Acto I: 3 de abril: As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português estão, de novo, em alta. Já durante segunda-feira tinham dado sinais nesse sentido. A pressão sobre o curto prazo é mais evidente, na véspera do Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP) lançar um leilão de dívida a 18 meses, pela primeira vez, desde o resgate pela troika. A agência do Estado para a gestão da dívida vai testar uma maturidade mais longa e ver como reage o mercado primário da dívida soberana.
Os juros das OT a 2 anos regressaram hoje ao patamar dos 10%. Abriram perto dos 11% e estão, agora, pelas 10h, em 10,17%, segundo dados da Bloomberg. Fecharam, ontem, em 9,84%. Tinham saído do patamar dos 10% a 27 de março, quando desceram, significativamente, para 9,5%, regressando a um nível que já não se verificava desde o pedido de resgate.
Os juros das OT a 3 anos regressaram ao patamar dos 14% e os juros das OT a 10 anos aproximam-se dos 12%.
No fecho do dia, os juros a 2 anos desceram para 9,98% e os juros a 10 anos fixaram-se em 11,84%.
Apesar dos juros das OT a 5 e a 6 anos se terem aproximado de 14%, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos desceu de 59,60%, no fecho de segunda-feira, para 59,24%, no fecho de hoje.
Acto II: 3 de abril (ainda): A surpresa matinal. Dois dos estados da Federação norte-americana com maior risco de insolvência, o Ilinóis e a Califórnia, reentraram, hoje, no grupo dos 10 candidatos a bancarrota, de onde andavam afastados desde que a crise da dívida da zona euro ocupou a ribalta. Em virtude da entrada para 8º e 10º lugar por parte dos dois estados dos EUA, a Hungria e a Espanha saíram daquele “clube”.
No caso de Espanha a situação de risco num horizonte de cinco anos até se agravou hoje de manhã, com a probabilidade de incumprimento a subir de 31,84%, no fecho de ontem, para 31,92%, agora ao final da manhã, segundo dados da CMA DataVision. Também as yields (juros) das obrigações espanholas (OE) estão em alta em todas as maturidades. Os juros das OE a 10 anos subiram para 5,43%. O ministro das Finanças do governo de Madrid disse hoje de manhã que o seu país atravessa “um momento crítico” e que “está no limite”.
No fecho, o risco espanhol subiu para 32,25% e retomou o 10º lugar do “clube”, com a saída da Califórnia. Os juros das OE continuaram a subir durante a tarde em todas as maturidades, fechando em 5,45% no prazo a 10 anos.
Acto III: 4 de abril: Três leilões muito esperados ocorreram hoje na zona euro. Portugal conseguiu colocar mil milhões de euros em bilhetes do Tesouro pela primeira vez a 18 meses com uma taxa de 4,537% e os analistas apontam para uma corrida a estes títulos por parte da banca nacional com o propósito dos os utilizar como colateral junto do Banco Central Europeu. Este leilão, que incluiu, também, uma emissão de bilhetes de tesouro a 6 meses que recolheu 500 milhões de euros (com um juro substancialmente mais baixo do que na operação anterior), ocorreu depois do comissário europeu Olli Rehn ter afirmado à televisão finlandesa MTV3 que Portugal poderá precisar de “algum tipo de ponte” de financiamento quando regressar aos mercados da dívida no final do próximo ano.
Já em Espanha, os analistas consideram que o leilão correu “mal”, com uma colocação global de 2589 milhões de euros, abaixo do objetivo de 3500 milhões, e pagando taxas mais elevadas do que anteriormente nos prazos a 3, a 4 e a 8 anos. Esta emissão ocorreu apenas um dia depois da apresentação do Orçamento de Estado espanhol, que também foi “mal” recebido ontem pelos mercados da dívida.
Em flagrante contraste, o Tesouro alemão colocou 3,37 mil milhões de euros em títulos a 5 anos com uma taxa de 0,75%, próxima do mínimo histórico, denotando uma procura de Bunds (designação dos títulos alemães) considerados seguros.
Espanha regressou ao “clube”
A reação global a esta assimetria de resultados nos leilões foi um agravamento do risco de incumprimento da dívida num horizonte de cinco anos nos países “periféricos” da zona euro, com destaque para Espanha e Itália, e em alguns países do “centro” desta zona monetária considerados mais vulneráveis – Bélgica, França e Áustria, segundo dados da CMA DataVision para as 12H30.
A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa, depois de ter fechado ontem abaixo dos 60%, voltou, agora, já depois do anúncio do leilão da manhã, a subir para um nível acima de 60%. Também o risco da Irlanda subiu de 38,76% para 39,14%, no mesmo período. A situação mais grave ocorreu com Espanha, cujo risco de incumprimento subiu de 32,25% para 33,43%, com o país a regressar ao “clube” dos candidatos à bancarrota, desalojando a Califórnia do 10º lugar. O risco italiano subiu, por seu lado, para 30,27%.
O comportamento das yields (juros) dos títulos da dívida destes países da zona euro foi menos claro. A tendência altista é muito clara nos casos de Espanha e de Itália. Assistiu-se a um disparo pela manhã, com um pequeno abrandamento agora, segundo dados da Bloomberg. O maior stresse ocorreu nos juros dos títulos a 2 e a 3 anos, de menor prazo. Nos títulos a 10 anos, que são usados nas comparações, os juros das obrigações espanholas estão em 5,68% (ontem fecharam em 5,455) e os dos títulos italianos estão em 5,32% (ontem fecharam em 5,16%).
Prémio de risco da dívida portuguesa em alta
No caso dos juros das obrigações do Tesouro português os juros estavam em baixa nos prazos a 2, a 3 e a 6 anos, e em alta a 5, 9 e 10 anos. Nos juros a 2 anos estão em 9,97% (ligeiramente abaixo do valor de fecho de ontem) e nos juros a 10 anos em 11,95% (tendo já estado acima de 12% durante a sessão da manhã). A maioria dos juros dos títulos irlandeses estava em baixa.
Com a continuada baixa dos juros dos títulos alemães a 10 anos, o prémio de risco das dívidas portuguesa espanhola e italiana tem estado a subir, com destaque para estes dois últimos casos. No caso português situa-se em 10,19 pontos percentuais.
O dia ficará, também, marcado, nestes mercados, pelo fecho da reestruturação da dívida grega ao final da tarde. Os analistas admitem que Atenas tenha de proceder a um segundo default parcial em relação a 6 mil milhões de euros de títulos subordinados a lei estrangeira em mão de credores privados. As yields do benchmark a 10 anos usado pela Bloomberg, desde a troca de títulos no início de março, têm estado a subir, ultrapassando, agora, os 22%.
Acto IV: 4 de abril (fecho do dia): Apesar de terem sido considerados positivos os resultados da colocação de dívida a 18 meses em Lisboa pelo Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), os mercados da dívida continuaram hoje a penalizar Portugal.
A probabilidade de incumprimento num horizonte de cinco anos subiu de 59,24%, no fecho de terça-feira, para 60,57% no fecho de hoje, segundo dados da CMA DataVision, e as yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português a 10 anos subiram para 12%, segundo dados da Bloomberg. No caso dos juros das OT a 3, a 5 e a 6 anos fecharam todos acima de 14%. Apenas os juros das OT a 2 anos fecharam abaixo do valor de terça-feira, mas continuam muito próximos de 10%. Recorde-se que os juros dos títulos irlandeses para a mesma maturidade estão em quase metade, tendo fechado em 4,96%. O fosso entre os dois países é, ainda, muito significativo.
Em virtude desta degradação, o prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã (que serve de referência na zona euro) subiu para 10,27 pontos percentuais. Está longe do máximo de 15,6 pontos percentuais atingido em 30 de janeiro, mas regressou a 3 de abril a valores acima de 10%, o que já não se verificava desde 26 de março.
Recorde-se que hoje o comissário europeu Olli Rehn afirmou à televisão finlandesa MTV3 que Portugal poderá precisar de “algum tipo de ponte” de financiamento quando regressar aos mercados da dívida no final do próximo ano.
Hora da verdade para Espanha
No entanto, o foco de atenção dos mercados da dívida esteve hoje em Espanha. O The Wall Street Journal titulava “Hora da verdade para Espanha” e Mariano Rajoy disse numa reunião do Partido Popular que a situação do país é de “extrema dificuldade, repito de extrema dificuldade”. O leilão de dívida realizado hoje pelo Tesouro espanhol não correu bem, como já referimos.
Alguns analistas apontam para a necessidade de uma intervenção europeia em Espanha similar ao caso da Irlanda, em que o elo fraco foi o sistema bancário.
A perceção negativa deste leilão funcionou como um tsunami que inundou os mercados da dívida e os mercados bolsistas na Europa. A situação mais grave ocorreu, naturalmente, em Espanha com o risco de incumprimento da dívida a fechar em 33,64%, agravando a tendência de alta que já se observara ontem depois de divulgado o Orçamento do Estado. Os juros das obrigações espanholas no mercado secundário dispararam, com a maturidade a 10 anos a fechar em 5,7%.
O efeito sobre Itália foi significativo, com os juros dos títulos italianos a 10 anos a fecharem em 5,37% e os juros para os prazos a 2 e a 5 anos a fecharem em valores acima dos registados para as obrigações espanholas. No plano do risco, a probabilidade de entrada em incumprimento da dívida italiana subiu para 30,47%. Registaram-se subidas, também, para o risco da Bélgica e da França.
Também o risco da dívida irlandesa aumentou hoje para 39,3%, depois de ter fechado ontem em 38,76%. A questão do pagamento das promissórias do governo para resgatar a banca irlandesa continua a provocar ondas de choque. Na conferência de imprensa dada hoje por Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, ficou claro que, pelo lado desta entidade, não serão toleradas mais engenharias financeiras para não pagar no vencimento anual de uma promissória, como Dublin conseguiu fazer, em relação ao pagamento deste ano que venceu na semana passada. Draghi foi muito claro, em resposta a jornalistas irlandeses: “Futuros vencimentos deverão ser feitos de acordo com o calendário com que o próprio governo se comprometeu”.
A desconfiança dos investidores observou-se também nos seguros contra o risco de incumprimento (credit default swaps) de títulos de vários dos principais bancos europeus, com destaque hoje para um agravamento maior no caso do Santander e Bank of Scotland.
O impacto nas bolsas de valores foi significativo na Europa. O índice EuroStoxx 50 fechou com uma quebra de 2,46% e o índice Bloomberg European 500 com uma descida de 2,16%. Nos Estados Unidos, as bolsas também encerraram no vermelho, mas com quebras inferiores. A nível global, as bolsas perderam hoje 1,88% da sua capitalização, segundo o índice MSCI World Index. O sector financeiro cotado perdeu 2,04%, de acordo com o índice MSCI World Financials.
Acto V: 5 de abril (último dia de negociação da semana): O balanço da manhã de quinta-feira nos mercados da dívida continuou a ser negativo para os países “periféricos” da zona euro e inclusive para alguns do “centro”, como Bélgica, França e Áustria. O fecho ao final do dia confirmou a tendência negativa nos mercados da dívida relativos a uma parte da zona euro. O fim antecipado da semana trouxe amêndoas amargas.
A agravar a situação, o leilão de dívida de obrigações francesas de longo prazo (OAT) realizado pela Agence France Trésor na manhã de quinta-feira em Paris, apesar de arrecadar 8,44 mil milhões de euros, quase o máximo pretendido, obrigou a taxas médias superiores a anteriores operações.
As próprias bolsas de valores europeias reagiram negativamente, tal como já havia ocorrido na quarta-feira depois do leilão de dívida espanhola. No entanto, a quebra foi inferior à do dia anterior. O efeito dos dois leilões de dívida na zona euro – em Madrid e em Paris – provocou uma queda acumulada nas bolsas mundiais de 2,21% nos dias 4 e 5 de abril, segundo o índice MSCI World Index.
Muitos analistas afirmam que está a murchar o efeito de quase 1 bilião de euros da linha de liquidez LTRO a 3 anos lançada pelo Banco Central Europeu e a que recorreram os bancos comerciais da zona euro.
Segurar a dívida portuguesa custa mais caro
O risco de entrada em incumprimento num horizonte de cinco anos aumentou para Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica, França e Áustria.
No caso português, segundo dados da CMA DataVision, a probabilidade de default subiu de 60,57%, no fecho de quarta-feira, para 61,67% ao final da manhã de quinta-feira e fechou em 61,41%. No início desta semana havia baixado para 59,6%. Em uma semana, o custo à cabeça (upfront points, na designação técnica) da obtenção de um credit default swap (cds, que funciona como seguro contra o risco de incumprimento) subiu de 32 para 33 pontos.
O comportamento no caso das yields (juros) das obrigações do Tesouro português no mercado secundário foi similar. Aumentaram quinta-feira em todos os prazos, segundo dados da Bloomberg. Os juros das OT a 2 anos fecharam em 10,12% e os juros das OT a 10 anos subiram para 12,24%. No início da semana estavam em 9,84% e 11,67% respetivamente.
O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã (que serve de referência) subiu para 10,5 pontos percentuais.
Espanha e Itália continuam em destaque
As preocupações dos investidores têm-se centrado, contudo, nos casos de Espanha e Itália.
O risco da dívida espanhola subiu de 33,64% para 34,24%, entre o fecho de quarta-feira e o valor atingido ao final da manhã de quinta-feira, segundo a CMA DataVision. Fechou a semana em 33,82%. No caso de Itália, a evolução foi de 30,47% para 31,24%, no mesmo período, e fechou quinta-feira em 31%.
Os juros das obrigações espanholas a 10 anos no mercado secundário subiram para 5,76% e os dos títulos italianos para 5,45%, segundo dados da Bloomberg para o fecho de quinta-feira. A tendência de subida prossegue.
Tormenta no sector bancário global
O mercado dos cds relativos à dívida das entidades bancárias tem estado, também, em agitação. Na quarta-feira a tormenta tinha assolado, em particular, o Banco Santander e o Bank of Scotland, com subidas diárias do custo dos cds entre 6 e 8%, mas no dia seguinte estiveram em destaque o Crédit Agricole, o Bank of Tokyo MUFJ e o Deutsche Bank, com subidas entre 6,5% e 7,5%, segundo dados da CMA DataVision.
Na quarta-feira um total de 9 bancos globais tiveram subidas do preço dos cds acima de 5% e na quinta-feira foram 6. A maioria está sediada na União Europeia.