Ciberardina na crise (do default)


Acto I: do François. O dia “D” parece estar apontado para quarta-feira da próxima semana quando a chanceler alemã e o novo presidente gaulês se reunirem em Berlim. A forma de “calçar” o “pacto de crescimento” (growth compact) deverá ser o tema principal.

A chanceler Ângela Merkel convidou François Hollande, o novo presidente eleito de França, para a sua primeira visita oficial ao estrangeiro, logo após a sua investidura em Paris. A reunião deverá realizar-se a 16 de maio, numa viagem simbólica a Berlim.

Hollande tem uma agenda apertada logo de seguida com as cimeiras do G8 (os sete países desenvolvidos mais a Rússia) a 18 e 19 e da NATO a 20 e 21 de maio em Camp David, nos Estados Unidos. Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, informou que o presidente Obama já convidou Hollande para um encontro bilateral antes das cimeiras, onde contam abordar “um conjunto de dossiers difíceis em matéria económica e de segurança”.

Acabar com o diretório

François Hollande declarou à revista “Slate” que quer acabar com o “duopólio” franco-alemão, em suma prosseguir a parceria estratégica, mas deitar fora o papel de diretório.

A sua resposta à revista merece ser transcrita na íntegra: “Ainda que eu acredite na parceria franco-alemã, contesto a ideia de um duopólio. A construção europeia está baseada numa parceria bem equilibrada e de mútuo respeito entre a França e a Alemanha. As parcerias entre Schmidt e Giscard, Kohl e Mitterrand, e mesmo entre Chirac e Schroeder, mostraram que as diferenças políticas não significam que não possamos trabalhar em conjunto. Mas estes chefes de estado combinaram uma metodologia intergovernamental com os processos da União Europeia. Esta é a melhor forma de evitar que os nossos parceiros se sintam excluídos, ou, pior ainda, subordinados. Ora, este equilíbrio mudou nos últimos anos. A relação franco-alemã foi exclusiva. As instituições europeias foram ignoradas e alguns países, especialmente os mais frágeis, tiveram o sentimento desagradável de enfrentarem um diretório”.

Se as eleições presidências francesas indicaram que a estratégia anterior designada por “Merkozy”, em que a França inclusive desempenhou um lugar subalterno, está condenada, os resultados das eleições legislativas na Grécia foram um sinal de alarme ainda maior.

Com uma geografia parlamentar em Atenas que torna o país ingovernável em virtude da fragmentação e da perda de atração do centro político (o chamado “arco de poder”), toda a estratégia dos “memorando de entendimento” e dos planos de resgate para o país ficou em cheque. Mesmo os dois partidos da alternância tradicional, Nova Democracia (direita) e PASOK (socialistas), são abertamente pela revisão dos acordos firmados ainda recentemente e que conduziram a uma reestruturação parcial da dívida e a um segundo plano de resgate. Evangelos Venizelos, o líder do PASOK, e que negociou e liderou a recente reestruturação de dívida e o fecho do segundo pacote de resgate, afirmou que é indispensável uma extensão do novo período de ajustamento de dois para três anos. No entanto, a ingovernabilidade do país, com base nos resultados atuais, aponta para novas eleições antecipadas em junho que poderão coincidir com o período em que deveria ser aprovada uma nova tranche de 11 mil milhões de euros de financiamento a Atenas.

Se a União Europeia e a zona euro não oferecerem nada de novo à Grécia, as próximas eleições apenas conduzirão a uma radicalização do espectro político e a uma provável saída “caótica” do euro (e, segundo alguns analistas, da própria União Europeia), com desfecho incerto no quadro geopolítico da região em que o país se insere.

Cedências simbólicas

O jornal El País afirma hoje que a Comissão Europeia poderá ceder no que respeita ao plano de ajustamento em Espanha. O governo de Mariano Rajoy, depois de ter imposto unilateralmente uma meta para o défice deste ano em 5,3% do PIB (inferior em umas décimas à meta exigida por Bruxelas ao governo anterior), poderá conseguir um alongamento do prazo do ajustamento, ganhando mais um ano. A meta de 3% do PIB seria relegada para 2014.

Será uma nova cedência simbólica da Comissão Europeia, depois de já ter recuado em relação ao não pagamento anual da promissória irlandesa que garantiu o financiamento do sistema bancário literalmente falido depois da crise de 2008. O não pagamento da promissória levou Dublin a arquitetar uma reengenharia financeira para o efeito no final de março.

Com um pano de fundo de 8 dos 17 países da zona euro em recessão, até Mário Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), já elaborou sobre um “pacto de crescimento” (growth compact). Primeiro, lançou o tema no Parlamento Europeu em Bruxelas a 25 de abril e, depois, levantou o véu na conferência de imprensa em Barcelona na sequência da última reunião do conselho de governadores do banco a 3 de maio. “A redução da despesa pública não pode ser obtida através da redução da despesa de capital, dos investimentos”, e referiu que os investimentos em infraestruturas na zona euro e a intervenção do Banco Europeu de Investimentos (BEI) são aspetos a tomar em linha de conta.

Pontos em discussão

Este “pacto de crescimento”, que foi um dos cavalos de batalha sobre temas europeus da campanha eleitoral de Hollande, estará na agenda da cimeira em Berlim a 15 de maio. O presidente eleito já veio afirmar que a Alemanha não pode bloquear em simultâneo todas as saídas da negociação, quer sejam as euro-obrigações (eurobonds) ou a atuação do BEI.

Em contrapartida, Hollande foi claro que não pugna pelo regresso ao despesismo público com base no endividamento e no défice como solução “nacional” (num movimento para tranquilizar os mercados financeiros e deixar margem de manobra a Merkel junto do seu eleitorado e da irredutibilidade do Bundesbank, o banco central alemão). No entanto, estenderá o reajustamento orçamental em França até 2017. O presidente eleito pretende que os estímulos ao crescimento sejam concretizados através das políticas europeias. O papel do BEI, a reorientação dos fundos estruturais no sentido da inovação, um imposto europeu sobre as transações financeiras, e uma nova linha de orientação no BCE estão em cima da mesa. Em Itália, o porta-voz económico do PdL (Il Popolo della Libertà), o partido de Berlusconi, já veio hoje apoiar a ideia de euro-obrigações e de participação do BCE nos leilões de dívida no mercado primário.

Também hoje, o presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata Martin Schulz, retomou ideias de Hollande e da Comissão Europeia num artigo publicado no Economy Watch. Admitiu, ainda, que “no longo prazo, poderemos revisitar a ideia das euro-obrigações” (dando a entender que não será tema para já) e que a reforma da Política Agrícola Comum “não deverá continuar um tabu”, pois “nem assegura a sustentabilidade da agricultura nem permite rendimentos decentes aos agricultores”.

Segundo o jornal alemão Suddeutsche Zeitung publica hoje, Merkel poderá ceder em dois pontos: no uso dos fundos estruturais, baixando a exigência de cofinanciamento pelos estados que a eles recorram, para níveis entre 5 e 10%; e no aumento do capital do BEI com um reforço de 10 mil milhões de euros. Entretanto, a Comissão Europeia prepara um pacote de 200 mil milhões de euros, virado ao crescimento, para apresentar na cimeira europeia de junho. Este pacote insere-se na Iniciativa conhecida como “Europe 2020 Project Bond” destinada a dinamizar os mercados de capitais para financiar projetos de infraestruturas europeus nas áreas de transporte, energia e tecnologias de informação.

Acto II: do Dallara. O patrão do lóbi bancário mundial, Charles Dallara, cujo nome se tornou mediático durante as negociações da reestruturação da dívida grega, deu hoje um soco no estômago dos advogados da política de austeridade e juntou mais uma voz ao coro da necessidade de uma estratégia de crescimento (que tem sido designada por “pacto de crescimento”, growth compact, em inglês). O recado à Alemanha foi claro.

Recorde-se que Dallara defendeu os credores privados da dívida grega na renegociação que se concluiu este ano com o governo de Atenas sob pressão da troika.

Em entrevista à cadeia norte-americana CNBC, o diretor do Instituto de Finanças Internacionais (cuja sigla em inglês é IIF), afirmou que “a economia europeia se desligou do marco político”. “A focalização nos cortes orçamentais a curto prazo não se ajustou à realidade económica”, disse perante a surpresa de muitos. “Este enfoque criou a sensação de que a situação não tem fundo”, acrescentou.
Opção muito menos custosa

Aconselhou que se “reequilibre a equação crescimento-austeridade e se alivie o caminho do ajustamento orçamental em alguns países que já estão a ajustar-se”. “Isto pode obrigar a um maior financiamento nos próximos anos, mas é uma opção muito menos custosa do que deixar a situação deteriorar-se em países como a Grécia, Portugal, Espanha e Itália”, explicou.

Acrescentou, ainda, que “a Alemanha, juntamente com alguns parceiros europeus, terá de reavaliar a atual estratégia económica e considerar adaptações para colocar a economia da zona euro num caminho mais credível”.

A China Investment Corp (CIC), fundo soberano chinês, que este ano recebeu uma injeção de 50 mil milhões de dólares por parte do governo de Pequim, declarou em Adis Abeba, durante a reunião do World Economic Forum sobre África, que a sua estratégia de aplicações financeiras na Europa é clara: procurar oportunidades de investimento em ativos, não investir em dívida soberana.

“O que está a acontecer atualmente na Europa é, sem dúvida, preocupante”, afirmou Gao Xiqing, presidente do CIC. “Continuamos a procurar oportunidades na Europa, ainda que não queiramos comprar nenhuns títulos soberanos”, concluiu.

Acto I: 7 de maio (final da manhã) — Depois das primeiras reacções aos resultados eleitorais em França, Grécia e na Alemanha (estado de Schleswig-Holstein) penalizando os “periféricos” e a França, como referimos, o mercado da dívida assistiu a uma reviravolta parcial durante a manhã.

As yields (juros) para as obrigações francesas (OAT) caíram a pique, segundo dados da Bloomberg. Depois de terem aberto a subir mais de 5% nos prazos a 2 e a 3 anos, assistiu-se, durante a manhã, a uma quebra de mais de 10% nos juros destes dois prazos. Tendo aberto em 0,64%, os juros das OAT a 2 anos caíram para 0,53% agora ao final da manhã. No caso dos juros a 3 anos a quebra foi de 0,75% para 0,63%. Os juros a 5 anos desceram de 1,64% para 1,55% e os juros a 10 anos de 2,87% para 2,79%. A reunião entre o novo presidente François Hollande e a chanceler alemã Ângela Merkel marcará certamente o comportamento nos próximos dias dos juros das OAT no mercado secundário. Merkel terá dito que receberá Hollande “de braços abertos”.

A pressão aliviou, também, em relação aos títulos italianos (BTP). Os juros dos BTP a 2, a 3 e a 5 anos estão em queda. Apenas os juros dos BTP a 10 anos se mantém a subir ao final da manhã.

Acompanhando esta reviravolta, as bolsas de Madrid, Roma e Paris estão em terreno positivo. Também o índice PSI 20, da bolsa de Lisboa, está a subir ligeiramente. A bolsa de Atenas afundou com o índice a cair mais de 7% durante a manhã.

Risco português a liderar subidas

Mantêm-se a subir os juros das obrigações do Tesouro (OT) português, das obrigações espanholas e dos títulos irlandeses em todas as maturidades. Nestes “periféricos”, a maior pressão está a sentir-se sobre os juros das OT a 3 e a 5 anos.

A pressão no horizonte a cinco anos das OT, está a provocar a subida da probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa. O risco de bancarrota subiu para 60,01% e Portugal é hoje o país com maior aumento deste indicador no conjunto dos 80 países monitorizados pela CMA DataVision.

Os juros das obrigações gregas a 10 anos que servem de benchmark depois da reestruturação da dívida estão a disparar. Abriram em 21,09% e já estão em 22,89% face à perspetiva de “ingovernabilidade” na Grécia, depois da derrota dos dois partidos do “arco do poder” apoiantes (ainda que exigindo renegociação) do Memorando de Entendimento sobre o segundo resgate.

Os juros dos Bunds, títulos alemães, a 10 anos continuam abaixo do mínimo observado a 2 de maio. O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 9,61 pontos percentuais, fruto da subida dos juros das OT a 10 anos e da descida dos juros dos Bunds no mesmo prazo. O prémio de risco com maior subida é, por ora, o relativo à dívida espanhola, que subiu para 4,20 pontos percentuais. O sinal de alarme é disparado quando o prémio de risco chega ao patamar dos 5 pontos percentuais.

Acto II: 7 de maio — balanço do dia. Os títulos gregos e as obrigações do Tesouro português foram hoje as principais vítimas do nervosismo dos investidores na sequência dos resultados eleitorais deste domingo na Grécia e em França. Votações que sancionaram a política de austeridade seguida na zona euro.

No fecho do primeiro dia depois do terramoto político na Grécia e da mudança de presidente em França, os mercados secundários penalizaram os títulos gregos a 10 anos (que servem de benchmark, desde a reestruturação da dívida) e as obrigações do Tesouro português. No entanto, dado ter sido dia feriado em Londres, muitos analistas consideram que o dia da verdadeira prova dos nove será amanhã.

As yields (juros) do benchmark grego a 10 anos dispararam – subiram durante o dia 11,8%, fechando em 22,99%, o valor mais alto desde o estabelecimento desse benchmark em 12 de março. Na sexta-feira fechara em 20,57%.

Os títulos portugueses mais pressionados foram os com os prazos a 2 e a 5 anos. No caso das OT a 2 anos, os juros passaram de 7,98% no fecho de sexta-feira para 8,72% no fecho de hoje. Os juros das OT a 3 anos passaram de 12,02% para 12,58%, os juros das OT a 5 anos subiram de 12,44% para 13,14%, e, finalmente, os juros das OT a 10 anos subiram de 11,09% para 11,24%, naquele período. O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 9,63 pontos percentuais, um diferencial entre os juros da dívida portuguesa e da dívida alemã a 10 anos.

Os juros das obrigações espanholas subiram nos prazos a 2, a 5 e a 10 anos, mas desceram no prazo a 10 anos. Depois de um aumento mais significativo durante a manhã, assistiu-se a um abrandamento naqueles três prazos.

Os juros dos títulos italianos e franceses, que haviam sido pressionados na abertura, acabaram por descer. No caso das obrigações francesas, os juros declinaram significativamente nos prazos a 2 e a 3 anos, afastando risco no curto prazo. Refira-se que, depois da Standard & Poor’s ter afirmado que não haveria alteração na notação da dívida francesa (que está em AA+, segundo a classificação desta agência), a Fitch afirmou que não há previsão de qualquer alteração imediata na notação de França que, para esta agência, ainda se mantém no triplo A.

Finalmente, os juros dos títulos alemães, os Bunds, no prazo a 10 anos fecharam em 1,60%, fixando um novo mínimo. A 2 de maio haviam descido para 1,61%. Os juros que a Alemanha tem de pagar pela sua dívida são cada vez mais baixos. Os investidores internacionais dão prioridade à retenção de Bunds nos seus portefólios na zona euro.

Bolsas na zona euro: o contraste entre Atenas e o resto

As principais bolsas da zona euro fecharam no positivo, com destaque para subidas acima de 2% dos índices IBEX 35 (Espanha) e MIB (Itália). O índice CAC 40 da bolsa de Paris fechou a subir 1,65%. O índice PSI 20 da bolsa de Lisboa fechou ligeiramente em terreno positivo, tal como o DAX alemão.

Apenas a bolsa de Atenas fechou em terreno negativo, tendo caído 6,67%. A situação política grega entrou num terreno de total incerteza. O principal partido votado nas eleições, a Nova Democracia (de direita), declinou formar governo, pelo que competirá à segunda força política mais votada, o SYRIZA, de esquerda radical, apresentar uma solução governativa.

Acto III: 8 de maio — As yields (juros) da dívida alemã a 10 anos continuam a baixar no mercado secundário. Hoje fixaram um novo mínimo histórico, desde a adesão ao euro, de 1,54%, segundo dados da Bloomberg. Ontem já haviam descido para 1,60%, depois de terem chegado a 1,61% em 2 de maio. Este mês é o terceiro mínimo que ocorre. Os investidores refugiam-se nos títulos alemães, os Bunds.

A crise política grega assustou hoje os investidores internacionais. O segundo partido mais votado nas eleições, o SYRIZA, de Esquerda Radical, foi hoje incumbido de formar governo, depois da desistência da Nova Democracia (direita), o partido mais votado nas eleições de domingo. É a primeira vez que uma situação destas, envolvendo um partido de esquerda radical, ocorre na zona euro. A probabilidade de formar governo é também diminuta. Se, ao fim de três dias, falhar, a pasta de formação do governo passa para o terceiro partido mais votado, o PASOK. Se, também, este não conseguir constituir uma coligação, o presidente da República convocará os partidos para formar um governo de gestão até eleições antecipadas.

O que assustou os mercados financeiros

O líder do SYRIZA afirmou que as condições do segundo resgate negociado com a troika são “bárbaras” e que o acordo deve ser considerado “nulo”. Duvidou, também, da “legalidade” da dívida do país, apontando a necessidade de uma auditoria. As palavras de Alexis Tsipras foram reproduzidas nos media financeiros

O SYRIZA colocou efetivamente cinco condições para um acordo de governo: cancelamento imediato dos termos do memorando com a troika; revogação da lei que acabou com os acordos coletivos de trabalho; mudanças no sistema eleitoral que introduzam o sistema proporcional; revisão da situação dos bancos gregos; e formação de uma comissão de auditoria da dívida grega. O líder da formação de esquerda radical sublinhou que “a expressão da vontade popular tornou o memorando nulo”. Segundo o jornal Kathimerini, este partido irá enviar para a Comissão Europeia, Conselho Europeu e Banco Central Europeu uma carta indicando que os resultados das eleições apontam para que os termos do plano de resgate não sejam mais aplicáveis. O memorando com a troika recolheu apenas 32% dos votos nas urnas, argumenta aquele partido.

O SYRIZA teve 16,75% dos votos e ficou apenas a 2,2 pontos percentuais da votação da Nova Democracia. No caso de haver novas eleições, a agência financeira Markit admite que este partido possa aumentar a sua votação que, no domingo, foi superior a 1 milhão de votos nas urnas.

Vários media gregos apontam para a possibilidade de novas eleições a 17 de junho. Fontes não identificadas afirmaram que Atenas disporá de dinheiro até final de julho. Um desenbolso de 5,2 mil milhões de euros do plano de resgate em vigor deverá ser realizado a 10 de maio, na próxima quinta-feira, que deverá permitir liquidez até ao final de julho.

Entretanto, segundo o jornal alemão Süddeutsche Zeitung,a troika terá cancelado todas as reuniões em Atenas planeadas para maio.

Acto IV: 8 de maio — Espanha regressa ao “clube” da bancarrota. Os investidores na dívida pressionaram hoje as obrigações espanholas (OE), cujos juros subiram em todos os prazos no mercado secundário. As yields (juros) das OE a 10 anos subiram para 5,84%, segundo dados da Bloomberg.

Fruto dessa pressão, a probabilidade de incumprimento da dívida espanhola num horizonte de cinco anos subiu para 35,03%, segundo dados da CMA DataVision, o que fez regressar Espanha ao “clube” dos candidatos à bancarrota, reentrando para o 10º lugar. Espanha havia saído desse “clube” em 17 de abril. O preço dos seguros contra o risco de incumprimento (credit default swaps, cds) aproximou-se dos 500 pontos base, fechando hoje em 495,50 pontos.

O nervosismo dos investidores derivou das notícias em torno do resgate do banco Bankia, o terceiro do país que agregou 7 cajas em 2010. Fala-se da necessidade de uma injeção de 7 a 10 mil milhões de euros, que poderá ser feita pelo Fundo de Reestruturação Bancária (FROB) e através do uso de instrumentos financeiros como os CoCos (títulos convertíveis face a determinadas contingências). O Ministro da Economia e da Competitividade, em Madrid, desmentiu “rotundamente” que o banco já tenha sido intervencionado e referiu que se tratou, apenas, de uma render da guarda na presidência do Bankia com a renúncia de Rodrigo Rato, cuja saída se concretizará esta sexta-feira. Os investidores na dívida aguardam para saber qual o plano de salvação do Bankia e qual o envolvimento de dinheiros públicos.

Risco e juros descem para o caso português

Portugal ficou relativamente alheio à pressão no mercado da dívida em virtude da crise política na Grécia e da turbulência em Espanha em torno do resgate do sector financeiro. Ou seja, hoje a pressão aliviou em relação à dívida portuguesa, ao contrário do que acontecera ontem. Em suma, uma situação volátil.

Os juros das obrigações do Tesouro desceram no mercado secundário nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos, mas subiram ligeiramente no prazo a 10 anos. O risco de incumprimento da dívida portuguesa desceu ligeiramente em relação ao fecho de segunda-feira, mantendo-se abaixo dos 60%. No entanto, Portugal conserva o 3º lugar no referido “clube” dos candidatos à bancarrota, depois da Grécia e de Chipre.

A descida no caso português contrastou hoje com o aumento do risco para a Irlanda, Espanha, Itália, França. Bélgica e Áustria. No caso de França, o preço dos cds voltou a galgar o patamar dos 200 pontos base e os juros das obrigações francesas a 2 e a 3 anos dispararam.

Acto V: 9 de maio: A crise grega continua a incendiar os mercados da dívida. A situação de “ingovernabilidade” consolida-se, a paralisia do plano de resgate está no horizonte (ainda que se alegue que há dinheiro no estado até final de julho), e prováveis eleições antecipadas em 17 de junho surgem nos cenários sobre a Grécia.

Entretanto o calendário político europeu é inexorável: a 13 de maio (próximo domingo) há eleições no estado alemão da Renânia do Norte-Vestefália onde a política da chanceler Merkel irá indiretamente a votos; a 16 de maio haverá o primeiro encontro entre Merkel e Hollande; a 25 de maio será ou não ratificado o “pacto orçamental” (fiscal compact) no Bundestag (parlamento alemão) e eventualmente também em Itália; e a 31 de maio há o referendo sobre o referido pacto na Irlanda.

As yields (juros) dos títulos soberanos no mercado secundário estão a subir em todos os cinco “periféricos” (Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália) e também em França. Os juros dos Bunds, os títulos alemães, a 10 anos, em contrapartida, descem ainda mais, apontando para novo mínimo histórico no patamar dos 1,5%, o que faz aumentar ainda mais o prémio de risco da dívida de todos os outros. O risco de incumprimento num horizonte de cinco anos subiu em Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, França, Bélgica, Hungria e Áustria. A onda é geral em todos os membros da zona euro e da União Europeia que têm estado sob pressão no desenrolar da crise das dívidas soberanas.

Espanha na mira

Na primeira linha da pressão está Espanha, com o problema da recapitalização da banca em primeira linha, e com a situação do Bankia a relembrar, segundo os analistas, o problema do banco britânico Northern Rock, o primeiro a recorrer a um banco central no início da crise de 2007. Os juros da dívida espanhola estão em alta em todas as maturidades com destaque para o prazo a 10 anos em que ultrapassaram os 6%, segundo dados da Bloomberg. O custo dos credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento) subiu acima dos 500 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. Este limiar é considerado crítico. Espanha conserva o 10º lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota, no qual reingressou ontem.

Os juros das obrigações do Tesouro português estão em baixa no prazo a 2 anos, mas a subir nos restantes. O risco de incumprimento da dívida portuguesa oscila entre os 60 e os 61%. No caso da Irlanda, os juros dos títulos a 9 anos (dado que os relativos ao prazo a 10 anos não têm estado em negociação desde outubro do ano passado) reaproximam-se dos 7%. O risco da dívida italiana subiu para 33%, a quase três pontos percentuais do espanhol. O custo dos cds para a dívida francesa continua a subir acima dos 200 pontos base.

Acto VI: 9 de maio — balanço: o facto que será o mais importante da semana: Mínimos nos juros dos Bunds.

As yields (juros) dos Bunds (designação dos títulos alemães) a 10 anos atingiram hoje novo mínimo histórico no mercado secundário, fechando em 1,518%, segundo dados da Bloomberg. Na terça-feira haviam fechado em 1,54%. É o quarto mínimo batido desde o início do mês. Os títulos do Tesouro norte-americanos com a mesma maturidade estavam com juros mais elevados, acima de 1,8%.

Recorde-se que durante a crise financeira de 2008, os juros dos Bunds a 10 anos chegaram a um pico de 4,57% em 18 de julho daquele ano. Com o início da crise das dívidas soberanas dos “periféricos” da zona euro, tais oscilaram em torno dos 3%. Durante esta crise, o nível mais elevado dos juros dos Bunds ocorreu a 11 de abril de 2011 com um nível de 3,49%. A partir dessa data a queda foi constante.

A aversão ao risco por parte dos investidores internacionais na dívida leva-os a fugirem dos títulos dos países em stresse para os Bunds, encarados como investimento seguro.
Aversão ao risco continua a assolar os suspeitos do costume

Hoje a aversão ao risco concentrou-se nas obrigações dos países “periféricos” e de França. Dois países continuaram em foco no mercado secundário da dívida – Espanha e Itália. A crise política grega continua a dominar a onda de contágio, que, no caso de Espanha, recebeu hoje dois bónus com a probabilidade do BFA (casa mãe do Bankia, que tem dominado as manchetes) ser nacionalizado, como pediu o seu novo presidente, e com a advertência da Comissão Europeia de que o défice orçamental espanhol deverá atingir os 6% e não os 5,3% fixados pelo governo de Mariano Rajoy. A situação do Bankia é a ponta do icebergue do estado do conjunto da banca espanhola, não sendo ainda clara qual a solução que o governo de Madrid irá adotar para o sector.

Os juros das obrigações espanholas a 10 anos fecharam em 6,08% e os dos títulos italianos com a mesma maturidade em 5,597%, segundo dados da Bloomberg. Por outro lado, a probabilidade de entrada em incumprimento num horizonte de cinco anos da dívida espanhola subiu para 36,16% e o país conserva o 10º lugar no “clube” dos países candidatos a uma bancarrota naquele horizonte temporal, segundo dados da CMA DataVision.

Os juros das obrigações do Tesouro (OT) português aumentaram em todas as maturidades, com os juros das OT a 10 anos a fecharem em 11,53%. A 27 de abril tinham descido para 10,49%, depois de terem caído de um pico de 17,39% a 30 de janeiro. A acompanhar este agravamento nos juros, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa subiu para 60,73%, menos de dois pontos percentuais abaixo do risco para o Chipre. Portugal conserva o terceiro lugar no referido “clube”, depois da Grécia (que pode fazer uma dobradinha em termos de default) e do Chipre (que, paradoxalmente, sobrevive financeiramente graças a um empréstimo da Rússia apesar de ser um país membro da zona euro).

Acto VII: 10 de maio — As yields (juros) do benchmark a 10 anos, usado pela Bloomberg, que serve de referência para a avaliação da dívida grega subiu hoje, ao final da manhã, para perto de 25%. A ingovernabilidade, derivada do espectro parlamentar, e os rumores sobre a entrega ou não da tranche completa do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) estão a aumentar o nervosismo dos investidores da dívida.

A tranche de 5,2 mil milhões de euros não deverá ser creditada hoje na íntegra, decidiram ontem os responsáveis do Eurogrupo. O Tesouro grego deverá receber só 4,2 mil milhões, pois o FEEF estima que os restantes 1000 milhões só deverão ser necessários em junho. O Eurogrupo tomará uma decisão sobre o assunto na reunião da próxima segunda-feira, segundo a agência AFP.

Convém referir que os 4,2 mil milhões não são colocados à disposição do Tesouro grego, mas vão diretamente para uma conta especialmente reservada para o pagamento do serviço da dívida grega, como recordou, ontem, o FEEF. Os analistas políticos gregos consideram que seria um grave erro, com consequências incendiárias na crise política em curso, se o FEEF não desenbolsasse tal verba já acordada.
Incerteza catastrófica

Desde que foi criado em 12 de março deste ano que o benchmark dos juros subiu mais de cinco pontos percentuais. O referencial foi criado após o anuncio da reestruturação parcial da dívida grega a 9 de março quando os juros dos títulos gregos naquela maturidade negociavam a mais de 36,5% no mercado secundário. Os velhos títulos sairam de cena, depois da negociação realizada pelo então ministros das Finanças Evangelos Venizelos, e o benchmark passou a ser o termómetro da situação.

A crise política saída das eleições legislativas de domingo passado, com a impossibilidade de formação de um governo de coligação de maioria, a subida do SYRIZA (Coligação de Esquerda Radical) ao segundo lugar na votação e no parlamento e uma expressão eleitoral maioritária contra o plano de resgate pela troika, colocaram a Grécia no capítulo do que as agências financeiras têm chamado de “incerteza catastrófica”, pedindo emprestada uma expressão do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble.

A Grécia deverá reembolsar 450 milhões de euros em obrigações a partir de segunda-feira aos detentores de títulos que recusaram o acordo de reestruturação de março. Até dia 18 de maio terá de reembolsar 3,3 mil milhões de euros ao Banco Central Europeu.
Risco de bancarrota interna

Deste modo, o dinheiro fresco que entra destina-se, apenas, “a cobrir a dívida, e não a fazer face às despesas públicas”, diz-nos Nick Malkoutzis, editor da edição inglesa do jornal Kathimerini. “Depois disso, a Grécia tem dinheiro até junho. Se não receber as verbas seguintes, arrisca uma bancarrota interna, deixando de pagar reformas e vencimentos dos funcionários públicos. O governo, além disso, já deve mais de 6 mil milhões de euros a fornecedores e a contribuintes que deveriam ser reembolsados de impostos. A situação é muito crítica”, acrescenta.

Quer o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle, como o seu homólogo do Luxemburgo, Jean Asselborn, já ameaçaram os gregos que não haverá desbloqueamento de mais nenhuma parcela do segundo pacote de resgate se não houver governo “que respeite as regras estabelecidas e possa gerir as verbas”. A tranche seguinte deverá ser discutida entre a troika e Atenas em junho, altura em que há toda a probabilidade do país estar em eleições antecipadas. Segundo o Crédit Suisse, as negociações de junho deveriam dar luz verde a 23 mil milhões de euros para a recapitalização dos bancos gregos e a 8 mil milhões suplementares para pagamento da dívida.

Nick Malkoutzis espera que a troika “cubra algum buraco com um empréstimo de ponte até que se saiba se haverá um governo com quem possa trabalhar, ou se o plano de resgate chegou ao fim da linha”.

Acto VIII: 11 de maio — fecho da semana. A crise política grega e a turbulência em torno do sector bancário espanhol continua a marcar o nervosismo do mercado secundário. As principais vítimas são as obrigações espanholas e o referencial grego a 10 anos. E os principais beneficiários são os Bunds, os títulos alemães.

As obrigações espanholas (OE) acabaram por fechar a semana com as yields (juros) a subir em todas maturidades. Os juros das OE a 10 anos regressaram aos 6%, segundo dados da Bloomberg. Há uma semana tinham fechado em 5,73%. O risco de incumprimento da dívida espanhola subiu para 36,27%, segundo dados da CMA DataVision. Há uma semana estava em 34,10%. Em virtude deste agravamento, o país reentrou, desde terça-feira, para o “clube” dos candidatos à bancarrota, ocupando o 10º lugar.

Os títulos gregos a 10 anos que servem de benchmark continuaram a subir ao longo da semana; fecharam hoje em 24,75%. Há uma semana estavam em 20,57%.

No caso das obrigações portuguesas, os juros subiram no prazo a 2 anos e desceram nos restantes. No caso italiano, os juros subiram nos prazos mais próximos, a 2 e a 3 anos, e desceram a 5 e a 10 anos. O mesmo comportamento com os títulos irlandeses. No caso das obrigações francesas, os juros subiram a 3 e a 5 anos, e desceram a 10 anos, tendo-se mantido inalterados a 2 anos.

Quem beneficiou com a aversão ao risco em relação a muitos títulos dos “periféricos” foram os Bunds, os títulos alemães. Os juros continuaram a descer no prazo a 10 anos, fixando novo mínimo em 1,516%, tendo estado a negociar inclusive em 1,49%. É o quinto mínimo sucessivo desde 1 de maio.

Em poucas semanas o que era um edifício sem rachas parece que sofreu o impacto de um sismo. É claro que há sempre quem finja que nada aconteceu e continue a assobiar para o ar até ao último minuto.

O primeiro do “sistema” a mudar o discurso foi Mário Draghi, o presidente do poderoso Banco Central Europeu (BCE). Saiu da sua “independência” monetária, e veio dizer, em Barcelona, que não há ajustamento orçamental, nem condições de segurar a “regra de ouro” (anti-despesista) a longo prazo, se não houver, também no curto prazo, um “pacto para o crescimento” (growth compact). Draghi, por momentos, se nos esquecêssemos do enquadramento do BCE a que ele preside, pareceria um cocktail de Keynes com Schumpeter – os governos devem cortar na despesa corrente, jamais no investimento, e o investimento público deve dar gás a infraestruturas e inovação, empreendedorismo e start-ups.

Outra voz que tem peso no “sistema” é, naturalmente, a de Charles Dallara, o patrão do lóbi da finança internacional, que se fez ouvir esta semana. O diretor do Instituto de Finanças Internacionais, saído há semanas da negociação de uma reestruturação da dívida grega, foi claro no canal norte-americano CNBC: “A economia europeia desligou-se do marco político. A focalização nos cortes orçamentais a curto prazo não se ajustou à realidade económica”.

Rapidamente os eurocratas mudaram o tom. Sem perderem a face, a palavra mágica “crescimento” regressou ao primeiro plano do discurso.

A Comissão Europeia chefiada por Durão Barroso desenterrou o papel possível dos fundos estruturais (há 80 mil milhões de euros ainda por usar no atual quadro), do Banco Europeu de Investimentos (BEI) e de títulos relacionados com projetos infraestruturais (project bonds) em parceria com privados que poderão envolver mais de 200 milhões de euros de fundos europeus e gerar quatro mil milhões de investimento global.

Por seu lado, o presidente do Conselho Europeu Herman Van Rompuy convocou de urgência para 23 de maio uma cimeira europeia especial sobre a nova palavra da moda: growth compact. O comissário Olli Rehn, no seu estilo inconfundível, apressou-se a dizer que o pacto orçamental “oferece muita margem de manobra”. Finalmente, o próprio Bundesbank, o banco central alemão, a catedral europeia da linha dura, veio fazer, esta semana, um entorse à sua ortodoxia, com alguns de dentro do aparelho a admitir que a inflação na Alemanha possa ser superior a 2%.

A que se deve esta súbita inversão? A dois violentos murros no estômago. Um dado pela própria economia. Outro pela democracia.

Dois murros no estômago

O primeiro murro no estômago foram os resultados da estratégia de ajustamento que se seguiu quando a crise das dívidas soberanas irrompeu em final de 2009 e o período de “estímulos” para evitar o aprofundamento da recessão económica deixou de ter apoiantes na zona euro.

A receita da austeridade em simultâneo em todos os países periféricos já provocou 7 países em recessão, entre eles, várias das economias mais importantes nos 17 da zona euro. A própria zona euro, segundo as previsões da Primavera da Comissão Europeia, deverá entrar em doube-dip, ou seja regressar à recessão este ano, ainda que ligeira, na ordem de uma quebra de 0,3%. Justamente 7 dos 17 realizarão, este ano, ajustamentos orçamentais superiores a 2% do PIB respetivo, segundo o levantamento realizado por João Silvestre, do Expresso, a partir dos Programas de Estabilidade. Nesse grupo estão duas das maiores economias da zona euro, Itália e Espanha.

Devido ao irrealismo dessas metas, Bruxelas já admitiu que 13 dos seus 17 membros deverão falhar as metas previstas para 2013, com o défice global da zona monetária em 1% do PIB.

Num contexto destes, a realidade foi mais forte do que a ortodoxia eurocrata.

Os “desvios” à linha dura de Bruxelas sucederam-se: a Irlanda inventou uma engenharia financeira para evitar o pagamento da promissória anual que cobre o sistema financeira do país, contra a vontade dos eurocratas, e Mariano Rajoy, logo que chegou ao poder em Espanha, impôs uma meta de défice orçamental, para este ano, acima do que a Comissão Europeia havia indicado ao seu antecessor socialista.

O segundo murro no estômago foi dado pela democracia. As eleições em França e na Grécia provocaram um sismo com réplicas que ainda continuam.

O candidato presidencial socialista François Hollande ganhou empunhando uma bandeira europeia de que é preciso um “anexo” ao pacto orçamental, que coloque o crescimento, de novo, no palco das políticas europeias. Hollande advoga ainda o fim do duopólio franco-alemão sobre a condução da política europeia, puxando outros países – como a Itália e a Espanha – para o primeiro plano e regressando ao papel das instituições europeias, apagado pelo diretório da era Merkel e Sarkozy. O presidente eleito decidiu, aliás, reunir com Herman Van Rompuy e Jean-Claude Juncker (presidente do Eurogrupo) antes da própria cimeira com Merkel logo após a sua investidura.

E na Grécia aconteceu o que os eurocratas nunca confessaram ser um cenário de risco: os partidos pró-troika representam pouco mais de 1/3 do eleitorado, e mesmo esses fizeram campanha exigindo a renegociação de diversos aspetos do segundo plano de resgate; e um partido da Esquerda Radical, o SYRIZA, subiu ao segundo lugar, e, segundo sondagens desta semana, chegará a ganhador se houver novas eleições em junho. A gravíssima crise política grega tocou os sinos a rebate.

Keynes volta, estás perdoado

A Grécia, outrora berço da civilização ocidental, é hoje um laboratório da crise da dívida. “As receitas orçamentais têm de ser revistas antes que destruam a economia grega. No curto espaço de quatro anos, a economia caiu 25%. Ainda não é claro que o eleitorado advogue uma saída do euro. Mas, se caminharmos para uma segunda eleição, a decisão surgirá, ou num sentido ou noutro, em definitivo. E um dos medos de uma saída do euro é que, na verdade, ninguém sabe mesmo qual será o seu impacto”, diz-nos Nick Malkoutzis, editor da versão em inglês do jornal grego Kathimerini. Impacto não só direto (a dívida soberana atual somada à exposição do BCE à Grécia e aos empréstimos do BCE aos bancos gregos chega a mais de 600 mil milhões de euros) como o efeito de contágio, visível na forma como os mercados da dívida têm reagido às notícias que vêm de Atenas. Por um lado, penalizam os títulos dos grandes “periféricos” ainda não intervencionados pela troika – Espanha e Itália – e manifestam toda a sua aversão ao risco “fugindo para o que é seguro”, os Bunds, os títulos alemães, cujas yields atingiram, no mercado secundário, níveis mínimos abaixo de 1,6%.

O rombo no edifício tem permitido o regresso, entre muitos economistas, a um “keynesianismo estrutural”, mitigado ou ortodoxo, com muitos a advogarem a substituição da atual orientação de ajustamento orçamental acelerado por políticas económicas similares às que vigoraram desde o pós-guerra até 1970, como resposta à devastação da guerra mundial e às sequelas da Grande Depressão dos anos 1930. Não só em termos de políticas domésticas (orientadas ao combate ao desemprego, uma “variável” que saiu fora de controlo para “surpresa” de muitos governantes), como na resolução dos desequilíbrios internos à zona euro entre países deficitários e excendentários.

A própria política interna alemã pode trazer surpresas. “Um ponto crucial na agenda alemã é saber se o SPD e os Verdes vão embarcar no dogma de Ângela Merkel e vão votar favoravelmente a ratificação do pacto orçamental em meados de junho. Resta saber se o farão a troco de uma compensação referindo um pacto de crescimento, ou se ainda não se sentem seguros de que podem desafiar a chanceler não sendo penalizados pela opinião pública alemã. Pode ser que os resultados das eleições este domingo no estado da Renânia do Norte-Vestefália sejam um ponto de viragem”, chama a atenção Nick Panayotopoulos, analista grego sobre temas europeus muito ativo na blogosfera.

“O governo da chanceler pode ter começado a compreender que as políticas de austeridade lançaram a maioria dos países da zona euro, incluindo a própria Alemanha, numa nova recessão. A única saída, por cima, é um relançamento do crescimento, coordenado entre os países membros do euro, a começar pelos que têm mais margem de manobra, e aí entra a Alemanha em primeiro lugar”, afirma Dominique Plihon, professor de economia financeira na Universidade Paris XIII. Este especialista francês recorda que a Alemanha não tem de inventar nada, “só tem de se recordar do que propôs John Maynard Keynes em 1944 – a resolução da crise tem de ser posta em prática em simultâneo pelos países deficitários e pelos excedentários. E estes últimos devem tomar as responsabilidades da redução dos desequilíbrios e não impor unilateralmente todo o fardo do ajustamento aos deficitários”.

Resta saber como a linha dura europeia se vai libertar como se fossem fraldas descartáveis dos mais papistas do que o Papa sem aparentar não perder a face.

John Maynard Keynes, subitamente, regressou, de novo ao palco do debate político. Mas com duas pedras no sapato – o nível de sobreendividamento numa franja larga de países da zona euro está acima do limiar crítico dos 90% do PIB e o papel multiplicador da despesa pública e do endividamento soberano para a suportar diminui drasticamente desde que Keynes advogou as suas receitas. O momento é o ideal para se forjarem Prémios Nobel que resolvam o imbróglio e políticos que inovem.

As bolsas asiáticas quebraram mais de 2% e as bolsas europeias apontam para um dia no vermelho. As yields (juros) da dívida soberana dos países da zona euro no mercado secundário abriram com a França, Espanha e Itália a serem as mais penalizadas, segundo dados da Bloomberg.

São as primeiras reações dos mercados financeiros aos resultados eleitorais em França (presidenciais), Grécia (legislativas) e Schleswig-Holstein (regionais alemãs). Os resultados apontam para uma pesada derrota da estratégia da chanceler alemã Ângela Merkel.

As maiores subidas nos juros estão a verificar-se nas obrigações francesas a 2 e a 3 anos, nas obrigações espanholas a 2 anos, nos títulos italianos a 2, a 3, a 5 anos, nas obrigações do Tesouro português a 2 anos e nos títulos gregos a 10 anos que servem de benchmark depois da recente reestruturação parcial da dívida.

Os juros dos títulos alemães abriram a descer, estando em 1,56%, abaixo do mínimo de 2 de maio. O que provocará um aumento ainda maior do prémio de risco das dívidas dos países “periféricos” da zona euro.

Os juros das obrigações do Tesouro português abriram a subir nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos, e a descer no prazo a 10 anos. Os juros a 2 anos abriram em 8,24%, depois de terem fechado na sexta-feira em 7,98%.

Ao final da manhã, se poderá verificar a extensão do impacto nos juros da dívida no mercado secundário e no risco de incumprimento das dívidas dos países da zona euro hoje em foco na abertura destes mercados: França, Espanha, Itália, Grécia e Portugal.

Estratégia de Merkel batida em três frentes

Os resultados eleitorais na Grécia e em França apontam para uma derrota da estratégia seguida pela chanceler alemã, que também viu a sua coligação CDU-FDP perder nas eleições para o estado alemão de Schleswig-Hostein. A agência de informação Eurointelligence, de Wolfgang Münchau, classificou os resultados em França e na Alemanha como uma “insurreição” (pelo voto).

Em França, o candidato socialista às presidenciais François Hollande ganhou a Nicolas Sarkozy. Em termos europeus, Hollande apontou para a necessidade de uma “adenda” ao “pacto orçamental” virada ao crescimento. A Standard & Poor’s (S&P) já adiantou hoje de manhã que estes resultados não terão, por ora, impacto na notação da dívida do país, que viu a sua “expulsão” do clube do triplo A ser concretizada pela S&P em 14 de janeiro. Atualmente a França tem notação de AA+, segundo aquela agência. A França vai, no entanto, ficar suspensa dos resultados das eleições legislativas que vão decorrer em 10 e 17 de junho.

A chanceler alemã Ângela Merkel já convidou Hollande a deslocar-se a Berlim, segundo o Der Spiegel.

Na Grécia, a perda de maioria dos partidos que sustentaram o segundo Memorando de Entendimento que implicou o segundo plano de resgate foi o facto mais significativo. O Parlamento em Atenas tem agora 7 partidos, em que as formações políticas explicitamente contra o Memorando somam 44% dos lugares. Este é o pano de fundo para o imperativo da Grécia apresentar até final de junho um plano de cortes de 5,5% do produto interno bruto para o período 2013-2014. O Citigroup fala de uma probabilidade da Grécia sair da zona euro entre 50 e 75%.

Os dois tradicionais partidos da alternância desde a queda da ditadura militar em 1974, Nova Democracia (direita) e PASOK (socialista), dispõem de 149 lugares num parlamento de 300 deputados. Recorde-se que a arquitetura parlamentar grega dá de bónus ao partido mais votado 50 lugares de deputados. Neste caso, foi a Nova Democracia, com mais de um milhão e cem mil votos (18,92% dos votantes), que arrecadou o bónus. Sem esse bónus, o afundamento do “arco do poder” seria arrasador.

Só mobilizando a Esquerda Democrática (sétimo partido mais votado, que foi formado a partir de uma cisão da Esquerda Radical, mas que mantém uma posição pró-europeia), a Nova Democracia e o PASOK poderão formar uma maioria parlamentar e tentar um governo de coligação. Mas mesmo estes três partidos são pela revisão do Memorando de Entendimento.

As subidas de votação mais significativas foram do partido de extrema-direita Aurora Dourada (que passou a dispor de 19 deputados) e do SYRIZA, esquerda radical, que ficou em segundo lugar (dispondo de 52 deputados), mais de três pontos percentuais acima do PASOK (o principal derrotado, que passou a terceiro lugar) e a menos de três pontos percentuais da Nova Democracia (o partido mais votado).

O cenário de “ingovernabilidade” e convocação de eleições antecipadas em junho tem surgido nos media gregos.

Na Alemanha, a coligação CDU-FDP (que suporta o governo federal da chanceler Merkel) conseguiu apenas 38,9% dos votos. Uma provável coligação entre o SPD (sociais-democratas), Verdes e o partido da minoria dinamarquesa dispõe de 48,4%. A chanceler defronta novas eleições regionais já a 13 de maio na Renânia do Norte-Vestefália.

Momento 1: “A redução da despesa pública não pode ser obtida através da redução da despesa de capital, dos investimentos”, afirmou Mário Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, na conferência de imprensa realizada em Barcelona a seguir à reunião do conselho de governadores do banco.

Draghi sublinhou este aspeto explicando o que entendia por “pacto de crescimento” (growth compact) a que se referiu no Parlamento Europeu em 25 de abril, como complemento ao “pacto orçamental” (fiscal compact) já aprovado por 25 dos 27 membros da União Europeia, pacto que inclui a chamada regra de ouro de limite do défice orçamental.

Mesmo admitindo que, no curto prazo, alguns países, em situação de emergência, tenham de lançar mão de “medidas fáceis”, como cortar nos investimentos e aumentar os impostos, isso não pode ser mantido no médio prazo, ou depois de passada a urgência. Os cortes devem ser feitos nas despesas correntes, disse o presidente do BCE.

No conjunto de medidas deste “pacto de crescimento”, Draghi ironizou que não reclamava patente de ideias (a Comissão Europeia e o candidato francês François Hollande têm falado no mesmo sentido), mas referiu que os investimentos em infraestruturas na zona euro e a intervenção do Banco Europeu de Investimentos são aspetos a tomar em linha de conta.

Mas sublinhou, diversas vezes, que encara este segundo pacto como complemento da austeridade e de medidas de reforma estrutural no sector de produção, completando o mercado único, e na área laboral (flexibilidade, mobilidade e medidas direcionadas ao desemprego entre os jovens, garantindo o que chamou de equidade entre gerações).

Na intervenção introdutória à conferência de imprensa, Mário Draghi falou, também, do fomento do empreendedorismo, das start-ups e da inovação como vectores importantes nas políticas de crescimento.

Insistiu, finalmente, que não compete ao BCE resolver as divergências estruturais dentro da zona euro, entre países (deficitários e excedentários), mas sim aos governos. “Vários governos têm de ser mais ambiciosos”, afirmou.

Momento 2: Face às críticas constantes de que a linha de facilitação aos bancos da zona euro de liquidez a 3 anos (conhecida pelo acrónimo LTRO), lançada pelo Banco Central Europeu (BCE) em dezembro, não tem tido qualquer repercussão na economia real, Mário Draghi afirmou em Barcelona que “ela precisa de mais tempo para mostrar um efeito positivo”. Draghi falava na conferência de imprensa que concluiu a reunião do conselho de governadores do BCE.

E acentuou que o lançamento dessa linha, que, então, designou como “bazuca” do arsenal de medidas temporárias do BCE, evitou “um grande aperto de crédito” (credit crunch).

Os críticos têm referido que as duas operações lançadas, em dezembro e em março, totalizando1 bilião de euros, serviram para os bancos da zona euro ocorrerem a esses empréstimos com juros a1% para de seguida se lançarem em aplicações financeiras rentáveis, nomeadamente no mercado de emissão de títulos soberanos pelos países “periféricos” sob pressão, como Espanha, Itália, França e Portugal (ainda que, neste caso, em emissões de curto prazo). Draghi insistiu que, ainda, é cedo para tirar conclusões sobre o efeito na economia real e que em junho será realizado o balanço dessa linha.
Efeito na economia real não se vê

Recorde-se que, ainda recentemente, a Reuters publicou um gráfico em que as linhas de crescimento da massa monetária e de empréstimos dos bancos à economia privada eram claramente divergentes. A massa monetária (M3) subiu 3,3% em termos anualizados, para dados do final de março, um subida ainda maior do que em fevereiro (2,8%), como recordou, aliás, Mário Draghi, mas os empréstimos dos bancos à economia privada cresceram muito menos, abaixo de 1% em termos anualizados.

Sentiu-se satisfeito com o fato dos bancos da zona euro terem fortalecido, no primeiro trimestre, os depósitos, um aspeto que Draghi admitiu ainda não ser “tão visível” na reunião de abril do BCE.

Esta “bazuca” criada por Draghi substituiu em larga medida a atuação do BCE no mercado secundário através do programa de compra de títulos soberanos dos países da zona euro mais aflitos, um programa conhecido pela sigla SMP (Securities Market Program) lançado pelo anterior presidente, Jean-Claude Trichet. Este programa tem estado adormecido nas últimas semanas.

A concluir, Mário Draghi sublinhou que estas intervenções “não convencionais” do BCE são temporárias e não se destinam a substituir a atuação reformista dos governos no sentido da consolidação orçamental nem o papel dos veículos financeiros da União Europeia. Deplorou que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira não tenha funcionado adequadamente e manifestou a esperança de que o Mecanismo Europeu de Estabilização funcione melhor a partir de meados do ano e possa vir a ser “usado se necessário”.

Acto I: 2 de maio — juros da dívida alemã em mínimos. As yields (juros) dos títulos do Tesouro alemã, conhecidos por Bunds, fixaram hoje novos mínimos no prazo a 10 anos no mercado secundário, em vésperas da reunião de governadores do Banco Central Europeu, que se realiza amanhã em Barcelona.

Os juros dos Bunds a 10 anos fecharam em 1,61%, abaixo do anterior mínimo que estava em 1,643, ocorrido em 10 de abril, segundo dados da Bloomberg. Os Bunds continuam a ser preferidos pelos investidores internacionais que reforçam os seus portefólios com estes títulos considerados seguros.

Em virtude desta descida, o diferencial em relação aos juros dos títulos de Portugal, Espanha e Itália subiu. O que provocou o aumento do prémio de risco da dívida. No caso português subiu para 8,98 pontos percentuais; no caso de Espanha para 4,24 pontos percentuais; e no caso de Itália para 3,94 pontos percentuais.

No entanto, o comportamento dos juros dos títulos destes três países “periféricos” não foi uniforme.

No caso português, os juros das obrigações do Tesouro (OT) desceram nos prazos a 2 e a 10 anos, mas subiram nos prazos a 3 e a 5 anos. Os juros das OT a 2 anos estão, agora, em 8,28%; fecharam o mês de abril em 8,58%.

Os juros das obrigações espanholas (OE) desceram no prazo a 2 anos, mas subiram nos prazos seguintes. Os juros das OE a 10 anos voltaram a uma trajetória de aproximação a 6%, tendo fechado hoje em 5,85%. No caso dos títulos italianos, os juros desceram a 2 e a 5 anos e subiram a 3 e a 10 anos.

A probabilidade de incumprimento da dívida soberana dos três países subiu, segundo dados da CMA DataVision.

Acto II: 3 de maio — O Tesouro espanhol realizou hoje de manhã o primeiro leilão depois do corte de notação da S&P colocando a dívida espanhola em BBB+ (apenas três níveis acima de dívida especulativa) com perspetiva negativa.

Colocou o montante pretendido de 2,52 mil milhões de euros em títulos a 3 anos e obrigações a 5 anos, mas teve de pagar juros superiores aos verificados em operações similares anteriores.

O Tesouro colocou 979 milhões de euros em títulos a 3 anos pagando um juro de 4,037%, superior ao de 2,617% em operação anterior similar. Colocou ainda 764,5 milhões de euros em obrigações a 5 anos com um juro de 4,752%, superior a 3,565% verificado na operação anterior similar. Finalmente, emitiu 773 milhões de euros em obrigações também a 5 anos com um juro de 4,96%.

O limite máximo previsto para arrecadação pelo Tesouro era de 2,5 mil milhões de euros, tendo sido ligeiramente ultrapassado, e a procura verificada foi de 8 mil milhões.

No mercado secundário da dívida, as yields (juros) das obrigações espanholas estão hoje a descer. Os juros das OE a 3 anos estavam, ao final da manhã, em 3,98% e os das OE a 5 anos em 4,65%, valores abaixo dos verificados na emissão no mercado primário. Os juros das OE a 10 anos desceram para 5,76%, depois de ontem terem fechado em 5,85%.

As quatro emissões realizadas em abril, com prazos a 12 e a 18 meses e a 2 e a 10 anos, conseguiram, também, arrecadar as verbas previstas ou mesmo ultrapassá-las, mas os juros subiram, em regra, em relação a operações anteriores similares. Ou seja nesta primeira emissão de maio verificou-se o mesmo padrão.

A corrida aos títulos espanhóis é atribuída à banca local. Segundo os dados divulgados na semana passada pelo Banco Central Europeu (BCE) os bancos espanhóis aumentaram a sua exposição à dívida pública em 100 mil milhões de euros nos últimos seis meses. A “bazuca” lançada por Mário Draghi, presidente do BCE, em dezembro, tem permitido aos bancos espanhóis arranjar liquidez a 1% junto da linha LTRO a 3 anos, que, depois, aplicam no mercado da dívida soberana com remunerações muito mais elevadas.

Acto III: Juros da dívida francesa em baixa. Depois do último debate televisivo entre os dois candidatos à segunda volta das eleições presidênciais em França, as yields (juros) das obrigações do Tesouro francesas (OAT) prosseguem a tendência de descida já verificada desde os resultados da primeira volta.

O duelo de ontem de 170 minutos entre Nicolas Sarkozy e François Hollande, que irão a votos a 6 de maio, não alterou o padrão verificado.

Os juros das OAT a dois e a três anos estão em baixa com quedas diárias superiores a 6%. Os juros das OA a dois anos desceram para 0,67% e os das OAT a três anos para 0,78%. Fecharam o dia em 0,65% e 0,76%, com descidas diárias superiores a 8%.

Também os juros das OAT a cinco e a dez anos estiveram em baixa, fechando em 1,67% e 2,91% respetivamente.

Acto IV: 4 de maio — Inversão de tendência em Portugal? A tendência geral de descida das yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português no mercado secundário foi invertida, segundo dados da Bloomberg. Já ontem os juros das OT a 5 e a 10 anos haviam subido. Hoje a tendência altista estende-se também aos juros das OT a 3 anos.

No caso dos juros das OT a 10 anos, que servem de referência para comparações, subiram de 10,63% no começo da semana para 11,09% no fecho da sessão de hoje. Os juros das OT a 3 e a 5 anos subiram para o patamar dos 12%.

Escapam os juros das OT a 2 anos, que hoje desceram abaixo dos 8%, um nível de juros que já não se verificava desde março de 2011, ainda antes do pedido de resgate pelo anterior governo. Fecharam em 7,98%. Há uma semana fecharam em 8,71%.

Os investidores estão nervosos com o pós-plano de resgate, razão pela qual a pressão se está a centrar sobre os prazos acima de 2 anos.

Em virtude da subida nos juros da dívida a longo prazo no mercado secundário, a probabilidade de incumprimento aumentou. Aliás, Portugal é o país que hoje regista a maior subida diária neste risco entre os 80 países seguidos pelo monitor de probabilidade composta de default da CMA DataVision.

O preço dos credit default swaps (seguros financeiros contra o risco de incumprimento) galgou, de novo, a barreira dos 1000 pontos base; estão, ao final da tarde, em 1010,07 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. O risco de incumprimento fechou em 57,92%. No início da semana tinha fechado em 56,02%.

Depois de Portugal ter sido o país considerado com melhor performance no mês de abril, com uma diminuição do risco significativa (superior à que ocorreu para a Ucrânia e Hungria), segundo a Markit divulgou hoje, a inversão de tendência que estamos a observar neste início de maio merece toda a atenção.

Acto V: As yields (juros) dos títulos da dívida alemã, designados por “Bunds”, fecharam hoje no mercado secundário em 1,584%, fixando novo mínimo histórico desde a criação do euro, segundo dados da Bloomberg.

O anterior mínimo havia sido atingido a 2 de maio com os juros a fechar em 1,61%. Os títulos do Tesouro norte-americanos estão a negociar mais acima, em 1,876%.

Em virtude desta descida dos juros dos Bunds o prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 9,52 pontos percentuais. A 27/04 o diferencial entre os juros da dívida portuguesa e os juros da dívida alemã a 10 anos havia atingido 8,79 pontos percentuais, um valor tão baixo que já não se observava desde agosto do ano passado. A partir dessa data a tendência de queda do prémio de risco inverteu-se refletindo, de novo, a incerteza sobre a situação da dívida portuguesa no longo prazo.

O Banco Central Europeu (BCE) vai reunir o seu conselho de governadores em Barcelona a partir de 2 de maio. Com a dívida espanhola no foco de atenção dos investidores e com as recentes declarações do presidente do BCE no sentido de juntar ao “pacto orçamental” (fiscal compact) um “pacto pelo crescimento” (growth compact), a habitual conferência de imprensa de Mário Draghi após a reunião de governadores vai ter um interesse redobrado.

O vendaval nos juros da dívida espanhola rivalizou nas últimas semanas com as ondas de choque da caçada africana do septuagenário rei Juan Carlos de Borbón.

Entretanto confirmou-se que o país entrou em recessão “técnica” (dois trimestres sucessivos com queda do PIB) com a divulgação de que a economia contraiu 0,3% no primeiro trimestre deste ano.

O regresso, a 23 de abril, ao patamar dos 6% nos juros das obrigações espanholas a dez anos no mercado secundário desencadeou, de novo, os temores sobre a proximidade de um plano de resgate da troika para Madrid. O máximo foi atingido a 25 de novembro do ano passado com os juros a chegar aos 6,7%, próximo do limiar dos 7%, que é tido como ponto de não retorno para uma intervenção externa.

O nervosismo no mercado de seguros contra o risco de incumprimento (designados por credit default swaps) levou, a 23 de abril, o preço destes derivados financeiros à proximidade do máximo histórico de 16 de abril, quando chegou a 510,58 pontos base. Isto equivale a ter de se pagar 510 mil dólares por ano para segurar 10 milhões de dólares em títulos de dívida emitidos pelo Tesouro espanhol. Portugal já passou por esta passadeira no último trimestre de 2010.

O aquecimento recente da situação em Espanha deveu-se a três fatores – a ausência de compras pelo BCE de obrigações espanholas no mercado secundário, os juros mais elevados nos leilões da dívida realizados pelo Tesouro, e o corte de notação pela Standard & Poor’s.

Banca espanhola depende do biberão do BCE

Muitos analistas em Espanha reclamam que o BCE deverá atuar rápida e massivamente no mercado secundário através do seu programa de compras de títulos – conhecido pela sigla SMP. O responsável pelo programa no BCE, Benoît Coeuré, deu a entender, em meados do mês, que ele poderia ser reativado. Há cinco semanas que o banco central não adquiria no mercado secundário títulos aflitos da zona euro.

Essas palavras de Coeuré foram suficientes, então, para fazer descer os juros do patamar dos 6%. Mas o presidente do Bundesbank (o banco central alemão), Jens Weidemann, uma das vozes de peso na zona euro, logo disse à Reuters que Espanha deveria cuidar de si e não esperar pela muleta do BCE. Apesar das palavras de Coueré não há dados que indiquem que o programa SMP tenha voltado a atuar.

No entanto, a linha de liquidez a três anos (LTRO) lançada, no final do ano passado, por Mário Draghi, o novo presidente do BCE, tem permitido aos bancos espanhóis comprar dívida soberana nas emissões lançadas pelo Tesouro e ainda ganhar alguma margem com a diferença entre os juros que pagam ao BCE e os que recebem dos títulos adquiridos. As quatro emissões realizadas recentemente, com prazos a 12 e a 18 meses e a 2 e a 10 anos, conseguiram arrecadar as verbas previstas ou mesmo ultrapassá-las, mas os juros subiram, em regra, em relação a operações anteriores similares. Segundo os dados divulgador hoje pelo BCE, os bancos espanhóis aumentaram a sua exposição à dívida pública em 100 mil milhões de euros nos últimos seis meses.

A razão na semana passada para novo sobressalto dos investidores prendeu-se com o corte de notação da dívida espanhola operado pela agência de rating Standard & Poor’s (S&P). A notação da dívida espanhola baixou de A para BBB+, três níveis acima da classificação como dívida especulativa (situação em que está Portugal com uma notação de BB desde janeiro de 2012). A classificação de BBB+ dada a Espanha é similar, agora, à da Irlanda. A S&P nunca baixou a notação do ex-tigre Celta para o nível especulativo (vulgo “lixo”). A agência considerou ainda que a perspetiva é negativa (o que significa que poderá voltar a descer a notação).

A análise feita pela S&P admite um segundo cenário mais adverso do que o oficial, em que o PIB espanhol poderá contrair 4% este ano, muito mais do que a previsão de recessão de 1,8% apontada pelo “World Economic Outlook” do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para 2013, este segundo cenário da S&P prevê uma recessão de 1%, e estagnação em 2014. O que, naturalmente, agravará a situação orçamental de 2012 a 2014. Segundo a agência financeira Markit a verdadeira notação da dívida espanhola, de acordo com o sentimento real dos investidores, é de BB, ou seja já em terreno de dívida especulativa.

No entanto, apesar do corte de notação, o stresse inicial no mercado secundário acabou por aliviar no final da semana. A subida das yields das obrigações espanholas (OE) abrandou. Os juros das OE a dez anos afastaram-se do patamar dos 6%, fechando a semana passada em 5,88%. Os juros desceram inclusive de 5,96% para 5,88% entre 20 e 27 de abril. O risco de incumprimento da dívida também desceu, de 35,64% para 34,58%, no mesmo período.

O dilema de Rajoy

Mas o que se passa, com ziguezagues, nestes dois mercados financeiros é apenas um sintoma das dores de cabeça que afligem o governo de Mariano Rajoy, que mal aqueceu o lugar teve de enfrentar um dilema difícil: seguir a doutrina oficial de Bruxelas de um ajustamento radical orçamental e de um pacote duríssimo de austeridade ou optar por uma via “espanhola”.

A via “espanhola” tem de ter em conta um desemprego oficial que pode chegar, este ano, a um pico de quase 25% da população ativa, uma banca que necessita de uma recapitalização colossal (com as estimativas a variarem entre 53,8 mil milhões de euros, segundo o Banco de Espanha, a 80 mil milhões, segundo o banco ING, a 100 mil milhões, segundo economistas independentes) e uma economia que cairá, pelo menos, 1,8%.

Não é uma recessão tão profunda como em 2009 – caiu, então, 3,7% – quando se deu o primeiro choque da crise financeira global, mas ocorre, agora, num novo contexto, de crise aguda das dívidas soberanas na zona euro. É claro que não é uma quebra tão elevada como a que ocorrerá em Portugal (com a previsão de uma recessão de 3,3%), mas é um abalo na quarta maior economia da zona euro – o que faz toda a diferença.

FMI quer moderação do ajustamento

O recém-eleito presidente do conselho de ministros espanhol optou por flexibilizar em umas décimas o ajustamento orçamental este ano, colocando Bruxelas perante um facto consumado.

Mas o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), no seu “Fiscal Monitor”, referiu recentemente que teria sido preferível “um ajustamento levemente mais moderado”. Carlo Cottarelli, diretor do departamento de assuntos orçamentais do FMI, acentuou a ideia em conferência de imprensa em Washington DC e apontou para a previsão do Fundo que situa a meta para o défice orçamental em 2012 em 6% do PIB e não nos 5,3%, fixados pelo governo de Madrid. O FMI prevê inclusive que a regra dos 3% do PIB não seja possível antes de 2018 e que, mesmo em 2013, o défice público espanhol ainda estará nos 5,7% do PIB.

A necessidade de flexibilização do ajustamento é consensual entre os economistas espanhóis ouvidos pelo Expresso. A brutalidade de querer reduzir o défice de 8,5% em 2011 para 3% em 2013 é rejeitada. “É absolutamente impossível. Até o FMI o diz. Seria uma catástrofe. Isso é o que temem precisamente os mercados financeiros – um excesso de remédio que mate o doente”, diz Alberto Montero Soler, professor na Universidade de Málaga e autor do blogue “La Otra Economía”. Santiago Niño-Becerra, catedrático da Universidade Ramón Llull, de Barcelona, vai mais longe: “É absolutamente impossível chegar aos 3% em 2013 a não ser que Espanha regresse a uma ditadura e a população espanhola empobreça até um nível inimaginável. E, sobretudo, é impossível por duas razões: a) porque não é possível em democracia cortar 65 mil milhões em dois anos, e b) porque ao crescimento negativo que vai ter nestes anos se vão juntar os cortes nos gastos públicos para alcançar tal meta do défice”.

“É imperativo que se flexibilize esse objetivo para os próximos dois anos, se se quer evitar uma recessão muito grave”, sublinha, por seu lado, Santiago Carbó Valverde, da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade de Granada e consultor do Banco da Reserva Federal de Chicago. O problema, ironiza Alberto Montero, é que Rajoy, sozinho, “no tiene pantalones”, não tem coragem política para enfrentar Bruxelas. Ponto em que entram as expetativas sobre os resultados da segunda volta das eleições presidenciais em França a 6 de maio.

Ajuda externa à banca

A maior dor de cabeça de curto prazo parece ser a banca. Soube-se que o crédito mal parado ascendeu em fevereiro a 8,16%, uma percentagem que já não se verificava desde outubro de 1994. A dependência da banca espanhola do biberão do BCE é enorme: 316 mil milhões de euros emprestados, segundo o balanço no final de março. “Que a Espanha tenha absorvido mais de 30% dos fundos facilitados pelo BCE quando o seu PIB equivale apenas a 9% da economia europeia diz bastante sobre a situação da banca espanhola”, sublinha-nos Niño-Becerra.

Entretanto, a agência de rating S&P anunciou hoje o corte de notação de onze bancos espanhóis, incluindo o Santander, Banesto, Santander Consumer France, BBVA, Banco Sabadell, Ibercaja, Kutxabank, Banca Civica, CECA, Bankinter e a subsidiária local do Barclays.

As necessidades de capitalização da banca espanhola não podem ser resolvidas internamente, afirmam os economistas ouvidos pelo Expresso. “Tem de se contar com a ajuda externa, ainda que seja de analisar através de que mecanismos e instituições”, diz-nos Pedro Montes Fernández, que foi economista do Serviço de Estudos do Banco de Espanha (o banco central) e autor de “La historia inacabada del euro”. Pedro Montes aponta para “uma situação interna literalmente insustentável”, com o governo emparedado entre a necessidade de “credibilidade internacional” (e de ter um plano de austeridade rigoroso) e a “temeridade política de aplicá-lo”.

Uma saída que aliviaria a pressão sobre Madrid poderia ser um instrumento europeu com capacidade de adquirir participações diretas nos bancos aflitos, como alvitrou Olivier Blanchard, diretor do Departamento de Investigação do FMI. Blanchard disse que é preciso “cortar o elo pernicioso entre as dívidas soberanas e os bancos”. Um elo que pode ter Espanha como detonador, mas que abrange, à escala europeia, o risco de uma desalavancagem até final de 2013 na ordem dos 2 biliões de euros, cerca de 7% dos ativos bancários, que poderia representar um corte no crédito à economia real e às famílias de 1,7%. “É uma proposta interessante de Blanchard. Resta saber se a governança europeia o permite. Eu julgo que seria importante criar um quadro europeu de resolução bancária e um fundo de garantia de depósitos de nível europeu. Quanto mais avancemos em termos europeus melhor”, afirma Santiago Carbó. “Como se trata de um risco sistémico deve ter, sem dúvida, uma abordagem europeia”, confirma Alberto Montero.

Por seu lado, Rafael Pampillón Olmedo, professor no Instituto de Empresa, em Madrid, recorda que “o FMI é partidário que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF, em vigor até julho) ou o futuro Mecanismo Europeu de Estabilização (MEE) comprem ações dos bancos com problemas na zona euro no sentido de os recapitalizar”. Pampillón sublinha, ainda, que “outra possibilidade é que esses fundos de resgate facilitem crédito barato aos bancos”. Adianta inclusive que isso não é importante só para a banca espanhola, “mas para toda a banca europeia”.

No inquérito mensal realizado pelo Financial Times Deutschland antes das reuniões do conselho de governadores do BCE, e divulgado hoje, a maioria dos 38 economistas alemães ouvidos defende essa solução em vez da solução clássica de intervenção da troika junto dos governos.Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, já apontou no mesmo sentido, sublinhando que não tem sido ouvida pelos europeus, e o jornal alemão “Sueddeutsche Zeitung” adiantou que “um grupo de países da zona euro e vários membros do BCE” o pretenderiam.

O problema tem sido a oposição da Alemanha apoiada por alguns estados mais papistas por vezes que o Papa. Aliás, um dos governos fundamentalistas caiu na semana passada – o da Holanda – por não ser capaz de colocar em prática o que exige aos outros e foi, no limite, que o governo de gestão chefiado por Mark Rutte conseguiu um acordo maioritário para uma meta de 3% em 2013 a apresentar dia 30 de abril em Bruxelas. O que provocou muita ironia em Espanha.

O ministro da Economia e Competitividade, Luis de Guindos, negou hoje que haja qualquer intenção de recorrer a qualquer fundo de resgate europeu para resolver o problema da banca e adiantou que “nos próximos dias” poderão verificar-se novas fusões e aquisições no sector e anunciar-se “esforços adicionais” para o saneamento de algumas entidades financeiras.

A Reuters, no entanto, já foi perentória: a pergunta não é se a banca espanhola vai necessitar de um resgate externo, mas sim quando. Muitos analistas dão seis meses.

A Organização Internacional do Trabalho considerou hoje muito preocupante a situação na União Europeia. Sugere que o Banco Europeu de Investimentos e os fundos estruturais europeus se virem para a criação de emprego.

Mais 6 milhões de desempregados farão aumentar este ano o número de desempregados no mundo para 202 milhões (um pouco mais do que toda a população do Brasil), segundo o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado hoje em Genebra. O que equivale a uma taxa de desemprego mundial de 6,1% da população ativa, referiu Raymond Torres, o diretor do Instituto Internacional de Estudos Sociais da OIT. Em 2013 a projeção aponta para mais 5 milhões adicionais. Comparando com a situação anterior à crise financeira de 2008, o défice de empregos é de 50 milhões. A OIT aponta para riscos de convulsões sociais na Europa, Médio Oriente, África do Norte e África subsaariana.

A OIT considera que a situação mais preocupante é a europeia. Segundo dados publicados pelo Eurostat, na semana passada, a taxa de desemprego real (contabiliza a taxa oficial mais o subemprego e os inativos disponíveis) na União Europeia atingiu os 19,9% em 2011, com as situações mais críticas, acima de 20%, em 9 países, com destaque para Espanha (30,7%), a mais elevada, seguida de Letónia (26,2%), Irlanda (22,9%), Grécia (22,3%), Portugal (21,5%, segundo o Instituto Nacional de Estatística), Itália, Bulgária, Estónia e Lituânia.
Raymond Torres considerou hoje em conferência de imprensa que as políticas de austeridade “contra-produtivas” e as dificuldades de acesso das PME ao crédito bancário estão na origem da degradação da situação de emprego na Europa.

Sugestões à Europa

Torres recomendou aos europeus de repensar o papel do Banco Europeu de Investimentos (BEI) e dos fundos estruturais da União Europeia no sentido de um apoio ao crescimento e à criação de emprego.

Recorde-se que, recentemente, Mário Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, se pronunciou pelo lançamento de um “pacto para o crescimento” adicional ao “pacto orçamental” e, segundo o jornal espanhol “El País” divulgou na sua edição de domingo, a Comissão Europeia estaria a planear uma espécie de “Plano Marshall” envolvendo 200 mil milhões de euros para aplicar em projetos infraestruturais, energias renováveis e novas tecnologias, refocalizando nomeadamente os recursos do BEI. Segundo o jornal alemão Leipziger Volkszeitung, também a chanceler Ângela Merkel afirmou que estaria a preparar uma “agenda para o crescimento” para ser discutida na cimeira europeia de junho, que poderá incluir novos objetivos para o BEI.

O Banco Central Europeu (BCE) e o governo alemão ensaiaram quarta-feira (25 de abril) o início de uma guinada política, apontam os analistas. Em Bruxelas, perante a Comissão de Assuntos Económicos do Parlamento Europeu, Mário Draghi, o presidente do BCE, disse hoje que depois do “compacto orçamental o que está agora mais presente na minha cabeça é um compacto para o crescimento”.

Draghi não deu detalhes. Coube a Jörg Asmussen, um alemão membro da direção do BCE, concretizar junto do jornal Financial Times Deutschland: “O compacto orçamental sem alterações pode ser complementado por medidas de intensificação do crescimento a nível dos estados membros ou da zona euro”. Segundo Asmussen, uma das opções pode ser redirecionar os fundos estruturais e regionais da União Europeia para programas virados para esse objetivo.

Pouco depois seguiu-se a chanceler alemã Ângela Merkel. Num discurso em Berlim perante o seu partido, a líder do governo alemão disse que “a austeridade por si só não resolverá a crise”. Colocou a tónica nas duas cadeiras: apoia a ideia de Draghi mas sem esquecer as “reformas estruturais”. Em entrevista ao jornal alemão WAZ, a chanceler enfatizou, a 27 de abril, que o crescimento “foi desde sempre o segundo pilar das nossas políticas”.

Alemanha não é talibã da austeridade

And Merkel on Thursday told WAZ that growth “has long since become the second pillar of our policies.” She also said that “two pro-European politicians” were competing in the French presidential run-off.

Mais óbvio foi o secretário de Estado das Finanças do governo de Merkel. Thomas Steffen disse que “falar de disciplina orçamental não significa que a Alemanha seja uma espécie de talibã da consolidação. Nós não cremos que tudo se resuma à consolidação orçamental. Acreditamos muito que a zona euro também necessita de mais crescimento”.

A crise das dívidas soberanas na zona euro desde 2010 e o seu impacto em toda a União Europeia já fez cair 9 governos: Irlanda, Portugal, Grécia, Itália, Espanha, Eslováquia, Eslovénia, Holanda (que ainda tem notação de crédito de triplo A) e República Checa. A 27de abril caíria mais um governo – o da Roménia. A lista de vítimas subiu para 10. E, nesta fase mais recente, poderá colocar em xeque a própria estratégia de “compacto orçamental” da Alemanha e do Banco Central Europeu (BCE) se houver uma derrota política definitiva de Nicolas Sarkozy nas eleições de 6 de maio (2ª volta das presidenciais) em França.

Por outro lado, para além da turbulência política, a previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) é para uma recaída na recessão (double-dip, na expressão inglesa) na zona euro na ordem de uma quebra do PIB de 0,3% e a nível dos países avançados uma descida mais ligeira, de 0,1%.

Momento de Washington

O próprio FMI pela voz de Olivier Blanchard, o seu economista-chefe, apelou esta semana aos alemães, no jornal Financial Times Deutschland, para que aceitassem a ideia de euro-obrigações (eurobonds, na designação em inglês popularizada).

Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, quer substituir o “Consenso de Washington” (a que se têm associado muitas receitas do Fundo desde os anos 1990 e algumas das posições ainda mais fundamentalistas de Bruxelas e de Frankfurt face à crise das dívidas soberanas na zona euro) pelo “Momento de Washington” (expressão usada, agora, no encontro da Primavera do FMI e do Banco Mundial), algo mais equilibrado.

Mark Schieritz, no blogue do jornal alemão ZeitOnline, frisa, no entanto, que “quando Mário Draghi ou Ângela Merkel falam de um compacto para o crescimento estão a referir-se a algo diferente do que pensam François Hollande (o candidato oponente a Sarkozy na segunda volta das eleições presidenciais francesas de 6 de maio)e Christine Lagarde”.

Acto I: As yields (juros) da dívida espanhola a 10 anos estão, de novo, próximas dos 6%, segundo dados da Bloomberg para a abertura do mercado secundário. Depois de um recuo na quarta-feira, voltaram à tendência altista ontem e hoje acentuaram a subida. Os juros estão a subir em todas as maturidades das obrigações espanholas.

Segundo dados da CMA DataVision, também a probabilidade de incumprimento está a subir, abrindo em 34,58%, um nível muito próximo do risco da dívida egípcia, o que sinaliza a possibilidade de Espanha regressar ao “clube” dos candidatos à bancarrota, onde o Egito ocupa o 10º lugar. Espanha saíra deste “clube” em 24 de abril.

A razão imediata para o aumento do nervosismo dos investidores na dívida prende-se com o corte de notação da dívida espanhola operado ontem pela agência de rating Standard & Poor’s (S&P). A notação da dívida espanhola baixou de A para BBB+, três níveis acima da classificação como dívida especulativa (situação em que está Portugal com uma notação de BB desde janeiro de 2012). A classificação de BBB+ dada a Espanha é similar, agora, à da Irlanda. A S&P nunca baixou a notação do ex-tigre Celta para o nível especulativo (vulgo “lixo”).

A S&P considera ainda que a perspetiva é negativa (o que significa que poderá voltar a descer a notação). A agência considera que, no quadro de um cenário mais adverso, o PIB espanhol poderá contrair 4% este ano, muito mais do que a previsão de recessão de 1,8% apontada pelo “World Economic Outlook” do Fundo Monetário Internacional (FMI). O que agravará a situação orçamental.

Segundo a agência financeira Markit a verdadeira notação da dívida espanhola, de acordo com o sentimento real dos investidores, é de BB, ou seja já em terreno de dívida especulativa.
Governo espanhol “amacia” relatório do FMI

O relatório da equipa do FMI com as conclusões preliminares sobre a avaliação do sector financeiro espanhol foi divulgado no dia 25 de abril e alertava para o risco de algumas entidades bancárias terem “mascarado” a extensão do seu risco de crédito. Segundo os analistas, em virtude de refinanciamentos artificiais.

Este relatório teve uma tradução oficial que “amaciou” algumas das expressões em inglês mais “duras” usadas pelo relatório do FMI, o que foi muito mal recebido pelos investidores. O jornal El País publica hoje esta história com detalhe.

No entanto, a S&P responsabiliza a estratégia europeia como fator chave no que está a acontecer. “Do nosso ponto de vista, a estratégia de gestão da crise da dívida soberana europeia continua a não ter eficácia. Pensamos que as condições de crédito, e, por isso, a perspetiva económica de Espanha, poderá agora deteriorar-se ainda mais do que antecipámos no início deste ano, a não ser que medidas de política compensatórias por parte da zona euro sejam implementadas para melhorar a confiança dos investidores e estabilizar os fluxos de capital com o resto do mundo”, refere o comunicado da agência de notação.

Acto II: Stresse sobre Espanha e Itália abranda

Apesar do corte de notação em dois níveis da dívida espanhola pela Standard & Poor’s e do leilão de dívida a dez anos realizado pelo Tesouro italiano ter implicado juros mais altos do que na operação similar anterior (5,5% contra 5,24%), o stresse inicial no mercado secundário aliviou à tarde.

A subida das yields das obrigações espanholas (OE) e dos títulos do tesouro italiano (BTP) abrandou. Os juros das OE a dez anos afastaram-se do patamar dos 6%, fechando em 5,88%, e os juros dos BTP a dois e a dez anos desceram inclusive em relação aos valores de fecho de quinta-feira.

Referindo o caso de Espanha, que tem estado mais em foco, em relação a 20 de abril, os juros das OE desceram em todos os prazos. No caso mais monitorizado, das OE a dez anos, os juros desceram de 5,96% para 5,88% entre 20 e 27 de abril.

Acto I — 23 e 24 de abril: Mantém-se a tendência de descida nos indicadores da situação da dívida portuguesa.

A semana abriu com o risco de incumprimento da dívida soberana num horizonte de cinco anos a situar-se nos 58%, segundo dados da CMA DataVision. Há uma semana estava ainda no patamar dos 60%. Trata-se de uma quebra substancial em relação ao pico de 30 de janeiro, quando o risco atingiu o seu máximo histórico de 73,32%. Contudo, o país mantém o terceiro lugar no “clube” dos 10 candidatos a um incumprimento, estando distanciado quase 20 pontos percentuais da Irlanda, que se situa na oitava posição.

No mercado secundário, as yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) continuam a tendência de baixa, notando-se, em particular, uma diminuição significativa na pressão sobre os prazos mais curtos da dívida

A semana começou com uma redução dos juros das OT a 2 anos que baixaram para 9,16%, segundo dados da Bloomberg. Há uma semana estavam no patamar dos 10%. A trajetória aponta para uma redução colossal em relação ao máximo de 21,06% a 30 de janeiro. Um comportamento similar ao que ocorreu com os juros dos títulos irlandeses que caíram de um máximo de 23,22% em 18 de julho de 2011 para 5% atualmente.

As OT a 10 anos fecharam ontem com os juros em 11,45%, já abaixo do patamar dos 12% em que se situavam há uma semana. Um valor já distante dos 17,39% de 30 de janeiro.

Acto II: A prenda do 25 de abril: A tendência de descida das yields (juros) para as obrigações do Tesouro (OT) português mantém-se desde terça-feira, apesar de oscilações intradiárias. O dia 25 de abril trouxe uma prenda. Os juros das OT a 2 anos desceram durante a manhã para 8,88%, segundo dados da Bloomberg. Esta descida abaixo do patamar dos 9% representou um recuo dos níveis de dívida a 2 anos para os valores de 1 de abril de 2011, cinco dias antes do pedido de resgate a Bruxelas por parte do anterior governo.

Mas os juros acabaram por fechar na quarta-feira em 9,11%, em valores similares aos da semana seguinte ao pedido de resgate a 6 de abril de 2011.

No entanto, a tendência de descida volta a verificar-se a 26 de abril, com os juros a descer, ao final da manhã, para 8,75%.

Refira-se que os juros das OT a 2 anos foram os mais pressionados, no mercado secundário desde o pedido de resgate, tendo chegado a um máximo de 21% em 30 de janeiro deste ano. No dia seguinte observou-se um ponto de inversão. Mais de um ano depois da intervenção da troika, o nível dos juros recuou para a situação anterior ao pedido de resgate.

Inversão do caminho grego

A escalada nos juros das OT a 2 anos no mês de janeiro de 2012 – um “salto” do patamar dos 12% para os 21% – significava que o risco do país entrar numa espiral de tipo grego no horizonte de 2012-2013 era muito elevado. Esse risco parece ter sido debelado.

Nos juros das OT a 10 anos, que, regra geral, servem de referência para comparações entre países, observa-se o mesmo padrão de comportamento. Tendo fechado em 11,49% na segunda-feira, desceram para 11,35% no encerramento do dia 25 de abril, e estão, ao final da manhã de quinta-feira, em 11,16%. A trajetória de descida tem-se observado desde 31 de janeiro deste ano, depois do pico em 17,33% no dia anterior.

Estes níveis continuam, no entanto, a ser muito elevados e não apontam, ainda, para a possibilidade do Tesouro português se financiar com juros comportáveis nestes prazos no mercado primário através de emissões de dívida. Dispõe, ainda, de 15 meses para manter este ritmo de descida.

Olhando ao caso irlandês, Dublin conseguiu descer os juros dos títulos de dívida a 2 anos de 23% em julho de 2011, quando atingiu o pico, para 4,92%, no fecho de hoje, e os juros dos títulos a 9 anos (dado que os juros a 10 anos não têm sido negociados no mercado secundário) de 15,5% para 6,9%, no mesmo período. Contudo, os analistas, incluindo o Fundo Monetário Internacional, não se cansam de sublinhar as diferenças estruturais entre Portugal e Irlanda.

Risco de bancarrota elevado mas em declínio

O mesmo padrão de descida se tem vindo a observar no risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa num horizonte de cinco anos, avaliado pela CMA DataVision. Depois de uma aceleração em janeiro deste ano, chegando a um pico de 73,32%, a tendência de descida afirmou-se.

A probabilidade de entrada em bancarrota abriu esta quarta-feira em 58,10% e baixou, no fecho, para 56,84%, um nível que já não se observava desde setembro do ano passado. O preço dos credit default swaps (seguros contra a probabilidade de um evento de crédito) desceu abaixo dos 1000 pontos base, o que já não sucedia desde há 8 meses.

Esta inversão retirou Portugal do corredor que levaria o país a um trajeto similar ao grego, que “saltou” de níveis de risco de 70% em agosto de 2011 para 90% a partir de setembro desse ano, até que ocorreu a reestruturação parcial de dívida e um evento de crédito em março passado.

Há que sublinhar, no entanto, que, apesar da trajetória de descida do nível de risco no caso português, a probabilidade de incumprimento está quase 20 pontos percentuais acima da observada para a Irlanda. Portugal conserva o terceiro lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota, ainda que tenha vindo a distanciar-se de Chipre (cujo risco está acima de 62%).

Turbulência na Europa não contagia (por ora)

Apesar da turbulência que tem afetado nas últimas semanas os sentimentos dos investidores em relação às dívidas soberanas de Espanha e Itália e do duplo “choque” do colapso do governo holandês (a Holanda é um dos quatro países do euro que ainda mantém notação de triplo A) e da possibilidade de uma derrota de Nicolas Sarkozy em França a 6 de maio (na 2ª volta das eleições presidenciais), Portugal e Irlanda têm conseguido, por ora, neutralizar o “contágio” dos temores e dos rumores.

Note-se, no entanto, que a própria temperatura em relação aos juros da dívida e ao risco de incumprimento em relação a Espanha e Itália baixou desde ontem. Espanha conseguiu sair do “clube” dos candidatos à bancarrota, onde se posicionava em 10º lugar ainda na segunda-feira. Entretanto, os juros das obrigações espanholas a 10 anos desceram do patamar dos 6%.

O próprio temor de uma reviravolta política em França agravar o sentimento dos investidores em relação à dívida francesa não singrou. O risco de incumprimento de França baixou, com o custo dos credit default swaps (seguros contra a probabilidade de um evento de crédito) a descer do pico de 200 pontos base, e os juros das OAT – as obrigações do Tesouro francês – em queda acentuada, particularmente nos prazos a 2 e 3 anos.

Pode estar a ocorrer um compasso de espera até ao desfecho a 6 de maio das eleições presidenciais em França e das legislativas na Grécia. A 31 de maio decorrerá o referendo sobre o “compacto orçamental” na Irlanda. As mais recentes sondagens dão uma quebra de apoio à posição do governo irlandês de 50% para 30%, apesar da campanha de propaganda política a favor do “sim” orçada em 2,2 milhões de euros levada a cabo pelo governo de Dublin.

Acto III: 27 de abril: Ao final da manhã as yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português a dez anos – as que são usadas como referência nas comparações entre países – no mercado secundário baixaram, ao final da manhã, para 10,5%, um nível de juros que não se verificava desde junho do ano passado, segundo dados da Bloomberg. Estão ainda a dois pontos percentuais do nível de juros verificado a 6 de abril, aquando do pedido de resgate a Bruxelas por parte do anterior governo. Este nível está mais de três pontos percentuais acima da linha vermelha dos 7% (um patamar que conduziu à pressão para o pedido de resgate).

Também, na maturidade a dois anos, os juros das OT continuam em níveis abaixo de 9%, situando-se ao final da manhã em 8,72%. Este nível de juros é inferior ao verificado aquando do pedido de resgate, que se situava, então, em 8,99%. A primeira vez que se verificou um recuo deste tipo foi a 25 de abril.

Hoje as maiores descidas diárias nas yields estão a ocorrer nas OT com prazos a 3 e a 5 anos, que já estão abaixo da barreira dos 12%.

Os níveis de juros das OT portuguesas estão ainda muito acima dos verificados para os títulos irlandeses, que se situam em 4,95% no prazo a 2 anos e em 6,88% no prazo a 9 anos (os títulos a 10 anos não têm estado em negociação desde outubro do ano passado). Mesmo estes níveis são considerados “elevados” no último comunicado da troika sobre o andamento do programa de resgate irlandês, publicado ontem. A Irlanda teve um pico nos juros em todas as maturidades em 18 de julho de 2011.

Também no risco de incumprimento da dívida soberana, a tendência de descida se verifica. A probabilidade de default baixou para 57,30% e o preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) mantém-se abaixo dos 1000 pontos base. Refira-se, no entanto, que este nível de risco é muito elevado, continuando Portugal no terceiro lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota, logo depois da Grécia e de Chipre. A diferença em relação ao risco da dívida irlandesa é de quase 20 pontos percentuais.

O stresse em Espanha e Itália, que se está a verificar hoje no mercado secundário e no mercado dos credit default swaps, não contagiou Portugal nem Irlanda. Os juros das obrigações espanholas a dez anos aproximam-se dos 6% e os relativos aos títulos do Tesouro italiano estão em 5,72%.

Acto IV: 27 de abril (fecho) O prémio de risco da dívida portuguesa desceu em sete dias de 10,02 pontos percentuais para 8,79 pontos percentuais, segundo dados da Bloomberg. Este prémio reflete a diferença entre os juros dos títulos alemães, os Bunds, no prazo a 10 anos, que servem de referência na zona euro, e os juros das obrigações do Tesouro no mercado secundário. O que significa um recuo para a situação de setembro do ano passado. O pico deste prémio de risco ocorreu em 30 de janeiro deste ano quando chegou a 15,6 pontos percentuais. Daí para cá a trajetória tem sido descendente.

Esta situação reflete o comportamento das yields (juros) das obrigações do Tesouro português no mercado secundário. Uma trajetória descendente em todas as maturidades da dívida.

As maiores descidas ocorreram nos últimos sete dias nos juros a três e a cinco anos, que baixaram do patamar dos 13% para os 11%.

A descida mais simbólica foi, no entanto, a ocorrida no prazo a dois anos. Tendo fechado em 9,88% há uma semana, desceu hoje para 8,77%, um nível inferior ao ocorrido a 6 de abril do ano passado, data em que o anterior governo anunciou o pedido de resgate a Bruxelas. Foi a 25 de abril que estes juros desceram abaixo dos verificados nessa data simbólica. Também os juros no prazo a dez anos tiveram uma baixa significativa, de 11,73% a 20 de abril para 10,49%, no fecho de hoje.

Esta descida projeta-se ainda na probabilidade de incumprimento da dívida (no risco de entrada em bancarrota) num horizonte de cinco anos, que caiu de 59,6% há uma semana para 55,71% no fecho de hoje, segundo dados da CMA DataVision. O país conserva, no entanto, a terceira posição no “clube” mundial dos candidatos a bancarrota. Mas verifica-se um afastamento dos níveis que poderiam conduzir a um evento de crédito e a uma reestruturação iminente da dívida como aconteceu com a Grécia. O pico do risco verificou-se a 30 de janeiro com um nível de 73,32%.

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