Choque petrolífero


O grupo francês de prospetiva estratégica LEAP/E2020 responde sim à pergunta, considerando que se desenha uma convergência de tendências negativas. Pode ocorrer “uma série de choques violentos”. Quatro ‘bolhas’ vão rebentar – saiba quais.

O ano de 2011 pode vir a ser um ano de convergência de várias tendências negativas gerando uma situação “implacável”, diz o grupo francês de prospetiva LEAP/E2020 (Laboratoire Européen d’Anticipation Politique/Europe 2020), no seu primeiro boletim confidencial do ano.

Este ambiente negativo prende-se com o sério risco de, durante o ano, rebentarem quatro “bolhas”: a dos preços das commodities onde já se fala de vários “choques” (alimentar, petrolífero, nos minerais estratégicos); a da especulação em torno das dívidas soberanas e das obrigações do Tesouro; a do imobiliário residencial e comercial em países onde o “dinheiro quente” continua a alimentar a sua expansão; e finalmente a dos balanços dos bancos globais onde se alojam “pelo menos 50% de ativos fantasmas”.

As bolhas nos ativos financeiros e não financeiros continuam a ser alimentadas pelo nível elevado de liquidez global que é gerado pelas políticas monetárias oficiais de “alívio quantitativo” (quantitative easing, dinheiro injetado pelos bancos centrais a juros abaixo da inflação) da Reserva Federal americana, do Banco de Inglaterra e do Banco do Japão, bem como por políticas similares que continuam em vigor na Europa e nas economias emergentes, refere o boletim.

Uma convergência destas, a concretizar-se, tem uma amplitude maior do que a turbulência que ocorreu durante a crise financeira de 2007/2008 e a Grande Recessão que se seguiu em 2009. O grupo francês associa-lhe, agora, uma “guerra de divisas” larvar entre as grandes potências.

Raiva contra o sistema

“O ano de 2011 será marcado por uma série de choques violentos”, diz o grupo francês. Há muitas sociedades que estão à beira de um ataque de nervos – qualquer rastilho pode disparar a “raiva contra o sistema”.

Segundo o LEAP, esta “raiva” é visível nas sociedades que integram o que ainda é considerado Terceiro Mundo e em particular em regimes ditatoriais e autocráticos. A pressão da carestia de vida nas camadas pobres e o desemprego crónico ou impossibilidade de mobilidade social, até em segmentos com qualificações, gera uma situação insustentável. Como se viu, recentemente, na ‘Revolução de Jasmim’ na Tunísia cujo efeito de contágio se começa a observar em todo o Magrebe, com particular destaque esta semana no Egito, com movimentações populares, derrocada da Bolsa no Cairo e disparo do risco de incumprimento da dívida soberana. O LEAP sublinha que, neste caso, há a possibilidade de uma vaga varrer os “satélites do Ocidente” em termos geopolíticos.

Mas não está latente só nesse mundo mais pobre. A mesma situação ocorre nos Estados Unidos com largas camadas da população que oscilam entre a nova pobreza e a raiva política aberta e na Europa em que os cidadãos ficaram ensanduichados entre o desemprego e o desmantelamento progressivo do estado social, diz o boletim.

O mesmo mal social também abrange as economias emergentes que vivem verdadeiros dilemas. O caso que poderá ter o maior impacto na economia mundial é a China que está entalada entre a hiperinflação em produtos sensíveis e a bolha imobiliária de um lado e a necessidade de manter a economia sobreaquecida para garantir emprego e manter a sensação de sucesso, por outro.

Em todos estes países crescem assimetrias gritantes, verdadeiras “bombas relógio” em montagem.

Impotência dos grandes

Um facto político novo junta-se nesta conjuntura, diz o boletim. Depois de mais de três anos sobre o início da crise financeira, ficou patente a “impotência dos principais atores geopolíticos”. Esboroaram-se a esperança e confiança iniciais na superpotência mesmo com uma liderança renovada, na Europa, na China e no G20.
“O mundo de 2008 foi apanhado de surpresa pelo violento impacto da crise, mas, paradoxalmente, o sistema internacional estava mais bem equipado para responder, na medida em que se centrava em torno de um líder indisputável”, refere o estudo. O que contrasta com a situação atual: “Em 2011 já não é esse o caso. Não só não há mais um líder desses, como a situação se agravou pelo facto de muitas sociedades estarem à beira de uma rutura económica e social”.

O estudo refere que a História é como uma mulher sexy de banda desenhada – dá um primeiro aviso (o que aconteceu com a crise financeira de 2008) antes de dar um chuto. “Estimamos que em 2011, ela dará o chuto”, conclui com ironia.

É mais provável este ano um pânico no mercado da prata do que um novo choque petrolífero. O que poderá repetir cenas já vividas em 1979/1980. Com mudanças radicais impensáveis, diz Luís de Sousa, editor português do The Oil Drum.

Os media internacionais têm-se focalizado nas oscilações das cotações do barril de crude e no disparo dos preços na bomba de gasolina (que já atingiram novos máximos históricos como em Espanha na semana passada), bem como na alta dos preços das matérias-primas agrícolas e do impacto direto que tem tido no cabaz alimentar de largas massas da população, particularmente nos países pobres.

Contudo, para alguns analistas, o que está a ocorrer no mercado da prata deve ser seguido com particular atenção. Mesmo em termos de metais preciosos, as luzes da ribalta vão, em regra, para o ouro e a sua corrida para fixar novos máximos históricos em valor nominal. No entanto, o preço da prata, nos últimos doze meses, disparou 84%, enquanto o do ouro subiu menos de 30%.

A própria relação do preço do grama de ouro com o grama de prata “melhorou” a favor deste último metal precioso. De mais de 80 vezes para menos de 49, nos últimos três anos. A relação mais favorável para a prata, nos últimos trinta anos, ocorreu no começo dos anos 1980 quando o grama de ouro valia apenas 32 vezes o grama de prata, mesmo assim muito acima da “média histórica” de 15 gramas de prata para 1 grama de ouro.

A onça de prata subiu de 18 dólares no início do ano passado para quase 31 no final do ano e, agora, está abaixo de 27,5 dólares, depois de uma correção durante estas semanas de janeiro. Mesmo no final de 2010 estava longe do valor alcançado em janeiro de 1980 quanto atingiu os 48,70 dólares na sequência de um pânico nos mercados.

O cenário de 1979/1980

Para muitos analistas a tendência especulativa não vai abrandar. Para Luís de Sousa, editor português do The Oil Drum, poderá mesmo ocorrer um “pânico” a iniciar no mercado da prata, que conduza a um disparo extraordinário dos preços nos metais preciosos e depois, por arrasto, em todas as commodities. Algo similar ao que ocorreu no mercado da prata e depois do ouro em finais de 1979 e em 1980 e que, por razões geopolíticas da altura (ataque do Iraque ao Irão em setembro de 1980), acabou por convergir com um dos choques petrolíferos.

Segundo este especialista, “um primeiro aviso sério deu-se em abril de 2010, justamente nas semanas que se seguiram ao anúncio da criação da Facilidade Europeia de Estabilização Financeira, quando o bulhão da prata se esgotou no centro da Europa e muitos retalhistas colocaram limites às encomendas, impedindo o acesso à maioria dos investidores”.

Na realidade, sublinha o especialista português, o stock industrial de prata é extremamente baixo, o equivalente a um ano de extração – trata-se de um mercado profundamente distinto do mercado do ouro. Pelo que a oferta não está a responder à procura, e tem dificuldade em fazê-lo. “Ao contrário do que poderá estar a acontecer com outras commodities, o avanço do preço da prata tem sido causado unicamente pelo mercado físico do bulhão a retalho. Isto nota-se na pequena dimensão do mercado de títulos (futuros) quando comparado com outras commodities; o valor dos futuros abertos na prata é menos de um terço daquele no mercado do ouro. Mas tal torna-se sobretudo aparente na enorme diferença entre os valores do retalho e do mercado grossista, um fosso que hoje se situa em torno de 20%. Nos períodos em que o mercado de títulos grossista corrige em baixa, normalmente o preço do retalho mantém-se, alargando assim esta margem, num claro sinal de força da procura”.

Gatilho para mudança radical

Também o analista e investidor americano James Turk, editor do Free Gold Money Report, referiu esta semana o mesmo fenómeno atual de backwardation neste mercado da prata: “Quando isto acontece, o preço no mercado spot [para uma entrega próxima] é mais alto do que o preço no mercado de futuros [para uma entrega em data mais distante]. Isto acontece muito raramente no mercado de metais preciosos. Ora quando isto sucede, o preço tem de subir até ao ponto em que os detentores de metal físico se sentem ‘seduzidos’ para vender o metal e aceitar uma divisa nacional em troca”. Turk refere que o efeito desta situação “anómala” no mercado da prata poderá ser um evento disruptivo eminente – ele fala mesmo que “quando algo similar no passado aconteceu, o preço da prata disparou 40% em poucas semanas”.

No caso de um pânico deste tipo, os bancos centrais terão de intervir radicalmente. Mas os analistas não arriscam que políticas, então, poderão ser tomadas. “O pânico de 1980 foi um evento fraturante que provocou enormes mudanças, tanto económicas como geopolíticas. Os acontecimentos de 1979/1980 foram o gatilho de um processo de transição para um novo sistema económico e monetário”, conclui Luís de Sousa.

Entrevista curta com James Turk

«Daqui a 3 ou 4 anos creio que a relação entre o ouro e a prata estará abaixo dos 20»

P: A comunicação social está muito focalizada nas oscilações de preços no petróleo e no risco de explosões sociais derivadas do disparo dos preços alimentares. O risco no mercado da prata é mais grave?
R: Apesar de eu referir o risco de um evento no mercado da prata, o disparo nos preços alimentares é mais importante.

P: Relativamente ao pânico no mercado da prata, tem-no apontado como algo que pode ocorrer “em algumas semanas”. Tem na ideia o que aconteceu muito rapidamente em 1979 e 1980 e que afetou a economia global?
R: Sim. É exatamente o que eu penso. A inflação surge primeiro nos preços das commodities e depois como que fura para toda a economia. O enorme salto dos preços alimentares significa que há muita inflação a caminho.

P: Que consequências podem derivar desse pânico na prata?
R: Mais gente trocará divisas nacionais por commodities e outros ativos fortes.

P: A relação entre o ouro e a prata poderá regressar aos níveis médios históricos?
R: Daqui a 3 ou 4 anos creio que a relação entre o ouro e a prata estará abaixo dos 20 – ou seja 20 gramas de prata para 1 grama de ouro – e próximo da sua média histórica de 17.

Os assaltos quase diários a joalharias, o roubo de cobre por vezes em condições de risco iminente de vida e mesmo o roubo de vagões de milho, por exemplo, no México, são um sinal do aquecimento dos mercados destas mercadorias transacionadas em bolsas que têm empurrado os preços para uma alta nos últimos doze meses.

São três das commodities que a Morgan Stanley escolheu para o TOP 5 das mercadorias que vão estar em foco nas decisões dos investidores em 2011.

A lista começa pelo crude – considerada a mais “quente” pois há alguns analistas que apostam na repetição do padrão de disparo de preços de 2008, o que poderá não ocorrer -, e segue para o milho, soja (que alimenta a indústria do biodisel e os setores do óleo vegetal e das rações para animais), ouro (o mediático “valor de refúgio”) e o cobre.

Se olharmos à evolução, segundo dados da TradingEconomics, os principais disparos de preços foram em relação aos doze meses anteriores: algodão (91,55%), prata (83,91%, uma ebulição ainda maior do que no ouro, só que valendo por grama 48 vezes menos), café (76,90%), milho (42,71%), soja (37%), cobre (33,64%), trigo (31,72%), ouro (29,67%) e platina (29,04%).

Devido ao excesso global de liquidez, a financeirização destes mercados de commodities, e a especulação que daí advém em mercadorias de “papel”, é uma realidade a par das oscilações no mercado de oferta e procura, condicionado por variações na produção (como o pico de produção já atingido em certos casos), exportação (restrições) e consumo (comportamento sobretudo das economias emergentes), fatores climáticos (como secas e cheias, como observámos na Rússia e no Canadá no ano passado, e estamos a observar na Austrália agora com impacto mineiro), acidentes técnicos e eventos geopolíticos inesperados.

Se a especulação financeira e os ganhos para os países exportadores destas mercadorias são uma das faces da moeda, a outra é o aumento do crime em direcção às mercadorias ou às suas aplicações industriais, o empobrecimento de largas camadas da população (sobretudo pelo efeito do cabaz alimentar), em particular nos países mais pobres, e o encarecimento da fatura de muitos sectores empresariais com o risco de revoltas populares e setoriais e disrupções políticas.

Pela primeira vez desde final de outubro que os juros implícitos da dívida soberana não desciam abaixo dos 6%. O risco de default continua, também, em baixa em relação ao fecho de ontem.

As yields (taxas de remuneração da dívida que funcionam como juros implícitos no mercado secundário) para as Obrigações do Tesouro a 10 anos desceram, hoje, de manhã, abaixo do patamar dos 6%, pela primeira vez desde final de outubro, quando se começou a assistir ao disparo destes juros que chegaram acima dos 7% durante vários dias em novembro.

Os juros implícitos estão, de momento, nos 5,87%, segundo dados da Bloomberg, e a probabilidade de default (incumprimento da dívida) num horizonte até 2015 ronda os 31%, seis pontos percentuais abaixo do nível em que se encontrava no começo da semana, segundo dados do monitor da CMA DataVision.

O “bombeiro” de Frankfurt

Ainda que o risco não tenha subido, continua, no entanto, no patamar em que se fixou, ontem, depois das notícias de “alívio” vindas de Frankfurt de que o Banco Central Europeu (BCE) continuaria com os seus mecanismos extraordinários para financiar a banca europeia e para prosseguir, discretamente, no mercado secundário a aquisição de títulos de dívida soberana dos países mais aflitos da zona euro.

Segundo a agência Eurointelligence, à mesma hora em que o presidente do BCE falava aos jornalistas em Frankfurt, operadores no mercado secundário teriam colocado, em nome do sistema de bancos centrais europeus, grandes ordens de compra de dívida portuguesa e irlandesa na ordem dos €100 mil milhões de euros, um número gordo, superior ao total de compras feitas desde 9 de maio, que totalizaria os €67 mil milhões.

Fruto desse movimento de baixa, Portugal desceu do 5º lugar no TOP 10 mundial do risco de default, em que estava na segunda-feira, para 7º, a Irlanda desceu de 3º para 5º e a Espanha conseguiu sair hoje desse “clube”, onde andou durante a semana entre o 9º e o 10º lugar.

As yields no caso dos títulos a 10 anos desses dois países estão, também, a acompanhar a baixa. A Irlanda continua com juros abaixo dos 9% e a Espanha desceu do patamar dos 5%.

O índice iTraxx Europe Crossover – que dá uma ideia da “temperatura” da situação das empresas – para dívida a 10 anos baixou de 477,13 pontos base dia 1 de dezembro para 450,27 pontos base esta manhã. O que dá uma ideia do desanuviamento em curso.

Elevada incerteza no ouro e nas matérias-primas

No entretanto, parafraseando a expressão usada pelo BCE para caracterizar a economia no próximo ano, a “elevada incerteza” continua a fazer das suas. O ouro ontem quase alcançou, de novo, no valor de fecho, no mercado spot, os 1400 dólares por onça. Durante o dia ultrapassou esse patamar, mas acabou por fechar nos 1384,82 dólares. O anterior máximo de fecho, no mercado spot, está em 1409,48 dólares, atingido a 8 de novembro.

Além deste sintoma de desconfiança internacional sobre o andamento da economia mundial, o preço do barril de petróleo, da variedade Brent (que serve de referência na Europa), subiu acima dos 90 dólares, pela primeira vez desde a última semana de setembro de 2008.

No entanto, a inflação importada via disparo do preço das commodities não está a ser alimentada pelo crude (que em termos de variação anual até à data é ainda inferior a 1% no caso do Brent), mas por matérias-primas, como o algodão (que já subiu mais de 57%), pelo café (mais de 46%), pelo açúcar (mais de 26%), pelos cereais (mais de 25%), pelo cobre (cerca de 19%) e pela soja (quase 18%).

AS DECISÕES DO BCE (2 de dezembro)

Em conferência de imprensa, a partir de Frankfurt, Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, ladeado por Vitor Constâncio, vice-presidente, anunciou a manutenção da estratégia que tem sido seguida desde a crise da zona euro no princípio de maio.

O Conselho dos 22 governadores dos bancos centrais decidiu manter o consenso em três pontos capitais:
- não aumentar as taxas de juro diretoras; a taxa de juro aplicável às operações principais de refinanciamento mantém-se, desde maio de 2009, em 1% (claramente abaixo da previsão de inflação para 2010 que o BCE define numa banda entra 1,5% e 1,7%), a taxa de juro aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez permanece em 1,75% e a taxa de juro para a facilidade permanente de depósito continua em 0,25%;
- manter as suas operações de refinanciamento principais e especiais, até, pelo menos, 12 de Abril de 2011;
- prosseguir as suas operações de refinanciamento de longo prazo com datas para 26 de janeiro, 23 de fevereiro e 30 de março do próximo ano.

Estas medidas foram interpretadas como mantendo a boia de salvação para o sistema bancário europeu.
Sem entrar em detalhes, Trichet explicou, de viva voz, que o programa temporário de aquisição de dívida pública lançado em 9 de maio ao abrigo do Securities Markets Programme “segue o seu curso”. Desde aquela data, este programa já permitiu a aquisição de títulos de dívida soberana europeia num total de €67 mil milhões. Só na passada semana, teriam sido adquiridos 1,3 mil milhões, o dobro em relação a semanas anteriores. Este tipo de atuação mantém-se “discreto”.

Estranhas frases de prospectiva

Segundo o BCE o problema da inflação no médio-prazo continua “contido”, mas no campo macroeconómico mantém-se “uma incerteza elevada” e uma pressão negativa por duas vias: uma “relacionada com tensões em alguns segmentos dos mercados financeiros” com impacto em toda a economia da zona euro e outra através de inflação importada através do aumento dos preços de commodities (como o petróleo) ou do efeito de “pressões protecionistas e da possibilidade de uma correção desordenada dos desequilíbrios globais“.

O BCE insistiu, ainda, no prosseguimento pelos governos da zona euro em reformas estruturais, a par das estratégias de consolidação plurianuais. “Muitas reformas são particularmente necessárias naqueles países que sofreram uma perda de competitividade e que estão a sofrer de défices orçamentais e externos elevados”, prossegue a Nota Introdutória lida por Trichet, que aponta a necessidade de atuar sobre “a rigidez do mercado de trabalho” e de melhorar a competitividade do setor de serviços. Como cereja no topo do bolo, o BCE pretende que “todas estas reformas sejam suportadas por uma re-estruturação apropriada do setor bancário”.

Há uma ideia generalizada na comunidade científica independente que o máximo de produção global anual do crude já foi atingido. Entrámos num “planalto oscilante”, diz o especialista português Luís de Sousa.

Versão disponível em inglês.

O “pico” do petróleo deixou de ser um tema fraturante. As projeções sobre o ano ou quinquénio ou década em que a produção global de crude começaria a declinar “já fazem parte da História”, sublinha Luís de Sousa, membro da ASPO-Portugal (Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás) e colaborador do blogue The Oil Drum, em declarações ao Expresso. “Há uma ideia generalizada de que já se está a viver esse período de pico. Prevê-lo já não é relevante”, acrescenta.

Segundo este especialista, a esmagadora maioria dos principais modelos matemáticos e contabilísticos de produção do petróleo usados por entidades independentes da indústria petrolífera apontam para um máximo num intervalo de cerca de uma década centrado entre 2008 e 2010, num intervalo de produção entre 78 e 85 milhões de barris diários.

Luís de Sousa sublinha que “desde 2005, a produção mundial de líquidos fósseis tem-se situado entre 80 e 82 milhões de barris por dia em clara consonância com aqueles modelos”, mas aquele patamar “tem sido assegurado pelo aumento dos líquidos associados ao gás natural, estando a produção do crude propriamente dito em quebra desde esse ano”.

Diplomacia do petróleo

No entanto, o “pico” voltou, agora, à ribalta por causa de um relatório secreto do grupo de estudos futuristas do Centro alemão para a Transformação das Forças Armadas, um think tank militar que trabalha para o Ministério da Defesa de Berlim. O estudo prospetivo a 30 anos foi divulgado pelo jornal Der Spiegel e provocou consternação nos menos habituados ao tema e às suas implicações geopolíticas, particularmente para a Europa.

O relatório tem uma nota de alarme: “a escassez vai afetar toda a gente” e “aumentos do preço do crude colocam um risco sistémico, não só para os sistemas de transporte, mas igualmente para todos os outros subsistemas”. E deixou um recado: “É vital assegurar o acesso ao petróleo”, pois num horizonte até 2040 vamos assistir a “uma mudança no panorama da segurança internacional com novos riscos – como o do transporte dos combustíveis – e novos atores num possível conflito em torno da distribuição de um recurso crescentemente escasso”.

O relatório alemão conclui que “o mercado livre, de oferta e procura, do crude deverá reduzir-se” e que a diplomacia do petróleo vai disparar face à sua geopolitização.

Planalto ondulante

A escassez crescente de que falam os alemães está ligada a “uma quase rigidez no aumento da produção, que se fixou em uma banda de variação que se formou desde 2004”, sublinha Luís de Sousa. Essa “banda” de variação é, por muitos especialistas, designada, com alguma piada, por “planalto ondulante”. Ou seja, nesse planalto, as variações de produção oscilam, como uma onda, de ano para ano, independentemente das variações de preços. A crise atual, cujo fim continua a gerar polémica, “irá provavelmente prolongar este período ondulante, achatando um pouco o que, de outro modo, seria um pico proeminente”.

Mais importante do que o próprio pico ou planalto de produção é o volume de petróleo disponível no mercado internacional, ou seja o que é comercializado depois do consumo pelos produtores. “O máximo foi atingido em 2005, com 44 milhões de barris diários (mbd), registando-se, desde então, uma queda lenta, mas irreversível”, diz o especialista da ASPO. Atualmente está nos 42 mbd e em 2020 deverá ser inferior a 35 mbd. Luís de Sousa acrescenta, ainda, que na disputa por esse petróleo disponível nos mercados internacionais vai fazer sentir-se “a transferência de consumo dos países que formam a OCDE [países desenvolvidos] para os emergentes – se em 1990, metade do petróleo produzido era consumido na OCDE, hoje essa fração é de cerca de 1/3”. O mercado mundial sofreu uma reviravolta.

Esta situação “estrutural”, de longo prazo, derivada da tendencial escassez desta commodity e do crescimento dos riscos geopolíticos (inclusive o de navegação nos estreitos estratégicos por todo o mundo) é agravada, nos últimos anos, pelo que se designou por ‘financeirização’ do mercado de futuros do crude, com a entrada dos especuladores financeiros alcunhados de “refinadores de Wall Street” que compram e vendem “barris de papel”, criando uma perturbação adicional nos preços do mercado com oscilações, por vezes, “selvagens”.

Sofrimento para os dependentes

Um dos grupos, na OCDE, que mais vai sofrer com a contração do petróleo disponível, é o formado pelos mais dependentes desta energia no seu mix energético, sublinha Luís de Sousa. “Há que notar um detalhe – os países com maiores dificuldades vão ser precisamente os designados PIIGS, que têm uma dependência superior a 45%, com destaque para a Grécia, com 58%, Irlanda e Portugal com 55%, Espanha com 48% e Itália com 46%, face a uma União Europeia com uma média de 37%. Se juntarmos os quatro países que têm uma dependência superior à média europeia mas abaixo dos 45%, ficamos com um mapa completo da zona de maior impacto do “planalto ondulante”, onde há que adicionar aos PIIGS, a Áustria (44%), Holanda (42%), Bélgica (41%) e Dinamarca (39%).

O ponto fraco dos cinco países mais vulneráveis da zona euro (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália) é o setor do transporte, particularmente o rodoviário “derivado da localização geográfica, de planeamento urbano e nacional inapropriado, ou de ambas as causas”, diz Luís de Sousa. A promoção das opções marítima e ferroviária é sublinhada por este especialista, não bastando a modernização da infraestrutura elétrica ou a promoção de outras fontes de energia.

HISTÓRICO
O comportamento do Brent em 2010

A variedade de referência na Europa do crude é designada por Brent. Devido à desvalorização do dólar desde junho (11,3% face ao euro, e 7,3% só durante o mês de setembro), o preço do barril de Brent voltou a valores acima dos 80 dólares desde 29 de setembro, e encontra-se já acima da média dos primeiros nove meses de 2010, que se situa nos 78,27 dólares. O mês de outubro abriu com o Brent cotando-se nos 83,40 dólares, uma subida diária de mais de 2%.

O ano tem assistido a variações, por vezes “selvagens”, do preço do barril, dentro de uma banda entre um máximo de 94 dólares e um mínimo de 68 dólares, ambos em maio. O mês com a média mais baixa foi maio, com 74,12 dólares por barril de Brent, e o mês com a média mais alta foi o imediatamente anterior, abril, com 84,58 dólares, o que revela bem a amplitude das variações e o impacto aos ziguezagues nos orçamentos dos exportadores petrolíferos e na balança comercial nos dependentes crónicos do crude.

O preço do barril de Brent está, no entanto, ainda muito longe do máximo ocorrido em junho de 2008 quando atingiu uma média mensal de 134,02. Entre março e setembro de 2008 o Brent cotou-se mensalmente acima de 100 dólares por barril, tendo quebrado, depois do desencadear do pânico financeiro a seguir à falência do Lehman Brothers e do início da Grande Recessão, para 76,72 dólares em outubro, 57,44 em novembro e 42,04 em dezembro daquele ano. Atingiu um mínimo de 39,26 em fevereiro de 2009 no auge da quebra do produto mundial e do comércio internacional. No último trimestre de 2009 já havia regressado a cotações mensais acima de 75 dólares.

Este verão parece estar a incendiar, de novo, os preços de algumas commodities (mercadorias). Nada que se compare com a loucura do verão de 2008, mas os analistas destes mercados registam uma sucessão, novamente, de disparos de preços, sobretudo em algumas matérias-primas alimentares e metais industriais.

A tendência altista mais assinalável – mas mediaticamente menos falada – sucede no algodão e no café. Os contratos de futuros destas duas commodities estão, neste mês de Agosto, a atingir picos históricos em média mensal, valores que não se verificaram nem no Verão quente de 2008, aquando do choque inflacionário de preços. O algodão já aumentou 43% em relação a igual período do ano passado e o café mais de 24%.

[Pode seguir este mercado de commodities com base num painel global aqui]

Agroflação no horizonte?

O caso mais mediático é, no entanto, o do trigo – desde Julho que está em alta contínua, mas longe do preço atingido no pico em Março de 2008. O preço dos contratos de futuros disparou na Europa na semana passada, devido ao impacto de fenómenos extremos climáticos que afectaram as searas no Canadá (chuvadas torrenciais) e na Rússia (seca extrema, impacto dos incêndios e decisão do governo russo de fechar as exportações a partir de 15 de Agosto). O valor actual está acima da média mensal de 2008/2010 e o aumento em relação a igual período do ano passado é de quase 25%.

No entanto em 2010, já se assistiu a outros disparos. O preço do açúcar atingiu o seu pico histórico em Janeiro, mas, agora, o preço está abaixo dos valores de Dezembro de 2009. No entanto, este mês, já subiu mais de 12%. O cacau esteve, ultimamente, também, muito mediatizado, em virtude das operações no London International Financial Futures and Options Exchange (Liffe, uma divisão do NYSE Euronext) por parte de Anthony Ward do hedge fund Armajaro Asset Management LLP. Ward é conhecido pela alcunha de Mr. Chocfinger (gesto com o dedo médio). No entanto, o pico do preço dos contratos de futuros do cacau foi em Dezembro de 2009 e Janeiro de 2010, e não agora.

O cobre também está em alta, ainda que longe do pico em Julho de 2008. Já aumentou 22% em relação a igual período do ano passado e 11% já durante este mês. O preço actual dos contratos de futuro deste metal industrial está acima da média mensal de 2008 a 2010. Juntamente com o trigo, o açúcar e a soja, são as quatro commodities com maior crescimento nos últimos trinta dias.

O melhor indicador para avaliar a temperatura do que está a ocorrer nas matérias-primas agrícolas é o índice de preços alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que disparou para 163 pontos em Junho, apenas 28 pontos abaixo do pico no Verão louco de 2008. Vários analistas já falam de “agroflação”, como vector fundamental de inflação com impacto nos custos de clusters alimentares e industriais fundamentais. Pão, café e cacau vão afectar a nossa mesa.

Finalmente, o preço do barril de petróleo voltou a situar-se acima dos 80 dólares nos contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros de commodities do mundo) e a média dos primeiros sete meses deste ano é já superior em 12% ao preço médio do ano anterior. Está, no entanto, ainda abaixo da média mensal entre 2008/2010 e tem revelado ultimamente oscilações muito pronunciadas -”oscilações selvagens”, assim designadas por alguns analistas – acima de 1%, com subidas seguidas de descidas, e vice-versa.

O Verão quente de 2008

O modelo extremado deste “choque” de preços ocorreu em Junho e Julho de há dois anos, antes do pânico financeiro que agravou a recessão. Recorde-se que o preço do barril de crude subiu acima dos 145 dólares, o arroz duplicou em menos de cinco meses e o cacau e a soja atingiram os seus máximos históricos.

A razão desta “anomalia” provocou – e ainda provoca – um debate animado entre os analistas e o mundo académico sobre as suas causas, depois de um interregno de “choques” durante mais de vinte anos. Essa “grande moderação” foi, subitamente, interrompida a partir de 2003. Os preços nominais das commodities ligadas à energia e aos metais aumentaram 230% até 2008; os preços das matérias-primas alimentares duplicaram.

As razões “estruturais” surgem logo à cabeça. O chamado pico do petróleo (ponto a partir do qual o crescimento da produção e da oferta mundial do crude desacelera) justificaria o novo choque petrolífero. As mudanças climáticas, com fenómenos extremos, provocam perdas substanciais na agricultura provocando uma segunda onda de choques nos preços das matérias-primas alimentares. O crescimento espectacular das economias emergentes e particularmente a voracidade da China por todo o tipo de commodities explicaria a fortíssima pressão pelo lado da procura mundial incendiando os preços. A mudança da dieta alimentar e a desertificação do mundo rural são, também, factores com efeito assinalável. A que se junta, finalmente, a geopolítica – a turbulência em regiões produtoras ou de importância logística para as commodities repercute-se imediatamente no estado de espírito dos investidores em futuros e dos compradores de mercadorias e matérias-primas.

O factor novo

Mas um estudo econométrico de John Baffes, economista sénior do Banco Mundial, e de Tassos Haniotis, alto funcionário da Direcção Geral para a Agricultura da Comissão Europeia, publicado na semana passada, veio chamar a atenção para factores “não tradicionais”.

Baffes e Haniotis avaliaram o papel desempenhado ultimamente por dois “isqueiros” da loucura dos preços das matérias-primas: a especulação financeira em todo o tipo de mercadorias e o “desvio” de produção agrícola para alimentar o sector dos biocombustíveis.

“O desvio provocado pela política em torno dos biocombustíveis desempenhou algum papel na alta de preços, mas muito inferior àquele que se pensou inicialmente”, referem os dois especialistas. No entanto, quanto ao caso da especulação financeira em commodities, eles julgam que este “novo factor” dos anos 2000 veio para ficar. “Tem um carácter permanente”, disse-nos John Baffes, que está em missão na Indonésia.

“A financeirização do mundo das matérias-primas foi o factor dominante no que sucedeu entre 2006 e 2008”, prossegue Baffes na entrevista que concedeu a partir da Indonésia, onde está em missão do Banco Mundial.

E juntou-lhe mais dois “detalhes” (ver entrevista rápida a John Baffes; a entrevista completa pode ser lida aqui no original em inglês) que vão marcar o comportamento do preço das matérias-primas nos próximos tempos: o cordão umbilical que as liga entre si, provocando reacções em cadeia nos preços, e a tendência para o acentuar das oscilações de preços.

O que complica o planeamento dos agentes económicos e a política dos governos.

ENTREVISTA RÁPIDA a JOHN BAFFES

P: A financeirização tomou conta também do mercado das matérias-primas nos últimos anos?
R: Talvez tenha sido o factor dominante. Creio ter sido o factor “novo” entre todos os que afectam os preços e que são conhecidos. Sem dúvida, que as tendências são basicamente afectadas pela procura e pela oferta, e sobretudo pela tecnologia e pelos níveis de vida. Mas o facto de as matérias-primas terem passado a ser usadas como veículos financeiros afectou algo essencial – a variação dos preços.

P: Essa variação – por vezes mesmo visível em oscilações ‘selvagens’ nos preços dentro de uma mesma semana – vai ser a tónica dominante do futuro?
R: Todas as evidências que recolhi no estudo realizado com Tassios Haniotis apontam para o facto de que as matérias-primas entraram num período de maior variação dos preços.

P: Os diversos grupos de matérias-primas estão hoje em dia profundamente interligados? Pode dizer-se que formam um ecossistema em termos de comportamento dos preços?
R: Esse é um ponto fundamental da investigação e do estudo que publicámos. Há ligações estreitas, óbvias, entre o grupo das matérias-primas energéticas e das alimentares. Além disso, à medida que o nível de vida aumente nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes será de esperar uma sincronia entre os preços de todas as matérias-primas baseadas em recursos (por exemplo, energia e metais).

Não é esperado em 2010 um disparo similar ao que ocorreu em 2008, quando o barril de petróleo atingiu o seu máximo nominal histórico. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o preço médio do barril de crude deverá situar-se abaixo dos 80 dólares (mais precisamente 76 dólares), segundo a actualização realizada na terça-feira às principais projecções macroeconómicas do World Economic Outlook.

Ainda que signifique um aumento de 22,6% em relação ao preço médio de 2009 (que se situou nos 62 dólares), alguma volatilidade esperada para o ano em curso não deverá retirar o preço médio desta commodity estratégica do patamar dos 70-80 dólares, em que se tem movido este primeiro mês do novo ano. O FMI estima que o preço médio do barril do ouro negro continue a subir em 2011, ainda que moderadamente, para um patamar de 82 dólares, um acréscimo de 7,9% em relação a 2010.

A moderação do cenário de aumento do preço médio do crude deriva da cautela das projecções do FMI para o crescimento mundial, que é estimado crescer 3,9% em 2010, um pouco mais do que em 2008. A cautela sobre esta retoma mundial deriva do facto do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ser ainda muito moderado nos países desenvolvidos, onde não se espera que ultrapasse os 2,9%, com crescimentos mais baixos que a média no caso dos EUA (2,5%) e mesmo medíocre no caso da Zona Euro (1%). Além disso, há o efeito de eficiência energética que continua a actuar nestes países.

O actual crescimento da economia mundial está a ser alimentado, desde os anos 2000, pela dinâmica de crescimento dos países emergentes de médio rendimento, cujo crescimento médio anual se espera aproximar do que ocorreu em 2008, ou seja no patamar dos 6%. A China deverá crescer em 2010 na ordem dos 10%, quatro décimas mais do que em 2008 e 1,3 pontos percentuais mais do que em 2009.

Segundo as projecções do FMI, o efeito desta dinâmica dos emergentes não gerará, contudo, um novo choque petrolífero: “Esta pressão em alta [no preço das matérias-primas] espera-se que seja modesta, em virtude dos níveis de stock acima da média e de existir uma capacidade excedentária substancial em muitos sectores de commodities”.

Recorde-se que, apesar do aumento do preço do barril de crude entre 31/12/2008 e 31/12/2009 na ordem dos 85% para a variedade Brent (de referência na Europa) e 78% para o WTI norte-americano, o preço médio sofreu uma descida de 36% em relação ao efeito do choque petrolífero nos preços ocorrido durante meados de 2008, quando o preço médio subiu 36% em relação a 2007.

(Publicado originalmente no blogue ‘A Regra do Jogo’, revisto)

Confesso que prefiro folhear o sumário, sentir o macio ou o áspero das páginas, ler algumas de trás para a frente, ir ao índice ver algumas palavras-chave e rapidamente ter um cheiro do que o autor diz.

Não desprezo a Amazon.com, bem pelo contrário sou um viciado sobretudo na procura de livros esgotados nas livrarias, aqueles que nem nas editoras já se encontram exemplares estragados nos armazéns, mas que se descobrem, por vezes a preço de pechincha, mais ou menos usados, nos revendedores associados da loja global de Jeff Bezzos, um tipo com umas sonoras gargalhadas, quando o entrevistei nos idos 1990.

Mas a minha costela tradicionalista em matéria de papel empurra-me sempre para alguma peregrinação por livrarias à antiga, onde, também, em regra encontramos livros de décadas mais remotas do século XX. É o caso da do nº36, que aqui se tem de soletrar como thirty-six. Não na variante do inglês de Shakespeare, mas de Beckett, Joyce, Yeats, Shaw e Wilde, entre os dubliners mais famosos.

O 36 é um prédio oitocentista que fica no cruzamento com mais línguas faladas por metro quadrado de Dublin e entre o conhecimento (o Trinity College) à direita e a finança (o Banco de Irlanda) em frente. Da rua subimos uma leva de escadas estreitas e entramos numa loja pouco mais larga em que a mesa ao centro com as novidades (não quer dizer que sejam edições recentes, mas escolhas do livreiro com preços convidativos) só permite que haja uma pessoa de cada lado. Ao rebuscar nas prateleiras, arriscamo-nos a dar uma cotovelada em quem está atrás, dizer sorry, sorry atabalhoadamente e apanhar alguns livros do chão.

A velha livraria tem um nome bem singelo – apenas Books Usptairs (o que é totalmente verdade), e vem no guia turístico como tendo verdadeiras pechinchas em obras de qualidade. Faz parte do meu ritual quando vou à capital irlandesa. Pode calhar por lá andar algum poeta, dramaturgo ou novelista dublinense, mas confesso que nunca dei encontrão em nenhum.

Um livrinho rápido de ler

Desta vez, ao olhar para o placard de recortes de jornais dou com um bem grande, ainda não muito amarelecido, sobre recensões de livros recentes a respeito de Keynes, de seu nome completo John Maynard Keynes (1883-1946), o célebre economista inglês que morreu ao terceiro ataque cardíaco no já distante ano de 1946, mas que, hoje, está na berra como se assistisse ao G20 integrado na delegação inglesa e rivalizasse com Obama na oratória.

Escreveu-se sobre ele abundantemente, mas sobressaem, naturalmente, as biografias. As clássicas envolvem uma de 1951, escrita por Roy Harrod. O livreiro me informa que vendeu uns últimos exemplares em paperback da edição de 1983, mas que ainda encontramos em livros usados na Amazon. É um livro denso, de mais de 800 páginas. Há, depois, as obras de referência do biógrafo oficial de Keynes – é uma trilogia assinada por Lorde Robert Skidelsky (que entrevistei recentemente a propósito da sua última obra, The Return of the Master), material já para especialistas. Há, ainda, o livro de ensaios de reflexão teórica de Hyman Minsky sobre o que é, na verdade, o keynesianismo, publicado em 1975, com o nome completo de Keynes como título.

Perguntei ao livreiro se teria algo rápido de se ler, quase como romance. Ele correu para uma das prateleiras mais escondidas, remexeu e trouxe-me Keynes, de Robert Cord, um ex-economista da Dun & Bradstreet apaixonado pelo mestre de Cambridge e pelo seu grupo boémio londrino, de Bloomsbury.

É um livrinho recente, de 2007, de menos de 15 x 20 cm, com apenas 130 páginas de texto narrativo da vida de Maynard, como o tratavam os mais chegados – e, claro, no nº36 custa menos de 9 euros em novo. Lê-se em duas noites depois de um recession menu (uma invenção dublinense para se comer mais barato em tempos de Grande Recessão) regado com umas Guinness num dos locais sagrados de Temple Bar.

Cord consegue percorrer a vida do mais afamado economista inglês do século XX salientando dois pontos que, por vezes, são menos focados por quem quer dar de Keynes uma imagem de receituário despesista: o processo evolutivo do seu pensamento e do seu percurso, e o enquadramento geopolítico que, sempre, estava presente na sua genial mente.

Duas razões de actualidade

Maynard, se as cinzas dele me permitem a intimidade, não é só actual pela célebre polémica entre 1931 e 1932 nas páginas das revistas Economica e Economic Journal contra o austríaco Friedrich von Hayek, então a dar umas palestras na London School of Economics. Discordavam sobre a política anticrise economica e monetária a seguir face à Grande Depressão então em curso (1931 e 1932 seriam, aliás, os piores anos de quebra mundial do produto e do comércio internacional).

O debate entre os dois – anterior a Keynes ter escrito o seu The General Theory (1936) e muito antes de Hayek ter escrito a sua obra-prima The Road to Serfdom (1944) – ainda hoje gera polémica e visões bem distintas.

Maynard é, também, profundamente actual pelo seu papel nas negociações de Bretton Woods, nos anos 1940, ao ter sugerido uma divisa internacional de reserva, o «bancor», que evitaria prender o mundo quer aos humores da libra (então em franco colapso) e do império britânico (em total declínio como superpotência) como aos do dólar americano e da nova superpotência triunfante (os Estados Unidos).

Como me referiu Colin Danby, da Universidade de Washington, em entrevista recente que me concedeu, esta dimensão é um dos aspectos “esquecidos” sobre Keynes: “Esse esquecimento deve-se, em parte, a ele ser famoso pela sua Teoria Geral, que procede a uma abstracção em relação à economia global. Mas, a meu ver, ele era muito mais um pensador político e histórico – isso pode ser, logo, observado em 1919 no seu livro as Consequências Económicas da Paz. Mas esta obra não se encaixava muito no que genericamente é entendido como ‘economia’”.

Keynes foi derrotado, dessa vez, nos anos 1940, pela geopolítica (os EUA falavam mais alto) e há quem diga, também, pela doença, pois sofreria um segundo ataque cardíaco ao subir demasiado rápido umas escadas no Mount Washington Hotel em Bretton Woods, correndo, atrasado, para uma reunião. Quem o atrasara?

A recessão de 2009 será a décima maior na história do capitalismo americano, mas está longe das Grandes Depressões dos anos 1890 e 1930. Muitos economistas americanos inclinam-se para o risco de uma recaída, apesar do ‘aquecimento’ bolsista na Wall Street

Há um ano, o fim-de-semana de 12 e 13 de Setembro ditou o curso da crise financeira nascida num canto exótico do mundo dos produtos financeiros, chamado de subprime, em Agosto de 2007. O falhanço, naquele fim-de-semana, da negociação da venda da mais do que centenária casa financeira Lehman Brothers e a falta de vontade política do secretário do Tesouro e do governador do banco central americanos em injectar o dinheiro dos contribuintes em mais um protagonista do apelidado “sistema financeiro sombra” da Wall Street de Nova Iorque, transformou a crise bancária em Grande Pânico financeiro e projectou-a globalmente.

A segunda-feira ‘negra’ de 15 de Setembro de 2008 foi o ‘momento Minsky’, como os economistas dizem, em que a mutação se deu – em que o que poderia ficar por ser mais uma “normalíssima” crise financeira, com uma derrocada bolsista moderada, atravessou a linha divisória e colocou a América à beira de um segundo 1929 (a Grande Depressão mais conhecida) ou de uma repetição da depressão de 1893/1894, menos conhecida.

Evitou-se repetir 1929

Um ano depois, o pior cenário de uma Grande Depressão ao estilo de 1929/1933 foi posto de lado. A derrocada bolsista na Wall Street parou a 9 de Março deste ano (54% de quebra em relação ao pico em 15 de Outubro de 2007, a segunda maior de sempre na história do Dow Jones) e a OCDE voltou a anunciar, a 11 de Setembro, que, tecnicamente (de acordo com o seu indicador compósito), a maioria das economias que tinham entrado em recessão se aproximaram no segundo trimestre de 2009 da “vala” (trough, em inglês; vala entre dois ciclos económicos) que poderá conduzir à retoma. Globalmente o G7 (o clube dos ‘ricos’) terá em termos trimestrais, em cadeia, decrescido, apenas, 0,1% no segundo trimestre deste ano, face a quebras significativas de 8,4% no primeiro trimestre de 2009 e 7,3% no quarto trimestre de 2008.

A economia mundial em 2009 irá decrescer apenas 1,3% segundo o FMI ou 2,7% segundo o último relatório da UNCTAD. Será o pior ano desde que a crise financeira se manifestou em meados de 2007. Mas mesmo assim estará longe dos números atingidos em outras grandes depressões. O comércio internacional deverá retroceder 10% este ano, segundo uma estimativa da Organização Mundial de Comércio, mas entre 1929 e 1932 caiu 60%.

Olhando um outro indicador do comércio internacional, podemos avaliar a contracção nesta área motivada pela recessão. Segundo dados do Institute of Shipping (ISL), de Bremen, o movimento mundial de contentores quebrou 15,7% em termos mundiais no 1º semestre de 2009 em relação ao primeiro semestre do ano passado, com uma situação mais grave nas Américas (onde caiu, em termos homólogos, 19,2%) e na Europa (quebra de 17,8%). A quebra na Ásia (14,8%) foi inferior à média global. A fonte é o Monthly Container Port Monitor do ISL.

Mas já é o 10º pior ano da América

Olhando ao caso dos EUA, o epicentro desta crise, a economia, estima-se, quebrará 3% em 2009. A ser assim, será a décima maior quebra anual de sempre do PIB em termos reais em relação ao ano anterior na história do capitalismo moderno americano desde os anos 1860.

Em termos de comparação histórica, o PIB americano quebrou, em termos reais, 13% em 1932 (um ano de recaída no percurso da Grande Depressão de 1929/1933), em 1908 (11%), em 1930 (8,6%), em 1931 (6,4%), em 1893 (5,8%), em 1894 (4,7%), em 1866 (4,6%), em 1904 (3,5%) e em 1938 (3,4%, a segunda recaída cinco anos depois da Grande Depressão de 1929/1933, um evento a que os americanos chamam de double dip).

Para o analista americano Peter Cohan o ter-se evitado a reedição de uma Grande Depressão mundial ao estilo de 1929 deveu-se à massiva intervenção das autoridades monetárias e das políticas orçamentais tanto nos países da OCDE como nos emergentes.

Paradoxalmente, os emergentes apostaram mais em intervenções keynesianas, em média na ordem dos 4% do PIB (com recordes na Arábia Saudita, com 9%, em Singapura com 8%, e na África do Sul com 7,4%), do que os países desenvolvidos (3,7% do PIB em média), segundo dados recentes da UNCTAD. O intervencionismo de base orçamental chinês é particularmente destacado, segundo a UNCTAD na ordem dos 6,2% do PIB, e segundo outros analistas estará nos 13%. Os países ‘ricos’ lideraram, no entanto, no esforço de intervenção no sector financeiro, com posições relativas recorde na Islândia e Irlanda, seguidas do Reino Unido, EUA e Suécia. Nos países emergentes, esse tipo de injecção foi negligenciável. A defesa do sistema de financeirização nos países da OCDE é particularmente crítico, como se vê.

O risco de recaída

Esta dependência, por parte dos países ‘ricos’, da morfina do dinheiro dos contribuintes dirigida a segurar um sistema financeiro em que muitas das entidades são tidas como não-confiáveis (falando claro: como insolventes ou zombie) surge como o ponto fraco, refere-nos William Thomson, presidente da Private Capital, em Hong Kong, um olhar bem distanciado da Wall Street nova-iorquina. Metade do “lixo mais tóxico” financeiro, diz-nos Thomson, ainda continua debaixo do tapete: uns 30 biliões de dólares. “A questão é saber o que acontecerá quando as injecções artificiais dos governos recuarem”, conclui.

David Kotok, director do Global Interdependence Center,uma organização sem fins lucrativos de alcance globalista, coloca o dedo na ferida. Muita gente bateu palmas porque os bancos centrais estavam actuando face a um problema de liquidez. Mas a realidade é outra: “O Tesouro americano violou as regras porque se envolveu em assuntos de insolvência. Uma coisa é atacar a falta de liquidez, outra, completamente diferente, é esbanjar dinheiro dos contribuintes em insolventes. As consequências disso ainda estarão para vir”.

Por isso são cada vez mais as vozes que falam do risco de um padrão de recaída como aconteceu em 1932 (o PIB americano voltou a quebrar dramaticamente, um afundamento de 13%, depois de ter desacelerado a quebra no ano anterior) ou de uma entrada num período de “tipo japonês” (entre 1991 e 2007, a economia nipónica não cresceu mais do que 1,9% ao ano em média), como refere Thomson. Alguns, como o historiador Michael Perelman, da California State University, adiantam que, mesmo a médio prazo, há que estar vigilante, pois há o risco de um double dip, como aconteceu em 1938, em que já depois de terminada a Grande Depressão, a recessão regressou por um ano (com uma quebra de 3,4%).

Peter Cohan sublinha que o desemprego – e em particular o aumento do desemprego de longa duração – tem em economias como a americana (cujo crescimento depende 70% do consumo) um efeito negativo suplementar. Este risco tem levado os políticos e os banqueiros centrais a uma atitude de prudência e os organismos internacionais a aconselhar a manutenção das políticas keynesianas e da ZIRP (taxas de juro próximas de zero %, no acrónimo em inglês para zero interest rates policy) monetária.

A geopolítica pode voltar a acender os preços do barril de crude, ou, pelo menos, reanimar a sua volatilidade e o risco de ‘oscilações ‘selvagens’. O analista David Kotok alerta para as implicações do dossiê nuclear do Irão, que terão um período crítico no próximo mês. Ambos os lados dispõem de armas políticas e económicas que poderão aquecer o Índico.

As autoridades do Irão já declararam que não aceitam a imposição de uma data de resposta (um deadline, em inglês) para Setembro relativamente a negociações formais multilaterais para resolver o dossiê nuclear. Com a proximidade de Setembro no calendário, os meios do petróleo estão ao rubro com a discussão se iremos assistir a algum “choque do deadline” no mercado do crude, que empurre os preços para uma escalada como a dos primeiros sete meses de 2008 (quando chegou em Julho a um preço médio mensal do barril de 132,72 dólares, um recorde histórico).

As causas imediatas, agora, seriam abertamente geopolíticas. “Desta vez, o risco geopolítico é importante no curto prazo, em virtude da inelasticidade do preço do petróleo nas decisões empresariais. Sem dúvida, que, no longo prazo, a oferta e a procura são os propulsores do preço”, afirma-nos o economista americano David Kotok, o principal consultor de investimento e co-fundador da Cumberland Advisors, que alertou, esta semana, os seus clientes para este risco.

O Irão dispõe de um meio político de pressão típico do hard power em geopolítica: a possibilidade do bloqueio do estreito de Ormuz, de apenas 54 quilómetros, na entrada do Golfo Pérsico, por onde passam 40% da logística marítima do crude e 20% do comércio mundial por mar, segundo dados da Energy Information Administration dos Estados Unidos. É um dos mais importantes chokepoints (designação técnica para estas passagens estratégicas em termos militares e de comércio internacional que Afonso de Albuquerque bem compreendeu no seu tempo quando decidiu recapturá-la definitivamente em 1515) mundiais.

“Não há nenhuma ideia clara de como o Irão se irá comportar, se provocará oscilações selvagens ou movimentos moderados no preço do petróleo. A própria situação interna está em turbulência depois das eleições. No entanto, o Irão tem um ponto fraco – é um importador líquido de produtos refinados. Essa deficiência é a arma de que dispõem os Estados Unidos e os seus aliados nesta questão. Por isso, o Irão joga com duas cartas – abre-se a inspecções, mas continua a brandir a arma do estreito”, prossegue Kotok.

Erros estratégicos são comuns

À pergunta, será que, no final das contas, o Irão jogará a cartada de Ormuz como chantagem de último recurso e defrontará inclusive os interesses das novas potências do Índico, a China e a Índia, o analista responde: “A irracionalidade é comum no Médio Oriente. Muitos regimes naquela região são capazes de erros estratégicos. Em geopolítica, erros podem suceder a qualquer momento. É, por isso, que há um prémio de risco elevado no petróleo nomeadamente”.

Uma nova retoma do choque petrolífero não seria nada agradável para as expectativas de saída da recessão mundial. O preço do barril tem oscilado (por vezes com percentagens elevadas de um dia para o outro, o que tecnicamente se designa por oscilações selvagens) no patamar dos 70-75 dólares. O aumento é de, pelo menos, 75% em relação ao preço médio em Dezembro de 2008 (39,95 dólares).

Até que ponto é que esta nova subida durante 2009 reflecte sobretudo o colapso do dólar (a divisa em que está cotada esta commodity), a retoma nos países emergentes (e particularmente por parte das importações pela China) ou a eventual antecipação pelos mercados de um problema geopolítico grave que afecte o negócio, é, ainda, uma incógnita.

A 9 de Agosto de 2007 um comunicado de imprensa, no mínimo estranho, vinha a público. O banco francês BNP Paribas comunicava ter congelado três fundos por impossibilidade de valorizar investimentos titularizados num veículo financeiro completamente desconhecido dos comuns mortais. De quem era a culpa? “Da completa evaporação da liquidez de certos segmentos do mercado de titularização americana”, dizia-se no comunicado.

Repentinamente o mundo era apanhado de surpresa por uma palavrão financeiro que emergia do escuro das salas dos corretores: sub prime. Rapidamente se tornou tema de conversa de café. Contudo o índice Dow Jones continuou impavidamente o seu frenesim altista…até que se deu, de novo, o improvável no casino: um crash bolsista a 16 de Outubro. Soube-se, depois, com o atraso de um ano, que os Estados Unidos haviam entrado, também, em recessão (contracção da economia) em Dezembro daquele ano.

O povo comum – quer os ‘capitalistas populares’ quer os outros que não vivem nem de um cêntimo de rendas financeiras – foi fazendo uma aprendizagem dolorosa ao longo de 2008: de um discurso monetarista dominante para um súbito acordar com todos os governos, a começar por Washington (então nas mãos dos republicanos), a gritar que “todos somos keynesianos” iniciando logo em Janeiro um rol de pacotes de “estímulos” para evitar o ‘risco sistémico’ (outro palavrão a que nos habituámos); de uma ainda “provável” crise global acompanhada de uma inflação galopante até Julho dos preços das commodities, a começar pela mais sensível de elas todas para a nossa vida do dia-a-dia, o petróleo, para uma crise a sério com perigo de deflação endémica; de mero crash bolsista evoluiu-se para pânico depois da falência do Lehman Brothers a 15 de Setembro e passou-se a ouvir falar de algo esquisito, credit crunch, à letra, esmagamento do crédito, em suma, redução abrupta da disponibilidade para emprestar no e pelo sistema bancário. Resultado: todo um modo de financiamento da economia financeira e da economia real ruiu.

E quando, em pleno Verão deste ano, já nos habituávamos à crise – com coisas incríveis como a falência de um estado, a Islândia, as quedas do pedestal do ‘tigre’ europeu mais endeusado, a Irlanda, ou da construtora de automóveis (esse símbolo do século XX) mais famosa do mundo, a GM, ou o eclipsar de um grupo de notáveis que mandavam no mundo (ou julgavam que mandavam), o G7 – eis que a Goldman Sachs nos vem dizer que a euforia bolsista está de volta, que o crash terminou (o segundo maior da história do Dow Jones segundo as estatísticas), e os políticos juntam a voz a animar-nos que já batemos no fundo, a recessão já passou.

Suspiremos, então, de alívio – antes que os aborrecidos dos pessimistas nos venham dizer que pode haver uma recaída económica, que a bolsa pode apenas estar a viver uma corrida repentina, e que o pior em termos de economia real (falências em série), impacto social (desemprego de longa duração) e monetário (colapso do dólar) ainda está para se sentir.

Mas antes que tudo passe sem termos tempo para parar para pensar, convirá, neste aniversário, alinhar três primeiras hipóteses de conclusões sobre estes dois anos.

1- A vingança do mercado sobre a teoria da “grande moderação”

Durante vinte anos os teóricos da economia convenceram-nos que vivíamos num “mercado eficiente” (de qualquer modo, tinham-lhe colado a etiqueta de “hipótese”—no economês técnico, Efficient market hipothesis) e os práticos – os banqueiros centrais e os governantes – brincaram com a “fantasia” (no dizer do economista L. Randall Wray) de que a política monetária conseguiria uma “grande moderação” dos ciclos, permitindo um crescimento consistente permanente, com a minimização das recessões na economia real e dos estragos em bolsa.

No dia-a-dia, os maestros (como Alan Greenspan, o antigo presidente da Reserva Federal americana) e os homens do leme (os governantes) engendraram várias «bolhas» financeiras sucessivas desde os anos 1980, de que as mais célebres andaram em torno dos hedge funds, depois com as tecnologias digitais (a famosa onda dot-com) e finalmente com o imobiliário.

O ‘pai’ do monetarismo, Milton Friedman, um ano antes de falecer e dois anos antes de rebentar o subprime, ainda elogiava “a experiência natural” com êxito que havia sido a gestão monetária desde os anos 1990 nos EUA (e que serviu de modelo para o resto dos banqueiros centrais). O artigo no Journal of Economic Perspectives (volume 19, nº4) ainda fez furor em 2005. Na realidade, a teoria e prática da “grande moderação” tinha gerado um “consenso monetário” que dominou à direita e à esquerda governantes na OCDE.

Friedman seria poupado à vingança do mercado, que como uma mão invisível colocou um ponto final na fantasia. E essa estranha “mistura” de monetarismo e keynesianismo bastardo que nos governou soçobrou.

E Alan Greenspan, o Maestro, tentou passar como um camelo pelo buraco de uma agulha, aconselhado, aliás, por um spin doctor, o consultor de relações públicas David Dreyer. Quando foi interrogado pelo Congresso em Outubro de 2008 (já depois do choque do tsunami provocado pela falência do Lehman em Setembro), Greenspan admitiu um “erro” (que nós ingénuos ouviremos sem pestanejar): “Cometi o erro de presumir que o interesse próprio das organizações, sobretudo dos bancos e outros, era tal que seriam capazes de proteger os seus próprios accionistas e os activos das suas firmas”. Rematou que estava “chocado” com o que sucedera e concluiu com ar modesto: “Ainda não compreendi totalmente porque aconteceu”.

O presidente do Comité do Congresso, o democrata Henry Waxman, no entanto, apertou-o: “Por outras palavras, descobriu que a sua visão do mundo, a sua ideologia não estava certa. Não funcionava”. A que Greenspan, o sofrido penitente, respondeu: “Precisamente. É essa a razão, justamente, porque estou chocado, porque vivi quarenta anos ou mais com a evidência considerável de que estava a funcionar excepcionalmente bem”.

Ora este “erro” custou-nos a todos nós muito caro. É claro que beneficiou todos os que adoraram o “erro” do Maestro.

2- O capital financeiro não está imunizado

Os historiadores económicos vão recordar os últimos trinta anos como a era da ‘financeirização’ (mais um palavrão derivado do inglês financialization) ao extremo da economia mundial e em particular das economias da OCDE.

Um indicador que é usado, o do peso dos activos financeiros no PIB (financial deepening, no jargão técnico), revela que, em média, os países desenvolvidos, antes do rebentar da crise em 2007, andavam na casa dos 500%, com exageros como o da Irlanda nos 900% ou do Reino Unido ou França nos 700% – na verdade muito mais do que os EUA (o “pai” da inovação financeira nos últimos vinte anos graças aos boys da Wall Street).

Por cima das teorias económicas, emergiu, assim, uma expansão jamais vista de um sistema baseado na maximização de rendas financeiras (alguém já deu dele esta imagem: “uma enorme parada de angariadores de rendas” [Akerlof e Shiller, Animal Spirits, 2009], um sistema viciado nos fees a todos os níveis e em todos os nichos e segmentos possíveis) e um capitalismo financeiro pujante como já não se via desde os finais do século XIX e inícios do século XX quando o economista Rudolf Hilferding baptizou a nova realidade capitalista de “capital financeiro” (e deu título a um livro que desde 1910 se tornou famoso).

A memória dos super-pânicos e das grandes crises financeiras foi-se apagando (1873 foi no tempo dos nossos bisavós ou trisavós e 1929 no tempo dos nossos avós ou bisavós) e gerou-se a ideia de que o capital financeiro estava imune a crises globais. Os sinais dos anos 1980 e 1990 foram menorizados – eram coisas localizadas (ou num só país, como o Japão, ou nos desgraçados países do terceiro mundo, ou focalizados num segmento muito específico da finança como os hedge funds ou as tecnológicas).

Apenas um economista, iconoclasta, remava contra a maré. Com um nome estranho, Hyman Minsky, dizia que o capitalismo financeiro sofria do mesmo mal do capitalismo industrial (que Karl Marx havia analisado), tinha a instabilidade e a fragilidade inscrita no seu ADN. Não estava imune a crises globais e sistémicas. Assim se está a ver.

Mas Minsky (que faleceu em 1996) disse ainda outra coisa perturbadora: o capitalismo financeiro vive de se alimentar de ‘bolhas’ como os vampiros de sangue. Sempre que a oportunidade surge (nomeadamente com legislação favorável) rapidamente se adapta como uma espécie darwiniana, e renasce das cinzas.

Não admira, por isso, que, mesmo, agora, no meio do maior desencanto público em relação ao capital financeiro, ele explore o nicho de um ‘keynesianismo bastardo’ estatal (quer no Ocidente como na China) e amanhã possa reviver com a ‘bolha’ seguinte alavancada em algum sector tecnológico (já se começaram a aceitar apostas)… até que a crise financeira regresse.

3- A geopolítica está sempre a surpreender-nos

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a morte do G7 (o ‘clube’ dos sete países considerados os mais ricos do mundo, criado em 1976) ou a hipótese de contestação do papel internacional do dólar norte-americano. Esta crise trouxe como prendas geopolíticas a ascensão do G20 (o grupo de 20 países que reúne 80% da economia mundial), e em particular a afirmação política do ‘clube’ dos quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), bem como o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

A liquidação do papel do G7 (que associou a Rússia desde 1997 nas cimeiras de chefes de Estado, tendo passado a ser designado por G8) ficou particularmente visível depois da cimeira em L’Aquila, Itália, de 8 a 10 de Julho passado. Pouco depois, a 16 de Julho, em Yekaterimburgo, na Rússia, os BRIC realizariam a sua primeira cimeira oficial a pretexto da crise. A próxima cimeira está prevista para o Brasil em 2010. Em apenas oito anos, os BRIC passaram de uma criação literária da Goldman Sachs projectada como nova geografia do poder económico para depois dos anos 2020 para uma realidade política que aproveitou a oportunidade desta crise inesperada.

O mundo deixou de poder ser analisado pela lente do “unipolarismo” (a tal hegemonia a solo dos Estados Unidos reforçada desde a implosão da União Soviética) ou pela divisão entre “globalizadores” e “anti-globalizadores”. O Planeta é algo bem mais complexo.

O académico Joseph Nye ainda, recentemente, aconselhava a “ler-se” a geo-economia e a geopolítica como se fossem um jogo de xadrez tridimensional. Ao nível de topo, o poder militar (o tal hard power decisivo para a projecção de poder) entre grandes potências continua a ser unipolar (os EUA continuam, ainda, a liderar a larga distância); no patamar do meio, das relações entre grandes economias, o mundo é hoje claramente multipolar e tem-no sido desde há uma década; ao nível mais baixo, das relações transnacionais, a globalização trouxe um resultado inesperado, um poder caoticamente distribuído e difuso onde se movem múltiplos actores não-estatais.

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a hipótese de contestação pública do papel internacional do dólar norte-americano.

Esta crise trouxe como uma das prendas geopolíticas o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

O subir de tom em relação à divisa americana surgiu por ocasião da mais recente reunião (Abril 2009) do G20 (o grupo que reúne os países considerados mais ricos agrupados no G7 e um vasto grupo de países emergentes ou intermédios).

Os BRIC (o clube dos três grandes emergentes, Brasil, Índia e China, e da Rússia, a ex-superpotência procurando reemergir) juntaram a voz em relação aos riscos que o sistema financeiro mundial hoje defronta ao continuar a estar baseado no dólar desde os acordos de Bretton Woods em 1944. Esses quatro países detêm 42% das reservas internacionais, o que significa hoje em dia que uma fatia considerável das reservas mundiais está fora do G7.

A futura estrela ascendente: os SDR

Os críticos do dólar temem o colapso desta divisa e o tsunami que desencadeará e avançam com uma solução de dar mais peso progressivo no comércio internacional e no sistema financeiro mundial aos direitos especiais de saque (SDR, acrónimo para special drawing rights), uma unidade de conta do Fundo Monetário Internacional (FMI) que se baseia num cabaz de quatro divisas (44% para o dólar, 34% para o euro, 11% para o iene japonês e 11% para a libra inglesa, segundo a repartição para o quinquénio que termina em 2010).

O governador do banco central da China chegou a teorizar o assunto em Março (de 2009) provocando, momentaneamente, uma hesitação e uma gafe do novo secretário do Tesouro norte-americano escolhido pelo presidente Obama. A escorregadela do secretário americano (admitindo a hipótese chinesa como discutível) foi logo corrigida – Washington e Wall Street não estão, ainda, na onda de recuo.

O banqueiro central chinês Zhou Xiaochuan chegou mesmo a propor um “plano” de passos a tomar: o uso dos SDR na fixação de preços das commodities (que hoje estão dolarizadas); o lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; e a criação de um fundo aberto denominado em SDR.

A “lição de finanças” do governador chinês foi encarada como um testar das águas e um aviso à navegação de que a China prepara uma estratégia de fuga à armadilha do dólar em que se enredou nos últimos vinte anos.

Na cimeira do G20 de Abril passado, o FMI foi autorizado a emitir mais 250 mil milhões de dólares em novos direitos especiais de saque no sentido de aumentar as reservas daquele fundo. Vários países já anunciaram a disposição de aumentar as suas reservas no FMI, com a China na liderança, envolvendo 7,3 mil milhões de dólares, a Rússia 6,9, a Índia 4,8, o Brasil 3,5 e a Coreia do Sul 3,4. No entanto, isso dependerá da renegociação dos votos das várias grandes potências no seio do fundo. É esperado que o Japão, a China, a Índia e o Brasil aumentem o seu peso decisório.

Em contraste, a China, entre o final de 2008 e o final do Verão de 2009, segundo o grupo de consultoria francês LEAP/E2020, terá disposto de 600 mil milhões de dólares de activos denominados em dólares que aplicou em compras de activos em recursos estratégicos e empréstimos a países com acordos estratégicos um pouco por todo o mundo (exceptuando, et pour cause, os EUA) e terá abdicado de comprar obrigações do Tesouro americano na ordem dos 500 mil milhões a 1 bilião de dólares, começando a tirar o tapete aos americanos.

Situação de impasse

A situação actual é, por isso, de impasse, sublinha Jane D’Arista, uma especialista em história do sistema monetário internacional, investigadora do Political Economy Research Institute, da Universidade do Massachusetts, nos Estados Unidos.

“A incapacidade das famílias americanas continuarem a carregar o fardo de consumidor de último recurso da economia mundial, acabou efectivamente com o século do dólar”, diz a investigadora americana com algum humor. “O problema é que não há divisa que o substitua. Mas essa falência de se avançar com um novo sistema será um factor de manutenção da recessão global e de contínua vulnerabilidade a crises”, acrescenta.

Uma situação deste tipo não é nova – ocorreu nos anos 1930 com o declínio da libra esterlina. E só se resolveu com as alterações no plano geopolítico que ocorreriam nas duas décadas seguintes, recorda a investigadora num estudo que publicou recentemente no Cambridge Journal of Economics. Jane acha que a Zona Euro – que poderá ser fortemente atingida pelo colapso do dólar dada a colaterização das suas dívidas públicas – não está interessada em substituir o dólar, apesar de algumas vozes nesse sentido. “Na minha opinião, deveriam ser os próprios Estados Unidos a tomar a iniciativa da reforma do sistema”, conclui a investigadora.

O exemplo inglês vem logo à memória. Apesar da proposta de John Maynard Keynes, em representação do império britânico, ter sido derrotada em Bretton-Woods pelas manobras americanas que acabaram por impor o dólar “como Sol do sistema solar financeiro”, o famoso economista inglês foi um exemplo de tenacidade, mesmo num contexto geopolítico adverso e apesar de doente. Via Lisboa, ele viajou, desde 1941, umas seis vezes para os EUA, empolgado na sua cruzada.

Os chineses recordam hoje que, provavelmente, a proposta de Keynes de uma unidade de conta internacional (que baptizou de ‘bancor’), baseada num sistema multilateral, teria sido mais «sagaz» do que a imposição de um sistema apoiado numa divisa nacional dominante, sujeita aos ciclos e políticas dessa potência.

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