Clube Nuclear


É uma das incógnitas de 2012. O Irão tem estado em foco por uma convergência de episódios e decisões. E o estreito de Ormuz surgiu como peça destes jogos de nervos.

Durante 10 dias, a marinha iraniana desenvolveu o “Velayat 90″, um conjunto de exercícios militares navais que se estenderam pelo Golfo do Pérsico, Golfo de Omã e Mar Arábico. Os exercícios colocaram as forças iranianas na proximidade da 5ª Esquadra norte-americana que opera a partir do Bahrain.

No final do ano, os EUA aprovaram sanções contra o Irão que penalizarão fortemente os clientes do petróleo iraniano, entre os quais se encontram, em 85% dos casos, asiáticos e, em 17%, países da União Europeia, com destaque para a Grécia, Itália e Espanha. O presidente Obama assinou uma lei que impede o acesso ao sistema financeiro norte-americano por parte de todos os bancos estrangeiros que realizem operações com o banco central do Irão.

Em simultâneo, estrategos norte-americanos referem ser o momento certo para um ataque cirúrgico a alvos do projeto nuclear no Irão. “Na hora de atacar o Irão – porque razão um ataque é a menor das piores opções” é o título de um dos artigos simbólicos desta ótica, escrito por Mathew Kroenig, do Council of Foreign Relations norte-americano, na edição de janeiro/fevereiro da revista Foreign Affairs, acabada de publicar.

“Linha vermelha”

O vice-presidente iraniano falou, durante os exercícios, de bloquear o Estreito de Ormuz se as sanções se impuserem efectivamente. O estreito é um corredor que a Energy Information Administration considera “o mais importante ferrolho do petróleo” do mundo. Por ele passa um pouco mais de 1/3 do petróleo transportado por via marítima.

Durante a guerra do Irão e do Iraque, nos anos 1980, os iranianos minaram as águas do estreito e comandos em barcos de borracha atacaram petroleiros. Uma brincadeira comparada com a capacidade atual iraniana. “[Fechar o estreito] é tão fácil como beber um copo de água”, disse o almirante iraniano Habibollah Sayari.

Mas, como se verificou nestes exercícios, o estreito pode ser afetado a partir do Golfo do Omã, a sul do Estreito, que é ladeado pelo Irão e pelo Omã. Os exercícios navais recentes pretendem projetar a capacidade iraniana também no Índico ocidental.

O secretário de Estado da Defesa norte-americano, Leon Panneta, afirmou a 8 de janeiro na cadeia norte-americana CBS que, se o Irão bloquear o estreito, os EUA entrarão em campo para anular o bloqueio. “É uma outra linha vermelha” que os iranianos não poderão ultrapassar, disse.

O Dragão no chatrang

O xadrez da zona é muito complexo. Os iranianos jogam xadrez desde há 1400 anos quando o jogo era conhecido pelo nome de chatrang, em persa (do livro Mâdayân î chatrang - Livro de xadrez – do século VII).

Uma das peças do tabuleiro de hoje é a China, o cliente principal, que importa 21% do petróleo iraniano exportado. O Irão, que fornece 11,4% das importações petrolíferas chinesas, é o terceiro fornecedor da China, depois de Arábia Saudita (que fornece 20,5%) e Angola (que fornece 15,8%). As empresas chinesas são os principais investidores no sector energético iraniano. A China importa, ainda, 12,8% do Omã, Iraque e Kuwait.

A própria Europa “periférica” mediterrânica importa do Irão. A Grécia, na liderança, importa 25% das suas necessidades. Atenas é a capital europeia mais sensível a estes rumores de guerra. Itália importa 13% e Espanha 10%.

Os Estados Unidos importam de três fornecedores da zona – Arábia Saudita, Iraque e Kuwait; no total, apenas 18,2% das suas necessidades.

No calendário destes jogos, o secretário do Tesouro norte-americano desloca-se na próxima semana à China e ao Japão. A Europa, que acordou em princípio seguir a posição norte-americana, deverá tomar uma posição final na cimeira europeia de 30 de janeiro. Mas os próprios europeus discutem um “período de graça” de não aplicação do embargo nos contratos em curso.

Entretanto, novos exercícios navais iranianos estão previstos para fevereiro.

Brent sobe 6 dólares

O preço do barril de Brent, a variedade de referência na Europa, subiu 6 dólares entre o final do ano e hoje. De 107 dólares passou para 113, e está a oscilar em torno desse valor. Alguns analistas falam do risco de um choque petrolífero, se algum dos cenários de guerra se concretizar.

O preço do barril de petróleo tem sido sensível a estes rumores de eventual bloqueio ao estreito ou de operação relâmpago contra as instalações nucleares iranianas. O que pode ainda ser temperado com alguma guerra na Síria, se a NATO aí intervir como o fez na Líbia no ano passado.

Há vias alternativas em caso de bloqueio?

Os analistas apontam quatro. Duas delas revertem para o Mar Vermelho, uma para o Líbano, e outra para o Golfo de Omã.

. Reativar o oleoduto iraquiano-saudita (conhecido pelo acrónimo IPSA) que termina no porto de Yanbu, no Mar Vermelho acima de Jedá, e que pode transportar 1,65 milhões de barris por dia. Foi construído durante a guerra do Iraque com o Irão, precisamente para fugir ao transporte pelo Golfo Pérsico.

. Reativar a linha do Transarabian Pipeline (Tapline) da Arábia Saudita para o porto de Zahrani no Líbano que transporta 500 mil barris por dia.

. Outra via a usar pelo crude saudita pode ser a oleoduto Este-Oeste com mais de 1100 quilómetros entre Jubail no Golfo Pérsico e Yanbu no Mar Vermelho, o que favoreceria o estreito de Aden (pirataria somali por perto) e o canal do Suez (instabilidade no Egito), e que pode transportar 5 milhões de barris por dia.

. Os Emirados Árabes Unidos poderão acelerar a conclusão do projeto do oleoduto do Abu Dhabi que pode fazer correr crude equivalente a 2,5 milhões de barris por dia; o oleoduto com 375 quilómetros parte do sudoeste dos emirados para o porto de Fujairah, no Golfo do Omã, já a sul do estreito de Ormuz. O oleoduto está a ser construído por uma empresa chinesa e deverá estar operacional “em breve”, segundo o ministro Mohammad Bin Dha’en Al Hameli afirmou em dezembro. Mas o Golfo de Omã é um espaço marítimo internacional onde os iranianos consideram poder atuar.

Curiosidade histórica

Ormuz era uma das joias do Médio Oriente cobiçadas por Afonso de Albuquerque e pelo rei em Lisboa, Manuel I. Albuquerque conquistaria a ilha em 1507, que acabou por ficar sob suserania portuguesa entre 1515 e 1622. Os árabes chamavam-lhe, na época de Quinhentos, “o anel de pedra do mundo”. Era um dos ferrolhos geoestratégicos (chokepoints, na designação técnica) por onde todos os produtos do Oriente passavam. Fez parte das três “quinas” do império português em rede no Índico – Sofala (no atual Moçambique), Ormuz (no atual Irão) e Malaca (na atual Malásia).

Estatísticas

Números-chave do crude do Irão

. Exporta 2,6 milhões de barris por dia

. Produz 3,5 milhões de barris por dia

. 2º maior produtor da OPEP

. Principal cliente do crude iraniano: China (com 21% da exportação iraniana) que adquire mais de meio milhão de barris por dia

. Outros clientes importantes: União Europeia (17% da exportação iraniana), Japão e Coreia do Sul

Quanto “vale” o estreito de Ormuz?

. Mais de 1/3 do petróleo transportado por via marítima

. 20% do petróleo comercializado à escala mundial passa pelo estreito

. O seu peso como ponto de passagem diminuiu de 2008 para 2009 em mais de 7%

. 15,5 a 17 milhões de barris por dia passam pelo estreito de Ormuz

Sairam esta semana dois artigos sobre a questão coreana que merecem uma leitura atenta.

Em “The Demise of the Global Arms Control Regime”, Harsh V. Pant, explica a alteração ocorrida após a queda do Muro de Berlim e os sinais dados pelos testes nucleares indianos de Maio de 1998. A sua conclusão é óbvia: “Uma nova arquitectura global de segurança é necessária (…) A velha estrutura de segurança falhou largamente”. A ler, sem falta, em www.pinr.com

Em “Um puro acto político”, Gary Samore, que participou nas negociações de 1994 com os norte-coreanos, avalia o sigificado político dos testes nucleares limitados ocorridos no regime de Kim e o papel que a China desempenha, necessariamente, neste xadrez. A ler em www.cfr.org/publication/11746/samore.html

Os media começaram a debater quem será a próxima potência com capacidade militar nuclear.

Mas o que não expõem é o porquê do alargamento da geometria variável do clube. Porque razão o Mundo, esse malandro, se está, uma vez mais, a “vingar” das boas intenções.

Os últimos factos aceleraram o debate: a Coreia do Norte teria realizado testes agora recentemente; a India conseguiu que os Estados Unidos se “acomodassem” ao seu estatuto de potencia militar nuclear (em Julho surgiu o Tratado US-India Civilian Nuclear Co-operation); e há toda esta azáfama em torno do Irão (que, no entanto, ainda estará nos primórdios da cadeia).

O primeiro sinal de que o Clube entrara em período de instabilidade ficou às claras em 1998, quando duas potências regionais fronteiriças fizeram testes de armas nucleares: a Índia (que teria começado a aventura com uma primeira detonação em 1974) e o Paquistão.

O que é que este sinal significava? Que potências fronteiriças entravam na corrida armamentista nuclear como argumento político de “destruição mútua assegurada” (uma ideia que nasceu na Guerra Fria, como pilar da “coexistência pacífica” que então regulava os equilíbrios entre os dois hegemonistas).

O significado político deste passo é simples – a legitimidade deste recurso, que, até então, estava limitado oficialmente aos fundadores do Clube (EUA desde 1945; URSS desde 1949; Reino Unido desde 1952; França desde 1954; China desde 1964) e clandestinamente a Israel (sem data ainda apurada) e à África do Sul no final do regime do apartheid (que teria 6 armas que destruiu quando renunciou ao seu uso).

Fruto deste passado, existirão ainda hoje em seis países “fundadores” umas 13000 armas nucleares. Se adicionarmos os dois vizinhos industânicos, o número subirá ligeiramente.

Apesar do Tratado de Não Proliferação Nuclear ter sido renovado em 1995 (e de contar com 187 signatários; a Coreia do Norte saíu em 2003 do acordo), a implosão da URSS e o paradoxal declínio do hegemonista que restou (os EUA) abriu uma janela de oportunidade para um alargamento da multipolaridade nesta área. Essa é a primeira razão “estrutural”, dificilmente removível. Não há discurso que valha.

Mas a segunda razão política veio deitar mais óleo no lume.

A Administração Bush com a sua teoria da legitimidade do «regime change», do ataque «pre-entivo» e do uso eventual de armas táticas nucleares nessas operações de projecção de força, veio difundir uma doutrina do retorno ao nuclearismo como arma política essêncial. Agora, não num confronto “previsivel”, bipolar, mas num conceito difuso, de facto, de geometria variável.

Os neo-neo-conservadores dos EUA julgaram que com tal contundência, amedrontariam o resto, que não desafiaria o seu hegemonismo, agora que reinaria a solo.

Mas, como sempre, o Mundo vinga-se: o que é valido para os Estados Unidos porque não poderá ser útil para os outros?

Os conflitos regionais fronteiriços por resolver passarão a estar sob a ameaça desta eventualidade dos países em litígio quererem dispôr desta arma de último recurso ou de disuasão.

Não há só graves problemas limitrofes entre India e Paquistão. Há-os no Médio Oriente. Há-os entre Taiwan e a China. Há-os entre as Coreias. Par citar alguns exemplos de antologia. Poderão haver na fronteira euro-asiática, entre países que saíram da URSS e hoje litigam amiúde com a Rússia.

Os países totalitários encurralados (como a ultra-militarista Coreia do Norte) ou as potências regionais que se sintam ameaçadas pelo «regime change» (venha ele de que lado vier) julgam-se com legitimidade para embarcar nesta via.

Finalmente, potências emergentes regionais ou globais que haviam abandonado tais ideias – como o Brasil e a África do Sul – poderão reequacionar o assunto.

Há, neste ponto, uma questão técnica a aclarar: alguns países com a ambiação nuclear não precisam sequer de ter urânio enriquecido para fabricar armas nucleares, bastando-lhes aproveitar o plutónio dos resíduos das suas centrais. O perigo reside, também, em fenómenos como a proliferação, já que bastam 5 kg de plutónio para fabricar uma bomba nuclear com a potência da que foi lançada em Agosto de 1945 na Segunda Guerra Mundial em Nagasáqui, no Japão, alcunhada de “Fat Man”.

 

Uma próxima Administração Norte-americana terá de deitar fora toda essa doutrina “bushevique” (como já a alcunharam). Mas provavelmente já será tarde.

 

O vatícinio não é o melhor: a primeira metade do século XXI vai ter de se acomodar a uma nova corrida nuclear armamentista. Não necessariamente com a dimensão dos anos 1960 a 1980 – em 1986 chegou a dispor-se de mais de 70 mil armas nucleares.

 

O que exigirá de alguns “fundadores” do Clube – os EUA, a China e a Europa – bem como por parte de alguns emergentes – como a Índia -, um novo compromisso capaz de impôr um arrefecimento nas doutrinas da legitimidade do uso político de armas nucleares. Esse é o ponto central, a meu ver.

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A Foreign Policy fez uma lista dos 10 potenciais Estados Nucleares para o século XXI – aproxima-se uma Guerra Fria em geometria variável?