A questão dos impérios


As bolsas asiáticas quebraram mais de 2% e as bolsas europeias apontam para um dia no vermelho. As yields (juros) da dívida soberana dos países da zona euro no mercado secundário abriram com a França, Espanha e Itália a serem as mais penalizadas, segundo dados da Bloomberg.

São as primeiras reações dos mercados financeiros aos resultados eleitorais em França (presidenciais), Grécia (legislativas) e Schleswig-Holstein (regionais alemãs). Os resultados apontam para uma pesada derrota da estratégia da chanceler alemã Ângela Merkel.

As maiores subidas nos juros estão a verificar-se nas obrigações francesas a 2 e a 3 anos, nas obrigações espanholas a 2 anos, nos títulos italianos a 2, a 3, a 5 anos, nas obrigações do Tesouro português a 2 anos e nos títulos gregos a 10 anos que servem de benchmark depois da recente reestruturação parcial da dívida.

Os juros dos títulos alemães abriram a descer, estando em 1,56%, abaixo do mínimo de 2 de maio. O que provocará um aumento ainda maior do prémio de risco das dívidas dos países “periféricos” da zona euro.

Os juros das obrigações do Tesouro português abriram a subir nos prazos a 2, a 3 e a 5 anos, e a descer no prazo a 10 anos. Os juros a 2 anos abriram em 8,24%, depois de terem fechado na sexta-feira em 7,98%.

Ao final da manhã, se poderá verificar a extensão do impacto nos juros da dívida no mercado secundário e no risco de incumprimento das dívidas dos países da zona euro hoje em foco na abertura destes mercados: França, Espanha, Itália, Grécia e Portugal.

Estratégia de Merkel batida em três frentes

Os resultados eleitorais na Grécia e em França apontam para uma derrota da estratégia seguida pela chanceler alemã, que também viu a sua coligação CDU-FDP perder nas eleições para o estado alemão de Schleswig-Hostein. A agência de informação Eurointelligence, de Wolfgang Münchau, classificou os resultados em França e na Alemanha como uma “insurreição” (pelo voto).

Em França, o candidato socialista às presidenciais François Hollande ganhou a Nicolas Sarkozy. Em termos europeus, Hollande apontou para a necessidade de uma “adenda” ao “pacto orçamental” virada ao crescimento. A Standard & Poor’s (S&P) já adiantou hoje de manhã que estes resultados não terão, por ora, impacto na notação da dívida do país, que viu a sua “expulsão” do clube do triplo A ser concretizada pela S&P em 14 de janeiro. Atualmente a França tem notação de AA+, segundo aquela agência. A França vai, no entanto, ficar suspensa dos resultados das eleições legislativas que vão decorrer em 10 e 17 de junho.

A chanceler alemã Ângela Merkel já convidou Hollande a deslocar-se a Berlim, segundo o Der Spiegel.

Na Grécia, a perda de maioria dos partidos que sustentaram o segundo Memorando de Entendimento que implicou o segundo plano de resgate foi o facto mais significativo. O Parlamento em Atenas tem agora 7 partidos, em que as formações políticas explicitamente contra o Memorando somam 44% dos lugares. Este é o pano de fundo para o imperativo da Grécia apresentar até final de junho um plano de cortes de 5,5% do produto interno bruto para o período 2013-2014. O Citigroup fala de uma probabilidade da Grécia sair da zona euro entre 50 e 75%.

Os dois tradicionais partidos da alternância desde a queda da ditadura militar em 1974, Nova Democracia (direita) e PASOK (socialista), dispõem de 149 lugares num parlamento de 300 deputados. Recorde-se que a arquitetura parlamentar grega dá de bónus ao partido mais votado 50 lugares de deputados. Neste caso, foi a Nova Democracia, com mais de um milhão e cem mil votos (18,92% dos votantes), que arrecadou o bónus. Sem esse bónus, o afundamento do “arco do poder” seria arrasador.

Só mobilizando a Esquerda Democrática (sétimo partido mais votado, que foi formado a partir de uma cisão da Esquerda Radical, mas que mantém uma posição pró-europeia), a Nova Democracia e o PASOK poderão formar uma maioria parlamentar e tentar um governo de coligação. Mas mesmo estes três partidos são pela revisão do Memorando de Entendimento.

As subidas de votação mais significativas foram do partido de extrema-direita Aurora Dourada (que passou a dispor de 19 deputados) e do SYRIZA, esquerda radical, que ficou em segundo lugar (dispondo de 52 deputados), mais de três pontos percentuais acima do PASOK (o principal derrotado, que passou a terceiro lugar) e a menos de três pontos percentuais da Nova Democracia (o partido mais votado).

O cenário de “ingovernabilidade” e convocação de eleições antecipadas em junho tem surgido nos media gregos.

Na Alemanha, a coligação CDU-FDP (que suporta o governo federal da chanceler Merkel) conseguiu apenas 38,9% dos votos. Uma provável coligação entre o SPD (sociais-democratas), Verdes e o partido da minoria dinamarquesa dispõe de 48,4%. A chanceler defronta novas eleições regionais já a 13 de maio na Renânia do Norte-Vestefália.

Em 2025, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos no Produto Interno Bruto (PIB) e depois de 2030 “o renminbi [a divisa chinesa, ou moeda do povo em chinês] deverá estar praticamente a par do dólar como divisa chave”, segundo a previsão de Chen Yulu, reitor da Universidade Renmin (Universidade Popular da China), num artigo publicado no “Diário do Povo” esta semana.

A estratégia recomendada pretende que o “grau de internacionalização da divisa chinesa entre 2030 e 2040 chegue a 20%, o que assegurará, em duas ou três décadas, que o sistema monetário internacional deixe de ser dominado pelo dólar norte-americano para assumir uma estrutura envolvendo o dólar, o euro e o renminbi”, diz Chen Yulu.

A internacionalização da divisa chinesa não será só importante para a sustentabilidade da prosperidade económica interna, mas também “um veículo para o seu soft e hard power”, dimensões do poder a nível geopolítico, afirma Chen Yulu, que é da geração já nascida no final dos anos 1960, e especialista em Finanças.

Chen Yulu tem um doutoramento em Economia e foi professor Fullbright na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, bem como professor visitante na Universidade de Tilburg, na Holanda. É o mais jovem reitor de uma universidade chinesa.

Três fases

Chen Yulu refere três “fases” na estratégia de internacionalização. A primeira fase já foi iniciada e consistiu em fomentar o uso da moeda chinesa no comércio internacional por parte das empresas em todas as regiões do país, e estão em curso vários protocolos bilaterais no sentido de haver pagamentos nas próprias divisas, de países em desenvolvimento ou emergentes, envolvidos em trocas comerciais com a China.

O dólar seria eliminado das transações. O Standard Bank sul-africano, o maior banco de África, afirmou num estudo recente que o uso do renminbi nas trocas comerciais terá particular sucesso naquele continente mais do que em qualquer outro lugar “pois, muitas das moedas locais são fracas e em certa medida muito localizadas”.

O comércio internacional denominado em divisa chinesa representou 9% do total de importações e exportações em 2011.

Simultaneamente, a China abriu um mercado de swaps nos câmbios (existindo já acordos com 14 países) e transformou Hong Kong num centro offshore da sua divisa em 2009 e está a alargar essa função a Singapura e Londres (por muitos já considerada a plataforma financeira da China para o Ocidente). Um país de África, a Nigéria, já integrou no ano passado o renminbi no seu sistema de reservas.

Estas medidas já levaram a que o grau de internacionalização da divisa chinesa saltasse de 0,02% em 2010 para 0,41% em 2011.

A segunda fase envolve o passo seguinte, a convertibilidade total do renminbi. Chen Yulu considera que serão necessários apenas quatro anos para a concluir, entre 2016 e 2020, contrastando com “o Japão que levou 16 anos, o Reino Unido que levou 18 anos e a Rússia que levou 20 anos”. Um dos problemas que esse passo acarretará será a apreciação da divisa chinesa e o seu impacto no facto da China ter uma posição específica nas cadeias de valor mundiais, adverte.

Os produtos ‘Made in China’ serão mais caros no comércio internacional (abrindo oportunidades a países em desenvolvimento exportadores com custos mais baixos), aumentarão os défices da China com parceiros na Ásia seus fornecedores, e diminuirão os créditos em relação aos países desenvolvidos clientes da China, com quem Pequim tem excedentes comerciais ano após ano.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (Working Paper No. 12/88: “Spillover Effects of Exchange Rates: A Study of the Renminbi”), publicado esta semana, estima que a apreciaçao de 30% do renminbi em relação ao dólar, ocorrida entre 2000 e 2008, deverá ter implicado um aumento de 4,5% a 6% das exportações para os EUA de países em desenvolvimento concorrentes da China.

Enfrentar esses percalços exige que a China “aprenda com a experiência dos Estados Unidos” no desenvolvimento de “um padrão baseado em três pilares – legal, tecnológico e financeiro”.

A terceira fase coincidirá com a consagração geoeconómica do país. “Se o crescimento da China ultrapassar o dos Estados Unidos numa média anual de cinco pontos percentuais e a apreciação do renminbi continuar a uma taxa anual de 2 a 3%, a China terá o maior PIB do mundo em 2025″, refere o reitor. Com essa fase virá a paridade com o dólar e o renminbi transformar-se-á numa divisa de reserva sobretudo para o mundo em desenvolvimento.

O primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, anfitrião em Nova Delhi da 4ª Cimeira dos BRICS – o novo bloco geopolítico formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, apresentará dia 29 de março aos quatro presidentes convidados a proposta de criação de um banco de desenvolvimento.

Segundo os analistas, a nova instituição bancária pretenderá afirmar-se como uma espécie de banco paralelo ao Banco Mundial (BM) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A ideia do primeiro-ministro indiano é criar um mecanismo financeiro, autónomo dos jogos de poder dentro do FMI e do BM, que permita o lançamento de projetos nos países em desenvolvimento. A presidência da instituição seria rotativa entre os cinco integrantes.

Por outro lado, este novo banco servirá como arma política de pressão sobre o FMI e o BM no sentido da mudança da correlação de forças interna, há muito reclamada pelas economias emergentes. Por exemplo, na estrutura dirigente do FMI há 24 membros, oito dos quais têm assento permanente (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, China, Rússia e Arábia Saudita) e 16 outros são eleitos por biénio.

Ainda que a ideia possa ser aprovada formalmente, a negociação da sua concretização será, certamente, um processo prolongado.

Nesta cimeira de Nova Delhi, além do primeiro-ministro indiano, participam Dilma Rousseff, presidente do Brasil, Dmitri Medvedev, ainda presidente da Rússia, Hu Jintao, presidente da China, e Jacob Zuma, presidente da África do Sul.

A primeira cimeira dos BRIC realizou-se na Rússia em 2009 e a África do Sul passou a integrar o “clube” em 2011, altura em que o acrónimo, criado por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, mudou para BRICS.

O Tesouro britânico vai consultar os mercados financeiros sobre a possibilidade de ainda durante o próximo ano fiscal emitir dívida a mais de 50 anos ou mesmo perpétua, revivendo iniciativas tomadas em 1720 e 1932. Portugal emitiu títulos a 99 anos em 1902 no âmbito da reestruturação da dívida.

Na mesma altura em que a agência de notação de crédito Fitch colocava a dívida do Reino Unido em “perspetiva negativa”, com uma probabilidade de perda da classificação de triplo A nos próximos dois anos, o Debt Management Office (DMO), a agência de gestão da dívida britânica, anunciava a possibilidade do governo inglês regressar à emissão de títulos com prazo de vencimento superior a 50 anos, provavelmente a 100 anos ou mesmo perpétuos (conhecidos na gíria por “perp”), sem vencimento, apenas pagando juros eternamente a quem detiver tais títulos.

“Espera-se que o chanceler do Tesouro tome em consideração a possibilidade de emissões [de dívida soberana] superduradouras, com vencimentos superiores a 50 anos, ou mesmo perpétuos”, disse Robert Stheeman, diretor do DMO.

A iniciativa poderá ser enquadrada no orçamento para o próximo ano fiscal de 2012-2013 que é apresentado ao Parlamento na próxima quarta-feira, a que se seguiria um período de consultas de três meses aos mercados financeiros sobre a recetividade a tal medida, que poderá poupar anualmente 20 mil milhões de libras esterlinas (24 mil milhões de euros, ao câmbio de hoje) nos próximos cinco anos. Tais títulos poderiam pagar um juro baixo durante longos períodos, valendo-se da reputação que o Reino Unido tem de não entrar em default desde 1594.

Os títulos de dívida britânica são designados por “gilts”. O governo britânico já recorreu à emissão de gilts perpétuos em 1720 a seguir ao estoiro da bolha financeira ligada à Companhia dos Mares do Sul (a terceira grande bolha financeira depois da das túlipas na Holanda em 1634-1638 e da ligada à companhia francesa do Mississippi entre 1719 e 1720) e em 1932 para cobrir os custos da 1ª Guerra Mundial. Desde 1998 é a referida agência DMO que procede à emissão de dívida em nome do Tesouro.

Como curiosidade refira-se que, aquando da reestruturação da dívida portuguesa em maio de 1902, os negociadores conseguiriam que os credores externos aceitassem convertê-la num novo empréstimo amortizável a 99 anos, até 2001, com títulos rendendo 3%. A troca de títulos então feita reduziu a dívida soberana em 38% e diminuiu o serviço da dívida anual em 50%. Esta reestruturação concretizou-se dez anos depois da declaração de bancarrota parcial em junho de 1892.

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, acusa as políticas monetárias de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação técnica em inglês) da Reserva Federal norte-americana (Fed) e de fornecimento de liquidez a 3 anos a 1% (conhecida por LTRO) do Banco Central Europeu (BCE) como armas “protecionistas” dos países ricos tentando gerar desvalorizações cambiais artificiais das suas divisas e ameaçar as economias emergentes com o risco de arbitragem (exploração de diferenças de preço entre instrumentos financeiros similares ou idênticos).

“O problema é que essa desvalorização cambial artificial é a forma de protecionismo mais feroz que se tem. Há um discurso dos países centrais de que são defensores do comércio livre, mas praticam o protecionismo mais feroz que se tem. E essa desvalorização artificial da moeda não está regulada pela Organização Mundial do Comércio. Então, não venham reclamar de algumas medidas absolutamente defensivas que o Brasil toma”, refere Dilma Rousseff em entrevista a Luis Nassif, publicada no portal online deste jornalista.

Dilma referia-se ao “alívio quantitativo” prosseguido por Ben Bernanke, o presidente da Fed, no sentido de “empurrar a crise com a barriga”, bem como, no caso da Europa, a estratégia de “desvalorizar o euro e jogar a conta sobre os países emergentes que têm câmbio flutuante”. Estas injeções de liquidez, diz Dilma Rousseff, não entraram na economia real. Estão criando uma enorme bolha monetária, sublinha a presidente brasileira.

Esquizofrenia europeia

“Hoje em dia, via tsunami monetário, está em curso, no mundo, a prática das desvalorizações competitivas, o que se chama de empobreça o seu vizinho. É uma situação esquizofrénica na Europa, que não consegue uma solução de crescimento. Muitos países estão com graus de desemprego do ponto de vista político incompatíveis com sistemas democráticos abertos. A dívida grega não é financiável, assim como a de Portugal”, refere, ainda, a presidente.

“No caso da Europa são um bilião de euros emprestados a 1% ao ano, que em breve entrarão na ciranda financeira. Irão investir em títulos da Itália e de Espanha, aumentando sua exposição? Não, Virão fazer arbitragem aqui e em outros países [com câmbio flutuante]. Temos uma enorme bolha a caminho”, afirma na entrevista. Dilma refere-se ao programa de liquidez LTRO a 3 anos impulsionado por Mário Draghi, o novo presidente do BCE, que já realizou duas operações em final de dezembro do ano passado e em final de fevereiro deste ano. Este programa é conhecido como a “bazuca” de Draghi.
Recessão com excesso de liquidez

E deixa um vaticínio: “Aqui não temos dúvida que a economia mundial caminha para a recessão com excesso de liquidez”. A que acresce a viragem de grandes economias para “uma tendência a uma volta aos mercados domésticos”, o que já seria visível com a China, ao decidir abrandar a meta de crescimento (para 7,5% em 2012, abaixo do limiar mágico dos 8%) e mudar o modelo económico do apoio na exportação para o fortalecimento do mercado interno.

E o que fará o Brasil? “Vai institucionalmente tomar medidas para garantir que o nosso mercado interno não seja canibalizado”. Uma das medidas já tomadas pelo Banco Central do Brasil foi a da redução dos juros. O diferencial entre os juros brasileiros (taxa Selic com meta em 9,75%) e os juros de referência de países ricos (como o Fed funds rate atualmente em 0,25% variando entre 0 e 0,25% ou a fixed rate- taxa principal de refinanciamento de operações do BCE em 1%) é responsável pela maior arbitragem que existe no mundo. A 7 de março, na semana passada, o Copom (Comité de Política Monetária) decidiu reduzir a taxa Selic para 9,75%. Em janeiro, o Copom havia cortado a taxa Selic de 11% para 10,5%.

Sétima potência económica do mundo

Apesar de ser um dos quatro BRIC (acrónimo criado por Jim O’Neill da Goldman Sachs em 2001 para as quatro grandes economias emergentes), o Brasil tem manifestado um crescimento com oscilações importantes, desde o início da crise financeira em meados de 2007: o produto interno bruto cresceu 5,7% em 2007; abrandou para 5,1% em 2008; entrou em recessão ligeira em 2009, com um decréscimo de 0,6%; retomou significativamente, com um crescimento de 7,5% em 2009; para ter um abrandamento abrupto, para uma taxa de crescimento de 2,9% em 2011. A previsão para 2012 é de um crescimento de 3%.

O Brasil, no entanto, subiu do 14º lugar na economia mundial em 1970 para 10º em 1990 e 7º em 2010. Segundo, O’Neill, depois da China é a mais espantosa história de crescimento das últimas duas décadas. Contudo, devido às oscilações do seu crescimento, não está entre os cinco países/zonas monetárias que mais contribuíram para o crescimento do PIB mundial na década de 2000 a 2010, onde se classificaram a China (contribuindo 22,12% para o aumento do PIB mundial), União Europeia (14,46%), Estados Unidos (14,24%), Índia (7,74%) e Rússia (3,46%).

O anúncio caiu como uma bomba na Ásia na segunda-feira. O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao disse no primeiro dia da reunião anual Congresso Nacional do Povo (equivalente ao Parlamento, na estrutura de estado da China) que a meta de crescimento para 2012 ficará nos 7,5%, pela primeira vez abaixo do teto do “baoba” (o mágico número 8).

A revisão em baixa da taxa de crescimento do PIB provocou um efeito de stresse imediato nos activos ligados aos sectores de commodities, cuja dinâmica está hoje fortemente dependente das importações chinesas. Os países dependentes da exportação para a China terão de reavaliar a sua estratégia.
Bolsas quebram

Segundo dados da Bloomberg, as bolsas mundiais (índice MSCI World) caíram na segunda-feira 0,61% e a capitalização bolsista do sector financeiro (índice MSCI World Financials) diminuiu 0,8%. Mas o maior impacto ocorreu com a capitalização bolsista dos produtores de commodities (índice World Commodity Producers) que desceu 1,04%.

Este anúncio surge no meio de uma controvérsia que está a dominar os media chineses em torno dos benefícios e dos malefícios do que é designado, por alguns, como “capitalismo de Estado”, bem como sobre o “modelo” de crescimento do futuro, mantendo a matriz exportadora até ao limite ou enveredando por uma estratégia mais equilibrada.

Esta reunião anual do Congresso Nacional assume importância por se realizar seis meses antes do Congresso do Partido Comunista da China em outubro, onde se procederá a uma mudança significativa no topo dos quadros dirigentes.

Um relatório do Banco Mundial sobre a China em 2030, publicado na semana passada, trouxe algumas achas para o debate interno. Pela primeira vez o Banco Mundial produziu um estudo em conjunto com o Centro de Investigação e Desenvolvimento (CID) do Conselho de Estado da China (o conselho de ministros). Nas 468 páginas, o relatório alerta para que a China evite ficar prisioneira de uma armadilha, a de “um país de rendimento médio”. Esta armadilha conduziria a China para uma tendência de abrandamento da economia no longo prazo. O Banco Mundial e o CID propõem estratégias para que a China se transforme no horizonte de 2030 em uma “sociedade de alto rendimento” (per capita).

Seis estratégias para evitar uma armadilha

“O relatório recomenda seis estratégias para os próximos vinte anos, diz-nos Xu Hongcai, professor de Finanças na Universidade de Pequim e diretor no China Center for International Economic Exchanges, um dos grupos de reflexão (think tanks) mais importantes do país. “A primeira estratégia é repensar o papel do Estado e do sector privado par encorajar mais concorrência na economia. A segunda, é encorajar a inovação e adotar um sistema aberto de inovação com ligações à investigação global e às redes de desenvolvimento. A terceira, é dar atenção ao desenvolvimento ‘verde’, como uma enorme oportunidade de crescimento. A quarta, é promover a igualdade de oportunidades e a proteção social. A quinta, fortalecer o sistema fiscal e melhorar a sustentatibilidade orçamental. Finalmente, assegurar que a China continua a sua integração nos mercados globais”. Segundo o especialista chinês, o momento atual é o indicado para acelerar estas reformas.

Uma corrente dentro da China insiste na importância de prosseguir as reformas face a um lóbi poderoso que se consolidou. “A política da taxa de juro real negativa foi implementada nos últimos dois anos com resultados na depreciação das poupanças. As empresas detidas pelo estado agarraram lucros de monopólio gigantes, mas pagaram dividendos escassos. Além do mais, os rendimentos da população civil não acompanharam o passo do crescimento económico”, conclui Xu Hongcai, em declarações ao Expresso no primeiro dia de abertura do Congresso Nacional Popular.

Os media privados apontam o dedo claramente ao “capitalismo de Estado”. “Há duas escolas de pensamento na China a propósito do capitalismo de Estado”, afirma Hu Shuli, a reitora da Escola de Comunicação e Design da Universidade de Sun Yat-sen, em Cantão, e editora do semanário “Century Weekly”, do grupo de media Caixin, que esta ex-guarda vermelha dos anos 1960 criou com um grupo de investidores em 2010. O artigo foi publicado em inglês no South China Morning Post, que se publica em Hong Kong.

A força motriz da China

As duas linhas de pensamento, segundo Hu Shuli, são claras. “Um grupo de académicos discorda que o capitalismo de Estado seja a razão para os sucessos da economia chinesa. A força motriz foi a dinâmica de mercado desencadeada por 30 anos de reformas rurais, pelo crescimento do sector privado, e pela política de abertura, de globalização”, refere a editora chinesa.

O grupo oposto à prossecução da dinâmica dos últimos 30 anos desenvolveu-se nos últimos dez anos: “A China assistiu a um renascimento do capitalismo de estado como parcela de um desenvolvimento muito amplo do mercado. Mas não pode ser a corrente dominante e não pode ser a meta”. E, mais adiante: “A evidência empírica mostra repetidamente que o capitalismo de Estado é menos eficiente do que o capital privado”. “Se não for efetivamente controlado, o capitalismo de Estado da China pode tornar-se um capitalismo de compadrio”, prossegue Hu Shuli, que conclui com veemência. “Trata-se de grupos de interesse especiais que atuam como actores de mercado e a sua presença distorce o mercado. (…) O capitalismo de Estado deve ser forçado a sair das indústrias competitivas. (…) Se o nosso passo reformista continuar atrás da expansão do capital estatal, começaremos, em breve, a ouvir falar não do crescimento, mas da crise, do capitalismo de Estado”.

As especulações sobre um novo “relaxamento” da política monetária chinesa já dominavam os media há algum tempo. Finalmente concretizaram-se. Esta semana, o banco central – o Banco Popular da China – deu mais um passo. Baixou o rácio de reservas para os grandes bancos em mais meio ponto percentual, para 20,5%. “Trata-se de um claro sinal de uma política de expansão da oferta de moeda para evitar uma queda no crescimento económico da China, no contexto atual de uma complicada situação internacional e doméstica”, diz-nos Xu Hong Kai, professor da Universidade de Pequim e dirigente do China Center for International Economic Exchanges, o mais importante grupo de reflexão chinês.

Em final de novembro do ano passado, o banco central já havia tomado esse caminho, interrompendo a estratégia de aperto da política monetária que vinha seguindo desde 2009, procurando contra-atacar a inflação, particularmente nos produtos do cabaz alimentar, e a “bolha” imobiliária. Em 2011, o banco central havia aumentado o rácio das reservas bancárias em seis momentos e mexido três vezes nos juros dos depósitos e dos empréstimos. Na altura, o banco central baixou o rácio de reservas dos grandes bancos de 21,5% para 21% e dos pequenos bancos para 19%.

Onda internacional

Estima-se que a decisão do banco central permita alargar a capacidade de financiamento da economia em €41,7 a 47,8 mil milhões. Alguns analistas falam de mais descidas nos próximos seis meses. O movimento dos banqueiros centrais chineses junta-se a uma onda de “alívios quantitativos”, com diferentes desenhos, em vigor. A Reserva Federal norte-americana mantém a “Operação Twist” e deu indicação de que manterá o nível de juros próximo de 0% até bem dentro de 2014. O Banco de Inglaterra anunciou recentemente uma extensão em mais 50 mil milhões de libras (€59 mil milhões) do seu programa de “alívio quantitativo”. O Banco Central Europeu, apesar de repudiar as estratégias de “alívio quantitativo”, lançou um programa adicional de fornecimento de liquidez à banca da zona euro conhecido por LTRO a 3 anos, cuja primeira operação foi em dezembro e a próxima agora no final de fevereiro.

Esta onda internacional pretende evitar o regresso de uma recessão mundial ou impedir agravamento de situações de recessão económica em alguns países ou de estagnação. No caso da China, a dor de cabeça é a taxa de crescimento. Há um limiar sagrado, a que os chineses chamam baobá, de 8%, um limiar abaixo do qual o crescimento anual não poderá descer, sob pena de colocar em risco toda a estratégia económica do país desde a revolução capitalista de Deng Xiaoping no final dos anos 1970.

A trajetória tem sido descendente: “A economia chinesa cresceu 9,2% em 2011, abaixo dos 10,3% de 2010. Entretanto no quarto trimestre de 2011 baiou para 8,9%, o crescimento mais baixo nos últimos dez trimestres. A previsão para 2012 é ainda mais baixa, uma média anual de 8,5%. Recentemente, as pequenas e médias empresas manifestaram problemas de financiamento e a crise externa, com a crise da dívida europeia e a alta taxa de desemprego nos Estados Unidos, tiveram impacto na procura de produtos chineses. O comércio bilateral entre a China e a União Europeia caiu mais de 7% em janeiro deste ano”, refere-nos Xu.

Quatro desafios

O problema de fundo é o da transição de um “modelo” económico para outro. “O abrandamento do crescimento reflete a enorme dificuldade em mover o modelo orientado para a exportação noutra direção”, diz Xu, que vê “quatro desafios pela frente”.

O primeiro tem a ver com a dinamização do consumo interno, tanto mais que há uma desigualdade crescente nos rendimentos – “um problema ainda mais sério que pode ameaçar a estabilidade social e a sustentabilidade do desenvolvimento económico”, sublinha o académico. “O objetivo de estimular o consumo das famílias continua difícil”, conclui.

O segundo desafio é lidar com os efeitos das crises externas. O que se liga com o problema da mudança do modelo. “Até agora a economia chinesa continua baseada nas exportações e no investimento governamental em capital fixo”, alerta o economista.

O terceiro é a dívida interna muito elevada dos governos locais. “Um legado do plano de estímulos de €440 mil milhões que levou a investimentos em grandes projetos de infraestrutura que, provavelmente, conduziram a crédito mal parado dos bancos”, adianta. Xu toca no que considera um ponto fulcral: “O governo protegeu excessivamente os interesses do sector bancário, o que prejudicou, até certo ponto, os interesses das famílias e das empresas. E, desse modo, essa política distorceu a estrutura económica”.

Finalmente, há o desafio da competitividade, sobretudo das empresas privadas. Estas começaram a lidar com o problema do aumento dos custos do trabalho e da apreciação progressiva da moeda chinesa e até há algum tempo atrás com a falta de financiamento. Uma tenaz que requer ser eliminada.

“É provavelmente ainda muito cedo para falar de um investimento da China no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF). Primeiro, os países com problemas deverão ajustar a sua estrutura industrial e realizar mais esforços para equilibrar o orçamento. Entretanto, no curto prazo, o Banco Central Europeu terá de desempenhar um papel muito mais ativo”, recomenda Xu Hongcai, diretor-adjunto do poderoso think tank China Center for International and Economic Exchanges (CCIEE).

Este professor de Finanças da Universidade de Economia e Gestão da capital chinesa, autor de “As estratégias financeiras do nosso grande país”, publicou na quinta-feira um artigo no “Asia Pacific Memo”, intitulado sugestivamente “Por que razão a China não está a comprar os títulos para resgates na zona euro (ainda)”. O “memorando 128″ surgiu precisamente durante a estadia da chanceler alemã Ângela Merkel em Beijing. Merkel deslocou-se hoje para Guangzhou (cidade de Cantão) na sua visita oficial. O “Asia Pacific Memo” é editado pelo Institute of Asian Research em Vancouver, no Canadá.

Ingredientes fundamentais

Xu Hongcai é muito claro sobre o problema. A intervenção de Beijing requer “três ingredientes fundamentais”:

- primeiro, a atuação do “Banco Central Europeu como emprestador de último recurso”, facto a que “a Alemanha se tem oposto, atrasando o processo”;

- segundo, os líderes europeus têm de tornar o FEEF “operacional e seguro para investidores de fora”, já que o que os chineses observam é que a notação do FEEF perdeu o triplo A (na recente decisão da agência Standard & Poor’s), os alemães resistem a aumentar o valor envolvido, e faltam “detalhes operacionais”;

- terceiro, os chineses preferem “ajudar a Europa através do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, apesar de “ainda ninguém ter dado uma resposta aos chineses”, em virtude dos fatores de “rigidez dentro da governação do FMI e da preferência por certos países-chave”.

Em suma, diz um dos homens fortes do CCIEE, “os países europeus e o FMI têm de apresentar um mecanismo de investimento credível à China (e a outros possíveis investidores) “.

Merkel estende a mão e Lagarde a mala de mão

Os jornais alemães referiram que a chanceler se deslocou à China com vários pontos na agenda – desde a questão das sanções ao Irão, ao facto de a China passar a ser este ano o principal mercado de exportação alemão (deixando de ser o vizinho francês), até à crise da dívida da zona euro. Muitos analistas colocaram Merkel na posição de estender a mão aos chineses para financiar os fundos europeus de resgate. Sabe-se que 40% das colocações de dívida já realizadas pelo FEEF estão em mãos de asiáticos, particularmente de japoneses, mas a China ainda não declarou se tem participado ou vai participar nessas emissões.

Já Christine Lagarde, a diretora-geral do FMI, em Davos, no último Fórum Económico Mundial levantaria a sua chique mala de mão para pedir aos presentes que investissem no “guarda-chuva” que o FMI pretende criar em abril para responder às crises da dívida. Foi um momento televisivo com o sorriso da diretora-geral e alguns risos na plateia.

É uma das incógnitas de 2012. O Irão tem estado em foco por uma convergência de episódios e decisões. E o estreito de Ormuz surgiu como peça destes jogos de nervos.

Durante 10 dias, a marinha iraniana desenvolveu o “Velayat 90″, um conjunto de exercícios militares navais que se estenderam pelo Golfo do Pérsico, Golfo de Omã e Mar Arábico. Os exercícios colocaram as forças iranianas na proximidade da 5ª Esquadra norte-americana que opera a partir do Bahrain.

No final do ano, os EUA aprovaram sanções contra o Irão que penalizarão fortemente os clientes do petróleo iraniano, entre os quais se encontram, em 85% dos casos, asiáticos e, em 17%, países da União Europeia, com destaque para a Grécia, Itália e Espanha. O presidente Obama assinou uma lei que impede o acesso ao sistema financeiro norte-americano por parte de todos os bancos estrangeiros que realizem operações com o banco central do Irão.

Em simultâneo, estrategos norte-americanos referem ser o momento certo para um ataque cirúrgico a alvos do projeto nuclear no Irão. “Na hora de atacar o Irão – porque razão um ataque é a menor das piores opções” é o título de um dos artigos simbólicos desta ótica, escrito por Mathew Kroenig, do Council of Foreign Relations norte-americano, na edição de janeiro/fevereiro da revista Foreign Affairs, acabada de publicar.

“Linha vermelha”

O vice-presidente iraniano falou, durante os exercícios, de bloquear o Estreito de Ormuz se as sanções se impuserem efectivamente. O estreito é um corredor que a Energy Information Administration considera “o mais importante ferrolho do petróleo” do mundo. Por ele passa um pouco mais de 1/3 do petróleo transportado por via marítima.

Durante a guerra do Irão e do Iraque, nos anos 1980, os iranianos minaram as águas do estreito e comandos em barcos de borracha atacaram petroleiros. Uma brincadeira comparada com a capacidade atual iraniana. “[Fechar o estreito] é tão fácil como beber um copo de água”, disse o almirante iraniano Habibollah Sayari.

Mas, como se verificou nestes exercícios, o estreito pode ser afetado a partir do Golfo do Omã, a sul do Estreito, que é ladeado pelo Irão e pelo Omã. Os exercícios navais recentes pretendem projetar a capacidade iraniana também no Índico ocidental.

O secretário de Estado da Defesa norte-americano, Leon Panneta, afirmou a 8 de janeiro na cadeia norte-americana CBS que, se o Irão bloquear o estreito, os EUA entrarão em campo para anular o bloqueio. “É uma outra linha vermelha” que os iranianos não poderão ultrapassar, disse.

O Dragão no chatrang

O xadrez da zona é muito complexo. Os iranianos jogam xadrez desde há 1400 anos quando o jogo era conhecido pelo nome de chatrang, em persa (do livro Mâdayân î chatrang - Livro de xadrez – do século VII).

Uma das peças do tabuleiro de hoje é a China, o cliente principal, que importa 21% do petróleo iraniano exportado. O Irão, que fornece 11,4% das importações petrolíferas chinesas, é o terceiro fornecedor da China, depois de Arábia Saudita (que fornece 20,5%) e Angola (que fornece 15,8%). As empresas chinesas são os principais investidores no sector energético iraniano. A China importa, ainda, 12,8% do Omã, Iraque e Kuwait.

A própria Europa “periférica” mediterrânica importa do Irão. A Grécia, na liderança, importa 25% das suas necessidades. Atenas é a capital europeia mais sensível a estes rumores de guerra. Itália importa 13% e Espanha 10%.

Os Estados Unidos importam de três fornecedores da zona – Arábia Saudita, Iraque e Kuwait; no total, apenas 18,2% das suas necessidades.

No calendário destes jogos, o secretário do Tesouro norte-americano desloca-se na próxima semana à China e ao Japão. A Europa, que acordou em princípio seguir a posição norte-americana, deverá tomar uma posição final na cimeira europeia de 30 de janeiro. Mas os próprios europeus discutem um “período de graça” de não aplicação do embargo nos contratos em curso.

Entretanto, novos exercícios navais iranianos estão previstos para fevereiro.

Brent sobe 6 dólares

O preço do barril de Brent, a variedade de referência na Europa, subiu 6 dólares entre o final do ano e hoje. De 107 dólares passou para 113, e está a oscilar em torno desse valor. Alguns analistas falam do risco de um choque petrolífero, se algum dos cenários de guerra se concretizar.

O preço do barril de petróleo tem sido sensível a estes rumores de eventual bloqueio ao estreito ou de operação relâmpago contra as instalações nucleares iranianas. O que pode ainda ser temperado com alguma guerra na Síria, se a NATO aí intervir como o fez na Líbia no ano passado.

Há vias alternativas em caso de bloqueio?

Os analistas apontam quatro. Duas delas revertem para o Mar Vermelho, uma para o Líbano, e outra para o Golfo de Omã.

. Reativar o oleoduto iraquiano-saudita (conhecido pelo acrónimo IPSA) que termina no porto de Yanbu, no Mar Vermelho acima de Jedá, e que pode transportar 1,65 milhões de barris por dia. Foi construído durante a guerra do Iraque com o Irão, precisamente para fugir ao transporte pelo Golfo Pérsico.

. Reativar a linha do Transarabian Pipeline (Tapline) da Arábia Saudita para o porto de Zahrani no Líbano que transporta 500 mil barris por dia.

. Outra via a usar pelo crude saudita pode ser a oleoduto Este-Oeste com mais de 1100 quilómetros entre Jubail no Golfo Pérsico e Yanbu no Mar Vermelho, o que favoreceria o estreito de Aden (pirataria somali por perto) e o canal do Suez (instabilidade no Egito), e que pode transportar 5 milhões de barris por dia.

. Os Emirados Árabes Unidos poderão acelerar a conclusão do projeto do oleoduto do Abu Dhabi que pode fazer correr crude equivalente a 2,5 milhões de barris por dia; o oleoduto com 375 quilómetros parte do sudoeste dos emirados para o porto de Fujairah, no Golfo do Omã, já a sul do estreito de Ormuz. O oleoduto está a ser construído por uma empresa chinesa e deverá estar operacional “em breve”, segundo o ministro Mohammad Bin Dha’en Al Hameli afirmou em dezembro. Mas o Golfo de Omã é um espaço marítimo internacional onde os iranianos consideram poder atuar.

Curiosidade histórica

Ormuz era uma das joias do Médio Oriente cobiçadas por Afonso de Albuquerque e pelo rei em Lisboa, Manuel I. Albuquerque conquistaria a ilha em 1507, que acabou por ficar sob suserania portuguesa entre 1515 e 1622. Os árabes chamavam-lhe, na época de Quinhentos, “o anel de pedra do mundo”. Era um dos ferrolhos geoestratégicos (chokepoints, na designação técnica) por onde todos os produtos do Oriente passavam. Fez parte das três “quinas” do império português em rede no Índico – Sofala (no atual Moçambique), Ormuz (no atual Irão) e Malaca (na atual Malásia).

Estatísticas

Números-chave do crude do Irão

. Exporta 2,6 milhões de barris por dia

. Produz 3,5 milhões de barris por dia

. 2º maior produtor da OPEP

. Principal cliente do crude iraniano: China (com 21% da exportação iraniana) que adquire mais de meio milhão de barris por dia

. Outros clientes importantes: União Europeia (17% da exportação iraniana), Japão e Coreia do Sul

Quanto “vale” o estreito de Ormuz?

. Mais de 1/3 do petróleo transportado por via marítima

. 20% do petróleo comercializado à escala mundial passa pelo estreito

. O seu peso como ponto de passagem diminuiu de 2008 para 2009 em mais de 7%

. 15,5 a 17 milhões de barris por dia passam pelo estreito de Ormuz

O Japão foi o maior credor do mundo em 2010, em termos líquidos, ou seja diminuindo aos ativos detidos no estrangeiro as responsabilidades sobre o estrangeiro, segundo o relatório mais recente do McKinsey Global Institute sobre a geografia dos mercados de capital globais.

Apesar de ser número quatro em ativos detidos no estrangeiro, vindo a seguir aos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, o Japão detém uma situação líquida de mais de 3 biliões de dólares (3000 mil milhões, 3 triliões na designação americana). É o líder mundial. Em segundo lugar, está a China, com uma situação líquida de cerca de 2,2 biliões de dólares, apesar de não estar entre os cinco que mais investem no mundo.

Em termos de credores líquidos, a classificação por ordem decrescente em dólares é a seguinte: Japão, com 3 biliões; China com 2,19 biliões; Alemanha com 1,2 biliões; Arábia Saudita com 882 mil milhões; Suíça com 698 mil milhões; Hong Kong com 691 mil milhões; Taiwan com 626 mil milhões; Emirados Árabes Unidos com 585 mil milhões; Singapura com 492 mil milhões; e Noruega com 360 mil milhões. O peso da Ásia é esmagador nesta geografia. Na Europa, um polo financeiro global, a Suíça, e um exportador líquido, a Noruega.

Convém referir que o Japão é o país com a maior dívida pública em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), com um nível superior a 220%, mas essa dívida de 11,6 biliões de dólares (11600 mil milhões) é em 90% detida por japoneses (bancos, empresas e aforradores locais).

A lista dos maiores devedores, em termos líquidos, é encabeçada pelos Estados Unidos, com um saldo negativo de mais de 3 biliões de dólares, como se fosse a imagem invertida do Japão. O que representa 21% do PIB norte-americano. Em segundo lugar, surge a Espanha com um saldo negativo de 1,2 biliões, o que representa 91% do PIB espanhol. Nas posições seguintes, abaixo de 800 mil milhões, estão Austrália, Brasil, Itália, Reino Unido, México, Grécia, França e Polónia.

“Os BRICS estão disponíveis para considerar, se necessário, dar apoio, através do Fundo Monetário Internacional, ou de outras instituições financeiras internacionais, para se enfrentar os desafios à estabilidade financeira internacional”, disseram ontem em Washington DC os ministros das Finanças e os presidentes dos bancos centrais das cinco potências que formam o grupo conhecido pelo acrónimo que reúne o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O apoio, no entanto, dependerá “das circunstâncias individuais de cada país”.

Medo de um “salto qualitativo”

Na agenda da reunião deste grupo de economias emergentes, que se realizou à margem das reuniões do FMI e do Banco Mundial que estão a decorrer na capital federal norte-americana, esteve a questão da crise da dívida europeia. “Existe o real perigo de que a crise da dívida soberana, que não está a ser solucionada, se possa transformar numa nova crise financeira”, advertiu Guido Mantega, o ministro da Fazenda (Finanças) do Brasil. O tema “Grécia” foi citado explicitamente por Mantega.

O ministro brasileiro afirmou, também, que ” se está vivendo um agravamento da crise nos últimos meses”, o que requer que se “impeça que se dê um salto qualitativo, alcançando um nível mais grave”.

Ação conjugada e não cada um por si

O enfoque na importância de uma ação conjugada do grupo através do FMI e de instituições internacionais revela a importância que os BRICS dão ao reforço geopolítico da sua posição dentro destes organismos internacionais e à estratégia de funcionarem como uma “frente” nos fóruns internacionais, como o G20. Os BRICS insistem no reforço do seu poder de voto dentro do FMI. Contudo, a próxima revisão de quotas só está agendada oficialmente para janeiro de 2014 – daqui a mais de dois anos e três meses, o que, nos tempos que correm, é uma eternidade.

Conjugação de esforços a que é dada, aparentemente, mais importância do que à ação isolada de cada uma destas potências em relação a cada país em apuros em concreto. Esta perspetiva de ação coletiva por parte do grupo foi sublinhada, em particular, pelo governador do Banco Popular da China (o banco central), Zhou Xiaochuan.

Salvação imediata posta de lado

A perspetiva de “salvação imediata” e “em força” dos “periféricos” da zona euro, através de uma ação massiva no mercado secundário dos títulos do Tesouro ou nos leilões de dívida, parece, também, ter levado um balde de água fria. Ações pontuais continuarão a existir, mas serão marginais, segundo frisaram fontes chinesas à Voz da América.

A proposta do Brasil de agirem diretamente na Europa, inclusive no mercado secundário da dívida ou em instrumentos financeiros europeus potenciais, como as euro-obrigações, foi arrefecida pelos outros quatro parceiros. Guido Mantega tinha falado na possibilidade do seu país alocar 10 mil milhões de dólares para uma intervenção na zona euro.

Mas o ímpeto brasileiro foi travado, afirmou, ontem, o ministro das Finanças da África do Sul, Pravin Gordhan. “Não fomos tão longe”, disse à Reuters. O vice-ministro das Finanças russo, Sergei Storchak, citado também pela Reuters, comentou: “Todos temos diferentes formas de tomar decisões, não podemos sindicar o nosso dinheiro”.

A Índia organiza a 22 de setembro em Washington DC uma cimeira dos ministros das Finanças dos seis países agrupados debaixo do acrónimo BRICS – para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A África do Sul foi recentemente adicionada. Concertação de estratégias em relação ao Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, G20m guerra de divisas e crise da zona euro estarão, certamente, em discussão.

Segundo o ministro das Finanças indiano, Pranab Mukherjee, a cimeira discutirá um relatório a apresentar por Nova Delhi sobre “o papel dos BRICS na economia global”.

O Brasil anunciou que poderá disponibilizar 10 mil milhões de dólares (mais de €7 mil milhões) para investir na dívida dos “periféricos” da zona euro.

Na semana passada, o Institute of International Finance (o lóbi financeiro agrupando 400 bancos de todo o mundo), que está negociando, por parte de credores privados, a reestruturação da dívida grega com Atenas, afirmou que fez diligências junto dos BRICS para que participassem com um empréstimo de 20 mil milhões numa solução do problema.

Recorde-se, ainda, que a China colocou, recentemente, condições à Europa para a sua intervenção no mercado da dívida da zona euro. No Fórum de Verão de Davos que se realizou em Dalian, na China, o primeiro ministro chinês “sugeriu” aos europeus que antecipassem o reconhecimento do seu país como uma “economia de mercado”, no âmbito do que isso implica segundo as regras da Organização Mundial do Comércio.

Entretanto, o governo brasileiro colocou um pedido oficial na Organização Mundial do Comércio para que este organismo sedeado em Genebra avalie a legitimidade dos governos criarem barreiras alfandegárias como compensação face a valorizações excessivas das suas moedas.

A Índia recebeu, esta semana, a boa notícia de que as previsões do Fundo Monetário Internacional apontam para que tenha ultrapassado o Japão este ano em PIB, passando a 3ª economia do mundo, depois dos EUA e da China (se não se contar a União Europeia como uma só entidade). A Índia deverá atingir, no final do ano, um PIB de 4448 mil milhões de dólares (4,448 biliões de dólares) e o Japão de 4418 mil milhões (4,418 biliões de dólares).

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