Sex 16 Set 2011
A primeira exigência da China aos europeus — diário de bordo 378
Por JNR na secção A questão dos impérios , Ciberardina na crise (do default) , crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
O primeiro movimento estratégico da China sobre a crise da zona euro, manifestado publicamente, foi feito hoje de manhã bem longe de Bruxelas ou das capitais dos países membros da zona euro em crise da dívida soberana.
Em simultâneo com a declaração de que os europeus deveriam colocar a casa em ordem, a primeira exigência “estratégica” foi colocada publicamente pela China na reunião do Fórum de Verão de Davos, que se realiza em Dalian, conhecida como a “pérola do nordeste da China” (na Manchúria), até dia 17 de setembro, com a presença de participantes de 90 países.
Gesto de diplomacia económica
“Com base nos critérios da Organização Mundial do Comércio, o estatuto pleno da China como economia de mercado deverá ser reconhecido em 2016. Os países da União Europeia podem demonstrar a sua sinceridade vários anos antes, o que seria um reflexo da nossa amizade”, disse o primeiro-ministro Wen Jiabao,no discurso de abertura do Fórum. Um raciocínio que completou com total clareza: “espero que os dirigentes europeus olhem com coragem para a sua relação com a China de um ponto de vista estratégico”.
Soft power sobre “amigos” em apuros
Ou seja, os europeus poderiam fazer o gesto de diplomacia económica de reconhecer antecipadamente o estatuto de economia de mercado à segunda maior economia do mundo. Esta designação técnica de “economia de mercado” conduziria à remoção de várias barreiras às exportações e aos investimentos chineses na Europa.
Os media controlados pelo estado chinês alegaram, também, que outra exigência deverá ser o fim do embargo de exportação de armamento europeu para a China.
Alguns analistas chamam-lhe manifestações de “soft power” da nova superpotência emergente.
Nos negócios do dia a dia, é conhecida a atenção da China pelos planos de privatização na Grécia e Portugal e o jornal italiano La Republicca referia o enorme interesse dos conglomerados chineses pelo gigantesco plano de privatizações italiano, sobretudo as jóias da coroa na área da energia.
Num sentido mais geral, a China deverá passar, no futuro, de uma estratégia de investimento em títulos do tesouro americanos – e mesmo outros, como os títulos de países da zona euro com notação triplo AAA, sobretudo Bunds alemães – para o que Li Daokui, um académico conselheiro do Banco Central da China, chamou de “activos físicos”. Li acabaria por “traduzir” para os participantes do Fórum em Dalian: “Gostaríamos de tomar posições na Boeing, Intel e Apple, e deveríamos investir neste tipo de empresas de um modo proativo”.
Paradoxos dos tempos que correm
A China tem andado nas bocas do mundo com apelos para que seja um dos países fora da Europa a apagar o fogo da crise das dívidas soberanas na zona euro. Os pedidos públicos de Itália esta semana foram o mais recente episódio. Um paradoxo, diz Yu Yongding, um economista chinês: “A China é um país pobre com apenas 4000 dólares de rendimento anual per capita. Falar e pensar sobre a China para salvar países com 40.000 dólares de rendimento per capita é ridículo”.
O segredo do paradoxo são as reservas em divisas estrangeiras (3,2 biliões de dólares, o equivalente a mais de €2200 mil milhões) que a China tem e a necessidade de assegurar mercados de exportação e investimento direto para a sua máquina fabril (o motor do seu crescimento) e para a projeção global. Esse valor em reservas representa 5,5% do PIB mundial – um número similar ao dos EUA nos anos 1920.
Paradoxal, também, ouvir um país de capitalismo monopolista de Estado recomendar: “Os países desenvolvidos deverão colocar em prática políticas orçamentais e monetárias responsáveis. O que, agora, é mais importante é evitar contágio da crise da dívida soberana na Europa”.
A Europa é o principal destino de exportações da China, envolvendo 22% das suas vendas mundiais. Em segundo lugar vêm os EUA.
OS BRICS – acrónimo para o grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – realizarão uma cimeira em Washington DC no dia 22 de setembro antes do início das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e dos ministros das Finanças do G20. Segundo tem sido difundido, as cinco economias consideradas emergentes deverão discutir a situação da crise da dívida na zona euro.
