Seg 18 Fev 2013
12 e 13 de fevereiro — A Nato económica do Ocidente — golpe estratégico ou má opção para a geometria variável que se requer?– diário de bordo 706
Por JNR na secção A questão dos impérios , Ciberardina na crise (do default) , crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económicaainda sem comentários
Obama quer “NATO” económica com Bruxelas — No discurso do Estado da Nação proferido a 12 de fevereiro, o presidente norte-americano, no início do seu segundo mandato, quer chegar a um acordo com a União Europeia para uma zona de comércio livre. É o seu “plano” para relançar a economia ocidental. Bruxelas confirmou a 13 de fevereiro
O presidente Obama, no início do seu segundo mandato, colocou como objetivo geopolítico a criação de uma zona de comércio livre entre os Estados Unidos e a União Europeia, parceria que designou como “Transatlantic Trade and Investment Partnership” (TTIP). Disse-o, ontem, no discurso anual sobre o “Estado da Nação”.
Na última cimeira europeia a ideia foi apoiada, tendo como maiores entusiastas o primeiro-ministro britânico e a chanceler alemã. Faltava o sinal político público de Obama, entretanto reeleito. A chanceler alemã Ângela Merkel, em 2006, havia defendido esta ideia. Em 1998, foi Leon Brittan, mais tarde barão britânico, quando Comissário Europeu do Comércio e dos Assuntos Externos, que defendeu a iniciativa de uma Zona de Comércio Livre deste tipo, então batizada de Tafta (Trans-atlantic free-trade area), que teve oposição da França.
O presidente norte-americano e alguns líderes europeus pretendem com essa iniciativa entre os dois lados do Atlântico criar uma dinâmica de impulsionamento da economia ocidental face à sua perda de peso na economia mundial e no comércio internacional. A nova parceria aproveitaria a oportunidade do marcar de passo da iniciativa Trans-Pacific Partnership.
Alguns analistas já alcunharam a TTIP de “NATO” económica. Alguns já a batizaram do começo dos “Estados Unidos do Ocidente”. A média das tarifas existentes no comércio entre os dois lados anda nos 3%, mas, em alguns sectores protegidos, a barreira alfandegária chega aos 20%.
O efeito desta decisão, no entender de especialistas em geopolítica, é martelar mais um prego na Ronda de Doha. O propósito da Organização Mundial do Comércio de promover uma plataforma multilateral tem marcado passo e com este tipo de movimentos geoestratégicos caminha para a sua morte. A opção pelos acordos bilaterais e regionais tem proliferado. Com esta decisão dos EUA e da Europa, “um mau exemplo foi dado”, avisou no “Die Welt” Rolf Langhammer, do Institut for the World Economy, em Kiel, na Alemanha. Passa-se a um acordo entre os dois maiores blocos económicos, susceptivel de discriminar o resto do mundo. Para a Europa, diz Langhammer, poderá prejudicar as suas relações com as ecoomias emergentes.
Obama em Berlim em junho
A decisão foi hoje confirmada por Bruxelas. Obama visitará Berlim em junho onde deverá fazer do tema uma questão geopolítica central. A mensagem para os europeus é esta: os EUA continuam estrategicamente interessados numa relação especial com a Europa, apesar da sua viragem progressiva evidente para a Ásia e o Pacífico. Contudo, a Ásia é um vespeiro de graves problemas com diversas grandes potências com temas de atrito diversos. A “NATO” económica agradará à corrente atlantista. O que está em jogo é, por isso, mais do que os ganhos comerciais, alegam alguns analistas.
A Comissão Europeia calcula um ganho anual de meio ponto percentual no PIB da União Europeia se tal zona for criada e a Câmara de Comércio norte-americana fala num ganho de 1,5 pontos percentuais no PIB dos dois lados do Atlântico.
Os dossiês mais difíceis nesta negociação serão o agrícola, dos serviços e do acesso aos mercados públicos, onde há lóbis poderosos dos dois lados do oceano. O dossiê mais ganhador parece ser o do sector automóvel (que é um dos motores de crescimento do comércio transatlântico, onde a eliminação de barreiras alfandegárias poderá reduzir os custos em 15%)