Acto I: 7 de maio (final da manhã) — Depois das primeiras reacções aos resultados eleitorais em França, Grécia e na Alemanha (estado de Schleswig-Holstein) penalizando os “periféricos” e a França, como referimos, o mercado da dívida assistiu a uma reviravolta parcial durante a manhã.
As yields (juros) para as obrigações francesas (OAT) caíram a pique, segundo dados da Bloomberg. Depois de terem aberto a subir mais de 5% nos prazos a 2 e a 3 anos, assistiu-se, durante a manhã, a uma quebra de mais de 10% nos juros destes dois prazos. Tendo aberto em 0,64%, os juros das OAT a 2 anos caíram para 0,53% agora ao final da manhã. No caso dos juros a 3 anos a quebra foi de 0,75% para 0,63%. Os juros a 5 anos desceram de 1,64% para 1,55% e os juros a 10 anos de 2,87% para 2,79%. A reunião entre o novo presidente François Hollande e a chanceler alemã Ângela Merkel marcará certamente o comportamento nos próximos dias dos juros das OAT no mercado secundário. Merkel terá dito que receberá Hollande “de braços abertos”.
A pressão aliviou, também, em relação aos títulos italianos (BTP). Os juros dos BTP a 2, a 3 e a 5 anos estão em queda. Apenas os juros dos BTP a 10 anos se mantém a subir ao final da manhã.
Acompanhando esta reviravolta, as bolsas de Madrid, Roma e Paris estão em terreno positivo. Também o índice PSI 20, da bolsa de Lisboa, está a subir ligeiramente. A bolsa de Atenas afundou com o índice a cair mais de 7% durante a manhã.
Risco português a liderar subidas
Mantêm-se a subir os juros das obrigações do Tesouro (OT) português, das obrigações espanholas e dos títulos irlandeses em todas as maturidades. Nestes “periféricos”, a maior pressão está a sentir-se sobre os juros das OT a 3 e a 5 anos.
A pressão no horizonte a cinco anos das OT, está a provocar a subida da probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa. O risco de bancarrota subiu para 60,01% e Portugal é hoje o país com maior aumento deste indicador no conjunto dos 80 países monitorizados pela CMA DataVision.
Os juros das obrigações gregas a 10 anos que servem de benchmark depois da reestruturação da dívida estão a disparar. Abriram em 21,09% e já estão em 22,89% face à perspetiva de “ingovernabilidade” na Grécia, depois da derrota dos dois partidos do “arco do poder” apoiantes (ainda que exigindo renegociação) do Memorando de Entendimento sobre o segundo resgate.
Os juros dos Bunds, títulos alemães, a 10 anos continuam abaixo do mínimo observado a 2 de maio. O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 9,61 pontos percentuais, fruto da subida dos juros das OT a 10 anos e da descida dos juros dos Bunds no mesmo prazo. O prémio de risco com maior subida é, por ora, o relativo à dívida espanhola, que subiu para 4,20 pontos percentuais. O sinal de alarme é disparado quando o prémio de risco chega ao patamar dos 5 pontos percentuais.
Acto II: 7 de maio — balanço do dia. Os títulos gregos e as obrigações do Tesouro português foram hoje as principais vítimas do nervosismo dos investidores na sequência dos resultados eleitorais deste domingo na Grécia e em França. Votações que sancionaram a política de austeridade seguida na zona euro.
No fecho do primeiro dia depois do terramoto político na Grécia e da mudança de presidente em França, os mercados secundários penalizaram os títulos gregos a 10 anos (que servem de benchmark, desde a reestruturação da dívida) e as obrigações do Tesouro português. No entanto, dado ter sido dia feriado em Londres, muitos analistas consideram que o dia da verdadeira prova dos nove será amanhã.
As yields (juros) do benchmark grego a 10 anos dispararam – subiram durante o dia 11,8%, fechando em 22,99%, o valor mais alto desde o estabelecimento desse benchmark em 12 de março. Na sexta-feira fechara em 20,57%.
Os títulos portugueses mais pressionados foram os com os prazos a 2 e a 5 anos. No caso das OT a 2 anos, os juros passaram de 7,98% no fecho de sexta-feira para 8,72% no fecho de hoje. Os juros das OT a 3 anos passaram de 12,02% para 12,58%, os juros das OT a 5 anos subiram de 12,44% para 13,14%, e, finalmente, os juros das OT a 10 anos subiram de 11,09% para 11,24%, naquele período. O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 9,63 pontos percentuais, um diferencial entre os juros da dívida portuguesa e da dívida alemã a 10 anos.
Os juros das obrigações espanholas subiram nos prazos a 2, a 5 e a 10 anos, mas desceram no prazo a 10 anos. Depois de um aumento mais significativo durante a manhã, assistiu-se a um abrandamento naqueles três prazos.
Os juros dos títulos italianos e franceses, que haviam sido pressionados na abertura, acabaram por descer. No caso das obrigações francesas, os juros declinaram significativamente nos prazos a 2 e a 3 anos, afastando risco no curto prazo. Refira-se que, depois da Standard & Poor’s ter afirmado que não haveria alteração na notação da dívida francesa (que está em AA+, segundo a classificação desta agência), a Fitch afirmou que não há previsão de qualquer alteração imediata na notação de França que, para esta agência, ainda se mantém no triplo A.
Finalmente, os juros dos títulos alemães, os Bunds, no prazo a 10 anos fecharam em 1,60%, fixando um novo mínimo. A 2 de maio haviam descido para 1,61%. Os juros que a Alemanha tem de pagar pela sua dívida são cada vez mais baixos. Os investidores internacionais dão prioridade à retenção de Bunds nos seus portefólios na zona euro.
Bolsas na zona euro: o contraste entre Atenas e o resto
As principais bolsas da zona euro fecharam no positivo, com destaque para subidas acima de 2% dos índices IBEX 35 (Espanha) e MIB (Itália). O índice CAC 40 da bolsa de Paris fechou a subir 1,65%. O índice PSI 20 da bolsa de Lisboa fechou ligeiramente em terreno positivo, tal como o DAX alemão.
Apenas a bolsa de Atenas fechou em terreno negativo, tendo caído 6,67%. A situação política grega entrou num terreno de total incerteza. O principal partido votado nas eleições, a Nova Democracia (de direita), declinou formar governo, pelo que competirá à segunda força política mais votada, o SYRIZA, de esquerda radical, apresentar uma solução governativa.
Acto III: 8 de maio — As yields (juros) da dívida alemã a 10 anos continuam a baixar no mercado secundário. Hoje fixaram um novo mínimo histórico, desde a adesão ao euro, de 1,54%, segundo dados da Bloomberg. Ontem já haviam descido para 1,60%, depois de terem chegado a 1,61% em 2 de maio. Este mês é o terceiro mínimo que ocorre. Os investidores refugiam-se nos títulos alemães, os Bunds.
A crise política grega assustou hoje os investidores internacionais. O segundo partido mais votado nas eleições, o SYRIZA, de Esquerda Radical, foi hoje incumbido de formar governo, depois da desistência da Nova Democracia (direita), o partido mais votado nas eleições de domingo. É a primeira vez que uma situação destas, envolvendo um partido de esquerda radical, ocorre na zona euro. A probabilidade de formar governo é também diminuta. Se, ao fim de três dias, falhar, a pasta de formação do governo passa para o terceiro partido mais votado, o PASOK. Se, também, este não conseguir constituir uma coligação, o presidente da República convocará os partidos para formar um governo de gestão até eleições antecipadas.
O que assustou os mercados financeiros
O líder do SYRIZA afirmou que as condições do segundo resgate negociado com a troika são “bárbaras” e que o acordo deve ser considerado “nulo”. Duvidou, também, da “legalidade” da dívida do país, apontando a necessidade de uma auditoria. As palavras de Alexis Tsipras foram reproduzidas nos media financeiros
O SYRIZA colocou efetivamente cinco condições para um acordo de governo: cancelamento imediato dos termos do memorando com a troika; revogação da lei que acabou com os acordos coletivos de trabalho; mudanças no sistema eleitoral que introduzam o sistema proporcional; revisão da situação dos bancos gregos; e formação de uma comissão de auditoria da dívida grega. O líder da formação de esquerda radical sublinhou que “a expressão da vontade popular tornou o memorando nulo”. Segundo o jornal Kathimerini, este partido irá enviar para a Comissão Europeia, Conselho Europeu e Banco Central Europeu uma carta indicando que os resultados das eleições apontam para que os termos do plano de resgate não sejam mais aplicáveis. O memorando com a troika recolheu apenas 32% dos votos nas urnas, argumenta aquele partido.
O SYRIZA teve 16,75% dos votos e ficou apenas a 2,2 pontos percentuais da votação da Nova Democracia. No caso de haver novas eleições, a agência financeira Markit admite que este partido possa aumentar a sua votação que, no domingo, foi superior a 1 milhão de votos nas urnas.
Vários media gregos apontam para a possibilidade de novas eleições a 17 de junho. Fontes não identificadas afirmaram que Atenas disporá de dinheiro até final de julho. Um desenbolso de 5,2 mil milhões de euros do plano de resgate em vigor deverá ser realizado a 10 de maio, na próxima quinta-feira, que deverá permitir liquidez até ao final de julho.
Entretanto, segundo o jornal alemão Süddeutsche Zeitung,a troika terá cancelado todas as reuniões em Atenas planeadas para maio.
Acto IV: 8 de maio — Espanha regressa ao “clube” da bancarrota. Os investidores na dívida pressionaram hoje as obrigações espanholas (OE), cujos juros subiram em todos os prazos no mercado secundário. As yields (juros) das OE a 10 anos subiram para 5,84%, segundo dados da Bloomberg.
Fruto dessa pressão, a probabilidade de incumprimento da dívida espanhola num horizonte de cinco anos subiu para 35,03%, segundo dados da CMA DataVision, o que fez regressar Espanha ao “clube” dos candidatos à bancarrota, reentrando para o 10º lugar. Espanha havia saído desse “clube” em 17 de abril. O preço dos seguros contra o risco de incumprimento (credit default swaps, cds) aproximou-se dos 500 pontos base, fechando hoje em 495,50 pontos.
O nervosismo dos investidores derivou das notícias em torno do resgate do banco Bankia, o terceiro do país que agregou 7 cajas em 2010. Fala-se da necessidade de uma injeção de 7 a 10 mil milhões de euros, que poderá ser feita pelo Fundo de Reestruturação Bancária (FROB) e através do uso de instrumentos financeiros como os CoCos (títulos convertíveis face a determinadas contingências). O Ministro da Economia e da Competitividade, em Madrid, desmentiu “rotundamente” que o banco já tenha sido intervencionado e referiu que se tratou, apenas, de uma render da guarda na presidência do Bankia com a renúncia de Rodrigo Rato, cuja saída se concretizará esta sexta-feira. Os investidores na dívida aguardam para saber qual o plano de salvação do Bankia e qual o envolvimento de dinheiros públicos.
Risco e juros descem para o caso português
Portugal ficou relativamente alheio à pressão no mercado da dívida em virtude da crise política na Grécia e da turbulência em Espanha em torno do resgate do sector financeiro. Ou seja, hoje a pressão aliviou em relação à dívida portuguesa, ao contrário do que acontecera ontem. Em suma, uma situação volátil.
Os juros das obrigações do Tesouro desceram no mercado secundário nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos, mas subiram ligeiramente no prazo a 10 anos. O risco de incumprimento da dívida portuguesa desceu ligeiramente em relação ao fecho de segunda-feira, mantendo-se abaixo dos 60%. No entanto, Portugal conserva o 3º lugar no referido “clube” dos candidatos à bancarrota, depois da Grécia e de Chipre.
A descida no caso português contrastou hoje com o aumento do risco para a Irlanda, Espanha, Itália, França. Bélgica e Áustria. No caso de França, o preço dos cds voltou a galgar o patamar dos 200 pontos base e os juros das obrigações francesas a 2 e a 3 anos dispararam.
Acto V: 9 de maio: A crise grega continua a incendiar os mercados da dívida. A situação de “ingovernabilidade” consolida-se, a paralisia do plano de resgate está no horizonte (ainda que se alegue que há dinheiro no estado até final de julho), e prováveis eleições antecipadas em 17 de junho surgem nos cenários sobre a Grécia.
Entretanto o calendário político europeu é inexorável: a 13 de maio (próximo domingo) há eleições no estado alemão da Renânia do Norte-Vestefália onde a política da chanceler Merkel irá indiretamente a votos; a 16 de maio haverá o primeiro encontro entre Merkel e Hollande; a 25 de maio será ou não ratificado o “pacto orçamental” (fiscal compact) no Bundestag (parlamento alemão) e eventualmente também em Itália; e a 31 de maio há o referendo sobre o referido pacto na Irlanda.
As yields (juros) dos títulos soberanos no mercado secundário estão a subir em todos os cinco “periféricos” (Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália) e também em França. Os juros dos Bunds, os títulos alemães, a 10 anos, em contrapartida, descem ainda mais, apontando para novo mínimo histórico no patamar dos 1,5%, o que faz aumentar ainda mais o prémio de risco da dívida de todos os outros. O risco de incumprimento num horizonte de cinco anos subiu em Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, França, Bélgica, Hungria e Áustria. A onda é geral em todos os membros da zona euro e da União Europeia que têm estado sob pressão no desenrolar da crise das dívidas soberanas.
Espanha na mira
Na primeira linha da pressão está Espanha, com o problema da recapitalização da banca em primeira linha, e com a situação do Bankia a relembrar, segundo os analistas, o problema do banco britânico Northern Rock, o primeiro a recorrer a um banco central no início da crise de 2007. Os juros da dívida espanhola estão em alta em todas as maturidades com destaque para o prazo a 10 anos em que ultrapassaram os 6%, segundo dados da Bloomberg. O custo dos credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento) subiu acima dos 500 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. Este limiar é considerado crítico. Espanha conserva o 10º lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota, no qual reingressou ontem.
Os juros das obrigações do Tesouro português estão em baixa no prazo a 2 anos, mas a subir nos restantes. O risco de incumprimento da dívida portuguesa oscila entre os 60 e os 61%. No caso da Irlanda, os juros dos títulos a 9 anos (dado que os relativos ao prazo a 10 anos não têm estado em negociação desde outubro do ano passado) reaproximam-se dos 7%. O risco da dívida italiana subiu para 33%, a quase três pontos percentuais do espanhol. O custo dos cds para a dívida francesa continua a subir acima dos 200 pontos base.
Acto VI: 9 de maio — balanço: o facto que será o mais importante da semana: Mínimos nos juros dos Bunds.
As yields (juros) dos Bunds (designação dos títulos alemães) a 10 anos atingiram hoje novo mínimo histórico no mercado secundário, fechando em 1,518%, segundo dados da Bloomberg. Na terça-feira haviam fechado em 1,54%. É o quarto mínimo batido desde o início do mês. Os títulos do Tesouro norte-americanos com a mesma maturidade estavam com juros mais elevados, acima de 1,8%.
Recorde-se que durante a crise financeira de 2008, os juros dos Bunds a 10 anos chegaram a um pico de 4,57% em 18 de julho daquele ano. Com o início da crise das dívidas soberanas dos “periféricos” da zona euro, tais oscilaram em torno dos 3%. Durante esta crise, o nível mais elevado dos juros dos Bunds ocorreu a 11 de abril de 2011 com um nível de 3,49%. A partir dessa data a queda foi constante.
A aversão ao risco por parte dos investidores internacionais na dívida leva-os a fugirem dos títulos dos países em stresse para os Bunds, encarados como investimento seguro.
Aversão ao risco continua a assolar os suspeitos do costume
Hoje a aversão ao risco concentrou-se nas obrigações dos países “periféricos” e de França. Dois países continuaram em foco no mercado secundário da dívida – Espanha e Itália. A crise política grega continua a dominar a onda de contágio, que, no caso de Espanha, recebeu hoje dois bónus com a probabilidade do BFA (casa mãe do Bankia, que tem dominado as manchetes) ser nacionalizado, como pediu o seu novo presidente, e com a advertência da Comissão Europeia de que o défice orçamental espanhol deverá atingir os 6% e não os 5,3% fixados pelo governo de Mariano Rajoy. A situação do Bankia é a ponta do icebergue do estado do conjunto da banca espanhola, não sendo ainda clara qual a solução que o governo de Madrid irá adotar para o sector.
Os juros das obrigações espanholas a 10 anos fecharam em 6,08% e os dos títulos italianos com a mesma maturidade em 5,597%, segundo dados da Bloomberg. Por outro lado, a probabilidade de entrada em incumprimento num horizonte de cinco anos da dívida espanhola subiu para 36,16% e o país conserva o 10º lugar no “clube” dos países candidatos a uma bancarrota naquele horizonte temporal, segundo dados da CMA DataVision.
Os juros das obrigações do Tesouro (OT) português aumentaram em todas as maturidades, com os juros das OT a 10 anos a fecharem em 11,53%. A 27 de abril tinham descido para 10,49%, depois de terem caído de um pico de 17,39% a 30 de janeiro. A acompanhar este agravamento nos juros, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa subiu para 60,73%, menos de dois pontos percentuais abaixo do risco para o Chipre. Portugal conserva o terceiro lugar no referido “clube”, depois da Grécia (que pode fazer uma dobradinha em termos de default) e do Chipre (que, paradoxalmente, sobrevive financeiramente graças a um empréstimo da Rússia apesar de ser um país membro da zona euro).
Acto VII: 10 de maio — As yields (juros) do benchmark a 10 anos, usado pela Bloomberg, que serve de referência para a avaliação da dívida grega subiu hoje, ao final da manhã, para perto de 25%. A ingovernabilidade, derivada do espectro parlamentar, e os rumores sobre a entrega ou não da tranche completa do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) estão a aumentar o nervosismo dos investidores da dívida.
A tranche de 5,2 mil milhões de euros não deverá ser creditada hoje na íntegra, decidiram ontem os responsáveis do Eurogrupo. O Tesouro grego deverá receber só 4,2 mil milhões, pois o FEEF estima que os restantes 1000 milhões só deverão ser necessários em junho. O Eurogrupo tomará uma decisão sobre o assunto na reunião da próxima segunda-feira, segundo a agência AFP.
Convém referir que os 4,2 mil milhões não são colocados à disposição do Tesouro grego, mas vão diretamente para uma conta especialmente reservada para o pagamento do serviço da dívida grega, como recordou, ontem, o FEEF. Os analistas políticos gregos consideram que seria um grave erro, com consequências incendiárias na crise política em curso, se o FEEF não desenbolsasse tal verba já acordada.
Incerteza catastrófica
Desde que foi criado em 12 de março deste ano que o benchmark dos juros subiu mais de cinco pontos percentuais. O referencial foi criado após o anuncio da reestruturação parcial da dívida grega a 9 de março quando os juros dos títulos gregos naquela maturidade negociavam a mais de 36,5% no mercado secundário. Os velhos títulos sairam de cena, depois da negociação realizada pelo então ministros das Finanças Evangelos Venizelos, e o benchmark passou a ser o termómetro da situação.
A crise política saída das eleições legislativas de domingo passado, com a impossibilidade de formação de um governo de coligação de maioria, a subida do SYRIZA (Coligação de Esquerda Radical) ao segundo lugar na votação e no parlamento e uma expressão eleitoral maioritária contra o plano de resgate pela troika, colocaram a Grécia no capítulo do que as agências financeiras têm chamado de “incerteza catastrófica”, pedindo emprestada uma expressão do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble.
A Grécia deverá reembolsar 450 milhões de euros em obrigações a partir de segunda-feira aos detentores de títulos que recusaram o acordo de reestruturação de março. Até dia 18 de maio terá de reembolsar 3,3 mil milhões de euros ao Banco Central Europeu.
Risco de bancarrota interna
Deste modo, o dinheiro fresco que entra destina-se, apenas, “a cobrir a dívida, e não a fazer face às despesas públicas”, diz-nos Nick Malkoutzis, editor da edição inglesa do jornal Kathimerini. “Depois disso, a Grécia tem dinheiro até junho. Se não receber as verbas seguintes, arrisca uma bancarrota interna, deixando de pagar reformas e vencimentos dos funcionários públicos. O governo, além disso, já deve mais de 6 mil milhões de euros a fornecedores e a contribuintes que deveriam ser reembolsados de impostos. A situação é muito crítica”, acrescenta.
Quer o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle, como o seu homólogo do Luxemburgo, Jean Asselborn, já ameaçaram os gregos que não haverá desbloqueamento de mais nenhuma parcela do segundo pacote de resgate se não houver governo “que respeite as regras estabelecidas e possa gerir as verbas”. A tranche seguinte deverá ser discutida entre a troika e Atenas em junho, altura em que há toda a probabilidade do país estar em eleições antecipadas. Segundo o Crédit Suisse, as negociações de junho deveriam dar luz verde a 23 mil milhões de euros para a recapitalização dos bancos gregos e a 8 mil milhões suplementares para pagamento da dívida.
Nick Malkoutzis espera que a troika “cubra algum buraco com um empréstimo de ponte até que se saiba se haverá um governo com quem possa trabalhar, ou se o plano de resgate chegou ao fim da linha”.
Acto VIII: 11 de maio — fecho da semana. A crise política grega e a turbulência em torno do sector bancário espanhol continua a marcar o nervosismo do mercado secundário. As principais vítimas são as obrigações espanholas e o referencial grego a 10 anos. E os principais beneficiários são os Bunds, os títulos alemães.
As obrigações espanholas (OE) acabaram por fechar a semana com as yields (juros) a subir em todas maturidades. Os juros das OE a 10 anos regressaram aos 6%, segundo dados da Bloomberg. Há uma semana tinham fechado em 5,73%. O risco de incumprimento da dívida espanhola subiu para 36,27%, segundo dados da CMA DataVision. Há uma semana estava em 34,10%. Em virtude deste agravamento, o país reentrou, desde terça-feira, para o “clube” dos candidatos à bancarrota, ocupando o 10º lugar.
Os títulos gregos a 10 anos que servem de benchmark continuaram a subir ao longo da semana; fecharam hoje em 24,75%. Há uma semana estavam em 20,57%.
No caso das obrigações portuguesas, os juros subiram no prazo a 2 anos e desceram nos restantes. No caso italiano, os juros subiram nos prazos mais próximos, a 2 e a 3 anos, e desceram a 5 e a 10 anos. O mesmo comportamento com os títulos irlandeses. No caso das obrigações francesas, os juros subiram a 3 e a 5 anos, e desceram a 10 anos, tendo-se mantido inalterados a 2 anos.
Quem beneficiou com a aversão ao risco em relação a muitos títulos dos “periféricos” foram os Bunds, os títulos alemães. Os juros continuaram a descer no prazo a 10 anos, fixando novo mínimo em 1,516%, tendo estado a negociar inclusive em 1,49%. É o quinto mínimo sucessivo desde 1 de maio.