Choque petrolífero


Não é esperado em 2010 um disparo similar ao que ocorreu em 2008, quando o barril de petróleo atingiu o seu máximo nominal histórico. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o preço médio do barril de crude deverá situar-se abaixo dos 80 dólares (mais precisamente 76 dólares), segundo a actualização realizada na terça-feira às principais projecções macroeconómicas do World Economic Outlook.

Ainda que signifique um aumento de 22,6% em relação ao preço médio de 2009 (que se situou nos 62 dólares), alguma volatilidade esperada para o ano em curso não deverá retirar o preço médio desta commodity estratégica do patamar dos 70-80 dólares, em que se tem movido este primeiro mês do novo ano. O FMI estima que o preço médio do barril do ouro negro continue a subir em 2011, ainda que moderadamente, para um patamar de 82 dólares, um acréscimo de 7,9% em relação a 2010.

A moderação do cenário de aumento do preço médio do crude deriva da cautela das projecções do FMI para o crescimento mundial, que é estimado crescer 3,9% em 2010, um pouco mais do que em 2008. A cautela sobre esta retoma mundial deriva do facto do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ser ainda muito moderado nos países desenvolvidos, onde não se espera que ultrapasse os 2,9%, com crescimentos mais baixos que a média no caso dos EUA (2,5%) e mesmo medíocre no caso da Zona Euro (1%). Além disso, há o efeito de eficiência energética que continua a actuar nestes países.

O actual crescimento da economia mundial está a ser alimentado, desde os anos 2000, pela dinâmica de crescimento dos países emergentes de médio rendimento, cujo crescimento médio anual se espera aproximar do que ocorreu em 2008, ou seja no patamar dos 6%. A China deverá crescer em 2010 na ordem dos 10%, quatro décimas mais do que em 2008 e 1,3 pontos percentuais mais do que em 2009.

Segundo as projecções do FMI, o efeito desta dinâmica dos emergentes não gerará, contudo, um novo choque petrolífero: “Esta pressão em alta [no preço das matérias-primas] espera-se que seja modesta, em virtude dos níveis de stock acima da média e de existir uma capacidade excedentária substancial em muitos sectores de commodities”.

Recorde-se que, apesar do aumento do preço do barril de crude entre 31/12/2008 e 31/12/2009 na ordem dos 85% para a variedade Brent (de referência na Europa) e 78% para o WTI norte-americano, o preço médio sofreu uma descida de 36% em relação ao efeito do choque petrolífero nos preços ocorrido durante meados de 2008, quando o preço médio subiu 36% em relação a 2007.

(Publicado originalmente no blogue ‘A Regra do Jogo’, revisto)

Confesso que prefiro folhear o sumário, sentir o macio ou o áspero das páginas, ler algumas de trás para a frente, ir ao índice ver algumas palavras-chave e rapidamente ter um cheiro do que o autor diz.

Não desprezo a Amazon.com, bem pelo contrário sou um viciado sobretudo na procura de livros esgotados nas livrarias, aqueles que nem nas editoras já se encontram exemplares estragados nos armazéns, mas que se descobrem, por vezes a preço de pechincha, mais ou menos usados, nos revendedores associados da loja global de Jeff Bezzos, um tipo com umas sonoras gargalhadas, quando o entrevistei nos idos 1990.

Mas a minha costela tradicionalista em matéria de papel empurra-me sempre para alguma peregrinação por livrarias à antiga, onde, também, em regra encontramos livros de décadas mais remotas do século XX. É o caso da do nº36, que aqui se tem de soletrar como thirty-six. Não na variante do inglês de Shakespeare, mas de Beckett, Joyce, Yeats, Shaw e Wilde, entre os dubliners mais famosos.

O 36 é um prédio oitocentista que fica no cruzamento com mais línguas faladas por metro quadrado de Dublin e entre o conhecimento (o Trinity College) à direita e a finança (o Banco de Irlanda) em frente. Da rua subimos uma leva de escadas estreitas e entramos numa loja pouco mais larga em que a mesa ao centro com as novidades (não quer dizer que sejam edições recentes, mas escolhas do livreiro com preços convidativos) só permite que haja uma pessoa de cada lado. Ao rebuscar nas prateleiras, arriscamo-nos a dar uma cotovelada em quem está atrás, dizer sorry, sorry atabalhoadamente e apanhar alguns livros do chão.

A velha livraria tem um nome bem singelo – apenas Books Usptairs (o que é totalmente verdade), e vem no guia turístico como tendo verdadeiras pechinchas em obras de qualidade. Faz parte do meu ritual quando vou à capital irlandesa. Pode calhar por lá andar algum poeta, dramaturgo ou novelista dublinense, mas confesso que nunca dei encontrão em nenhum.

Um livrinho rápido de ler

Desta vez, ao olhar para o placard de recortes de jornais dou com um bem grande, ainda não muito amarelecido, sobre recensões de livros recentes a respeito de Keynes, de seu nome completo John Maynard Keynes (1883-1946), o célebre economista inglês que morreu ao terceiro ataque cardíaco no já distante ano de 1946, mas que, hoje, está na berra como se assistisse ao G20 integrado na delegação inglesa e rivalizasse com Obama na oratória.

Escreveu-se sobre ele abundantemente, mas sobressaem, naturalmente, as biografias. As clássicas envolvem uma de 1951, escrita por Roy Harrod. O livreiro me informa que vendeu uns últimos exemplares em paperback da edição de 1983, mas que ainda encontramos em livros usados na Amazon. É um livro denso, de mais de 800 páginas. Há, depois, as obras de referência do biógrafo oficial de Keynes – é uma trilogia assinada por Lorde Robert Skidelsky (que entrevistei recentemente a propósito da sua última obra, The Return of the Master), material já para especialistas. Há, ainda, o livro de ensaios de reflexão teórica de Hyman Minsky sobre o que é, na verdade, o keynesianismo, publicado em 1975, com o nome completo de Keynes como título.

Perguntei ao livreiro se teria algo rápido de se ler, quase como romance. Ele correu para uma das prateleiras mais escondidas, remexeu e trouxe-me Keynes, de Robert Cord, um ex-economista da Dun & Bradstreet apaixonado pelo mestre de Cambridge e pelo seu grupo boémio londrino, de Bloomsbury.

É um livrinho recente, de 2007, de menos de 15 x 20 cm, com apenas 130 páginas de texto narrativo da vida de Maynard, como o tratavam os mais chegados – e, claro, no nº36 custa menos de 9 euros em novo. Lê-se em duas noites depois de um recession menu (uma invenção dublinense para se comer mais barato em tempos de Grande Recessão) regado com umas Guinness num dos locais sagrados de Temple Bar.

Cord consegue percorrer a vida do mais afamado economista inglês do século XX salientando dois pontos que, por vezes, são menos focados por quem quer dar de Keynes uma imagem de receituário despesista: o processo evolutivo do seu pensamento e do seu percurso, e o enquadramento geopolítico que, sempre, estava presente na sua genial mente.

Duas razões de actualidade

Maynard, se as cinzas dele me permitem a intimidade, não é só actual pela célebre polémica entre 1931 e 1932 nas páginas das revistas Economica e Economic Journal contra o austríaco Friedrich von Hayek, então a dar umas palestras na London School of Economics. Discordavam sobre a política anticrise economica e monetária a seguir face à Grande Depressão então em curso (1931 e 1932 seriam, aliás, os piores anos de quebra mundial do produto e do comércio internacional).

O debate entre os dois – anterior a Keynes ter escrito o seu The General Theory (1936) e muito antes de Hayek ter escrito a sua obra-prima The Road to Serfdom (1944) – ainda hoje gera polémica e visões bem distintas.

Maynard é, também, profundamente actual pelo seu papel nas negociações de Bretton Woods, nos anos 1940, ao ter sugerido uma divisa internacional de reserva, o «bancor», que evitaria prender o mundo quer aos humores da libra (então em franco colapso) e do império britânico (em total declínio como superpotência) como aos do dólar americano e da nova superpotência triunfante (os Estados Unidos).

Como me referiu Colin Danby, da Universidade de Washington, em entrevista recente que me concedeu, esta dimensão é um dos aspectos “esquecidos” sobre Keynes: “Esse esquecimento deve-se, em parte, a ele ser famoso pela sua Teoria Geral, que procede a uma abstracção em relação à economia global. Mas, a meu ver, ele era muito mais um pensador político e histórico – isso pode ser, logo, observado em 1919 no seu livro as Consequências Económicas da Paz. Mas esta obra não se encaixava muito no que genericamente é entendido como ‘economia’”.

Keynes foi derrotado, dessa vez, nos anos 1940, pela geopolítica (os EUA falavam mais alto) e há quem diga, também, pela doença, pois sofreria um segundo ataque cardíaco ao subir demasiado rápido umas escadas no Mount Washington Hotel em Bretton Woods, correndo, atrasado, para uma reunião. Quem o atrasara?

A recessão de 2009 será a décima maior na história do capitalismo americano, mas está longe das Grandes Depressões dos anos 1890 e 1930. Muitos economistas americanos inclinam-se para o risco de uma recaída, apesar do ‘aquecimento’ bolsista na Wall Street

Há um ano, o fim-de-semana de 12 e 13 de Setembro ditou o curso da crise financeira nascida num canto exótico do mundo dos produtos financeiros, chamado de subprime, em Agosto de 2007. O falhanço, naquele fim-de-semana, da negociação da venda da mais do que centenária casa financeira Lehman Brothers e a falta de vontade política do secretário do Tesouro e do governador do banco central americanos em injectar o dinheiro dos contribuintes em mais um protagonista do apelidado “sistema financeiro sombra” da Wall Street de Nova Iorque, transformou a crise bancária em Grande Pânico financeiro e projectou-a globalmente.

A segunda-feira ‘negra’ de 15 de Setembro de 2008 foi o ‘momento Minsky’, como os economistas dizem, em que a mutação se deu – em que o que poderia ficar por ser mais uma “normalíssima” crise financeira, com uma derrocada bolsista moderada, atravessou a linha divisória e colocou a América à beira de um segundo 1929 (a Grande Depressão mais conhecida) ou de uma repetição da depressão de 1893/1894, menos conhecida.

Evitou-se repetir 1929

Um ano depois, o pior cenário de uma Grande Depressão ao estilo de 1929/1933 foi posto de lado. A derrocada bolsista na Wall Street parou a 9 de Março deste ano (54% de quebra em relação ao pico em 15 de Outubro de 2007, a segunda maior de sempre na história do Dow Jones) e a OCDE voltou a anunciar, a 11 de Setembro, que, tecnicamente (de acordo com o seu indicador compósito), a maioria das economias que tinham entrado em recessão se aproximaram no segundo trimestre de 2009 da “vala” (trough, em inglês; vala entre dois ciclos económicos) que poderá conduzir à retoma. Globalmente o G7 (o clube dos ‘ricos’) terá em termos trimestrais, em cadeia, decrescido, apenas, 0,1% no segundo trimestre deste ano, face a quebras significativas de 8,4% no primeiro trimestre de 2009 e 7,3% no quarto trimestre de 2008.

A economia mundial em 2009 irá decrescer apenas 1,3% segundo o FMI ou 2,7% segundo o último relatório da UNCTAD. Será o pior ano desde que a crise financeira se manifestou em meados de 2007. Mas mesmo assim estará longe dos números atingidos em outras grandes depressões. O comércio internacional deverá retroceder 10% este ano, segundo uma estimativa da Organização Mundial de Comércio, mas entre 1929 e 1932 caiu 60%.

Olhando um outro indicador do comércio internacional, podemos avaliar a contracção nesta área motivada pela recessão. Segundo dados do Institute of Shipping (ISL), de Bremen, o movimento mundial de contentores quebrou 15,7% em termos mundiais no 1º semestre de 2009 em relação ao primeiro semestre do ano passado, com uma situação mais grave nas Américas (onde caiu, em termos homólogos, 19,2%) e na Europa (quebra de 17,8%). A quebra na Ásia (14,8%) foi inferior à média global. A fonte é o Monthly Container Port Monitor do ISL.

Mas já é o 10º pior ano da América

Olhando ao caso dos EUA, o epicentro desta crise, a economia, estima-se, quebrará 3% em 2009. A ser assim, será a décima maior quebra anual de sempre do PIB em termos reais em relação ao ano anterior na história do capitalismo moderno americano desde os anos 1860.

Em termos de comparação histórica, o PIB americano quebrou, em termos reais, 13% em 1932 (um ano de recaída no percurso da Grande Depressão de 1929/1933), em 1908 (11%), em 1930 (8,6%), em 1931 (6,4%), em 1893 (5,8%), em 1894 (4,7%), em 1866 (4,6%), em 1904 (3,5%) e em 1938 (3,4%, a segunda recaída cinco anos depois da Grande Depressão de 1929/1933, um evento a que os americanos chamam de double dip).

Para o analista americano Peter Cohan o ter-se evitado a reedição de uma Grande Depressão mundial ao estilo de 1929 deveu-se à massiva intervenção das autoridades monetárias e das políticas orçamentais tanto nos países da OCDE como nos emergentes.

Paradoxalmente, os emergentes apostaram mais em intervenções keynesianas, em média na ordem dos 4% do PIB (com recordes na Arábia Saudita, com 9%, em Singapura com 8%, e na África do Sul com 7,4%), do que os países desenvolvidos (3,7% do PIB em média), segundo dados recentes da UNCTAD. O intervencionismo de base orçamental chinês é particularmente destacado, segundo a UNCTAD na ordem dos 6,2% do PIB, e segundo outros analistas estará nos 13%. Os países ‘ricos’ lideraram, no entanto, no esforço de intervenção no sector financeiro, com posições relativas recorde na Islândia e Irlanda, seguidas do Reino Unido, EUA e Suécia. Nos países emergentes, esse tipo de injecção foi negligenciável. A defesa do sistema de financeirização nos países da OCDE é particularmente crítico, como se vê.

O risco de recaída

Esta dependência, por parte dos países ‘ricos’, da morfina do dinheiro dos contribuintes dirigida a segurar um sistema financeiro em que muitas das entidades são tidas como não-confiáveis (falando claro: como insolventes ou zombie) surge como o ponto fraco, refere-nos William Thomson, presidente da Private Capital, em Hong Kong, um olhar bem distanciado da Wall Street nova-iorquina. Metade do “lixo mais tóxico” financeiro, diz-nos Thomson, ainda continua debaixo do tapete: uns 30 biliões de dólares. “A questão é saber o que acontecerá quando as injecções artificiais dos governos recuarem”, conclui.

David Kotok, director do Global Interdependence Center,uma organização sem fins lucrativos de alcance globalista, coloca o dedo na ferida. Muita gente bateu palmas porque os bancos centrais estavam actuando face a um problema de liquidez. Mas a realidade é outra: “O Tesouro americano violou as regras porque se envolveu em assuntos de insolvência. Uma coisa é atacar a falta de liquidez, outra, completamente diferente, é esbanjar dinheiro dos contribuintes em insolventes. As consequências disso ainda estarão para vir”.

Por isso são cada vez mais as vozes que falam do risco de um padrão de recaída como aconteceu em 1932 (o PIB americano voltou a quebrar dramaticamente, um afundamento de 13%, depois de ter desacelerado a quebra no ano anterior) ou de uma entrada num período de “tipo japonês” (entre 1991 e 2007, a economia nipónica não cresceu mais do que 1,9% ao ano em média), como refere Thomson. Alguns, como o historiador Michael Perelman, da California State University, adiantam que, mesmo a médio prazo, há que estar vigilante, pois há o risco de um double dip, como aconteceu em 1938, em que já depois de terminada a Grande Depressão, a recessão regressou por um ano (com uma quebra de 3,4%).

Peter Cohan sublinha que o desemprego – e em particular o aumento do desemprego de longa duração – tem em economias como a americana (cujo crescimento depende 70% do consumo) um efeito negativo suplementar. Este risco tem levado os políticos e os banqueiros centrais a uma atitude de prudência e os organismos internacionais a aconselhar a manutenção das políticas keynesianas e da ZIRP (taxas de juro próximas de zero %, no acrónimo em inglês para zero interest rates policy) monetária.

A geopolítica pode voltar a acender os preços do barril de crude, ou, pelo menos, reanimar a sua volatilidade e o risco de ‘oscilações ‘selvagens’. O analista David Kotok alerta para as implicações do dossiê nuclear do Irão, que terão um período crítico no próximo mês. Ambos os lados dispõem de armas políticas e económicas que poderão aquecer o Índico.

As autoridades do Irão já declararam que não aceitam a imposição de uma data de resposta (um deadline, em inglês) para Setembro relativamente a negociações formais multilaterais para resolver o dossiê nuclear. Com a proximidade de Setembro no calendário, os meios do petróleo estão ao rubro com a discussão se iremos assistir a algum “choque do deadline” no mercado do crude, que empurre os preços para uma escalada como a dos primeiros sete meses de 2008 (quando chegou em Julho a um preço médio mensal do barril de 132,72 dólares, um recorde histórico).

As causas imediatas, agora, seriam abertamente geopolíticas. “Desta vez, o risco geopolítico é importante no curto prazo, em virtude da inelasticidade do preço do petróleo nas decisões empresariais. Sem dúvida, que, no longo prazo, a oferta e a procura são os propulsores do preço”, afirma-nos o economista americano David Kotok, o principal consultor de investimento e co-fundador da Cumberland Advisors, que alertou, esta semana, os seus clientes para este risco.

O Irão dispõe de um meio político de pressão típico do hard power em geopolítica: a possibilidade do bloqueio do estreito de Ormuz, de apenas 54 quilómetros, na entrada do Golfo Pérsico, por onde passam 40% da logística marítima do crude e 20% do comércio mundial por mar, segundo dados da Energy Information Administration dos Estados Unidos. É um dos mais importantes chokepoints (designação técnica para estas passagens estratégicas em termos militares e de comércio internacional que Afonso de Albuquerque bem compreendeu no seu tempo quando decidiu recapturá-la definitivamente em 1515) mundiais.

“Não há nenhuma ideia clara de como o Irão se irá comportar, se provocará oscilações selvagens ou movimentos moderados no preço do petróleo. A própria situação interna está em turbulência depois das eleições. No entanto, o Irão tem um ponto fraco – é um importador líquido de produtos refinados. Essa deficiência é a arma de que dispõem os Estados Unidos e os seus aliados nesta questão. Por isso, o Irão joga com duas cartas – abre-se a inspecções, mas continua a brandir a arma do estreito”, prossegue Kotok.

Erros estratégicos são comuns

À pergunta, será que, no final das contas, o Irão jogará a cartada de Ormuz como chantagem de último recurso e defrontará inclusive os interesses das novas potências do Índico, a China e a Índia, o analista responde: “A irracionalidade é comum no Médio Oriente. Muitos regimes naquela região são capazes de erros estratégicos. Em geopolítica, erros podem suceder a qualquer momento. É, por isso, que há um prémio de risco elevado no petróleo nomeadamente”.

Uma nova retoma do choque petrolífero não seria nada agradável para as expectativas de saída da recessão mundial. O preço do barril tem oscilado (por vezes com percentagens elevadas de um dia para o outro, o que tecnicamente se designa por oscilações selvagens) no patamar dos 70-75 dólares. O aumento é de, pelo menos, 75% em relação ao preço médio em Dezembro de 2008 (39,95 dólares).

Até que ponto é que esta nova subida durante 2009 reflecte sobretudo o colapso do dólar (a divisa em que está cotada esta commodity), a retoma nos países emergentes (e particularmente por parte das importações pela China) ou a eventual antecipação pelos mercados de um problema geopolítico grave que afecte o negócio, é, ainda, uma incógnita.

A 9 de Agosto de 2007 um comunicado de imprensa, no mínimo estranho, vinha a público. O banco francês BNP Paribas comunicava ter congelado três fundos por impossibilidade de valorizar investimentos titularizados num veículo financeiro completamente desconhecido dos comuns mortais. De quem era a culpa? “Da completa evaporação da liquidez de certos segmentos do mercado de titularização americana”, dizia-se no comunicado.

Repentinamente o mundo era apanhado de surpresa por uma palavrão financeiro que emergia do escuro das salas dos corretores: sub prime. Rapidamente se tornou tema de conversa de café. Contudo o índice Dow Jones continuou impavidamente o seu frenesim altista…até que se deu, de novo, o improvável no casino: um crash bolsista a 16 de Outubro. Soube-se, depois, com o atraso de um ano, que os Estados Unidos haviam entrado, também, em recessão (contracção da economia) em Dezembro daquele ano.

O povo comum – quer os ‘capitalistas populares’ quer os outros que não vivem nem de um cêntimo de rendas financeiras – foi fazendo uma aprendizagem dolorosa ao longo de 2008: de um discurso monetarista dominante para um súbito acordar com todos os governos, a começar por Washington (então nas mãos dos republicanos), a gritar que “todos somos keynesianos” iniciando logo em Janeiro um rol de pacotes de “estímulos” para evitar o ‘risco sistémico’ (outro palavrão a que nos habituámos); de uma ainda “provável” crise global acompanhada de uma inflação galopante até Julho dos preços das commodities, a começar pela mais sensível de elas todas para a nossa vida do dia-a-dia, o petróleo, para uma crise a sério com perigo de deflação endémica; de mero crash bolsista evoluiu-se para pânico depois da falência do Lehman Brothers a 15 de Setembro e passou-se a ouvir falar de algo esquisito, credit crunch, à letra, esmagamento do crédito, em suma, redução abrupta da disponibilidade para emprestar no e pelo sistema bancário. Resultado: todo um modo de financiamento da economia financeira e da economia real ruiu.

E quando, em pleno Verão deste ano, já nos habituávamos à crise – com coisas incríveis como a falência de um estado, a Islândia, as quedas do pedestal do ‘tigre’ europeu mais endeusado, a Irlanda, ou da construtora de automóveis (esse símbolo do século XX) mais famosa do mundo, a GM, ou o eclipsar de um grupo de notáveis que mandavam no mundo (ou julgavam que mandavam), o G7 – eis que a Goldman Sachs nos vem dizer que a euforia bolsista está de volta, que o crash terminou (o segundo maior da história do Dow Jones segundo as estatísticas), e os políticos juntam a voz a animar-nos que já batemos no fundo, a recessão já passou.

Suspiremos, então, de alívio – antes que os aborrecidos dos pessimistas nos venham dizer que pode haver uma recaída económica, que a bolsa pode apenas estar a viver uma corrida repentina, e que o pior em termos de economia real (falências em série), impacto social (desemprego de longa duração) e monetário (colapso do dólar) ainda está para se sentir.

Mas antes que tudo passe sem termos tempo para parar para pensar, convirá, neste aniversário, alinhar três primeiras hipóteses de conclusões sobre estes dois anos.

1- A vingança do mercado sobre a teoria da “grande moderação”

Durante vinte anos os teóricos da economia convenceram-nos que vivíamos num “mercado eficiente” (de qualquer modo, tinham-lhe colado a etiqueta de “hipótese”—no economês técnico, Efficient market hipothesis) e os práticos – os banqueiros centrais e os governantes – brincaram com a “fantasia” (no dizer do economista L. Randall Wray) de que a política monetária conseguiria uma “grande moderação” dos ciclos, permitindo um crescimento consistente permanente, com a minimização das recessões na economia real e dos estragos em bolsa.

No dia-a-dia, os maestros (como Alan Greenspan, o antigo presidente da Reserva Federal americana) e os homens do leme (os governantes) engendraram várias «bolhas» financeiras sucessivas desde os anos 1980, de que as mais célebres andaram em torno dos hedge funds, depois com as tecnologias digitais (a famosa onda dot-com) e finalmente com o imobiliário.

O ‘pai’ do monetarismo, Milton Friedman, um ano antes de falecer e dois anos antes de rebentar o subprime, ainda elogiava “a experiência natural” com êxito que havia sido a gestão monetária desde os anos 1990 nos EUA (e que serviu de modelo para o resto dos banqueiros centrais). O artigo no Journal of Economic Perspectives (volume 19, nº4) ainda fez furor em 2005. Na realidade, a teoria e prática da “grande moderação” tinha gerado um “consenso monetário” que dominou à direita e à esquerda governantes na OCDE.

Friedman seria poupado à vingança do mercado, que como uma mão invisível colocou um ponto final na fantasia. E essa estranha “mistura” de monetarismo e keynesianismo bastardo que nos governou soçobrou.

E Alan Greenspan, o Maestro, tentou passar como um camelo pelo buraco de uma agulha, aconselhado, aliás, por um spin doctor, o consultor de relações públicas David Dreyer. Quando foi interrogado pelo Congresso em Outubro de 2008 (já depois do choque do tsunami provocado pela falência do Lehman em Setembro), Greenspan admitiu um “erro” (que nós ingénuos ouviremos sem pestanejar): “Cometi o erro de presumir que o interesse próprio das organizações, sobretudo dos bancos e outros, era tal que seriam capazes de proteger os seus próprios accionistas e os activos das suas firmas”. Rematou que estava “chocado” com o que sucedera e concluiu com ar modesto: “Ainda não compreendi totalmente porque aconteceu”.

O presidente do Comité do Congresso, o democrata Henry Waxman, no entanto, apertou-o: “Por outras palavras, descobriu que a sua visão do mundo, a sua ideologia não estava certa. Não funcionava”. A que Greenspan, o sofrido penitente, respondeu: “Precisamente. É essa a razão, justamente, porque estou chocado, porque vivi quarenta anos ou mais com a evidência considerável de que estava a funcionar excepcionalmente bem”.

Ora este “erro” custou-nos a todos nós muito caro. É claro que beneficiou todos os que adoraram o “erro” do Maestro.

2- O capital financeiro não está imunizado

Os historiadores económicos vão recordar os últimos trinta anos como a era da ‘financeirização’ (mais um palavrão derivado do inglês financialization) ao extremo da economia mundial e em particular das economias da OCDE.

Um indicador que é usado, o do peso dos activos financeiros no PIB (financial deepening, no jargão técnico), revela que, em média, os países desenvolvidos, antes do rebentar da crise em 2007, andavam na casa dos 500%, com exageros como o da Irlanda nos 900% ou do Reino Unido ou França nos 700% – na verdade muito mais do que os EUA (o “pai” da inovação financeira nos últimos vinte anos graças aos boys da Wall Street).

Por cima das teorias económicas, emergiu, assim, uma expansão jamais vista de um sistema baseado na maximização de rendas financeiras (alguém já deu dele esta imagem: “uma enorme parada de angariadores de rendas” [Akerlof e Shiller, Animal Spirits, 2009], um sistema viciado nos fees a todos os níveis e em todos os nichos e segmentos possíveis) e um capitalismo financeiro pujante como já não se via desde os finais do século XIX e inícios do século XX quando o economista Rudolf Hilferding baptizou a nova realidade capitalista de “capital financeiro” (e deu título a um livro que desde 1910 se tornou famoso).

A memória dos super-pânicos e das grandes crises financeiras foi-se apagando (1873 foi no tempo dos nossos bisavós ou trisavós e 1929 no tempo dos nossos avós ou bisavós) e gerou-se a ideia de que o capital financeiro estava imune a crises globais. Os sinais dos anos 1980 e 1990 foram menorizados – eram coisas localizadas (ou num só país, como o Japão, ou nos desgraçados países do terceiro mundo, ou focalizados num segmento muito específico da finança como os hedge funds ou as tecnológicas).

Apenas um economista, iconoclasta, remava contra a maré. Com um nome estranho, Hyman Minsky, dizia que o capitalismo financeiro sofria do mesmo mal do capitalismo industrial (que Karl Marx havia analisado), tinha a instabilidade e a fragilidade inscrita no seu ADN. Não estava imune a crises globais e sistémicas. Assim se está a ver.

Mas Minsky (que faleceu em 1996) disse ainda outra coisa perturbadora: o capitalismo financeiro vive de se alimentar de ‘bolhas’ como os vampiros de sangue. Sempre que a oportunidade surge (nomeadamente com legislação favorável) rapidamente se adapta como uma espécie darwiniana, e renasce das cinzas.

Não admira, por isso, que, mesmo, agora, no meio do maior desencanto público em relação ao capital financeiro, ele explore o nicho de um ‘keynesianismo bastardo’ estatal (quer no Ocidente como na China) e amanhã possa reviver com a ‘bolha’ seguinte alavancada em algum sector tecnológico (já se começaram a aceitar apostas)… até que a crise financeira regresse.

3- A geopolítica está sempre a surpreender-nos

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a morte do G7 (o ‘clube’ dos sete países considerados os mais ricos do mundo, criado em 1976) ou a hipótese de contestação do papel internacional do dólar norte-americano. Esta crise trouxe como prendas geopolíticas a ascensão do G20 (o grupo de 20 países que reúne 80% da economia mundial), e em particular a afirmação política do ‘clube’ dos quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), bem como o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

A liquidação do papel do G7 (que associou a Rússia desde 1997 nas cimeiras de chefes de Estado, tendo passado a ser designado por G8) ficou particularmente visível depois da cimeira em L’Aquila, Itália, de 8 a 10 de Julho passado. Pouco depois, a 16 de Julho, em Yekaterimburgo, na Rússia, os BRIC realizariam a sua primeira cimeira oficial a pretexto da crise. A próxima cimeira está prevista para o Brasil em 2010. Em apenas oito anos, os BRIC passaram de uma criação literária da Goldman Sachs projectada como nova geografia do poder económico para depois dos anos 2020 para uma realidade política que aproveitou a oportunidade desta crise inesperada.

O mundo deixou de poder ser analisado pela lente do “unipolarismo” (a tal hegemonia a solo dos Estados Unidos reforçada desde a implosão da União Soviética) ou pela divisão entre “globalizadores” e “anti-globalizadores”. O Planeta é algo bem mais complexo.

O académico Joseph Nye ainda, recentemente, aconselhava a “ler-se” a geo-economia e a geopolítica como se fossem um jogo de xadrez tridimensional. Ao nível de topo, o poder militar (o tal hard power decisivo para a projecção de poder) entre grandes potências continua a ser unipolar (os EUA continuam, ainda, a liderar a larga distância); no patamar do meio, das relações entre grandes economias, o mundo é hoje claramente multipolar e tem-no sido desde há uma década; ao nível mais baixo, das relações transnacionais, a globalização trouxe um resultado inesperado, um poder caoticamente distribuído e difuso onde se movem múltiplos actores não-estatais.

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a hipótese de contestação pública do papel internacional do dólar norte-americano.

Esta crise trouxe como uma das prendas geopolíticas o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

O subir de tom em relação à divisa americana surgiu por ocasião da mais recente reunião (Abril 2009) do G20 (o grupo que reúne os países considerados mais ricos agrupados no G7 e um vasto grupo de países emergentes ou intermédios).

Os BRIC (o clube dos três grandes emergentes, Brasil, Índia e China, e da Rússia, a ex-superpotência procurando reemergir) juntaram a voz em relação aos riscos que o sistema financeiro mundial hoje defronta ao continuar a estar baseado no dólar desde os acordos de Bretton Woods em 1944. Esses quatro países detêm 42% das reservas internacionais, o que significa hoje em dia que uma fatia considerável das reservas mundiais está fora do G7.

A futura estrela ascendente: os SDR

Os críticos do dólar temem o colapso desta divisa e o tsunami que desencadeará e avançam com uma solução de dar mais peso progressivo no comércio internacional e no sistema financeiro mundial aos direitos especiais de saque (SDR, acrónimo para special drawing rights), uma unidade de conta do Fundo Monetário Internacional (FMI) que se baseia num cabaz de quatro divisas (44% para o dólar, 34% para o euro, 11% para o iene japonês e 11% para a libra inglesa, segundo a repartição para o quinquénio que termina em 2010).

O governador do banco central da China chegou a teorizar o assunto em Março (de 2009) provocando, momentaneamente, uma hesitação e uma gafe do novo secretário do Tesouro norte-americano escolhido pelo presidente Obama. A escorregadela do secretário americano (admitindo a hipótese chinesa como discutível) foi logo corrigida – Washington e Wall Street não estão, ainda, na onda de recuo.

O banqueiro central chinês Zhou Xiaochuan chegou mesmo a propor um “plano” de passos a tomar: o uso dos SDR na fixação de preços das commodities (que hoje estão dolarizadas); o lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; e a criação de um fundo aberto denominado em SDR.

A “lição de finanças” do governador chinês foi encarada como um testar das águas e um aviso à navegação de que a China prepara uma estratégia de fuga à armadilha do dólar em que se enredou nos últimos vinte anos.

Na cimeira do G20 de Abril passado, o FMI foi autorizado a emitir mais 250 mil milhões de dólares em novos direitos especiais de saque no sentido de aumentar as reservas daquele fundo. Vários países já anunciaram a disposição de aumentar as suas reservas no FMI, com a China na liderança, envolvendo 7,3 mil milhões de dólares, a Rússia 6,9, a Índia 4,8, o Brasil 3,5 e a Coreia do Sul 3,4. No entanto, isso dependerá da renegociação dos votos das várias grandes potências no seio do fundo. É esperado que o Japão, a China, a Índia e o Brasil aumentem o seu peso decisório.

Em contraste, a China, entre o final de 2008 e o final do Verão de 2009, segundo o grupo de consultoria francês LEAP/E2020, terá disposto de 600 mil milhões de dólares de activos denominados em dólares que aplicou em compras de activos em recursos estratégicos e empréstimos a países com acordos estratégicos um pouco por todo o mundo (exceptuando, et pour cause, os EUA) e terá abdicado de comprar obrigações do Tesouro americano na ordem dos 500 mil milhões a 1 bilião de dólares, começando a tirar o tapete aos americanos.

Situação de impasse

A situação actual é, por isso, de impasse, sublinha Jane D’Arista, uma especialista em história do sistema monetário internacional, investigadora do Political Economy Research Institute, da Universidade do Massachusetts, nos Estados Unidos.

“A incapacidade das famílias americanas continuarem a carregar o fardo de consumidor de último recurso da economia mundial, acabou efectivamente com o século do dólar”, diz a investigadora americana com algum humor. “O problema é que não há divisa que o substitua. Mas essa falência de se avançar com um novo sistema será um factor de manutenção da recessão global e de contínua vulnerabilidade a crises”, acrescenta.

Uma situação deste tipo não é nova – ocorreu nos anos 1930 com o declínio da libra esterlina. E só se resolveu com as alterações no plano geopolítico que ocorreriam nas duas décadas seguintes, recorda a investigadora num estudo que publicou recentemente no Cambridge Journal of Economics. Jane acha que a Zona Euro – que poderá ser fortemente atingida pelo colapso do dólar dada a colaterização das suas dívidas públicas – não está interessada em substituir o dólar, apesar de algumas vozes nesse sentido. “Na minha opinião, deveriam ser os próprios Estados Unidos a tomar a iniciativa da reforma do sistema”, conclui a investigadora.

O exemplo inglês vem logo à memória. Apesar da proposta de John Maynard Keynes, em representação do império britânico, ter sido derrotada em Bretton-Woods pelas manobras americanas que acabaram por impor o dólar “como Sol do sistema solar financeiro”, o famoso economista inglês foi um exemplo de tenacidade, mesmo num contexto geopolítico adverso e apesar de doente. Via Lisboa, ele viajou, desde 1941, umas seis vezes para os EUA, empolgado na sua cruzada.

Os chineses recordam hoje que, provavelmente, a proposta de Keynes de uma unidade de conta internacional (que baptizou de ‘bancor’), baseada num sistema multilateral, teria sido mais «sagaz» do que a imposição de um sistema apoiado numa divisa nacional dominante, sujeita aos ciclos e políticas dessa potência.

Ideia central: O espírito capitalista do chinês comum ultrapassou as reformas imaginadas por Deng Xiaoping e pelos burocratas do partido desde 1978.

A desobediência civil made in China

O maior actor político dos últimos trinta anos de reformas na China não foi o Partido Comunista nem a elite em torno de Deng XiaoPing, considerado o timoneiro da viragem entre 1978 e 1992. Foi a “desobediência civil” do chinês comum, diz o analista americano Gordon Chang.

Ou seja, os milhões de chineses – camponeses, quadros do Partido ou do exército, gestores de empresas estatais, professores universitários, jovens profissionais urbanos, simples artesãos e comerciantes de rua – que com o seu espírito capitalista ancestral entraram, de rompante, por todos os «interstícios» e nichos criados pelas sucessivas reformas e pelos famosos apelos de “criem todos um negócio” e “ficar rico é glorioso”. Algo que deixa de ser paradoxal se tivermos em conta que a China foi a pátria da economia mercantil e do papel-moeda nos séculos X e XI da dinastia Sung.

Essa revolução de rua ocorreu sobretudo depois da decisão de Deng em 1992, já com 88 anos, de inventar legalmente um híbrido a que deu o nome de “economia de mercado socialista”. Deng, nessa altura, convenceu os burocratas a largarem o insustentável modelo de “economia mercantil baseada na propriedade pública e na planificação”, aprovado em 1984.

Não é de admirar, por isso, que os leitores dos 15 jornais mais importantes do país tenham escolhido, agora, por ocasião dos 30 anos sobre a 11ª reunião do Comité Central do Partido Comunista da China em 1978, o «slogan» “criem todos um negócio” e duas figuras sociais emergentes (os trabalhadores migrantes e os internautas) como algumas das imagens e frases mais populares, segundo a Xinhua.

A janela de oportunidade

O ponto de inflexão na história recente chinesa ocorreu em 1976, após a morte de Mao Zedong. O país estagnara desde os anos 1950 em termos de peso económico mundial e estava exausto com a Revolução Cultural. A linha reformista esmagou a facção maoista em 1978 e abriu, ainda que timidamente, a caixa de Pandora do capitalismo num processo evolutivo até 1989, dentro da ideia de um programa de “quatro modernizações” até ao ano 2000.

Paradoxalmente, a chacina de Tiananmen em Junho de 1989, esmagando o segundo movimento democrático na China pós-Mao (o primeiro decorrera entre 1978 e 1979 e ficou conhecido por ‘Muro da Democracia’ numa esquina da mesma Praça central de Beijing) acelerou a revolução capitalista. A Queda simbólica do Muro de Berlim em Novembro desse ano e a posterior implosão da União Soviética em Dezembro de 1991 abriram à China uma oportunidade única – o fim do mundo bipolar.

Data dessa altura, segundo Dylan Kissane, um especialista em ciclos longos, a emergência de uma agenda de grande potência pela liderança chinesa, ainda em vida de Deng. Na mesma ocasião, a transformação económica deu um passo decisivo em frente. O capitalismo híbrido que Deng desenhou em 1992 rapidamente ultrapassou o que o pequeno timoneiro alguma vez imaginara. “A abertura ao exterior e a criação de um sector privado são as maiores conquistas”, sublinha o analista chinês Zhibin Gu, autor de Made in China.

A segunda maior economia do mundo

O salto do peso da China na economia global é o maior dos últimos trinta anos à escala mundial. Passou de menos de 5% nos anos 1970 para cerca de 11% actualmente. Em 1973, quando atingiu o ponto mais baixo da sua história em termos de parcela do PIB mundial, a China “valia” 1/5 do peso da economia americana – em trinta anos passou para ½ e alcandorou-se ao segundo lugar, logo a seguir aos Estados Unidos, se o PIB for medido em paridade de poder de compra (ppc, um indicador mais correcto do que a avaliação em termos nominais).

Se for excluída a União Europeia (UE) como um todo, a China está à frente (em PIB em ppc) do Japão e da Alemanha, um facto que ainda não foi assimilado pelos analistas «ocidentais». Em 2020 deverá ultrapassar os EUA, segundo um estudo do The Economist Intelligence Unit (´Foresight 2020’).

Fruto desse crescimento para mais do dobro do peso relativo mundial em trinta anos, graças a taxas de crescimento anuais muito elevadas (mais de 7% em média desde 1973), a China tornou-se na locomotiva económica e financeira do mundo. A sua contribuição para o crescimento mundial anual é a maior entre todas as grandes potências (e continuará a ser até 2020 segundo o The Economist, cerca de 26% contra 16% dos EUA e 12% da Índia) e em termos financeiros – incluindo a China e a sua região autónoma especial de Hong Kong – detém as maiores reservas em divisas estrangeiras (o dobro do Japão e mais do triplo das da UE) e é o principal detentor da dívida nacional dos Estados Unidos detida por estrangeiros (22,6% contra 20% pelo Japão).

A China pode ter chegado, agora, a um ponto crítico – 2009 pode ser o primeiro ano de grande arrefecimento do seu crescimento, ironicamente quando a implantação da República Popular da China fará 60 anos e o massacre de Tiananmen o seu vigésimo aniversário. É assunto que abordaremos em próximo artigo.

NÚMEROS PARADOXAIS

210 Milhões de trabalhadores migrantes em 2008. Três vezes mais do que em 1992. Atribui-se a esta arraia-miúda, sobre explorada, a geração de 1/5 do PIB chinês nos últimos trinta anos

263 Milhões é o número de cibernautas chineses, a maior comunidade do mundo, segundo os dados do Data Center of China Internet

10,8% é o peso da economia chinesa no PIB mundial. Em segundo lugar, depois dos EUA. Ainda longe dos 33% de 1820 ou dos 25% em 1500. A China foi a maior potência económica do mundo durante quase 400 anos.

FACTOS SEM APELO NEM AGRAVO

. A China (incluindo Hong Kong) detém 2 biliões de dólares (1,4 milhões de milhões de euros) em divisas estrangeiras, o dobro do Japão e mais do triplo da União Europeia

. A redução do nível de miséria passou de 60% da população rural abaixo da linha de pobreza nos anos 1970 para menos de 10% actualmente, segundo o Banco Mundial

. 2/3 da produção fabril e 1/3 da economia chinesa estão em mãos de capitalistas privados

. Mas 120 mil empresas do Estado dominam os sectores ditos estratégicos (banca, telecomunicações, energia e «media») e servem de braço armado da globalização

. A China é o terceiro país do mundo a gastar mais Investigação & Desenvolvimento em relação ao PIB (13%) na área da computação e electrónica, depois dos EUA (23%) e do Japão (16%), segundo o Global Innovation 1000 da Booz & Co

. A China é uma economia aberta ao exterior – as exportações pesam 38% no PIB (ligeiramente superior ao indicador português que está em 37%)

. 29 multinacionais chinesas (incluindo as de Hong Kong), 19 das quais estatais, classificam-se entre a lista da Fortune das 500 maiores do mundo; a Sinopec (petróleos) é a mais bem posicionada, em 16º lugar; a Índia tem apenas 7, o Brasil 5, a Rússia 5, e Portugal 1.

. Os muito ricos da China chegaram aos 400, mas os multimilionários desceram de 66 em 2007 para 24 este ano (Portugal tem 4 nesta lista), devido à quebra de 60% nas bolsas chinesas e de 50% em Hong Kong, segundo a listagem da Forbes. O mais rico da China é Liu Yongxing, de 60 anos, dono do conglomerado privado East Hope Group, de Xangai, que começou como um negócio de aviário em 1982

O relatório do Banco Mundial caiu como uma bomba. A economia mundial está sem grande esperança para o próximo ano, dizem as ‘Perspectivas Económicas Globais para 2009’, acabadas de publicar por aquele organismo internacional. O crescimento estimado é inferior a 1%, uma quebra em relação a este ano de 64% e de 76% em relação a 2007. Com a agravante, de ser feito um aviso – não se pode descartar a hipótese que a situação já de si medíocre resvale para a estagnação pura ou mesmo para uma recessão global.

A situação de alarme deriva dos países desenvolvidos (de alto rendimento per capita) entrarem quase todos em recessão em 2009 – com as situações mais graves na Zona Euro (decréscimo de 0,6%) e nos Estados Unidos (decréscimo de 0,5%) – e dos países emergentes e em desenvolvimento sofrerem no próximo ano um abrandamento económico significativo que levará a um crescimento de apenas 4,5%, quando este ano deverá fechar acima de 6% e em 2007 cresceu quase 8% (ver quadro).

Os BRIC, em particular, sofrerão um abrandamento significativo nos casos do Brasil (desacelera o seu crescimento em 46%) e Rússia (50%, a desaceleração mais grave do grupo) e menor nos casos da China (21%) e Índia (8%). No entanto, é preciso ter em conta que a China é hoje a terceira economia mundial (depois dos EUA e da Europa). O que vai trazer implicações geopolíticas nas suas estratégias de afirmação mundial.

Este abrandamento geral vai gerar uma contracção em 2009 no volume de comércio global de 2,1%, depois de este ter crescido significativamente em alguns dos anos de ouro da última vaga da globalização – quase 10% em 2006, 7,5% em 2007 e 6,2% esperado para 2008. A confirmar-se será uma situação que não se verificava desde 1982, afirma o Banco Mundial.

As pressões em baixa na procura mundial vão levar a uma tendência para o decréscimo anual médio dos preços das matérias-primas básicas. As matérias-primas básicas excluindo o crude deverão ver os seus preços cair 23,2%, ao longo de 2009, em média anual, e continuarão a cair em 2010, ainda que ligeiramente.

Por seu lado, o preço do petróleo cairá 26,4% em 2009, devendo depois subir ligeiramente no ano seguinte. Como o preço médio anual do barril de Brent em 2008 deverá ser de 100 dólares, a estimativa para 2009 aponta para 75 dólares em média anual, o que significa que os preços do mês de Dezembro de 2008 (entre o mínimo de 39 e o máximo de 49 dólares o barril) não poderão manter-se tão baixos no próximo ano, no cenário desenhado pelo Banco Mundial.

Uma imagem vale por mil palavras, costuma dizer-se. E, em diplomacia, provavelmente vale muito mais.

Algumas das fotos mais difundidas da recente cimeira de Washington do G 20, nos dias 14 e 15 de Novembro, falam, de facto, por si. Na foto de família, o protocolo resolveu ladear George W. Bush com os presidentes Lula da Silva, do Brasil, e Hu Jintao, da China. Como no cerimonial do poder mundial nada nasce de caprichos do acaso, o simbolismo representa, sem dúvida, a afirmação de uma nova partilha do poder mundial está em curso.

Os BRIC, um acrónimo criado pela Goldman Sachs em Outubro de 2003 para designar as quatro maiores potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China), deixou de ser «um sonho» (como intitulava o artigo da consultora de há cinco anos atrás) para passar a ser a realidade reclamada pelo próprio comunicado do G 20.

O reconhecimento, finalmente

A cimeira de Washington reconheceu que as instituições internacionais saídas do acordo de Bretton Woods de 1944 (em que se incluem o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial), para manterem “a sua legitimidade e eficácia”, têm de ser reformadas de modo a “mais adequadamente reflectirem a mudança no peso económico” das várias grandes potências.

Basta olhar para as mudanças de peso relativo (ver quadro 1) para se observar que, à excepção da Rússia (depois da dissolução da URSS em 1991), os BRIC aumentaram o seu peso relativo no PIB mundial (medido em paridade de poder de compra) nos últimos quinze anos – com destaque para a China que é hoje a terceira economia do mundo (depois dos Estados Unidos e da União Europeia) e para a Índia que ultrapassou a Rússia. Os «media», em geral, continuam a falar do Japão como terceira (ou segunda, se não se considerar a UE como um todo) economia mundial, ignorando esta mudança decisiva.

Uma guerra contra a rigidez das instituições

A «guerra» geoeconómica de afirmação dos BRIC joga-se em vários tabuleiros e o jogo de ganhos e perdas vai observar-se ainda durante este ano e seguramente no próximo, com uma «batalha» importante na nova cimeira do G 20 marcada para 30 de Abril de 2009.

Ainda este ano, há que acompanhar com atenção o que irá decorrer no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Com base na trégua de um ano acordada, agora, em Washington para evitar decisões políticas de proteccionismo em matéria de investimentos e comércio internacional, a Ronda de Doha vai ser ressuscitada a 10 de Dezembro. Como se sabe foi a dupla China-Índia que abortou a conclusão da Ronda em Julho passado e a Índia já havia boicotado as negociações finais em Julho de 2006 na cimeira de Genebra daquela reunião ministerial.

A incógnita é saber se o grupo informal do G7 criado em 1976 (EUA, Canadá, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Japão, ou G8, incluindo a Rússia) será definitivamente arrumado no armário do pós-guerra e se um fórum mais “actualizado” surgirá.

A actual crise financeira mundial, e a manifesta incapacidade desse grupo lidar com ela, parece abrir caminho a que essa seja “a primeira rigidez do actual sistema internacional a ser removida”, diz-nos Thomas Bobinger, um jovem especialista alemão em legislação e política de segurança internacional, que trabalha no Instituto Alemão de Direitos Humanos, em Berlim, e que estudou recentemente o papel dos BRIC no novo xadrez do poder, aplicando a teoria dos ciclos de potência nas relações internacionais, em particular a metodologia do projecto «Correlates of War», da Universidade do Michigan.

Inclusive não será de descartar a hipótese da crise financeira «acelerar» o desenvolvimento de algumas tendências de mudança do xadrez geopolítico e geoeconómico.

Uma cimeira dos BRIC poderá realizar-se em 2009 na Rússia, segundo uma proposta que terá sido discutida entre o presidente brasileiro e o russo na recente visita deste último ao Brasil em Novembro.

Uns mais iguais do que outros

Nesse tabuleiro, estão, também, naturalmente as questões de geopolítica, que se prendem com os novos lugares permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Thomas Bobinger, que avaliou as pretensões do designado G 4 (Brasil, Japão, Índia e Alemanha) para se juntar aos cinco permanentes (EUA, Reino Unido, China, França e Rússia, que têm direito de veto), verificou, no seu estudo, que entre os quatro BRIC há uns mais iguais do que outros.

Um dos factos curiosos que Bobinger sublinha, desde logo, é que entre os cinco permanentes das Nações Unidas, apenas a China é uma grande potência em ascensão nos últimos trinta anos, tendo-se assistido ao declínio moderado dos EUA e muito acentuado dos outros três.

Por outro lado, entre os quatro BRIC nota-se uma discrepância, em termos de poder relativo, entre a China – cujos gastos de Defesa a colocam hoje em número dois em termos de peso mundial e com uma grande margem de crescimento em termos de parcela do seu PIB (ver quadro 2) – e os outros três grandes emergentes.

Acresce que a China é, desde Setembro, o maior credor dos Estados Unidos, tendo ultrapassado o Japão: “A China é o banqueiro americano”, diz Fareed Zakaria. Salvas as devidas proporções, algo que faz recordar o momento em que os Estados Unidos se tornaram o principal credor da Inglaterra, então a potência incumbente.

O elo mais crítico

O caso mais problemático, entre os BRIC, é o da Rússia. A sua quebra de poder relativo desde a «perestroika» é abissal – a Rússia caiu em 1998 para 1/3 do poder da antiga superpotência e, apesar da recuperação económica, política e militar com o consulado Putin e de ter um Índice de Desenvolvimento Humano superior aos outros três (ver quadro 3), o seu poder relativo é hoje, ainda, inferior ao da China e, segundo alguns, ao da Índia em termos de curvas de potência.

Bobinger aconselha, por isso, um acompanhamento da trajectória daquele país euro-asiático. Um dos cenários é de um maior risco de turbulência mundial poderá vir, no médio prazo, do desfasamento entre a imagem de poder que as elites russas reclamam que devem voltar a ter (uma hipótese a seguir é avaliar se a Rússia quererá eventualmente restaurar o lugar num núcleo restrito de superpotências, eventualmente uma «troika» com os EUA e a China) e a realidade do poder objectivo (económico, militar e político) que conseguirão alcançar com base no Plano Medvedev até 2020 apresentado em Setembro passado.

Recordemos alguns objectivos desse plano: estado de prontidão permanente; corrida tecnológica no armamento; superioridade aérea; dissuasão nuclear de novo na ordem do dia; militarização do espaço; posicionamento em nichos geográficos no mundo – saltam à vista as Caraíbas (as recentes manobras no Mar das Caraíbas da operação ‘Venrus 2008‘ com a participação de quatro barcos russos a seguir à visita de Medvedev a Caracas em Novembro de 2008 são um primeiro exemplo) e, em geral, a América Latina sensível à grande potência do Norte, o Magrebe e o Árctico -; e, finalmente, o reforço em pontos estratégicos como Sacalina e Península de Kamechateca e os Mares Negro, Cáspio e Báltico.

A teoria da «ascensão do resto»

A afirmação dos BRIC levou os americanos a desenvolverem, recentemente, um novo quadro mental geopolítico em que o «unipolarismo» é substituído pela aceitação de uma situação «multipolar» em que a superpotência incumbente se vê confrontada com “a ascensão do resto” («the rise of the rest», na expressão cunhada por Fareed Zakaria).

Esta nova análise permite manter uma ideia central: os EUA não estão em declínio como líder mundial, a sua superioridade económica e militar é ainda significativa, e os seus recursos em «soft power» são ainda enormes, apesar dos estragos de oito anos de Administração Bush. De facto, a fatia de riqueza «agregada» dos quatro BRIC (22,2% do PIB mundial em paridade de poder de compra) é ligeiramente superior à dos EUA (21,3%), mas o seu poder militar «agregado», medido pelas despesas na área da Defesa, ainda é apenas 34% do norte-americano.

Esta síntese sobre a manutenção do núcleo duro do poder mundial dos EUA é bem explicitada pelo académico Joseph Nye – o teórico da Universidade de Harvard que já referimos noutros artigos – numa entrevista à revista Harvard Business Review (Novembro 2008, rubrica ‘Different Voice’), o que o leva a considerar-se um “optimista de longo prazo sobre os Estados Unidos”.

Também o recente relatório do National Intelligence Council (NIC), intitulado Global Trends 2025, se junta a este consenso e «corrige» a visão «optimista» de 2004 em plena época de ouro de George W. Bush – esta entidade pública independente produz um relatório de quatro em quatro anos, e este é claramente uma «prenda» para a reflexão da próxima Administração Obama. Numa resposta na conferência de imprensa de apresentação do relatório, Thomas Fingar, presidente do NIC, explicitou: “Falamos em termos de poder relativo, não absoluto (…) O que sublinhamos, agora, é a ascensão do resto, mais do que o declínio dos EUA. E isto é uma boa coisa”.

Contudo, o xadrez mundial não é elástico. E se sobe o resto, tem de descer a outra parte, sobretudo num horizonte até 2025. Mas isso é extremamente difícil de visualizar pelos americanos – sobretudo, agora, com as elevadas expectativas na Administração Obama. Como nos referiu Joseph Nye: “Penso que Obama mostrou a capacidade para juntar o «hard» e o «soft» na sua estratégia de campanha, o que augura que possa fazer o mesmo numa estratégia internacional de «smart power»”. «Poder inteligente» em geopolítica é a palavra-chave de Nye, a que já nos referimos em artigo anterior e numa entrevista a propósito do seu último livro.

Esta reafirmação da confiança no estatuto de poder dominante no mundo surge, agora, em virtude das acusações de “inexperência” internacional do Presidente-eleito e de haver uma corrente que advoga abertamente – e que o reclama junto de Obama – um plano de «downsizing» do império.

Preocupante, de qualquer modo, a conclusão tirada pelo relatório do NIC: “As rivalidades estratégicas poderão surgir em torno do comércio, dos investimentos e da inovação e aquisição tecnológica, mas não podemos colocar de parte um cenário do tipo do século XIX, com corrida armamentista, expansão territorial e rivalidades militares”. E, mais adiante: “Poderão reemergir tipos de conflitos que estiveram arredados durante algum tempo – como os conflitos por recursos”. Aspectos a que já nos referimos neste blogue.

QUADROS

Quadro 1
Evolução do Peso no PIB mundial (%)
em paridade de poder de compra

em 1991 e 2007

EUA: 19; 21,3
China: 7,4; 11,5
Rússia: 3,8; 3,2
Índia: 3,7; 4,6
Brasil: 2,5; 2,9
Fonte: Banco Mundial

Quadro 2
Gastos em Defesa

Por % mundial; % do PIB nacional; Gasto por militar no activo (milhares de dólares)
EUA: 48,3; 5; 507,8
China: 8,3; 1,6; 55,5
Rússia: 5; 3,3; 53,8
Índia: 1,8; 0,9; 20,3
Brasil: 1,7; 1,4; 84,7
Fonte: SIPRI e Globalissues.org, dados em 20/02/2008

Quadro 3
Índice do Desenvolvimento Humano

Em 1990 e 2005
EUA: 0,976 ; 0,951
Rússia: 0,908; 0,802
Brasil: 0,759; 0,800
China: 0,614; 0,777
Índia: 0,308; 0,619
Fonte: UNDP, relatórios de 1991 e 2007/2008

Síntese: A surpreendente escalada geopolítica da China em 30 anos. As duas grandes potências da Ásia do Pacífico (China e Japão) dominarão 69% do sistema mundial de poder. Mas só a China terá mais poder do que a soma das duas seguintes, Estados Unidos e Japão. É uma mudança brutal. São as tendências que o investigador Dylan Kissane, da Austrália, extrapolou até 2030, a cujo trabalho inicial já nos referimos.

A actual crise financeira já levou muitos analistas e alguns políticos a falarem do ocaso da “superpotência financeira”. Com os Estados Unidos a sofrerem um «crash» severo do Dow Jones como já não se via desde 1974 e manifestando alguma desorientação na forma de lidar com o pânico e a desconfiança nos mercados financeiros, os factos parecem dar razão ao argumento do inexorável declínio americano.

Apesar de se tratar de um sinal óbvio, o investigador Dylan Kissane, da School of International Studies, da Universidade do Sul da Austrália, perto de Adelaide, recomenda alguma cautela. Mas chama a atenção para o período de vinte anos que temos pela frente. A geopolítica vai sofrer profundas alterações, algumas surpreendentes.

O facto mais relevante do estudo prospectivo de Kissane sobre as tendências de evolução no sistema mundial de grandes potências é que a China ultrapassará os Estados Unidos em poder relativo em 2015 – daqui a sete anos. E que esta potência asiática atingirá uma percentagem de poder relativo quase tão grande quanto a soma do poder das duas grandes potências seguintes, os EUA e o Japão. É, de facto, uma mudança brutal.

A reemergência da Ásia

A viragem do eixo do mundo para o Oriente não é novidade. O economista Angus Maddison divulga, desde há anos, cenários que referem que, em 2030, a Ásia dominará 53% do PIB mundial – com a China representando 24%, a Índia 10% e o Japão 3,6%. Já referimos, noutros trabalhos, o seu último livro Contours of The World Economy: 1-2030 AD (publicado pela Oxford University Press, em 2007), bem como o seu sítio na web na Universidade de Groningen.

Perante esse espaço gigante, os Estados Unidos representarão 17%, a União Europeia (ainda a 15) 13% e a Rússia 2%. No fundo, a Ásia (do Índico ao Pacífico) retomaria o seu lugar de primeiro mercado do mundo que havia ocupado desde os séculos IX (68%) ao XVIII (56%).

Contudo, a evolução em termos de PIB não se traduz automaticamente em poder geopolítico e em hegemonia, ainda que haja uma correlação que convém acompanhar de perto.

Também é de ter em conta outro facto – aparentemente paradoxal – de que uma grande potência pode ter um poder geopolítico muito superior ao seu poder económico. Portugal foi, aliás, um caso paradigmático no século XVI – detinha apenas 0,2% do PIB mundial mas dominava o comércio global da época e era a superpotência marítima. O mesmo se passaria com a Holanda no sec. XVII (1,1% do PIB mundial), a potência marítima dominante. O próprio Reino Unido, no auge da Rule Britannia em 1870, detinha, apenas, 9% do PIB mundial.

A extraordinária reemergência económica da Ásia no século XXI aponta, de facto, para uma tendência geopolítica num dado sentido que os estudos de Kissane sobre os ciclos das principais potências comprovam.

As consequências seriam duas:

a) um disparo “logarítmico” do peso da China no xadrez do poder global (passa de 20% este ano para mais do dobro, 45% em 2030!), atingindo um peso desproporcionado que só o Império Britânico dispôs até meados do século XIX e os Estados Unidos episodicamente no pós-2ª Guerra Mundial até meados dos anos 1950; numa geração, em 30 anos, a China triplicaria o seu peso relativo na geopolítica;

b) e uma subida contínua de peso geopolítico do Japão (passa de 17% actualmente para mais de 20%), que, aliás, se tem observado desde os anos 1950, apesar das suas dores económicas desde os anos 1990 e do seu peso no PIB mundial ser muito inferior ao da China, EUA e Europa. Em 2030, o Japão aproxima-se, surpreendentemente, do poder dos EUA, nesta simulação de Kissane.

O declínio americano numa perspectiva longa

A subida dos dois gigantes asiáticos, a par de uma muito ligeira queda do peso dos Estados Unidos (que se manteria, entre hoje e 2030, em torno dos 25% de peso mundial), significa que o ganho asiático não se faz à custa de um futuro dramático e súbito declínio americano.

O declínio americano vem de trás, desde 1966 (quando os EUA pesavam 32%, sendo a superpotência hegemonista). Depois de uma perca de poder face à URSS nos anos 1980 – em que esta atingiria o seu pico histórico -, os EUA recuperam poder depois da implosão do império soviético, tornando-se a famosa “superpotência sozinha”. Mas voltam a declinar a partir de 2001 ainda que lenta e ligeiramente.

Mas se a China e o Japão crescem sem ser à custa dos EUA, isso significa que outras grandes potências actuais perderão, relativamente, muito poder.

Um dos casos – que pode espantar o leitor – é o da Rússia. Apesar da estratégia de Putin desde o final dos anos 1990, do actual Plano militar de Medvedev até 2020 (acompanhado de projecções de poder nas fronteiras da Europa Oriental e provavelmente nas Caraíbas, aproveitando a oportunidade criada pela Venezuela, ou mesmo no espaço Árctico, indo ao ponto de se tornar o salvador financeiro da estratégica Islândia) e da estratégia de criação de um cartel do gás (para poder manipular politicamente este mercado vital), a Rússia não voltará jamais aos 30% de poder que a URSS dispunha no pico dos anos 1980, antes de implodir, e acentuará, ainda mais, o seu declínio a partir de 2015, até se tornar um poder menor.

O ano simbólico de 2015

O ano de 2015 surge, de facto, como um momento simbólico pela convergência de diversos aspectos. A China ultrapassará em peso político mundial os Estados Unidos e o Japão passará claramente adiante da Rússia. O Pacífico, pela primeira vez, torna-se um “lago quente” com quatro grandes potências nos seus bordos – duas em clara ascensão, uma em queda acentuada e outra em declínio ligeiro.

O que poderá resultar deste ponto de convergência é, ainda, uma incógnita, sublinha Dylan Kissane. Significará essa subida ao primeiro lugar que a China abandonará a sua estratégia actual de «soft power» na projecção mundial para passar a uma opção mais agressiva nomeadamente face à superpotência incumbente. Kissane diz-nos que não: “A China não mudará necessariamente a sua estratégia. Mas, a meu ver, pelo menos até 2015, a China tem todos os incentivos para continuar a actual política mais centrada na supremacia económica, na melhoria da imagem, do que no envolvimento militar”.

O investigador radicado na Austrália ainda não introduziu sistematicamente nos seus cenários a União Europeia nem outros BRIC, como a Índia e o Brasil. O modelo com que tem estado a trabalhar é “fechado” às quatro potências referidas. Pelo que a introdução de outras potências alterará, sem dúvida, os pesos relativos, mas não modificará substancialmente as tendências.

Quanto à Europa, o seu poder geopolítico agregado rondaria, actualmente, os 17%, superior ao da Rússia, mas não o suficiente para evitar a vulnerabilidade das fronteiras orientais do continente, o que é designado pelos especialistas como «shatterbelt», ponto de embate entre potências.

Por isso, Kissane considera que a integração política e militar da Europa é a grande interrogação destas duas primeiras décadas e a única saída política para a União Europeia, se não quiser tornar-se num actor irrelevante no cenário do sistema de poder mundial em 2030.

Nota Metodológica
Dylan Kissane em artigo científico recente (“Forecasting the Storm: Cycle Theory and Conflict in the Major Power System”) explica as modificações a que procedeu nos indicadores usados pelos fundadores da teoria dos ciclos de potência, Charles Doran e Wes Parsons, no artigo de 1980 – “War and the Cycle of Relative Power”, publicado na revista American Political Science Review (nº74). Refere, também, as limitações do seu modelo de extrapolação de tendências, que aborda sobretudo a evolução de três grandes potências, China, Japão e EUA.

Um dos campos de batalha comunicacional tem sido a questão do papel dos especuladores no mercado de «commodities», e particularmente no crude. O dedo tem-lhes sido apontado como responsáveis pelo disparo do preço. Para as potências ligadas ao cartel do petróleo e para muitos grupos petrolíferos é um alvo fácil e popular.

Mas terá fundamento? Não, na dimensão que lhe atribuem. O cómico da questão é que é a própria OPEP a contradizer-se.

Paradoxalmente, no período em que assistimos ao maior disparo do preço do crude (meados de Junho a meados de Julho), os especuladores financeiros tinham arrefecido substancialmente a sua intervenção desde há mês e meio no mercado dos «barris de papel».

Os especuladores (fundos e bancos de investimento) tiveram o seu período mais quente entre meados de Fevereiro e final de Maio, com um pico de intervenção, nos primeiros nove meses, na semana de 10 a 14 de Março – ora é sabido que o máximo histórico do preço do crude ocorreu na semana de 31 de Maio a 4 de Julho.

Recorde-se que a OPEP responsabilizou, na altura, a especulação (e a desvalorização do dólar em menor medida) pela alta. Ainda, recentemente, o líbio Abdalla Salem El-Badri, secretário-geral do cartel petrolífero, reafirmou oficialmente tal ponto de vista ao boletim da organização (edição de Setembro 2008): “Em última análise, são os especuladores financeiros e o papel das casas de investimento, juntamente com os «hedge funds», que têm sido os motores da subida dos preços para níveis recorde”.

A ironia é que é a própria OPEP, no seu relatório de finais de Agosto (Monthly Oil Market Report), que publica um gráfico (gráfico nº7, na página 10 do relatório) de evolução dos saldos das posições em milhares de contratos de futuros pelos especuladores (tecnicamente designados por «não-comerciais») no mercado do crude americano WTI em que fica visível a discrepância de um dos picos de intervenção da especulação em Maio e o máximo do preço do barril em Julho.

Um outro estudo do investigador Pedro de Almeida, professor da Universidade da Beira Interior, abrangendo os investimentos dos «não-comerciais» em futuros e opções e contando a partir de Janeiro deste ano, revela o mesmo perfil de divergência das duas curvas.

Contexto político

Esta constatação estatística surge na mesma altura em que o Senado norte-americano discute legislação para limitar a especulação no mercado do crude, depois de vários meses de pressão por parte de políticos e de analistas dos EUA responsabilizando os investidores financeiros de fora do sector de manipularem aquele mercado.

Um dos estudos que tem servido de suporte à campanha é o da Masters Capital Management que afirma ter avaliado dois fluxos “por extrapolação” – um de 60 mil milhões de dólares aplicados por parte de investidores financeiros no mercado de futuros do crude durante os primeiros seis meses e outro de saída posterior no valor de 39 mil milhões. A consultora «cola» automaticamente os dois fluxos ao sobe e desce do preço do barril este ano (artigos sobre o tema aqui). Muitos analistas apontam o dedo à J.P Morgan, Goldman Sachs e Morgan Stanley, que controlam 70% das posições em «swaps» de «commodities».

Contudo, o organismo regulador, a Commodities Futures Trading Commision já por duas vezes rejeitou tal «colagem» feita pela Masters Capital Management alegando não ter fundamento técnico – quer num relatório de 23 de Julho como mais recentemente a 11 de Setembro.

Num artigo publicado no International Herald Tribune, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger e Martin Feldstein, professor de economia da Universidade de Harvard e ex-conselheiro de Ronald Reagan, apelam a que os Estados Unidos promovam uma aliança política dos “principais países consumidores” de petróleo que altere o actual desequilíbrio no mercado energético a favor da OPEP.

O político norte-americano propõe a criação de um grupo de coordenação entre o Grupo dos 7 mais desenvolvidos (o G7 é formado pela Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), com a Índia, a China e o Brasil, para o qual a Rússia deverá “ser convidada a participar neste esforço”. Esta ‘deixa’ para o convite da Rússia choca, naturalmente, com algumas ambições desta potência para criar um cartel similar ao da OPEP no sector do gás natural e face à sua presença como observador nas reuniões do cartel petrolífero.

O objectivo político é claro: alterar as tendências de longo prazo neste mercado, reduzindo o preço do barril do ponto de vista imediato, e “terminar com a chantagem dos fortes [do crude] sobre os fracos”.

Esta cooperação deverá incluir intervenções de emergência para contra-atacar boicotes selectivos ou interrupções de fornecimentos.

Intitulado “The Rising danger of high oil prices”, Kissinger refere as “enormes” consequências geopolíticas que estão a decorrer da escalada do preço do barril de petróleo, permitindo o fortalecimento da liquidez financeira dos países exportadores, o reforço do seu papel monopolista neste mercado (que se tornou um mercado dominado pelos vendedores), e as oportunidades geopolíticas que abre a esse grupo para intervir “desproporcionadamente” na cena mundial, directa ou indirectamente.

Apesar da última reunião da OPEP, realizada dia 9 de Setembro, ter revelado linhas de fractura interna (com a Arábia Saudita a contradizer no dia seguinte nos meios diplomáticos a resolução de “corte” na quota global de produção pelo cartel nos próximos quarenta dias), o ataque político de Kissinger deverá provocar alguma onda de choque.

Kissinger, hoje com 85 anos, foi secretário de Estado dos presidentes americanos Nixon e Ford entre 1973 e 1977 e conselheiro de Segurança Nacional entre 1969 e 1975.

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