Dom 29 Abr 2012
dia 20 de abril: As dores de cabeça de Christine Lagarde (mais graves que as do joelho) — diário de bordo 599
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económicaainda sem comentários
A economia mundial corre riscos maiores do que o joelho de Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), que lhe tem tolhido a agenda de deslocações internacionais. O planeta está a “recuperar gradualmente”, mas é “um crescimento modesto”, diz o FMI na conclusão da sua reunião de Primavera em Washington DC, que terminou no fim de semana. Mas a trajetória do produto mundial conta uma história de oscilações com um grau elevado de incerteza sobre o desfecho.
Olhando aos dados divulgados pelos relatórios “World Economic Outlook” do FMI, incluindo o agora divulgado, a evolução dos últimos cinco anos é instrutiva: crescimento de 5,2% em 2007, no último ano da “bolha” financeira que acabaria numa crise financeira de grandes proporções; uma desaceleração para 3,8% em 2008; uma recessão de apenas 0,7% em 2009 (o pico da crise económica); uma retoma significativa de 5,3% em 2010; mas novo abrandamento em 2011, fechando em 3,9%. A projeção para 2012 aponta para a continuação do abrandamento, com um crescimento estimado de 3,5%. Um dos aspetos menos falado é a desaceleração da retoma no comércio internacional: 12,9% em 2010 para 5,8% em 2011 e uma projeção de 4% em 2012.
Os elementos críticos responsáveis pela “moderação” do crescimento são a projeção para este ano de uma recessão na zona euro (ainda que ligeira, de 0,3%) – há que ter em conta que é o segundo maior bloco económico do mundo, depois dos EUA – e o abrandamento do crescimento das economias emergentes e dos países em desenvolvimento para 5,7%, menos de 6% (considerado um limiar crítico neste tipo de modelo de crescimento).
Os três culpados
Não admira, por isso, que o FMI advirta, de seguida, que os “riscos permanecem altos”, devido ao que Christine Lagarde apelidou de “nuvens negras”. Os três “culpados” da incerteza são a situação da crise das dívidas soberanas na Europa; a evolução do preço das commodities, e em particular do petróleo; e a volatilidade dos fluxos de capital, em particular o seu impacto nas economias emergentes. Como pano de fundo a dificuldade de resolver os manifestos desequilíbrios na economia mundial marcados por economias com excedentes e economias deficitárias. A única saída política, diz o FMI, é a “colaboração global” e evitar-se uma onda generalizada de protecionismo.
A zona euro surge à cabeça das preocupações. No “Plano de Ação” da diretora-geral do FMI, divulgado este fim de semana, a zona euro surge como “prioridade imediata”. Christine Lagarde foi mesmo mais longe em conferência de imprensa e falou da zona euro como sendo “hoje o epicentro dos riscos potenciais”. Por isso, o FMI sugere evitarem-se “políticas orçamentais excessivamente recessivas” com “consolidações orçamentais demasiado rápidas em certos casos”. Refere-se, ainda, a importância de examinar opções de reformas que promovam o emprego e “políticas fiscais mais amigas do emprego”.
O FMI insistiu, neste encontro da Primavera, que há uma janela curta de oportunidade para “restaurar o crescimento, de dois a três anos” apenas, que terminará em 2015. “Se não trouxermos o crescimento para o normal, se não trouxermos o PIB para os seus níveis potenciais, a sustentabilidade orçamental também não é possível”, sublinhou Tharman Shanmugaratnam, ministro das Finanças de Singapura e presidente do comité do FMI para os assuntos financeiros.
Almofada financeira
Como válvula se segurança, Lagarde conseguiu reunir mais de 430 mil milhões de dólares para o reforço dos cofres do fundo, com a ausência dos Estados Unidos (em ano de campanha eleitoral, o Presidente Obama não tem margem política para emprestar mais dinheiro ao Fundo e o “apoio” é feito através das linhas de swap de dólares proporcionadas pelo Tesouro norte-americano) e com contribuições pequenas dos BRICS (que não foram divulgadas, tendo sido referidas apenas em nota de pé de página). A diretora-geral do FMI nega que esta “almofada” se destine propositadamente a reforçar a capacidade europeia de lidar com as crises das dívidas soberanas e referiu que “há assistentes da crise que poderão necessitar de ajuda”. Algumas críticas têm surgido ao FMI acusando-o de não dar a devida atenção à “Primavera árabe” e à situação de pré-bancarrota de alguns dos países envolvidos (como o Egito, por exemplo).
Mas poucos analistas acreditam que não haja um alvo geográfico específico – a zona euro – deste reforço financeiro. Estes novos recursos do Fundo poderão ser canalizados para situações críticas através de empréstimos bilaterais temporários ou por acordos com o FMI. O comunicado do grupo intergovernamental G24 (que abrange 24 países emergentes e em desenvolvimento de África, Ásia e América Latina/Caraíbas, excluindo a China), divulgado na mesma ocasião, sublinha um ponto que não surge noutros comunicados destes encontros em Washington DC: “a crise da zona euro sublinhou também a necessidade de um estudo posterior de mecanismos de reestruturação da dívida soberana”.
Nas economias emergentes, o FMI teme o sobreaquecimento, com um crescimento muito rápido do crédito (desenvolvimento de “bolhas” financeiras), e as inundações de “dinheiro quente” especulativo. “Evitar a superestimulação da economia” é a palavra de ordem. Os emergentes também podem sofrer com o impacto das políticas monetárias “acomodativas” que estão a ser implementadas nos EUA e no Reino Unido, conhecidas pela designação inglesa de quantitative easing, e mesmo do Banco Central Europeu, com o uso de diversas “bazucas” de fornecimento de liquidez aos bancos da zona euro. O FMI concluiu que “a política monetária deve permanecer acomodativa enquanto as perspetivas de inflação se mantiverem ancoradas e o crescimento fraco se mantiver”. “Se houver tendências indicando que vamos perder o controlo da inflação mais adiante, há um entendimento geral que a política monetária, sendo atualmente muito facilitadora, não será mais aconselhável”, sublinhou o ministro das Finanças de Singapura.
O G24 acentuou a necessidade de uma melhor regulamentação do mercado de derivados nas commodities, onde a especulação financeira tem vindo a ganhar peso.