A questão dos impérios


A meio da semana passada, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy resolveram apertar as mãos em torno de uma “Agenda 2020” que inclui mais de 80 projectos entre os dois países vizinhos.

Na área económica, foi logo dado destaque, entre eles, a cinco projectos de política industrial comum: um office franco-alemão para as energias renováveis, um projecto-piloto de veículo eléctrico de colaboração entre Estrasburgo e Estugarda, o lançamento de um satélite franco-alemão de detecção de emissões de gás com efeito de estufa, o trabalho conjunto na área de um futuro foguetão espacial europeu e a coordenação na indústria de defesa.

Mas, para além desta convicção de que a Europa deve ter “uma base industrial sólida” (como se refere no comunicado oficial do encontro), e não só viver de rendas financeiras, de serviços (por mais importantes que sejam, como os financeiros, os logísticos, ou o turismo) e de software, a França e a Alemanha dão as mãos, de novo, para consolidar uma nova entente geopolítica, de cooperação estratégica com impacto global.

Primeiro, dentro de portas, recolocando o eixo franco-alemão na direcção estratégica da Zona Euro e da União Europeia face à confusão que reina no seu topo institucional fragmentado. Basta recordar o que aconteceu na semana finda: a Comissão Europeia dá um sinal de “sim, mas” à Grécia em apuros e, logo a seguir, um comissário, Joaquín Almunia, vem, por sua alta recriação, estragar o repasto e provocar um crash na Europa (e particularmente nas bolsas de Madrid, Lisboa e Atenas numa verdadeira quinta-feira negra) e o aumento do nervosismo nos mercados de seguros da dívida soberana (hoje conhecidos pelo popular acrónimo inglês CDS – para credit default swaps).

Plano de consolidação orçamental e de regulação

Esta 12ª reunião conjunta de conselhos de ministros, desta vez no Eliseu, em Paris, decidiu que o eixo apresentará propostas comuns na área económica e financeira já na próxima cimeira informal da União Europeia a 11 de Fevereiro – na próxima quinta-feira – em Bruxelas.

Os dois países pretendem que a consolidação orçamental nos países membros se faça até 2013 em torno da meta de um défice inferior a 3% do PIB no quadro do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e de um estado de equilíbrio orçamental até 2015. Com a resposta à Grande Recessão, a França atingiu, no ano passado, os 8,3% e a Alemanha subiu para os 3,4% (um pouco acima do tal limite, o que para os alemães é uma desonra).

A Alemanha gastou, em termos acumulados ao longo do pânico financeiro e da recessão que se seguiu, 5,1% do seu PIB (em valores de 2008) a salvar o sistema financeiro e 2,5% do PIB em programas de estímulos; no caso da França aplicou muito menos em termos absolutos e relativos: 1,4% do PIB a deitar água no risco sistémico e 1,2% em estímulos, segundo dados recolhidos pela Grail Research até Setembro de 2009, uma firma de investigação estratégica, sedeada em Cambridge, Boston. No conjunto os dois países gastaram em bailout e estímulos mais de 350 mil milhões (biliões na designação anglo-saxónica) de euros, apenas 2,7% do esforço mundial que totalizou 13 biliões (triliões na designação anglo-saxónica), em que os EUA gastaram 5,9 biliões e a China 2 biliões.

Apesar da força política do PEC, um grupo de notáveis na Alemanha, membros do Painel de Conselheiros Económicos do governo federal, já propôs um Pacto europeu de consolidação orçamental em que a saída das políticas anticrise seja cautelosa e rigorosa, e assumida em conjunto por todos os estados-membros.

O eixo franco-alemão trabalhará coordenadamente nas questões quentes do problema sistémico e de algumas das lições da actual Grande Recessão: regulação do mercado de derivados e dos fundos especulativos; sobre as instituições financeiras sistémicas, as jurisdições não cooperativas (eufemismo para offshore), as normas em matéria de exigências de fundos próprios e de liquidez do sistema financeiro e as agências de compensação e de notação (as famosas agências de rating). Preparará, também, em conjunto as negociações do próximo quadro financeiro plurianual europeu.

O já referido painel alemão de conselheiros avançou com uma ideia que agrada, também, a Sarkozy: a criação de um organismo de observação sobre os mercados de divisas, considerados pelos alemães “num estado de anarquia”, assegurando um sistema tripolar, entre o euro, o dólar e o renmimbi (a moeda chinesa), curiosamente omitindo a libra.

Resposta a uma humilhação

Depois, o casalinho em lua-de-mel franco-alemão olha para fora do continente: “Num mundo em que se impõem novos actores globais, estamos convencidos que um eixo franco-alemão o mais estreito possível é indispensável para os nossos dois países e para a Europa”, diz o comunicado oficial.

Todos estão lembrados da humilhação recente da Europa na Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, em que uma mesa adhoc de cinco (EUA, China, Brasil, Índia e África do Sul) deixou os europeus a falar sozinhos pelos corredores da cimeira como baratas tontas. Os passos estratégicos a dar não vêm explícitos no comunicado oficial franco-alemão.

Entre as medidas explícitas, a França apoia a aspiração da Alemanha a ter um lugar de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU e os dois países apresentarão, logo que possível, uma candidatura à presidência conjunta da Organização de Segurança e Cooperação Europeia.

Interrogações finais: Como reagirá o Reino Unido a este renascimento do eixo franco-alemão? Voltará, de novo, para os braços do Tio Sam? Conseguirá o eixo cativar o shatterbelt europeu, dos nórdicos, ao leste (Polónia, sobretudo) e à Península Ibérica?

A política europeia voltou a ficar animada. Os jogos de poder regressaram, depois, de um interregno com a Grande Recessão e as peripécias do Tratado de Lisboa.

Crise? Que crise? Hong Kong e Macau vivem de uma bebedeira de liquidez gigante na mãe-pátria. As quatro drogas dos novos-ricos do continente são as jóias, os vinhos, a cosmética e, claro, o jogo alto.

Vejamos os personagens seus consumidores.

1. As chinesas do continente, umas com o corpo coberto de logótipos reluzentes nas roupas, outras aparentemente sem grandes exuberâncias, afluem às ourivesarias de Hong Kong e Macau, onde as peças exibem pequeníssimas etiquetas com preços de 5 e 6 dígitos no mínimo nas moedas locais ou mesmo em yuans (a moeda chinesa), o equivalente a 4 e 5 dígitos em euros. O ouro está na moda (com cotações da onça acima dos 1100 dólares) e não só por razões sazonais (casamentos, pré-época de Natal com promoções).

2. Homens de fato-e-casaco ou vestindo sportswear de marca correm aos vinhos importados de alta qualidade e a preços exorbitantes numa Hong Kong que se transformou no que já designam por wine hub asiático, depois da extinção de uma taxa alfandegária de 40%.

3. As vaidosas. Os cosméticos são outra das loucuras caras – qualquer marca internacional de topo tem chinesas empinadas às dezenas à volta dos testers e junto das vendedoras. Cheiram, maquilham, re-maquilham, no meio de conversas sonoras e risinhos, e pagam, facilmente, facturas de 5 dígitos saindo com saquinhos carregados.

4. Finalmente, os viciados no jogo na extremidade do Rio das Pérolas. Macau anuncia um volume de receitas de 60% de crescimento em relação há um ano. Um montante de 12 mil milhões de patacas (mil milhões de euros) em Novembro, um mês considerado “baixo”. As altas jogadas não se fazem nas mesas dos primeiros andares dos casinos, mas nos private. Mas, mesmo entre os vestidos sem logótipos, perdem-se quantias numa tarde de 5 dígitos.

Uma liquidez gigantesca

O que tudo isto significa é que há uma liquidez gigantesca na China derivada da enorme especulação imobiliária e financeira em curso que começa a assustar muito analista independente na China e no estrangeiro.

Uma liquidez que se alargou, recentemente, com o disparo dos empréstimos a pretexto de inundar a economia real com dinheiro vivo – nos primeiros dez meses deste ano, os novos empréstimos concedidos na China aumentaram 144% em relação há um ano. Há um montante de 8,9 biliões (triliões, na designação anglo-saxónica) de yuan (mais de 870 mil milhões de euros) injectados pelo crédito, muito acima dos 5 biliões previstos para todo o ano pelo governo.

Para 2010 fala-se de manter um objectivo de 8 biliões de yuan – se as previsões oficiais errarem por defeito, pela mesma margem, como este ano, isso significará que o crédito atingirá mais de 12 biliões. Números redondos, o que está em circulação no crédito deve ser 1/3 do PIB chinês avaliado em yuans.

Uma nova casta capitalista

Os novos-ricos da China não são só os detentores de cargos da nomenklatura do aparelho central, regional ou local, do complexo militar ou do sector empresarial do Estado, particularmente das regiões costeiras. Nem só os super-ricos, privados, das listas da revista Fortune ou da lista mais “local” divulgada anualmente por Rupert Hoogewerf desde 1999.

São as dezenas de milhar que não constam dessas listas – os anónimos de maços de notas ou de cartões prateados e dourados que desembarcam diariamente nas duas regiões administrativas especiais. Empresários, intermediários de todo o tipo, e sobretudo uma casta de rentiers financeiros que dão pela alcunha de zhuang-jia, que jogam nas oportunidades legais e nas zonas “cinzentas”, nos erros e buracos legislativos, que como enguias vivem no meio da cadeia de valor no imobiliário, nas bolsas, nos empréstimos e na obtenção de favores dentro do próprio tentacular aparelho estatal.

As quatro grandes potências emergentes não formam nenhum bloco estratégico. O mundo é, hoje, tripolar, disputado pelos Estados Unidos, China e União Europeia. O conceito foi um truque de analistas financeiros em 2001.

Os quatro apertam as mãos, sorriem para as câmaras, dão ares de um bloco geopolítico de tijolo reforçado nas cimeiras do G20 ou nas que promovem. Mas, os BRIC (acrónimo para as quatro grandes potências emergentes do século XXI, Brasil, Rússia, Índia e China) são, apenas, um aperto de mão táctico, um eixo temporário de oportunidade. “Os BRIC não são a base para uma parceria estratégica”, reage Stephen Kotkin, historiador e professor em relações internacionais da Universidade de Princeton e consultor de estratégia do World Pension Forum.

Kotkin vai mesmo mais longe e fala do surgimento do conceito de BRIC como um truque talentoso de analistas financeiros, quando o confrontamos com o imenso peso mediático do acrónimo. O nosso interlocutor aviva-nos a memória: Jim O’Neill, economista-chefe da Goldman Sachs, resolveu, com a sua equipa, em 2001, inventar esse acrónimo “que se revelaria altamente rentável, ao tornar o investimento dirigido aos quatro países menos arriscado, transformando-o em moda”. Nesta década, o acrónimo tornou-se omnipresente. Mas Kotkin acha que “será errado imaginar que a ideia de BRIC tem, na base, uma qualquer base geopolítica”.

Cada um em sua bicicleta e pista

O próprio acrónimo começou a ser corroído. Alguns analistas financeiros têm, mesmo, sugerido “amputar” o R do acrónimo e divulgar, apenas, o termo BIC. Milton Ezrati, analista da Lord Abbett & Co. LLC., divulgou, recentemente, um relatório com o título “BRIC partido”. A Rússia teria deixado de estar na moda. Kotkin dá uma explicação: “A China transformou, de facto, a Rússia num seu parceiro júnior”. Outros consultores mais ligados à Ásia, aproveitam, e adicionam ao grupo um K (em inglês), de Coreia do Sul.

“Cada uma das quatro pedala na sua bicicleta e mesmo em pistas diferentes, actuam muito independentemente e têm trajectórias de crescimento e desenvolvimento distintas. A etiqueta BRIC não faz mesmo qualquer sentido”, diz-nos, por seu lado, Parag Khanna, de 32 anos, que subiu ao estrelato literário da geoeconomia logo com o seu primeiro livro, intitulado “O Segundo Mundo”. Sobre a Rússia ele traça-lhe mesmo dois cenários radicais no futuro que deixarão os russos com os cabelos em pé: ser um anexo da Europa ou um vassalo da China. Ou as duas coisas.

Khana que é um filho da globalização, nasceu na Índia, cresceu nos Emirados e na Alemanha, e é hoje nova-iorquino assumido. O mundo hoje está em “geometria variável”, diz-nos numa entrevista que pode consultar (em inglês) aqui. Não acredita em nenhum G2 (um alegado eixo informal Estados Unidos-China). Fala de um mundo tripolar no que respeita ao patamar da hegemonia – partilhado pelos EUA, China e União Europeia. “São como três aranhas tecendo as suas teias globais, projectando a sua influência através da globalização. Não são um G3, nem desejo que o sejam”, sublinha.

As três aranhas hegemónicas

E a que se dedicam as “aranhas”? A atrair e enredar o que Khana designa por “segundo mundo”, uma espécie de potências de segunda linha que oscilam entre os três pretendentes. Khana foi buscar à política eleitoral americana esta ideia de “estados que balançam”. E juntou-lhe o desenho de um “mercado da geopolítica”, onde os três “impérios” vão a jogo e fazem os seus lances.

O segundo mundo – onde Khana inclui os outros três BRIC, bem como mais umas dezenas de potências médias, incluindo muitas do resto do G20 – espalha-se por regiões-chave do mundo, onde o apetite das três aranhas é enorme. Ironicamente, o segundo mundo dispõe de margem de manobra para se deixar cortejar, segundo Khana, não por ideologias antagónicas, mas por três modelos capitalistas e de projecção externa rivais. O resto é o efectivo terceiro mundo. Paisagem de tragédias e periferia para as disputas.

Khana acha que o espaço do Oceano Índico vai voltar a ser (como quando os portugueses lá entraram a ferro e fogo nos idos de 1500) o mais “quente” do globo.

O dólar desceu, esta semana, abaixo dos 67 cêntimos de euro, tendo fechado hoje (23 de Outubro) nos 66,63 cêntimos. Dito de outro modo, o euro ultrapassou a fasquia psicológica dos 1,5 dólares (fechou a semana nos 1,5008 dólares) e o dólar aproximou-se, durante a semana, dos 91 ienes (a divisa japonesa).

Em relação a Janeiro deste ano, tendo em conta o índice do dólar da Reserva Federal norte-americana, a divisa desvalorizou-se 7%. O seu valor cambial desceu para uma banda de mínimos verificados entre 28 de Fevereiro e 11 de Agosto de 2008.

Muitos analistas vaticinam, por isso, uma tendência de colapso da moeda americana. Em 2008, o euro chegou a cotar-se num máximo de 1,6 dólares. Há, ainda, alguma margem de descida da divisa americana em relação aos seus mínimos históricos de Julho de 1995 e de Outubro de 1978.

Apesar da queda do dólar favorecer alegadamente as exportações americanas (que ficam mais baratas para quem as compra com moedas mais valorizadas), a tendência de queda reforça as dúvidas sobre a solidez financeira e económica dos EUA, diminui os ganhos dos exportadores de commodities que têm o preço fixado em dólares e gera a revolta dos países que sofrem a valorização das suas moedas, enfraquecendo a sua capacidade competitiva no comércio internacional, e que vêm as suas reservas estrangeiras em dólares perder assustadoramente valor.

Fruto do enfraquecimento do dólar, o preço do ouro tem mantido a tendência altista, acima do patamar dos 1050 dólares por onça (o máximo histórico está em 1063,9 dólares, atingidos em 13 de Outubro e reafirmados em 19 de Outubro), e a cotação do barril já galgou, no mercado americano, para a variedade WTI, a barreira dos 80 dólares (cotou-se, no fecho da semana, nos $80,05). A Goldman Sachs já previu que o barril possa chegar aos 85 dólares até final deste ano e aos 95 dólares pelo final de 2010.

O impacto financeiro da alta do petróleo nos países importadores é conhecido. Por exemplo, uma subida de 10 dólares do preço do barril implica uma drenagem adicional de 13 mil milhões de dólares das economias da OCDE para os exportadores de crude. Ora, um aumento de 10 dólares já ocorreu entre final de Julho e agora. Para países convalescentes de uma Grande Recessão esta punção de sangue financeiro em menos de três meses é significativa.

Aviso japonês

O analista chefe de estratégia da Sumitomo Mitsui Banking Corp, Daisuke Uno, admitiu que o dólar possa cair para os 50 iénes durante o próximo ano, o que significaria uma desvalorização brutal adicional na ordem dos 45% em relação à divisa nipónica. Um colapso desta envergadura significaria, politicamente, a perda total do papel do dólar como divisa de reserva global, conclui o analista da Sumitomo, citado pela Bloomberg.

A última cimeira do G20 acabou por não abordar, formalmente, o assunto do dólar como divisa internacional. Mas os analistas inclinam-se, agora, para admitir que a próxima reunião dos ministros das Finanças do G20, que se realizará na Escócia a 6 e 7 de Novembro próximos, terá de tomar o assunto em mãos.

Várias acções unilaterais têm vindo a ser tomadas. No início de Outubro, vários bancos centrais asiáticos, da Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Filipinas, Tailândia e Indonésia, intervieram para “arrefecer” a valorização excessiva das suas moedas face à quebra do dólar.

O sinal brasileiro

O Brasil acabou de instaurar um imposto de 2% sobre os investimentos estrangeiros em títulos e acções (não sobre investimento directo estrangeiro) tidos como “especulativos” de modo a travar a valorização do real face ao dólar (34% desde o final de 2008) e a moderar a queda das exportações brasileiras este ano (25,1% até à data).

Este controlo parcial do fluxo de capitais internacionais pelo governo brasileiro é tido como um caminho possível, se não houver uma acção internacional concertada. Naturalmente que esta medida teve impacto imediato sobre a Bolsa de São Paulo, onde as 271 empresas cotadas perderam, numa só sessão (terça-feira, dia 20, após o anuncio da nova taxa na segunda-feira), 4,5% da sua capitalização, segundo um estudo da consultora Economática. É a outra face da moeda.

Foi concluída a primeira fase de um estudo realizado por dois investigadores portugueses sobre a evolução do poder relativo das grandes potências desde 1973, que confirma o claro aumento de poder mundial da China em detrimento da Rússia, Japão e Europa. É um trabalho pioneiro numa área onde escasseiam hoje as investigações na comunidade académica mundial.

Em termos de poder geopolítico e geoeconómico relativo, a China duplicou desde 1973 – numa escala aritmética “disparou” de 66,17 pontos para 132,46. Como os Estados Unidos declinaram ligeiramente (apenas 2% desde 1973 e 0,6% desde 1998), manifestando uma clara resiliência, a nova potência asiática foi preenchendo o espaço no balanço mundial deixado vago pela queda brutal da Rússia (58% desde os tempos da URSS em 1973) e mais moderadamente do Japão (cerca de 16%) e da Europa (12,5% no caso de se considerar a União Europeia a 24 membros).

É a principal conclusão de um estudo sobre a evolução do poder relativo das grandes potências e dos principais espaços geográficos realizado por dois investigadores portugueses, Fernando Fonseca, de 66 anos, um especialista em recursos humanos reformado, um apaixonado pela geopolítica em “dedicação exclusiva” ao estudo destes temas, como nos confessa, e Fernando Gonçalves, de 67 anos, investigador do Centro de Estudos de Gestão do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e especialista em sistemas de informação.

Novo Índice geopolítico

Os dois investigadores criaram um índice geopolítico, com base num conjunto de parâmetros que aplicaram, para já, ao período de 1973 a 2006, ou seja desde o início dos choques petrolíferos até ao período de pré-crise, último ano de que dispuseram de estatísticas oficiais para todos os indicadores. O projecto inclui o alargamento do estudo a períodos anteriores e a sua actualização.

Os dois investigadores meteram mãos a uma área onde não há muitos trabalhos de investigação, desde que, nos anos 1970 e 1980, especialistas como Ray Steiner Clive (World Power Assessment: A calculus of strategic drift, 1977), Charles Doran e Wes Parsons desenvolveram modelos de avaliação do poder relativo das potências com base numa bateria de indicadores económicos, sociais, físicos e militares.

O escritor Paul Kennedy, na sua obra de culto, a volumosa Ascensão e Queda das Grandes Potências (1988), utilizou as avaliações de Doran e Parsons (1980), dando grande divulgação à metodologia, mas falhou, mesmo assim, ao não pressentir a implosão da União Soviética que decorreria pouco depois de o livro ser publicado. Doran e Parsons haviam estudado a evolução do ciclo de poder relativo de nove grandes potências entre 1816 e 1975.

Recentemente, o investigador francês Dylan Kissane publicou um estudo similar que, então, divulgámos. Fernando Fonseca e Fernando Gonçalves usaram como parâmetros básicos, devidamente ponderados, a população, o produto interno bruto (PIB), o PIB per capita, o indicador de desenvolvimento humano do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a área geográfica, as despesas militares e o poder nuclear.

Os gráficos que se conseguem gerar com as curvas de poder relativo de várias potências permitem uma visualização fácil para o leitor não especialista das grandes mutações no xadrez mundial e uma aproximação a conclusões comparativas.

Três sinais a seguir

O estudo dos últimos trinta anos permite extrair três constatações para uma investigação mais aprofundada.

1- A própria realidade dos BRIC – acrónimo inventado pela Goldman Sachs para caracterizar as quatro grandes potências ligadas a mercados emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China – é internamente muito diversa. Enquanto a Rússia, herdeira parcial da antiga União Soviética, caiu estrondosamente em poder relativo mundial, particularmente na década de 1990, e o Brasil declinou inclusive entre 1998 e 2006, a China aumentou 100% o seu índice relativo de poder mundial e a Índia 60% desde 1973.

O período de maior escalada de poder por parte da China foi a década de 1990, depois da implosão da URSS e apesar do “hegemonismo solitário” dos EUA. É certo que a Rússia, com o início do consulado Putin, parece ter estancado a quebra e que o Brasil poderá recuperar posição, em breve, devido aos seus recursos estratégicos em commodities (e à sua estratégia de especialização internacional na exportação de matérias-primas que, pela primeira vez desde 1978, superou a exportação de produtos manufacturados) que têm feito as manchetes quase diárias da imprensa sul-americana.

2- A União Europeia, apesar do seu alargamento geográfico progressivo e do seu reforço político tendencialmente federalista, continua a perder peso relativo no mundo.

3- Finalmente, o declínio do ‘Século Americano’ (como o baptizou, em 1941, Henry Luce, o fundador das revistas Time, Life e Fortune) é uma tendência de fundo desde os anos 1970. Perdeu posição entre 1973 e 1990, mas recuperou-a com o “hegemonismo solitário” após a implosão da URSS, tendo desde então caído ligeiramente, manifestando um certo grau de resiliência. É certo que estes dados ainda não contemplam o impacto da crise financeira e da recessão dos últimos dois anos nos “fundamentais” dos EUA.

Um autor americano, escrevendo já em plena crise, intitulou a sua obra After AmericaPaul Starobin é o primeiro, nos EUA, fora das correntes radicais, a apontar para uma realidade em transição.

Os 60 anos da proclamação do regime comunista por Mao foram envoltos hoje em colorido, numa parada militar de 200 mil soldados e em casamentos por todo o país no feriado nacional. Alguns analistas falam de que a grande potência asiática entrou numa nova fase.

Com a entronização do G20 como cúpula mundial e com os rumores sobre um G2 (EUA-China) que lideraria a transição geopolítica em curso, a China alcançou o principal objectivo geoeconómico dos últimos trinta anos. E, ainda que escrito por linhas tortas, a visão de um “Povo chinês de pé” gritada por Mao Tsé-Tung na parada de 1 de Outubro de 1949 na Cidade Proibida concretizou-se, finalmente, em termos de respeito mundial.

Contudo, este processo evolutivo não foi linear nem asséptico. “A história da República Popular da China pode ser dividida em dois períodos bem distintos”, diz-nos o investigador chinês Zhibin Gu, autor de ‘Made in China’ e com um volumoso projecto de história dos últimos 60 anos em curso de publicação até 2014. Gu vive em Shenzhen, perto de Hong Kong. Hoje é relativamente pacífico estabelecer tal divisão: o período maoista (1949-1978) e o período da transição para o capitalismo (desde as reformas de 1979 associadas a Deng XiaoPing).

O balanço destes dois períodos geracionais – de sensivelmente trinta anos cada um – é muito desigual quer em termos geopolíticos como geoeconómicos e sociais.

Falhanço económico e geopolítico

Apesar de a China ter readquirido a sua identidade contra a fragmentação e a ocupação e barbárie colonialistas com a proclamação da República Popular na simbólica Cidade Proibida de Beijing em 1949 e de nos anos 1960 ter cindido com os soviéticos e procurado uma estratégia de projecção mundial própria, o projecto de afirmação global nunca foi alcançado.

O seu saldo foi limitado: em 1971 a China obtém o seu lugar de direito na ONU e no Conselho de Segurança, mas Beijing nunca conseguiu quebrar o duopólio dos dois hegemonistas, EUA e URSS, apesar de Mao alcunhar ambos de “tigres de papel” e de Zhou EnLai (que organizou a visita de Nixon a Beijing em 1972) e Deng XiaoPing (inventor da “teoria dos três mundos”, separando o bloco soviético do Terceiro Mundo) terem tentado algumas manobras geopolíticas hábeis – uma delas o estabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos (primeiro um gabinete de ligação a partir de 1973 e depois a troca de embaixadas a partir de 1979).

No plano económico, o país ficou exangue com sucessivas vagas de políticas económicas estatizantes desde os anos 1950 e, no plano social, Mao Tsé-Tung desencadeou o que Zhibin Gu chama de “três guerras (civis) burocráticas” em nome de uma utopia totalitária, de que a mais conhecida das três guerras foi a ‘Grande Revolução Cultural Proletária’ que durou entre 1966 e a prisão do grupo maoista radical conhecido por ‘bando dos quatro’ em 1976 após o falecimento de Mao. No conjunto, a China sofreu uma catástrofe social com a fome em massa entre 1959 e 1961 (segundo alguns teriam morrido 30 milhões) e vários milhões de mortos nas tais três “guerras burocráticas”.

As tragédias que ocorreram durante este período estão ainda na memória de várias gerações ainda vivas. A escrita independente sobre este período da história chinesa é, por isso, dolorosa e difícil ainda hoje na China. A recente obra Chinese History Revisited, de Xiao Jiansheng, um jornalista de Hunão, cujo pai morreu em 1958 no final de uma greve da fome contra o movimento comunal agrário da época, teve de ser publicada em Hong Kong, apesar de inicialmente editada na China mas proibida de ser distribuída.

Surpreendentemente – e muito antes da perestroika soviética de Mikhail Gorbachov a partir de 1985 – os comunistas chineses puseram um ponto final na deriva maoista e levaram o “revisionismo” das políticas públicas tradicionais comunistas (sobretudo no plano económico) a um patamar jamais imaginado pelo patrono do “revisionismo” no final dos anos 1950, o russo Nikita Krutchov, que Mao tanto odiava.

A história feita pela rua

“A segunda fase iniciou-se com o movimento de reformas de 1979. Na realidade, o regime queria manter a supremacia tradicional burocrática, mas as coisas evoluíram de um modo inesperado, mesmo para os comunistas chineses que se foram adaptando”, sublinha-nos Gu.

Como é hábito, a história feita pela rua cavou três tendências que contornaram as baias burocráticas: “A destruição das comunas agrárias maoistas pela iniciativa de base dos próprios camponeses no período de 1978 a 1984, o que libertou 900 milhões de habitantes do mundo rural. Em segundo lugar, o desenvolvimento incrível do sector privado doméstico, chinês, que criou mais de 50 milhões de empreendedores de todos os tipos, explorando nichos de oportunidade, até ao nível do negócio de rua. Por fim, a abertura gradual da China e a sua integração na economia mundial, o que provocará mudanças estruturais profundas. A China é, desde este ano, o maior exportador do mundo e 60% do seu comércio internacional está nas mãos de investidores estrangeiros”.

Juntem-se outros factos, geoeconomicamente relevantes, de que a China forma hoje uma trilogia com os EUA e o Japão em termos de 60% das patentes colocadas em 2007, dispõe das maiores reservas em divisas estrangeiras do mundo e controla alguns minerais estratégicos. Tornou-se, também, no dínamo económico da Ásia, segundo o analista Stephen S. Roach, que vai lançar em breve The Next Asia. Segundo dados oficiais, apenas 8% dos 1300 milhões de chineses serão analfabetos.

A cereja em cima do bolo viria, esta semana, da parte do analista C.H. Kwan, do Nomura Institute of Capital Market Research, ao afirmar que a China ultrapassará o Japão em PIB (em termos nominais) já em 2010, cinco anos antes do que era previsto. Deste modo, depois dos EUA e da União Europeia, o terceiro lugar (mesmo em termos nominais) será ocupado pela China. O mesmo analista prevê que a ultrapassagem dos EUA ocorra em 2039 o mais tardar, e poderá ser antecipada para 2026, “se a China deixar apreciar a sua moeda apenas 2% ao ano”.

Os chineses terão sido, também, “ávidos estudantes” dos sucessivos acontecimentos na URSS a partir de 1986. Segundo Jeffrey Wasserstrom, autor do próximo China in the 21st Century: What Everyone needs to Know, a cúpula chinesa teria tirado duas lições de imediato: por um lado, rapidamente envolver o regime com um manto de patriotismo económico e desígnio geoestratégico acessível ao chinês comum e, por outro, matar no ovo qualquer tentativa de deixar desenvolver na sociedade um movimento de massas, aberto e independente, como o fora o Solidariedade na Polónia (daí que nos círculos de topo chineses se falasse da “doença polaca”).

A China Popular, ao fim destes dois períodos, pode ter entrado numa terceira fase: o seu reconhecimento formal como um dos ‘pesos pesados’ do G20 (quando nunca havia sido convidada a integrar um G7 estendido, como o fora a Rússia) e a estratégia “go global” em que está envolvida por todo o mundo colocam-na num novo patamar.

Na China continuam a cruzar-se várias tendências e forças. A sociedade e a política chinesas não são homogéneas nem estáticas. Zhibin Gu fala de três forças fundamentais, na sua óptica optimistas: “o empreendedorismo, a sociedade aberta que se espalha por vários nichos, e o envolvimento globalista”. Elas convivem com o longo, pesado e milenar braço da burocracia chinesa, com um enquadramento legal de uma sociedade totalitária herdada do maoismo e com a ausência de uma solução constitucional hábil (como foi a encontrada para Hong Kong e Macau nos anos 1990) para questões como a de Taiwan ou do Tibete.

Dois artigos correlacionados:

- nos 30 anos das reformas na China

- nos 40 anos da Revolução Cultural

A história do pós-Guerra terminou hoje. Entrámos oficialmente no depois do Século Americano. Comunicado dos vinte líderes sela a mudança.

“Hoje designamos o G20 como o primeiro fórum para a cooperação económica internacional”, assim fecha o comunicado oficial de mais de 80 pontos assinado pelos vinte líderes na cimeira de Pittsburgh. O encontro decidiu que o grupo passe a reunir anualmente depois de 2010 e para já convocou três cimeiras sucessivas, uma no Canadá em Junho do próximo ano, outra na Coreia do Sul em Novembro seguinte, e outra para França em 2011.

“O facto mais importante foi a simples ascensão – em menos de um ano – do G20 como o mais importante comité mundial. O significado geopolítico é que os grandes países em desenvolvimento estão, agora, claramente representados na governação global, de onde o G7 e o G8 sempre os haviam excluído”, diz-nos Jeffrey Frankel, professor da Kennedy School of Government, da Universidade de Harvard, como primeira reacção à cimeira de Pittsburgh, que decorreu a 24 e 25 de Setembro. Antes do começo do evento, William Thomson, fundador de uma empresa transnacional de análise financeira, sediada em Hong Kong, recomendava que “se desse um enterro decente ao G8, essa irrelevância sem esperança”.

Muitos encararam a queda do Muro de Berlim ou, depois, os atentados terroristas às Torres Gémeas em Nova Iorque, como o fim de uma era e o princípio de um novo quadro geopolítico radicalmente diferente. A história do pós-Guerra terminou, no entanto, hoje: a cimeira de Pittsburgh “entronou” o G20 como cúpula mundial. E com esta mudança, por paradoxal que pareça, é o fim do ‘Século Americano’ decretado por Henry Luce em 1941 e da ilusão da superpotência “sozinha” imaginada por Francis Fukuyama no ensaio ‘O Fim da História’ (1989).

A ironia da História é que a “transição” é feita em solo americano e sob os auspícios do próprio presidente Obama, o primeiro chefe de estado da ainda superpotência a gerir o início do período mais complexo que vai atravessar a América.

Entrámos, oficialmente, no Depois da América (After America) – o título do polémico livro de Paul Starobin publicado recentemente nos Estados Unidos, que nos concedeu uma entrevista que pode ser lida aqui (em inglês). “É um reconhecimento ainda que tardio, mas significativo, do declínio da hegemonia americana e do surgimento de novas ‘polaridades’ fora do tradicional clube dos ‘ricos’. É um bom sinal de que a Administração Obama está a ‘acomodar’ a tendência, em vez de uma resistência obstinada”, sublinha.

O comunicado da cimeira pode ser lido aqui.

A recessão de 2009 será a décima maior na história do capitalismo americano, mas está longe das Grandes Depressões dos anos 1890 e 1930. Muitos economistas americanos inclinam-se para o risco de uma recaída, apesar do ‘aquecimento’ bolsista na Wall Street

Há um ano, o fim-de-semana de 12 e 13 de Setembro ditou o curso da crise financeira nascida num canto exótico do mundo dos produtos financeiros, chamado de subprime, em Agosto de 2007. O falhanço, naquele fim-de-semana, da negociação da venda da mais do que centenária casa financeira Lehman Brothers e a falta de vontade política do secretário do Tesouro e do governador do banco central americanos em injectar o dinheiro dos contribuintes em mais um protagonista do apelidado “sistema financeiro sombra” da Wall Street de Nova Iorque, transformou a crise bancária em Grande Pânico financeiro e projectou-a globalmente.

A segunda-feira ‘negra’ de 15 de Setembro de 2008 foi o ‘momento Minsky’, como os economistas dizem, em que a mutação se deu – em que o que poderia ficar por ser mais uma “normalíssima” crise financeira, com uma derrocada bolsista moderada, atravessou a linha divisória e colocou a América à beira de um segundo 1929 (a Grande Depressão mais conhecida) ou de uma repetição da depressão de 1893/1894, menos conhecida.

Evitou-se repetir 1929

Um ano depois, o pior cenário de uma Grande Depressão ao estilo de 1929/1933 foi posto de lado. A derrocada bolsista na Wall Street parou a 9 de Março deste ano (54% de quebra em relação ao pico em 15 de Outubro de 2007, a segunda maior de sempre na história do Dow Jones) e a OCDE voltou a anunciar, a 11 de Setembro, que, tecnicamente (de acordo com o seu indicador compósito), a maioria das economias que tinham entrado em recessão se aproximaram no segundo trimestre de 2009 da “vala” (trough, em inglês; vala entre dois ciclos económicos) que poderá conduzir à retoma. Globalmente o G7 (o clube dos ‘ricos’) terá em termos trimestrais, em cadeia, decrescido, apenas, 0,1% no segundo trimestre deste ano, face a quebras significativas de 8,4% no primeiro trimestre de 2009 e 7,3% no quarto trimestre de 2008.

A economia mundial em 2009 irá decrescer apenas 1,3% segundo o FMI ou 2,7% segundo o último relatório da UNCTAD. Será o pior ano desde que a crise financeira se manifestou em meados de 2007. Mas mesmo assim estará longe dos números atingidos em outras grandes depressões. O comércio internacional deverá retroceder 10% este ano, segundo uma estimativa da Organização Mundial de Comércio, mas entre 1929 e 1932 caiu 60%.

Olhando um outro indicador do comércio internacional, podemos avaliar a contracção nesta área motivada pela recessão. Segundo dados do Institute of Shipping (ISL), de Bremen, o movimento mundial de contentores quebrou 15,7% em termos mundiais no 1º semestre de 2009 em relação ao primeiro semestre do ano passado, com uma situação mais grave nas Américas (onde caiu, em termos homólogos, 19,2%) e na Europa (quebra de 17,8%). A quebra na Ásia (14,8%) foi inferior à média global. A fonte é o Monthly Container Port Monitor do ISL.

Mas já é o 10º pior ano da América

Olhando ao caso dos EUA, o epicentro desta crise, a economia, estima-se, quebrará 3% em 2009. A ser assim, será a décima maior quebra anual de sempre do PIB em termos reais em relação ao ano anterior na história do capitalismo moderno americano desde os anos 1860.

Em termos de comparação histórica, o PIB americano quebrou, em termos reais, 13% em 1932 (um ano de recaída no percurso da Grande Depressão de 1929/1933), em 1908 (11%), em 1930 (8,6%), em 1931 (6,4%), em 1893 (5,8%), em 1894 (4,7%), em 1866 (4,6%), em 1904 (3,5%) e em 1938 (3,4%, a segunda recaída cinco anos depois da Grande Depressão de 1929/1933, um evento a que os americanos chamam de double dip).

Para o analista americano Peter Cohan o ter-se evitado a reedição de uma Grande Depressão mundial ao estilo de 1929 deveu-se à massiva intervenção das autoridades monetárias e das políticas orçamentais tanto nos países da OCDE como nos emergentes.

Paradoxalmente, os emergentes apostaram mais em intervenções keynesianas, em média na ordem dos 4% do PIB (com recordes na Arábia Saudita, com 9%, em Singapura com 8%, e na África do Sul com 7,4%), do que os países desenvolvidos (3,7% do PIB em média), segundo dados recentes da UNCTAD. O intervencionismo de base orçamental chinês é particularmente destacado, segundo a UNCTAD na ordem dos 6,2% do PIB, e segundo outros analistas estará nos 13%. Os países ‘ricos’ lideraram, no entanto, no esforço de intervenção no sector financeiro, com posições relativas recorde na Islândia e Irlanda, seguidas do Reino Unido, EUA e Suécia. Nos países emergentes, esse tipo de injecção foi negligenciável. A defesa do sistema de financeirização nos países da OCDE é particularmente crítico, como se vê.

O risco de recaída

Esta dependência, por parte dos países ‘ricos’, da morfina do dinheiro dos contribuintes dirigida a segurar um sistema financeiro em que muitas das entidades são tidas como não-confiáveis (falando claro: como insolventes ou zombie) surge como o ponto fraco, refere-nos William Thomson, presidente da Private Capital, em Hong Kong, um olhar bem distanciado da Wall Street nova-iorquina. Metade do “lixo mais tóxico” financeiro, diz-nos Thomson, ainda continua debaixo do tapete: uns 30 biliões de dólares. “A questão é saber o que acontecerá quando as injecções artificiais dos governos recuarem”, conclui.

David Kotok, director do Global Interdependence Center,uma organização sem fins lucrativos de alcance globalista, coloca o dedo na ferida. Muita gente bateu palmas porque os bancos centrais estavam actuando face a um problema de liquidez. Mas a realidade é outra: “O Tesouro americano violou as regras porque se envolveu em assuntos de insolvência. Uma coisa é atacar a falta de liquidez, outra, completamente diferente, é esbanjar dinheiro dos contribuintes em insolventes. As consequências disso ainda estarão para vir”.

Por isso são cada vez mais as vozes que falam do risco de um padrão de recaída como aconteceu em 1932 (o PIB americano voltou a quebrar dramaticamente, um afundamento de 13%, depois de ter desacelerado a quebra no ano anterior) ou de uma entrada num período de “tipo japonês” (entre 1991 e 2007, a economia nipónica não cresceu mais do que 1,9% ao ano em média), como refere Thomson. Alguns, como o historiador Michael Perelman, da California State University, adiantam que, mesmo a médio prazo, há que estar vigilante, pois há o risco de um double dip, como aconteceu em 1938, em que já depois de terminada a Grande Depressão, a recessão regressou por um ano (com uma quebra de 3,4%).

Peter Cohan sublinha que o desemprego – e em particular o aumento do desemprego de longa duração – tem em economias como a americana (cujo crescimento depende 70% do consumo) um efeito negativo suplementar. Este risco tem levado os políticos e os banqueiros centrais a uma atitude de prudência e os organismos internacionais a aconselhar a manutenção das políticas keynesianas e da ZIRP (taxas de juro próximas de zero %, no acrónimo em inglês para zero interest rates policy) monetária.

O relatório da UNCTAD, o organismo de conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, com sede em Genebra, vem colocar, a duas semanas da reunião do G20, a necessidade de uma estratégia de substituição da nota verde americana como divisa internacional. O que coincidiu com o anúncio pelos chineses do lançamento em Hong Kong, a partir de dia 28 de Setembro, de obrigações denominadas na sua moeda, o que é interpretado como um primeiro passo na “internacionalização” do yuan or renminbi.

O relatório de 2009 da UNCTAD – Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento criada em 1964 – divulgado esta semana vem colocar em cima da mesa a discussão de uma estratégia de substituição do dólar como divisa internacional, face à sua fragilidade, à sua desvalorização deslizante (o dólar está a valer menos de 70 cêntimos de euro e o ouro aproxima-se dos 1000 dólares a onça) e ao risco de um colapso, que geraria um tsunami financeiro mundial. Os analistas classificaram este relatório como “radical”. Preto no branco aponta que há “uma fraqueza no sistema internacional de reservas por usar uma divisa nacional como activo de reserva”.

O relatório da UNCTAD, que pode ser lido aqui, é mais uma voz que se vem juntar a outras – como as de responsáveis dos BRIC desde o primeiro trimestre deste ano, e nomeadamente do governador do banco central chinês (Banco Popular da China) num documento de Março de 2009, e como a do presidente francês Sarkozy recentemente – a apenas duas semanas da reunião do G20 em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Mas acarreta o peso de ser a primeira vez que uma grande instituição internacional coloca abertamente na mesa uma tal sugestão.

No capítulo IV (pgs.113 a 129), o relatório retoma alguns pontos das conclusões da Comissão Stiglitz (do nome do Nobel da Economia que a dirigiu) das Nações Unidas e avança explicitamente com uma proposta de estratégia.

Essa proposta já havia sido alvitrada, recorda agora a UNCTAD, no final dos anos 1970. “Trata-se de facilitar a diversificação das reservas para além do dólar, sem o risco de gerar uma grande crise do dólar, dando aos bancos centrais a possibilidade de depositar dólares numa conta de substituição especial do Fundo Monetário Internacional (FMI) denominada em direitos de saque especiais (DSE). Estes DSE poderiam ser usados para efectuar pagamentos internacionais. Como são valorizados em função do peso médio das divisas mais importantes, o seu valor é mais estável do que cada uma delas”, refere o relatório, que adianta, no entanto, ser necessária uma reformulação da estrutura de quotas no FMI de modo a reflectir a actual realidade geoeconómica.

Apesar de alguns riscos que este sistema implicaria – e que a UNCTAD detalha – seria menos perigoso do que o existente dominado pelo dólar desde o chamado golpe Nixon em Agosto de 1971 que consolidou a hegemonia da moeda americana na economia mundial. Foi o presidente francês De Gaulle que o apelidou de golpe: o presidente americano suspendeu unilateralmente a convertibilidade do dólar em ouro, rompendo com o compromisso assumido pelos americanos em Bretton-Woods em 1944. Era, então, subsecretário do Tesouro americano, do governo Nixon, Paul A. Volcker, actual chefe dos conselheiros económicos do presidente Obama e ex-governador da Reserva Federal.

O relatório admite, ainda, a possibilidade de criar uma divisa de reserva “artificial” (entre aspas no original) por parte de um FMI remodelado ou mesmo de um Banco de Reserva global (uma proposta sugerida pelo comissão Stiglitz, que fosse uma espécie de banco central mundial). A UNCTAD alude à ideia de um “bancor”, de uma unidade de conta internacional sugerida por Keynes, o delegado do governo inglês, nas negociações de Bretton-Woods no âmbito da criação de uma União Internacional de Compensação, aspectos centrais do que então foi designado por “Plano Keynes”.

China internacionaliza yuan

O Ministério das Finanças chinês anunciou que colocará no mercado 6 mil milhões de yuans (equivalente a mais de 600 milhões de euros) de obrigações denominadas na sua moeda, o yuan (ou renminbi), a partir de 28 de Setembro. O plano por fases poderá chegar a um total de 100 mil milhões de yuans.

O local será Hong Kong, a praça financeira que o governo chinês definiu como centro offshore para operações em yuans. A partir daquela data, os investidores financeiros em Hong Kong poderão comprar obrigações emitidas pelo governo chinês em moeda chinesa. Os chineses afirmaram que se trata de uma operação para encorajar a aceitação do yuan em transacções internacionais.

A 9 de Agosto de 2007 um comunicado de imprensa, no mínimo estranho, vinha a público. O banco francês BNP Paribas comunicava ter congelado três fundos por impossibilidade de valorizar investimentos titularizados num veículo financeiro completamente desconhecido dos comuns mortais. De quem era a culpa? “Da completa evaporação da liquidez de certos segmentos do mercado de titularização americana”, dizia-se no comunicado.

Repentinamente o mundo era apanhado de surpresa por uma palavrão financeiro que emergia do escuro das salas dos corretores: sub prime. Rapidamente se tornou tema de conversa de café. Contudo o índice Dow Jones continuou impavidamente o seu frenesim altista…até que se deu, de novo, o improvável no casino: um crash bolsista a 16 de Outubro. Soube-se, depois, com o atraso de um ano, que os Estados Unidos haviam entrado, também, em recessão (contracção da economia) em Dezembro daquele ano.

O povo comum – quer os ‘capitalistas populares’ quer os outros que não vivem nem de um cêntimo de rendas financeiras – foi fazendo uma aprendizagem dolorosa ao longo de 2008: de um discurso monetarista dominante para um súbito acordar com todos os governos, a começar por Washington (então nas mãos dos republicanos), a gritar que “todos somos keynesianos” iniciando logo em Janeiro um rol de pacotes de “estímulos” para evitar o ‘risco sistémico’ (outro palavrão a que nos habituámos); de uma ainda “provável” crise global acompanhada de uma inflação galopante até Julho dos preços das commodities, a começar pela mais sensível de elas todas para a nossa vida do dia-a-dia, o petróleo, para uma crise a sério com perigo de deflação endémica; de mero crash bolsista evoluiu-se para pânico depois da falência do Lehman Brothers a 15 de Setembro e passou-se a ouvir falar de algo esquisito, credit crunch, à letra, esmagamento do crédito, em suma, redução abrupta da disponibilidade para emprestar no e pelo sistema bancário. Resultado: todo um modo de financiamento da economia financeira e da economia real ruiu.

E quando, em pleno Verão deste ano, já nos habituávamos à crise – com coisas incríveis como a falência de um estado, a Islândia, as quedas do pedestal do ‘tigre’ europeu mais endeusado, a Irlanda, ou da construtora de automóveis (esse símbolo do século XX) mais famosa do mundo, a GM, ou o eclipsar de um grupo de notáveis que mandavam no mundo (ou julgavam que mandavam), o G7 – eis que a Goldman Sachs nos vem dizer que a euforia bolsista está de volta, que o crash terminou (o segundo maior da história do Dow Jones segundo as estatísticas), e os políticos juntam a voz a animar-nos que já batemos no fundo, a recessão já passou.

Suspiremos, então, de alívio – antes que os aborrecidos dos pessimistas nos venham dizer que pode haver uma recaída económica, que a bolsa pode apenas estar a viver uma corrida repentina, e que o pior em termos de economia real (falências em série), impacto social (desemprego de longa duração) e monetário (colapso do dólar) ainda está para se sentir.

Mas antes que tudo passe sem termos tempo para parar para pensar, convirá, neste aniversário, alinhar três primeiras hipóteses de conclusões sobre estes dois anos.

1- A vingança do mercado sobre a teoria da “grande moderação”

Durante vinte anos os teóricos da economia convenceram-nos que vivíamos num “mercado eficiente” (de qualquer modo, tinham-lhe colado a etiqueta de “hipótese”—no economês técnico, Efficient market hipothesis) e os práticos – os banqueiros centrais e os governantes – brincaram com a “fantasia” (no dizer do economista L. Randall Wray) de que a política monetária conseguiria uma “grande moderação” dos ciclos, permitindo um crescimento consistente permanente, com a minimização das recessões na economia real e dos estragos em bolsa.

No dia-a-dia, os maestros (como Alan Greenspan, o antigo presidente da Reserva Federal americana) e os homens do leme (os governantes) engendraram várias «bolhas» financeiras sucessivas desde os anos 1980, de que as mais célebres andaram em torno dos hedge funds, depois com as tecnologias digitais (a famosa onda dot-com) e finalmente com o imobiliário.

O ‘pai’ do monetarismo, Milton Friedman, um ano antes de falecer e dois anos antes de rebentar o subprime, ainda elogiava “a experiência natural” com êxito que havia sido a gestão monetária desde os anos 1990 nos EUA (e que serviu de modelo para o resto dos banqueiros centrais). O artigo no Journal of Economic Perspectives (volume 19, nº4) ainda fez furor em 2005. Na realidade, a teoria e prática da “grande moderação” tinha gerado um “consenso monetário” que dominou à direita e à esquerda governantes na OCDE.

Friedman seria poupado à vingança do mercado, que como uma mão invisível colocou um ponto final na fantasia. E essa estranha “mistura” de monetarismo e keynesianismo bastardo que nos governou soçobrou.

E Alan Greenspan, o Maestro, tentou passar como um camelo pelo buraco de uma agulha, aconselhado, aliás, por um spin doctor, o consultor de relações públicas David Dreyer. Quando foi interrogado pelo Congresso em Outubro de 2008 (já depois do choque do tsunami provocado pela falência do Lehman em Setembro), Greenspan admitiu um “erro” (que nós ingénuos ouviremos sem pestanejar): “Cometi o erro de presumir que o interesse próprio das organizações, sobretudo dos bancos e outros, era tal que seriam capazes de proteger os seus próprios accionistas e os activos das suas firmas”. Rematou que estava “chocado” com o que sucedera e concluiu com ar modesto: “Ainda não compreendi totalmente porque aconteceu”.

O presidente do Comité do Congresso, o democrata Henry Waxman, no entanto, apertou-o: “Por outras palavras, descobriu que a sua visão do mundo, a sua ideologia não estava certa. Não funcionava”. A que Greenspan, o sofrido penitente, respondeu: “Precisamente. É essa a razão, justamente, porque estou chocado, porque vivi quarenta anos ou mais com a evidência considerável de que estava a funcionar excepcionalmente bem”.

Ora este “erro” custou-nos a todos nós muito caro. É claro que beneficiou todos os que adoraram o “erro” do Maestro.

2- O capital financeiro não está imunizado

Os historiadores económicos vão recordar os últimos trinta anos como a era da ‘financeirização’ (mais um palavrão derivado do inglês financialization) ao extremo da economia mundial e em particular das economias da OCDE.

Um indicador que é usado, o do peso dos activos financeiros no PIB (financial deepening, no jargão técnico), revela que, em média, os países desenvolvidos, antes do rebentar da crise em 2007, andavam na casa dos 500%, com exageros como o da Irlanda nos 900% ou do Reino Unido ou França nos 700% – na verdade muito mais do que os EUA (o “pai” da inovação financeira nos últimos vinte anos graças aos boys da Wall Street).

Por cima das teorias económicas, emergiu, assim, uma expansão jamais vista de um sistema baseado na maximização de rendas financeiras (alguém já deu dele esta imagem: “uma enorme parada de angariadores de rendas” [Akerlof e Shiller, Animal Spirits, 2009], um sistema viciado nos fees a todos os níveis e em todos os nichos e segmentos possíveis) e um capitalismo financeiro pujante como já não se via desde os finais do século XIX e inícios do século XX quando o economista Rudolf Hilferding baptizou a nova realidade capitalista de “capital financeiro” (e deu título a um livro que desde 1910 se tornou famoso).

A memória dos super-pânicos e das grandes crises financeiras foi-se apagando (1873 foi no tempo dos nossos bisavós ou trisavós e 1929 no tempo dos nossos avós ou bisavós) e gerou-se a ideia de que o capital financeiro estava imune a crises globais. Os sinais dos anos 1980 e 1990 foram menorizados – eram coisas localizadas (ou num só país, como o Japão, ou nos desgraçados países do terceiro mundo, ou focalizados num segmento muito específico da finança como os hedge funds ou as tecnológicas).

Apenas um economista, iconoclasta, remava contra a maré. Com um nome estranho, Hyman Minsky, dizia que o capitalismo financeiro sofria do mesmo mal do capitalismo industrial (que Karl Marx havia analisado), tinha a instabilidade e a fragilidade inscrita no seu ADN. Não estava imune a crises globais e sistémicas. Assim se está a ver.

Mas Minsky (que faleceu em 1996) disse ainda outra coisa perturbadora: o capitalismo financeiro vive de se alimentar de ‘bolhas’ como os vampiros de sangue. Sempre que a oportunidade surge (nomeadamente com legislação favorável) rapidamente se adapta como uma espécie darwiniana, e renasce das cinzas.

Não admira, por isso, que, mesmo, agora, no meio do maior desencanto público em relação ao capital financeiro, ele explore o nicho de um ‘keynesianismo bastardo’ estatal (quer no Ocidente como na China) e amanhã possa reviver com a ‘bolha’ seguinte alavancada em algum sector tecnológico (já se começaram a aceitar apostas)… até que a crise financeira regresse.

3- A geopolítica está sempre a surpreender-nos

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a morte do G7 (o ‘clube’ dos sete países considerados os mais ricos do mundo, criado em 1976) ou a hipótese de contestação do papel internacional do dólar norte-americano. Esta crise trouxe como prendas geopolíticas a ascensão do G20 (o grupo de 20 países que reúne 80% da economia mundial), e em particular a afirmação política do ‘clube’ dos quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), bem como o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

A liquidação do papel do G7 (que associou a Rússia desde 1997 nas cimeiras de chefes de Estado, tendo passado a ser designado por G8) ficou particularmente visível depois da cimeira em L’Aquila, Itália, de 8 a 10 de Julho passado. Pouco depois, a 16 de Julho, em Yekaterimburgo, na Rússia, os BRIC realizariam a sua primeira cimeira oficial a pretexto da crise. A próxima cimeira está prevista para o Brasil em 2010. Em apenas oito anos, os BRIC passaram de uma criação literária da Goldman Sachs projectada como nova geografia do poder económico para depois dos anos 2020 para uma realidade política que aproveitou a oportunidade desta crise inesperada.

O mundo deixou de poder ser analisado pela lente do “unipolarismo” (a tal hegemonia a solo dos Estados Unidos reforçada desde a implosão da União Soviética) ou pela divisão entre “globalizadores” e “anti-globalizadores”. O Planeta é algo bem mais complexo.

O académico Joseph Nye ainda, recentemente, aconselhava a “ler-se” a geo-economia e a geopolítica como se fossem um jogo de xadrez tridimensional. Ao nível de topo, o poder militar (o tal hard power decisivo para a projecção de poder) entre grandes potências continua a ser unipolar (os EUA continuam, ainda, a liderar a larga distância); no patamar do meio, das relações entre grandes economias, o mundo é hoje claramente multipolar e tem-no sido desde há uma década; ao nível mais baixo, das relações transnacionais, a globalização trouxe um resultado inesperado, um poder caoticamente distribuído e difuso onde se movem múltiplos actores não-estatais.

Há dois anos atrás poucos analistas arriscariam anunciar num horizonte de curto prazo a hipótese de contestação pública do papel internacional do dólar norte-americano.

Esta crise trouxe como uma das prendas geopolíticas o início da discussão aberta sobre os riscos sistémicos ligados ao domínio actual do dólar.

O subir de tom em relação à divisa americana surgiu por ocasião da mais recente reunião (Abril 2009) do G20 (o grupo que reúne os países considerados mais ricos agrupados no G7 e um vasto grupo de países emergentes ou intermédios).

Os BRIC (o clube dos três grandes emergentes, Brasil, Índia e China, e da Rússia, a ex-superpotência procurando reemergir) juntaram a voz em relação aos riscos que o sistema financeiro mundial hoje defronta ao continuar a estar baseado no dólar desde os acordos de Bretton Woods em 1944. Esses quatro países detêm 42% das reservas internacionais, o que significa hoje em dia que uma fatia considerável das reservas mundiais está fora do G7.

A futura estrela ascendente: os SDR

Os críticos do dólar temem o colapso desta divisa e o tsunami que desencadeará e avançam com uma solução de dar mais peso progressivo no comércio internacional e no sistema financeiro mundial aos direitos especiais de saque (SDR, acrónimo para special drawing rights), uma unidade de conta do Fundo Monetário Internacional (FMI) que se baseia num cabaz de quatro divisas (44% para o dólar, 34% para o euro, 11% para o iene japonês e 11% para a libra inglesa, segundo a repartição para o quinquénio que termina em 2010).

O governador do banco central da China chegou a teorizar o assunto em Março (de 2009) provocando, momentaneamente, uma hesitação e uma gafe do novo secretário do Tesouro norte-americano escolhido pelo presidente Obama. A escorregadela do secretário americano (admitindo a hipótese chinesa como discutível) foi logo corrigida – Washington e Wall Street não estão, ainda, na onda de recuo.

O banqueiro central chinês Zhou Xiaochuan chegou mesmo a propor um “plano” de passos a tomar: o uso dos SDR na fixação de preços das commodities (que hoje estão dolarizadas); o lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; e a criação de um fundo aberto denominado em SDR.

A “lição de finanças” do governador chinês foi encarada como um testar das águas e um aviso à navegação de que a China prepara uma estratégia de fuga à armadilha do dólar em que se enredou nos últimos vinte anos.

Na cimeira do G20 de Abril passado, o FMI foi autorizado a emitir mais 250 mil milhões de dólares em novos direitos especiais de saque no sentido de aumentar as reservas daquele fundo. Vários países já anunciaram a disposição de aumentar as suas reservas no FMI, com a China na liderança, envolvendo 7,3 mil milhões de dólares, a Rússia 6,9, a Índia 4,8, o Brasil 3,5 e a Coreia do Sul 3,4. No entanto, isso dependerá da renegociação dos votos das várias grandes potências no seio do fundo. É esperado que o Japão, a China, a Índia e o Brasil aumentem o seu peso decisório.

Em contraste, a China, entre o final de 2008 e o final do Verão de 2009, segundo o grupo de consultoria francês LEAP/E2020, terá disposto de 600 mil milhões de dólares de activos denominados em dólares que aplicou em compras de activos em recursos estratégicos e empréstimos a países com acordos estratégicos um pouco por todo o mundo (exceptuando, et pour cause, os EUA) e terá abdicado de comprar obrigações do Tesouro americano na ordem dos 500 mil milhões a 1 bilião de dólares, começando a tirar o tapete aos americanos.

Situação de impasse

A situação actual é, por isso, de impasse, sublinha Jane D’Arista, uma especialista em história do sistema monetário internacional, investigadora do Political Economy Research Institute, da Universidade do Massachusetts, nos Estados Unidos.

“A incapacidade das famílias americanas continuarem a carregar o fardo de consumidor de último recurso da economia mundial, acabou efectivamente com o século do dólar”, diz a investigadora americana com algum humor. “O problema é que não há divisa que o substitua. Mas essa falência de se avançar com um novo sistema será um factor de manutenção da recessão global e de contínua vulnerabilidade a crises”, acrescenta.

Uma situação deste tipo não é nova – ocorreu nos anos 1930 com o declínio da libra esterlina. E só se resolveu com as alterações no plano geopolítico que ocorreriam nas duas décadas seguintes, recorda a investigadora num estudo que publicou recentemente no Cambridge Journal of Economics. Jane acha que a Zona Euro – que poderá ser fortemente atingida pelo colapso do dólar dada a colaterização das suas dívidas públicas – não está interessada em substituir o dólar, apesar de algumas vozes nesse sentido. “Na minha opinião, deveriam ser os próprios Estados Unidos a tomar a iniciativa da reforma do sistema”, conclui a investigadora.

O exemplo inglês vem logo à memória. Apesar da proposta de John Maynard Keynes, em representação do império britânico, ter sido derrotada em Bretton-Woods pelas manobras americanas que acabaram por impor o dólar “como Sol do sistema solar financeiro”, o famoso economista inglês foi um exemplo de tenacidade, mesmo num contexto geopolítico adverso e apesar de doente. Via Lisboa, ele viajou, desde 1941, umas seis vezes para os EUA, empolgado na sua cruzada.

Os chineses recordam hoje que, provavelmente, a proposta de Keynes de uma unidade de conta internacional (que baptizou de ‘bancor’), baseada num sistema multilateral, teria sido mais «sagaz» do que a imposição de um sistema apoiado numa divisa nacional dominante, sujeita aos ciclos e políticas dessa potência.

As quatro potências ascendentes designadas por BRIC realizaram o primeiro encontro formal de presidentes a 16 de Junho de 2009 e iniciaram uma caminhada para uma nova ordem internacional. O tema do dólar esteve em foco, mas a cimeira foi ofuscada pelos acontecimentos do Irão.

Não são ainda uma “frente” geopolítica, pois há agendas distintas (nomeadamente o G2 informal entre China e Estados Unidos), mas as quatro potências ascendentes passaram à ofensiva devido ao seu crescente peso económico e ao declínio da hegemonia americana. A Cimeira de Ecaterimburgo marcou o princípio do fim do Século Americano.

A Rússia tentou ‘cavalgar’ esta primeira cimeira dos BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China) no dia 16 de Junho bem como a reunião da Organização de Cooperação de Xangai (OCX, que envolve como membros, além da Rússia e da China, quatro outras repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão) desenhando uma jogada política anti-americana. A pressão sobre o dólar foi forte e os russos procuraram ofuscar a reunião dos ministros das finanças do G8 (onde o representante russo participara) de três dias antes na cidade de Lecce no tacão da «bota» italiana.

Mas a jogada russa parece ter sofrido dois reveses – a situação política no Irão ocupou os primeiros lugares noticiosos e retirou aos russos a possibilidade de jogar a cartada Ahmadinejad de momento; e os chineses ficaram silenciosos enquanto indianos e brasileiros manifestaram prudência na cruzada anti-dólar.

A maioridade dos quatro

As quatro potências ascendentes reuniram-se formalmente pela primeira vez numa cimeira e isso é indiscutivelmente um evento histórico e um sinal do enfraquecimento da hegemonia norte-americana no mundo. Lula da Silva declarou que as quatro potências “chegaram à maioridade”.

Mas a sua projecção mediática foi ofuscada pela crise política no Irão (o próprio presidente iraniano chegou atrasado e saiu à pressa da reunião da OCX, onde é observador) e as declarações finais ficaram aquém das expectativas criadas pela estratégia pública russa face ao dólar. Os quatro líderes tricontinentais (Eurásia, Ásia e América do Sul) reuniram-se na cidade de Ecaterimburgo (onde foi assassinada a família do último czar russo em 1918), nos Urais, tendo como anfitrião o presidente russo Dmitry Medvedev.

Não só a crise económica e financeira internacional e as questões geopolíticas mais ‘quentes’ da actualidade na geografia do planeta (Coreia do Norte, Médio Oriente, Irão, Afeganistão-Paquistão) foram abordadas, como certamente os temas não explicitamente referidos publicamente, como a questão da estratégia para a cimeira do G20 em Pittsburgo, nos Estados Unidos, a 24 e 25 de Setembro, a recomposição das instituições multilaterais herdadas de Bretton Woods (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial nomeadamente) e do Conselho de Segurança (onde a Índia e o Brasil não têm assento permanente). Espera-se, também, que este G4 pressione a próxima cimeira do G8 (onde, recorde-se, a Rússia tem acento) na Itália de 8 a 10 de Julho organizada por Sílvio Berlusconi.

A estratégia face ao dólar desembocou na criação de um grupo de trabalho reunindo os ministros das Finanças e os responsáveis dos bancos centrais das quatro potências BRIC, bem como um outro grupo de trabalho no âmbito da OCX no sentido de analisar a viabilidade de uma divisa supranacional naquele espaço euro-asiático, do tipo da unidade de conta usada na Europa antes do euro. O tema da reabertura das negociações da Ronda de Doha, no âmbito da Organização Mundial do Comércio, foi levantado por Lula da Silva, mas não se conhece tomada de posição pública sobre o assunto por parte desta cimeira.

Um dilema complexo

Os BRIC detêm uma arma de dois gumes. Por um lado, são os principais financiadores do Estado americano, com 1/3 dos títulos do Tesouro americano e no espaço de um ano (de Abril de 2008 na Abril de 2009) a China aumentou inclusive a sua posição em 52% e a própria Rússia em 128%. No conjunto, os quatro países possuem, também, 41% das reservas cambiais do mundo, em que o dólar tem um peso dominante.

Por isso, o assunto da “diversificação” do portefólio financeiro destes países tem de ser tratado com pinças para evitar um colapso do dólar (que, também, os prejudicaria seriamente) e uma bancarrota americana que coloque o mundo perante um «vazio» geopolítico. A preocupação com a gestão geopolítica deste dilema foi particularmente visível pelo “silêncio chinês” sobre as matérias mais controversas desta cimeira, como refere o analista Ian Bremmer, do Euroasiagroup nova-iorquino, e a prudência da Índia e do Brasil, muito salientada pelos media indianos por exemplo. O presidente brasileiro falou de um processo “por etapas”.

Uma das direcções consensuais de diminuição ‘controlada’ do peso do dólar – já ensaiada aquando da cimeira do G20 em Londres por russos e chineses – respeita a um estratégia dirigida para o reforço do papel dos direitos de saque especiais no quadro do Fundo Monetário Internacional e para o alargamento do cabaz que os suporta. Um dos assessores de Medvedev, Arkady Dvorkovich, adiantou que tal cabaz deveria passar a incluir o yuan chinês, o rublo, os dólares canadiano e australiano, e o ouro. Actualmente, o cabaz conta, apenas, com as moedas do sistema financeiro dominado pelo G7 (dólar, euro, iene japonês e libra esterlina inglesa). Uma revisão deste cabaz está prevista para ser discutida em Novembro do próximo ano, pelo que estes movimentos deverão ser entendidos neste jogo de forças.

Outra direcção, sublinhada pelo analista indiano Ashutosh Sheshabalaya, é o facto de haver alguma “complementaridade” nas especializações dos BRIC, o que lhes permitirá desenvolver relações comerciais mútuas, sobretudo nas áreas de commodities, tecnologia militar, energia e mesmo serviços, que “continuam a usar o dólar mas de um modo modificado”. Lula da Silva frisou que o comércio entre estes quatro países aumentou 500% desde 2003. Dito de um modo simplificado – duas das potências são bases mundiais de manufactura (China e Índia) e as outras duas são fornecedores de recursos estratégicos (Rússia e Brasil).

Entretanto, no âmbito da OCX, a Rússia e a China lançaram um Fundo regional de crédito de 17,5 mil milhões de dólares para apoiar a luta anti-crise nos associados da Ásia Central. Em Fevereiro, Moscovo tinha anunciado colocar 7,5 mil milhões nesse fundo e, agora, o presidente Hu Jintao adicionou 10 mil milhões.

Radiografia dos BRIC
Os BRIC, designação criada pela Goldman Sachs, abrange as quatro potências ascendentes (Brasil. Rússia, Índia e China, por ordem do acrónimo) fora do grupo dos chamados ‘ricos’ (o G7, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). Albergam 41% da população mundial, com a China e a Índia bem destacados com mais de mil milhões de habitantes. E espalham-se por 25% do planeta.

Eles representavam no final do ano passado 22% da riqueza mundial (avaliada em paridade de poder de compra), mais do que a União Europeia (21%) ou os Estados Unidos (20,7%). Detém 41% das reservas mundiais cambiais, com a China (incluindo Hong Kong e Macau) liderando com mais de 2160 mil milhões de dólares, um valor que se distancia do Japão, o número dois, que se situa em pouco mais de 1000 mil milhões. E dominam 33% (mais de 1060 mil milhões de dólares) dos títulos do Tesouro norte-americano detidos por estrangeiros (segundo dados de final de Abril de 2009), com a China liderando a lista (cerca de 23%, com 764 mil milhões de dólares num total de cerca de 3300 mil milhões detidos por estrangeiros, estando à frente do Japão).

O desajustamento do G7 (que representa, contudo, 38% da riqueza mundial) é hoje flagrante em relação à realidade do peso dos BRIC (22%), tendo apenas integrado a Rússia no quadro de um G8. Mesmo do ponto de vista da realidade “ocidental”, o G7 está desajustado, pois a Espanha ou a Coreia do Sul têm hoje um PIB em paridade de poder de compra superior ao do Canadá.

O grupo dos quatro BRIC representou, também, 65% do crescimento mundial até ao momento de desencadeamento da recessão actual. Foram, por isso, o motor da economia mundial.

A próxima cimeira dos BRIC realizar-se-á no Brasil em 2010. Esta estrutura veio certamente para ficar. Uma sondagem online no China Daily revelava dia 16 de Junho (dia da cimeira) que 65% dos votantes acreditam que este esboço de frente se institucionalizará.

Radiografia da OCX

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX) foi fundada em 2001 pelos seis países referidos e procura atrair um leque mais amplo em toda a Ásia-Pacífico, incluindo como observadores a Índia, o Irão (que a Rússia tem apadrinhado para uma entrada como membro, defrontando a resistência da China), a Mongólia e o Paquistão. Nesta reunião de Junho esteve também presente como convidado o Afeganistão.

A OCX pretende ser um modelo de cooperação geopolítica no espaço Euro-Asiático, ainda que não se assuma como desafiador directo da NATO ou mesmo do eixo da Ásia-Pacífico entre os Estados Unidos, Japão, Austrália e Coreia do Sul.

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