crise


A economia mundial corre riscos maiores do que o joelho de Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), que lhe tem tolhido a agenda de deslocações internacionais. O planeta está a “recuperar gradualmente”, mas é “um crescimento modesto”, diz o FMI na conclusão da sua reunião de Primavera em Washington DC, que terminou no fim de semana. Mas a trajetória do produto mundial conta uma história de oscilações com um grau elevado de incerteza sobre o desfecho.

Olhando aos dados divulgados pelos relatórios “World Economic Outlook” do FMI, incluindo o agora divulgado, a evolução dos últimos cinco anos é instrutiva: crescimento de 5,2% em 2007, no último ano da “bolha” financeira que acabaria numa crise financeira de grandes proporções; uma desaceleração para 3,8% em 2008; uma recessão de apenas 0,7% em 2009 (o pico da crise económica); uma retoma significativa de 5,3% em 2010; mas novo abrandamento em 2011, fechando em 3,9%. A projeção para 2012 aponta para a continuação do abrandamento, com um crescimento estimado de 3,5%. Um dos aspetos menos falado é a desaceleração da retoma no comércio internacional: 12,9% em 2010 para 5,8% em 2011 e uma projeção de 4% em 2012.

Os elementos críticos responsáveis pela “moderação” do crescimento são a projeção para este ano de uma recessão na zona euro (ainda que ligeira, de 0,3%) – há que ter em conta que é o segundo maior bloco económico do mundo, depois dos EUA – e o abrandamento do crescimento das economias emergentes e dos países em desenvolvimento para 5,7%, menos de 6% (considerado um limiar crítico neste tipo de modelo de crescimento).

Os três culpados

Não admira, por isso, que o FMI advirta, de seguida, que os “riscos permanecem altos”, devido ao que Christine Lagarde apelidou de “nuvens negras”. Os três “culpados” da incerteza são a situação da crise das dívidas soberanas na Europa; a evolução do preço das commodities, e em particular do petróleo; e a volatilidade dos fluxos de capital, em particular o seu impacto nas economias emergentes. Como pano de fundo a dificuldade de resolver os manifestos desequilíbrios na economia mundial marcados por economias com excedentes e economias deficitárias. A única saída política, diz o FMI, é a “colaboração global” e evitar-se uma onda generalizada de protecionismo.

A zona euro surge à cabeça das preocupações. No “Plano de Ação” da diretora-geral do FMI, divulgado este fim de semana, a zona euro surge como “prioridade imediata”. Christine Lagarde foi mesmo mais longe em conferência de imprensa e falou da zona euro como sendo “hoje o epicentro dos riscos potenciais”. Por isso, o FMI sugere evitarem-se “políticas orçamentais excessivamente recessivas” com “consolidações orçamentais demasiado rápidas em certos casos”. Refere-se, ainda, a importância de examinar opções de reformas que promovam o emprego e “políticas fiscais mais amigas do emprego”.

O FMI insistiu, neste encontro da Primavera, que há uma janela curta de oportunidade para “restaurar o crescimento, de dois a três anos” apenas, que terminará em 2015. “Se não trouxermos o crescimento para o normal, se não trouxermos o PIB para os seus níveis potenciais, a sustentabilidade orçamental também não é possível”, sublinhou Tharman Shanmugaratnam, ministro das Finanças de Singapura e presidente do comité do FMI para os assuntos financeiros.

Almofada financeira

Como válvula se segurança, Lagarde conseguiu reunir mais de 430 mil milhões de dólares para o reforço dos cofres do fundo, com a ausência dos Estados Unidos (em ano de campanha eleitoral, o Presidente Obama não tem margem política para emprestar mais dinheiro ao Fundo e o “apoio” é feito através das linhas de swap de dólares proporcionadas pelo Tesouro norte-americano) e com contribuições pequenas dos BRICS (que não foram divulgadas, tendo sido referidas apenas em nota de pé de página). A diretora-geral do FMI nega que esta “almofada” se destine propositadamente a reforçar a capacidade europeia de lidar com as crises das dívidas soberanas e referiu que “há assistentes da crise que poderão necessitar de ajuda”. Algumas críticas têm surgido ao FMI acusando-o de não dar a devida atenção à “Primavera árabe” e à situação de pré-bancarrota de alguns dos países envolvidos (como o Egito, por exemplo).

Mas poucos analistas acreditam que não haja um alvo geográfico específico – a zona euro – deste reforço financeiro. Estes novos recursos do Fundo poderão ser canalizados para situações críticas através de empréstimos bilaterais temporários ou por acordos com o FMI. O comunicado do grupo intergovernamental G24 (que abrange 24 países emergentes e em desenvolvimento de África, Ásia e América Latina/Caraíbas, excluindo a China), divulgado na mesma ocasião, sublinha um ponto que não surge noutros comunicados destes encontros em Washington DC: “a crise da zona euro sublinhou também a necessidade de um estudo posterior de mecanismos de reestruturação da dívida soberana”.

Nas economias emergentes, o FMI teme o sobreaquecimento, com um crescimento muito rápido do crédito (desenvolvimento de “bolhas” financeiras), e as inundações de “dinheiro quente” especulativo. “Evitar a superestimulação da economia” é a palavra de ordem. Os emergentes também podem sofrer com o impacto das políticas monetárias “acomodativas” que estão a ser implementadas nos EUA e no Reino Unido, conhecidas pela designação inglesa de quantitative easing, e mesmo do Banco Central Europeu, com o uso de diversas “bazucas” de fornecimento de liquidez aos bancos da zona euro. O FMI concluiu que “a política monetária deve permanecer acomodativa enquanto as perspetivas de inflação se mantiverem ancoradas e o crescimento fraco se mantiver”. “Se houver tendências indicando que vamos perder o controlo da inflação mais adiante, há um entendimento geral que a política monetária, sendo atualmente muito facilitadora, não será mais aconselhável”, sublinhou o ministro das Finanças de Singapura.

O G24 acentuou a necessidade de uma melhor regulamentação do mercado de derivados nas commodities, onde a especulação financeira tem vindo a ganhar peso.

Acto I — 16 de abril: Espanha continua a estar em destaque nos mercados da dívida. As yields (juros) das obrigações espanholas a 10 anos abriram acima de 6% no mercado secundário, segundo dados da Bloomberg. Viriam a fechar em 6.07%. Na sexta-feira fecharam em 5,98%.

Esta barreira foi ultrapassada entre meados e final de novembro e anteriormente durante a crise de meados de julho a começo de agosto do ano passado. O máximo atingido em valor de fecho ocorreu em 25 de novembro com os juros a atingir os 6,7%, às portas da barreira crítica dos 7% (considerada ponto de não retorno para um pedido de plano de resgate).

Responsáveis do Banco Central Europeu (BCE) já referiram que Frankfurt poderá regressar a uma intervenção massiva no mercado secundário adquirindo obrigações espanholas através do programa conhecido pela sigla SMP. Segundo analistas do Bankinter, citados pelo El Economista, o BCE só intervirá se a barreira dos 7% for galgada. “O BCE já interveio na semana passada quando os juros tocaram próximo de 6%. Não creio que possam dexiar de intervir quando esse limiar [de 7%] for atingido, pois entraríamos em um ciclo que dificilmente conseguiriam conter”, afirma Alberto Montero Soler, professor na Universidade de Málaga e que virá, esta semana, a Coimbra para uma conferência sobre o futuro da zona euro. Soler é autor do blogue “La otra Economía”. Por seu lado, Santiago Niño Becerra, professor da Universidade Ramón Llull, de Barcelona, ironiza: “É a pergunta bilionária, pois 7% é o ponto de não retorno, segundo dizem. Ao ritmo que as coisas estão, em dez dias chegamos a esse patamar. Nada como mudar a definição de desastre, a fim de desdramatizar os 7%”.

Acompanhando esta tendência altista nos juros dos títulos, a probabilidade de entrada em incumprimento de Espanha subiu para 36,15%, depois de ter fechado em 35,79% na sexta-feira passada e ter atingido um máximo histórico no preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de default) acima de 500 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. No final da semana passada fechou em 502,48 pontos base e hoje fechou em 510,58 pontos base.

O prémio de risco da dívida espanhola em relação à dívida alemã subiu para 4,35 pontos percentuais.

A alta dos juros e do risco em Espanha é secundada pela subida pelos juros das obrigações portuguesas (que fecharam em 12,68% no prazo a 10 anos) e dos títulos italianos (que fecharam em 5,59% no prazo a 10 anos). O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 10,96 pontos percentuais (sexta-feira fechara em 10,82) e o da dívida italiana para 3,88 pontos percentuais (sexta-feira fechara em 3,79).

O ministro da Economia do governo espanhol, Luís de Guindos, reuniu hoje em Paris com banqueiros franceses e amanhã segue para Dusseldorf e Frankfurt, para reuniões com entidades financeiras alemãs e com Mário Draghi, presidente do BCE.

O Tesouro espanhol lança esta semana dois leilões de dívida, um de bilhetes de Tesouro a 12 e 18 meses amanhã e outro de obrigações a 2 e a 10 anos na quinta-feira, duas emissões que vão ser seguidas de muito perto.

Acto II — 17 de abril — 1º leilão da semana em Madrid: O Tesouro espanhol colocou hoje de manhã cerca de 3,18 mil milhões de euros em bilhetes do Tesouro (BT) com prazos curtos, a 12 e a 18 meses. Os leilões tiveram forte procura, permitindo arrecadar mais do que os 3 mil milhões previstos, mas obrigou a pagar aos tomadores de dívida juros significativamente mais altos do que em operações anteriores similares.

O Tesouro emitiu 2,09 mil milhões de euros em BT a 12 meses com uma taxa média de remuneração de 2,623%, mais de 80% acima da taxa anterior que se situou em 1,418%. Em BT a 18 meses, emitiu 1,09 mil milhões de euros a uma taxa média de 3,11%, também mais de 80% acima da anterior que se situara em 1,711%.

O teste mais importante ocorrerá na quinta-feira quando o Tesouro realizará dois leilões de obrigações espanholas a 2 e a 10 anos.

Durante esta manhã, o risco de incumprimento da dívida espanhola desceu de 36,15% no fecho de ontem para 35,90% na abertura de hoje, segundo dados da CMA DataVision. Ao final da manhã, o risco desceu para 35,2% e Espanha saiu do “clube” dos candidatos à bancarrota, vendo o seu 10º lugar ser ocupado pelo Egito. A margem de diferença no risco entre os dois países é muito curta.

As yields (juros) das obrigações espanholas no mercado secundário também têm estado em baixa, depois de ontem os juros no prazo de 10 anos terem fechado acima de 6%. Ao final da manhã estão em 5,9%, segundo dados da Bloomberg.

Acto III: 19 de abril: 2º leilão de dívida em Madrid: O Tesouro espanhol conseguiu obter mais de 2,5 mil milhões de euros na emissão de obrigações espanholas a 2 e a 10 anos que lançou hoje em leilão no mercado primário da dívida soberana. O objetivo máximo era 2,5 mil milhões, pelo que foi ligeiramente ultrapassado, revelando uma procura mais elevada inclusive do que em operações anteriores. A agência financeira Markit considerou o leilão “sólido”.

No entanto, na emissão de obrigações a 10 anos, a mais importante, encarada como verdadeiro “teste”, o Tesouro espanhol teve de pagar uma taxa média de 5,743% pelos 1425 milhões de euros arrecadados. Esta taxa média é superior à de 5,403% na operação anterior. Os juros das obrigações espanholas a 10 anos no mercado secundário estavam, por ocasião do leilão, em 5,85%.

As quatro emissões realizadas esta semana, duas na segunda-feira a 12 e a 18 meses e duas na quinta-feira, a 2 e a 10 anos, revelam o mesmo padrão: conseguiram arrecadar as verbas previstas ou mesmo ultrapassá-las, mas os juros subiram em relações a operações anteriores similares, à exceção da emissão a 2 anos, em que o juro foi ligeiramente inferior.

Com estas operações, o Tesouro espanhol já conseguiu financiar-se em mais de 50% das suas necessidades para 2012.

A mão invisível por detrás desta procura é a linha de liquidez a três anos lançada, no final do ano passado, por Mário Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), que tem permitido aos bancos espanhóis comprar dívida soberana nas emissões lançadas pelo Tesouro e ainda ganhar alguma margem com a diferença entre os juros que paga ao BCE e os que recebe dos títulos adquiridos.

Recorde-se que a dívida espanhola esteve sob grande pressão na segunda-feira no mercado secundário quando os juros das obrigações a 10 anos fecharam acima de 6%, pela primeira vez desde o pico de 6,7% em novembro do ano passado.

Acto IV: 19 de abril — efeito do leilão de Madrid: As yields (juros) da dívida espanhola e italiana voltaram às subidas no mercado secundário. Os juros das obrigações espanholas a 10 anos fecharam hoje em 5,93%, reaproximando-se dos 6% (que foram atingidos na segunda-feira), e os dos títulos italianos aumentaram para 5,61%, segundo dados da Bloomberg. Também os juros das obrigações do tesouro francês (OAT) estão em alta em todas as maturidades. Os juros das OAT a 10 anos subiram acima de 3%.

O mercado secundário “respondeu” com uma viragem para a alta em relação aos leilões que hoje ocorreram de manhã em Madrid e Paris, apesar dos objetivos de colocação de dívida terem sido atingidos (mais de 2,5 mil milhões em obrigações espanholas a 2 e a 10 anos e cerca de 7 mil milhões de euros em obrigações francesas a 3, 5 e 6 anos). Segundo a agência financeira londrina Markit, “o leilão [de dívida espanhola] acabou por nada mudar na perceção do mercado sobre Espanha”. Em relação a França, a Markit sublinha os rumores que têm invadido o mercado antes das eleições presidênciais, cuja primeira volta decorre no próximo domingo.

Apenas as obrigações do Tesouro (OT) português escapam à onda altista. Todas as maturidades estão em baixa, prosseguindo a tendência verificada desde terça-feira. No caso dos juros das OT a 2 anos desceram do patamar dos 10%. Fecharam em 9,97%. No caso das OT a 10 anos, os juros desceram de 12,43%, no encerramento do mercado ontem, para 12,16% no fecho de hoje.

Acto V: 19 de abril — outros efeitos do leilão de Madrid e dos relatórios do FMI: Os leilões de dívida em Espanha e França não acalmaram os mercados financeiros ligados à dívida soberana da zona euro. Apesar dos montantes emitidos, as dúvidas dos investidores nas dívidas soberanas permanecem. Os últimos relatórios do Fundo Monetário Internacional – World Economic Outlook e Fiscal Monitor – não tranquilizaram os investidores nem os analistas sobre a performance da zona euro e em particular sobre diversos países membros que têm estado em foco nas última semanas.

Oito países da moeda única fecharam o dia com níveis de risco de incumprimento mais elevados – Grécia, Chipre, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica e Áustria. Hoje só escapou a França que esteve em foco ontem, ao ter ultrapassado os 200 pontos base no preço dos credit default swaps (seguros contra o risco, cds no acrónimo), um pico de que baixou, depois de desmentidos vários rumores ligados às consequências das eleições presidenciais, cuja primeira volta se realiza no próximo sábado.

Portugal, apesar de uma descida nos juros das obrigações do Tesouro no mercado secundário, a que nos referimos noutro artigo como exceção do dia, viu o risco de incumprimento subir – fechou em 61,64%, ligeiramente acima do valor de ontem. Por outro lado, Espanha regressou ao “clube” dos 10 candidatos à bancarrota, à décima posição, com um risco de 35,61% e novamente com o preço dos cds acima de 500 pontos base, um limiar considerado crítico. O risco da dívida italiana também se agravou, com o preço dos cds a fechar acima de 460 pontos base e o risco a chegar a 33,28%.

Acto VI — 20 de abril: Semana salda-se positiva para Portugal – O prémio de risco da dívida portuguesa desceu para 10 pontos percentuais, quase um ponto percentual a menos do que no início da semana. Este prémio reflete a diferença entre as yields (juros) para as obrigações do Tesouro (OT) português e para os títulos alemães, os Bunds, a 10 anos, no mercado secundário. Esta melhoria refletiu a descida dos juros das OT a 10 anos: fecharam hoje em 11,73% contra 12,56% há uma semana, segundo dados da Bloomberg. Também os juros das OT a 2 anos tiveram uma melhoria descendo de 10,31% há uma semana para 9,88% no fecho de hoje.

A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa também baixou: de 61,34% há uma semana para 59,60% no fecho de hoje, segundo dados da CMA DataVision. Contudo, Portugal mantém a terceira posição no “clube” dos candidatos a uma bancarrota, depois da Grécia (com mais de 90% de risco, que poderá ter um segundo default seletivo sobre uma pequena parte da dívida ainda não reestruturada) e do Chipre (com quase 63%). A distância dos níveis de risco entre Portugal e a Argentina – que ultimamente tem estado em foco em virtude da decisão de renacionalização da maioria do capital da YFP, a empresa de petróleos – que ocupa o quarto lugar naquele “clube” é de 9 pontos percentuais. Em relação ao nível de risco da Irlanda é, ainda, de quase 20 pontos percentuais.

Espanha e Itália continuam em foco

A semana foi negativa para outros dois países considerados da “periferia” da zona euro, Espanha e Itália. Foi a segunda semana aziaga para Espanha este ano. Há uma semana, o risco de incumprimento fixou um máximo histórico de 35,79% (em valor de fecho). Esta sexta-feira fechou em 35,64% e chegou a estar em mais de 36% na abertura. Na segunda-feira, o dia mais crítico desta semana, chegou a fechar em 36,15%. O país conserva o décimo lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota. O custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida, acrónimo cds) manteve-se durante a semana acima dos 500 pontos base, considerado um patamar crítico. Os juros das obrigações espanholas fecharam exta sexta-feira em 5,96%, ligeiramente abaixo dos 5,98% de há uma semana. Recorde-se que durante esta semana chegaram a fechar em 6,07%, na segunda-feira. Apesar dos leilões de dívida ocorridos esta semana – dois de curto prazo e dois de médio e longo prazo – alcançando os objetivos de colocação dos montantes, os investidores continuam com uma enorme desconfiança sobre o futuro da quarta economia da zona euro. O prémio de risco da dívida espanhola fechou em 4,25 pontos percentuais, um valor ligeiramente acima de o alcançado há uma semana.

O mesmo se passa com Itália. O risco de incumprimento fechou em 34,13% e os juros dos títulos italianos a 10 anos subiram para 5,66%. Há uma semana, estes juros haviam fechado em 5,52%. O prémio de risco subiu de 3,79 pontos percentuais para 3,95.

Durante a semana houve algum frenesim em torno de França. A pressão manteve-se sobre as obrigações do tesouro francês a 2 anos, cujos juros subiram de 0,59% no início da semana para 0,92% no fecho de sexta-feira. Nos restantes prazos, os juros desceram esta sexta-feira. E a probabilidade de incumprimento desceu também, com o custo dos cds a baixar ligeiramente do patamar dos 200 pontos base, com que fechou na quarta-feira, momento alto de vários rumores sobre eventuais consequências do voto do eleitorado nas eleições presidenciais que decorrem em duas voltas (a primeira no próximo domingo).

Acto I: 9 de abril — A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa fechou hoje em 61,95%, segundo a CMA DataVision. Uma subida em relação ao valor de fecho de quinta-feira, em 61,41%.

O aumento do risco reflete a temperatura no mercado dos credit default swaps, seguros contra a probabilidade de incumprimento da dívida, cujo preço regressou a valores acima de 1100 pontos. Há uma semana estava em 1045 pontos.

Este aumento contrasta com as descidas do risco para Chipre, Irlanda e Espanha, que são os outros países da zona euro que fazem companhia a Portugal no clube dos candidatos a um incumprimento. Chipre lidera esse “clube”, seguido de Portugal. A Irlanda está na 8ª posição e a Espanha em 10º lugar. A Grécia saiu da classificação por ter entrado em default parcial e ter operado uma reestruturação de dívida. A Itália (membro da zona euro) e a Hungria (membro da União Europeia) saíram do “clube”.

A subida verificada no risco da dívida portuguesa foi o efeito imediato das declarações do primeiro-ministro português ao jornal alemão “Die Welt” sobre o regresso duvidoso do país a emissões de dívida a longo prazo pelo Tesouro português junto do mercado primário de dívida em setembro de 2013. A entrevista foi publicada dia 7 de abril.

O mercado secundário da dívida soberana esteve hoje fechado em virtude das férias de Páscoa. Amanhã se poderá verificar qual o efeito nos juros das obrigações do Tesouro.

Acto II: A Páscoa não trouxe amêndoas doces para o mercado secundário. As yields (juros) da maioria dos títulos portugueses, espanhóis e italianos estão em alta, em contraste flagrante com os juros dos Bunds, os títulos alemães, que atingiram hoje um mínimo histórico.

Os Bunds com prazo a 10 anos fixaram um mínimo histórico em 1,643%, abaixo de 1,674% ocorrido em 22 de outubro de 2011, segundo dados da Bloomberg.

Em virtude desta descida dos juros dos títulos alemães a 10 anos – que servem de referência na zona euro -, o prémio de risco da dívida daqueles três países “periféricos” da zona euro aumentou significativamente, sobretudo para o caso de Espanha e Itália. O prémio de risco no caso da dívida portuguesa subiu para 10,68 pontos percentuais ao final da manhã.

Efeito “Die Welt” prossegue

Prossegue o efeito da entrevista do primeiro-ministro português ao jornal alemão “Die Welt” (publicada a 7 de abril). Os juros das obrigações do Tesouro (OT) estão em alta em todas as maturidades, à exceção dos juros a 2 anos, que oscilam em torno dos 10%. Os juros das OT a 10 anos fecharam em 12,32%. A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa num horizonte a cinco anos continua a subir, tendo fechado acima de 62%, segundo dados da CMA DataVision. O preço à cabeça a pagar (upfront points) pelo estabelecimento de um contrato de credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) subiu para 33,5 pontos, de acordo com dados da Markit divulgados esta manhã.

A entrevista ao “Frankfurter Allgemeine” dada no sábado (7 de abril) por Sean Egan, responsável pela Egan-Jones, considerada a mais fiável das agências de crédito, referindo que a situação de Portugal é “insustentável” e que a Grécia caminhará para uma perda por parte dos investidores privados na ordem dos 95%, continua a provocar ondas de choque. Os juros do benchmark a 10 anos dos títulos gregos, usado pela Bloomberg desde o início da reestruturação da dívida por Atenas, subiram hoje para valores acima de 22%. Os investidores esperam um segundo default selectivo no dia 15 de maio, quando vence uma obrigação de 450 milhões de euros. O governo grego estendeu até 20 de abril a data limite para os credores privados resistentes, com títulos sujeitos a lei estrangeira, aceitarem os termos da proposta de reestruturação da dívida grega. Entretanto, o Parlamento será dissolvido esta semana e as eleições legislativas convocadas provavelmente para 6 de maio.

Juros a 10 anos de Espanha perto dos 6%

O impacto mais significativo deste regresso de férias dos investidores ao mercado secundário está a ser sentido nos juros das obrigações espanholas (OE) e dos títulos italianos (BTP).

Segundo dados da Bloomberg, os juros a 2 e a 3 anos são os que mais subiram hoje nos dois casos. Os juros a 10 anos das OE aproximam-se de 6% (fecharam em 5,98%) e os dos BTP fecharam em 5,69%. Os juros dos BTP a 2, a 3 e a 5 anos já estão acima dos verificados para as OE.

O risco de incumprimento da dívida espanhola subiu para 34,88% (ontem fechou em 33,68%), de acordo com dados da CMA DataVision e o da dívida italiana para 32%.
Bolsas europeias no vermelho

O índice Bloomberg European 500 caiu 2,56% e o Eurostoxx 50 desceu 2,97%, dando uma ideia do que se passou nas bolsas europeias.

O dia foi de quebras mais acentuadas nas bolsas de Paris e de Roma. O índice francês CAC 40 caiu 3,08% e o índice italiano MIB quebrou 4,98% (a maior quebra na Europa).

As quebras na Ásia e em Wall Street foram menos acentuadas.

Acto III: Sexta-feira, 13: Os países “periféricos” da zona euro continuam sob pressão dos investidores nos mercados da dívida. Espanha, Itália e Portugal estiveram em foco nesta sexta-feira, dia 13, quer no mercado secundário da dívida como no mercado dos seguros de risco (credit default swaps, cds no acrónimo).

Com o nível muito baixo das yields (juros) dos títulos alemães – os Bunds -, o prémio de risco das dívidas portuguesa, espanhola e italiana subiu sexta-feira.

O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã fechou em 10,82 pontos percentuais, segundo dados da Bloomberg. No final do mês passado estava em 9,73 pontos percentuais. No início desta semana estava em 10,5 pontos percentuais.

Recorde no preço dos cds da dívida espanhola

A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos subiu para 61% ao final da manhã de sexta-feira, segundo dados da CMA DataVision, e fechou em 61,34%. Um valor ligeiramente inferior ao valor de fecho (61,41%) de há uma semana.

As yields das obrigações portuguesas no mercado secundário subiram para 10,31% no prazo a dois anos e 12,56% no prazo a 10 anos, segundo dados da Bloomberg para o fecho de sexta-feira. Há uma semana, os valores de fecho foram, respetivamente, 10,12% e 12,24%. Houve um agravamento ligeiro.

No caso de Espanha, que tem estado internacionalmente mais em foco, o preço dos cds atingiu, na manhã de sexta-feira, níveis idênticos ao do recorde de 492 pontos base, de 23 de novembro do ano passado, e os juros das obrigações espanholas a 10 anos reaproximaram-se dos 6%.

No fecho, o preço dos cds subiu inclusive para 502,48 pontos base, um novo recorde. O que isto significa é que o custo de segurar contra o risco de incumprimento (num horizonte de cinco anos) 10 milhões de dólares em títulos da dívida soberana espanhola custa, por ano, 502 mil dólares. No caso português custa mais do dobro. O risco de incumprimento de Espanha fechou em 35,79%. Há uma semana fechara em 33,82%. O agravamento é nítido.

As subidas foram extensíveis à Itália. Os juros dos títulos italianos a 10 anos fecharam em 5,52% e o custo dos cds ficou acima dos 400 pontos base. Houve, também, um agravamento em relação a dia 6 de abril.

Neste momento, há quatro países da zona euro no “clube” dos candidatos a bancarrota num horizinte de cinco anos: a Grécia, que regressou, esta semana, à liderança, depois de um período fora deste ranking em virtude de ter operado uma reestruturação de dívida soberana; Chipre que se mantém na 2ª posição e Portugal na 3ª, com níveis de risco acima de 60%. A Irlanda ocupa o 8ª lugar e Espanha a 10ª posição com as probabilidades de incumprimento entre os 35% e os 40%.

Razões de desconfiança não faltam

As razões para a desconfiança dos investidores em relação aos “periféricos” não têm faltado esta semana: a probabilidade ainda este mês de um segundo default seletivo da dívida grega (na pequena parte remanescente da dívida na mão de credores privados, mas sujeita a direito estrangeiro, que ainda não aceitaram a proposta do governo de Atenas); a divulgação pelo Banco Central Europeu (BCE) da dependência umbilical crescente da banca dos “periféricos” em relação à caixa de Frankfurt (sede do BCE), com destaque para a banca espanhola (316,3 mil milhões de euros em março); as afirmações dúbias constantes de responsáveis portugueses sobre a (não) “ida” ao mercado primário de dívida em setembro do próximo ano com emissão de dívida de longo prazo (pressupondo que poderá haver uma segunda intervenção da troika); os dois leilões de emissão de dívida italiana que correram mal na quarta e quinta-feira; a crítica de Jorg Asmussen, da direcção do BCE, à operação realizada por Dublin para não pagar a promissória que vencia; e, qual cereja em cima do bolo, as declarações da responsável do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que não haverá, ainda, na próxima reunião de Primavera da organização, uma aprovação final sobre a participação do fundo no “corta-fogo” para a zona euro.

Christine Lagarde disse que levará “um bocado mais de tempo”. O “corta-fogo” envolverá, da parte europeia, uma engenharia financeira entre o atual Fundo Europeu de Estabilização Financeira e os saldos dos programas em curso e em reserva e o futuro Mecanismo Europeu de Estabilização.

Acto I: Mário Draghi (conferência de imprensa depois da reunião de governadores do BCE no dia 4 de abril): Modelo do estado-social tem de ser revisitado.

“O modelo social europeu tem de ser revisitado”, foi uma das frases fortes de Mário Draghi, na conferência de imprensa realizada dia 4 de abril em Frankfurt pelo Banco Central Europeu (BCE), na sequência da reunião mensal do seu conselho de governadores.

O presidente do BCE precisou, inclusive, a frase. O modelo social “não é europeu”, pois é aplicado apenas em alguns países, não em todos. O aspeto central deste modelo aplicado por vários países é o caráter dualista da sua concretização na realidade. Draghi sublinhou que, por um lado, há sectores do mundo do trabalho com todas as proteções e outros, a juventude, sem elas. “A flexibilidade [do mercado de trabalho] tem sido suportada pela juventude”, sublinhou. Pelo que as regras têm de ser alteradas. Fica implícito que a flexibilidade laboral tem de ser para todos.

Esta explicação de Mário Draghi inseriu-se numa resposta sobre quais são os motores de que podem trazer de volta o crescimento na zona euro. Em primeiro lugar, a procura externa, sublinhou, com destaque para os países emergentes. E, em segundo lugar, a reforma laboral, a que juntou um terceiro pé, a capitalização dos bancos. O BCE atua no campo da liquidez, não no campo do capital – “isto não é capital, mas liquidez”, repetiu algumas vezes. Acentuou que o fornecimento da liquidez se destinou a criar “um ambiente de paz relativa nos mercados financeiros” e a permitir “aos bancos operar uma desalavancagem de uma forma ordeira”.

BCE não resolve “problemas estruturais”

Esses três aspetos estão fora do alcance do mandato BCE, acentuou. “Não podemos tratar deles”, repetiu. Precisou, depois, onde o BCE pode agir e tem agido: nos juros, que estão “em valores negativos” (um aspeto que sublinhou pela primeira vez) inclusive em termos reais, pois a taxa de referência (fixed rate) que está em 1% (e que foi mantida hoje) é inferior à inflação média que estará, agora, em 2,6%; e nas medidas “não convencionais”, como as destinadas a fornecer liquidez ao sistema bancários europeu, e nomeadamente a linha LTRO a 3 anos, com duas operações já realizadas.

Garantiu que considera “prematuro” abandonar estas medidas excecionais, quer a de juros baixos (negativos em termos reais), quer a das linhas de liquidez, cuja avaliação ainda está em curso no que toca à LTRO a 3 anos, sobretudo relativamente à segunda operação realizada já este ano, e que, muitos críticos, acusam de servir aos bancos para aplicações financeiras (incluindo em títulos soberanos de países em situação de risco) e não para emprestar à economia real. Citou o desemprego como a preocupação que faz o BCE manter esta estratégia de juros muito baixos e de linhas de liquidez.

Referiu, ainda, que se revela uma situação de “heterogeneidade” na zona euro, que “pode ser temporária”. Mas se tais diferenças entre países membros forem “estruturais” terão de “ser os governos nacionais a resolvê-las, com reformas”. “Não cabe à política monetária fazê-lo”, concluiu nesse ponto.

Acto II: “Brutal”, diz Christine Lagarde. “Alguns países têm de ser muito, muito duros, em termos de reduzir os seus défices e em trazer de volta a sanidade às suas finanças públicas. A periferia do centro da zona euro está claramente em jogo neste aspeto”, afirmou Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, em entrevista, de 3 de abril, à revista online Knowledge@Wharton da Wharton School of Business da Universidade da Pensilvânia, nos EUA.

Lagarde respondia à questão se os líderes europeus não teriam focalizado excessivamente na austeridade e se não deveria haver um equilíbrio maior entre austeridade e estímulos.

A diretora-geral adiantou uma apreciação em duas velocidades. “Alguns países podem abrandar um pouco a austeridade em que se lançaram. Outros não podem. Por exemplo, a Grécia é um dos países que certamente não pode relaxar as medidas de austeridade. E a Itália também não”, respondeu, depois de considerar que, em geral, “se toda a gente, ao mesmo tempo, avança com medidas de austeridade, isso colocará a região em risco”.

Reconheceu que, fruto de ajustamentos súbitos, vários países da zona euro já entraram em recessão, como Grécia, Irlanda, Portugal e Itália, mas que isso “não foi uma surpresa”. “É parte de um processo que já havíamos antecipado e que prevíamos para 2012″, rematou.

Acto I: 3 de abril: As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português estão, de novo, em alta. Já durante segunda-feira tinham dado sinais nesse sentido. A pressão sobre o curto prazo é mais evidente, na véspera do Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP) lançar um leilão de dívida a 18 meses, pela primeira vez, desde o resgate pela troika. A agência do Estado para a gestão da dívida vai testar uma maturidade mais longa e ver como reage o mercado primário da dívida soberana.

Os juros das OT a 2 anos regressaram hoje ao patamar dos 10%. Abriram perto dos 11% e estão, agora, pelas 10h, em 10,17%, segundo dados da Bloomberg. Fecharam, ontem, em 9,84%. Tinham saído do patamar dos 10% a 27 de março, quando desceram, significativamente, para 9,5%, regressando a um nível que já não se verificava desde o pedido de resgate.

Os juros das OT a 3 anos regressaram ao patamar dos 14% e os juros das OT a 10 anos aproximam-se dos 12%.

No fecho do dia, os juros a 2 anos desceram para 9,98% e os juros a 10 anos fixaram-se em 11,84%.

Apesar dos juros das OT a 5 e a 6 anos se terem aproximado de 14%, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos desceu de 59,60%, no fecho de segunda-feira, para 59,24%, no fecho de hoje.

Acto II: 3 de abril (ainda): A surpresa matinal. Dois dos estados da Federação norte-americana com maior risco de insolvência, o Ilinóis e a Califórnia, reentraram, hoje, no grupo dos 10 candidatos a bancarrota, de onde andavam afastados desde que a crise da dívida da zona euro ocupou a ribalta. Em virtude da entrada para 8º e 10º lugar por parte dos dois estados dos EUA, a Hungria e a Espanha saíram daquele “clube”.

No caso de Espanha a situação de risco num horizonte de cinco anos até se agravou hoje de manhã, com a probabilidade de incumprimento a subir de 31,84%, no fecho de ontem, para 31,92%, agora ao final da manhã, segundo dados da CMA DataVision. Também as yields (juros) das obrigações espanholas (OE) estão em alta em todas as maturidades. Os juros das OE a 10 anos subiram para 5,43%. O ministro das Finanças do governo de Madrid disse hoje de manhã que o seu país atravessa “um momento crítico” e que “está no limite”.

No fecho, o risco espanhol subiu para 32,25% e retomou o 10º lugar do “clube”, com a saída da Califórnia. Os juros das OE continuaram a subir durante a tarde em todas as maturidades, fechando em 5,45% no prazo a 10 anos.

Acto III: 4 de abril: Três leilões muito esperados ocorreram hoje na zona euro. Portugal conseguiu colocar mil milhões de euros em bilhetes do Tesouro pela primeira vez a 18 meses com uma taxa de 4,537% e os analistas apontam para uma corrida a estes títulos por parte da banca nacional com o propósito dos os utilizar como colateral junto do Banco Central Europeu. Este leilão, que incluiu, também, uma emissão de bilhetes de tesouro a 6 meses que recolheu 500 milhões de euros (com um juro substancialmente mais baixo do que na operação anterior), ocorreu depois do comissário europeu Olli Rehn ter afirmado à televisão finlandesa MTV3 que Portugal poderá precisar de “algum tipo de ponte” de financiamento quando regressar aos mercados da dívida no final do próximo ano.

Já em Espanha, os analistas consideram que o leilão correu “mal”, com uma colocação global de 2589 milhões de euros, abaixo do objetivo de 3500 milhões, e pagando taxas mais elevadas do que anteriormente nos prazos a 3, a 4 e a 8 anos. Esta emissão ocorreu apenas um dia depois da apresentação do Orçamento de Estado espanhol, que também foi “mal” recebido ontem pelos mercados da dívida.

Em flagrante contraste, o Tesouro alemão colocou 3,37 mil milhões de euros em títulos a 5 anos com uma taxa de 0,75%, próxima do mínimo histórico, denotando uma procura de Bunds (designação dos títulos alemães) considerados seguros.

Espanha regressou ao “clube”

A reação global a esta assimetria de resultados nos leilões foi um agravamento do risco de incumprimento da dívida num horizonte de cinco anos nos países “periféricos” da zona euro, com destaque para Espanha e Itália, e em alguns países do “centro” desta zona monetária considerados mais vulneráveis – Bélgica, França e Áustria, segundo dados da CMA DataVision para as 12H30.

A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa, depois de ter fechado ontem abaixo dos 60%, voltou, agora, já depois do anúncio do leilão da manhã, a subir para um nível acima de 60%. Também o risco da Irlanda subiu de 38,76% para 39,14%, no mesmo período. A situação mais grave ocorreu com Espanha, cujo risco de incumprimento subiu de 32,25% para 33,43%, com o país a regressar ao “clube” dos candidatos à bancarrota, desalojando a Califórnia do 10º lugar. O risco italiano subiu, por seu lado, para 30,27%.

O comportamento das yields (juros) dos títulos da dívida destes países da zona euro foi menos claro. A tendência altista é muito clara nos casos de Espanha e de Itália. Assistiu-se a um disparo pela manhã, com um pequeno abrandamento agora, segundo dados da Bloomberg. O maior stresse ocorreu nos juros dos títulos a 2 e a 3 anos, de menor prazo. Nos títulos a 10 anos, que são usados nas comparações, os juros das obrigações espanholas estão em 5,68% (ontem fecharam em 5,455) e os dos títulos italianos estão em 5,32% (ontem fecharam em 5,16%).

Prémio de risco da dívida portuguesa em alta

No caso dos juros das obrigações do Tesouro português os juros estavam em baixa nos prazos a 2, a 3 e a 6 anos, e em alta a 5, 9 e 10 anos. Nos juros a 2 anos estão em 9,97% (ligeiramente abaixo do valor de fecho de ontem) e nos juros a 10 anos em 11,95% (tendo já estado acima de 12% durante a sessão da manhã). A maioria dos juros dos títulos irlandeses estava em baixa.

Com a continuada baixa dos juros dos títulos alemães a 10 anos, o prémio de risco das dívidas portuguesa espanhola e italiana tem estado a subir, com destaque para estes dois últimos casos. No caso português situa-se em 10,19 pontos percentuais.

O dia ficará, também, marcado, nestes mercados, pelo fecho da reestruturação da dívida grega ao final da tarde. Os analistas admitem que Atenas tenha de proceder a um segundo default parcial em relação a 6 mil milhões de euros de títulos subordinados a lei estrangeira em mão de credores privados. As yields do benchmark a 10 anos usado pela Bloomberg, desde a troca de títulos no início de março, têm estado a subir, ultrapassando, agora, os 22%.

Acto IV: 4 de abril (fecho do dia): Apesar de terem sido considerados positivos os resultados da colocação de dívida a 18 meses em Lisboa pelo Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público (IGCP), os mercados da dívida continuaram hoje a penalizar Portugal.

A probabilidade de incumprimento num horizonte de cinco anos subiu de 59,24%, no fecho de terça-feira, para 60,57% no fecho de hoje, segundo dados da CMA DataVision, e as yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português a 10 anos subiram para 12%, segundo dados da Bloomberg. No caso dos juros das OT a 3, a 5 e a 6 anos fecharam todos acima de 14%. Apenas os juros das OT a 2 anos fecharam abaixo do valor de terça-feira, mas continuam muito próximos de 10%. Recorde-se que os juros dos títulos irlandeses para a mesma maturidade estão em quase metade, tendo fechado em 4,96%. O fosso entre os dois países é, ainda, muito significativo.

Em virtude desta degradação, o prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã (que serve de referência na zona euro) subiu para 10,27 pontos percentuais. Está longe do máximo de 15,6 pontos percentuais atingido em 30 de janeiro, mas regressou a 3 de abril a valores acima de 10%, o que já não se verificava desde 26 de março.

Recorde-se que hoje o comissário europeu Olli Rehn afirmou à televisão finlandesa MTV3 que Portugal poderá precisar de “algum tipo de ponte” de financiamento quando regressar aos mercados da dívida no final do próximo ano.

Hora da verdade para Espanha

No entanto, o foco de atenção dos mercados da dívida esteve hoje em Espanha. O The Wall Street Journal titulava “Hora da verdade para Espanha” e Mariano Rajoy disse numa reunião do Partido Popular que a situação do país é de “extrema dificuldade, repito de extrema dificuldade”. O leilão de dívida realizado hoje pelo Tesouro espanhol não correu bem, como já referimos.

Alguns analistas apontam para a necessidade de uma intervenção europeia em Espanha similar ao caso da Irlanda, em que o elo fraco foi o sistema bancário.

A perceção negativa deste leilão funcionou como um tsunami que inundou os mercados da dívida e os mercados bolsistas na Europa. A situação mais grave ocorreu, naturalmente, em Espanha com o risco de incumprimento da dívida a fechar em 33,64%, agravando a tendência de alta que já se observara ontem depois de divulgado o Orçamento do Estado. Os juros das obrigações espanholas no mercado secundário dispararam, com a maturidade a 10 anos a fechar em 5,7%.

O efeito sobre Itália foi significativo, com os juros dos títulos italianos a 10 anos a fecharem em 5,37% e os juros para os prazos a 2 e a 5 anos a fecharem em valores acima dos registados para as obrigações espanholas. No plano do risco, a probabilidade de entrada em incumprimento da dívida italiana subiu para 30,47%. Registaram-se subidas, também, para o risco da Bélgica e da França.

Também o risco da dívida irlandesa aumentou hoje para 39,3%, depois de ter fechado ontem em 38,76%. A questão do pagamento das promissórias do governo para resgatar a banca irlandesa continua a provocar ondas de choque. Na conferência de imprensa dada hoje por Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, ficou claro que, pelo lado desta entidade, não serão toleradas mais engenharias financeiras para não pagar no vencimento anual de uma promissória, como Dublin conseguiu fazer, em relação ao pagamento deste ano que venceu na semana passada. Draghi foi muito claro, em resposta a jornalistas irlandeses: “Futuros vencimentos deverão ser feitos de acordo com o calendário com que o próprio governo se comprometeu”.

A desconfiança dos investidores observou-se também nos seguros contra o risco de incumprimento (credit default swaps) de títulos de vários dos principais bancos europeus, com destaque hoje para um agravamento maior no caso do Santander e Bank of Scotland.

O impacto nas bolsas de valores foi significativo na Europa. O índice EuroStoxx 50 fechou com uma quebra de 2,46% e o índice Bloomberg European 500 com uma descida de 2,16%. Nos Estados Unidos, as bolsas também encerraram no vermelho, mas com quebras inferiores. A nível global, as bolsas perderam hoje 1,88% da sua capitalização, segundo o índice MSCI World Index. O sector financeiro cotado perdeu 2,04%, de acordo com o índice MSCI World Financials.

Acto V: 5 de abril (último dia de negociação da semana): O balanço da manhã de quinta-feira nos mercados da dívida continuou a ser negativo para os países “periféricos” da zona euro e inclusive para alguns do “centro”, como Bélgica, França e Áustria. O fecho ao final do dia confirmou a tendência negativa nos mercados da dívida relativos a uma parte da zona euro. O fim antecipado da semana trouxe amêndoas amargas.

A agravar a situação, o leilão de dívida de obrigações francesas de longo prazo (OAT) realizado pela Agence France Trésor na manhã de quinta-feira em Paris, apesar de arrecadar 8,44 mil milhões de euros, quase o máximo pretendido, obrigou a taxas médias superiores a anteriores operações.

As próprias bolsas de valores europeias reagiram negativamente, tal como já havia ocorrido na quarta-feira depois do leilão de dívida espanhola. No entanto, a quebra foi inferior à do dia anterior. O efeito dos dois leilões de dívida na zona euro – em Madrid e em Paris – provocou uma queda acumulada nas bolsas mundiais de 2,21% nos dias 4 e 5 de abril, segundo o índice MSCI World Index.

Muitos analistas afirmam que está a murchar o efeito de quase 1 bilião de euros da linha de liquidez LTRO a 3 anos lançada pelo Banco Central Europeu e a que recorreram os bancos comerciais da zona euro.

Segurar a dívida portuguesa custa mais caro

O risco de entrada em incumprimento num horizonte de cinco anos aumentou para Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica, França e Áustria.

No caso português, segundo dados da CMA DataVision, a probabilidade de default subiu de 60,57%, no fecho de quarta-feira, para 61,67% ao final da manhã de quinta-feira e fechou em 61,41%. No início desta semana havia baixado para 59,6%. Em uma semana, o custo à cabeça (upfront points, na designação técnica) da obtenção de um credit default swap (cds, que funciona como seguro contra o risco de incumprimento) subiu de 32 para 33 pontos.

O comportamento no caso das yields (juros) das obrigações do Tesouro português no mercado secundário foi similar. Aumentaram quinta-feira em todos os prazos, segundo dados da Bloomberg. Os juros das OT a 2 anos fecharam em 10,12% e os juros das OT a 10 anos subiram para 12,24%. No início da semana estavam em 9,84% e 11,67% respetivamente.

O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã (que serve de referência) subiu para 10,5 pontos percentuais.

Espanha e Itália continuam em destaque

As preocupações dos investidores têm-se centrado, contudo, nos casos de Espanha e Itália.

O risco da dívida espanhola subiu de 33,64% para 34,24%, entre o fecho de quarta-feira e o valor atingido ao final da manhã de quinta-feira, segundo a CMA DataVision. Fechou a semana em 33,82%. No caso de Itália, a evolução foi de 30,47% para 31,24%, no mesmo período, e fechou quinta-feira em 31%.

Os juros das obrigações espanholas a 10 anos no mercado secundário subiram para 5,76% e os dos títulos italianos para 5,45%, segundo dados da Bloomberg para o fecho de quinta-feira. A tendência de subida prossegue.

Tormenta no sector bancário global

O mercado dos cds relativos à dívida das entidades bancárias tem estado, também, em agitação. Na quarta-feira a tormenta tinha assolado, em particular, o Banco Santander e o Bank of Scotland, com subidas diárias do custo dos cds entre 6 e 8%, mas no dia seguinte estiveram em destaque o Crédit Agricole, o Bank of Tokyo MUFJ e o Deutsche Bank, com subidas entre 6,5% e 7,5%, segundo dados da CMA DataVision.

Na quarta-feira um total de 9 bancos globais tiveram subidas do preço dos cds acima de 5% e na quinta-feira foram 6. A maioria está sediada na União Europeia.

A semana terminou com o que alguns analistas chamam de “balcanização” – as yields (juros) no mercado secundário dos títulos soberanos dos três países já resgatados (Grécia, Irlanda e Portugal) subiram, enquanto os juros dos títulos das obrigações espanholas e dos títulos italianos desceram.

Este comportamento assimétrico no seio dos países “periféricos” da zona euro foi particularmente evidente durante a tarde desta sexta-feira.

O efeito no mercado secundário das decisões das cimeiras de Copenhaga do Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro) e do Ecofin (ministros das Finanças da União Europeia) sobre o que designaram de “corta-fogo” financeiro parece ter sido dicotómico.

240 mil milhões que podem ser “descongelados”

Esta arquitetura financeira contará, a partir de julho deste ano, com dois instrumentos, o temporário em vigor designado por Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e um novo, o Mecanismo de Estabilidade Europeia (MEE). O montante envolvido nos dois instrumentos rondará os 800 mil milhões de euros, onde se contabilizam os 200 mil milhões já destinados aos três países resgatados (incluindo o segundo resgate à Grécia), cerca de 100 milhões de saldos do primeiro resgate à Grécia e de fundos da Comissão Europeia e 500 milhões afetos ao MEE. O Eurogrupo deixou, ainda em aberto, a possibilidade de recorrer, em caso de emergência, até julho, a 240 mil milhões do FEEF que estão congelados como reserva. Muita especulação já se desenvolveu em torno do eventual papel a desempenhar por esta reserva que pode ser descongelada – mas cuja janela de oportunidade fecha em julho.

Hoje os juros das obrigações do Tesouro português a 2 anos subiram para 9,68% (no dia anterior fecharam em 9,62%) e no prazo a 10 anos subiram para 11,53% (no dia anterior fecharam em 11,34%), segundo dados da Bloomberg. Os juros a 2 anos dos títulos irlandeses foram os que mais subiram, fechando em 4,86%. Os juros a 10 anos dos títulos irlandeses subiram para 6,85%, mas mantêm-se abaixo do limiar crítico de 7%. A diferença entre os juros dos títulos portugueses e irlandeses é, como se observa, significativa – no prazo a 2 anos é quase o dobro.

No caso da Grécia, a Bloomberg tem usado um benchmark para títulos a 10 anos, cujo juro subiu hoje para 21,08%, quando há uma semana estava em 20,1%. A subida desde 12 de março (quando o benchmark foi criado em virtude da reestruturação da dívida) foi de 19,02% para 21,08%. Com a reestruturação da dívida – que, na verdade, só será concluída a 4 de abril, última data limite para a adesão de credores privados com títulos sujeitos a lei estrangeira -, era suposto que este benchmark consolidasse uma tendência de descida. Mas tal não está a acontecer.

Más notícias vindas da Alemanha e da Noruega

Estes três países foram afetados esta semana pela decisão do Bundesbank, banco central alemão, de deixar de aceitar colaterais bancários garantidos pelos governos da Grécia, Irlanda e Portugal. Foi o primeiro banco central da zona euro a tomar este tipo de decisão, que tinha sido deixada em aberto pelo Banco Central Europeu (BCE). Os rumores sobre um terceiro resgate à Grécia são constantes, além da incerteza sobre os resultados das próximas eleições. A Irlanda conseguiu montar esta semana um engenhoso esquema financeiro interno para evitar o pagamento em cash de 3,06 mil milhões de euros no sábado relativos ao segundo vencimento da promissória de resgate de duas entidades financeiras. O BCE deu a bênção à operação que, na prática, implica o aumento da dívida irlandesa de longo prazo em mais 3,5 mil milhões, através da emissão de um título provavelmente com maturidade em 2025. O problema do pagamento anual dos vencimentos das promissórias continua em discussão “técnica”.

Com impacto ainda mais abrangente, soube-se esta semana pela boca do próprio ministro das Finanças da Noruega, Sigbjoern Johnsen, que o Fundo soberano daquele país, o maior investidor do género na Europa, com 610 mil milhões de dólares, reduzirá a sua exposição no mercado de títulos e de imobiliário no continente. O peso da Europa no portefólio descerá de 54% para 41%, redução que será compensada pelo aumento de oito pontos percentuais na Ásia-Pacífico e 5 pontos percentuais na América e África.

A dicotomia de efeito no mercado secundário não se verificou, no entanto, no risco de incumprimento dos quatro “periféricos” (Portugal, Irlanda, Espanha e Itália) num horizonte de cinco anos, que hoje fechou em baixa em relação ao dia anterior, segundo dados da CMA DataVision. O desanuviamento no risco foi, aliás, extensivo à Bélgica, França e Áustria. A descida de risco mais significativa foi a da dívida portuguesa, de 61,48% no fecho de ontem para 60,24% no encerramento hoje, um valor próximo do verificado no final da semana passada.

Mês de março foi positivo para Portugal

Num balanço global ao mês de março verifica-se que o risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa e os juros no mercado secundário das obrigações do Tesouro (OT) baixaram. No conjunto dos países “periféricos” foi a descida mais significativa.

Segundo dados da CMA DataVision, o risco de incumprimento baixou em um mês 2,7 pontos percentuais, descendo de um patamar de cerca de 63% para 60%, enquanto o risco de Espanha subiu 5 pontos percentuais (e anda num sobe-e-desce entre a 9ª e a 10ª posição no “clube” de candidatos à bancarrota) e o de Itália um pouco mais de 2 pontos percentuais. O risco irlandês desceu menos de 1 ponto percentual.

Apesar da evolução positiva, Portugal conserva o segundo lugar do “clube” de candidatos ao incumprimento, logo a seguir a Chipre. A distância do nível de risco português para o paquistanês, que se situa em terceiro lugar, está em um pouco mais de 13 pontos percentuais e em relação ao risco irlandês está em mais de 20 pontos percentuais. Desde o pico do risco em 30 de janeiro, Portugal viu a probabilidade de incumprimento descer 13 pontos percentuais.

No mercado secundário, a queda dos juros das OT destacou-se, com a redução mais significativa nos prazos a 2 anos, cujos juros desceram de 12,7% para 9,68%, naquele período, segundo dados da Bloomberg. O que denota o aliviar da pressão sobre o horizonte mais próximo. Os juros a 10 anos das OT desceram de 13,75% para 11,53%.

Confirmando a tendência de subida da manhã, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos subiu para 61,48%, segundo dados da CMA DataVision. Ontem havia fechado em 59,48%. Portugal conserva o segundo lugar do “clube” dos candidatos a um incumprimento da dívida, logo a seguir a Chipre, o líder, com 63,94%.

Também no mercado secundário se observou a mesma tendência de agravamento. As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) a 2, a 3 e a 5 anos subiram hoje mais de 5%, revelando uma pressão, de novo, sobre o curto prazo, segundo dados da Bloomberg. Os juros a 2 anos fecharam em 9,62% e os a 10 anos em 11,34%. Os juros a 3, a 5 e a 6 anos estão ainda em níveis acima de 13%.

A diferença em relação aos juros dos títulos irlandeses voltou a ampliar-se. Os juros a 2 anos dos títulos irlandeses fecharam hoje em 4,67% a 2 anos e em 6,82% a 9 anos (os títulos a 10 anos não se têm negociado desde novembro de 2011). O mesmo sucedeu com o prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã que subiu para 9,53 pontos percentuais.

Este prémio de risco está já muito distante do pico de 15,6 pontos percentuais de 30 de janeiro deste ano e regressou ao nível do prémio exigido pelos investidores no princípio de julho do ano passado, depois do plano de resgate aprovado por Bruxelas e pelo FMI. O prémio de risco da dívida portuguesa subiu muito rapidamente de 5 pontos percentuais em abril, quando foi anunciado o pedido de resgate pelo governo anterior, para 10 pontos percentuais em meados de julho, já depois de assinado o Memorando de Entendimento com a troika.

Madrid e Roma – o mesmo combate

Mas o dia foi particularmente penalizador para Itália e Espanha no mercado secundário. A pressão fez-se sentir sobretudo sobre os prazos a 2, a 3 e a 5 anos. No caso dos títulos italianos (BTP), os juros nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos ultrapassaram hoje os juros das obrigações espanholas, refletindo uma pressão no curto prazo muito acentuada sobre Roma.

Os juros das obrigações espanholas (OE) a 10 anos fecharam em 5,46% e os dos BTP em 5,21%, um valor ligeiramente abaixo dos 5,24% que o Tesouro italiano teve de aceitar, em média, para colocar hoje 5,75 mil milhões de euros com prazo a 10 anos. Os juros da dívida dos dois países neste longo prazo estão agora no mesmo patamar, alterando a situação que se vinha a observar desde 5 de março de distanciamento entre os juros das OE (em alta) e os dos BTP (abaixo do limiar dos 5% até 21 de março).

Também no risco de incumprimento se verificou um agravamento da situação nos dois países. A probabilidade de incumprimento de Espanha subiu de 31,48%, no fecho de quarta-feira, para 32,29% no fecho de hoje; e no caso de Itália a subida foi de 28% para 29,75%, no mesmo período. Um agravamento do risco foi também observado hoje em relação às dívidas belga, francesa e austríaca. O risco da dívida húngara – membro da União Europeia, mas não aderente à moeda única – também subiu, o que levou a que o país ultrapassasse Espanha no “clube” dos candidatos à bancarrota. A Hungria subiu para a 9ª posição e a Espanha desceu para o 10º lugar.

A crise da dívida na zona euro abrange hoje em dia a Grécia (cujos juros relativos ao novo benchmark a 10 anos, usado pela Bloomberg depois da reestruturação da dívida, continuam a subir acima de 20%), Chipre, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. A que se junta a Hungria, fora da zona euro. O grupo de países do “centro” da moeda única, formado pela Bélgica, França e Áustria, são “salpicados” também por esta onda.

Os investidores estão na expetativa sobre os resultados das reuniões do Eurogrupo (ministros das Finanças da zona euro) e do Ecofin (ministros das Finanças da União Europeia) que se iniciam amanhã e se prolongam para o fim de semana.

As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português no mercado secundário voltaram à tendência de subida, depois de uma descida significativa ultimamente.

Todas as maturidades estão com os juros em alta à hora de almoço, segundo dados da Bloomberg. Os juros das OT a 2 anos subiram para 9,59%, os juros das OT a 5 anos para 13,52% e os juros das OT a 10 anos para 11,31%.

Os juros das OT têm estado em descida desde que atingiram um pico em 30 de janeiro deste ano.

Com a queda para níveis inferiores a 10% no prazo a 2 anos, os juros desceram para um patamar abaixo dos níveis atingidos aquando do anúncio do pedido de resgate a 6 de abril, o que significa que a pressão sobre o curto prazo abrandou significativamente. A iminência de bancarrota foi afastada neste horizonte na percepção dos investidores. A 30 de janeiro, os juros das OT a 2 anos estavam em 21,01%!

O volume de títulos neste mercado secundário é, apenas, uma parte da dívida portuguesa. E a evolução das yields (juros) deve ser encarada como um sinal da evolução da percepção por parte de investidores, contudo sujeita a volatilidade, como se tem observado.

Uma comparação com os juros da dívida irlandesa, como temos referido em artigos anteriores, é, também, útil para se perceber o nível ainda muito elevado dos juros da dívida portuguesa neste mercado.

A probabilidade de incumprimento da dívida soberana num horizonte de cinco anos dos quatro “periféricos” que não entraram em default (excluindo a Grécia, que procedeu a uma reestruturação da dívida no início deste mês) voltou hoje de manhã à tendência de subida.

O risco de Portugal voltou a subir acima de 60% – situando-se em 60,46%, ao final da manhã -, mas Chipre continua a liderar o “clube” dos candidatos a incumprimento da dívida, com um nível de risco de 63,88%, segundo dados da CMA DataVision. Portugal havia fechado ontem com um risco de 59,48%. Às 17h já havia subido para 61,6%.

A tendência altista abrangeu, também, a Irlanda, cujo risco subiu de 38,98% para 39,25%, entre o fecho de ontem e o final da manhã de hoje, bem como Espanha, cujo risco passou de 31,48% para 32,17%, e Itália, que viu o mesmo indicador subir de 28% para 29,12%, no mesmo período. Em virtude da subida do risco de Espanha, o país subiu para 9º lugar no “clube” dos candidatos à bancarrota, formado pelos 10 países com mais alta probabilidade de incumprimento. Nesse “clube” estão cinco países da União Europeia, quatro membros da zona euro: Chipre lidera, seguido de Portugal, com a Irlanda na 7ª posição, Espanha na 9ª e Hungria na 10ª. Itália tem conseguido manter-se fora desse grupo ultimamente.

As oscilações no risco que temos observado esta semana refletem as expetativas sobre as decisões que possam vir a ser tomadas amanhã na reunião do Eurogrupo e durante o fim de semana no Ecofin (reunião dos ministros das Finanças da União Europeia), nomeadamente sobre os instrumentos financeiros “corta-fogo” (Fundo Europeu de Estabilização Financeira e Mecanismo Europeu de Estabilidade) para potenciais segundos planos de resgate de países já intervencionados pela troika ou novos pedidos.

Nos acontecimentos do dia, o Tesouro italiano conseguiu colocar com êxito uma emissão de títulos a 10 anos por um montante de 5,75 mil milhões de euros e com os juros mais baixos desde agosto de 2011, mas o comportamento no mercado secundário foi em direção oposta. Espanha está hoje em greve geral que “parece ter forte apoio em todo o país”, segundo o comentário da agência financeira Markit.

Os problemas de fundo que alimentam o nervosismo dos investidores mantêm-se. Recessões em vários países “periféricos” podendo comprometer as metas de ajustamento, níveis de endividamento público elevados em relação ao PIB mesmo a médio prazo, e depois dos resgates, escassez no financiamento à economia real, o problema das promissórias irlandesas que evitaram a bancarrota da banca irlandesa, o reajustamento orçamental elevado a realizar pelo governo de Madrid em dois anos e as necessidades de recapitalização da banca espanhola, e a dificuldade de implementação de reformas em Itália.

O referendo na Irlanda sobre o “compacto orçamental” está marcado para 31 de maio e as eleições em Itália deverão realizar-se ou em abril ou em maio.

Desde o começo de dezembro do ano passado que a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa, num horizonte de cinco anos, não descia para um nível abaixo de 60%. Segundo dados da CMA DataVision, esse risco desceu para 59%, no final do dia de negociação.

Portugal continua a manter o 2º lugar no “clube” dos candidatos à bancarrota, que é atualmente liderado por Chipre, com um risco de 63,91%. A distância de Portugal para o terceiro “classificado” neste “clube”, o Paquistão, encurtou para 15 pontos percentuais. A diferença em relação ao risco da Irlanda é de cerca de 20 pontos percentuais.

O risco português desceu significativamente desde o pico em 30 de janeiro deste ano quando atingiu 73,32%. Um dos indicadores da gravidade da situação é designado por “pontos à cabeça” (points upfront), um pagamento à cabeça aquando da celebração de um contrato de credit default swaps (seguros contra o caso de um incumprimento dos títulos da dívida). Este indicador desceu de um pico de 43 pontos, a 30 de janeiro, para 32,5 pontos, no fecho desta quarta-feira, segundo dados da Markit.

O risco de incumprimento esteve hoje em baixa em todos os “periféricos” da zona euro, inclusive em relação a Espanha e Itália, dois países que estiveram em foco, pela negativa, em dias anteriores. A expetativa dos investidores centra-se nas decisões que sairão da reunião do Eurogrupo (grupo dos ministros das Finanças da zona euro) em Copenhaga que começará na próxima sexta-feira.

A situação da dívida soberana portuguesa continuou a melhorar com a continuação da tendência de descida das yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) no mercado secundário e com a diminuição do risco de incumprimento num horizonte de cinco anos.

Os juros das OT a 2 anos desceram abaixo do patamar dos 10% no mercado secundário, pela primeira vez desde abril de 2011, antes do plano de resgate. Fecharam em 9,50%, segundo dados da Bloomberg. Os juros das OT a 10 anos desceram para 11,45%, o que já não ocorria desde novembro do ano passado. Os juros que mais desceram diariamente, com quebras de dois dígitos, foram os relativos às maturidades de curto e médio prazo. No entanto, refira-se que a diferença entre os juros portugueses e os juros irlandeses continua a ser significativa: 9,50% para 4,65% nas maturidades a 2 anos e 12,96% para 6,81% nas maturidades a 9 anos. Os títulos irlandeses com prazos a 10 anos não têm sido negociados desde novembro.
Distâncias ainda significativas

A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa desceu hoje mais de dois pontos percentuais, tendo fechado em 61,14%, segundo dados da CMA DataVision. Esta descida levou a que Chipre ultrapassasse, de novo, Portugal no “clube” dos candidatos à bancarrota, com um risco superior a 64%, regressando, assim, à liderança. A distância de Portugal para o terceiro classificado, o Paquistão, é de quase 20 pontos percentuais. A Irlanda, que está na sétima posição naquele “clube”, apresenta um risco de 39,39%.

O nervosismo dos investidores concentrou-se hoje em Itália e Espanha. O risco de incumprimento do nosso vizinho ibérico subiu para 31,49%, conservando o 10º lugar naquele “clube” de candidatos ao default. Os juros das obrigações espanholas também subiram em todas as maturidades, com os juros dos títulos a 10 anos a fecharem em 5,35%, acima do valor de fecho de segunda-feira. Mas foi nos juros dos títulos italianos (BTP) que se verificaram maiores subidas diárias, com os juros dos BTP a 10 anos a fecharem em 5,12%.

Foco em Espanha e Itália

Os investidores seguem a saga do governo de Mariano Rajoy que terá de proceder a um ajustamento significativo das contas públicas para poder atingir a meta de um défice de 3% em 2013 partindo de 8,5% em 2011, a par de um problema grave de recapitalização do sector bancário. O valor apontado para essa recapitalização é de 52 mil milhões de euros, mas o jornal El País cita estudos independentes que apontam para o dobro.

O mesmo matutino espanhol adianta que uma das soluções seria Espanha recorrer ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) logo que esteja em funcionamento. A Reuters, por seu lado, referiu que o comissário europeu da concorrência, Joaquín Almunia, disse em um encontro com jornalistas que Rajoy terá de decidir nas próximas semanas como proceder à recapitalização do sector bancário.

Só este ano, o ajustamento orçamental espanhol calculado oficialmente ronda os 32 mil milhões de euros, mas o economista Luís Garicano aponta para 53 a 64 mil milhões. Garicano é professor na London School of Economics e co-editor do blogue de economia mais importante em castelhano, Nada es gratis. A agência Eurointelligence conclui que o governo de Madrid não só não dispõe de margem orçamental como não é fácil atrair investimento estrangeiro. Pelo que não restaria o MEE.

Os rumores matinais sobre a possibilidade de abandono do governo por Mário Monti, o atual primeiro-ministro, caso o Parlamento não aprove o pacote laboral, aumentaram a incerteza nestes mercados financeiros. No entanto, Monti está em digressão asiática, tendo hoje recebido uma prenda – a declaração do presidente chinês Hu Jintao incentivando os chineses a investirem em Itália.

O alarme soou nos Estados Unidos e o subcomité de Política Monetária e Tecnologia do Congresso está a realizar hoje uma audição para avaliar se a estratégia da Reserva Federal (Fed) de facilitar liquidez em dólares ao Banco Central Europeu não acarreta riscos graves.

A liquidez é fornecida através de linhas de swap, em que a Fed troca divisas estrangeiras por dólares por um período de tempo (desde uma semana a três meses), com uma taxa de câmbio fixa e um juro. Esta linha não funciona apenas com o BCE, mas também com os bancos centrais da Suíça, Inglaterra, Japão e Canadá, ainda que seja o relacionamento com a zona euro que tem estado em foco.

Os congressistas norte-americanos estão preocupados com dois aspetos: a qualidade dos ativos do Banco Central Europeu, a contraparte da zona euro nesta operação, que muitos analistas consideram ter uma parcela significativa de títulos soberanos dos seus países membros, com risco elevado (ou seja, com valor muito inferior ao facial ou mesmo sendo considerados papéis de dívida especulativa, vulgo “lixo”), e se a liquidez em dólares fornecida a um juro muito baixo não está a levar os bancos da zona euro (que recorrem a essa linha através do BCE) a usar essa liquidez fora da zona euro, aplicando-a em ativos em dólares, agravando ainda mais os problemas de liquidez europeia e, ao mesmo tempo, “aquecendo” alguns mercados de ativos.

As linhas de swap em dólares geridas pelo Banco da Reserva Federal de Nova Iorque deveriam ter terminado em janeiro de 2011, mas foram renovadas até fevereiro de 2013, e inclusive a taxa for reduzida, estando muito abaixo das taxas praticadas no mercado. Em 14 de março, o montante em dívida estava num valor próximo de 65 mil milhões de dólares, um valor equivalente à quota dos EUA no Fundo Monetário Internacional. Sendo um montante inferior a 12% do pico atingido excecionalmente durante a crise financeira em 2008-2009, quando estas linhas de swap atingiram 583 mil milhões, a situação preocupa os norte-americanos interessados em perceber que uso tem sido dado a esse recurso de liquidez por parte da Europa.

Por outro lado, os congressistas seguem com atenção o balanço do BCE. Apesar de a sua alavancagem ser inferior à da Reserva Federal (36/1 contra 54/1), os norte-americanos duvidam da qualidade dos ativos em mãos do BCE.

Entretanto na audição de hoje, William C. Dudley, presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, admitiu que a Fed detém “um pequeno montante de dívida soberana europeia”, sem especificar o valor e de que títulos se tratam (é, naturalmente, diferente um Bund – título alemão – de um título dos países “periféricos” do euro), o que já provocou o nervosismo em muitos analistas norte-americanos.

« Página anteriorPágina Seguinte »