O cartel dos exportadores de petróleo pode usar a sua capacidade excedentária e a Europa pode recorrer à sua reserva estratégica para amenizar os efeitos de uma interrupção brutal dos fornecimentos de petróleo em virtude da guerra civil na Líbia, dizem os especialistas, na maioria árabes, ouvidos. Mas a folga esgota-se em 2013, diz a Morgan Stanley. O impacto negativo no crescimento da zona euro (onde nos inserimos) se o barril chegar aos 120 dólares de preço médio anual será na ordem de 0,3 pontos percentuais já este ano, segundo a Ernst & Young.
IDEIAS CENTRAIS
. Cada 20 dólares de aumento do preço do barril de crude implica 1 ponto percentual de quebra no PIB, segundo FMI
. Com o barril a 120 dólares, o “corte” no PIB da zona euro será de 0,3 pontos percentuais em 2011 e 0,4 pontos percentuais em 2012, segundo Ernst & Young
. Com o barril a 120 dólares, a inflação em 2011 poderá chegar aos 3% na zona euro
. China decide “arrefecer” o crescimento no quinquénio, diz o seu primeiro-ministro
. OPEP tem capacidade por utilizar por enquanto para enfrentar rutura líbia
. Morgan Stanley diz que essa “folga” se esgota em 2013
. Espera-se que prémio de risco geopolítico continue a influenciar o preço do crude enquanto durar o dominó árabe
. Especulação “deslocou-se” das commodities agrícolas para o petróleo
. Situação será muito grave se o dominó árabe tocar Arábia Saudita e Argélia
Especialistas ouvidos: Toufic El Asmar (FAO); David Kotok (Cumberland Advisors); Hatem Elrefaei (Universidade Ain Shams, do Cairo); Mamdouh Salameh (Banco Mundial e UNIDO); Luís de Sousa (The Oild Drum).
[TEXTO LONGO]
Com os preços dos futuros do barril de Brent a atingir desde 1 de fevereiro valores acima de 100 dólares voltou à ribalta o risco de um choque petrolífero semelhante ao de 2008. Hoje, os futuros para abril desta variedade negociada em Londres – considerada a referência mundial – estão acima de 116 dólares.
Para muitos analistas, esta alta é derivada do pânico motivado pelo dominó recente de levantamentos populares na região do Magrebe e do Médio Oriente.
O que incendeia a especulação neste mercado. “Os especuladores saíram do mercado das commodities agrícolas e viraram-se, agora, para alternativas, como o petróleo”, diz-nos Toufic El Asmar, consultor em segurança alimentar da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e da Organização Meteorológica Mundial e especialista da ASPO, a organização internacional de estudo do pico do petróleo e do gás.
Impacto no crescimento: 1% por cada 20 dólares de aumento
Se os técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) estiverem certos, um aumento de 10 dólares no valor nominal do preço do barril de ouro negro poderá equivaler a uma contração de meio ponto percentual no crescimento económico durante dois anos. Ora desde início de janeiro, o barril de Brent já se valorizou em mais de vinte dólares. O impacto negativo poderá, assim, chegar a 1 ponto percentual nas economias com alta vulnerabilidade a estas importações.
O suficiente para obrigar a um “arrefecimento” menos suave (como pode acontecer na China, o motor atual do crescimento mundial), ou passar de crescimento a estagnação, de crescimento medíocre a recessão ou, no pior dos cenários, a um agravamento da contração da economia.
Nos Estados Unidos já se fala mesmo do regresso da “estagflação” típica dos anos 1970 quando dois choques petrolíferos abalaram o mundo. No caso de Portugal que revela uma vulnerabilidade média ao petróleo em termos de segurança energética, um problema mais grave poderá derivar da sua alta vulnerabilidade em termos de gás natural, segundo um estudo desta semana de técnicos do FMI.
O comissário europeu para os assuntos económicos e monetários, Olli Rehn, já referiu que a estimativa para a inflação na zona euro foi revista em alta para 2,2%, com base em estimativas de um preço médio anual do barril de crude nos 100 dólares. Não foi admitida, ainda, qualquer repercussão na estimativa de crescimento anual da zona euro, que foi inclusive aumentada para 1,6%.
No entanto, a Ernst & Young divulgou, esta semana, o seu Eurozone Economic Forecast onde estima que um preço médio anual de 120 dólares por barril implicará uma quebra no PIB de 0,3 pontos percentuais em 2011 e de 0,4 pontos percentuais em 2012. Segundo o mesmo estudo, a inflação poderá chegar, este ano, a 3% naquela hipótese de preço médio.
Entretanto na China, num chat na Internet, o primeiro-ministro Wen Jiabao admitiu uma redução do crescimento anual da economia para uma média de 7% a 8% para o próximo quinquénio, abaixo das médias recentes.
Cisne negro aparece no Lago Mediterrânico
Entre os analistas não há dúvidas de que o prémio de risco geopolítico está a “dirigir” estas subidas nos mercados do crude (tal como no dos metais preciosos). A surpresa não veio do tradicional conflito entre Israel e os seus vizinhos ou do risco de confronto ocidental com o Irão, mas de um ‘cisne negro’ adormecido – o levantamento popular contra os regimes da região do Magrebe ao Médio Oriente.
A secretária de Estado americana Hillary Clinton avisou que “uma tempestade perfeita” poderia cair sobre a região do Mediterrâneo Sul e do Médio Oriente depois do alastramento da ‘Revolução de Jasmim’ tunisina ao Egito. “Isto é muito grande – e pode tornar-se imenso”, diz-nos David Kotok, presidente da Cumberland Advisors, uma firma de consultoria financeira internacional. A ideia de um “dominó árabe” começou a gerar o pânico entre os investidores e algumas potências.
Os americanos estão preocupados com as suas posições na região – por exemplo, o risco de terem de sair a curto prazo da base naval estratégica de Juffair, no Bahrein, ou de perderem a influência no Egito com implicações sobre o controlo do canal do Suez ou a zona de “amortecimento” do Sinai, como nos refere Hatem Elrefaei, professor na Universidade Ain Shams, do Cairo.
O mundo dependente do petróleo e gás daquela região teme uma interrupção abrupta nos fornecimentos, sobretudo se o coração for atingido pela movida popular – como o gás da Argélia (7,8% da exportação mundial) ou do Qatar (também 7,8% da exportação mundial) ou o petróleo da Arábia Saudita (19,1% da exportação mundial), o líder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Sobre a Arábia Saudita, a especulação política nunca parou, em virtude do problema da sucessão estar em cima da mesa. Na semana passada, Al-Walled, um sobrinho do rei, publicou no The New York Times um sério aviso: “A não ser que os governos árabes adotem políticas radicalmente diferentes, os seus países sofrerão muito provavelmente mais agitação política e civil”.
A alta finança reza, por seu lado, para que o centro financeiro do Bahrein não vacile – o pequeno arquipélago é o doce lar de muitos milhares de milhões de dólares de fundos.
“Não estou ainda convencido que o dominó em curso possa atingir em cheio os grandes exportadores de petróleo e gás do Médio Oriente e do Magrebe. Mas pode acontecer”, diz-nos Toufic El Asmar.
Os mercados da dívida soberana revelam, no entanto, enorme nervosismo em relação a toda aquela região. O risco de default tem disparado desde o início do ano para mais de uma dezena de países, com particular destaque nestas duas últimas semanas para o Dubai (que está em 8º lugar no TOP 10 mundial desse risco, segundo o monitor da CMA DataVision), Iraque (que está em 9º lugar no mesmo “clube”), Líbano e Egito (que têm andado numa dança de entra-e-sai naquele “clube”) e Bahrein (que tem liderado as subidas de risco em várias sessões). Mas não tem poupado, também, Marrocos, Tunísia e mesmo Israel, Arábia Saudita, Qatar e Abu Dhabi.
Para a Europa, os acontecimentos na Líbia são mais relevantes, sublinha Luís de Sousa, editor do The Oil Drum. “O petróleo líbio tem sido exportado quase exclusivamente para a Europa e a Turquia. A Itália, Espanha e Alemanha são os principais parceiros comerciais por parte da União Europeia. A Itália, em particular, por força do seu estatuto de potência ex-colonizadora, importa quase 40% do seu consumo de petróleo daquele país e dispõe de um gasoduto que vem da Líbia para a Sicília. Também, Espanha, Grécia e Portugal (15% das importações portuguesas) importam da Líbia, que exporta parte desse petróleo já refinado ou pré-refinado”, refere aquele especialista.
Água na fervura
No entanto, os especialistas ouvidos pelo Expresso deitaram alguma água na fervura, mesmo face ao fecho geral de portos na Líbia e à retirada massiva de trabalhadores estrangeiros do país, com destaque para os 36 mil chineses, a maior operação de evacuação feita no estrangeiro jamais realizada pelo governo chinês.
O risco de uma crise no Suez foi muito empolado, aquando do auge da queda de Mubarak. “Foi um fantasma na cabeça dos especuladores”, diz-nos Hatem Elrefaei. A própria ideia de dominó tem de ser moderada: “O processo não é idêntico em toda a região”, acrescenta o especialista egípcio. Admite que a Argélia – cerca de 8% da exportação mundial de gás – possa ser uma das próximas peças, mas não crê que haja condições para um fenómeno similar na Arábia Saudita.
A OPEP poderá neutralizar um cenário de total rutura na Líbia, diz-nos, por seu lado, Mamdouh Salameh, perito do Banco Mundial e da UNIDO. “As exportações líbias podem ser substituídas pela OPEP no curto prazo até que a situação normalize. A organização tem um milhão de barris diários de capacidade por utilizar. Seja qual for o regime, a Líbia regressará à exportação de petróleo”, afirma aquele especialista em petróleos. Luís de Sousa, por seu lado, refere que “a Europa poderá lidar, no imediato com a situação usando a sua reserva estratégica que garante abastecimento por 90 dias”.
Como quadro geral, “mesmo com a mudança de regimes na região, os acordos existentes entre importadores e exportadores não deverão ser modificados ou anulados”, diz Toufic El Asmar. “Mas, talvez, o que poderá mudar são as condições das trocas comerciais e a distribuição dos rendimentos das populações. Mas é cedo para fazer prognósticos”, acrescenta.
Alta veio para ficar
No entanto, a alta do preço do ouro negro veio para ficar. “A OPEP, por um breve período, pode substituir as falhas, mas no longo prazo não pode conter o aumento do preço, pois a sua folga é pequena”, diz Salameh.
El Asmar, por seu lado, refere que há uma mudança estrutural a que muitos governos têm dado pouca atenção: “Alguns fatores não são levados em conta pelos governos como o aumento exponencial da população mundial e o aquecimento global. Estes fatores alteraram a procura e a oferta das principais commodities, sobretudo das alimentares e do petróleo”. E faz uma relação com o atual dominó árabe: “Se reparar todas estas atuais crises no Magrebe e Médio Oriente se iniciaram com um aumento dos preços dos produtos alimentares”.
A Morgan Stanley reforçou esta semana a ideia de que a alta veio para ficar ao publicar uma estimativa da situação até 2013, ano em que a folga atual se evaporará.