deverá rondar os 4,3% e o comércio internacional crescerá 6,3% em volume no próximo ano – este é o cenário “de referência” apresentado esta semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Não são números desencorajadores, depois da recessão na produção mundial (quase 1%) e da quebra espetacular de 11,3% nas exportações e importações em 2009, o ano negro da Grande Recessão que tocou a economia mundial desde 2007. O FMI, no documento sobre “Perspectivas da Economia Mundial” (World Economic Outlook Update), divulgado esta semana, não dá guarida ao receio de uma recaída na recessão (com crescimento negativo do produto mundial, contracção) no próximo ano, mas admite um ligeiro arrefecimento, mais pronunciado no comércio mundial.

As estimativas do FMI para 2011 revelam que o crescimento mundial irá desacelerar três décimas em relação ao estimado para 2010 e que o comércio internacional verá a sua dinâmica anual baixar de 9% para 6,3%.

Mas, na parte final do documento, admite-se um cenário “mais pessimista” (de que falaremos adiante) em 2011 que reduziria a taxa de crescimento em 39% em relação à estimada para 2010. Este cenário “mais pessimista” implicaria que a zona euro entrasse no próximo ano em recessão (em vez de 1,3% de crescimento médio, cairia abruptamente para 2,2% de contracção) e os EUA crescessem apenas 0,4%.

Num documento mais recente, sobre a “saúde” da economia da zona euro [Economic Health Check, 21 de Julho de 2010], o FMI admitia, ainda, outra “possibilidade distinta”, a de “um período prolongado de estagnação”. (Pág.9 do relatório). O que reflecte bem a “incerteza” nas equipas do Fundo.

Ben Bernanke, no seu testemunho sobre política monetária perante o Congresso americano, no mesmo dia, falaria no mesmo tom sobre o futuro do crescimento americano: “extraordinariamente incerto” (unusually uncertain), duas palavras fatais que logo deitaram abaixo naquela tarde o Dow Jones e o Nasdaq.

A liga dos campeões

A liga dos campeões do crescimento continuará em 2011 a ser formada pelos países emergentes asiáticos, com destaque para a China e a Índia, verdadeiras “locomotivas” do produto mundial. O crescimento médio anual deste grupo situar-se-á nos 8,5%, quase duas vezes mais que a média mundial, mas sete décimas abaixo do crescimento estimado para 2010. Em 2011 a China voltará a ser o campeão incontestado com um crescimento na ordem dos 9,6%, logo seguida da Índia com 8,4%. Um ligeiro arrefecimento de quase 1 ponto percentual na China e de 1 ponto percentual na Índia. Alguns analistas vêm neste ligeiro abrandamento um exercício de soft-landing de duas economias consideradas sobreaquecidas.

No entanto, o papel indiscutível dos emergentes da Ásia como motores do crescimento mundial é indiscutível. O FMI estima que, até 2012, a China represente 34% desse crescimento anual – compare-se com a contribuição da zona euro que não ultrapassará os 3%.

Mas onde o arrefecimento da dinâmica vai ser mais acentuado é no grupo dos países que o FMI designa como “novas economias industrializadas da Ásia” – os famosos “tigres” asiáticos (Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan) – que “descerão” de um crescimento médio de 6,7% em 2010 para 4,7% e no Brasil, que verá a sua taxa de crescimento descer de 7,1% em 2010 para 4,7% no ano seguinte.

Papel secundário do G7

O papel secundário do G7 (o grupo geopolítico obsoleto reunindo as sete maiores economias do mundo) é visível nas taxas de crescimento estimadas para 2010 e 2011. Os EUA crescerão 3,3% em 2010 e descerão para 2,9% no ano seguinte, abaixo da média mundial. A zona euro melhorará ligeiramente, mas não passará de um crescimento de 1,3% em 2011, o comportamento mais medíocre no Planeta, que conduz o FMI a apontar a região como o elo mais fraco da economia mundial.

Elo mais fraco onde os “choques financeiros” e a desconfiança dos investidores internacionais são mais sentidos em virtude do risco de defaults em série em países mais frágeis da zona euro (os denominados PIGS, designação pejorativa para Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) e em parte do bloco de Leste (Roménia, Bulgária, Hungria) e Báltico (Letónia, Lituânia) aderente da União Europeia. Também a situação envolvente em países como a Ucrânia (com uma alta probabilidade de default; tal como a Grécia no TOP 5 do risco mundial) e na Croácia não tranquilizam a Europa. Em 2011, o grupo de cinco países denominados PIIGS (que inclui, além dos quatro referidos anteriormente, mais a Itália) apresentará 380 mil milhões de euros em necessidades de refinanciamento face a dívidas soberanas que vencem, segundo o “Global Financial Stability Report” do FMI, publicado este mês.

O Japão descerá de 2,4% para 1,8%. O Reino Unido será o país do G7 com a maior subida – de 1,2% em 2010 para 2,1% no ano seguinte.

Cenário mais pessimista foi simulado

O problema do “elo mais fraco” – a Europa – é abordado pelo FMI que admite que “as projecções que elaborou incorporam um efeito negativo modesto [provocado pelas tensões financeiras] sobre o crescimento na zona euro”. O termo “modesto” é um eufemismo para evidenciar que este exercício do FMI está envolto “num contexto de incerteza”.
Aliás, mais adiante, o documento de Perspectivas admite “um cenário mais pessimista” derivado da deterioração da situação nos mercados financeiros.

Uma simulação realizada pelo modelo de projecções do FMI (Global Projection Model), tomando em linha de conta uma situação de contágio negativo nos mercados financeiros, derivado da deterioração na zona euro, aponta para um “corte” de 1,5 pontos percentuais na projecção do crescimento mundial para 2011. Ou seja, em vez de 4,3%, o aumento da produção mundial seria corrigido em baixa para 2,8%, um crescimento muito “modesto”. A simulação não apresenta o impacto no comércio internacional que será muito maior.

Brinde para a zona euro em 2011?

O caso da zona euro seria o mais dramático em 2011 neste cenário – a correcção do crescimento seria na ordem dos 3,5 pontos percentuais, o que provocaria uma reviravolta na situação económica: de um crescimento fraco de 1,3% para uma contracção de 2,2%, menor do que a recessão de 2009 (o produto da zona euro caiu 4,1%), mas digna de ser apelidada de um verdadeiro double-dip (recaída na recessão).

Há interrogação colocada em título, o analista Peter Cohan responde: provavelmente as duas coisas.

O Banco Popular da China (BPC), o banco central de Beijing, decidiu anunciar no passado fim-de-semana um processo de flutuação da sua moeda, o renminbi (RMB, que significa “dinheiro do povo”) ou yuan (a unidade monetária do RMB). Ao fim de 23 meses, a China abandonou a indexação de facto (fixed peg) ao dólar americano, na base de um câmbio fixo de 6,83 RMB por dólar.

Por isso, ontem (21/07), nos mercados asiáticos, o RMB apreciou-se ligeiramente, num só dia, em 0,43%, baixando para 6,7980 contra o dólar. Ou seja, a moeda americana passou a valer menos em divisas chinesas e, portanto, qualquer produto chinês passou a ficar mais caro ligeiramente no mercado americano e em todos os que usem o dólar. Inversamente, qualquer produto ou serviço com o preço marcado em dólares passou a custar menos em moeda chinesa.

A valorização do RMB face ao dólar é de 0,5% em relação à cotação em 1 de Janeiro de 2010. Em relação ao euro, em virtude da desvalorização deste face ao dólar, o RMB já se valorizou em 15% desde o início do ano – a União Europeia é o principal parceiro comercial da China (16,3% em volume).

Os especialistas da Bloomberg apostam numa valorização do RMB na ordem dos 2,9% no espaço de um ano. Da última vez que a moeda chinesa flutuou entre Julho de 2005 e Julho de 2008, o RMB valorizou-se em 21%.

Euforia inicial esvaziou-se

A decisão chinesa começou por ser bem recebida nas bolsas americanas ao começo da sessão de ontem, empurrando o Dow Jones Industrial Average para uma subida de 140 pontos, mas a euforia esvaziou-se rapidamente ao longo da tarde, acabando Wall Street por fechar no vermelho. As principais bolsas asiáticas, hoje, fecharam, também, no vermelho – só escaparam Xangai e Shenzhen, com ligeiríssimas melhorias.

As reacções dividiram-se entre o optimismo cauteloso oficial nos Estados Unidos e na Europa e a dúvida nos analistas, que se agravou à medida que o comunicado do BPC foi lido na íntegra. A flexibilização da taxa de câmbio da moeda chinesa será gradual e o banco central de Beijing adverte que poderá ocorrer “em ambas as direcções”, atendendo ao clima interno e à estratégia internacional de exportação e investimento dos grandes grupos estatais ou para-estatais chineses. Bem como toda a gestão cambial tomará em conta um cabaz de divisas dos principais clientes da China e não, apenas, o dólar, como explicou diligentemente um “perguntas & respostas” do banco central.

Duplicidade de Beijing

O que motivou, então, os chineses? Peter Cohan, analista financeiro em Boston, é de opinião que foi uma “combinação” de dois desígnios: “É tanto um posicionamento face ao G20 deste fim-de-semana em Toronto como um bónus aos trabalhadores chineses. Poderá ser uma mudança real na estratégia económica chinesa, mas só o tempo o dirá”, diz-nos.

O consenso dos analistas internacionais inclina-se para uma manobra táctica dos chineses destinada a retirar da mesa de discussões na cimeira do G20 de 26 e 27 de Junho este tema incómodo de um RMB artificialmente barato. Os chineses querem neutralizar o ruído da acusação de que são “manipuladores de divisas”.

Cohan chama a atenção, no entanto, que pode estar em gestação uma nova estratégia económica em Pequim. “Um renminbi mais forte será mais um factor para esvaziar a bolha interna chinesa”, sublinha o analista americano. Pode ser o começo de um período de “exportação” da inflação interna chinesa para os seus principais clientes mundiais, como já sublinhámos. “Se a divisa chinesa continuar a valorizar-se, os consumidores americanos e europeus pagarão um preço mais elevado pelos produtos chineses. Esta inflação, juntamente com uma maior relutância das autoridades monetárias chinesas em financiar os défices americanos, obrigará a Reserva Federal americana a subir as taxas de juro. O que provocará um abrandamento na economia americana”.

A era de uma superpotência mercantilista, fábrica do mundo, inundando de produtos baratos os países desenvolvidos pode estar a sair de cena nas mentes estratégicas de Beijing. O reverso dessa guinada, como sublinha Cohan, é o ocaso gradual do papel de financiador de último recurso que a China tem desempenhado em relação aos EUA. O banco central da China, recorde-se, nada em 2,45 biliões de dólares (triliões, na nomenclatura anglo-saxónica) de reservas em divisas estrangeiras. “Se a mudança for sustentada, uma moeda apreciada poderá mudar a China de um exportador barato para uma economia movida pelo consumo”, diz Cohan. O comunicado do BPC vai nesse sentido, dando a entender a necessidade de um soft landing da sobreaquecida economia chinesa e de uma deslocação do investimento para os sectores de serviços.

China mantém margem de manobra

Mas todas as medidas de política económica têm efeitos complexos dentro e fora da China, e dentro desta potência geram tensões entre os diferentes grupos de interesses e lóbis que se criaram nos últimos trinta anos a par das reformas capitalistas. Dois bancos chineses estão hoje entre os 10 maiores do mundo em capitalização. O sector exportador vale quase 40% do PIB chinês e cresceu em Maio passado 48,5% em relação ao ano anterior. Para a União Europeia, as exportações cresceram 49,7%.

Depois de um défice pontual em Março na balança comercial chinesa de mais de 7 mil milhões de dólares, o excedente subiu para 19,5 mil milhões no final de Maio. Alguns analistas de comércio internacional alegam que este disparo se deveu a antecipações de encomendas por parte de importadores antevendo a valorização do RMB.

Verso e reverso – no reino da complexidade

A mudança de política cambial chinesa pode ter um senão – os consumidores dos países desenvolvidos, habituados às pechinchas chinesas, deixarem de ser consumidores fiéis; e as marcas globais que vivem da “deslocalização” e subcontratação barata nas fábricas da China procurarem novos fornecedores e localizações. “Se esta procura mundial baixar demasiado, os estragos na economia chinesa poderão levar a uma flutuação mais limitada do renmimbi”, conclui Peter Cohan. As autoridades chinesas pretendem, por isso, manter essa margem de manobra.

Internamente, a moeda valorizada acalmará, segundo muitos analistas, o descontentamento latente do povo – particularmente da população fabril urbana – aumentando o poder de compra, mas o impacto nos custos nominais unitários do trabalho far-se-á sentir, podendo baixar a competitividade internacional do país.

O disparo do consumismo chinês será, sem dúvida, agradável para as marcas internacionais e locais que criaram notoriedade e presença no imenso mercado chinês. Para a balança comercial chinesa, a valorização do RMB significará o pagamento do petróleo e matérias-primas importadas (preço em dólares) mais barato – a China precisará de menos moeda local para pagar o barril de crude.

A Grande Recessão entrou na fase de “deslocação geopolítica global”, diz o Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP)/Europa 2020, um think tank francês de prospectiva, que publica mensalmente um GlobalEurope Anticipation Bulletin (GEAB).

O LEAP adianta que essa fase trará quatro “pontos singulares de colapso” em que qualquer desarranjo num deles provocará o bloqueio do sistema mundial, como numa rede computacional.

Esses quatro pontos são, no entender dos especialistas franceses:
a) a consolidação do problema do endividamento soberano ocidental como “intolerável”;
b) o abandono da retórica e políticas de prioridade à retoma a favor da “estabilidade estrutural” (vulgo programas de austeridade);
c) o início pela China da fase de “exportação” do seu sobreaquecimento económico inflacionário (alimentado em particular pela estratégia mercantilista de exportação baseada em uma moeda subvalorizada artificialmente nos últimos dois anos);
d) a inevitabilidade dos Estados Unidos avançarem para um programa federal de austeridade (arrisca-se o número de 1 bilião de dólares[trilião, na nomenclatura anglo-saxónica] em cortes orçamentais nos próximos 3 a 5 anos) face ao risco de bancarrota de alguns Estados da federação (como se tem observado nos casos mais graves da Califórnia e de Illinois) e ao próprio agravamento político interno com o primeiro teste eleitoral da Administração Obama nas eleições de meio do mandato em Novembro para o Congresso, o Senado, parlamentos estaduais e governadores. A consequência será uma recaída na contracção e uma média anual muito longe dos 3,5% de crescimento em 2010 anunciados pelo presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke.

G20 não é vinha vindimada para os EUA

A principal consequência geopolítica (e esse será o 5º choque), arrisca o LEAP, será a manifesta incapacidade dos Estados Unidos, a primeira potência do mundo, em liderar o G20, de que se começaram a observar sinais na cimeira de Copenhaga em Dezembro de 2009 e, mais recentemente, a 3 e 4 de Junho, na reunião de ministros das Finanças do grupo dos 20 em Busan/Pusan, na Coreia do Sul. A multiplicação, por ora, de alianças à la carte e o aumento de linhas de fractura no G20 poderá ser o resultado. O que este choque geopolítico nos reserva serão as cenas dos próximos capítulos.

A cimeira de ministros e de banqueiros centrais, que terminou sábado na Coreia do Sul, revelou um xadrez muito complexo de temas fracturantes que dividem o grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico. As coligações são, por ora, claramente ad hoc em muitos assuntos, mas a força da China, Brasil, Índia e até do Canadá e Coreia do Sul revela-se.

Para além do discurso politicamente correcto do comunicado final saído da cimeira de ministros de Finanças e Economia e de banqueiros centrais do G20 (grupo de 20 países actualmente com maior peso geopolítico no mundo), reunidos ontem e hoje no porto de Busan (ou Pusan), na Coreia do Sul, o ambiente foi de discussões “muito quentes”, como deixou passar para os media Shin Je-Yoon, o vice-ministro das Finanças para os assuntos internacionais do país anfitrião.

«Distracção», acusa o Canadá

Um dos temas que gerou expectativa foi o da iniciativa americana e alemã de um imposto sobre transacções financeiras que alimentasse um fundo para futuros resgates em caso de crise financeira.

O que poderia pensar-se ser pacífico, não o é. Os “fat cats” da alta finança, como lhes chamou Obama, são hoje um alvo politicamente fácil. Mas a ideia encontrou a resistência determinada do Canadá, Brasil, Índia, Austrália e Japão. O ministro canadiano, Jim Flaherty, que surgiu como líder da oposição, acusou mesmo a ideia de ser uma “distracção” em relação “aos problemas de fundo”.

O que está em jogo neste tema fracturante é que uma parte do globo – que não se considera responsável pela crise financeira e que hoje está a começar a dar cartas na geopolítica – não pretende penalizar os seus sistemas financeiros locais que estão em plena ofensiva global, aproveitando as vulnerabilidades dos eixos financeiros incumbentes de Nova Iorque, Londres e Frankfurt.

Os relatos sobre esta discussão são abertamente contraditórios, consoante o ponto geográfico do mundo que os emite. Na Ásia (siga a cobertura pelo The Korea Times) dá-se o assunto desta taxa como encerrado, como não tendo sido incluído sequer na agenda da próxima cimeira de alto nível do G20 em Toronto, no Canadá, a 26 e 27 de Junho. Outros, na Europa e nos EUA, afirmam que o tema regressará, pois é um ponto de honra, sobretudo do secretário do Tesouro, Thimothy Geithner, e colocam esperanças no relatório que o Fundo Monetário Internacional deverá apresentar em Toronto.

Consolidação orçamental tem apoio maioritário

Outro tema fracturante foi a questão da consolidação orçamental, suscitada pelo alastrar da crise da dívida soberana na União Europeia. Aqui as “coligações” de interesses são curiosamente distintas.

Americanos, franceses e Banco Central Europeu (BCE) repetem em uníssono que a Europa deu os passos adequados e alertam que a consolidação orçamental não pode ser cega nem exagerada, aumentando o risco de uma recaída na recessão.

Por seu lado, os alemães e os asiáticos – ao que parece apoiados por “uma corrente maioritária” no G20, confessou, desapontada, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde – insistem que a consolidação orçamental é a prioridade número um. O Brasil e a China teriam mesmo expressado sérias dúvidas sobre a gestão do problema na Europa.

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, garantiu, no final, falando para os mercados financeiros que reabrem na segunda-feira, que teria havido um entendimento “muito bom” sobre o problema. O comunicado final bate palmas, logo no segundo ponto, à acção da União Europeia, do BCE e do FMI na questão.

Fogo sobre o mercantilismo

As alianças ad hoc voltam, de novo, a mudar quando chegamos ao tema da dinamização do comércio internacional e da procura mundial. O secretário do Tesouro americano defendeu que os principais exportadores mundiais de bens com superávites nas suas balanças comerciais (onde se encontram a China, líder mundial da exportação em 2009, Alemanha e Japão) deverão favorecer a importação, facilitando a exportação por parte dos deficitários, e abandonar as suas políticas mercantilistas. O que, naturalmente, não agrada aos visados.

Sobre o tema de fundo da regulação bancária e do sistema financeiro “sombra”, a cimeira de Busan chutou, de novo, o problema para os próximos encontros. Novas regras para exigir transparência às agências de notação, à actuação dos hedge funds e ao uso dos derivados continuam em estudo. Também para a cimeira do G20 em 11 e 12 de Novembro, em Seul, se espera que a Comissão Basel sobre Supervisão Bancária apresente as novas normas com que terão de se coser os bancos, no sentido de restringir o vício da excessiva alavancagem associada às vagas de financeirização desde 1860 e às crises financeiras graves que provocou desde essa altura.

Uma coisa é certa: o FMI vai ter de mudar

Um ponto político parece impor-se: o da urgência de reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI). À margem da cimeira, Coreia do Sul e Brasil assinaram um entendimento sobre a modificação da correlação de forças no FMI (que afectará sobretudo a “representação” dos países europeus) e Seul aproveitou para vender aos brasileiros o seu know how na organização do Campeonato Mundial de 2002 e dos Jogos Olímpicos de 1998. O Brasil, como se sabe, está a organizar o Mundial de 2014 e os Jogos de 2016.
Está convocada nova reunião de ministros e banqueiros para 22 e 23 de Outubro, de novo, na Coreia do Sul.

SEMANA CONTURBADA ENVOLVE A CIMEIRA

O clima escaldante nas reuniões à porta fechada e nos bastidores derivou do contexto específico em que reuniu o G20 em Busan: as contingências da própria semana falam por si. A crise da dívida soberana na Europa “alargou-se” a vários países do Leste, com o incidente mais gravoso na Hungria. Uma má “tradução” de declarações oficiais incendiou os investidores do mercado de credit default swaps sobre a dívida (empurrando a Hungria para dentro do TOP 10 mundial de maior risco de default) e provocou um mini-crash nas bolsas europeias e em Wall Street e Manhattan (Nasdaq), como aqui analisámos no Geoscópio.

No Mediterrâneo oriental, Israel e Gaza voltam a ser um ponto quente no mundo dos conflitos regionais que podem degenerar em algo mais vasto, e a própria península coreana, onde a cimeira se realizou (e onde próximas reuniões até final do ano se irão realizar), continua sob risco permanente das manobras regulares do vizinho de Piongiang. Em Maio, recorde-se, o clima regional aqueceu com o episódio do afundamento de um navio sul-coreano por parte dos norte-coreanos.

Qualquer surpresa nestes quadrantes da geografia pode provocar um impacto decisivo no curso da actual crise. “Cisnes cinzentos”, chamam-lhes os analistas.

Para terminar, nas vésperas da cimeira, o Japão mudou de primeiro-ministro, inesperadamente. O ministro das Finanças, Naoto Kan, e líder do Partido Democrático do Japão, passou a primeiro-ministro – o 6º em quatro anos apenas – e em Busan quem acabou por aparecer foi o vice-ministro das Finanças.

Três países da periferia leste da União Europeia vêm a probabilidade de default da dívida soberana subir acima dos 20%. Hungria e Roménia são os casos em destaque. Aperta-se uma tenaz sobre o centro da zona euro. A Hungria, aliás, acabaria por entrar hoje para o TOP 10 mundial da bancarrota, ultrapassando a probabilidade da Irlanda na corrida

Apesar de os holofotes estarem concentrados no grupo dos cinco da periferia atlântica e mediterrânica – conhecidos pejorativamente por PIIGS – que continuam a manter riscos de default (incumprimento) da sua dívida soberana elevados, uma nova frente, agora a leste, começou a desenvolver-se em Maio. Alguns já adiantam que um novo acrónimo terá de ser criado para “incorporar” a Hungria – talvez GHIPSI (para Grécia, Hungria, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália).

No shatterbelt de leste

Os três países, que têm começado a estar no foco dos investidores institucionais no mercado da dívida soberana, são a Hungria, Roménia e Bulgária, todos membros da União Europeia e em dois casos já com intervenções do FMI (Hungria e Roménia).

Este grupo de quatro países, integrantes do que, em geopolítica, se designa por shatterbelt europeu (região de choque entre grandes potências, historicamente sujeita a disputas e cujas fronteiras são redesenhadas na sequência desses conflitos), viu o custo dos seus credit default swaps (acrónimo cds, contratos de seguro que os credores subscrevem com vista a cobrir a probabilidade de uma bancarrota num dado prazo) sobre a dívida soberana a cinco anos dispararem acima dos 250 pontos base agora em Maio.

A probabilidade de default, monitorizada pela CMA DataVision, fechou hoje acima de 23% no casos da Hungria (que entrou, assim, para o TOP 10), próximo dos 23% no caso Roménia e quase 21% para a Bulgária. Um dos membros desta periferia a leste, a Letónia, pertence ao TOP 10 do risco mundial, situando-se, ainda, em 9º lugar, logo abaixo de Portugal. Este país disputou, hoje, um sobe e desce com a Hungria.

Nesse shatterbelt, mas fora da União Europeia, encontra-se com elevado risco a Ucrânia (5º no TOP 10 mundial) e, com um risco acima da “linha Maginot”, a Croácia, com 17%. Dentro da UE, a Lituânia subiu acima dos 18% e movimentos sensíveis de subida observaram-se na Bélgica que subiu para 10,5% de risco e na Áustria que chegou quase aos 9%.

A atenção à periferia oriental, do Báltico aos Balcãs, recrudesceu depois do relatório sobre “estabilidade financeira” do Banco Central Europeu (divulgado esta semana) advertir para uma segunda “bolsa de vulnerabilidade” na Europa – o estado das economias do leste europeu.

Aperto em tenaz

A zona euro parece sofrer de um aperto em tenaz, movido pela percepção “nervosa” dos investidores financeiros sobre a situação das três periferias em foco – a atlântica (com os problemas da dívida soberana e da situação de endividamento do sector financeiro em Portugal, Espanha e Irlanda), a mediterrânica (com destaque para a Grécia e, em menor grau, para Itália) e a oriental, desde o Báltico (Letónia no TOP 10 do risco mundial e Lituânia acima dos 18% de risco de default), passando pela Hungria (que está à beira de ter de quase duplicar oficialmente o valor estimado do peso no PIB, este ano, do seu défice público) até aos Balcãs (Roménia e Bulgária, a ponta da União Europeia no Mar Negro). O medo de um cenário “grego” começa a expandir-se para esta região, historicamente sempre muito conturbada.

Efeito morfina passou

O efeito morfina das decisões tomadas em Bruxelas e pelo Banco Central Europeu (BCE) na maratona de 7 a 9 de Maio parece ter passado, entretanto. A Facilidade Europeia de Estabilidade e a decisão do BCE de adquirir títulos de dívida soberana no mercado secundário (aquisições que, entre 17 e 28 de Maio, já subiram a €61,5 mil milhões) parecem não acalmar os especuladores que observam a confusão política que permanece nos círculos de poder da zona euro e da União Europeia.

Depois de uma acalmia durante a segunda metade de Maio, a probabilidade de default voltou a entrar em alta para o grupo dos cinco PIIGS. A Grécia mantém-se, hoje, no fecho, em 3º lugar no TOP 10 mundial do risco com quase 47% de probabilidade de default, Portugal no 8º lugar, com cerca de 26%, a Irlanda na proximidade dos 23%, a Espanha acima dos 22% e a Itália acima dos 19%. Estes três últimos países bateram, hoje, de novo, recordes anteriores em custo dos credit default swaps e em probabilidade de default no horizonte de cinco anos.

As diferenças em termos de custo dos cds relativos à dívida soberana alemã a cinco anos (a referência para a zona euro) são cada vez maiores: mais de 700 pontos base (pb) para a Grécia; mais de 300 pb para Portugal, mais de 220 pb para Espanha e Irlanda e mais de 190 pb para Itália. Para se entender o spread na colocação de dívida em relação à referência alemã, tenha-se em conta que cada 100 pontos base acima no custo dos cds equivale a 1% mais de diferença nas condições de crédito.

A OCDE, onde Portugal participa com mais outros 30 membros, diz saber como crescer com o espectro do risco de default à porta e com um horizonte de incapacidade (reconhecida) de criação (líquida) de emprego em muitos dos seus membros.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que reuniu o seu conselho de ministros anual em Paris no final da semana passada (27 e 28 de Maio), veio dizer que há um caminho de crescimento de saída desta Grande Recessão. Apontou aos seus 31 membros e a mais um grupo de convidados quatro políticas para haver luz ao fundo do túnel: “crescimento verde”; alavancar a inovação; recusar o proteccionismo no comércio internacional; combater concertadamente a evasão fiscal.

No entanto, reconheceu, antes destas quatro saídas do clima recessivo, que há dois escolhos maiores: a fase actual de crise de dívida em grande parte dos seus membros (vários deles com risco de probabilidade de default da dívida soberana) e o horizonte de uma dinâmica de crescimento do produto interno bruto sem criação líquida de emprego (o que tecnicamente, no economês anglo-saxónico, se designa por jobless recovery ou jobless growth).

A OCDE, um “clube” de ricos e quase-ricos a que Portugal pertence, considera que o combate à crise da dívida é um fio de arame onde se exige um grande equilíbrio: saber dar prioridade ao que se deve manter como despesa pública, realizar uma reforma fiscal “amiga” do crescimento e manter “políticas activas” no mercado de trabalho (nomeadamente a formação e reciclagem em competências e saberes).

Três alavancas de crescimento

Quanto às políticas de crescimento, a OCDE espera em 2011, na próxima reunião ministerial, apresentar um relatório de síntese sobre o que entende, na prática, por “crescimento verde”. Adianta que é indispensável continuar as políticas de eficiência energética e que se deve avançar com iniciativas que desactivem os subsídios aos combustíveis fósseis.

A inovação é outra linha insistentemente repetida pela OCDE. As orientações são conhecidas: políticas fiscais “amigas” da inovação, desenvolvimento do empreendedorismo e criação de novas empresas e fomento da investigação pública e das redes de conhecimento global.

Quanto ao comércio internacional, a OCDE sublinha que, desta vez, apesar da gravidade da Grande Recessão, e ao contrário do que ocorreu em grandes crises anteriores no século XX, não se assistiu a uma vaga de proteccionismo, com uma verdadeira guerra de tarifas, como se temia. A OCDE insiste em que se deve manter uma política mundial anti-proteccionista, que favorece o crescimento global, recomendação que foi apoiada também pelos países já convidados para aderir à organização (Estónia, Israel, Eslovénia) ou em processo de adesão (Rússia), bem como por Hong Kong e China (que fazem parte de um grupo em processo de envolvimento com a OCDE), presentes nesta reunião ministerial anual.

Apesar de mais de meio milhar de medidas avulsas já implementadas pelos diferentes governos no mundo desde a primeira cimeira do G20 em Novembro de 2008 e de alguma retórica política proteccionista, monitorizada pelo Global Trade Alert, a epidemia proteccionista dos anos 1930 não foi repetida.

2009: 5ª maior quebra do comércio mundial

A quebra do comércio internacional em 2009 foi a 5ª mais alta desde 1900 (cerca de 11%, segundo a OCDE no Economic Outlook, de Maio 2010; 12,3% segundo o FMI, no World Economic Outlook de Janeiro de 2010), mas derivou da recessão global do ano passado (que, no entanto, foi inferior a uma quebra de 1% do PIB mundial) e do novo tipo de cadeias globais de fornecimento que têm um impacto “multiplicador” elevado, quer em termos positivos como negativos. A OCDE, no seu recente “Economic Outlook”, estima que a retoma do comércio internacional em 2010 implique um crescimento das trocas mundiais na ordem dos 10,6%. Ou seja, o nível de 2008 é praticamente retomado.

Os dois fundos soberanos da cidade-estado asiática, o GIC e o Temasek, foram os que mais investiram durante os dois anos de Grande Recessão. No conjunto, os oito principais fundos soberanos do mundo investiram 56,4 mil milhões de dólares em grandes operações financeiras.

A Government of Singapore Investment Corporation (GIC) e a Temasek Holdings, os dois fundos soberanos da cidade-estado de Singapura, foram os que mais investiram no sector financeiro internacional durante o período da Grande Recessão entre 2007 e final de 2009.

GIC e Temasek investiram 25,7 mil milhões de dólares em grandes operações de aquisição de posições, durante o pânico financeiro e a recessão, nos bancos UBS, Citigroup, Barclays e Standard Chartered. Foi mais de 45% do esforço total de grandes investimentos realizados pelos 8 principais fundos soberanos do mundo, segundo o estudo “The New Brave World of Sovereign Wealth Funds” publicado esta semana pelo The Lauder Institute of Management and International Studies do Wharton Leadership Center, da Universidade de Pensilvânia, nos Estados Unidos.

A GIC é o segundo em activos entre a mais de meia centena de fundos soberanos existentes no mundo e o Temasek é o 8º no ranking. A maior operação naquele período de crise foi do GIC no banco suíço UBS – 9,8 mil milhões de dólares.

No mesmo período, o segundo fundo soberano que mais investiu em grandes operações financeiras foi a Abu Dhabi Investment Authority, o maior fundo soberano do mundo, que aplicou 9 mil milhões, no UBS e no The Carlyle Group. Seguiu-se a China Investment Corp com um investimento de 8 mil milhões no Morgan Stanley (em Outubro de 2008, o Mitsubishi UFJ Financial group japonês adquiriu 21%, por 9 mil milhões falou-se antes da operação) e no The Blackstone Group LP.

Os oito fundos soberanos com maior actividade de investimento durante a crise foram a GIC de Singapura, a Abu Dhabi Investment Authority, o Temasek Holdings, a China Investment Corp, o Kuwait Investment Office, a Qatar Investment Authority, a Korea Investment Corp e a Saudi Arabian Monetary Agency.

Os alvos financeiros destes grandes investimentos foram o UBS, Citigroup, Morgan Stanley, Merrill Lynch, Barclays, grupo Blackstone, Standard Chartered e grupo Carlyle.

Os maiores fundos soberanos, segundo o levantamento realizado pelo estudo da Wharton, são a Abu Dhabi Invest. Authority (875 mil milhões de dólares de activos), a GIC de Singapura (330 mm), o Fundo de Pensões da Noruega (301 mm), a Saudi Arabian Monetary Agency (270 mm), o Kuwait Investment Office (265 mm), o Russia Stability Fund (225 mm), a CIC da China (200 mm – mas outras fontes apontam para cerca de 300 mm), o Temasek Holdings de Singapura (134 mm) e o Fundo de Pensões do Canadá (121 mm).

Uma lista alternativa pode ser encontrada no Sovereign Wealth Fund Institute.

Falta de tradição na Europa

Na Europa não há grande tradição deste tipo de instrumentos financeiros. Entre os grandes, apenas surge o Fundo de Pensões da Noruega (criado em 1990, ligado ao negócio da exportação de petróleo). Nos mais pequenos, o Fundo de Pensões da Irlanda (criado em 2001) e o recente (final de 2008) Fonds Stratégique d’Investissement, de França.

Quem observe o sobe e desce alucinante do risco de default (incumprimento da dívida soberana) dos países ironicamente designados por PIIGS (acrónimo pejorativo para o grupo Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) verifica a regularidade do que alguns, tecnicamente, chamam de “oscilações selvagens”, por vezes dentro do mesmo dia.

A Grécia ora sobe ao primeiro lugar do TOP 10 mundial desse risco, ora baixa, por vezes vários degraus; Portugal ora entra nesse clube, ora sai, ora volta a entrar, ora volta a sair, jogando à cabra cega com a Islândia, Sicília e Califórnia; a Irlanda chegou a entrar nesse TOP 10 por breve período; Espanha e Itália vêem subir e descer o seu risco amiúde.

Efeito Berlim e golpe de estado inacabado

Nos últimos dias, temos assistido ao efeito “Berlim”. Apesar da aprovação de princípio da Facilidade Europeia de Estabilidade (FEE) com uma almofada de empréstimos “bonificados” que poderá ir até um tecto de 750 mil milhões de euros (500 mil milhões com origem na UE e 250 mil milhões no FMI) a que poderão recorrer os membros da zona euro que estejam em apuros de refinanciamento nos mercados internacionais, o Bundestag (câmara baixa alemã) pretende condicionar a aprovação dos empréstimos caso a caso.

No fundo, a FEE é um instrumento intergovernamental (de 16 membros do Eurogrupo, da zona euro) com um conselho de administração e uma sede no Luxemburgo, mas que dependerá do veto alemão. Além disso, o desenho do controlo orçamental de cada país por parte de Bruxelas ainda está em draft na pena alemã, que apresentará as suas ideias draconianas (como a análise independente de cada orçamento e penalidades para transgressões) a um grupo de trabalho da União Europeia na sexta-feira (21/05), antes de ser colocado a discussão numa cimeira europeia. Estas alterações vão requerer provavelmente emendas ao Tratado de Lisboa.

Apesar desta “lentidão” e contradições políticas do processo, está em curso uma alteração radical da União Europeia. O think tankfrancês LEAP/E2020 já a designou por “golpe de Estado” do núcleo duro da zona euro sobre a União Europeia. Quando, em início de Maio, o Banco Central Europeu alertou para a eminência de uma disrupção no mercado monetário europeu, o núcleo duro da zona euro avançou com a ideia de FFE (que alguns alegam poder vir a evoluir, no futuro, para Fundo Monetário Europeu) e com o projecto de “governança” e estendeu o conceito a toda a União Europeia, tendo sido apoiado pela Suécia e a Polónia, dois não membros da zona euro. A previsão da criação de uma agência de notação de risco (rating) europeia poderá estar, também, na agenda. No mesmo movimento, apenas o Reino Unido ficou isolado.

O intervalo político

O que significa que a arquitectura de uma “governação económica”, pelo menos da zona euro, está em curso, mas, ainda, inacabada – intervalo político que é entendido pelos grandes investidores institucionais como janela de oportunidade para continuarem a estratégia de “encostar” o euro às cordas até final do ano no sentido de uma paridade cambial com o dólar.

A velocidade com que o euro se tem depreciado ultimamente parece dar razão à “aposta” feita em 8 de Fevereiro num jantar de filet mignon em Manhattan reunindo a nata dos hedge funds. Em relação à cotação do final de 2009, o euro já desvalorizou 13,4% em relação ao dólar. Apenas em dezanove dias de Maio, desvalorizou 6,7%. [Entre final de 2008 e final de 2009 valorizara-se em 2,5%. A onça de ouro – metal considerado como “refúgio” por alguns investidores internacionais – valorizou-se em 8,7% na sua cotação em dólares desde o final de 2009].

A situação continua dominada pela volatilidade, apesar das medidas tomadas esta semana, dirigidas ao controlo de certos movimentos especulativos visando hedge funds e operações em credit default swaps apelidadas de “nuas” na gíria financeira (naked) em relação ao mercado dos títulos de divida soberana da zona euro, que tem estado sob ataque diário.

Os ministros das Finanças da União Europeia (EU), reunidos no EcoFin, decidiram esta semana um pacote nesse sentido, apesar da conhecida oposição britânica, centro mundial financeiro muito ligado ao sistema financeiro “sombra”. [Segundo as últimas estatísticas disponibilizadas pela City londrina, o Reino Unido lidera quatro segmentos dos mercados financeiros mundiais: crédito bancário internacional (18%, contra 10% pelos EUA); mercado de câmbios (36% contra 14% pelos EUA); derivados OTC (43% contra 24% pelos EUA); e mercado secundário de obrigações internacionais (70%). Os hedge funds têm também ganho peso progressivamente (20% dos activos geridos à escala mundial) em Londres, ainda que a liderança esteja firmemente nas mãos de Nova Iorque (68%).]

Mas as decisões do grupo de ministros da EU terão de passar pelo Parlamento europeu, onde o lóbi britânico certamente actuará com todas as munições disponíveis. A Alemanha tomou a dianteira e decretou que deverão vigorar até Março de 2011, por decisão do regulador, o BaFin. Christine Lagarde, ministra da Economia do governo de Sarkozy, logo criticou a decisão unilateral alemã. O que dá uma boa imagem da “desincronização” da zona euro.

O pano de fundo

Contudo, há um pano de fundo desta volatilidade, que está para além dos ziguezagues e contradições políticas. A apreciação da probabilidade de incumprimento das obrigações da dívida por parte daquele grupo de países mais em foco deriva da situação global de endividamento da União Europeia, e em particular da zona euro.

Há seis ordens de números a reter:
- a dívida externa da União Europeia (UE) representa 61,5% da dívida externa mundial;
- a dívida externa da Zona Euro detém 44% da dívida externa mundial;
- em 2010, a União Europeia terá de refinanciar 2,2 biliões de euros (triliões, na designação anglo-saxónica), mais do que em 2009, segundo o “Credit Outlook” da Fitch de 18 de Maio;
- o peso dos refinanciamentos no caso dos cinco PIIGS, segundo o jornal alemão Der Spiegel, será de 370,3 mil milhões, ou seja apenas 17% do montante global que a UE necessita;
- dos 17 países desenvolvidos com um alto nível de “stresse” na dívida pública detectados por esse indicador da escola de negócios suíça IMD, 10 são membros da zona euro, com destaque para Itália, Portugal e Bélgica, que apresentam, a par do Japão, o processo mais demorado contado em décadas de regresso da dívida pública respectiva a níveis “toleráveis” de 60% do PIB; no caso português demorará 27 anos;
- desde 2004 assistimos a um disparo do nível de endividamento do sector financeiro da zona euro, que passou de 200% do PIB da região para 250% antes do pânico financeiro de 2008, a fatia de leão do endividamento, como o sublinhou o economista Paul de Grauwe no blogue VOX, esta semana.

Não admira, por isso, que a agência de rating Fitch refira no “Credit Outlook” desta semana que “o potencial para surpresas e para a volatilidade nos mercados de títulos governamentais – incluindo para além da zona euro – se mantenha muito elevado no futuro próximo”. As duas palavras-chave devem, por isso, ser sublinhadas: surpresas + volatilidade.

A Fitch considera, ainda, que “os maiores desafios no ajustamento orçamental no médio prazo se colocarão ao Japão, Irlanda, Reino Unido, Espanha, Estados Unidos e, em menor grau, França”. No grupo de altos desafios, eis quatro europeus, três da zona euro.

Por outro lado, o “Fiscal Monitor” do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado na semana passada, poderá dar uma outra ajuda na visualização dos problemas que a UE enfrenta em 2010: as necessidades de refinanciamento da dívida pública que chega à maturidade requerem em percentagem do PIB, 21,2% no caso da Itália, 20,8% no caso da Bélgica, 16,9% no caso da França, 13,4% no caso da Grécia, 13% no caso de Portugal, 10,3% no caso de Espanha, 10,2% no caso da Alemanha, 8,6% no caso do Reino Unido e 7,7% no caso da Irlanda; ou seja, um esforço considerável na Europa.

Desafios de médio e longo prazo

O FMI aponta, ainda, para os desafios de médio e longo prazo no quadro dos países considerados ricos. Em termos de despesa pública em percentagem do PIB, o aumento previsto de 19 pontos percentuais até 2015 (ou seja da média actual de 91% do PIB para 110%) poderá implicar uma subida de 2 pontos percentuais nas taxas de juro no médio prazo.

Adianta, ainda, o FMI que até 2020 teria de ocorrer uma inversão em matéria de défice público primário nos países ricos para que o seu crescimento não seja afectado: de um défice médio actual de 4,8% do PIB (valor estimado para 2010, ajustado ciclicamente) para um superavite médio de 3,8% no final do período! Eis a dimensão do desafio para os ricos de hoje fintarem a estagnação económica e o declínio geopolítico que os ameaça.

Em termos de dívida pública, o “Fiscal Monitor” do FMI adverte que, se não for reduzido o peso da dívida dos governos dos países ricos, o crescimento potencial nesses países poderá reduzir-se em 0,5% ao ano.

Como na fábula de Jean de La Fontaine, as principais vítimas desta Grande Recessão vão ser as “cigarras”, os países que viveram manifestamente no faz-de-conta, afirmou-nos o economista francês François Heisbourg, de 60 anos, presidente do International Institute for Strategic Studies, sediado em Londres.

O ex-primeiro secretário da Missão Permanente da França nas Nações Unidas nos anos 1970 e 1980 admite que a “morte lenta” das “cigarras” (de que o caso grego é, provavelmente, o mais presente, e Portugal um forte candidato, atendendo às evoluções recentes) possa ser um problema doloroso. Tal como o choque nas “andorinhas que voaram com a globalização”, elogiadas pelos seus “milagres económicos”, e que, subitamente, com esta grande crise, se vêm com recessões mais prolongadas (como a Irlanda e a Espanha) e, em alguns casos, chutadas inclusive para níveis altos de risco de bancarrota (como o Dubai, a Islândia, a Letónia e, mais distante, a Hungria).

O elefante ganhador

Mas esta recessão trouxe mudanças decisivas na cena mundial. “Assistimos à transformação profunda da paisagem geoeconómica e geopolítica. As consequências são directas e bem visíveis”, alega o autor de “Vencedores e Vencidos”, um livro publicado recentemente em Paris. A principal, diz-nos Heisbourg numa entrevista (que pode ler aqui, na íntegra, em francês), tem a ver com a China: “Ela passou de um estatuto de potencial grande potência para a realidade dessa posição. É um salto qualitativo comparável, no plano geoeconómico e geopolítico, ao da emergência da Alemanha imperial no final do século XIX”.

O especialista francês, recorrendo a uma nomenclatura da fauna da crise, chama-lhe “um elefante, um animal com talentos múltiplos”, classificação que estende à Índia e ao Brasil que conseguiram “atravessar a crise apoiando-se numa base económica diversificada”.

Apesar da expectativa de que os Estados Unidos sairiam de rastos desta Grande Recessão, Heisbourg acha que a superpotência se aguenta “como número um, apesar de tudo”, devido a uma característica profunda que mantém: “a sua resiliência, apoiada na criatividade tecnológica, na flexibilidade social, na vitalidade demográfica e na existência de um estado federal”. Por isso, o economista duvida das “teses declinistas” sobre a América que rapidamente se propagaram.

Também, a Rússia não lhe parece que tenha levado uma estocada mortal, por ora, apesar de ser “um dinossauro mono-produtor”, um ponto fraco que é, hoje, o tema central dos debates em Moscovo tendo em vista as presidenciais de 2012, diz Heisbourg.

O principal perdedor

O mais importante «vencido» desta crise poderá ser a União Europeia (UE). “Esta Grande Recessão acentuou os riscos de um declínio terminal”, afirma, com algum pessimismo. A ideia estratégica de uma “tríade” com os EUA e a China parece morrer na praia.

A UE tem dois problemas de fundo, refere o especialista: o risco de ter uma crise grave do euro, da moeda única, bem como uma perspectiva enevoada de crescimento a longo prazo. “A Europa, no conjunto, corre o risco de se japonizar em termos de crescimento”, conclui.

O risco de “japonização” na Europa

O Japão, tal como a Itália, recorda François Heisbourg, são campeões de uma doença: um crescimento de longo prazo medíocre (abaixo de 2%), que, no caso do Japão, que nos anos 1990 tivera a ambição de subir ao escalão das superpotências, já o empurrou definitivamente para “uma marginalização estratégica”. Uma sina que já dura desde a crise de 1991. O antigo império do Sol Nascente está, hoje, numa camisa de varas: “entre o protector americano e o consumidor chinês”.

O recente World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional divulgado esta semana acaba de prognosticar um crescimento medíocre de apenas 1% para o conjunto da zona euro em 2010 (a região do mundo com crescimento mais baixo) e em Espanha, no blogue Nada es Gratis, o economista Antonio Cabrales interrogava-se se a Espanha irá viver uma década similar à japonesa nos anos 1990.

5 colaterais da crise
1- O principal vencedor foi a China, mas a sua janela de oportunidade vai até 2025
2- Apesar de tudo, a América mantém-se como número 1, mas a sua projecção global vai ser afectada pelo défice público e a dívida externa
3- Ficou a nu o risco de declínio terminal da União Europeia e do seu projecto de uma tríade com os EUA e a China
4- Assistimos à marginalização estratégica do Japão
5- Os “milagres económicos” de muitos “tigres” esfumaram-se

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