Em poucas semanas o que era um edifício sem rachas parece que sofreu o impacto de um sismo. É claro que há sempre quem finja que nada aconteceu e continue a assobiar para o ar até ao último minuto.

O primeiro do “sistema” a mudar o discurso foi Mário Draghi, o presidente do poderoso Banco Central Europeu (BCE). Saiu da sua “independência” monetária, e veio dizer, em Barcelona, que não há ajustamento orçamental, nem condições de segurar a “regra de ouro” (anti-despesista) a longo prazo, se não houver, também no curto prazo, um “pacto para o crescimento” (growth compact). Draghi, por momentos, se nos esquecêssemos do enquadramento do BCE a que ele preside, pareceria um cocktail de Keynes com Schumpeter – os governos devem cortar na despesa corrente, jamais no investimento, e o investimento público deve dar gás a infraestruturas e inovação, empreendedorismo e start-ups.

Outra voz que tem peso no “sistema” é, naturalmente, a de Charles Dallara, o patrão do lóbi da finança internacional, que se fez ouvir esta semana. O diretor do Instituto de Finanças Internacionais, saído há semanas da negociação de uma reestruturação da dívida grega, foi claro no canal norte-americano CNBC: “A economia europeia desligou-se do marco político. A focalização nos cortes orçamentais a curto prazo não se ajustou à realidade económica”.

Rapidamente os eurocratas mudaram o tom. Sem perderem a face, a palavra mágica “crescimento” regressou ao primeiro plano do discurso.

A Comissão Europeia chefiada por Durão Barroso desenterrou o papel possível dos fundos estruturais (há 80 mil milhões de euros ainda por usar no atual quadro), do Banco Europeu de Investimentos (BEI) e de títulos relacionados com projetos infraestruturais (project bonds) em parceria com privados que poderão envolver mais de 200 milhões de euros de fundos europeus e gerar quatro mil milhões de investimento global.

Por seu lado, o presidente do Conselho Europeu Herman Van Rompuy convocou de urgência para 23 de maio uma cimeira europeia especial sobre a nova palavra da moda: growth compact. O comissário Olli Rehn, no seu estilo inconfundível, apressou-se a dizer que o pacto orçamental “oferece muita margem de manobra”. Finalmente, o próprio Bundesbank, o banco central alemão, a catedral europeia da linha dura, veio fazer, esta semana, um entorse à sua ortodoxia, com alguns de dentro do aparelho a admitir que a inflação na Alemanha possa ser superior a 2%.

A que se deve esta súbita inversão? A dois violentos murros no estômago. Um dado pela própria economia. Outro pela democracia.

Dois murros no estômago

O primeiro murro no estômago foram os resultados da estratégia de ajustamento que se seguiu quando a crise das dívidas soberanas irrompeu em final de 2009 e o período de “estímulos” para evitar o aprofundamento da recessão económica deixou de ter apoiantes na zona euro.

A receita da austeridade em simultâneo em todos os países periféricos já provocou 7 países em recessão, entre eles, várias das economias mais importantes nos 17 da zona euro. A própria zona euro, segundo as previsões da Primavera da Comissão Europeia, deverá entrar em doube-dip, ou seja regressar à recessão este ano, ainda que ligeira, na ordem de uma quebra de 0,3%. Justamente 7 dos 17 realizarão, este ano, ajustamentos orçamentais superiores a 2% do PIB respetivo, segundo o levantamento realizado por João Silvestre, do Expresso, a partir dos Programas de Estabilidade. Nesse grupo estão duas das maiores economias da zona euro, Itália e Espanha.

Devido ao irrealismo dessas metas, Bruxelas já admitiu que 13 dos seus 17 membros deverão falhar as metas previstas para 2013, com o défice global da zona monetária em 1% do PIB.

Num contexto destes, a realidade foi mais forte do que a ortodoxia eurocrata.

Os “desvios” à linha dura de Bruxelas sucederam-se: a Irlanda inventou uma engenharia financeira para evitar o pagamento da promissória anual que cobre o sistema financeira do país, contra a vontade dos eurocratas, e Mariano Rajoy, logo que chegou ao poder em Espanha, impôs uma meta de défice orçamental, para este ano, acima do que a Comissão Europeia havia indicado ao seu antecessor socialista.

O segundo murro no estômago foi dado pela democracia. As eleições em França e na Grécia provocaram um sismo com réplicas que ainda continuam.

O candidato presidencial socialista François Hollande ganhou empunhando uma bandeira europeia de que é preciso um “anexo” ao pacto orçamental, que coloque o crescimento, de novo, no palco das políticas europeias. Hollande advoga ainda o fim do duopólio franco-alemão sobre a condução da política europeia, puxando outros países – como a Itália e a Espanha – para o primeiro plano e regressando ao papel das instituições europeias, apagado pelo diretório da era Merkel e Sarkozy. O presidente eleito decidiu, aliás, reunir com Herman Van Rompuy e Jean-Claude Juncker (presidente do Eurogrupo) antes da própria cimeira com Merkel logo após a sua investidura.

E na Grécia aconteceu o que os eurocratas nunca confessaram ser um cenário de risco: os partidos pró-troika representam pouco mais de 1/3 do eleitorado, e mesmo esses fizeram campanha exigindo a renegociação de diversos aspetos do segundo plano de resgate; e um partido da Esquerda Radical, o SYRIZA, subiu ao segundo lugar, e, segundo sondagens desta semana, chegará a ganhador se houver novas eleições em junho. A gravíssima crise política grega tocou os sinos a rebate.

Keynes volta, estás perdoado

A Grécia, outrora berço da civilização ocidental, é hoje um laboratório da crise da dívida. “As receitas orçamentais têm de ser revistas antes que destruam a economia grega. No curto espaço de quatro anos, a economia caiu 25%. Ainda não é claro que o eleitorado advogue uma saída do euro. Mas, se caminharmos para uma segunda eleição, a decisão surgirá, ou num sentido ou noutro, em definitivo. E um dos medos de uma saída do euro é que, na verdade, ninguém sabe mesmo qual será o seu impacto”, diz-nos Nick Malkoutzis, editor da versão em inglês do jornal grego Kathimerini. Impacto não só direto (a dívida soberana atual somada à exposição do BCE à Grécia e aos empréstimos do BCE aos bancos gregos chega a mais de 600 mil milhões de euros) como o efeito de contágio, visível na forma como os mercados da dívida têm reagido às notícias que vêm de Atenas. Por um lado, penalizam os títulos dos grandes “periféricos” ainda não intervencionados pela troika – Espanha e Itália – e manifestam toda a sua aversão ao risco “fugindo para o que é seguro”, os Bunds, os títulos alemães, cujas yields atingiram, no mercado secundário, níveis mínimos abaixo de 1,6%.

O rombo no edifício tem permitido o regresso, entre muitos economistas, a um “keynesianismo estrutural”, mitigado ou ortodoxo, com muitos a advogarem a substituição da atual orientação de ajustamento orçamental acelerado por políticas económicas similares às que vigoraram desde o pós-guerra até 1970, como resposta à devastação da guerra mundial e às sequelas da Grande Depressão dos anos 1930. Não só em termos de políticas domésticas (orientadas ao combate ao desemprego, uma “variável” que saiu fora de controlo para “surpresa” de muitos governantes), como na resolução dos desequilíbrios internos à zona euro entre países deficitários e excendentários.

A própria política interna alemã pode trazer surpresas. “Um ponto crucial na agenda alemã é saber se o SPD e os Verdes vão embarcar no dogma de Ângela Merkel e vão votar favoravelmente a ratificação do pacto orçamental em meados de junho. Resta saber se o farão a troco de uma compensação referindo um pacto de crescimento, ou se ainda não se sentem seguros de que podem desafiar a chanceler não sendo penalizados pela opinião pública alemã. Pode ser que os resultados das eleições este domingo no estado da Renânia do Norte-Vestefália sejam um ponto de viragem”, chama a atenção Nick Panayotopoulos, analista grego sobre temas europeus muito ativo na blogosfera.

“O governo da chanceler pode ter começado a compreender que as políticas de austeridade lançaram a maioria dos países da zona euro, incluindo a própria Alemanha, numa nova recessão. A única saída, por cima, é um relançamento do crescimento, coordenado entre os países membros do euro, a começar pelos que têm mais margem de manobra, e aí entra a Alemanha em primeiro lugar”, afirma Dominique Plihon, professor de economia financeira na Universidade Paris XIII. Este especialista francês recorda que a Alemanha não tem de inventar nada, “só tem de se recordar do que propôs John Maynard Keynes em 1944 – a resolução da crise tem de ser posta em prática em simultâneo pelos países deficitários e pelos excedentários. E estes últimos devem tomar as responsabilidades da redução dos desequilíbrios e não impor unilateralmente todo o fardo do ajustamento aos deficitários”.

Resta saber como a linha dura europeia se vai libertar como se fossem fraldas descartáveis dos mais papistas do que o Papa sem aparentar não perder a face.

John Maynard Keynes, subitamente, regressou, de novo ao palco do debate político. Mas com duas pedras no sapato – o nível de sobreendividamento numa franja larga de países da zona euro está acima do limiar crítico dos 90% do PIB e o papel multiplicador da despesa pública e do endividamento soberano para a suportar diminui drasticamente desde que Keynes advogou as suas receitas. O momento é o ideal para se forjarem Prémios Nobel que resolvam o imbróglio e políticos que inovem.