A questão dos impérios


De 9 a 23 de outubro, Porto Rico liderou o grupo das 10 economias com a probabilidade de incumprimento da dívida mais elevada no mundo num horizonte de cinco anos, ultrapassando a Argentina. O risco de Porto Rico ultrapassou os 70%, segundo dados da S&P Capital IQ, mas, ontem, o risco desceu significativamente. Hoje já ocupava a terceira posição, com menos de 50%, depois da Argentina e Chipre.

Porto Rico é um território dos Estados Unidos nas Caraíbas e como tal não pode declarar bancarrota, mesmo que o mercado financeiro considere a sua probabilidade como muito elevada.

A Securities and Exchange Commission (SEC, Comissão de Valores Mobiliários) norte-americana decidiu avaliar a situação dos fundos de investimento que estão muito expostos à economia porto-riquenha que ainda não conseguiu recuperar da crise financeira.

Os títulos da dívida de Porto Rico a 10 anos registam yields de 8% no mercado secundário, muito acima da linha vermelha, com prémios de risco de mais de cinco pontos percentuais em relação aos títulos do Tesouro norte-americano. Na parte inferior do patamar dos 8% movem-se as yields das obrigações da Turquia. A notação de crédito da dívida porto-riquenha está quase no nível especulativo (vulgo “lixo financeiro”) segundo o rating de BBB- reafirmado pela Standard & Poor’s.

A decisão da SEC é indiciadora de preocupação por parte da agência norte-americana. E não é para menos – segundo a Morningstar, 77% dos fundos norte-americanos detendo títulos municipais têm no seu portefólio dívida porto-riquenha, já que o território está isento de impostos. A dívida porto-riquenha é a terceira nos Estados Unidos, depois dos estados da Califórnia e Nova Iorque. Ronda os 52 a 70 mil milhões de dólares, consoantes os critérios usados.

Obama quer “NATO” económica com Bruxelas — No discurso do Estado da Nação proferido a 12 de fevereiro, o presidente norte-americano, no início do seu segundo mandato, quer chegar a um acordo com a União Europeia para uma zona de comércio livre. É o seu “plano” para relançar a economia ocidental. Bruxelas confirmou a 13 de fevereiro

O presidente Obama, no início do seu segundo mandato, colocou como objetivo geopolítico a criação de uma zona de comércio livre entre os Estados Unidos e a União Europeia, parceria que designou como “Transatlantic Trade and Investment Partnership” (TTIP). Disse-o, ontem, no discurso anual sobre o “Estado da Nação”.

Na última cimeira europeia a ideia foi apoiada, tendo como maiores entusiastas o primeiro-ministro britânico e a chanceler alemã. Faltava o sinal político público de Obama, entretanto reeleito. A chanceler alemã Ângela Merkel, em 2006, havia defendido esta ideia. Em 1998, foi Leon Brittan, mais tarde barão britânico, quando Comissário Europeu do Comércio e dos Assuntos Externos, que defendeu a iniciativa de uma Zona de Comércio Livre deste tipo, então batizada de Tafta (Trans-atlantic free-trade area), que teve oposição da França.

O presidente norte-americano e alguns líderes europeus pretendem com essa iniciativa entre os dois lados do Atlântico criar uma dinâmica de impulsionamento da economia ocidental face à sua perda de peso na economia mundial e no comércio internacional. A nova parceria aproveitaria a oportunidade do marcar de passo da iniciativa Trans-Pacific Partnership.

Alguns analistas já alcunharam a TTIP de “NATO” económica. Alguns já a batizaram do começo dos “Estados Unidos do Ocidente”. A média das tarifas existentes no comércio entre os dois lados anda nos 3%, mas, em alguns sectores protegidos, a barreira alfandegária chega aos 20%.

O efeito desta decisão, no entender de especialistas em geopolítica, é martelar mais um prego na Ronda de Doha. O propósito da Organização Mundial do Comércio de promover uma plataforma multilateral tem marcado passo e com este tipo de movimentos geoestratégicos caminha para a sua morte. A opção pelos acordos bilaterais e regionais tem proliferado. Com esta decisão dos EUA e da Europa, “um mau exemplo foi dado”, avisou no “Die Welt” Rolf Langhammer, do Institut for the World Economy, em Kiel, na Alemanha. Passa-se a um acordo entre os dois maiores blocos económicos, susceptivel de discriminar o resto do mundo. Para a Europa, diz Langhammer, poderá prejudicar as suas relações com as ecoomias emergentes.

Obama em Berlim em junho

A decisão foi hoje confirmada por Bruxelas. Obama visitará Berlim em junho onde deverá fazer do tema uma questão geopolítica central. A mensagem para os europeus é esta: os EUA continuam estrategicamente interessados numa relação especial com a Europa, apesar da sua viragem progressiva evidente para a Ásia e o Pacífico. Contudo, a Ásia é um vespeiro de graves problemas com diversas grandes potências com temas de atrito diversos. A “NATO” económica agradará à corrente atlantista. O que está em jogo é, por isso, mais do que os ganhos comerciais, alegam alguns analistas.

A Comissão Europeia calcula um ganho anual de meio ponto percentual no PIB da União Europeia se tal zona for criada e a Câmara de Comércio norte-americana fala num ganho de 1,5 pontos percentuais no PIB dos dois lados do Atlântico.

Os dossiês mais difíceis nesta negociação serão o agrícola, dos serviços e do acesso aos mercados públicos, onde há lóbis poderosos dos dois lados do oceano. O dossiê mais ganhador parece ser o do sector automóvel (que é um dos motores de crescimento do comércio transatlântico, onde a eliminação de barreiras alfandegárias poderá reduzir os custos em 15%)

Uma semana de grandes movimentações políticas condiciona a Alemanha para permitir ao BCE agir na próxima quinta-feira. Entretanto, a União Europeia inicia um inquérito sobre conflito de interesses por parte de Mário Draghi, presidente do BCE.

Grandes movimentações políticas marcam o início da semana antes da reunião do conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE) em Frankfurt na próxima quinta-feira. O secretário do Tesouro da Administração Obama viajou dez horas para se encontrar com o ministro das Finanças alemão na casa de férias na estância de veraneio da ilha alemã de Sylt, onde o preço do metro quadrado é o mais alto da Alemanha. A chancelaria alemã considerou este encontro “informal”, mas a pressão do amigo americano é óbvia. Tim Geithner repetiu com Wolfgang Schauble que há que evitar o agravamento da crise na zona euro e seguiu para Frankfurt ontem à noite onde se reuniu com Mário Draghi, o presidente do BCE, o homem que está no centro das atenções esta semana.

No momento crítico em que Draghi afirmou que o BCE e outras entidades tomariam medidas que seriam “suficientes”, o Comité de Vigilância Interna da União Europeia abriu um inquérito sobre a participação do presidente do BCE no Grupo dos 30, uma rede dos principais financeiros privados, académicos (como Paul Krugman, Martin Feldstein, Raghuram Rajan, Kenneth Rogoff, Lawrence Summers), ex-banqueiros centrais e mesmo banqueiros centrais no ativo (como Draghi, ou Mervyn King, governador do Banco de Inglaterra, ou Mark J. Carney, governador do Banco do Canadá e presidente do Financial Stability Board do G20, ou Zhou Xiaochuan, governador do Banco Popular da China). Criado em 1978 é hoje presidido por Jean-Claude Trichet, o antecessor de Draghi na liderança do BCE.

Entretanto, Mário Monti, o presidente do conselho de ministros italiano, iniciou um périplo movimentado que o leva hoje a Paris (para acertar agulhas com François Hollande), amanhã a Helsínquia (o osso mais duro de roer) e depois a Madrid, onde espera consolidar o eixo dos “periféricos” com Mariano Rajoy, o presidente do governo espanhol. O próprio ex-primeiro-ministro inglês Tony Blair saiu a terreiro no jornal alemão “Bild” apelando a que os alemães salvem o euro, aceitando alguns “compromissos desagradáveis”.

Para o governo alemão não é fácil aceitar “compromissos desagradáveis”, com 51% dos alemães a dizerem que preferem a Alemanha fora do euro e 71% a apoiarem uma saída da Grécia da zona monetária única, sondagem que é apimentada por uma taxa de desemprego que subiu de 6,6% para 6,8%. É ainda mais difícil para Berlim tirar o tapete ao Bundesbank (o banco central alemão, alcunhado de “Buba”), considerado um dos ativos da política alemã, que no BCE se tem batido contra o abuso de medidas “não convencionais” de política monetária. Os jornais alemães já classificaram Mário Draghi de “cavalo de Tróia”.

No entanto, o recuo da chanceler Ângela Merkel, já verificado aquando da cimeira europeia de 28 e 29 de junho, parece consolidar-se. Em conversa telefónica com o presidente francês endossou as palavras de Mário Draghi em Londres e hoje o ministro alemão do Trabalho veio dizer que a principal ameaça ao emprego no país é uma desagregação da zona euro. Mário Draghi reunirá na quarta-feira com Jens Weidman, governador do Bundesbank, e opositor firme de muitas das medidas “não convencionais” que têm sido sugeridas ao BCE. Muitos analistas estão na expetativa de ver qual o compromisso que sairá dessa reunião.

O temor sobre o segundo semestre

Em suma, valores mais altos do que o “Buba” se levantam. O medo a uma recaída na recessão na Europa e nos EUA com o agravamento de conflitos sociais e políticos graves nas “periferias” da zona euro (como a eventual caída dos governos em Atenas e Roma como prato forte) e um disparo da instabilidade política em Washington, mais grave do que o que ocorreu em agosto do ano passado, com a agravante de haver eleições presidenciais em novembro.

O cenário tem sido referido pelo Fundo Monetário Internacional, pelo BCE e pela Reserva Federal norte-americana. É a “incerteza” mais arriscada que têm em cima da mesa. O que os move é o temor de que o segundo semestre se transforme num calvário com a convergência de um agravamento da crise das dívidas soberanas na zona euro (com Espanha e Itália em foco e um falhanço da renegociação na Grécia) com um súbito descalabro orçamental nos Estados Unidos em período de eleições presidenciais (“penhasco orçamental” e regresso da guerra em torno do teto da dívida federal).

Neste contexto, a reunião do conselho de governadores do BCE na quinta-feira surge como crucial, mais do que a própria reunião da Reserva Federal (Fed) dia 1 de agosto. Os analistas norte-americanos consideram que a reunião da Fed será apenas uma preparação do encontro de reflexão de Jackson Hole a 31 de agosto e que as decisões críticas sejam só tomadas na reunião da Fed de 13 de setembro, em que haverá uma conferência de imprensa.

O medo de que algo descarrile no segundo semestre levou hoje a agência chinesa Xinhua a citar o presidente Hu Jintao de que serão incrementadas medidas de política orçamental e monetária.

Setembro é um mês de confluência de muitas decisões para a zona euro. O Tribunal Constitucional federal alemão divulgará o acórdão sobre o Mecanismo de Estabilidade Europeia que deveria ter entrado em vigor em 9 de julho. Ocorrerão dia 12 eleições legislativas na Holanda, que poderão modificar os equilíbrios políticos na zona euro. A troika publicará o seu relatório sobre a situação na Grécia falando-se já da preparação de uma segunda reestruturação de dívida, desta vez negociada com os credores públicos, que poderá implicar um hair cut (“corte de cabelo”) no valor da dívida detida pelo “sector oficial” entre 30% a 50%, segundo cálculos da Reuters e da ING respetivamente. Entretanto na Catalunha, cuja Generalitat é governada por Artur Mas do CiU, poderá ser desencadeada uma consulta popular (tecnicamente não poderá ser um referendo) sobre o pacto fiscal com Madrid, criando um efeito dominó a partir de uma das maiores Comunidades Autónomas contra os planos de Mariano Rajoy e de Bruxelas.

Fuga de capitais começa a ser alarmante

A Nomura referiu que, a continuar a fuga de capitais dos mercados “periféricos”, poderá correr-se o risco de uma imposição de um “corralito” ao estilo argentino (impedindo a saída de capitais) e de uma súbita reintrodução de moedas próprias em vários “periféricos” da zona euro (com o novo dracma a desvalorizar-se 57,6%, o novo escudo 47,2%, a nova peseta 35,5% e a nova lira 27,3%). Segundo o jornal grego “Kathimerini” na sua edição de hoje, o ministro das Finanças do governo de Atenas teria dito aos partidos que apoiam a coligação que “ou tomamos medidas ou regressamos ao dracma no prazo de dois meses”.

Segundo o relatório do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) divulgado recentemente, e referido na edição do Expresso de sábado passado, os bancos dos 24 países que reportam para o BIS reduziram a sua exposição à dívida pública europeia em 13,2%. No caso da Grécia, a saída atingiu 58,9% no 1º trimestre em variação homóloga, 35,8% para a Estónia, 34,4% para Portugal, 32,9% para Chipre, 30% para Espanha, 28,8% para Itália e 26,3% para Irlanda. Sintoma desta fuga dos”periféricos” é a corrida dos bancos internacionais aos títulos soberanos considerados refúgio seguro, que tem levado as yields desses títulos no mercado secundário a valores negativos ou próximos de zero nos prazos mais curtos, como têm sido os casos da Suíça, Alemanha, EUA e França.

Bill Clinton foi a Atenas com mensagem da diáspora grega nos EUA. Face à sugestão alemã de saída da Grécia da zona euro, o Governo de Antonis Samaras procura aliados geopolíticos.

“Estou certo que o governo de coligação [grego] gera imensa confiança nos gregos da diáspora”, disse o ex-presidente Bill Clinton em visita a Atenas para promover a “Iniciativa Helénica” liderada por Andrew Liveris, CEO da Dow Chemical. Esta iniciativa visa mobilizar 100 milhões de dólares para apoiar os gregos em medicamentos e alívio da pobreza.

A visita de Bill Clinton foi mais um sinal do interesse geoestratégico que a Grécia tem para os EUA. Interesse que é partilhado pela Rússia e pela China que olham para este país “periférico” como uma oportunidade face à crise da dívida soberana e à tendência da coligação alemã para empurrar Atenas para fora da zona euro.

Os últimos dias foram mais um período pródigo em encostar a Grécia às cordas por parte da alguns dos seus parceiros da zona euro, no momento em que a delegação da troika chegará a Atenas para a análise do andamento do programa de resgate. A troika deverá reunir com o primeiro-ministro Antonis Samaras dia 26 de julho.

BCE, liberais alemães e FMI tiram o tapete a Atenas?

O Banco Central Europeu (BCE) declarou que deixou de aceitar os novos títulos gregos (emitidos aquando da troca de dívida na reestruturação que ocorreu este ano no quadro do segundo plano de resgate) usados pelos bancos helénicos para se financiarem junto do BCE; este embargo decorrerá até que a troika conclua a sua revisão da situação grega. Deste modo, os bancos gregos terão de recorrer exclusivamente ao banco central do país através da linha de Assistência de Liquidez de Emergência (ELA, no acrónimo em inglês).

Entretanto, altos membros da coligação alemã desdobraram-se a sugerir a saída da Grécia da zona euro. Philipp Roesler, vice-chanceler do governo e presidente do Partido Liberal, declarou-se “mais do que cético” sobre a possibilidade da Grécia ser resgatada, em declarações ao canal ARD. Por seu lado, Guido Westerwell, também dos liberais, e ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmou que não apoiará a renegociação do segundo pacote de resgate à Grécia. “Isso não funcionará – esse é o Rubicão que não atravessaremos”, disse ao Hamburger Abendblatt.

Para resolver os problemas de financiamento em agosto, a troika permitirá que o estado grego emita bilhetes do Tesouro para pagar ao BCE, que adquiriu, com um desconto de 30%, no mercado secundário, dívida grega no valor de de 3,1 mil milhões de euros que vencem em 20 de agosto.

O jornal alemão “Der Spiegel”, por seu lado, adiantou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) estaria na disposição de parar o pagamento de tranches a Atenas, não realizando a prevista para agosto, o que deixaria o país à beira da insolvência, de novo, em setembro. Entretanto, o FMI desmentiu o jornal alemão.

Fruto destes rumores e decisões, as yields (juros) dos novos títulos gregos no prazo a 10 anos subiram, ao final da manhã, para 26,81%, segundo dados da Bloomberg. São os mais altos na zona euro. Na sexta-feira passada haviam fechado em 25,58% e há uma semana estavam em 24,95%. A probabilidade de incumprimento da dívida grega está em 98,56%, segundo dados da CMA DataVision. É o risco de bancarrota num horizonte de cinco anos mais elevado no mundo, liderando o “clube” dos 10 países com mais alto risco de incumprimento.

Maior potencial de petróleo

No plano geoeconómico, soube-se, recentemente, que a Grécia é o país da União Europeia com o maior potencial prospetivo de exploração de petróleo no Mar Jónico e no Mar Egeu. O que motivara uma deslocação há um ano da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton a Atenas. Também, interesses russos e chineses (a COSCO chinesa vai gerir os terminais de contentores do porto do Pireu, o mais importante, nos próximos 35 anos e os bancos chineses vão entrar no financiamento da atividade de shipping grega abandonada pelo banco alemão Commerzbank) se movem neste campo.

Um especialista em energia, David Hynes, da Universidade de Tulane, disse, recentemente, em Atenas que a Grécia poderia resolver o problema da sua dívida com base no desenvolvimento da exploração de petróleo e gás, para além do seu importante posicionamento na logística do Mar Negro e do Mediterrâneo.

A Grécia, pela sua posição “periférica” estratégica nas rotas logísticas e no xadrez geopolítico do Mediterrânio Oriental (onde há riscos elevados de turbulência) atrai cada vez mais a atenção de grandes potências externas à União Europeia. É um shatterbelt da Europa.

As bolsas asiáticas quebraram mais de 2% e as bolsas europeias apontam para um dia no vermelho. As yields (juros) da dívida soberana dos países da zona euro no mercado secundário abriram com a França, Espanha e Itália a serem as mais penalizadas, segundo dados da Bloomberg.

São as primeiras reações dos mercados financeiros aos resultados eleitorais em França (presidenciais), Grécia (legislativas) e Schleswig-Holstein (regionais alemãs). Os resultados apontam para uma pesada derrota da estratégia da chanceler alemã Ângela Merkel.

As maiores subidas nos juros estão a verificar-se nas obrigações francesas a 2 e a 3 anos, nas obrigações espanholas a 2 anos, nos títulos italianos a 2, a 3, a 5 anos, nas obrigações do Tesouro português a 2 anos e nos títulos gregos a 10 anos que servem de benchmark depois da recente reestruturação parcial da dívida.

Os juros dos títulos alemães abriram a descer, estando em 1,56%, abaixo do mínimo de 2 de maio. O que provocará um aumento ainda maior do prémio de risco das dívidas dos países “periféricos” da zona euro.

Os juros das obrigações do Tesouro português abriram a subir nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos, e a descer no prazo a 10 anos. Os juros a 2 anos abriram em 8,24%, depois de terem fechado na sexta-feira em 7,98%.

Ao final da manhã, se poderá verificar a extensão do impacto nos juros da dívida no mercado secundário e no risco de incumprimento das dívidas dos países da zona euro hoje em foco na abertura destes mercados: França, Espanha, Itália, Grécia e Portugal.

Estratégia de Merkel batida em três frentes

Os resultados eleitorais na Grécia e em França apontam para uma derrota da estratégia seguida pela chanceler alemã, que também viu a sua coligação CDU-FDP perder nas eleições para o estado alemão de Schleswig-Hostein. A agência de informação Eurointelligence, de Wolfgang Münchau, classificou os resultados em França e na Alemanha como uma “insurreição” (pelo voto).

Em França, o candidato socialista às presidenciais François Hollande ganhou a Nicolas Sarkozy. Em termos europeus, Hollande apontou para a necessidade de uma “adenda” ao “pacto orçamental” virada ao crescimento. A Standard & Poor’s (S&P) já adiantou hoje de manhã que estes resultados não terão, por ora, impacto na notação da dívida do país, que viu a sua “expulsão” do clube do triplo A ser concretizada pela S&P em 14 de janeiro. Atualmente a França tem notação de AA+, segundo aquela agência. A França vai, no entanto, ficar suspensa dos resultados das eleições legislativas que vão decorrer em 10 e 17 de junho.

A chanceler alemã Ângela Merkel já convidou Hollande a deslocar-se a Berlim, segundo o Der Spiegel.

Na Grécia, a perda de maioria dos partidos que sustentaram o segundo Memorando de Entendimento que implicou o segundo plano de resgate foi o facto mais significativo. O Parlamento em Atenas tem agora 7 partidos, em que as formações políticas explicitamente contra o Memorando somam 44% dos lugares. Este é o pano de fundo para o imperativo da Grécia apresentar até final de junho um plano de cortes de 5,5% do produto interno bruto para o período 2013-2014. O Citigroup fala de uma probabilidade da Grécia sair da zona euro entre 50 e 75%.

Os dois tradicionais partidos da alternância desde a queda da ditadura militar em 1974, Nova Democracia (direita) e PASOK (socialista), dispõem de 149 lugares num parlamento de 300 deputados. Recorde-se que a arquitetura parlamentar grega dá de bónus ao partido mais votado 50 lugares de deputados. Neste caso, foi a Nova Democracia, com mais de um milhão e cem mil votos (18,92% dos votantes), que arrecadou o bónus. Sem esse bónus, o afundamento do “arco do poder” seria arrasador.

Só mobilizando a Esquerda Democrática (sétimo partido mais votado, que foi formado a partir de uma cisão da Esquerda Radical, mas que mantém uma posição pró-europeia), a Nova Democracia e o PASOK poderão formar uma maioria parlamentar e tentar um governo de coligação. Mas mesmo estes três partidos são pela revisão do Memorando de Entendimento.

As subidas de votação mais significativas foram do partido de extrema-direita Aurora Dourada (que passou a dispor de 19 deputados) e do SYRIZA, esquerda radical, que ficou em segundo lugar (dispondo de 52 deputados), mais de três pontos percentuais acima do PASOK (o principal derrotado, que passou a terceiro lugar) e a menos de três pontos percentuais da Nova Democracia (o partido mais votado).

O cenário de “ingovernabilidade” e convocação de eleições antecipadas em junho tem surgido nos media gregos.

Na Alemanha, a coligação CDU-FDP (que suporta o governo federal da chanceler Merkel) conseguiu apenas 38,9% dos votos. Uma provável coligação entre o SPD (sociais-democratas), Verdes e o partido da minoria dinamarquesa dispõe de 48,4%. A chanceler defronta novas eleições regionais já a 13 de maio na Renânia do Norte-Vestefália.

Em 2025, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos no Produto Interno Bruto (PIB) e depois de 2030 “o renminbi [a divisa chinesa, ou moeda do povo em chinês] deverá estar praticamente a par do dólar como divisa chave”, segundo a previsão de Chen Yulu, reitor da Universidade Renmin (Universidade Popular da China), num artigo publicado no “Diário do Povo” esta semana.

A estratégia recomendada pretende que o “grau de internacionalização da divisa chinesa entre 2030 e 2040 chegue a 20%, o que assegurará, em duas ou três décadas, que o sistema monetário internacional deixe de ser dominado pelo dólar norte-americano para assumir uma estrutura envolvendo o dólar, o euro e o renminbi”, diz Chen Yulu.

A internacionalização da divisa chinesa não será só importante para a sustentabilidade da prosperidade económica interna, mas também “um veículo para o seu soft e hard power”, dimensões do poder a nível geopolítico, afirma Chen Yulu, que é da geração já nascida no final dos anos 1960, e especialista em Finanças.

Chen Yulu tem um doutoramento em Economia e foi professor Fullbright na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, bem como professor visitante na Universidade de Tilburg, na Holanda. É o mais jovem reitor de uma universidade chinesa.

Três fases

Chen Yulu refere três “fases” na estratégia de internacionalização. A primeira fase já foi iniciada e consistiu em fomentar o uso da moeda chinesa no comércio internacional por parte das empresas em todas as regiões do país, e estão em curso vários protocolos bilaterais no sentido de haver pagamentos nas próprias divisas, de países em desenvolvimento ou emergentes, envolvidos em trocas comerciais com a China.

O dólar seria eliminado das transações. O Standard Bank sul-africano, o maior banco de África, afirmou num estudo recente que o uso do renminbi nas trocas comerciais terá particular sucesso naquele continente mais do que em qualquer outro lugar “pois, muitas das moedas locais são fracas e em certa medida muito localizadas”.

O comércio internacional denominado em divisa chinesa representou 9% do total de importações e exportações em 2011.

Simultaneamente, a China abriu um mercado de swaps nos câmbios (existindo já acordos com 14 países) e transformou Hong Kong num centro offshore da sua divisa em 2009 e está a alargar essa função a Singapura e Londres (por muitos já considerada a plataforma financeira da China para o Ocidente). Um país de África, a Nigéria, já integrou no ano passado o renminbi no seu sistema de reservas.

Estas medidas já levaram a que o grau de internacionalização da divisa chinesa saltasse de 0,02% em 2010 para 0,41% em 2011.

A segunda fase envolve o passo seguinte, a convertibilidade total do renminbi. Chen Yulu considera que serão necessários apenas quatro anos para a concluir, entre 2016 e 2020, contrastando com “o Japão que levou 16 anos, o Reino Unido que levou 18 anos e a Rússia que levou 20 anos”. Um dos problemas que esse passo acarretará será a apreciação da divisa chinesa e o seu impacto no facto da China ter uma posição específica nas cadeias de valor mundiais, adverte.

Os produtos ‘Made in China’ serão mais caros no comércio internacional (abrindo oportunidades a países em desenvolvimento exportadores com custos mais baixos), aumentarão os défices da China com parceiros na Ásia seus fornecedores, e diminuirão os créditos em relação aos países desenvolvidos clientes da China, com quem Pequim tem excedentes comerciais ano após ano.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (Working Paper No. 12/88: “Spillover Effects of Exchange Rates: A Study of the Renminbi”), publicado esta semana, estima que a apreciaçao de 30% do renminbi em relação ao dólar, ocorrida entre 2000 e 2008, deverá ter implicado um aumento de 4,5% a 6% das exportações para os EUA de países em desenvolvimento concorrentes da China.

Enfrentar esses percalços exige que a China “aprenda com a experiência dos Estados Unidos” no desenvolvimento de “um padrão baseado em três pilares – legal, tecnológico e financeiro”.

A terceira fase coincidirá com a consagração geoeconómica do país. “Se o crescimento da China ultrapassar o dos Estados Unidos numa média anual de cinco pontos percentuais e a apreciação do renminbi continuar a uma taxa anual de 2 a 3%, a China terá o maior PIB do mundo em 2025″, refere o reitor. Com essa fase virá a paridade com o dólar e o renminbi transformar-se-á numa divisa de reserva sobretudo para o mundo em desenvolvimento.

O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, anfitrião em Nova Delhi da 4ª Cimeira dos BRICS – o novo bloco geopolítico formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, apresentará dia 29 de março aos quatro presidentes convidados a proposta de criação de um banco de desenvolvimento.

Segundo os analistas, a nova instituição bancária pretenderá afirmar-se como uma espécie de banco paralelo ao Banco Mundial (BM) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A ideia do primeiro-ministro indiano é criar um mecanismo financeiro, autónomo dos jogos de poder dentro do FMI e do BM, que permita o lançamento de projetos nos países em desenvolvimento. A presidência da instituição seria rotativa entre os cinco integrantes.

Por outro lado, este novo banco servirá como arma política de pressão sobre o FMI e o BM no sentido da mudança da correlação de forças interna, há muito reclamada pelas economias emergentes. Por exemplo, na estrutura dirigente do FMI há 24 membros, oito dos quais têm assento permanente (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, China, Rússia e Arábia Saudita) e 16 outros são eleitos por biénio.

Ainda que a ideia possa ser aprovada formalmente, a negociação da sua concretização será, certamente, um processo prolongado.

Nesta cimeira de Nova Delhi, além do primeiro-ministro indiano, participam Dilma Rousseff, presidente do Brasil, Dmitri Medvedev, ainda presidente da Rússia, Hu Jintao, presidente da China, e Jacob Zuma, presidente da África do Sul.

A primeira cimeira dos BRIC realizou-se na Rússia em 2009 e a África do Sul passou a integrar o “clube” em 2011, altura em que o acrónimo, criado por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, mudou para BRICS.

O Tesouro britânico vai consultar os mercados financeiros sobre a possibilidade de ainda durante o próximo ano fiscal emitir dívida a mais de 50 anos ou mesmo perpétua, revivendo iniciativas tomadas em 1720 e 1932. Portugal emitiu títulos a 99 anos em 1902 no âmbito da reestruturação da dívida.

Na mesma altura em que a agência de notação de crédito Fitch colocava a dívida do Reino Unido em “perspetiva negativa”, com uma probabilidade de perda da classificação de triplo A nos próximos dois anos, o Debt Management Office (DMO), a agência de gestão da dívida britânica, anunciava a possibilidade do governo inglês regressar à emissão de títulos com prazo de vencimento superior a 50 anos, provavelmente a 100 anos ou mesmo perpétuos (conhecidos na gíria por “perp”), sem vencimento, apenas pagando juros eternamente a quem detiver tais títulos.

“Espera-se que o chanceler do Tesouro tome em consideração a possibilidade de emissões [de dívida soberana] superduradouras, com vencimentos superiores a 50 anos, ou mesmo perpétuos”, disse Robert Stheeman, diretor do DMO.

A iniciativa poderá ser enquadrada no orçamento para o próximo ano fiscal de 2012-2013 que é apresentado ao Parlamento na próxima quarta-feira, a que se seguiria um período de consultas de três meses aos mercados financeiros sobre a recetividade a tal medida, que poderá poupar anualmente 20 mil milhões de libras esterlinas (24 mil milhões de euros, ao câmbio de hoje) nos próximos cinco anos. Tais títulos poderiam pagar um juro baixo durante longos períodos, valendo-se da reputação que o Reino Unido tem de não entrar em default desde 1594.

Os títulos de dívida britânica são designados por “gilts”. O governo britânico já recorreu à emissão de gilts perpétuos em 1720 a seguir ao estoiro da bolha financeira ligada à Companhia dos Mares do Sul (a terceira grande bolha financeira depois da das túlipas na Holanda em 1634-1638 e da ligada à companhia francesa do Mississippi entre 1719 e 1720) e em 1932 para cobrir os custos da 1ª Guerra Mundial. Desde 1998 é a referida agência DMO que procede à emissão de dívida em nome do Tesouro.

Como curiosidade refira-se que, aquando da reestruturação da dívida portuguesa em maio de 1902, os negociadores conseguiriam que os credores externos aceitassem convertê-la num novo empréstimo amortizável a 99 anos, até 2001, com títulos rendendo 3%. A troca de títulos então feita reduziu a dívida soberana em 38% e diminuiu o serviço da dívida anual em 50%. Esta reestruturação concretizou-se dez anos depois da declaração de bancarrota parcial em junho de 1892.

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, acusa as políticas monetárias de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação técnica em inglês) da Reserva Federal norte-americana (Fed) e de fornecimento de liquidez a 3 anos a 1% (conhecida por LTRO) do Banco Central Europeu (BCE) como armas “protecionistas” dos países ricos tentando gerar desvalorizações cambiais artificiais das suas divisas e ameaçar as economias emergentes com o risco de arbitragem (exploração de diferenças de preço entre instrumentos financeiros similares ou idênticos).

“O problema é que essa desvalorização cambial artificial é a forma de protecionismo mais feroz que se tem. Há um discurso dos países centrais de que são defensores do comércio livre, mas praticam o protecionismo mais feroz que se tem. E essa desvalorização artificial da moeda não está regulada pela Organização Mundial do Comércio. Então, não venham reclamar de algumas medidas absolutamente defensivas que o Brasil toma”, refere Dilma Rousseff em entrevista a Luis Nassif, publicada no portal online deste jornalista.

Dilma referia-se ao “alívio quantitativo” prosseguido por Ben Bernanke, o presidente da Fed, no sentido de “empurrar a crise com a barriga”, bem como, no caso da Europa, a estratégia de “desvalorizar o euro e jogar a conta sobre os países emergentes que têm câmbio flutuante”. Estas injeções de liquidez, diz Dilma Rousseff, não entraram na economia real. Estão criando uma enorme bolha monetária, sublinha a presidente brasileira.

Esquizofrenia europeia

“Hoje em dia, via tsunami monetário, está em curso, no mundo, a prática das desvalorizações competitivas, o que se chama de empobreça o seu vizinho. É uma situação esquizofrénica na Europa, que não consegue uma solução de crescimento. Muitos países estão com graus de desemprego do ponto de vista político incompatíveis com sistemas democráticos abertos. A dívida grega não é financiável, assim como a de Portugal”, refere, ainda, a presidente.

“No caso da Europa são um bilião de euros emprestados a 1% ao ano, que em breve entrarão na ciranda financeira. Irão investir em títulos da Itália e de Espanha, aumentando sua exposição? Não, Virão fazer arbitragem aqui e em outros países [com câmbio flutuante]. Temos uma enorme bolha a caminho”, afirma na entrevista. Dilma refere-se ao programa de liquidez LTRO a 3 anos impulsionado por Mário Draghi, o novo presidente do BCE, que já realizou duas operações em final de dezembro do ano passado e em final de fevereiro deste ano. Este programa é conhecido como a “bazuca” de Draghi.
Recessão com excesso de liquidez

E deixa um vaticínio: “Aqui não temos dúvida que a economia mundial caminha para a recessão com excesso de liquidez”. A que acresce a viragem de grandes economias para “uma tendência a uma volta aos mercados domésticos”, o que já seria visível com a China, ao decidir abrandar a meta de crescimento (para 7,5% em 2012, abaixo do limiar mágico dos 8%) e mudar o modelo económico do apoio na exportação para o fortalecimento do mercado interno.

E o que fará o Brasil? “Vai institucionalmente tomar medidas para garantir que o nosso mercado interno não seja canibalizado”. Uma das medidas já tomadas pelo Banco Central do Brasil foi a da redução dos juros. O diferencial entre os juros brasileiros (taxa Selic com meta em 9,75%) e os juros de referência de países ricos (como o Fed funds rate atualmente em 0,25% variando entre 0 e 0,25% ou a fixed rate- taxa principal de refinanciamento de operações do BCE em 1%) é responsável pela maior arbitragem que existe no mundo. A 7 de março, na semana passada, o Copom (Comité de Política Monetária) decidiu reduzir a taxa Selic para 9,75%. Em janeiro, o Copom havia cortado a taxa Selic de 11% para 10,5%.

Sétima potência económica do mundo

Apesar de ser um dos quatro BRIC (acrónimo criado por Jim O’Neill da Goldman Sachs em 2001 para as quatro grandes economias emergentes), o Brasil tem manifestado um crescimento com oscilações importantes, desde o início da crise financeira em meados de 2007: o produto interno bruto cresceu 5,7% em 2007; abrandou para 5,1% em 2008; entrou em recessão ligeira em 2009, com um decréscimo de 0,6%; retomou significativamente, com um crescimento de 7,5% em 2009; para ter um abrandamento abrupto, para uma taxa de crescimento de 2,9% em 2011. A previsão para 2012 é de um crescimento de 3%.

O Brasil, no entanto, subiu do 14º lugar na economia mundial em 1970 para 10º em 1990 e 7º em 2010. Segundo, O’Neill, depois da China é a mais espantosa história de crescimento das últimas duas décadas. Contudo, devido às oscilações do seu crescimento, não está entre os cinco países/zonas monetárias que mais contribuíram para o crescimento do PIB mundial na década de 2000 a 2010, onde se classificaram a China (contribuindo 22,12% para o aumento do PIB mundial), União Europeia (14,46%), Estados Unidos (14,24%), Índia (7,74%) e Rússia (3,46%).

O anúncio caiu como uma bomba na Ásia na segunda-feira. O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao disse no primeiro dia da reunião anual Congresso Nacional do Povo (equivalente ao Parlamento, na estrutura de estado da China) que a meta de crescimento para 2012 ficará nos 7,5%, pela primeira vez abaixo do teto do “baoba” (o mágico número 8).

A revisão em baixa da taxa de crescimento do PIB provocou um efeito de stresse imediato nos activos ligados aos sectores de commodities, cuja dinâmica está hoje fortemente dependente das importações chinesas. Os países dependentes da exportação para a China terão de reavaliar a sua estratégia.
Bolsas quebram

Segundo dados da Bloomberg, as bolsas mundiais (índice MSCI World) caíram na segunda-feira 0,61% e a capitalização bolsista do sector financeiro (índice MSCI World Financials) diminuiu 0,8%. Mas o maior impacto ocorreu com a capitalização bolsista dos produtores de commodities (índice World Commodity Producers) que desceu 1,04%.

Este anúncio surge no meio de uma controvérsia que está a dominar os media chineses em torno dos benefícios e dos malefícios do que é designado, por alguns, como “capitalismo de Estado”, bem como sobre o “modelo” de crescimento do futuro, mantendo a matriz exportadora até ao limite ou enveredando por uma estratégia mais equilibrada.

Esta reunião anual do Congresso Nacional assume importância por se realizar seis meses antes do Congresso do Partido Comunista da China em outubro, onde se procederá a uma mudança significativa no topo dos quadros dirigentes.

Um relatório do Banco Mundial sobre a China em 2030, publicado na semana passada, trouxe algumas achas para o debate interno. Pela primeira vez o Banco Mundial produziu um estudo em conjunto com o Centro de Investigação e Desenvolvimento (CID) do Conselho de Estado da China (o conselho de ministros). Nas 468 páginas, o relatório alerta para que a China evite ficar prisioneira de uma armadilha, a de “um país de rendimento médio”. Esta armadilha conduziria a China para uma tendência de abrandamento da economia no longo prazo. O Banco Mundial e o CID propõem estratégias para que a China se transforme no horizonte de 2030 em uma “sociedade de alto rendimento” (per capita).

Seis estratégias para evitar uma armadilha

“O relatório recomenda seis estratégias para os próximos vinte anos, diz-nos Xu Hongcai, professor de Finanças na Universidade de Pequim e diretor no China Center for International Economic Exchanges, um dos grupos de reflexão (think tanks) mais importantes do país. “A primeira estratégia é repensar o papel do Estado e do sector privado par encorajar mais concorrência na economia. A segunda, é encorajar a inovação e adotar um sistema aberto de inovação com ligações à investigação global e às redes de desenvolvimento. A terceira, é dar atenção ao desenvolvimento ‘verde’, como uma enorme oportunidade de crescimento. A quarta, é promover a igualdade de oportunidades e a proteção social. A quinta, fortalecer o sistema fiscal e melhorar a sustentatibilidade orçamental. Finalmente, assegurar que a China continua a sua integração nos mercados globais”. Segundo o especialista chinês, o momento atual é o indicado para acelerar estas reformas.

Uma corrente dentro da China insiste na importância de prosseguir as reformas face a um lóbi poderoso que se consolidou. “A política da taxa de juro real negativa foi implementada nos últimos dois anos com resultados na depreciação das poupanças. As empresas detidas pelo estado agarraram lucros de monopólio gigantes, mas pagaram dividendos escassos. Além do mais, os rendimentos da população civil não acompanharam o passo do crescimento económico”, conclui Xu Hongcai, em declarações ao Expresso no primeiro dia de abertura do Congresso Nacional Popular.

Os media privados apontam o dedo claramente ao “capitalismo de Estado”. “Há duas escolas de pensamento na China a propósito do capitalismo de Estado”, afirma Hu Shuli, a reitora da Escola de Comunicação e Design da Universidade de Sun Yat-sen, em Cantão, e editora do semanário “Century Weekly”, do grupo de media Caixin, que esta ex-guarda vermelha dos anos 1960 criou com um grupo de investidores em 2010. O artigo foi publicado em inglês no South China Morning Post, que se publica em Hong Kong.

A força motriz da China

As duas linhas de pensamento, segundo Hu Shuli, são claras. “Um grupo de académicos discorda que o capitalismo de Estado seja a razão para os sucessos da economia chinesa. A força motriz foi a dinâmica de mercado desencadeada por 30 anos de reformas rurais, pelo crescimento do sector privado, e pela política de abertura, de globalização”, refere a editora chinesa.

O grupo oposto à prossecução da dinâmica dos últimos 30 anos desenvolveu-se nos últimos dez anos: “A China assistiu a um renascimento do capitalismo de estado como parcela de um desenvolvimento muito amplo do mercado. Mas não pode ser a corrente dominante e não pode ser a meta”. E, mais adiante: “A evidência empírica mostra repetidamente que o capitalismo de Estado é menos eficiente do que o capital privado”. “Se não for efetivamente controlado, o capitalismo de Estado da China pode tornar-se um capitalismo de compadrio”, prossegue Hu Shuli, que conclui com veemência. “Trata-se de grupos de interesse especiais que atuam como actores de mercado e a sua presença distorce o mercado. (…) O capitalismo de Estado deve ser forçado a sair das indústrias competitivas. (…) Se o nosso passo reformista continuar atrás da expansão do capital estatal, começaremos, em breve, a ouvir falar não do crescimento, mas da crise, do capitalismo de Estado”.

As especulações sobre um novo “relaxamento” da política monetária chinesa já dominavam os media há algum tempo. Finalmente concretizaram-se. Esta semana, o banco central – o Banco Popular da China – deu mais um passo. Baixou o rácio de reservas para os grandes bancos em mais meio ponto percentual, para 20,5%. “Trata-se de um claro sinal de uma política de expansão da oferta de moeda para evitar uma queda no crescimento económico da China, no contexto atual de uma complicada situação internacional e doméstica”, diz-nos Xu Hong Kai, professor da Universidade de Pequim e dirigente do China Center for International Economic Exchanges, o mais importante grupo de reflexão chinês.

Em final de novembro do ano passado, o banco central já havia tomado esse caminho, interrompendo a estratégia de aperto da política monetária que vinha seguindo desde 2009, procurando contra-atacar a inflação, particularmente nos produtos do cabaz alimentar, e a “bolha” imobiliária. Em 2011, o banco central havia aumentado o rácio das reservas bancárias em seis momentos e mexido três vezes nos juros dos depósitos e dos empréstimos. Na altura, o banco central baixou o rácio de reservas dos grandes bancos de 21,5% para 21% e dos pequenos bancos para 19%.

Onda internacional

Estima-se que a decisão do banco central permita alargar a capacidade de financiamento da economia em €41,7 a 47,8 mil milhões. Alguns analistas falam de mais descidas nos próximos seis meses. O movimento dos banqueiros centrais chineses junta-se a uma onda de “alívios quantitativos”, com diferentes desenhos, em vigor. A Reserva Federal norte-americana mantém a “Operação Twist” e deu indicação de que manterá o nível de juros próximo de 0% até bem dentro de 2014. O Banco de Inglaterra anunciou recentemente uma extensão em mais 50 mil milhões de libras (€59 mil milhões) do seu programa de “alívio quantitativo”. O Banco Central Europeu, apesar de repudiar as estratégias de “alívio quantitativo”, lançou um programa adicional de fornecimento de liquidez à banca da zona euro conhecido por LTRO a 3 anos, cuja primeira operação foi em dezembro e a próxima agora no final de fevereiro.

Esta onda internacional pretende evitar o regresso de uma recessão mundial ou impedir agravamento de situações de recessão económica em alguns países ou de estagnação. No caso da China, a dor de cabeça é a taxa de crescimento. Há um limiar sagrado, a que os chineses chamam baobá, de 8%, um limiar abaixo do qual o crescimento anual não poderá descer, sob pena de colocar em risco toda a estratégia económica do país desde a revolução capitalista de Deng Xiaoping no final dos anos 1970.

A trajetória tem sido descendente: “A economia chinesa cresceu 9,2% em 2011, abaixo dos 10,3% de 2010. Entretanto no quarto trimestre de 2011 baiou para 8,9%, o crescimento mais baixo nos últimos dez trimestres. A previsão para 2012 é ainda mais baixa, uma média anual de 8,5%. Recentemente, as pequenas e médias empresas manifestaram problemas de financiamento e a crise externa, com a crise da dívida europeia e a alta taxa de desemprego nos Estados Unidos, tiveram impacto na procura de produtos chineses. O comércio bilateral entre a China e a União Europeia caiu mais de 7% em janeiro deste ano”, refere-nos Xu.

Quatro desafios

O problema de fundo é o da transição de um “modelo” económico para outro. “O abrandamento do crescimento reflete a enorme dificuldade em mover o modelo orientado para a exportação noutra direção”, diz Xu, que vê “quatro desafios pela frente”.

O primeiro tem a ver com a dinamização do consumo interno, tanto mais que há uma desigualdade crescente nos rendimentos – “um problema ainda mais sério que pode ameaçar a estabilidade social e a sustentabilidade do desenvolvimento económico”, sublinha o académico. “O objetivo de estimular o consumo das famílias continua difícil”, conclui.

O segundo desafio é lidar com os efeitos das crises externas. O que se liga com o problema da mudança do modelo. “Até agora a economia chinesa continua baseada nas exportações e no investimento governamental em capital fixo”, alerta o economista.

O terceiro é a dívida interna muito elevada dos governos locais. “Um legado do plano de estímulos de €440 mil milhões que levou a investimentos em grandes projetos de infraestrutura que, provavelmente, conduziram a crédito mal parado dos bancos”, adianta. Xu toca no que considera um ponto fulcral: “O governo protegeu excessivamente os interesses do sector bancário, o que prejudicou, até certo ponto, os interesses das famílias e das empresas. E, desse modo, essa política distorceu a estrutura económica”.

Finalmente, há o desafio da competitividade, sobretudo das empresas privadas. Estas começaram a lidar com o problema do aumento dos custos do trabalho e da apreciação progressiva da moeda chinesa e até há algum tempo atrás com a falta de financiamento. Uma tenaz que requer ser eliminada.

“É provavelmente ainda muito cedo para falar de um investimento da China no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Primeiro, os países com problemas deverão ajustar a sua estrutura industrial e realizar mais esforços para equilibrar o orçamento. Entretanto, no curto prazo, o Banco Central Europeu terá de desempenhar um papel muito mais ativo”, recomenda Xu Hongcai, diretor-adjunto do poderoso think tank China Center for International and Economic Exchanges (CCIEE).

Este professor de Finanças da Universidade de Economia e Gestão da capital chinesa, autor de “As estratégias financeiras do nosso grande país”, publicou na quinta-feira um artigo no “Asia Pacific Memo”, intitulado sugestivamente “Por que razão a China não está a comprar os títulos para resgates na zona euro (ainda)”. O “memorando 128″ surgiu precisamente durante a estadia da chanceler alemã Ângela Merkel em Beijing. Merkel deslocou-se hoje para Guangzhou (cidade de Cantão) na sua visita oficial. O “Asia Pacific Memo” é editado pelo Institute of Asian Research em Vancouver, no Canadá.

Ingredientes fundamentais

Xu Hongcai é muito claro sobre o problema. A intervenção de Beijing requer “três ingredientes fundamentais”:

- primeiro, a atuação do “Banco Central Europeu como emprestador de último recurso”, facto a que “a Alemanha se tem oposto, atrasando o processo”;

- segundo, os líderes europeus têm de tornar o FEEF “operacional e seguro para investidores de fora”, já que o que os chineses observam é que a notação do FEEF perdeu o triplo A (na recente decisão da agência Standard & Poor’s), os alemães resistem a aumentar o valor envolvido, e faltam “detalhes operacionais”;

- terceiro, os chineses preferem “ajudar a Europa através do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, apesar de “ainda ninguém ter dado uma resposta aos chineses”, em virtude dos fatores de “rigidez dentro da governação do FMI e da preferência por certos países-chave”.

Em suma, diz um dos homens fortes do CCIEE, “os países europeus e o FMI têm de apresentar um mecanismo de investimento credível à China (e a outros possíveis investidores) “.

Merkel estende a mão e Lagarde a mala de mão

Os jornais alemães referiram que a chanceler se deslocou à China com vários pontos na agenda – desde a questão das sanções ao Irão, ao facto de a China passar a ser este ano o principal mercado de exportação alemão (deixando de ser o vizinho francês), até à crise da dívida da zona euro. Muitos analistas colocaram Merkel na posição de estender a mão aos chineses para financiar os fundos europeus de resgate. Sabe-se que 40% das colocações de dívida já realizadas pelo FEEF estão em mãos de asiáticos, particularmente de japoneses, mas a China ainda não declarou se tem participado ou vai participar nessas emissões.

Já Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, em Davos, no último Fórum Económico Mundial levantaria a sua chique mala de mão para pedir aos presentes que investissem no “guarda-chuva” que o FMI pretende criar em abril para responder às crises da dívida. Foi um momento televisivo com o sorriso da diretora-geral e alguns risos na plateia.

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