Choque petrolífero


O preço do barril de Brent, o petróleo de referência na Europa, atingiu terça-feira (13 de março) os 96,63 euros, no valor de fecho, segundo dados do Finanzen.ch. Durante o dia havia atingido 97,04 euros, o segundo valor mais alto, depois desse máximo intra-diário ter sido fixado em 98,27 euros no dia 1 de março. Hoje, o preço do barril abriu ligeiramente em baixa.

A atenção na Europa deixou de se focalizar no preço em dólares do Brent, que está num patamar de 125 dólares por barril. Apesar do preço em dólares ainda estar longe dos máximos do verão de 2008 (perto dos 147 dólares por barril de Brent), em virtude da variação no cambio entre o euro e o dólar, o contravalor em euros do preço do barril de Brent está hoje mais alto do que na altura do “choque petrolífero” de meados de há quatro anos.

A Europa está a viver um verdadeiro “choque petrolífero” regional.

Em Paris, pela primeira vez, a gasolina sem chumbo de 95 octanas atingiu um preço de 2,02 euros por litro numa estação de serviço do 4º bairro.

O barril de petróleo da variedade Brent atingiu quinta-feira um novo máximo histórico no contravalor em euros, estando em €94,55, segundo dados do site finanzen.ch para as 22H30 (hora de Portugal). Um valor superior aos 93,89 euros atingidos no verão quente de 2008, quando o barril de Brent fechou em 147,5 dólares a 3 de julho. Na semana passada, a 24 de fevereiro, fechara em €93,25, já próximo do máximo de 2008.

Uma notícia dada hoje, em inglês, pela Press TV iraniana, de que teria ocorrido hoje uma explosão num oleoduto na Arábia Saudita, apesar de logo desmentida pelos sauditas, foi o suficiente para manter elevada a especulação nos preços quer do barril de Brent como da variedade norte-americana WTI.

O valor em dólares (o valor de cotação desta mercadoria nos mercados internacionais) para o barril de Brent está em 126,36, segundo dados da Bloomberg ao final da noite. A diferença entre o verão quente de 2008 e hoje é o câmbio, com o euro valendo menos dólares.Tendo fechado 2011 abaixo dos 110 dólares por barril, o preço do barril de Brent tem vindo a subir consistentemente este ano. Na terceira semana de fevereiro ultrapassou a barreira dos 120 dólares e desde essa altura não deixou de subir.

À espera do limiar dos 100 euros por barril

Os analistas deste mercado seguem, agora, as oscilações destes preços do barril de Brent, escrutinando o momento em que ultrapasse o limiar dos 100 euros (o que equivalerá a um patamar acima de 130 dólares).

Em virtude da diferença cambial atual, a zona euro corre o risco de sofrer um “choque petrolífero” regional, com os preços do barril de Brent no contravalor em euros muito acima dos máximos de 2008, quando ocorreu uma dupla situação: um choque petrolífero na primeira metade do ano e um contrachoque, com uma queda brutal do preço do barril, na segunda metade do ano que viria a assistir, em simultâneo, ao pico da crise financeira global.

Esta subida desde a terceira semana de fevereiro deriva da incerteza sobre três produtores do Magrebe e do Médio Oriente: Irão (que tomou a iniciativa de cortar as exportações de petróleo para os maiores importadores da União Europeia, em resposta ao aprazado embargo), Iraque (continua a ser um terreno incerto para as companhias petrolíferas) e Líbia (com o risco de divisão do país), refere-nos Luís de Sousa, do blogue “The Oil Drum”. No caso do Irão, julho será o mês decisivo para se avaliar o efeito das sanções ao Irão que entrarão em vigor e da resposta de Teerão.

É uma das incógnitas de 2012. O Irão tem estado em foco por uma convergência de episódios e decisões. E o estreito de Ormuz surgiu como peça destes jogos de nervos.

Durante 10 dias, a marinha iraniana desenvolveu o “Velayat 90″, um conjunto de exercícios militares navais que se estenderam pelo Golfo do Pérsico, Golfo de Omã e Mar Arábico. Os exercícios colocaram as forças iranianas na proximidade da 5ª Esquadra norte-americana que opera a partir do Bahrain.

No final do ano, os EUA aprovaram sanções contra o Irão que penalizarão fortemente os clientes do petróleo iraniano, entre os quais se encontram, em 85% dos casos, asiáticos e, em 17%, países da União Europeia, com destaque para a Grécia, Itália e Espanha. O presidente Obama assinou uma lei que impede o acesso ao sistema financeiro norte-americano por parte de todos os bancos estrangeiros que realizem operações com o banco central do Irão.

Em simultâneo, estrategos norte-americanos referem ser o momento certo para um ataque cirúrgico a alvos do projeto nuclear no Irão. “Na hora de atacar o Irão – porque razão um ataque é a menor das piores opções” é o título de um dos artigos simbólicos desta ótica, escrito por Mathew Kroenig, do Council of Foreign Relations norte-americano, na edição de janeiro/fevereiro da revista Foreign Affairs, acabada de publicar.

“Linha vermelha”

O vice-presidente iraniano falou, durante os exercícios, de bloquear o Estreito de Ormuz se as sanções se impuserem efectivamente. O estreito é um corredor que a Energy Information Administration considera “o mais importante ferrolho do petróleo” do mundo. Por ele passa um pouco mais de 1/3 do petróleo transportado por via marítima.

Durante a guerra do Irão e do Iraque, nos anos 1980, os iranianos minaram as águas do estreito e comandos em barcos de borracha atacaram petroleiros. Uma brincadeira comparada com a capacidade atual iraniana. “[Fechar o estreito] é tão fácil como beber um copo de água”, disse o almirante iraniano Habibollah Sayari.

Mas, como se verificou nestes exercícios, o estreito pode ser afetado a partir do Golfo do Omã, a sul do Estreito, que é ladeado pelo Irão e pelo Omã. Os exercícios navais recentes pretendem projetar a capacidade iraniana também no Índico ocidental.

O secretário de Estado da Defesa norte-americano, Leon Panneta, afirmou a 8 de janeiro na cadeia norte-americana CBS que, se o Irão bloquear o estreito, os EUA entrarão em campo para anular o bloqueio. “É uma outra linha vermelha” que os iranianos não poderão ultrapassar, disse.

O Dragão no chatrang

O xadrez da zona é muito complexo. Os iranianos jogam xadrez desde há 1400 anos quando o jogo era conhecido pelo nome de chatrang, em persa (do livro Mâdayân î chatrang - Livro de xadrez – do século VII).

Uma das peças do tabuleiro de hoje é a China, o cliente principal, que importa 21% do petróleo iraniano exportado. O Irão, que fornece 11,4% das importações petrolíferas chinesas, é o terceiro fornecedor da China, depois de Arábia Saudita (que fornece 20,5%) e Angola (que fornece 15,8%). As empresas chinesas são os principais investidores no sector energético iraniano. A China importa, ainda, 12,8% do Omã, Iraque e Kuwait.

A própria Europa “periférica” mediterrânica importa do Irão. A Grécia, na liderança, importa 25% das suas necessidades. Atenas é a capital europeia mais sensível a estes rumores de guerra. Itália importa 13% e Espanha 10%.

Os Estados Unidos importam de três fornecedores da zona – Arábia Saudita, Iraque e Kuwait; no total, apenas 18,2% das suas necessidades.

No calendário destes jogos, o secretário do Tesouro norte-americano desloca-se na próxima semana à China e ao Japão. A Europa, que acordou em princípio seguir a posição norte-americana, deverá tomar uma posição final na cimeira europeia de 30 de janeiro. Mas os próprios europeus discutem um “período de graça” de não aplicação do embargo nos contratos em curso.

Entretanto, novos exercícios navais iranianos estão previstos para fevereiro.

Brent sobe 6 dólares

O preço do barril de Brent, a variedade de referência na Europa, subiu 6 dólares entre o final do ano e hoje. De 107 dólares passou para 113, e está a oscilar em torno desse valor. Alguns analistas falam do risco de um choque petrolífero, se algum dos cenários de guerra se concretizar.

O preço do barril de petróleo tem sido sensível a estes rumores de eventual bloqueio ao estreito ou de operação relâmpago contra as instalações nucleares iranianas. O que pode ainda ser temperado com alguma guerra na Síria, se a NATO aí intervir como o fez na Líbia no ano passado.

Há vias alternativas em caso de bloqueio?

Os analistas apontam quatro. Duas delas revertem para o Mar Vermelho, uma para o Líbano, e outra para o Golfo de Omã.

. Reativar o oleoduto iraquiano-saudita (conhecido pelo acrónimo IPSA) que termina no porto de Yanbu, no Mar Vermelho acima de Jedá, e que pode transportar 1,65 milhões de barris por dia. Foi construído durante a guerra do Iraque com o Irão, precisamente para fugir ao transporte pelo Golfo Pérsico.

. Reativar a linha do Transarabian Pipeline (Tapline) da Arábia Saudita para o porto de Zahrani no Líbano que transporta 500 mil barris por dia.

. Outra via a usar pelo crude saudita pode ser a oleoduto Este-Oeste com mais de 1100 quilómetros entre Jubail no Golfo Pérsico e Yanbu no Mar Vermelho, o que favoreceria o estreito de Aden (pirataria somali por perto) e o canal do Suez (instabilidade no Egito), e que pode transportar 5 milhões de barris por dia.

. Os Emirados Árabes Unidos poderão acelerar a conclusão do projeto do oleoduto do Abu Dhabi que pode fazer correr crude equivalente a 2,5 milhões de barris por dia; o oleoduto com 375 quilómetros parte do sudoeste dos emirados para o porto de Fujairah, no Golfo do Omã, já a sul do estreito de Ormuz. O oleoduto está a ser construído por uma empresa chinesa e deverá estar operacional “em breve”, segundo o ministro Mohammad Bin Dha’en Al Hameli afirmou em dezembro. Mas o Golfo de Omã é um espaço marítimo internacional onde os iranianos consideram poder atuar.

Curiosidade histórica

Ormuz era uma das joias do Médio Oriente cobiçadas por Afonso de Albuquerque e pelo rei em Lisboa, Manuel I. Albuquerque conquistaria a ilha em 1507, que acabou por ficar sob suserania portuguesa entre 1515 e 1622. Os árabes chamavam-lhe, na época de Quinhentos, “o anel de pedra do mundo”. Era um dos ferrolhos geoestratégicos (chokepoints, na designação técnica) por onde todos os produtos do Oriente passavam. Fez parte das três “quinas” do império português em rede no Índico – Sofala (no atual Moçambique), Ormuz (no atual Irão) e Malaca (na atual Malásia).

Estatísticas

Números-chave do crude do Irão

. Exporta 2,6 milhões de barris por dia

. Produz 3,5 milhões de barris por dia

. 2º maior produtor da OPEP

. Principal cliente do crude iraniano: China (com 21% da exportação iraniana) que adquire mais de meio milhão de barris por dia

. Outros clientes importantes: União Europeia (17% da exportação iraniana), Japão e Coreia do Sul

Quanto “vale” o estreito de Ormuz?

. Mais de 1/3 do petróleo transportado por via marítima

. 20% do petróleo comercializado à escala mundial passa pelo estreito

. O seu peso como ponto de passagem diminuiu de 2008 para 2009 em mais de 7%

. 15,5 a 17 milhões de barris por dia passam pelo estreito de Ormuz

A Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) arrisca uma cisão, segundo alguns analistas do mercado petrolífero. “Foi uma das piores reuniões que já tivemos”, exclamou o ministro dos petróleos da Arábia Saudita Ali al-Naimi, considerado o mais poderoso ministro do crude, à saída da cimeira do cartel em Viena na passada quarta-feira (8 de junho).

A reunião durou cinco horas em que se formaram dois blocos. De um lado a Arábia Saudita (o maior exportador mundial) que pretendia um aumento de 1,5 milhões de barris por dia na produção do cartel, apoiada pelo Koweit, o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos – seus vizinhos próximos -, e do outro, abertamente contra, a Argélia, Equador, Venezuela, Irão, Iraque e Líbia (em guerra civil), segundo declarações de Ali al-Naimi. Não foi feita referência à Nigéria (o 6º maior exportador de crude).

Obstinada oposição

Ali al-Naimi foi muito explícito sobre a divisão interna: “Passei três horas a tentar convencê-los [da necessidade do aumento da produção]. Nos meus 16 anos como ministro dos petróleos nunca vi uma posição tão obstinada [de oposição]“.

O secretário-geral do cartel, o líbio Abdulá Salem el-Badri, anunciou, no final da cimeira, que “infelizmente não foi possível alcançar um consenso para aumentar a produção” e referiu que o assunto voltará a ser analisado na próxima reunião se realizará em 14 de dezembro.

A pressão para o aumento da produção do cartel deriva do facto da China se ter tornado em 2010 o maior consumidor de energia, ultrapassando os Estados Unidos, sendo agora a referência mundial. Acresce que o risco de apagões na China durante o verão irá obrigar Beijing a aumentar o uso dos geradores a diesel, o que pressionará o consumo de petróleo.

A grande dicotomia no mundo

A economia mundial tem vindo a assistir a um acentuar da dicotomia entre os países membros da OCDE (considerados desenvolvidos) e as economias emergentes. A assimetria na taxa de crescimento económico é agora evidente entre os dois mundos. O aumento do fosso entre a produção e o consumo mundiais de petróleo influencia naturalmente o disparo dos preços, potenciando ainda mais a sua volatilidade provocada pela especulação financeira, como aumenta os riscos geopolíticos de disputa pelas zonas produtoras ou com reservas.

A Arábia Saudita pretendia aumentar a produção do cartel em 1,5 milhões de barris por dia, passando dos 28,8 milhões registados em abril para 30,3 milhões. A procura para os crudes da OPEP situar-se-á em média nos 29,9 milhões em 2011, segundo o Monthly Oil Market Report da OPEP deste mês.

Em virtude do impasse em Viena, Riade afirmou ir aumentar unilateralmente pelo menos 500 mil barris por dia. Mas isso não se traduzirá necessariamente num aumento da produção de petróleo saudita nesse número de barris, e muito menos na exportação. Segundo a Reuters, só metade desse aumento na realidade será destinado à produção de petróleo, pois a outra metade será consumida pelas centrais elétricas a diesel em virtude do disparo do consumo de energia nesta época de picos de calor na península arábica.

«Mandem os clientes, não se preocupem com os volumes»

Os números sobre a produção saudita e o seu designío de aumento não são unânimes. O jornal saudita al-Hayat dizia na sexta-feira que o reino pretenderia passar dos 8,8 milhões de barris por dia (mbd) em maio para 10 milhões em julho. O país já não extraía tal montante de barris desde há uma década. O último pico foi em julho de 2008 quando produziu 9,7 mbd. O ministro saudita disse em Viena, respondendo a uma pergunta, que “mandem os clientes, não de preocupem com os volumes”.

A produção mundial, desde o rebentar do conflito na Líbia, baixou 1,7 milhões de barris por dia, em que 82% dessa quebra se atribui à guerra civil naquele país do Magrebe. O petróleo líbio é difícil de substituir dado ser de uma variedade de alta qualidade, afirma Rembrandt Koppelaar, editor do The Oil Drum. Em contraste, a procura mundial deverá crescer 1,4 milhões de barris por dia (mbd), um aumento, no entanto, inferior ao de 2010 (que foi de 2,1 mbd).

Quem poderá beneficiar

O cartel agrupa 12 membros – Arábia Saudita, Argélia, Angola, Equador, Emiratos Árabes Unidos, Irão, Iraque, Koweit, Líbia, Nigéria, Qatar e Venezuela. Detém quase 80% das reservas mundiais do ouro negro e dominam mais de 40% da produção mundial. Nos 10 maiores exportadores do mundo ocupam 6 posições (Arábia Saudita, que lidera, Irão, Koweit, Nigéria, Venezuela e Iraque). Apesar de a Rússia ser o maior produtor mundial (com mais de 10 milhões de barris diários), a Arábia Saudita é o maior exportador (com cerca de 9 milhões de barris por dia).

Um enfraquecimento da OPEP, ou eventual cisão nesta organização criada em Bagdade em 1960, poderá beneficiar o poder do maior produtor do mundo e segundo maior exportador, a Rússia.

A OPEP usa um preço médio para o barril de petróleo com base num cabaz de 7 variedades de crude (“Blend do Saara” da Argélia, “Minas” da Indonésia, “Bonny Light” da Nigéria, “Arab Light” da Arábia Saudita, “Fateh” do Dubai, “Tia Juana Light” da Venezuela, e “Istmo” do México, um país que não pertence ao cartel, mas que é o 7º produtor mundial). Este preço subiu de uma média de 74,45 dólares em 2010 para 106,55 dólares em 2011 até à data. Na última semana, em que decorreu a cimeira de Viena, este preço médio subiu de 110,52 dólares para 111,53 dólares.

Este preço do cabaz da OPEP é mais baixo do que o preço do barril de Brent, usado como referência na Europa. O Brent fechou a semana em baixa com um valor de 118,78 dólares por barril, mas subiu 2,5% durante a semana e 49,5% nos últimos doze meses, segundo dados da TradingEconomics.

Os 10 maiores produtores mundiais são os seguintes: Rússia, Arábia Saudita, Estados Unidos, Irão, China, Canadá, México, Emiratos Árabes Unidos, Brasil e Koweit. Os 10 maiores exportadores são: Arábia Saudita, Rússia, Estados Unidos, Irão, Koweit, Nigéria, Venezuela, Noruega, Canadá e Iraque.

Luca Barillaro, um consultor financeiro independente italiano, especialista em commodities, fala da volatilidade do mercado das matérias-primas nas últimas semanas e considera que os líderes europeus perderam toda a reputação.

Nas duas últimas semanas assistimos a um ziguezague nos preços das commodities, com o que foi alcunhado de flash crashes sobretudo na prata e no barril de Brent a 5 e 11 de maio seguidos de regresso à tendência altista. Particularmente o ouro mostrou-se o mais resiliente. As razões do que ocorreu e qual a tendência que vai predominar – se a correção em baixa, se a continuação da alta especulativa – continua em acesa polémica entre os economistas e analistas. Esta volatilidade destes mercados converge, por ora, com a crise da dívida soberana em vários países da zona euro.

Ouvimos Luca Barillaro, um consultor financeiro independente de Bolonha que trabalhou anteriormente na City londrina, que surpreende com algumas opiniões pouco ortodoxas: “Há vários tipos de commodities, algumas mais iguais do que outras”; “Bruxelas acabará por implodir devido à sua burocracia e arrogância”; “todos estes resgates em curso são, apenas, transferências de dinheiro que não resolverão o problema”; “a única saída para a zona euro é a sua moeda baixar para a paridade com o dólar, reduzindo a dívida em termos reais”.

P: As quebras que houve a 5 e 11 de maio foram o juízo final para a especulação desenfreada no mercado das commodities?

R: Depende de que commodities estamos a falar. Há umas mais iguais do que outras. Se nos referimos ao ouro, à platina e ao petróleo, julgo que se trata, apenas, de uma correção, pois estas três são olhadas – e, de facto, são-no – como outro género de unidades monetárias. Com os processos de depreciação das divisas tão em voga pelos bancos centrais, os mercados financeiros acabam por olhar para “moedas” alternativas. O ouro, a platina e o petróleo são aquilo que os especuladores chamam de “divisas fortes”, pois não estão sujeitas à manipulação de dar à manivela de impressão.

P: Os metais preciosos sempre foram encarados como alternativas ao papel fiduciário, mas o barril de petróleo pode ser considerado uma “divisa forte”?

R: Pode parecer-lhe estranho, que o petróleo é diferente dos metais preciosos. Mas o barril tem enorme poder e implicações políticas muito grandes. Dispor de grandes reservas de petróleo significa influência política. Não é, por acaso, que a França se apressou a bombardear a Líbia. Os políticos franceses foram contra o bombardeamento da Sérvia – se for ao maior parque de Belgrado, ao Kalemegdan, encontra ali um monumento com um pedido de desculpas dos franceses por causa dos bombardeamentos da NATO. Mas quanto à Líbia foram rápidos. A energia é uma “moeda” geopolítica.

P: E nos outros casos de commodities?

R: Se falamos de casos como o cobre, o aço, o gás natural, e mesmo a prata, penso que a liquidação total a que assistimos nesses dias foi, apenas, a outra face do que chamamos de negócio de carry trade entre divisas. Por isso, eu julgo que vamos ver dois andamentos: mais liquidações no caso de matérias-primas que vêm os preços subir devido ao carry trade, e tendência de alta clara no que designei por commodities que funcionam como “divisas fortes”. Pode verificar-se a relação do ouro com o euro ou do petróleo com o euro para se observar esta diferença de que falo.

P: Como funciona esse mecanismo especulativo associado ao carry trade?

R: Se for um grande banco ou entidade financeira pode pedir emprestado dinheiro a 0,1% junto da Reserva Federal (FED) americana. Depois troca esses dólares baratos em euros para aplicar em títulos do tesouro europeus por exemplo com yields elevadas (como os gregos, portugueses, etc.), ou na prata, ou mesmo em ações, ou outras commodities. Quando este mercado está em bolha, acaba-se por comprar de tudo, milho, madeiras, gado – tudo mesmo. Bastam 10 dias de especulação para ganhar 3 vezes o que tenho de pagar à FED. Assim, o meu ganho líquido é de 200%, sem contar o facto de ter pedido dólares emprestados a um câmbio de 1,40 dólares por cada euro e acabar por pagar o empréstimo com o câmbio a 1,48 dólares por euro, ou seja preciso de menos euros para pagar a dívida. Contudo, se o mercado muda repentinamente, então há um pânico e toda a gente desata a sair do carry trade.

P: Os designados ETF (acrónimo em inglês para Exchange-traded funds) de commodities são a melhor plataforma para os fundos de alto risco e para os fundos de pensões? Ou até mesmo para o retalho e o pequeno especulador?

R: Podem ser. Mas só para quem invista em commodities físicas – não em papéis. Se não, o “contango” – quando os preços futuros são superiores ao preço no mercado spot – torna ineficiente este tipo de aplicações para o investidor de longo prazo, pois em cada situação de refinanciamento perde-se uma pequena porção do investimento feito. Penso que as ETF que apostaram nos papéis foram o principal motor por detrás da bolha do índice de 19 commodities The Thomson Reuters/Jefferies CRB, pois transformaram a procura financeira numa procura física puramente fictícia.

P: Há o risco de uma depreciação significativa do dólar?

R: Creio que já assistimos a uma depreciação completa do dólar. Estamos numa corrida em que toda a gente quer ser o último – ou o mais radical – a fazer uma desvalorização competitiva. Os Estados Unidos estão a usar a desvalorização para alimentar a procura dos seus ativos. Mas o ponto é que a Europa está numa situação ainda pior.

P: Está pior, em que sentido?

R: Quando ouvimos um líder europeu falar, e depois se vêm as parangonas nas agências de notícias, a primeira reação do investidor é VENDER. E quanto mais os líderes europeus tentam tranquilizar o investidor, mais soa a falso. Na Goldman Sachs dizia-se que tinham três ativos: “os clientes, o dinheiro e a reputação; até se podem perder os dois primeiros mas não o terceiro, de contrário estamos fritos”. Ora, os líderes europeus perderam a sua reputação – e isso leva tempo a reconstruir.

P: Os “resgates” na zona euro vão mostrar-se resilientes à tempestade, ou são apenas uma fase transitória para reestruturações das dívidas soberanas de países em situação de pré-default?

R: Apenas mostram que a União Europeia está baseada em fluxos de dinheiro, em que os fundos vão de A para B e depois para C, mas em que o dinheiro é sempre o mesmo. A Alemanha tem de emprestar, senão os seus bancos podem entrar em bancarrota. A Europa, tal como existe hoje, é, apenas, um imposto de paz. Algo criado para evitar outras guerras no continente. Veja bem, a Itália poderia estar em guerra com a França por causa das recentes tensões, não tivéssemos nós a União Europeia.

P: O que pode acontecer, então, à Europa?

R: Penso que a próxima depreciação vai estar associada ao euro. A inflação vai ter de subir para “reestruturar” a dívida europeia. A inflação é o único imposto que todos pagam sem exceção. Se conseguir gerar uma inflação de 5% ao ano mantendo as expectativas baixas – e para isso basta dizer aos media que tudo corre pelo melhor, usando adequadamente as estatísticas que vão sendo publicadas – consegue um milagre: em 10 anos reduz tecnicamente a sua dívida em 50%.

P: Mas isso é possível?

R: Ou fazem este truque, ou, então, têm de reconhecer que o euro é uma moeda completamente artificial e que alguém terá de regressar às suas moedas de origem. Todos estes resgates são apenas transferências de dinheiro que não resolverão o problema. A única saída para a zona euro e para impulsionar a economia europeia, é a sua moeda baixar para a paridade com o dólar, reduzindo a dívida em termos reais.

P: Poderemos vir a assistir a uma vaga de crises de dívidas nos países desenvolvidos, para além do que já está a acontecer com alguns países da zona euro?

R: Sim.

P: Porquê?

R: Pense no seguinte. Até ao ano 2000, todas as crises estavam na periferia. Vejam-se os casos: México, Rússia, Tailândia, Argentina. Depois destas crises, o centro voltou a ter máximos, quer nas bolsas como no crescimento do Produto Interno Bruto. Agora, todas as crises são no centro – Europa, Estados Unidos, Reino Unido e Japão. A periferia – os mercados emergentes – também foi abaixo, mas hoje estão em novos pontos máximos, enquanto o centro batalha por sobreviver.

P: E como vai a Europa sair desse atoleiro?

R: Creio que Bruxelas acabará por implodir devido à sua burocracia e arrogância. Quanto a nós, simples mortais, temos o azar de viver hoje na parte errada do planeta.

Os economistas batizaram estes períodos de “estagflação”, uma mistura de estagnação com inflação. Douglas Reynolds, da Universidade do Alasca, acha que estamos a atravessar “um longo período” deste género e que a energia está no coração do problema.

“Estamos no meio de um período de grande estagflação. A crise financeira foi apenas o começo”, diz, em entrevista, Douglas Reynolds, professor da Universidade do Alasca em Fairbanks, e um dos especialistas mundiais em economia da energia.

Reynolds veio à conferência anual da ASPO-Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás, que se realizou em Bruxelas, falar, também, do seu projeto de estudo da forma como a energia afeta todas as civilizações e impérios. O seu estudo de história económica pretende analisar o papel central das questões energéticas na ascensão e queda dos impérios.

O professor americano tem insistido no modelo de implosão da União Soviética como um exemplo claro do esgotamento de um modelo económico baseado no uso intensivo de energias que atingiram o seu pico de produção. Chocou inclusive alguma audiência mais sensível: “Quando olhamos para a nossa economia, que é muito similar em várias dimensões com a economia soviética de então, verificamos que todas as tecnologias que temos são baseadas no consumo de mais barris. Se mantemos uma economia assente no uso intensivo de petróleo, não haverá alternativa ao declínio económico e civilizacional”.

PERFIL
Douglas B. Reynolds, Professor de Oil and Energy Economics, na School of Management da University of Alaska Fairbanks, Fairbanks, Alasca.

@Jorge Nascimento Rodrigues, Bruxelas, 9th International ASPO Conference, 2011

I – O MODELO VIGENTE: «Só as bolhas nas bolsas, a mania das dot.com, e finalmente a bolha no imobiliário eram capazes de alimentar qualquer tipo de aparente crescimento rápido, desde essa primeira crise petrolífera.»

P: Muitos analistas falam do risco de um double-dip (recaída na recessão) com carestia de vida, e em alguns locais mesmo com hiperinflação devido ao disparo nos preços das commodities essenciais, qual é a sua opinião?
R: Penso que estamos no meio de um período de grande estagflação [estagnação económica com inflação]. A crise financeira, desde 2008, foi apenas o começo. Muita da nossa economia nos países desenvolvidos e mesmo nos países em desenvolvimento está a crescer na base do petróleo. E como estamos a atravessar já um período de pico de produção do petróleo – o que designamos popularmente por “pico do petróleo” [peak oil, em inglês] -, isso significa que a base da nossa economia moderna tem de mudar. Há, sem dúvida, outros combustíveis líquidos, mas são caros ou limitados em quantidade e não conseguem substituir o crude. Assim, quando o petróleo declinar, a economia que depende dele não tem outro caminho senão declinar também. Está tudo interligado.

P: A crise de 2008 teve por detrás o problema do pico do petróleo, é isso que está a querer dizer?
R: Bom, a crise financeira foi, em parte, derivada do sobre investimento no imobiliário. A ideia das políticas colocadas em prática era estimular esse setor, através da desregulação bancária, de modo a que a economia pudesse continuar a crescer. Porquê? Porque tinha ficado claro que, em muito do mundo desenvolvido, o crescimento económico tinha abrandado desde o primeiro choque petrolífero de 1973. Deste modo, só as bolhas nas bolsas, a mania das dot.com, e finalmente a bolha no imobiliário eram capazes de alimentar qualquer tipo de aparente crescimento rápido, desde essa primeira crise petrolífera.

P: Há uma relação, de facto, mas o petróleo é o elemento chave desta crise?
R: Se não tivéssemos tido a crise financeira, teríamos tido outro grande problema económico derivado do facto do preço do petróleo ter disparado em meados de 2008 até aos 150 dólares por barril, como todos estamos recordados. Algo tinha que acontecer. E as razões fundamentais para o preço do crude ter chegado tão alto continuam aí.

II – O modelo soviético de implosão

P: E quais são as consequências?
R: Um círculo vicioso. A economia cai com várias realidades em simultâneo – declínio do PIB, altos níveis de desemprego, altos preços, inflação. Por isso falo de estagflação. E isto não é novo em termos de modelo económico.

P: Está a lembrar-se do caso da União Soviética para o qual tem vindo a chamar a atenção?
R: Sim. Este tipo de reestruturação de toda uma economia minada simultaneamente por inflação e alto nível de desemprego é exatamente o que aconteceu durante a queda da União Soviética. A economia soviética atingiu um pico de produção do petróleo e caiu. Durante a queda viveu esse período de estagflação. Por isso, em circunstâncias similares, podemos esperar uma série de grandes recessões com alta inflação e provavelmente com ciclos de alta volatilidade. Estes ciclos podem parecer o que alguns chamam de double-dip-flation [recaída na recessão com inflação associada, em vez de deflação], mas, a meu ver, é tudo parte de um largo período de estagflação.

P: E o petróleo está no centro do problema, é o pecado original do modelo?
R: O petróleo é o elemento central. Quando olhamos para a nossa economia, que é muito similar em várias dimensões com a economia soviética de então, verificamos que todas as tecnologias que temos são baseadas no consumo de mais barris. Se mantemos uma economia assente no uso intensivo de petróleo, não haverá alternativa ao declínio económico e civilizacional. Um dos problemas que temos numa fase destas é que, com menos petróleo, temos menos trabalhadores produtivos, o que significa que não podemos pagar-lhes melhor, mas eles não deixarão os salários baixar. Então, uma das vias para forçar o declínio dos salários reais é gerar hiperinflação, que foi o que a União Soviética precisamente fez para se “ajustar” à nova realidade. Agora, vamos ter de fazê-lo em larga escala – e não só num país.

P: Num horizonte de cinco a dez anos poderemos apanhar com uma tempestade perfeita e uma transição difícil para uma economia diferente?
R: A União Soviética caiu muito rapidamente, mas a Rússia e outras economias da ex-URSS reestruturaram-se, depois, também, muito rapidamente, a meu ver. Depois tiveram a ajuda do Ocidente. Mas não creio que o mundo agora tenha essa oportunidade. Sem ajuda, esta transição mundial pode ser muito devastadora. Uma coisa que verificámos na URSS foi um declínio da população. Isso também poderá, agora, acontecer ao mundo no seu conjunto.

III – ENERGIA: Ascensão e Queda dos Impérios

P: Um dos pontos centrais da sua investigação atual é a relação da energia com as civilizações e os impérios. A que conclusões já chegou?
R: Estou a trabalhar de facto num livro sobre a forma como a energia afeta as civilizações e os impérios. Veja o caso da URSS, era basicamente um império no sentido clássico da palavra, com uma estrutura de comando específica, uma hegemonia e uma cultura não só para a União Soviética, mas para todos os seus aliados, que eram, na verdade, coagidos pelos soviéticos. Mas houve, na história, muitos outros impérios que foram afetados pelos problemas de energia, como Roma, Grécia, os Maias, o império britânico, ou dos Anasazi, que dominavam o que hoje é o sudoeste americano. Se olhamos bem de perto à sua ascensão e queda vemos que o fator energético é chave.

P: Em que sentido? Não têm sido os ciclos de tecnologias que erguem e abatem os impérios?
R: Sem dúvida que a tecnologia é um elemento intrínseco. Mas pergunte a si próprio: a queda de Roma foi motivada por falta de tecnologia moderna? Sim, à primeira vista. Se olhar para as tecnologias e energias da altura, verifica que tinham um nível muito bom, mas que, no fim, foi a energia que falhou. No caso de Roma, a ligada à agricultura, porque tinha havido uma mudança de padrão climático. Os agricultores mudaram do trigo – que se tornara mais difícil de cultivar – para o milho-miúdo, e a produtividade baixou. Como a fonte de energia baixou, também a economia como um todo, a política e a capacidade militar também.

IV- Três cenários para o pós-pico do petróleo

P: Outro aspeto desse seu estudo é o futuro depois do pico do petróleo?
R: Estou a trabalhar em três cenários. O primeiro com base num preço médio baixo do barril, na ordem dos 150 dólares (em termos de dólares de 2010) que se vai manter por uns anos. Um cenário intermédio com um preço de 300 dólares por barril por vários anos. E, finalmente, outro com um disparo do preço até aos 700 dólares por barril baixando depois para uma média de 500 dólares.

P: Qualquer um deles pouco agradável. O que poderá acontecer em cada caso?
R: No primeiro cenário pode haver uma transição mais suave para a economia mundial. Mas se, por exemplo, uma epidemia de gripe, como a das aves, surgir, parte da população mundial pode ser dizimada, o que, apesar da tragédia, mantém a procura em níveis mais reduzidos e os preços em baixa. No segundo cenário, a procura continua a aumentar e a transição para uma nova economia de energia vai ser muito difícil, mas manter-se-á a capacidade de gerir essa mudança. No terceiro cenário, expandem-se as revoluções árabes e os constrangimentos sobre uma série de produtores de petróleo. Pode gerar-se um “cenário líbio” em que potências estrangeiras se envolvem no terreno e a infraestrutura petrolífera é destruída. O choque dos preços manter-se-á.

O barril de petróleo da variedade europeia Brent (a mais importante hoje em dia no mercado do crude) fechou hoje acima de 120 dólares, continuando a subida de preços que se está a verificar desde o começo do ano.

O primeiro trimestre do ano de 2011 teve preços médios mensais nominais superiores aos preços médios mensais de igual período de 2008.

Em 2011 os preços médios mensais do barril de Brent foram os seguintes: 98,51 dólares em janeiro; 103,86 dólares em fevereiro; e 114,83 em março.

Comparativamente em 2008 foram os seguintes: 86,64 dólares em janeiro; 90,89 dólares em fevereiro; e 97,58 dólares em março.

Recorde-se que em 2008 assistimos a um disparo dos preços do crude que culminou com um preço médio mensal do barril de Brent de 133,58 dólares em junho e de um preço médio mensal máximo de 136,44 dólares em julho. Muitos analistas consideraram ter-se vivido um choque petrolífero durante aqueles meses de 2008.

O cartel dos exportadores de petróleo pode usar a sua capacidade excedentária e a Europa pode recorrer à sua reserva estratégica para amenizar os efeitos de uma interrupção brutal dos fornecimentos de petróleo em virtude da guerra civil na Líbia, dizem os especialistas, na maioria árabes, ouvidos. Mas a folga esgota-se em 2013, diz a Morgan Stanley. O impacto negativo no crescimento da zona euro (onde nos inserimos) se o barril chegar aos 120 dólares de preço médio anual será na ordem de 0,3 pontos percentuais já este ano, segundo a Ernst & Young.

IDEIAS CENTRAIS
. Cada 20 dólares de aumento do preço do barril de crude implica 1 ponto percentual de quebra no PIB, segundo FMI
. Com o barril a 120 dólares, o “corte” no PIB da zona euro será de 0,3 pontos percentuais em 2011 e 0,4 pontos percentuais em 2012, segundo Ernst & Young
. Com o barril a 120 dólares, a inflação em 2011 poderá chegar aos 3% na zona euro
. China decide “arrefecer” o crescimento no quinquénio, diz o seu primeiro-ministro
. OPEP tem capacidade por utilizar por enquanto para enfrentar rutura líbia
. Morgan Stanley diz que essa “folga” se esgota em 2013
. Espera-se que prémio de risco geopolítico continue a influenciar o preço do crude enquanto durar o dominó árabe
. Especulação “deslocou-se” das commodities agrícolas para o petróleo
. Situação será muito grave se o dominó árabe tocar Arábia Saudita e Argélia

Especialistas ouvidos: Toufic El Asmar (FAO); David Kotok (Cumberland Advisors); Hatem Elrefaei (Universidade Ain Shams, do Cairo); Mamdouh Salameh (Banco Mundial e UNIDO); Luís de Sousa (The Oild Drum).

[TEXTO LONGO]
Com os preços dos futuros do barril de Brent a atingir desde 1 de fevereiro valores acima de 100 dólares voltou à ribalta o risco de um choque petrolífero semelhante ao de 2008. Hoje, os futuros para abril desta variedade negociada em Londres – considerada a referência mundial – estão acima de 116 dólares.
Para muitos analistas, esta alta é derivada do pânico motivado pelo dominó recente de levantamentos populares na região do Magrebe e do Médio Oriente.

O que incendeia a especulação neste mercado. “Os especuladores saíram do mercado das commodities agrícolas e viraram-se, agora, para alternativas, como o petróleo”, diz-nos Toufic El Asmar, consultor em segurança alimentar da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e da Organização Meteorológica Mundial e especialista da ASPO, a organização internacional de estudo do pico do petróleo e do gás.

Impacto no crescimento: 1% por cada 20 dólares de aumento

Se os técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) estiverem certos, um aumento de 10 dólares no valor nominal do preço do barril de ouro negro poderá equivaler a uma contração de meio ponto percentual no crescimento económico durante dois anos. Ora desde início de janeiro, o barril de Brent já se valorizou em mais de vinte dólares. O impacto negativo poderá, assim, chegar a 1 ponto percentual nas economias com alta vulnerabilidade a estas importações.

O suficiente para obrigar a um “arrefecimento” menos suave (como pode acontecer na China, o motor atual do crescimento mundial), ou passar de crescimento a estagnação, de crescimento medíocre a recessão ou, no pior dos cenários, a um agravamento da contração da economia.

Nos Estados Unidos já se fala mesmo do regresso da “estagflação” típica dos anos 1970 quando dois choques petrolíferos abalaram o mundo. No caso de Portugal que revela uma vulnerabilidade média ao petróleo em termos de segurança energética, um problema mais grave poderá derivar da sua alta vulnerabilidade em termos de gás natural, segundo um estudo desta semana de técnicos do FMI.

O comissário europeu para os assuntos económicos e monetários, Olli Rehn, já referiu que a estimativa para a inflação na zona euro foi revista em alta para 2,2%, com base em estimativas de um preço médio anual do barril de crude nos 100 dólares. Não foi admitida, ainda, qualquer repercussão na estimativa de crescimento anual da zona euro, que foi inclusive aumentada para 1,6%.

No entanto, a Ernst & Young divulgou, esta semana, o seu Eurozone Economic Forecast onde estima que um preço médio anual de 120 dólares por barril implicará uma quebra no PIB de 0,3 pontos percentuais em 2011 e de 0,4 pontos percentuais em 2012. Segundo o mesmo estudo, a inflação poderá chegar, este ano, a 3% naquela hipótese de preço médio.

Entretanto na China, num chat na Internet, o primeiro-ministro Wen Jiabao admitiu uma redução do crescimento anual da economia para uma média de 7% a 8% para o próximo quinquénio, abaixo das médias recentes.

Cisne negro aparece no Lago Mediterrânico

Entre os analistas não há dúvidas de que o prémio de risco geopolítico está a “dirigir” estas subidas nos mercados do crude (tal como no dos metais preciosos). A surpresa não veio do tradicional conflito entre Israel e os seus vizinhos ou do risco de confronto ocidental com o Irão, mas de um ‘cisne negro’ adormecido – o levantamento popular contra os regimes da região do Magrebe ao Médio Oriente.

A secretária de Estado americana Hillary Clinton avisou que “uma tempestade perfeita” poderia cair sobre a região do Mediterrâneo Sul e do Médio Oriente depois do alastramento da ‘Revolução de Jasmim’ tunisina ao Egito. “Isto é muito grande – e pode tornar-se imenso”, diz-nos David Kotok, presidente da Cumberland Advisors, uma firma de consultoria financeira internacional. A ideia de um “dominó árabe” começou a gerar o pânico entre os investidores e algumas potências.

Os americanos estão preocupados com as suas posições na região – por exemplo, o risco de terem de sair a curto prazo da base naval estratégica de Juffair, no Bahrein, ou de perderem a influência no Egito com implicações sobre o controlo do canal do Suez ou a zona de “amortecimento” do Sinai, como nos refere Hatem Elrefaei, professor na Universidade Ain Shams, do Cairo.

O mundo dependente do petróleo e gás daquela região teme uma interrupção abrupta nos fornecimentos, sobretudo se o coração for atingido pela movida popular – como o gás da Argélia (7,8% da exportação mundial) ou do Qatar (também 7,8% da exportação mundial) ou o petróleo da Arábia Saudita (19,1% da exportação mundial), o líder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Sobre a Arábia Saudita, a especulação política nunca parou, em virtude do problema da sucessão estar em cima da mesa. Na semana passada, Al-Walled, um sobrinho do rei, publicou no The New York Times um sério aviso: “A não ser que os governos árabes adotem políticas radicalmente diferentes, os seus países sofrerão muito provavelmente mais agitação política e civil”.

A alta finança reza, por seu lado, para que o centro financeiro do Bahrein não vacile – o pequeno arquipélago é o doce lar de muitos milhares de milhões de dólares de fundos.

“Não estou ainda convencido que o dominó em curso possa atingir em cheio os grandes exportadores de petróleo e gás do Médio Oriente e do Magrebe. Mas pode acontecer”, diz-nos Toufic El Asmar.

Os mercados da dívida soberana revelam, no entanto, enorme nervosismo em relação a toda aquela região. O risco de default tem disparado desde o início do ano para mais de uma dezena de países, com particular destaque nestas duas últimas semanas para o Dubai (que está em 8º lugar no TOP 10 mundial desse risco, segundo o monitor da CMA DataVision), Iraque (que está em 9º lugar no mesmo “clube”), Líbano e Egito (que têm andado numa dança de entra-e-sai naquele “clube”) e Bahrein (que tem liderado as subidas de risco em várias sessões). Mas não tem poupado, também, Marrocos, Tunísia e mesmo Israel, Arábia Saudita, Qatar e Abu Dhabi.

Para a Europa, os acontecimentos na Líbia são mais relevantes, sublinha Luís de Sousa, editor do The Oil Drum. “O petróleo líbio tem sido exportado quase exclusivamente para a Europa e a Turquia. A Itália, Espanha e Alemanha são os principais parceiros comerciais por parte da União Europeia. A Itália, em particular, por força do seu estatuto de potência ex-colonizadora, importa quase 40% do seu consumo de petróleo daquele país e dispõe de um gasoduto que vem da Líbia para a Sicília. Também, Espanha, Grécia e Portugal (15% das importações portuguesas) importam da Líbia, que exporta parte desse petróleo já refinado ou pré-refinado”, refere aquele especialista.

Água na fervura
No entanto, os especialistas ouvidos pelo Expresso deitaram alguma água na fervura, mesmo face ao fecho geral de portos na Líbia e à retirada massiva de trabalhadores estrangeiros do país, com destaque para os 36 mil chineses, a maior operação de evacuação feita no estrangeiro jamais realizada pelo governo chinês.

O risco de uma crise no Suez foi muito empolado, aquando do auge da queda de Mubarak. “Foi um fantasma na cabeça dos especuladores”, diz-nos Hatem Elrefaei. A própria ideia de dominó tem de ser moderada: “O processo não é idêntico em toda a região”, acrescenta o especialista egípcio. Admite que a Argélia – cerca de 8% da exportação mundial de gás – possa ser uma das próximas peças, mas não crê que haja condições para um fenómeno similar na Arábia Saudita.

A OPEP poderá neutralizar um cenário de total rutura na Líbia, diz-nos, por seu lado, Mamdouh Salameh, perito do Banco Mundial e da UNIDO. “As exportações líbias podem ser substituídas pela OPEP no curto prazo até que a situação normalize. A organização tem um milhão de barris diários de capacidade por utilizar. Seja qual for o regime, a Líbia regressará à exportação de petróleo”, afirma aquele especialista em petróleos. Luís de Sousa, por seu lado, refere que “a Europa poderá lidar, no imediato com a situação usando a sua reserva estratégica que garante abastecimento por 90 dias”.

Como quadro geral, “mesmo com a mudança de regimes na região, os acordos existentes entre importadores e exportadores não deverão ser modificados ou anulados”, diz Toufic El Asmar. “Mas, talvez, o que poderá mudar são as condições das trocas comerciais e a distribuição dos rendimentos das populações. Mas é cedo para fazer prognósticos”, acrescenta.

Alta veio para ficar

No entanto, a alta do preço do ouro negro veio para ficar. “A OPEP, por um breve período, pode substituir as falhas, mas no longo prazo não pode conter o aumento do preço, pois a sua folga é pequena”, diz Salameh.

El Asmar, por seu lado, refere que há uma mudança estrutural a que muitos governos têm dado pouca atenção: “Alguns fatores não são levados em conta pelos governos como o aumento exponencial da população mundial e o aquecimento global. Estes fatores alteraram a procura e a oferta das principais commodities, sobretudo das alimentares e do petróleo”. E faz uma relação com o atual dominó árabe: “Se reparar todas estas atuais crises no Magrebe e Médio Oriente se iniciaram com um aumento dos preços dos produtos alimentares”.

A Morgan Stanley reforçou esta semana a ideia de que a alta veio para ficar ao publicar uma estimativa da situação até 2013, ano em que a folga atual se evaporará.

O preço do barril de Brent fechou hoje em 111,25 dólares. Isto significa que a pressão imediata sobre o preço do barril de petróleo (negociado em Londres, hoje o mercado mais influente) é enorme. Vários analistas atribuem este stresse ao prémio de risco geopolítico em virtude do dominó de levantamentos populares árabes, e em particular aos acontecimentos mais recentes na Líbia, que detém 2,4% da produção mundial e 3,7% da exportação mundial.

No entanto, Mamdouh Salameh, especialista internacional em petróleos e consultor do Banco Mundial e da UNIDO, relativiza este stresse derivado das revoltas populares que atingiram, por ora, com mais impacto a Tunísia (a “Revolução de Jasmim” serviu como detonador), Egito (importante em virtude do canal do Suez e do oleoduto SUMED), Bahrein (crítico em virtude da posição estratégica no Golfo Pérsico e de ser o poiso da base naval americana da 5ª Armada em Juffair), Iémen, e nos últimos dias, com grande violência repressiva, na Líbia (finalmente, um exportador com significado na região).

A OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), liderada pela Arábia Saudita, tem um milhão de barris diários de capacidade não utilizada, diz Salameh. A Arábia Saudita realizou, esta semana, uma reunião informal que reuniu membros de 100 países, incluindo todos os membros da OPEP (Angola, Argélia, Líbia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irão, Iraque, Koweit, Qatar, Venezuela e Equador).

ENTREVISTA com Mamdouh Salameh por Jorge Nascimento Rodrigues (a) 2010

P: Os levantamentos populares ainda não tinham chegado aos produtores de petróleo com significado. Finalmente atingiram a Líbia cujas exportações de petróleo têm significado para a Itália (40%) e também para a Grécia, Espanha e Portugal. O dominó árabe vai finalmente começar a ter impacto sério no mercado do petróleo?

R: Teve um impacto já no preço do barril. Este aumento deriva da perceção no mercado global do petróleo de que a produção e a exportação da Líbia podem chegar a uma paragem. Contudo, as exportações líbias podem ser substituídas pela OPEP no curto prazo até que a situação volte ao normal. Seja qual for o regime, a Líbia regressará à produção e à exportação de petróleo.

P: E no mercado do gás, qual o impacto na Europa, em virtude da particular ligação a Itália e em volume mais reduzido a Espanha?

R: Pode gerar uma boa oportunidade para a Rússia.

P: Os levantamentos populares a que estamos a assistir podem estender-se a toda a região, ou o dominó para?

R: Na minha opinião, não julgo que os levantamentos do Magrebe possam afetar os produtores de petróleo do Golfo ou outros países na região, como a Jordânia e a Síria.

P: Podemos esperar este ano uma escalada de preços como em 2008? Estamos à beira de um novo choque petrolífero?

R: Mesmo sem o levantamento na Líbia, eu já projetava para este ano uma alta de preços do barril até 120 a 130 dólares, em virtude da muito estreita capacidade não utilizada na OPEP e também por causa da forte procura global de petróleo. No entanto, eu tenho apontado para um severo problema por volta de 2015, com os preços do petróleo ao nível ou superiores aos máximos de 147 dólares por barril de 2008. A OPEP tem 1 milhão de barris diários de capacidade por utilizar. Por um breve período pode substituir, por exemplo, a falha da Líbia (que exporta 1,17 milhões de barris por dia), mas no longo prazo não pode “conter” o aumento do preço do petróleo pois aquela folga é pequena.

O agravamento dos acontecimentos na Líbia e no Bahrein, bem como o impasse no G20, estão a colocar um prémio de risco no preço do barril de Brent e a aumentar a atração pelo ouro e pela prata como investimento de refúgio. Grandes quedas nas bolsas de ações.

O efeito dominó no Magrebe e no Médio Oriente com o agravamento da situação na Líbia (2,4% da produção mundial de petróleo) e no Bahrein (arquipélago estratégico no Golfo Pérsico) está a colocar um prémio de risco no preço do barril de Brent, cujos futuros para abril atingiram hoje 108 dólares, um aumento de 5% num só dia. Os preços do Brent estão, agora, a nível de abril de 2008 quando começou o último choque petrolífero que conduziria a um máximo em julho de 145 dólares.

Mas o agravamento da situação no Magrebe e no Médio Oriente não provocou reação apenas no ouro negro. Também o ouro propriamente dito viu hoje o preço da onça subir para 1407 dólares, ainda que não tendo atingido o máximo histórico de 1422,6 dólares fixado em 3 de janeiro passado.

Também a prata continua um processo de escalada do preço da onça. Atingiu hoje 33,89 dólares, depois de um processo contínuo de aumento desde setembro de 2010. São os preços mais altos nos últimos trinta anos, depois do máximo atingido em 1981 nos 49,45 dólares.

A procura do ouro e da prata como valores “refúgio” e como mercados de especulação deriva, também, do impasse em que está o G20, como ficou, agora, patente na reunião de ministros das Finanças e banqueiros centrais em Paris.

Refletindo este nervosismo e especulação no petróleo e nos metais preciosos, a maioria das bolsas na Europa fechou no negativo, com quebras superiores a 2% nos casos de Espanha, Itália, Portugal e Grécia. Também a bolsa marroquina quebrou mais de 2%.

Barril de Brent com preços ao nível de abril de 2008. Um prémio de risco geopolítico somou-se à especulação financeira nos “barris de papel”. Regressou o temor de que se repita uma escalada como naquele verão quente do início da Grande Recessão.

[TEXTO LONGO]

Com o preço dos futuros do barril de Brent para abril acima de 103 dólares, o fantasma do choque petrolífero regressou, tanto mais que esta variedade de crude é hoje bitola para metade do petróleo transacionado no mundo.

Desde que o preço desta variedade galgou o patamar dos 80 dólares por barril em outubro do ano passado que reapareceu, entre os analistas e académicos, a discussão sobre a possibilidade de uma escalada similar à de 2008.

O papel da financeirização deste mercado com o regresso em força da especulação em torno de “barris de papel” voltou à baila. O próprio relatório da Comissão Europeia sobre as matérias-primas, divulgado esta semana, reconhece a “ligação” entre a especulação e a alta de preços, ainda que não a ache determinante.
Prémio de risco geopolítico

Mas o irromper dos acontecimentos no Magrebe e no Machreq, iniciados com a Revolução de Jasmim na Tunísia e prosseguidos com as revoltas populares no Egito, adicionou à especulação um elemento adicional – o prémio de risco geopolítico.

Desde a fuga do ditador tunisino Ben Ali, o preço do barril de Brent já subiu 5%. Durante os últimos dias das marchas e concentrações de protesto no Cairo, Alexandria, Suez e outras cidades contra o ditador Mubarak, o preço do Brent ultrapassou a linha psicológica dos 100 dólares por barril, valores que já não se verificavam desde abril de 2008, na fase inicial da Grande Recessão.

O fantasma do Suez

O temor imediato dos investidores no mercado do crude advém do risco de bloqueios ou sabotagens no canal do Suez, um dos mais importantes chokepoints marítimos (passagens estreitas, como estreitos ou canais) das rotas comerciais, e pelo oleoduto SUMED que atravessa aquele país desde o Mar Vermelho até ao Mediterrâneo. No conjunto, atravessam o Egito diariamente 2,2 milhões de barris diários, 3% da produção mundial, sublinha-nos James Hamilton. Este cenário já ocorreu em 1956 e 1957, mas então o canal representava muito mais na geografia do petróleo, 8,8% da produção mundial.

Recorde-se que, na sequência da nacionalização do canal do Suez pelo presidente Nasser em julho de 1956, se desencadeou uma guerra entre outubro de 1956 e março de 1957 em solo egípcio, no Sinai e no canal do Suez, provocada por uma invasão articulada por parte de Israel, Inglaterra e França. O conflito acabaria devido à intervenção política conjunta dos Estados Unidos e da União Soviética, apesar de se viver em período de “guerra fria” entre estas duas superpotências.

A crise do Suez daqueles anos pode ser considerada o primeiro verdadeiro choque petrolífero, refere James Hamilton, professor de Economia na Universidade da Califórnia em San Diego, que, recentemente escreveu uma história destes choques. “No pico da guerra do Suez, 10,1% da produção mundial foi retirada do mercado, a maior disrupção até hoje. Demorou meio ano para que a produção do Médio Oriente voltasse ao seu normal”, diz o professor. O impacto no abastecimento à Europa foi devastador.

Cenário “hipotético” de cisne negro

Os americanos ainda consideram esse cenário como “hipotético”. Mas o general James Mattis, do Comando Central americano responsável por operações militares entre o Egito e o Paquistão, disse, esta semana, num encontro em Londres promovido pelo think tank Policy Exxchange, que “se isso acontecer, obviamente que teremos de lidar com a situação diplomaticamente, economicamente, militarmente, seja como for”, segundo reportou a Reuters. “Por ora, estes problemas ainda não requerem uma solução militar”, acrescentou.

Problema mais sério poderá ocorrer se as revoltas populares na região atingirem o “coração” da produção do ouro negro e deslocarem o foco de atenção para o Golfo Pérsico. “Um impacto geopolítico severo só ocorrerá se o contágio for mais longe, ou seja para países como a Arábia Saudita. A Tunísia e mesmo o Egito são produtores modestos. Se isso acontecer, então, teremos o primeiro cisne negro do ano”, refere-nos, por seu lado, Barry Eichengreen, professor de Economia e de Ciência Política na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Não é claro, que, apesar dos receios, esse contágio ocorra a curto prazo, repetindo o disparo de 2008. Mas, diz Hamilton, “ainda que não saibamos quando nem como, é muito provável que assistamos a acontecimentos posteriores nesta região que venham a ter efeito significativo no fornecimento global do petróleo”.

No entanto, a própria evolução da transição no Egito, depois da resignação do ditador, poderá marcar o panorama na região. “Se o Egito se move no sentido de uma democracia à turca, creio que não haverá impacto de longo-prazo na economia do petróleo. Mas se evoluir para o modelo iraniano, então a vida vai ficar bem mais complexa”, diz David Summers, professor emérito da Universidade de Ciência e Tecnologia do Missouri e um dos especialistas mundiais em geologia e geofísica, diretor do Rock Mechanics & Explosives Research Center. Summers admite que o contágio se espalhe mais provavelmente na direção do Magrebe ocidental, “o que poderá ter impacto nos fornecimentos do gás e do petróleo em simultâneo, pois o equilíbrio entre a oferta e a procura nestes mercados é hoje muito mais apertado do que no passado”.

O mercado dos credit default swaps (uma espécie de seguros financeiros contra o risco de default dos países) tem estado, ultimamente, “nervoso” em torno do Bahrein e da Arábia Saudita. Sobretudo o Bahrein tem surgido sistematicamente na liderança das atenções. No entanto, o pequeno reino arquipelágico fornece apenas 50 mil barris por dia (menos do que a Tunísia ou o Iémen), representando 0,06% da produção diária mundial de crude. Tem menos de um milhão e meio de habitantes e 54% são imigrantes. O Bahrein foi ocupado pelos portugueses entre 1521 e 1602. É, atualmente, uma monarquia constitucional.

Fragilidade estrutural

De facto, qualquer turbulência na produção ou no trânsito do crude no Magrebe, no Machreq e na Península Arábica e Golfo Pérsico pode ser fatal face ao aumento esperado do consumo mundial em 2011. As projeções de aumento do consumo para este ano variam entre um adicional de 1,4 milhões de barris por dia, segundo a Agência de Informação americana de Energia, e 1,8 milhões, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

O risco geopolítico agrava uma situação “estrutural” – desde 2005 que a produção mundial de petróleo não tem aumentado anualmente, dando a imagem de um “planalto”, com oscilações entre os 72 e 74 milhões de barris diários. A folga para enfrentar cisnes negros geopolíticos – ou seja eventos inesperados, como foram a queda do ditador na Tunísia e o abalo ao regime no Egito – é curta.

Uma consequência colateral, já admitida por Charles Bean, vice-governador do Banco de Inglaterra, é a possibilidade dos bancos centrais terem de aumentar as taxas diretoras, mesmo contra vontade, face à pressão da inflação importada por via do disparo generalizado nos preços das commodities agrícolas, industriais, energéticas e metais.

FRASES EM DESTAQUE

“O Canal do Suez não é mais o circuito de trânsito de petróleo do Golfo para a Europa que era antigamente. Os superpetroleiros são largos de mais para passar por aquele canal. O efeito de uma disrupção é hoje menor do que aquando da crise do Suez [em 1956-1957]”
Barry Eichengreen, Universidade da Califórnia, Berkeley, especialista em geoeconomia e geopolítica

“Há sempre a possibilidade de que haja um contágio para a Arábia Saudita e os países produtores do Golfo e, então, esta crise ficaria mais séria. Mas, neste momento, anteciparia que é pouco provável”
David Summers, Universidade da Ciência e Tecnologia do Missouri, especialista em geologia e geofísica

“Ficaria surpreendido se houvesse durante este ano uma repetição do padrão do disparo de 2008. De qualquer modo, quando olhamos para o último meio século no Médio Oriente e para as forças sociopolíticas que ali operam, parece-me inevitável que assistiremos a acontecimentos futuros que provocarão uma séria disrupção na produção de petróleo naquela região”
James Hamilton, Universidade da Califórnia em San Diego, autor de uma história dos choques petrolíferos


HISTÓRIA BREVE
Choques Petrolíferos

1956-1957: Crise do Suez. Produção do Médio Oriente caiu 1,7 milhões de barris por dia em novembro de 1956. Quebra de 10,1% da produção mundial no pico do choque. Europa dependia em 2/3 desta região. Pelo canal do Suez passava 8,8% da produção mundial

1973-1974: Embargo pela OPEP. Quebra de 7,5% da produção mundial. Preço duplica a 1 de janeiro de 1974.

1978-1979: Revolução Iraniana. Quebra de 7% da produção mundial. Preço médio anual aumenta em 12% de um ano para o outro.

1980-1981: Guerra Irão-Iraque. Preço atinge um pico de 35 dólares durante 1980. A variação do preço médio anual de 1980 para 1981 foi de 200%.

1990-1991: 1ª Guerra do Golfo. Preço médio mensal do crude aumentou 106% entre julho e setembro de 1990.

2003: Greves na Venezuela e 2ª Guerra do Golfo. A variação do preço médio anual de 2003 para 2004 foi, apenas, de 13%.

2008: Preço do petróleo atinge máximo histórico de 147 dólares por barril em julho. Produção mundial estagnou desde 2005 face a um disparo da procura. Influência da especulação financeira em “barris de papel”. O preço médio mensal da variedade Brent aumentou 57% entre janeiro e julho desse ano.

2011: Hipótese de novo choque. Efeito da “Revolução de Jasmim” e do contágio na região na variação do preço do Brent é de 4%, desde que o ditador tunisino abandonou o país a 14 de janeiro.

Fontes: ‘Historical Oil Shocks’, James Hamilton, 2011; ICE Brent Crude Prices; TradingEconomics; ANS West Coast Price; Cook Inlet Whelhead Price; West Texas Intermediate Price.

A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) nos seis países da zona euro sob observação dos mercados da dívida – Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica – aumentou ao longo da semana. Nem mesmo os discursos grandiloquentes sobre a defesa da zona euro em Davos no World Economic Forum apagaram esse facto da semana.

No caso de Portugal, o risco subiu de 31,38% para 32,9%, apesar de o país ter descido um degrau no “clube” dos de maior risco à escala mundial, por “mérito” da Argentina, que viu agravado o seu risco. Portugal desceu para 6º lugar e mantém uma distância de quase três pontos percentuais face ao país das Pampas, de acordo com o monitor de risco da CMA DataVision.

O panorama nas yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro no mercado secundário aponta no mesmo sentido – uma tendência de alta em todos os seis países da zona euro referidos.

Portugal fixa novos máximos

Apesar da atenção e das comparações serem, regra geral, centradas nas yields de títulos com maturidades a dez anos, o que está a ocorrer nos títulos a cinco anos é também revelador.

As subidas mais acentuadas nos juros de títulos a cinco e seis anos ocorreram, esta semana, com a Irlanda (neste caso, são títulos a seis anos) e Portugal, segundo dados da Bloomberg.

Mergulhada numa crise política que já levou à marcação de eleições legislativas antecipadas para fevereiro e com o receio cada vez mais explícito por parte dos investidores na dívida irlandesa de que o futuro governo em Dublin poderá rever as condições do acordo com Bruxelas e com o Fundo Monetário Internacional, os juros nas maturidades a cinco anos aproximam-se do patamar dos 9%, nível onde se situam os juros nas maturidades a dez anos.

No caso português, após as eleições presidenciais, os juros das Obrigações do Tesouro (OT) a cinco anos marcaram, sucessivamente, no mercado secundário, novos máximos (desde a adesão ao euro) durante três dias seguidos, alcançando o nível de 6,42% na quinta-feira, tendo arrefecido na sexta-feira, fechando em 6,32%.

Os juros dos títulos a dez anos tiveram uma subida mais significativa na Irlanda, Grécia e Espanha ao longo da semana. No caso da Grécia avoluma-se a ideia de que será o primeiro país da zona euro a iniciar um processo de re-estruturação e re-escalonamento da dívida com “cortes de cabelo” (hair cuts, na designação técnica) que afetarão os detentores de títulos. Por outro lado em Espanha, apesar do acordo laboral, os investidores temem o que possa estar alojado na longa cauda das Cajas, as caixas de poupança, o segmento financeiro tido como mais doente.

No entanto, foi Portugal que, uma vez mais, fixou novos máximos desde a adesão ao euro. A 26 de janeiro, os juros das OT a dez anos atingiram, em valores de fecho, os 7,13%. Ao longo desta semana, o nível de juros destas OT no mercado secundário estabeleceu-se, claramente, no corredor dos 7%, a linha vermelha fixada pelo ministro das Finanças português.

Outro sinal preocupante é o facto dos juros dos títulos alemães (Bunds) a dez anos se manterem desde 12 de janeiro acima de 3%.

Revolução de Jasmim assusta os investidores

Contudo, na quinta e sexta-feira os holofotes viraram-se para os efeitos da ‘Revolução de Jasmim’ com o avolumar da revolta popular no Egito e uma vaga de aumento do risco de default nos países com as mais importantes posições estratégicas na região sul do Mediterrâneo e Península Arábica.

A interrogação que se coloca é saber até que ponto estes acontecimentos levarão, temporariamente, os investidores nos mercados da dívida a aliviarem a pressão sobre os países da zona euro.

O Egito passou em poucos dias do 21º lugar no ranking da probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) para o “clube” dos dez de maior risco, depois do contágio da ‘Revolução de Jasmim’ tunisina chegar a todo o Magrebe e Machreq. Tendo entrado na quinta-feira para o 10º lugar, o país dos Faraós subiu sexta-feira para o 9º lugar, com um risco de incumprimento acima de 26%, segundo o monitor da CMA DataVision. Subiu quase três pontos percentuais e o nível de risco está muito próximo do risco do Dubai (que ocupa o 8º lugar e que é o membro árabe mais antigo do “clube”).

Mas, depois de um primeiro impacto no risco de Marrocos (quinta-feira foi o país com maior variação diária do risco, na ordem de 13%) e Egito, o contágio alastrou para um conjunto de países do Médio Oriente e do Mediterrâneo Oriental.

As maiores subidas no risco ocorreram na Arábia Saudita (um aumento de 46%!, o país-chave do petróleo do Médio Oriente e da OPEP), Israel (mais 17%, um país que poderá sofrer com a queda do regime de Mubarak no Cairo), Egito (mais 14,5%), Qatar (mais 14,8%), Bahrein (mais 11,6%), Abu Dhabi (mais 10,3%) e Turquia (mais 8,5%).

O Egito é, também, o elemento central na ligação do Mar Vermelho ao Mediterrâneo e o Canal do Suez é um dos chokepoints (ou passagens marítimas muito estreitas) fundamentais das rotas do petróleo e de mercadorias. Outro elemento estratégico no Egito é o oleoduto que liga o Suez ao Mediterrâneo. Mais de 35 mil navios transitam pelo Canal do Suez, 10% dos quais petroleiros. Outros exemplos de chokepoints são o estreito de Bab-El-Mandeb (que liga o Mar Vermelho ao Índico e assolado pela pirataria desde 2002), o de Ormuz (sempre em risco quando há conflitos com o Irão), o de Malaca, o canal do Panamá e os estreitos do Bósforo e Dardanelos que ligam o Mar Negro ao Mar Egeu.

O Suez surgiu na ribalta da geopolítica aquando do que ficou conhecido como Crise do Suez em 1956 e 1957. O presidente egípcio Nasser decidiu nacionalizar o Canal em julho de 1956, o que levou israelitas, franceses e ingleses a invadirem território egípcio. Na altura passavam pelo canal um milhão e meio de barris de crude por dia. A Europa dependia em 2/3 desses abastecimentos.

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