Seg 6 Fev 2012
3 de junho: Balanço de uma descida no risco e nos juros (interrogação sobre a tendência) — diário de bordo 542
Por JNR na secção A diferença portuguesa , Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do riscoainda sem comentários
Acto I: Pelo quarto dia consecutivo, as yields (juros) das obrigações do Tesouro português caíram no mercado secundário. Os níveis dos juros regressaram esta sexta-feira aos valores de meados de janeiro.
Depois do disparo dos juros na segunda-feira (30 de janeiro), que levou à fixação de máximos históricos desde a adesão ao euro, a tendência inverteu-se, apesar da imprevisibilidade do que vai acontecer na Grécia nos próximos dias, o que implicou inclusive o adiamento da reunião do Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro) prevista para a próxima segunda-feira (6 de fevereiro).
Os juros desceram sexta-feira mais de 9% em todas as maturidades em relação aos valores de fecho de ontem, segundo dados da Bloomberg.
Comparando com os picos atingidos na segunda-feira, as quebras foram de 26% nos juros das OT a 3 anos, 25% no caso dos juros das OT a 2 anos, 24% no caso das OT dos juros a 6 anos, e 23% nos casos dos juros das OT a 5 e 10 anos.
Os juros das OT a 2 anos caíram de 21,06% na segunda-feira para 15,82% no fecho de sexta-feira. No caso dos juros das OT a 3 anos a quebra foi de 24,48% (o valor mais elevado em todas as maturidades) para 18,18%, no mesmo período. Para os juros das OT a 5 anos a evolução durante a semana foi de 22,87% para 17,51%; para as OT a 6 anos, os juros desceram de 22,87% para 17,43%; e para as OT a 10 anos, desceram de 17,39% para 13,42%.
Apesar da descida, a diferença para com a Irlanda – outro país da zona euro com plano de resgate da troika – continua abissal. Os juros dos títulos irlandeses estão nos seguintes níveis: 4,64% para prazos a 2 anos; 5,34% para prazos a 3 anos; 5,67% para prazos a 5 anos; 7,03% para prazos a 9 anos (os títulos a 10 anos não têm estado a ser transacionados desde 11 de outubro de 2011).
Dissociação da dinâmica grega?
Os investidores no mercado secundário parecem ter-se inclinado, depois do disparo de segunda-feira, para uma “dissociação” da situação da dívida portuguesa em relação à evolução das negociações da reestruturação parcial da dívida grega.
No entanto, muitos analistas continuam a insistir que haverá “efeito dominó” das decisões sobre a questão grega, bem como prováveis orientações futuras derivadas do ensaio de soluções quer de participação de credores privados (o famoso PSI), bem como de credores públicos (segundo agora se alega, havendo já mais um acrónimo, OSI, para official sector involvement), nomeadamente o Banco Central Europeu. “Ficou aparente que há um buraco de financiamento [no caso grego] que terá de ser preenchido; a forma como isso é feito está a ser altamente controversa e terá implicações para os outros periféricos (leia-se Portugal)”, escreve hoje a Markit.
Desde que a agência de notação Moody’s falou da “morte lenta” da Grécia e de Portugal em janeiro de 2010 que o comportamento dos juros das obrigações do Tesouro português (OT) no mercado secundário e o risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa manifestaram um padrão de oscilações em função do que ocorria com a Grécia.
Mais recentemente, desde que o processo de renegociação parcial da dívida grega se iniciou em julho de 2011, por decisão de uma cimeira europeia, a “ligação” entre a Grécia e Portugal reforçou-se. Quando a Moody’s, em julho de 2011, baixou a notação da dívida portuguesa para “especulativa”, o argumento apontava para que a metodologia de envolvimento dos credores privados na reestruturação grega se tornará um requisito adicional para eventual novo plano de resgate a Portugal em 2013.
“Portugal não foi principalmente julgado na base dos seus dados fundamentais”, conclui um estudo recente do Banco Central Europeu, da autoria de Roberto A. De Santis (“The Euro Area sovereign debt crisis”, Working Paper, nº 1419, fevereiro de 2012).
Esta semana, David Riley, chefe da unidade de análise da dívida soberana da agência de notação Fitch, disse em Nova Iorque que “o governo [português] está empenhado e é credível”. Acrescentou que a estratégia seguida de trocar dívida por activos “é a certa” e que no curto prazo não encara Portugal como tendo um “risco significativo para o resto da zona euro”. No entanto, a Fitch tem a dívida portuguesa classificada como “especulativa”.
Outros analistas recordam que, além dos efeitos de contágio, há características fundamentais comuns “erradas” entre os “periféricos” e alguns países do próprio “centro” da zona euro: o modelo económico ligado à financeirização dos últimos vinte anos e o desajustamento do tecido económico face à nova vaga de globalização. Aspetos fundamentais que não se eclipsam por milagre em semanas.
Resta averiguar se a “dissociação” entre Portugal e Grécia realmente fará escola daqui para o futuro, ou se a volatilidade regressa às yields das OT no mercado secundário. As próximas semanas o dirão.
Acto II: A probabilidade de um incumprimento da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos desceu para 65,14% no fecho da semana, depois de ter atingido um máximo de 73,32% na segunda-feira, 30 de janeiro, segundo dados da CMA DataVision. Trata-se de uma contração de oito pontos percentuais.
O nível de risco regressou ao nível de 18 de janeiro. A distância em relação à Grécia ampliou-se. Também o preço dos seguros contra o risco de incumprimento (credit default swaps) baixou de 1554,69 pontos base na segunda-feira, um máximo, para 1240,15 pontos base.
No entanto, este nível elevado de risco mantém Portugal na segunda posição no TOP 10 de países com mais alta probabilidade de incumprimento no mundo, logo a seguir à Grécia que está com um nível de risco de 85,75%, próximo de uma situação de default iminente.
A distância de Portugal em relação ao Paquistão, que está em terceiro lugar naquele TOP 10, é de 20 pontos percentuais e em relação à Irlanda (outro país da zona euro com plano de resgate da troika, e que está em 7º lugar naquele “clube”) é de 26 pontos percentuais. São diferenças muito acentuadas.
Apesar de um movimento geral de abrandamento do risco de incumprimento entre os “periféricos” da zona euro, refira-se que, sexta-feira, segundo dados da Bloomberg, as yields (juros) dos títulos do Departamento do Tesouro italiano e das obrigações espanholas estiveram a subir em todas as maturidades no mercado secundário.
Também os juros dos títulos belgas e austríacos subiram. No entanto, mesmo nos casos italiano e espanhol, os juros estão abaixo de níveis críticos – no caso dos títulos a 10 anos, os juros estão abaixo de 6% para o caso italiano e abaixo de 5% para o caso espanhol. Longe do limiar crítico dos 7%.
Mudança mundial na apreciação do risco da dívida
Refira-se que ocorreu uma mudança importante na avaliação do risco de incumprimento no mundo nos últimos três anos. A viragem deu-se com a crise da dívida na Europa, que começou por se desenvolver na Islândia em final de 2008 e na Irlanda em fevereiro de 2009 e que depois alastrou à Grécia em final de 2009 e a Portugal em 2010. Esta mudança na perceção dos investidores internacionais deixa muitos leitores e analistas perplexos pelo facto de estarem habituados a associar risco de bancarrota a países em desenvolvimento ou emergentes.
O TOP 10, outrora ocupado integralmente por países emergentes ou em desenvolvimento, foi invadido por países considerados desenvolvidos, como aconteceria com a Islândia (que entretanto saiu), Grécia (que viria a ultrapassar a Venezuela, Paquistão, Argentina e Ucrânia) que alcançou o 1º lugar, Irlanda (que desceu para a 7ª posição, depois de ter estado numa situação pior do que a portuguesa), Portugal (que acabaria por subir para o 2º lugar), Espanha (que entretanto saiu) e Itália (que foi o último a chegar a esta galeria e que permanece em 10º lugar, apesar do risco ter baixado de 37,58% em 6 de janeiro para 28,40% no fecho de hoje).