Geoprotagonistas


O risco de incumprimento das dívidas soberanas de Portugal e da Grécia “desinchou” substancialmente neste começo de Março. Medido pelo preço em pontos base dos credit default swaps (acrónimo: cds, um derivado financeiro que serve de seguro contra o incumprimento), o risco baixou hoje para menos de 140 pontos base (pb) no caso de Portugal e quase 320 pb no caso da Grécia. No entanto, esta última continua a pertencer ao “clube” dos dez países com maior risco, ainda que estando em 9º lugar.

O risco português está, agora, próximo do irlandês – no índice composto da CMA DataVision, o risco de incumprimento no caso português era, hoje, no fecho, de 10,83% e no caso irlandês de 10,36%. (Como termo de comparação, o risco grego era, ainda, de 23,56%). Também, os preços dos cds relativos às dívidas soberanas espanhola e italiana estão em baixa significativa.

Esta tendência sofreu vários ziguezagues ao longo do mês de Fevereiro que acabaria por acomodar um período “negro” de duas semanas em que os preços dos cds relativos à Grécia e a Portugal alcançaram máximos históricos – no caso grego a 4 de Fevereiro (426,38 pb) e no caso português em 8 de Fevereiro (245, 22 pb).

Bolha dos cds “desincha”

Se compararmos com o início de Fevereiro, o preço dos cds relativos a Portugal fechou o mês (nos 163,68 pb) praticamente no mesmo nível, mas em relação ao máximo histórico “emagreceu” 81,52 pontos base. Isto significou que, em relação ao risco alemão (tomado como referência na zona euro, sendo muito baixo, na ordem dos 30-40 pb), o diferencial português baixou de 204,42 pontos para 123 pontos.

Cada 100 pontos equivalem a 1 ponto percentual no spread – ou seja, no máximo histórico a 8 de Fevereiro, a dívida soberana portuguesa tinha um spread superior a 2 pontos percentuais e no final do mês já tinha baixado para pouco acima de 1 ponto percentual. Actualmente, o spread estará abaixo de 1 ponto percentual.

No entanto, é preciso ter em conta que o rácio do valor líquido dos cds soberanos portugueses em relação à dívida pública é de 5% em 2010, o mais alto no grupo designado pejorativamente por PIIGS. A Irlanda encontra-se em 2º lugar com 3%, a Grécia com menos de 2%, a Espanha com pouco mais de 1% e a Itália com menos de 1%, segundo o relatório trimestral do Bank for International Settlements (BIS) publicado esta semana.

O longo braço franco-alemão

A diminuição da pressão sobre a Grécia é atribuída aos rumores de que o núcleo duro da Zona Euro, a Alemanha e a França, preparam uma solução para diminuir o stresse do governo helénico que tem mais de 20 mil milhões de euros da dívida para refinanciar até Maio. Durante 2010 terá necessidade de se financiar em 54 mil milhões e, até à data, já arranjou 13 mil milhões, mesmo em circunstâncias difíceis.

O governo grego adiou para esta semana uma operação de colocação de obrigações no valor de 3 a 5 mil milhões de euros. Na semana passada, as agências de rating S&P e Moody’s avisaram que poderão descer ainda mais a sua notação sobre a dívida grega, se a situação não se aclarar agora em Março. O regime de protectorado das contas gregas imposto por Bruxelas impôs um primeiro exame em meados deste mês.

Os franceses, em particular, apressaram-se a evocar uma solução em preparação nos bastidores que permita ao governo grego refinanciar-se dentro da zona euro através do envolvimento de “parceiros públicos e privados”, afirmou, este domingo, a ministra francesa da Economia Christine Lagarde numa entrevista à Europe1/Le Parisien.

Esta “solução” franco-alemã tem sofrido uma barragem de ataques dos media financeiros anglo-americanos, em particular do The Economist, do Financial Times e do Financial Times Deutschland. Este último tem feito eco da resistência de alguns meios financeiros alemães a um plano em relação à Grécia. No entanto, espera-se que, na próxima sexta-feira, o primeiro-ministro grego, o socialista George Papandreou, se encontre em Berlim com a chancelerina alemã conservadora Angela Merkel e no aperto de mão venha a tal “solução”.

Especuladores “descobrem” a dívida europeia

O que se passou em Fevereiro começa a ser atribuído a movimentos especulativos que julgaram ver em 2010 no mercado da dívida soberana de alguns países mais frágeis da zona euro um terreno fértil para ganhos financeiros em função do aumento do risco de incumprimento das dívidas. Num processo que é um verdadeiro ciclo vicioso (ver destaque).

Depois de uma corrida à míni-bolha das bolsas entre Março de 2009 e 19 de Janeiro de 2010, os movimentos especulativos, que continuam a conseguir obter financiamentos baratos (dado o nível muito baixo das taxas directoras nos EUA e na Europa, por exemplo) procuraram novas oportunidades de rendas financeiras elevadas e encontraram um maná nos mercados da dívida soberana e no câmbio do euro face ao dólar, segundo o relatório trimestral do BIS. Simon Johnson, professor do Massachusetts Institute of Technology, testemunhou perante o comité do orçamento do Senado americano, no início de Fevereiro, que “estamos a assistir a um ataque em toda a escala sobre a dívida soberana na zona euro”.

De facto, a partir de meados de Janeiro, a volatilidade no mercado dos cds disparou na Europa, numa febre altista que foi o dobro da que ocorreu nos EUA. Como refere o relatório do BIS, “este mercado [dos cds relativos à divida soberana dos países desenvolvidos] praticamente não existia há poucos anos atrás, quando os cds soberanos estavam concentrados sobretudo nos países emergentes”.

Depois tomaram o gosto pelos países “ricos”, particularmente pela Europa. O alvo central foi a Grécia – depois dos avisos de “despromoção” da notação da República Helénica pelas agências de rating Moody’s em Outubro e depois pela S&P em Dezembro e das “despromoções” feitas pela Fitch e pelas outras duas em Dezembro. Em Janeiro já se sentiam os efeitos deste ataque em toda a Europa Ocidental: o índice dos cds ligados à dívida soberana de um “cabaz” de países da Europa Ocidental subiu acima de 100 pontos base pela primeira vez – quase o triplo da referência alemã – refere o relatório do BIS.

Alguns gurus das crises alvitram que a seguir às crises financeiras graves vêm os defaults de países. Kenneth Rogoff, professor de Harvard, recordou na semana passada em Tóquio, que isso aconteceu anteriormente. E sentenciou: “ A Grécia é, apenas, o começo”.

Ao mesmo tempo, os movimentos especulativos começaram a “entrar” também na securitização da dívida dos bancos da zona euro, particularmente em relação a alguns dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), em que as contas externas da banca apresentam grandes desequilíbrios entre os passivos e os activos, como são os casos de Itália, Espanha e Portugal, com saldos negativos muito elevados. Alguns dos grandes bancos privados portugueses estiveram em foco durante Fevereiro no mercado dos cds, como o BCP e o BES.

Por outro lado, verificou-se que os bancos europeus estão muito expostos às dívidas dos sectores públicos da Grécia, Espanha e Portugal, nada comparável com a minúscula exposição por parte dos bancos dos EUA, Japão e Reino Unido. No caso de Espanha, a exposição europeia atinge cerca de 100 mil milhões de dólares, no caso da Grécia está acima dos 80 mil milhões e no caso português rondará metade do espanhol, segundo o relatório do BIS. Por isso, a alta finança da zona euro é muito “sensível” ao que ocorre com estes três países do clube Méd. Entre os mais “sensíveis” ao problema estão o Crédit Suisse, a UBS, a Société Générale, o BNP Paribas e o Deutsche Bank.

Jantar de filet mignon decide ataque ao euro

Em simultâneo, a zona euro assiste a um ataque à sua moeda. Depois de um ponto alto recente em 1 de Julho de 2008 com o euro a valer quase 1,6 dólares, a tendência altista inverteu-se e o euro está hoje abaixo de 1,35 dólares. Aos especuladores esta inversão cheirou-lhes, literalmente, a filet mignon.

Num jantar realizado a 8 de Fevereiro por uma boutique financeira nova-iorquina na baixa de Manhattan, um grupo de grandes especuladores decidiu apostar que, no prazo de um ano, o dólar chegará à paridade com o euro, algo que ocorreu na primeira fase do euro (entre Março de 1999 e Janeiro de 2000) e mais tarde entre Novembro de 2002 e Abril de 2003. O dólar chegou a valer mais do que o euro entre Fevereiro de 2000 e Outubro de 2002.

A Monness, Crespi, Hardt & Co colocou alguns pesos pesados a comer filet mignon num tal “idea dinner”, falando o The Wall Street Journal que, à mesa, se banqueteavam alguns líderes dos hedge funds, como a Soros Fund Management LLC, a SAC Capital Advisors, a Greenlight Capital e a Brigade Capital.

Não esperam que haja um colapso do euro como aconteceu à libra em 1992 (em que esteve envolvido o senhor Soros), mas devem ter combinado dar uma mãozinha para que a paridade seja atingida e as suas jogadas especulativas na desvalorização do euro resultem em ganhos elevados.

DESTAQUE
O círculo vicioso dos cds

O jogo é diabólico e é desmontado assim por David Caploe, do EconomyWatch. Um determinado alvo parece estar fragilizado – por exemplo, um estado soberano e a sua dívida pública, em virtude de alta instabilidade política e de disparo de vários indicadores após o combate à crise. Os especuladores que já investiram ou emprestaram a esse país fragilizado atiram-se ao casino dos cds adquirindo esses seguros na aposta de que o país em questão terá dificuldades de cumprimento das suas obrigações de dívida. A compra desses seguros sobre a dívida soberana permitir-lhes-á serem ressarcidos em caso de default daquele Estado.

Deste modo, ao afluírem em massa a este mercado fazem com que o preço dos cds suba. Essa subida é interpretada como um sinal de agravamento da situação. E, como este risco aumenta, os governos desses países terão de pagar spreads mais altos aos tomadores de títulos e de obrigações do Tesouro. Com este adicional de encargos, os governos têm dificuldades acrescidas de colocar esses instrumentos de financiamento da dívida e, se tiverem, por exemplo, de recuar numa operação dessas, a desconfiança aumenta, as apostas no casino dos cds aumentam, e o preço dos cds sobe ainda mais. E, assim, sucessivamente. Até que ocorra, de facto, um default ou alguma acção política concertada desincha o balão especulativo.

Os principais bancos envolvidos neste mercado criaram em simultâneo uma empresa quase desconhecida, a Markit, que lançou um índice que permite o jogo, denuncia David Caploe. Em Setembro passado, a Markit introduziu um índice o iTraxx SovX Western Europe, que entrou em frenesim em Fevereiro. A procura de contratos para este índice duplicou entre Janeiro e Fevereiro – a Markit, naturalmente, arrecada uma renda financeira por licenciar o índice aos brokers.

Ou seja, há, neste casino, investidores a ganharem em vários tabuleiros: directamente na dívida, nos seguros de risco sobre a dívida e no licenciamento do índice, conclui David Caploe.

De acordo com o BIS, o mercado dos cds envolvia contratos no valor facial de 36 triliões de dólares (26,6 biliões de euros) no final do 1º semestre de 2009 e só os bancos comerciais americanos detinham 13 triliões (9,7 biliões de euros) no 3º trimestre do ano passado. Os principais “jogadores” neste casino são o JP Morgan Chase, o Citibank, o Bank of America e a Goldman Sachs (GS). No caso desta última, depois das revelações sobre as operações de maquilhagem na Grécia, a anedota que corre em Wall Street é particularmente venenosa: descubra por que países a GS andou em securitizações e saberá rapidamente quais as próximas vítimas dos especuladores focalizados nas dívidas soberanas.

O The New York Times – através da pena de Gretchen Morgenson num artigo apropriadamente intitulado “É tempo dos swaps perderem a sua arrogância” – já veio levantar uma questão incómoda: por que razão ninguém fala de tocar nos cds no quadro da reforma financeira que anda tão acalorada? O Office of the Comptroller of the Currency americano poderá ter uma resposta: o trading dos derivados de crédito rendeu 1,2 triliões de dólares só no 3º trimestre de 2009!

A ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, pediu inclusive, no domingo passado, a “extinção” destas inovações financeiras.

O combate à crise durante estes dois últimos anos custou aos estados e às grandes instituições envolvidas (como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu) 13 triliões de dólares (mais de 9,6 biliões de euros), o equivalente a um ano de PIB americano, segundo os dados oficiais apurados até Setembro de 2009 pela Grail Research, uma empresa de investigação estratégica de Boston.

Este valor de envolvimento anticrise soma-se a uma destruição de valor financeiro e de quebra do produto interno mundial e do comércio internacional na ordem dos 52,9 triliões de dólares (39,1 biliões de euros), segundo um apuramento provisório com base em diversas fontes (ver Destaque no fim). Se lhe juntarmos, as perdas projectadas para 2009-2010 do sistema financeiro nos mercados maduros derivadas dos problemas com os veículos “tóxicos”, que deverão atingir um montante de 3,4 triliões de dólares (quase 2,5 biliões de euros), o total do “custo” estimado desta crise chega aos 69,3 triliões de dólares (mais de 51 biliões de euros).

Em suma, foi a 12ª maior recessão mundial desde 1850 e a 4ª maior quebra do comércio mundial desde 1900. A destruição de activos financeiros foi mais de 8 vezes superior ao crash das tecnológicas de 2000. Só no caso dos Estados Unidos, o fosso entre o PIB real actual e o PIB real potencial é de 1 trilião de dólares (um gap de 8%), segundo os cálculos de Mark Thoma, professor da Universidade do Oregão, editor de Economist’s View.

Os Estados Unidos lideraram em ambas as linhas de combate ao pânico financeiro de 2008 e à Grande Recessão que se seguiu, envolvendo cerca de 6 triliões de dólares (mais de 4,4 biliões de euros), cerca de 45% do esforço mundial. O segundo país neste esforço global foi a China que aplicou mais de 2 triliões de dólares (1,48 biliões de euros), 15% do montante global.

Geometria variável

No entanto, a distribuição do esforço global foi muito distinta entre os principais países envolvidos.

Enquanto países, como a China, o Japão, a Arábia Saudita, a Itália e a Coreia do Sul concentraram os seus esforços nos programas de estímulos à economia, um outro conjunto de países viu-se obrigado a focalizar o seu ataque na contenção do risco “sistémico” do seu sistema financeiro, como aconteceu com o Reino Unido, a Rússia, a Alemanha, a Irlanda e a Holanda. Países como os EUA e a Espanha repartiram equilibradamente o seu esforço pelas duas linhas de ataque.

No entanto, se o esforço for olhado em relação ao PIB de cada país, verificamos, de novo, uma geometria variável, com países como a Islândia (que enfrentou uma situação de bancarrota), a Irlanda, os Emirados Árabes Unidos (que agregam o Dubai, que tem estado em foco desde Dezembro passado por risco de incumprimento de dívida soberana) e a Letónia a aplicarem entre 30% (casos dos EAU e Letónia) e 76% (a Islândia) do seu PIB na resolução dos problemas gravíssimos do sistema financeiro. Em relação aos estímulos à economia em percentagem do PIB de cada um, os campeões foram a Arábia Saudita (85,5%), a China (47%), os EUA (34,6%), o Quénia (33,5%) e a África do Sul (33,5%).

Portugal nos PIIGS: a intervenção mais magra em % do PIB

A situação dentro dos designados PIIGS europeus (acrónimo que reúne o chamado Clube Méd mais a Irlanda), que agora tanto têm andado em foco nos mercados da dívida soberana, é, também, muito diversa.

Portugal, segundo a Grail Research, aplicou 5,2 biliões de dólares (3,8 mil milhões de euros) no “socorro” ao sistema financeiro (ou seja, foi nesta área que mais interveio financeiramente) e 2,9 biliões (2,1 mil milhões de euros) em estímulos, no conjunto 3,3% do PIB, muito menos, comparativamente com 6,4% do PIB pela Grécia (sobretudo no “socorro” financeiro), 6,6% pela Itália (que aplicou as verbas sobretudo em estímulos à economia), que é a maior economia deste grupo, 10,5% por Espanha e 48,5% pela Irlanda (sobretudo no “socorro” financeiro).

Segundo, um outro estudo, da autoria do Fundo Monetário Internacional (Working Paper 10/44), até Junho de 2009, Portugal teria aplicado 2,4% do seu PIB (referência de 2008) em injecções de capital e outros 2,4% em financiamentos à cabeça pelo Estado e teria “reservado” 12% do PIB em garantias dadas. A Grécia, por exemplo, teria aplicado 2,1% em injecções de capital, 3,3% em aquisições de activos e empréstimos pelo Tesouro, 5,4% em financiamentos à cabeça pelo estado e 6,2% em garantias dadas.

DESTAQUE

Os Números provisórios da Grande Recessão de 2007/2009
(69,3 triliões de dólares em perdas e estímulos, mais de 51 biliões de euros, 120% do PIB estimado para 2009)

A contabilidade da crise:
a) Perdas globais de 56,4 triliões de dólares e 13 triliões de dólares em estímulos estatais;
b) Perdas financeiras: 50 triliões de dólares (37 biliões de euros);
c) Perdas projectadas do sistema financeiro nos mercados maduros para 2009-2010 derivadas dos problemas com o “lixo tóxico”: 3,4 triliões de dólares (cerca de 2,5 biliões de euros);
d) Quebra do PIB em 2009: 490 biliões de dólares (363 mil milhões de euros); 12ª maior recessão mundial desde 1850;
e) Quebra no comércio internacional em 2009: 2,4 triliões de dólares (1,8 biliões de euros);4ª maior contracção do comércio mundial desde 1900;
f) Estímulos públicos: 13 triliões de dólares (mais de 9,6 biliões de euros).

Cálculos:
. Destruição de activos financeiros à escala mundial: 50 triliões de dólares, o equivalente a 87% do produto interno bruto mundial estimado para 2009, segundo o cálculo de Claudio Loser, presidente do Centenial Group Latin America, publicado no Global Journal of Emerging Market Economies (vol. 1, nº2, Maio 2009) e citado no working paper de Ari Aisen e Michael Franken, do Banco Central do Chile, abrangendo a redução no valor de capitalização bolsista, a perda no valor das obrigações e títulos de vida e a depreciação de divisas em relação ao dólar.

. Quebra dos índices bolsistas americanos: 51% do S&P Compósito (de Robert Shiller) e 53,5% do Dow Jones Industrial Average (DJIA), entre 15 de Outubro de 2007 (pico da ‘bolha’ bolsista) e 9 de Março de 2009 (ponto mais baixo até hoje); segunda maior do DJIA, depois da queda de Outubro de 1929 a Julho de 1932, segundo Mark J. Lundeen.

. Registo de perdas globais actuais e potenciais do sistema financeiro (bancos e outras instituições financeiras) nos mercados maduros projectadas para o período 2009-2010, derivadas de “lixo tóxico”, segundo o “Global Stability Report”, do Fundo Monetário Internacional, actualização de Outubro de 2009. Baixaram de uma primeira estimativa em Abril de 2009 no valor de 4 triliões de dólares para 3,4 triliões.

. Contracção mundial do PIB em 2009: -0,8% (em termos nominais, segundo o Word Economic Outlook de 26/01/2010, do Fundo Monetário Internacional) em relação a 2008, cerca de 490 biliões de dólares; 12ª maior recessão desde 1850 (maiores recessões: -11,1% em 1946, -8,1% em 1945; -6,6% em 1932; -6,4% em 1931), quase similar à de 1876 (-0,7%) e abaixo das de 1893 e 1921.

. Contracção do comércio mundial de mercadorias e serviços em 2009: -12,3% em relação a 2008 (segundo o WEO do FMI, 26/01/10 e confirmado por Pascal Lamy, director-geral da Organização Mundial do Comércio, em 24/02/10), cerca de 2,4 triliões de dólares; período de concentração das quebras: -18% entre Abril de 2008 e Agosto de 2009; a partir desta data o comércio mundial voltou a crescer; quarta maior contracção desde 1900 quase ex aequo com a de 1938 (-12%); contracções anteriores mais graves: -32% em 1932; -29% em 1931; – 20% em 1930. A quebra em 2009 sucedeu a um aumento médio anual de 12% entre 2000 e 2008.

. Total dos estímulos à escala mundial: 13 triliões, segundo o levantamento da Grail Research até Setembro de 2009.

Apenas em uma semana a onda especulativa nos mercados da dívida soberana dos países “periféricos” da Zona Euro abrandou. Mas não esvaziou totalmente.

O mercado de credit default swaps (acrónimo popular: CDS) acalmou para o conjunto dos países designados por PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) depois dos dias negros de 4 e 8 de Fevereiro.

No caso português, o preço dos CDS fechou, ontem (19/02), nos 160 pontos base, segundo a CMA DataVision, tendo caído 34% em relação ao pico de 8 de Fevereiro, quando atingira o máximo histórico de 245,22 pontos base. No caso grego, a queda foi de 17%, apesar da revelação, esta semana, dos contornos de uma operação swap cambial em 2002 engendrada pelo governo de então e pela Goldman Sachs e do rebentamento de uma bomba em Atenas em frente dos escritórios da JP Morgan.

A exposição “sistémica” à Grécia

Mas, nos casos grego e português a onda de especulação ainda não esvaziou. Se tomarmos como linha de partida mais recente, a já famosa declaração em 13 de Janeiro pela agência de rating Moody’s sobre a “morte lenta” da Grécia e de Portugal, os preços dos CDS relativos à dívida soberana portuguesa ainda estão 30% acima do valor nessa data e 7% no caso grego. A Grécia continua, aliás, no clube dos 10 países com maior risco de incumprimento da sua dívida soberana, ainda que em último lugar, com um pé quase fora, disputando a posição com o estado americano da Califórnia.

O núcleo duro da Zona Euro está, de facto, muito exposto à dívida da Grécia. Os bancos franceses e alemães têm uma exposição à dívida grega de mais de 100 mil milhões de euros, o equivalente a mais de 60% do PIB português. Uma bancarrota grega – que abriu falência no séc. XIX por quatro vezes e uma outra vez em 1932 – acarretaria um efeito sistémico no sistema financeiro do eixo franco-alemão.

Contudo a questão não se coloca só em relação à Grécia. No conjunto, os bancos europeus têm uma exposição de 600 mil milhões de euros em relação ao grupo Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal.

Período de convergência

Abre-se, em breve, um novo período crítico para a Grécia, não só devido ao “protectorado” de Bruxelas sobre as contas públicas gregas, como em virtude do país ter de recorrer ao mercado internacional entre Abril e Maio para se refinanciar em mais 20 mil milhões de euros. O governo grego anunciou ir lançar no mercado, em breve, uma colocação de 5 mil milhões de euros de títulos a 10 anos, encarando-a como “um referendo” aos investidores. Por outro lado, a 16 de Março terá de apresentar em Bruxelas um relatório de progresso sobre o plano de austeridade.

Também a questão da dívida remanescente de mais de 15 mil milhões de euros do Dubai World regressará ao palco em Março e Abril. Correm rumores de que a empresa-chave do emirado apenas poderá cumprir com 60% da dívida. Portugal entre Março e Junho terá de refinanciar 12 mil milhões de euros da dívida.

Em suma, há uma convergência de problemas de refinanciamento nos próximos três meses que vai, de novo, exigir da Zona Euro e da União Europeia o debate mais aprofundado do dilema estratégico que se coloca: a) avançar para um controlo político mais apertado, incluindo, em contrapartida, mecanismos de socorro financeiro de emergência aos países em risco de default, ou b) manter o sistema de observação de contas aplicado ao caso grego e ver como a situação evolui, deixando o campo aberto aos movimentos de especuladores e aos diktats das agências de notação.

Esta semana, um académico americano no CBS Money Watch sugeriu a saída deste dilema com a criação de um Fundo Monetário Europeu. O proponente, Mark Thoma, professor da Universidade do Oregão e responsável pelo blogue de economia Ecomomist’s View, duvida que, politicamente, seja pacífica a criação de uma instituição deste tipo, mas admite que é “uma boa ideia” que pode ser forçada pela realidade.

Um problema «fractal» do “Ocidente”

O problema não é, no entanto, apenas, dos PIIGS europeus, como o eixo anglo-americano da imprensa financeira pretende fazer passar deixando a porta aberta para a (desejada) desagregação do jovem euro (que fez 10 anos recentemente) e a janela de oportunidade aos especuladores. Até o Nobel da Economia Paul Krugman, na segunda-feira, argumentando que o problema não era dos défices públicos nos “periféricos” europeus, apontou o dedo “à inflexibilidade do euro” como estando no “coração da crise”.

Martin Feldstein, professor de Harvard, sugeriu, mesmo, no Financial Times, que a Grécia metesse umas férias conjugais em relação à zona euro e voltasse à dracma desvalorizando-a, de seguida, em 30%, com o envolvimento do Fundo Monetário Internacional. O que provocou um debate aceso na blogosfera sob a conclusão que seria bem pior a emenda que o soneto.

Mas a Grécia – ou mesmo o resto dos PIIGS – não está sozinha no clube. Como referia o historiador americano Nial Ferguson, no Financial Times, é um problema da maioria dos países ditos ricos. Há “uma geometria fractal da dívida – o problema é basicamente idêntico da Islândia à Irlanda ao Reino Unido e aos Estados Unidos. Apenas surge com dimensões diferentes”. Segundo Ferguson, o Japão e o Reino Unido vão ter de realizar um esforço de “emagrecimento” do défice orçamental em relação ao PIB ainda maior do que a Irlanda, a Espanha e a Grécia, e os EUA terão de fazer um ajustamento ainda maior do que Portugal.

Os alemães alegam inclusive que é necessário instituir um travão orçamental constitucional em cada país da Zona Euro, como o fizeram, dentro de portas, no final de 2009 aprovando uma emenda constitucional limitando o défice.

Os casos inglês e americano

Os casos inglês e americano vieram ultimamente à liça. O défice britânico, por exemplo, deverá atingir os 12,8% do PIB acima dos 12,7% no caso grego. Por isso, em Londres, o debate está ao rubro: 60 economistas apoiaram a decisão de Alistair Darling, ministro do Tesouro inglês, de adiar os cortes orçamentais para o próximo ano orçamental, em resposta a um manifesto de 20 economistas que defenderam a necessidade de austeridade desde já, na linha defendida pelos conservadores britânicos. Nos Estados Unidos, o Nobel da Economia Joseph Stiglitz condenou o que chamou de “fetichismo do défice” levantando-se contra as pressões para que se inicie, desde já, uma estratégia de “saída” de resposta à crise, quando, ainda, se corre o risco de uma recaída (double dip, no jargão técnico).

Sinais destas “dúvidas” transpareceram, esta semana, na dança dos preços dos CDS de alguns dos principais bancos americanos e ingleses, com posições acima dos 100 pontos base, como o Bank of America, Morgan Stanley, a própria Goldman Sachs, Royal Bank of Scotland, Lloyds e Barclays.

Por isso, mais importante do que a dança dos preços dos CDS nos casos do Dubai (nível actual acima dos 600 pontos base), da Letónia (acima dos 500 pb) e da Grécia (acima de 350 pb) – os três que estão no clube dos 10 com maior risco -, ou de outras economias pequenas como Hungria (acima dos 240 pb), Portugal (160 pb) e Irlanda (143 pb), serão as oscilações no caso das grandes economias do “ocidente” que nos deverão manter alerta. Para se avaliar se a Grande Recessão passa a uma “segunda fase”, a de uma derrocada na confiança sobre o cumprimento das obrigações das dívidas soberanas desses países.

Nial Ferguson recorda inclusive que a Moody’s já avisou os EUA e que a Fitch fez o mesmo para o Reino Unido, ao recordarem que a notação triplo A (que significa o menor risco de crédito) de ambos “não estava garantida para sempre”. A comissão do orçamento do Congresso norte-americano já sugeriu que os EUA nunca mais conseguirão um orçamento equilibrado. “NUNCA MAIS” – sublinha Ferguson, em maiúsculas.

O gabinete de análise estratégica francês que edita o GlobalEurope Anticipation Bulletin já referiu que os órgãos de comunicação anglo-americanos, particularmente os financeiros, agitam o “arbusto” (a Grécia) para desviar a atenção da floresta, tentando “branquear” o problema crítico das duas economias, EUA e Reino Unido.

DESTAQUE DA SEMANA
O sinal da Reserva Federal
O primeiro passo de “saída” na política monetária foi dado na quinta-feira à noite pela Reserva Federal (FED), subindo em 25 pontos base a taxa de desconto (valor cobrado pela FED nos empréstimos directos a bancos), passando de 0,5% para 0,75%, ainda assim muito abaixo da taxa correspondente europeia de cedência de liquidez que se situa em 1,75%. Esta decisão foi recebida com surpresa, pois se antecipou à reunião dos governadores da Reserva Federal em Março, presidida por Ben Bernanke.

Os analistas da Cumberland Advisors consideraram tal medida como introduzindo um grau de incerteza maior na conjuntura que os mercados financeiros terão de digerir, adicionando um prémio de risco que se vai repercutir em todo o ecossistema de financiamentos à economia real, aos particulares e à dívida soberana.

A FED não mexeu, contudo, na taxa directora norte-americana (a designada por FED Funds Rate) que se mantém no intervalo entre 0 e 0,25%. O Banco Central Europeu mantém a sua taxa principal de refinanciamento em 1% desde Maio de 2009.

Aliás Bernanke declararia em Washington, dias 24 e 25 de Fevereiro, perante o Painel sobre Finanças da Câmara de Representantes do Congresso americano e, depois, no Painel Bancário do Senado, que a situação de desemprego estrutural elevado (e de taxa de desemprego geral próxima de 10%), reflexo de uma retoma muito frágil, “provavelmente justifica” que a taxa directora se mantenha “excepcionalmente a níveis muito baixos por um período extenso” (uma expressão que a FED tem usado desde Dezembro de 2008). Bernanke apresentava o seu relatório semestral sobre política monetária.

Não se espera que Bernanke dê sinais de mudança na taxa directora antes da ida ao Congresso em Julho.

No entanto, o analista Mark J. Lundeen é de opinião que a margem de manobra da FED é hoje muito mais limitada do que há três ou quatro anos atrás, quando a Reserva Federal podia, com segurança, aumentar a taxa directora para valores elevados, como o fez até chegar aos 5,38%. “Em 2010, agora, se a FED quiser subir a taxa directora mesmo que seja só para 3%, todo o sistema colapsará. O mercado da dívida caminha em cima de prateleiras de ovos. O Doutor Bernanke não vai pôr-se a aumentar as taxa de juro, pois tem medo de rebentar esta bolha. Mas se ele não o fizer, alguma coisa o fará”, ironiza Lundeen.

A incerteza “deslocou-se” do terreno da recessão na economia real para a área financeira, de novo. O foco de atenção passou dos números do PIB e do desemprego para a situação do risco de incumprimento das dívidas soberanas, com particular atenção, desde princípio de Janeiro, na Europa. Parece que uma amnésia se abateu sobre a crise

Aos “suspeitos” do costume em matéria de risco de dívida como a Ucrânia e a Islândia, juntou-se numa espiral estonteante a Grécia (que chegou a ocupar o 8º lugar do clube dos 10 maiores de risco) e, depois, Portugal, em virtude da crise política em torno do orçamento de Estado e das fragilidades da solução governativa minoritária que conduziram à sua “colagem” (excessiva) ao padrão grego.

O risco português avaliado pelo nervosismo no mercado dos credit default swaps (CDS) chegou a um pico histórico na segunda-feira (8/02) com o preço desses veículos financeiros a atingir os 245,22 pontos base (pb). Distante, sem dúvida, do nível atingido pela Grécia (acima de 400 pb), mas correspondendo a um disparo de quase 150% nos últimos 28 dias de negociação segundo a Markit. A situação acalmou, entretanto, e o preço dos CDS relativos a Portugal já estava hoje (10/02) nos 169 pb.

Menos falados nos media europeus ocidentais, há dois países bálticos, a Letónia (que pertence ao clube dos 10 de maior risco) e a Lituânia, e vários na periferia de Leste, como a Bulgária, Roménia e Hungria que estão em situações de risco.

Com as perspectivas de uma retoma modesta nos países OCDE e face a algum esvaziar das míni-bolhas bolsistas, os investidores e os especuladores olham com nervosismo para a área da dívida soberana e da dívida das grandes empresas. Na sondagem realizada pela agência de notação Fitch relativa a Janeiro, 70% dos respondentes dos meios investidores declararam-se preocupados com o tema da dívida soberana. Um dado os atormenta: em 2010, os governos europeus necessitarão de pedir emprestado nos mercados 2200 mil milhões de euros, 12% do PIB da União Europeia.

Alarme na dívida empresarial

Acresce que o panorama no sector da dívida empresarial não os acalma. O prémio de risco subiu assustadoramente num conjunto de entidades europeias, a começar pela banca. Os maiores crescimentos em termos de preço dos CDS observaram-se, nos últimos trinta dias, num conjunto de bancos da Península Ibérica e no Intesa Sanpaolo italiano.

No caso da Península, tais disparos, por ordem decrescente abrangem: 207% para o BCP; 142% para o BES; 84% para o Santander; 80% para o BBVA, segundo dados da Fitch. Ainda segundo a mesma agência, em termos de aumento mensal no percentil no ranking dos CDS, a ordem decrescente é a seguinte: “BBVA, Intesa Sanpaolo, UBS, BNP Paribas, BCP, Credit Suisse, Commerzbank, Société Générale, BES e Santander”.

No caso das não-financeiras, a Fitch chama a atenção para um grupo de cinco grandes empresas europeias com um índice de maior liquidez, liderado pela Telecom Italia, e onde se encontra a Portugal Telecom BV. Os preços dos CDS da PT BV e da PT SGPS subiram mais de 100% nos últimos 28 dias. Ontem, tal como os CDS da dívida soberana portuguesa, baixaram, e encontram-se abaixo dos 150 pb.

O problema que a Fitch Ratings levanta no seu despacho de hoje é pertinente: toda esta instabilidade em torno das dívidas soberanas poderá gerar uma recaída recessiva – situação conhecida pelo termo técnico inglês de double-dip – na economia real que agravará, ainda mais, a situação de risco de crédito das grandes empresas, particularmente nos sectores industriais. Uma pescadinha de rabo na boca.

O grupo dos sete grandes do mundo “desenvolvido”, o G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá), deu um ar da sua graça e parece querer continuar a agir em conjunto. Reunidos este fim-de-semana na cidadezinha de Iqaluit, perto do círculo árctico, os sete ministros das Finanças e os seus banqueiros centrais resolveram deixar três recados, apesar de não ter havido um comunicado final formal. Os recados foram transmitidos por declarações públicas diversas.

Cuidado com o double-dip

O primeiro diz respeito à Grande Recessão iniciada em 2007. Apesar do foco actual se ter virado, abruptamente, para a consolidação orçamental necessária face ao agravamento da percepção de risco de incumprimento de muitas dívidas soberanas, os ministros, reunidos informalmente à lareira, avisaram que é necessário prosseguir os planos anticrise, que o risco de um double-dip, de uma recaída, deve ser evitado.

O secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, foi claro: “Devemos assegurar que não colocamos em causa a retoma económica mundial”. O que exige um equilíbrio, difícil, entre as estratégias de consolidação orçamental de médio prazo (em muitos casos já iniciadas, como na Grécia e Irlanda, e proposta, também, para Portugal, na sua proposta de Orçamento de Estado para 2010) e as intervenções na economia real.

Não ao FMI

O segundo recado foi dirigido aos especuladores, ultimamente muito activos em torno do problema grego e dos restantes membros do Clube dos PIIGS (acrónimo pejorativo para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha). O problema grego deverá ser “gerido pela União Europeia, e não pelo G7”, insistiu o ministro das Finanças do Canadá, Jim Flaherty. Por seu lado, o presidente do Eurogrupo desmentiu formalmente que a Grécia vá fazer apelo à intervenção do Fundo Monetário Internacional, como foi sugerido politicamente pelo Financial Times e pelo The Economist neste fim-de-semana.

A ideia transmitida a partir da lareira canadiana é que será um problema a ser resolvido dentro da União Europeia. Espera-se que, na cimeira informal da próxima quinta-feira (11 de Fevereiro, em Bruxelas, o problema seja debatido. Aumenta uma corrente defensora do avanço para uma iniciativa de lançamento de eurobonds.

Recado à alta finança

Finalmente, o terceiro recado vai directo à alta finança. O G7 vai prosseguir na preparação de uma intervenção conjunta em direcção ao sistema financeiro, apesar da forte oposição destes meios que ficou patente em Davos, no World Economic Forum, e diariamente nas intervenções dos banqueiros um pouco por todo o mundo ocidental.

Duas linhas de intervenção estão em observação pelo G7. Uma foi seguida já pelo Reino Unido e por França no sentido de tributar extraordinariamente os bónus ou outras remunerações variáveis acima de um determinado valor (27.500 euros) dos gestores financeiros, e é o caminho proposto, também, no Orçamento de Estado para 2010 pelo governo português. Outra, foi avançada nos Estados Unidos e pretende aplicar ao núcleo duro do sistema bancário uma taxa a partir de meados deste ano para criar um fundo especial – foi o caso da iniciativa Obama (Financial Crisis Responsability Fee) que se estenderá por dez anos.

Onde parece haver consenso é em matéria de novas regras prudenciais para a banca, esperando-se até ao fim deste ano uma proposta do G7.

Os credit default swaps (CDS) para a dívida soberana da República Portuguesa fecharam hoje nos 245,03 pontos base (pb), mais 8% do que na sexta-feira passada e 180% de aumento em relação a Dezembro do ano passado. O risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa subiu para 18,9%. Similar ao da Lituânia, mas ainda muito abaixo dos 30% da Grécia.

O valor de fecho de hoje marcou um novo máximo histórico, tendo ultrapassado o máximo atingido na quinta-feira negra de 4 de Fevereiro, em que, a par do disparo dos CDS, assistimos, também, ao crash da Bolsa de Lisboa com o PSI20 a cair quase 5%, em linha de contágio com a queda em Madrid de quase 6%, por efeito das declarações do comissário europeu Joaquín Almunia e da continuação do ataque dos hedge funds à Zona Euro.

Apesar das declarações emitidas repetidamente em Portugal pelo Presidente da República e da entrevista dada pelo ministro das Finanças Teixeira dos Santos à CNN, a acalmia observada na sexta-feira foi sol de pouca dura.

Um indicador da consultora CMA sobre o “ruído” das citações relativas a Portugal desde 1 de Fevereiro revela que o nosso país leva a dianteira, se excluirmos o caso grego que tem feito as manchetes por todo o lado: 7715 contra 7417 sobre Espanha, 7063 sobre Itália e 6038 sobre a Irlanda. A imagem de Portugal está severamente machucada. Segundo David Kotok, presidente da Cumberland Advisors, uma consultora de investimentos que gere um portfólio de clientes à escala mundial, por duas razões recentes: as constantes notícias sobre instabilidade política em Portugal e o mau sinal dado pelo falhanço no leilão recente de lançamento de bilhetes do tesouro.

No caso grego, o Nobel Joseph Stiglitz, que é conselheiro do governo grego, reagiu contra a análise feita pelos mercados financeiros, mas a Grécia continua a estar classificada no clube dos 10 de maior risco (8º lugar, entre o Dubai e a Letónia) e a bolsa grega continua a viver em clima de crash.

Estes factos são interpretados no quadro geral de ataque aos pontos fracos da Zona Euro, identificados como estando no Clube Med (Portugal, Espanha, Itália e Grécia) e na Irlanda, a que se adiciona a situação de degradação bolsista na periferia de leste da União Europeia.

As situações da Grécia e da Irlanda, também, se agravaram hoje no mercado dos CDS. O valor para o caso irlandês subiu 9% em relação a sexta-feira alcançando 177,68 pb e no caso da Grécia o preço dos CDS voltou a subir acima dos 400 pb, fixando-se hoje à noite nos 425,63 pb, com um risco de incumprimento de dívida de mais de 30%.

Bolsas grega e americana no vermelho

Esta situação teve um colateral na bolsa grega que voltou a cair hoje mais de 4,5%, prosseguindo no crash já verificado na sexta-feira, em que o índice bolsista FTSE/ASE20 quebrara mais de 4%. A bolsa grega destoou hoje no conjunto das bolsas europeias que registaram subidas, incluindo a lisboeta (PSI 20 subiu 1,29%), a dublinense (subiu menos de 1%) e a madrilena (Ibex35 subiu mais de 1%).

Nos Estados Unidos, os efeitos do ataque à Zona Euro, a pretexto dos riscos com a dívida soberana de alguns países europeus pintados pelos media americanos como “uma bomba ao retardador”, conjugados com o aviso da Moody’s da semana passada de que o país mais poderoso do mundo corria o risco de “em algum momento” ver revista a sua notação de rating de triplo A, provocaram, hoje, de novo, a recaída do Dow Jones para abaixo dos 10.000 pontos (uma quebra de mais de 1%).

A meio da semana passada, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy resolveram apertar as mãos em torno de uma “Agenda 2020” que inclui mais de 80 projectos entre os dois países vizinhos.

Na área económica, foi logo dado destaque, entre eles, a cinco projectos de política industrial comum: um office franco-alemão para as energias renováveis, um projecto-piloto de veículo eléctrico de colaboração entre Estrasburgo e Estugarda, o lançamento de um satélite franco-alemão de detecção de emissões de gás com efeito de estufa, o trabalho conjunto na área de um futuro foguetão espacial europeu e a coordenação na indústria de defesa.

Mas, para além desta convicção de que a Europa deve ter “uma base industrial sólida” (como se refere no comunicado oficial do encontro), e não só viver de rendas financeiras, de serviços (por mais importantes que sejam, como os financeiros, os logísticos, ou o turismo) e de software, a França e a Alemanha dão as mãos, de novo, para consolidar uma nova entente geopolítica, de cooperação estratégica com impacto global.

Primeiro, dentro de portas, recolocando o eixo franco-alemão na direcção estratégica da Zona Euro e da União Europeia face à confusão que reina no seu topo institucional fragmentado. Basta recordar o que aconteceu na semana finda: a Comissão Europeia dá um sinal de “sim, mas” à Grécia em apuros e, logo a seguir, um comissário, Joaquín Almunia, vem, por sua alta recriação, estragar o repasto e provocar um crash na Europa (e particularmente nas bolsas de Madrid, Lisboa e Atenas numa verdadeira quinta-feira negra) e o aumento do nervosismo nos mercados de seguros da dívida soberana (hoje conhecidos pelo popular acrónimo inglês CDS – para credit default swaps).

Plano de consolidação orçamental e de regulação

Esta 12ª reunião conjunta de conselhos de ministros, desta vez no Eliseu, em Paris, decidiu que o eixo apresentará propostas comuns na área económica e financeira já na próxima cimeira informal da União Europeia a 11 de Fevereiro – na próxima quinta-feira – em Bruxelas.

Os dois países pretendem que a consolidação orçamental nos países membros se faça até 2013 em torno da meta de um défice inferior a 3% do PIB no quadro do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e de um estado de equilíbrio orçamental até 2015. Com a resposta à Grande Recessão, a França atingiu, no ano passado, os 8,3% e a Alemanha subiu para os 3,4% (um pouco acima do tal limite, o que para os alemães é uma desonra).

A Alemanha gastou, em termos acumulados ao longo do pânico financeiro e da recessão que se seguiu, 5,1% do seu PIB (em valores de 2008) a salvar o sistema financeiro e 2,5% do PIB em programas de estímulos; no caso da França aplicou muito menos em termos absolutos e relativos: 1,4% do PIB a deitar água no risco sistémico e 1,2% em estímulos, segundo dados recolhidos pela Grail Research até Setembro de 2009, uma firma de investigação estratégica, sedeada em Cambridge, Boston. No conjunto os dois países gastaram em bailout e estímulos mais de 350 mil milhões (biliões na designação anglo-saxónica) de euros, apenas 2,7% do esforço mundial que totalizou 13 biliões (triliões na designação anglo-saxónica), em que os EUA gastaram 5,9 biliões e a China 2 biliões.

Apesar da força política do PEC, um grupo de notáveis na Alemanha, membros do Painel de Conselheiros Económicos do governo federal, já propôs um Pacto europeu de consolidação orçamental em que a saída das políticas anticrise seja cautelosa e rigorosa, e assumida em conjunto por todos os estados-membros.

O eixo franco-alemão trabalhará coordenadamente nas questões quentes do problema sistémico e de algumas das lições da actual Grande Recessão: regulação do mercado de derivados e dos fundos especulativos; sobre as instituições financeiras sistémicas, as jurisdições não cooperativas (eufemismo para offshore), as normas em matéria de exigências de fundos próprios e de liquidez do sistema financeiro e as agências de compensação e de notação (as famosas agências de rating). Preparará, também, em conjunto as negociações do próximo quadro financeiro plurianual europeu.

O já referido painel alemão de conselheiros avançou com uma ideia que agrada, também, a Sarkozy: a criação de um organismo de observação sobre os mercados de divisas, considerados pelos alemães “num estado de anarquia”, assegurando um sistema tripolar, entre o euro, o dólar e o renmimbi (a moeda chinesa), curiosamente omitindo a libra.

Resposta a uma humilhação

Depois, o casalinho em lua-de-mel franco-alemão olha para fora do continente: “Num mundo em que se impõem novos actores globais, estamos convencidos que um eixo franco-alemão o mais estreito possível é indispensável para os nossos dois países e para a Europa”, diz o comunicado oficial.

Todos estão lembrados da humilhação recente da Europa na Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, em que uma mesa adhoc de cinco (EUA, China, Brasil, Índia e África do Sul) deixou os europeus a falar sozinhos pelos corredores da cimeira como baratas tontas. Os passos estratégicos a dar não vêm explícitos no comunicado oficial franco-alemão.

Entre as medidas explícitas, a França apoia a aspiração da Alemanha a ter um lugar de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU e os dois países apresentarão, logo que possível, uma candidatura à presidência conjunta da Organização de Segurança e Cooperação Europeia.

Interrogações finais: Como reagirá o Reino Unido a este renascimento do eixo franco-alemão? Voltará, de novo, para os braços do Tio Sam? Conseguirá o eixo cativar o shatterbelt europeu, dos nórdicos, ao leste (Polónia, sobretudo) e à Península Ibérica?

A política europeia voltou a ficar animada. Os jogos de poder regressaram, depois, de um interregno com a Grande Recessão e as peripécias do Tratado de Lisboa.

O “clube Med”, designação mais mediterrânica e simpática para o que outros chamam de PIGS (o acrónimo para Portugal, Itália, Grécia e Espanha, que, em inglês, significaria porcos, mas não os da quinta de Orwell), voltou a dar sinal de si. Ontem juntou-se para ocupar os lugares cimeiros dos aumentos dos preços dos credit default swaps sobre a dívida soberana, segundo os dados públicos divulgados pelo Markit.

A Grécia, depois de uma descida na segunda-feira do seu máximo nos 404 pontos base (alcançado na semana passada, no auge do ataque especulador por parte de hedge funds), voltou a subir, ontem, para 386,05 pontos base (pb), apesar do “sim, mas” da Comissão Europeia ao seu plano de consolidação orçamental, que foi colocado sob observação.

Portugal, depois de uma descida ligeira, voltou ontem a subir para o seu máximo histórico de 166 pb, alcançado, também, na semana passada. A Espanha subiu, também, para os 133 pb e a Itália, que tinha estado arredada destas andanças durante uns tempos, alcançou os 121,72 pb.

Cada 100 pontos base equivalem a um diferencial de 1% em relação ao preço dos CDS sobre a dívida alemã que se situa nos 36 pontos base. Ou dito de outro modo, se um investidor pretender segurar a dívida soberana grega num montante de 10 milhões de euros, contra o risco de bancarrota a cinco anos, terá de pagar mais 385 mil euros por ano; no caso português terá de pagar mais de 160 mil euros; no espanhol mais de 130 mil; e no italiano mais de 120 mil – enquanto no caso alemão, apenas, 36 mil.

À frente do grupo europeu ocidental de países de risco está, naturalmente, a Islândia que se mantém distanciada do “clube Med”, com preços na ordem dos 650 pontos base. No leste europeu, a situação continua a piorar relativamente à Ucrânia cujos preços dos CDS estão nos 879, 82 pb. À escala mundial, as situações sob observação mais graves são a Venezuela e a Argentina que se encontram próximo do patamar dos 1000 pontos.

O mercado dos fundos de pensões, nos últimos dez anos, cresceu mais em países como Brasil, Hong Kong, Austrália e África do Sul. Na Europa cresceu mais em França e na Holanda no mesmo período, segundo um estudo da Towers Watson que abrangeu os principais treze países envolvidos nesse sector. Estaremos a assistir a mais uma mudança geoeconómica?

O mercado dos fundos de pensões teve taxas de crescimento anual (compostas) de dois dígitos no Brasil (quase 19%), Hong Kong (14%), Austrália (cerca de 14%) e África do Sul (10%) nos últimos dez anos, segundo um estudo divulgado hoje pela Towers Watson, que abrangeu 13 países entre os desenvolvidos e os emergentes. A taxa média de crescimento anual, naquele período, foi, apenas, de uns magros 3,6% para o conjunto dos treze países analisados. Nessa década, no espaço da Zona Euro, a França (9,8%) e a Holanda (9,5%) juntaram-se a esse clube de países com maiores crescimentos na década.

O estudo foi interpretado por diversos analistas como dando indicações de quais os mercados de fundos de pensões do futuro, com destaque para os três grandes países do G20 situados a Sul (Brasil, África do Sul e Austrália).

Crescimentos surpreendentes

Nos últimos doze meses, reportados a Dezembro de 2009, a taxa de crescimento anual, em dólares, foi absolutamente surpreendente em casos como Brasil (108,3%), África do Sul (cerca de 43%) e Austrália (40,3%), enquanto à escala mundial o crescimento anual foi de 15%. No caso da Europa, o crescimento mais assinalável foi o do Reino Unido, com 25% de crescimento entre Dezembro de 2008 e Dezembro de 2009. Em moeda local, os maiores crescimentos no último ano incluíram o Brasil (54,3%), Hong Kong (23,3%), Holanda (14,2%) e França (13,8%).

Trata-se de uma recuperação a sublinhar, depois de uma contracção mundial deste mercado superior a 21% entre Dezembro de 2007 e Dezembro de 2008, durante o período de pânico financeiro da actual Grande Recessão.

Os analistas referem que esses crescimentos seriam sintomas de alguma “emigração” deste mercado para o Hemisfério Sul, dado o peso da Austrália (5º mundial em activos de fundos de pensões) e a subida de países como o Brasil (quase sextuplicou; 9ª posição actualmente), África do Sul (quase triplicou; 10ª posição) e Hong Kong (mais do que triplicou; na última posição do grupo de 13 analisados).

O grupo líder em activos de fundos de pensões continua a ser formado pelos EUA (mais de 13 biliões de dólares de activos em fundos; 13 triliões na designação anglo-saxónica; ou seja 57% dos fundos de pensões existentes neste grupo de 13), Japão (3,2 biliões), Reino Unido (1,8 biliões), Canadá (1,2 biliões), Austrália (996 mil milhões) e Holanda (990 mil milhões). Dentro deste clube selecto, o Japão foi o país que apresentou a taxa de crescimento anual média mais baixa em dez anos inferior a 2% e os Estados Unidos e o Reino Unido cresceram menos de 3%. Por essa razão, o peso dos fundos de pensões destes três países líderes baixou no total dos 13 países.

Na Europa, a Holanda é o maior mercado, ocupando a 6ª posição mundial neste estudo, seguindo da Suíça e da Alemanha. O mercado francês ocupa a 11ª posição neste grupo de 13, mas foi o com maior crescimento anual nos últimos dez anos (multiplicou por 2,5).

Os mais “viciados”

A Towers Watson analisa, também, o peso destes activos em fundos de pensão em relação ao PIB de cada país na sua moeda local. Os países mais “viciados” nestes fundos são a Holanda (120% do PIB), Suíça (113%), Austrália (93%), Estados Unidos (93%), Canadá (84%) e Reino Unido (80%). Os que mostraram maior crescimento desta percentagem no PIB entre 1999 e 2009 foram Hong Kong (mais 27 pontos percentuais), Austrália (mais 26 pp), Holanda (mais 17 pp) e Brasil (mais 11 pp). Os que emagreceram no PIB ocorreram nos casos dos Estados Unidos (quebra de 16 pontos percentuais), Canadá (12 pp) e Reino Unido (12 pp).

Os casos de crescimento de peso no PIB são ainda mais assinaláveis se tivermos em conta que, no mesmo período, o peso dos fundos de pensões no PIB mundial em dólares diminuiu 6 pontos percentuais, situando-se hoje nos 70%. Países como a França e a Alemanha têm um peso dos fundos de pensões no PIB muito baixo, de 6% e 12% respectivamente.

O estudo revela, ainda, que há uma discrepância assinalável no perfil dos fundos de pensões entre duas realidades bem distintas: no Japão e no Canadá são detidos em 70% e 62% respectivamente por entidades públicas, e nos casos do Reino Unido, Austrália, Holanda, Suíça e Estados Unidos são detidos por privados em mais de 70%.

A Towers Watson disponibiliza no seu sítio na web uma ligação para o estudo que abrange outros aspectos não abordados neste artigo.

“Não desistimos, não desertamos!”, disse ontem Obama no seu primeiro discurso sobre o Estado da União perante o Congresso norte-americano.

A postura do presidente americano compreende-se face à situação politicamente complexa que o Partido Democrático atravessa ao fim de um ano de mandato de Obama na Casa Branca.

Um conjunto de “choques” tem afectado a sua estratégia inicial na “frente interna”, com uma subida de tom ultimamente. Os problemas domésticos acabariam, por isso, por ocupar 85% do tempo da intervenção.

Basta recordar, a derrota no estado de Massachusetts nas eleições especiais para o lugar para o Senado deixado vago pela morte de Ted Kennedy, o levantar de vozes críticas, no seu próprio campo, sobre a recondução de Ben Bernanke à frente da Reserva Federal no final deste mês (o Senado acabaria por confirmar dia 28/01 a continuação de Bernanke por 70 contra 30 votos), e as críticas de muitos independentes seus apoiantes de que teria sido um erro táctico grave ter dado prioridade, durante o ano passado, à reforma na área da saúde, em detrimento da questão do desemprego que afecta milhões na Main Street e de colocar ordem em Wall Street.

Uma carta de Keynes

Segundo alguns analistas, um erro de prioridades. Alguns recordam a carta aberta de Keynes ao presidente Roosevelt publicada no The New York Times, no final do ano de 1933, durante os primeiros nove meses dessa Administração, em que o economista inglês aconselhava a dar prioridade política à gestão da retoma e não a reformas de longo alcance. “O sucesso virá de conseguir uma retoma no tempo mais curto, o que fará crescer o prestígio da sua Administração, o que dará a força necessária para levar adiante tais reformas”, escrevia Keynes.

Inversão de prioridades

Obama parece, agora, guinar a vara neste segundo ano da sua Administração. “Tudo começa com a nossa economia”, afirmou. A questão do emprego tornou-se a prioridade face “à devastação que continua a estar presente” no tecido económico e social, apesar do “pior da tempestade já ter passado” e de se ter evitado uma recaída “numa segunda recessão”, disse o presidente.

As manchas de pré-colapso social em muitas regiões do país (“particularmente pequenas cidades e comunidades rurais”) e o empobrecimento brutal de largas franjas da classe média americana (cujas imagens passam em programas de grande audiência, como no Oprah Winfrey Show), levou Obama a avançar, agora, com um pacote de 30 mil milhões de dólares para um programa de emergência à criação de emprego dirigido ao small business, aos empreendedores inovadores e ao próprio desempregado que queira passar a ser boss de si mesmo.

Os fundos serão retirados do dinheiro “reembolsado por Wall Street”, pelos fat cats, que o presidente continua a fustigar, declarando mesmo que “todos nós detestámos salvar a banca, eu abominei isso [fortes aplausos], vocês detestaram-no!”. A câmara de televisão focou, nessa altura, o secretário do Tesouro, Tim Geithner, cuja cara estava literalmente lívida. Um novo ataque político que a alta finança no encontro de Davos do World Economic Forum já repudiou. O dinheiro será canalizado para bancos de proximidade que reabram o crédito aos negócios.

O presidente avançou, ainda, com um novo corte de impostos para criação de emprego ou aumento de salários por parte do small business. Juntou, ainda, “a eliminação de impostos sobre ganhos de capital derivados de investimento, e um incentivo fiscal a todos os negócios, grandes ou pequenos, que invistam em novos estabelecimentos e equipamento”.

Lançou, também, uma Iniciativa para a Exportação para os próximos cinco anos com o objectivo de “duplicar as exportações” nesse período.

Obama reafirmou, ainda, o horizonte de saída desta Grande Recessão, apontando o investimento nas energias “limpas”, nas infra-estruturas do futuro e na inovação como objectivos estratégicos de longo prazo. “Não há razão para a Europa ou a China terem os comboios mais rápidos e as fábricas que produzem produtos limpos”, afirmou. Apelou à travagem da deslocalização: “Está, na altura, finalmente, de eliminar os incentivos fiscais aos que exportam os nossos postos de trabalho e de dá-los às que criam empregos nos EUA”.

Consolidação orçamental

O presidente americano, no entanto, passou, num segundo andamento do seu discurso, ao tema da necessidade de cuidar do défice das contas públicas, propondo a criação de uma comissão bipartida no Senado destinada a vigiar a despesa pública.

O plano de consolidação orçamental de Obama deverá começar em 2011 com vista a um congelamento da despesa pública durante três anos, com excepção das áreas da saúde e da segurança social. Prometeu eliminar todas as cabimentações orçamentais que não tenham funcionado ou não possam ser suportadas. “Já identificámos 20 mil milhões para o próximo ano”, disse. Prometeu, também, terminar com os benefícios fiscais às petrolíferas, aos gestores de fundos de investimento e aos que ganhem mais de 250 mil dólares por ano.

Antes de passar à “frente externa” (a que só dedicou 9 minutos em uma hora de discurso), o presidente não poupou palavras para fustigar os lóbis nacionais e estrangeiros que capturam o Congresso e o aparelho do Estado, deplorando que o Supremo Tribunal americano tenha, na semana passada, aberto uma janela de oportunidade para “interesses especiais” financiarem sem limites as campanhas eleitorais americanas.

A década que agora finda saldou-se por uma quebra bolsista de 22%, segundo o índice Standard & Poor’s (S&P) entre Janeiro de 2000 e Dezembro de 2009, tendo em conta a base de dados mantida pelo professor Robert Shiller da Universidade de Yale. Shiller tem um repositório histórico do comportamento deste índice desde 1871 (o S&P foi criado em 1860).

No entanto, no período de mais de 130 anos que acompanhou o comportamento bolsista de Wall Street e as vagas de desenvolvimento do capital financeiro moderno, os efeitos do crash bolsista, a partir de Outubro de 2007, e da Grande Recessão económica recente são muito inferiores à destruição de capitalização ocorrida na década subsequente ao crash de Outubro de 1929. A década de 1930 saldou-se por uma quebra de 43%, quase o dobro.

A terceira pior década de Wall Street situou-se entre 1910 e 1919, um período que sofreu, à escala global, a 1ª Guerra Mundial e o impacto geopolítico da Revolução bolchevique russa. O desgaste decenal da riqueza bolsista foi de 11,5%.

Grandes correcções são excepcionais

Estes períodos decenais de profunda correcção bolsista são, no entanto, excepcionais. Desde 1871, apenas três décadas se saldaram negativamente.

Mesmo na década de 1900, apesar do grande crash bolsista de 1907 e da Grande Recessão mundial de 1908 (uma das crises globais, segundo Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff em This Times is Different, Princeton University Press, 2009), o saldo foi largamente positivo – Wall Street cresceu em ganhos 69%, o quinto melhor resultado de sempre na história do índice S&P. Também, no período em que ocorreu a 2ª Guerra Mundial, apesar do seu carácter devastador, e de termos assistido à maior quebra mundial do Produto Interno Bruto (PIB), no pós Revolução Industrial, em 1945 e 1946, a Wall Street comportou-se no positivo (+34,5%).

A própria profundidade da correcção bolsista – recorde-se, 43% na década iniciada em 1930, 22% na começada em 2000 e 11,5% na iniciada em 1910 – foi ténue em relação as ganhos acumulados nas décadas imediatamente anteriores. Entre Janeiro de 1920 a Dezembro de 1929 havíamos assistido a um crescimento de 142% (quarto maior), entre Janeiro de 1990 e Dezembro de 1999 a um disparo de 320% (o maior de sempre na história deste índice) e entre Janeiro de 1900 e Dezembro de 1909 a um ganho já referido de 69% (quinto maior).

As melhores décadas

As melhores décadas em bolsa em Wall Street foram a de 1990/1999 (crescimento de 320%), a de 1950/1959 (253%) e a de 1980/1989 (214%).

Em termos históricos, o período de 1980 a 1999 revelou-se o de maior euforia bolsista americana, com um disparo do peso na riqueza por parte do novo capital financeiro e das rendas financeiras. Recorde-se que, em termos de economia “real”, estas duas décadas marcaram a “prisão” do crescimento real do PIB americano num patamar de 3,1%, umas décimas abaixo do ocorrido na década de 1970 e mais de um ponto percentual abaixo das médias das décadas de 1950 e 1960, segundo dados de John Bellamy Foster e Fred Magdoff (The Great Financial Crisis, Monthly Review Press, 2009).

A correcção ocorrida, agora, na década entre 2000 e 2009 (que já entra no século XXI), surge 90 anos após a correcção de 1910-1919. Se, por mera especulação, a correcção definitiva dos excessos da vaga financeira actual (segundo alguns historiadores económicos iniciada na década de 1970) seguir o mesmo padrão daquela iniciada em 1860/1870, daqui a vinte anos teríamos um crash de maiores proporções e eventualmente uma Grande Depressão mais violenta que a actual Grande Recessão.

Sinal da grande mudança em curso. Os dados de 2009, agora divulgados, revelam que a China é o 1º exportador mundial, ultrapassando a Alemanha. Certamente há diferenças qualitativas na exportação se compararmos os dois países. A ler o comentário (em francês) do jornal Le Monde.

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