Dom 17 Jun 2012
O filme da crise espanhola – III – The Week After (11 a 15 de junho) — diário de bordo 620
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , criseainda sem comentários
Acto I (11 de junho) — A primeira reação… positiva (pela manhãzinha).
A abertura esta segunda-feira dos mercados da dívida aponta para uma tendência de descida nos países “periféricos” da zona euro.
A reação ao megarresgate da banca espanhola – um teto de empréstimos europeus que poderá chegar aos 100 mil milhões de euros, mais do que o resgate a Portugal ou à Irlanda – foi positiva no início do dia.
Trata-se, no entanto, da primeira reação. Dado o comportamento volátil nestes mercados, a tendência de abertura poderá não ser a que vai acabar por predominar ao longo do dia.
As yields (juros) dos títulos soberanos de Espanha (o país resgatado de um modo distinto dos anteriores) e Itália estão claramente em queda em todos os prazos, segundo dados da Bloomberg para o início da sessão.
No caso das obrigações espanholas a 10 anos, os juros desceram para próximo dos 6% e quanto aos títulos do Tesouro italiano no mesmo prazo caíram para 5,65%.
Quanto às obrigações do Tesouro (OT) português, os juros estão a descer para os prazos a 2, a 3 e a 5 anos, e a subir ligeiramente no prazo a 10 anos. De sublinhar, o comportamento nos juros das OT a 2 e a 3 anos, que continuam a descer no patamar dos 9%, como já ocorrera na sexta-feira.
Em compensação os juros das obrigações francesas e dos Bunds, títulos alemães, estão em alta. Nicolas Barre, no jornal francês Les Echos, e Hugo Muller-Vogg, no diário alemão de grande tiragem Bild, comentam que serão a França e a Alemanha a pagar a fatura mais pesada deste megaresgate à banca espanhola.
A probabilidade de incumprimento das dívidas soberanas dos seis “periféricos” – Grécia, Chipre, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália – abriu a descer, segundo dados da CMA DataVision.
A descida do risco é mais acentuada nos casos de Espanha (que já se reduziu em mais de um ponto percentual) e de Itália. No caso do risco da dívida portuguesa desceu de 59,47%, no valor de fecho de sexta-feira, para 58,56%, acentuando a tendência de redução já observada na sexta-feira.
Também o custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) relacionados com a dívida dos bancos europeus – quer da zona euro como britânicos – abriu em redução significativa, segundo dados da CMA DataVision.
Como cautela — No entanto, só ao final do dia será possível realizar um balanço efetivo do “dia seguinte” ao mega resgate, sobretudo nos casos dos juros dos títulos espanhóis e italianos. O escrutínio do comportamento dos juros dos títulos do Tesouro italiano é particularmente importante, dado que, para muitos analistas, a Itália é o “periférico” que se segue na dinâmica de resgates.
Acto II (11 de junho, a partir de meio da manhã) — A Reviravolta: mercados da dívida votam contra.
O megarresgate à banca espanhola não aparenta ser o passeio tranquilo que Mariano Rajoy previa. Depois de uma reação inicial positiva, os mercados da dívida mudaram de opinião a meio da manhã. A reviravolta aconteceu.
As yields (juros) das obrigações espanholas (OE) regressaram às subidas em todos os prazos no mercado secundário. Os juros das OE a 10 anos subiram para 6,41%, depois de terem estado, nas primeiras duas horas do dia, perto de 6%, segundo dados da Bloomberg. No caso dos juros das OE a 2 anos estiveram a baixar para os 4%, mas depois inverteram a tendência, e estão, ao final da manhã, em 4,45%.
Esta reviravolta em relação a Espanha contagiou, de imediato, Itália. Os juros dos títulos italianos (BTP) estão, também, em alta, depois de terem aberto em baixa. Os juros dos BTP a 10 anos subiram para 6,01%, ao final da manhã.
Espanha sobe ao 9º lugar do clube do incumprimento
Os prémios de risco – diferencial em relação aos juros a 10 anos dos Bunds alemães – subiram significativamente em poucas horas para Espanha e Itália. O prémio de risco para a dívida espanhola subiu de 4,62 pontos percentuais para 5,09 pontos percentuais ao final da manhã. No caso de Itália, a subida foi de 4,22 pontos percentuais para 4,66.
A reviravolta nos juros no mercado secundário da dívida provocou uma mudança radical no risco de incumprimento num horizonte de cinco anos para a dívida espanhola, segundo dados da CMA DataVision para as 12h30.
A probabilidade de incumprimento da dívida espanhola que havia descido para 38,03%, subiu, ao final da manhã, para 38,76%, e Espanha “ultrapassou” o estado norte-americano do Illinois no “clube” dos candidatos a uma bancarrota. Espanha subiu para a 9ª posição.
Mantém-se a tendência de subida nas obrigações francesas e nos Bunds alemães.
Portugal escapou de manhã
Portugal escapa a esta volatilidade. Os juros das obrigações do Tesouro (OT) em todos os prazos estão em baixa. Os juros das OT a 2 anos estão em 9,12% e das OT a 10 anos em 10,49%, com quebras significativas intradiárias.
O prémio de risco da dívida portuguesa continua a descer, estando em 9,19 pontos percentuais.
A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa continua a baixar. Tendo iniciado o dia em 58,56% desceu para 58,43%, ao contrário do que aconteceu com Espanha, segundo dados da CMA DataVision para as 12H30.
Também, a probabilidade de incumprimento da dívida irlandesa continua a descer, situando-se em 43,19%.
O “clube” dos candidatos à bancarrota alberga cinco membros da zona euro: Grécia, que lidera (com 93%, havendo o risco de um segundo evento de crédito depois das eleições de 17 de junho, na percepção dos investidores), seguida do Chipre (com 74% de risco, tendo já sido anunciado pelo governo que poderá pedir um resgate a Bruxelas), depois Portugal em 4º lugar, Irlanda na 8ª posição e Espanha no 9º lugar. Itália com quase 36% está fora do “clube”. Falta-lhe dois pontos percentuais para “apanhar” Illinois.
Acto III (11 de junho) — Balanço no fecho: NÃO categórico ao triunfalismo de Rajoy
O dia de hoje no mercado secundário foi singular: revelou uma reviravolta inesperada. As yields (juros) das obrigações espanholas (OE) abriram a descer, refletindo um sentimento de satisfação com a “linha de crédito” europeia de 100 mil milhões de euros para a recapitalização da banca espanhola decidida pelo Eurogrupo no sábado, mas, duas horas depois, davam uma pirueta e iniciavam um processo de forte subida.
Os juros das OE subiram em todos os prazos, com destaque para o prazo a 10 anos que fechou com juros em 6,51%, segundo dados da Bloomberg. Um valor abaixo, no entanto, do pico de 25 de novembro de 2011, quando os juros fecharam em 6,7%, ou mesmo do valor mais elevado, até à data, durante este ano, ocorrido a 30 de maio quando fecharam em 6,66%.
Este stresse nos títulos espanhóis contagiou os títulos do Tesouro italiano (BTP). Espanha e Itália andaram hoje a par no padrão de comportamento dos investidores no mercado secundário. A subida dos juros das OE foi seguida a par e passo pelos juros dos BTP, com o prazo a 10 anos a fechar com juros de 6,03%.
A pressão sofrida no mercado secundário de títulos refletiu-se na probabilidade de entrada em incumprimento destas duas dívidas num horizonte de cinco anos. O risco de entrada em bancarrota de Espanha subiu para 39,84% e o de Itália para 37,75%, segundo dados da CMA DataVision para o fecho de hoje. O custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) subiu para perto de 600 pontos base, no caso de Espanha. O máximo está em 608,3 pontos base verificado no fecho de 5 de junho. Espanha subiu hoje para o 9º lugar no “clube” dos 10 candidatos a uma bancarrita.
O prémio de risco da dívida espanhola em relação à alemã – o diferencial entre os juros das obrigações espanholas e dos Bunds alemães no prazo a 10 anos, que serve de referência – subiu para 5,20 pontos percentuais. No caso da dívid italiamo, o prémio de risco subiu para 4,73 pontos percentuais.
Portugal fora do contágio
Os juros das obrigações do Tesouro português não foram contagiados pelo stresse que ocorreu com Espanha e Itália.
Continuaram a tendência de descida da semana passada, tendo fechado em 9,24% e 9,19% para os prazos a 2 e a 3 anos respetivamente, e em 10,67% para o prazo a 10 anos.
São valores, ainda, elevados se comparados, por exemplo, com os já verificados para a Irlanda, outro país resgatado, com juros no prazo a 2 anos em 6,43% e no prazo a 9 anos em 7,24% (os títulos a 10 anos não têm estado em negociação desde outubro do ano passado).
Também a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos continuou a baixar, apesar de ter subido significativamente nos casos de Espanha e Itália. O risco de bancarrota portuguesa fechou em 58,75%, contra 59,47% na sexta-feira passada, segundo dados da CMA DataVision. Portugal conserva o 4º lugar no “clube” mundial do incumprimento. O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à alemã desceu para 9,36 pontos percentuais, um nível ainda muito elevado, mas que tem estado em descida.
A avaliação da capacidade de resistência da dívida portuguesa ao contágio de Espanha será um dos elementos centrais desta semana.
Acto IV (12 de junho) — Escalada para os 7% começa.
A pressão sobre o mercado da dívida espanhola prossegue, depois do anúncio no sábado de um pedido formal de resgate para o sector bancário por parte do governo de Mariano Rajoy. As yields (juros) das obrigações espanholas (OE) no prazo a 10 anos fecharam hoje, no mercado secundário, em 6,705%, depois de terem subido até 6,83%, segundo dados da Bloomberg.
Estes juros no prazo a 10 anos fixaram um novo máximo histórico desde a adesão ao euro. O anterior máximo ocorreu a 30 de maio com o valor de fecho em 6,656%. Os juros fecharam a subir em todos os prazos das OE.
Um comentário da Bloomberg apontava hoje para o risco do mercado de financiamento privado da dívida soberana se fechar no caso de Espanha. O Tesouro espanhol ainda tem de emitir 82,5 mil milhões de euros em dívida pública até final do ano. Há que adicionar mais 15,7 mil milhões de euros em títulos que vencem para as autonomias no 2º semestre do ano. Ultimamente têm sido os bancos espanhóis que têm acorrido às emissões de dívida do Tesouro. Por outro lado, o Banco Central Europeu não tem actuado no mercado secundário através do seu programa de compra de títulos conhecido pela sigla SMP.
Portugal e Irlanda fora do contágio
O efeito de contágio mais forte sente-se na dívida italiana (cujos juros dos títulos do Tesouro a 10 anos fecharam em 6,17% tendo chegado a 6,30%). As obrigações francesas e os Bunds, títulos alemães, no prazo a 10 anos continuam, também, pressionados, mantendo uma tendência altista forte, havendo a noção que esses dois países são o suporte financeiro dos resgates na zona euro.
Portugal e a Irlanda continuam a “escapar” ao contágio, em larga medida. Os juros das obrigações do Tesouro (OT) português fecharam em baixa em todos os prazos. Os juros das OT a 10 anos desceram para 10,61%. E os juros dos títulos irlandeses desceram nos prazos a 2 e 5 anos.
Acto V (13 de junho) — Prossegue…
As yields (juros) das obrigações espanholas (OE) a 10 anos no mercado secundário fecharam em 6,75%, acima do valor do dia anterior, fixando um novo máximo histórico desde a adesão ao euro, segundo dados da Bloomberg.
Todos os prazos das OE viram os juros subir. Permanece, entre os investidores na dívida, a desconfiança sobre os moldes e consequências do resgate até 100 mil milhões de euros da banca espanhola por parte da troika.
Dois cortes de notação num só dia
Hoje foi mais um dia aziago para Espanha: duas agências de notação cortaram o rating da sua dívida – a Moody’s que baixou a notação para um nível acima de terreno especulativo (vulgo “lixo financeiro”), de A3 para Baa3 (que equivale a BBB- na classificação da Fitch e da Standard & Poor’s), e a Egan-Jones que cortou a notação para o nível de probabilidade de default, de B para CCC+, com perspectiva negativa.
Há dois dias a Standard & Poor’s havia mantido a notação de Espanha em BBB+ (dois níveis acima da classificação, agora, dada pela Moody’s). A Fitch cortou a notação de Espanha no início de junho para BBB, apenas dois níveis acima de dívida especulativa, um nível acima da classificação dada hoje pela Moody’s.
A Egan Jones agravou hoje a avaliação do risco de incumprimento de Espanha no prazo de 1 ano de 15% para 18%. Esta avaliação da probabilidade de incumprimento é diferente da avançada pela CMA DataVision, cujo horizonte é de cinco anos. Neste último caso, o risco baixou hoje ligeiramente para 39,98%; ontem havia fechado em 40,30%.
Os principais “contagiados”
O principal contagiado pela crise espanhola é a Itália, cujo comportamento dos juros dos títulos do Tesouro (BTP) está sincronizado com o stresse sobre os juros das obrigações espanholas.
Os juros dos BTP subiram em todos os prazos, com o prazo a 10 anos a fechar em 6,22%, segundo dados da Bloomberg. A confirmar o encarecimento do crédito para Roma, o leilão de dívida que o Tesouro italiano levou hoje a cabo no prazo a 12 meses saldou-se pela arrecadação de 6,5 mil milhões de euros, mas o juro médio a pagar pelo estado italiano fixou-se em 3,972% contra 2,34% na operação similar anterior. Uma diferença muito significativa.
Um outro “contagiado”, insuspeito, é a Alemanha. Os juros dos Bunds, os títulos alemães, têm estado a subir esta semana, com uma variação diária ainda maior ocorrida hoje. Os juros dos Bunds no prazo a 2 anos subiram de 0,095% para 0,126%. A variação foi de mais de 32%, apesar de se tratarem de valores nominais extremamente baixos próximos de 0%. No caso dos juros dos Bunds a 10 anos, a subida foi de 1,41% para 1,51%.
Portugal regressa ao 3º lugar
Portugal continua a conseguir passar, no essencial, pelos pingos da tempestade que assola Espanha no mercado secundário.
Os juros das obrigações do Tesouro (OT) subiram ligeiramente nos prazos a 2, a 3 e a 10 anos, e desceram a 5 anos. O comportamento dos juros das OT depois do anúncio do resgate à banca espanhola no passado fim-de-semana foi de manutenção da tendência de descida que já se observava antes, tendo escapado ao contágio nos dias seguintes ao “choque” dos 100 mil milhões.
A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa subiu hoje ligeiramente, tendo fechado em 57,98%, segundo dados da CMA DataVision. Em virtude da descida do risco da Argentina, Portugal voltou a subir para o 3º lugar do “clube” dos candidatos a um incumprimento num horizonte de cinco anos.
Até que ponto Portugal conseguirá manter-se fora do contágio da crise espanhola é um aspecto a seguir de perto.
Acto VI (14 de junho, manhãzinha, na abertura) — … e prossegue …
Os mercados da dívida continuam a sinalizar a nova fase da crise da dívida soberana dos países “periféricos” da zona euro, em que grandes economias membros da zona monetária única passaram a estar no centro da tempestade financeira.
Espanha e Itália, respetivamente a quarta e a terceira economias da zona euro, aproximam-se da zona vermelha em que os mercados privados de financiamento das dívidas se poderão fechar.
As yields (juros) das obrigações espanholas a 10 anos, no mercado secundário da dívida, prosseguem a aproximação à barreira dos 7%. Hoje abriram, a subir, em 6,83%, e situavam-se há minutos em 6,86%, segundo dados da Bloomberg. Por outro lado, os juros dos títulos do Tesouro italiano no mesmo prazo abriram em 6,26% e situam-se em 6,25%.
Comparando com sexta-feira passada, antes do anúncio formal pelo governo de Madrid da intenção de solicitar a Bruxelas uma linha de crédito de resgate da banca espanhola, os juros subiram de 6,21% para o atual patamar dos 6,8% no caso de Espanha e de 5,77% para o atual nível de 6,2% no caso de Itália. O efeito do resgate “suave” (como foi apelidado) e focalizado (num só sector, o bancário) em Espanha e do desenvolvimento, segundo muitos analistas, de uma crise política em Itália, é evidente no mercado secundário da dívida. Ontem Mário Monti, o primeiro-ministro “tecnocrata” de Itália, fez um apelo dramático no Parlamento.
Não há sinais de que o Banco Central Europeu tenha reativado o seu programa de compra de títulos soberanos no mercado secundário, conhecido pela sigla SMP.
O corte de notação da dívida espanhola, ao final do dia de ontem, por duas agências de rating – a Egan-Jones e a Moody’s – está a influenciar o sentimento nos mercados. Os argumentos das duas agências são similares – o aumento do peso da dívida no PIB para níveis acima de 90% em 2013 se se concretizar o resgate convergindo com um declínio do crescimento e uma subida do “buraco” nos encargos do Estado no terreno social e nos juros. O “buraco” é calculado pela Egan-Jones em 85 mil milhões de euros por ano (50% do PIB português em 2011).
Por seu lado, a Moody’s alerta para a probabilidade do fecho dos mercados internacionais ao financiamento da dívida espanhola e a progressiva dependência de Madrid da compra pelos bancos domésticos das emissões de dívida, compra essa que depende do recurso por esses bancos às operações de liquidez por parte do Banco Central Europeu (BCE).
O Banco de Espanha divulgou que o saldo em dívida ao BCE por parte das entidades bancárias espanholas subiu para 287 mil milhões de euros em maio, mais 9,2% do que em abril, e apontando para um novo máximo histórico. O financiamento líquido concedido em maio pelo eurosistema aos bancos espanhóis representou 82,9% do total da zona euro.
A probabilidade de incumprimento da dívida espanhola num horizonte de cinco anos subiu, de novo, acima de 40%, na abertura do mercado, segundo dados da CMA DataVision. O mesmo movimento se observa no caso de Itália, com o risco a subir para perto de 38%.
Acto VII (14 de junho, ainda de manhã) — Finalmente nos 7,003% (diz a Reuters).
As yields (juros) das obrigações espanholas no prazo a 10 anos já negociaram acima dos 7% (7,003%) no mercado secundário, segundo dados da Reuters. Para dados da Bloomberg, o máximo já antigido foi de 6,998%. De momento, estão ligeiramente abaixo.
A barreira dos 7% nos juros a 10 anos é uma “linha psicológica” indicativa do sentimento no mercado secundário. Como refere Constantin Gurdgiev, professor no Trinity College, em Dublin, o essêncial na apreciação do risco de Espanha tem de ser uma combinação da evolução do nível de dívida soberana com a tendência na taxa de crescimento potencial e os perfis das maturidades da dívida e do financiamento. Não, apenas, olhar isoladamente para os 7%.
Fechariam em 6,916%, abaixo dos 7%, mas mesmo assim um novo máximo histórico desde a adesão de Espanha ao euro.
Acto VIII (15 de junho) — Acalmia geral (pele efeito do Plano B dos bancos centrais) e Portugal faz brilharete (antes das eleições gregas).
A tendência de descida continuada das yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português continua no mercado secundário, segundo dados da Bloomberg. Os juros das OT a 2 anos fecharam em 8,81% contra 9,66% há uma semana. Os juros das OT a 3 anos desceram para 8,63% contra 9,6% há uma semana. Os níveis atuais de juros já recuaram para os observados antes do pedido de resgate pelo anterior governo. No caso das OT a 5 anos, os juros desceram para 10,92% contra 12,52% a 8 de junho. Para as OT a 10 anos, os juros fecharam em 10,52% contra 11,06% há uma semana.
Esta tendência continuada de melhoria do custo da dívida tem-se manifestado nas últimas semanas, e, regra geral, escapou ao “contágio” da crise bancária espanhola e da incerteza sobre os resultados das eleições legislativas antecipadas gregas. Mas hoje aproveitou um dia em que os juros estiveram em baixa na zona euro, inclusive nos dois “periféricos” em foco – Espanha e Itália.
O pico do stresse da dívida portuguesa ocorreu a 30 de janeiro deste ano; a partir dessa data, a tendência tem sido a descida continuada. Essa inversão de tendência evitou que Portugal seguisse uma via grega.
Mas, os níveis de juros da dívida portuguesa no mercado secundário continuam a ser proibitivos para uma ida ao mercado aberto com emissões no médio e longo prazos. No caso dos juros a 10 anos estão ainda muito acima do limiar dos 7%, a linha vermelha. E a comparação com os juros dos títulos irlandeses continua a mostrar um diferencial importante. Os juros dos títulos irlandeses estão em 6,55% no prazo a 2 anos, em 6,86% no prazo a 5 anos e em 7,385% no prazo a 9 anos (os títulos a 10 anos não estão me negociação desde o ano passado). Mesmo, assim, o Fundo Monetário Internacional avisou, hoje, o governo irlandês que há ameaças que podem impedir o retorno aos mercados de financiamento.
Plano B dos Bancos Centrais acalma investidores
O rumor de que os principais bancos centrais do mundo teriam um Plano B de resposta a um agravamento da crise política grega acalmou os investidores da dívida soberana, depois dos picos de stresse de ontem com Espanha.
O Plano B dos bancos centrais seria acionado caso não haja possibilidade de maioria parlamentar para formação de governo, ou caso uma vitória do Syriza conduza a uma radicalização e não a uma situação de compromisso. Esta última opção parece ter sido a mensagem deixada, esta semana, pelo seu líder, Alexis Tspiras, num artigo no Financial Times, sugestivamente intitulado “Manterei a Grécia na zona euro”, onde expõe as condições de renegociação do plano de resgate em curso.
Nesse Plano B, especula-se que o Banco Central Europeu poderá descer a taxa de referência, atualmente em 1%, uma decisão sobre a qual não tem havido consenso e que Mário Draghi tem adiado. Hoje afirma-se que já haverá uma maioria clara para tal decisão.
O que não é especulação são as declarações do governador do Banco de Inglaterra e do chanceler do Tesouro britânico garantindo um novo “alívio quantitativo” (quantitative easing) caso necessário. O montante anda entre 80 e 140 mil milhões de libras (99 a 174 mil milhões de euros) para injetar no sistema financeiro.
O Barclays Capital, entretanto, deitou água na fervura, considerando, como seu cenário base, que a Nova Democracia deverá ganhar as eleições de domingo, o que provocaria, na segunda-feira, uma reação positiva dos mercados financeiros, ainda que temporária.
A proíbição de publicação de sondagens nas duas últimas semanas antes da votação não permitiu conhecer a atual relação de intenções de voto entre os dois concorrentes ao primeiro lugar – a Nova Democracia e o Syriza.
Juros de Espanha e Itália caem
Face aos rumores sobre um Plano B dos bancos centrais, a descida dos juros dos títulos soberanos acentuou-se à tarde em toda a zona euro. As yields das obrigações espanholas (OE) a 10 anos afastaram-se da proximidade dos 7%, fechando em 6,87%. E as yields dos títulos do Tesouro italiano desceram inclusive do patamar dos 6%, fechando em 5,93%.
Os picos de stresse ficaram para trás. Na quarta-feira, os juros das OE a 10 anos chegaram a estar, durante algum tempo, em 7,003% (segundo dados da Reuters) e no dia seguinte marcaram novo máximo histórico em valor de fecho com 6,916%.
E termina a semana do pós-pedido de resgate a Espanha.