Estados fora do baralho


A geopolítica pode voltar a acender os preços do barril de crude, ou, pelo menos, reanimar a sua volatilidade e o risco de ‘oscilações ‘selvagens’. O analista David Kotok alerta para as implicações do dossiê nuclear do Irão, que terão um período crítico no próximo mês. Ambos os lados dispõem de armas políticas e económicas que poderão aquecer o Índico.

As autoridades do Irão já declararam que não aceitam a imposição de uma data de resposta (um deadline, em inglês) para Setembro relativamente a negociações formais multilaterais para resolver o dossiê nuclear. Com a proximidade de Setembro no calendário, os meios do petróleo estão ao rubro com a discussão se iremos assistir a algum “choque do deadline” no mercado do crude, que empurre os preços para uma escalada como a dos primeiros sete meses de 2008 (quando chegou em Julho a um preço médio mensal do barril de 132,72 dólares, um recorde histórico).

As causas imediatas, agora, seriam abertamente geopolíticas. “Desta vez, o risco geopolítico é importante no curto prazo, em virtude da inelasticidade do preço do petróleo nas decisões empresariais. Sem dúvida, que, no longo prazo, a oferta e a procura são os propulsores do preço”, afirma-nos o economista americano David Kotok, o principal consultor de investimento e co-fundador da Cumberland Advisors, que alertou, esta semana, os seus clientes para este risco.

O Irão dispõe de um meio político de pressão típico do hard power em geopolítica: a possibilidade do bloqueio do estreito de Ormuz, de apenas 54 quilómetros, na entrada do Golfo Pérsico, por onde passam 40% da logística marítima do crude e 20% do comércio mundial por mar, segundo dados da Energy Information Administration dos Estados Unidos. É um dos mais importantes chokepoints (designação técnica para estas passagens estratégicas em termos militares e de comércio internacional que Afonso de Albuquerque bem compreendeu no seu tempo quando decidiu recapturá-la definitivamente em 1515) mundiais.

“Não há nenhuma ideia clara de como o Irão se irá comportar, se provocará oscilações selvagens ou movimentos moderados no preço do petróleo. A própria situação interna está em turbulência depois das eleições. No entanto, o Irão tem um ponto fraco – é um importador líquido de produtos refinados. Essa deficiência é a arma de que dispõem os Estados Unidos e os seus aliados nesta questão. Por isso, o Irão joga com duas cartas – abre-se a inspecções, mas continua a brandir a arma do estreito”, prossegue Kotok.

Erros estratégicos são comuns

À pergunta, será que, no final das contas, o Irão jogará a cartada de Ormuz como chantagem de último recurso e defrontará inclusive os interesses das novas potências do Índico, a China e a Índia, o analista responde: “A irracionalidade é comum no Médio Oriente. Muitos regimes naquela região são capazes de erros estratégicos. Em geopolítica, erros podem suceder a qualquer momento. É, por isso, que há um prémio de risco elevado no petróleo nomeadamente”.

Uma nova retoma do choque petrolífero não seria nada agradável para as expectativas de saída da recessão mundial. O preço do barril tem oscilado (por vezes com percentagens elevadas de um dia para o outro, o que tecnicamente se designa por oscilações selvagens) no patamar dos 70-75 dólares. O aumento é de, pelo menos, 75% em relação ao preço médio em Dezembro de 2008 (39,95 dólares).

Até que ponto é que esta nova subida durante 2009 reflecte sobretudo o colapso do dólar (a divisa em que está cotada esta commodity), a retoma nos países emergentes (e particularmente por parte das importações pela China) ou a eventual antecipação pelos mercados de um problema geopolítico grave que afecte o negócio, é, ainda, uma incógnita.

Uma entrevista com Michael Klare a propósito do livro ‘Rising Powers, Shrinking Planet

Ideia central: “Um novo capítulo da história da política e da economia internacionais começou. Um mundo de tantas potências ascendentes e de recursos escassos só pode produzir uma competição desbragada”, sublinha. A era de uma superpotência “sozinha”, apoiada no seu inquestionável poder de projecção militar, está em risco – regressou-se à turbulenta “política de grandes potências”.

O mundo tem uma nova divisão geoeconómica – de um lado, os exportadores líquidos de combustíveis fósseis que dominam o mercado do petróleo e do gás, e do outro os importadores compulsivos daquelas matérias-primas estratégicas.

Quem o diz é Michael Klare, especialista americano em segurança internacional no Hampshire College, autor do recente ‘Rising Powers, Shrinking Planet’ (a sugestiva imagem de que há potências que ascendem, enquanto o planeta encolhe).

Klare havia levantado o véu desta mudança num seu livro anterior intitulado ‘Resource Wars’ (guerras pelos recursos, publicado em 2002), escrito antes da invasão do Iraque. Na entrevista que, então, nos concedeu, a conclusão era clara: há o risco de guerras pelos recursos em série.

Voltámos à conversa com Klare e a primeira conclusão é forte: “Um novo capítulo da história da política e da economia internacionais começou. Um mundo de tantas potências ascendentes e de recursos escassos só pode produzir uma competição desbragada”, sublinha. A era de uma superpotência “sozinha”, apoiada no seu inquestionável poder de projecção militar, está em risco – regressou-se à turbulenta “política de grandes potências”, adverte os distraídos.

Lugares baralhados

A história baralhou totalmente os lugares que ricos e pobres herdaram do século XX. Ironicamente, a vaga de globalização a partir de 1999, com o novo ciclo de preços do crude e a emergência do terceiro choque petrolífero, colocou, temporariamente, uma ex-superpotência (Rússia), ex-colónias e periferias de antigos impérios e pequenas e médias potências regionais detentoras de reservas de ouro negro e gás num bloco de países com caixas registadoras que lhes permitem captar enormes fluxos de dólares e adquirir projecção geopolítica.

Do outro lado da balança há uma amálgama jamais vista de deficitários crónicos na balança energética – a maioria das potências da OCDE (tido como o «clube» dos desenvolvidos da segunda metade do século passado), os dois grandes emergentes (China e Índia), a grande maioria dos países de desenvolvimento intermédio e uma miríade de países pobres e cada vez mais pobres para quem o petróleo e o gás são como oxigénio.

O que tudo isto implicou, afirma-nos Klare, é que a “dinâmica central dos negócios estrangeiros” na primeira metade do século XXI vai girar em torno da conservação, captação e controlo desses recursos estratégicos.

O instrumento fundamental dessa corrida não vai ser o grupo das multinacionais tradicionais da energia, nem mesmo as companhias de bandeira dos produtores e exportadores (que detém hoje formalmente 81% das reservas) nem mesmo os fundos soberanos da moda – mas os governos dos dois lados da linha de fronteira.

A geoeconomia dos recursos estratégicos vai-se “politizar ao extremo” – tal como após a famosa Conferência de Berlim do século XIX – e “militarizar”, refere Klare. Com uma agravante – estes recursos estratégicos estão em declínio e os «glutões» para os consumir são muitos mais.

Zonas de embate estão de regresso

E corre-se o risco de começar por uma “guerra fria” entre grandes potências dos dois lados e acabar na multiplicação de “guerras quentes” nas regiões do globo que servem de torneiras ou de corredores logísticos do petróleo e do gás e que são povoadas por pequenos e médios países cuja “maldição” é a geografia ou o subsolo.

Os especialistas chamam a essas regiões de «zonas de embate» ou «cinturas de fragmentação» («shatterbelts», em inglês). Os casos do Médio Oriente, de África (Angola merece alguma atenção no livro de Klare), do Cáucaso (recentemente em destaque nos «media») e da Ásia Central vêm logo à memória.

Mas outros poderão rapidamente emergir como as Caraíbas (fruto da estratégia venezuelana com a ‘Alternativa Bolivariana para las Americas’ e a emergente aliança político-militar com a Rússia), a Indochina (a Birmânia é, por exemplo, um naco muito apetecível) ou o Mar da China (se a China e o Japão se desentenderem seriamente sobre os campos de gás «offshore» de Chunxiao).

Como primeiro antídoto, Klare advoga um diálogo estratégico entre os Estados Unidos e a China sobre a questão da energia, já que são as duas principais “vítimas” do défice energético, incluindo una forte aliança na investigação científica para alternativas à dependência dos combustíveis fósseis. Se o não fizerem, os dois grandes “transformar-se-ão em vassalos da Rússia e da Arábia Saudita” e ficarão à mercê inclusive de “pequenos” provocadores, conclui o nosso entrevistado.

DESTAQUE
Risco mundial segundo Michael Klare

Mote: «Uma guerra mundial pode rebentar da noite para o dia, sem ninguém a planear, fruto de uma cadeia de eventos»

O risco de conflito de grandes proporções aumentou também – apesar de continuarmos com uma superpotência e de as potências eventualmente desafiantes medirem ainda o terreno (como é o caso da Rússia, que poderá repetir ou não o comportamento clássico da Alemanha nos séculos XIX e XX) ou estarem ainda na fase da expansão «suave» (o famoso «soft power» da China).

“Pode haver um risco de guerra mundial, não motivada por desenho ou intenção estratégica, mas por acidente ou cálculo político errado de um qualquer competidor de recursos, mesmo pequeno ou médio. Um padrão similar ao que desencadeou a 1ª Guerra Mundial não pode ser colocado de lado. Uma guerra mundial pode rebentar da noite para o dia, sem ninguém a planear, fruto de uma cadeia de eventos”, refere-nos Michael Klare.

O co-editor deste blogue recomendou um interessante artigo de Robert Kaplan (“When North Korea falls“) na The Atlantic Montlhy (uma vetusta revista com sede nas docas de Boston onde o saudoso Peter Drucker escreveu algumas das suas mais memoráveis peças), edição de Outubro 2006.

Kaplan levanta um véu interessante – o papel da China em toda a questão do regime da Coreia do Norte e o seu interesse estratégico naquela parte norte da Península. Kaplan fá-lo naturalmente de um ponto de vista norte-americano (aconselhando a perceberem-se os cenários possíveis).

É um facto que a Coreia do Norte explora uma janela de oportunidade – ou seja, o facto da China e dos EUA não se terem ainda entendido sobre a questão do futuro desse país. Além, da turbulência geral do mundo, neste período de transição proto-multipolar.

Kim é uma espécie de piolho parasita deambulando num nicho geopolítico.

A solução de uma reunificação não poderá seguir o modelo Alemão do pós-queda Muro de Berlim – como muitos democratas esperam -, e também não é exequível um «regime change» do tipo que o Vietname do Norte conseguiu sobre o Vietname do Sul (com a saída dos norte-americanos) – como continuam a sonhar os herdeiros do defunto sovietismo e os compagnons de route dos regimes totalitários.

Aos interesses estratégicos da China não agrada uma solução de implosão ou derrota do regime de Kim que conduza à ocupação estratégica e cerco à China por parte de uma projecção norte-americana mais para norte na Península. Essa ambição dos neo-neo-cons, quando meteram Kim no “eixo do Mal”, é fortemente contraproducente para as outras potências da Ásia Pacífico. A Ásia não é um Mare Nostrum dos EUA.

Os chineses não estão dispostos a assistir ao que os russos tiveram de engolir depois da implosão da URSS com as projecções de posição dos EUA no eixo de novos países independentes asiáticos e euro-asiáticos da antiga Federação soviética. Não me estou a referir ao que é chamado de ex-Europa de Leste (cuja órbita da União Europeia é o seu raio de sobrevivência estratégica).

Também o Japão quer ter uma palavra a dizer, como se tem visto.

Convém, por isso, reduzir a questão da Coreia do Norte à sua real dimensão.

A Coreia do Norte parece que é militarmente mais capaz do que um Irão ou do que era o Iraque-bluff (que retalhado depois da derrota da Guerra do Golfo e sem quaisquer ditas armas de destruição massiva, era uma presa fácil). Mas convém não exagerar sobre a Coreia do Norte – inclusive não se sabe ao certo o que é bluff, e o que é realidade. Os próprios norte-americanos e sul-coreanos deram explicações contraditórias sucessivas sobre o tipo destes testes. Provavelmente os chineses saberão o que se passou exactamente, mas isso nunca nos dirão, nem mesmo em off the record aqui ao nosso ouvidinho.

A Coreia do Norte não é uma Alemanha nazi e muito menos uma URSS stalinista – estes dois regimes tinham estratégias de grande potência -, apesar de ser um estado totalitário da mais fina espécie (nem Orwell suspeitaria). Também não é uma Sérvia pós-Tito à procura de continuar um projecto de “grande” Sérvia.

Por isso, coloquemos as coisas nas suas devidas proporções. Piolho é piolho, mesmo que maléfico para a saúde.