Acto I — 16 de abril: Espanha continua a estar em destaque nos mercados da dívida. As yields (juros) das obrigações espanholas a 10 anos abriram acima de 6% no mercado secundário, segundo dados da Bloomberg. Viriam a fechar em 6.07%. Na sexta-feira fecharam em 5,98%.

Esta barreira foi ultrapassada entre meados e final de novembro e anteriormente durante a crise de meados de julho a começo de agosto do ano passado. O máximo atingido em valor de fecho ocorreu em 25 de novembro com os juros a atingir os 6,7%, às portas da barreira crítica dos 7% (considerada ponto de não retorno para um pedido de plano de resgate).

Responsáveis do Banco Central Europeu (BCE) já referiram que Frankfurt poderá regressar a uma intervenção massiva no mercado secundário adquirindo obrigações espanholas através do programa conhecido pela sigla SMP. Segundo analistas do Bankinter, citados pelo El Economista, o BCE só intervirá se a barreira dos 7% for galgada. “O BCE já interveio na semana passada quando os juros tocaram próximo de 6%. Não creio que possam dexiar de intervir quando esse limiar [de 7%] for atingido, pois entraríamos em um ciclo que dificilmente conseguiriam conter”, afirma Alberto Montero Soler, professor na Universidade de Málaga e que virá, esta semana, a Coimbra para uma conferência sobre o futuro da zona euro. Soler é autor do blogue “La otra Economía”. Por seu lado, Santiago Niño Becerra, professor da Universidade Ramón Llull, de Barcelona, ironiza: “É a pergunta bilionária, pois 7% é o ponto de não retorno, segundo dizem. Ao ritmo que as coisas estão, em dez dias chegamos a esse patamar. Nada como mudar a definição de desastre, a fim de desdramatizar os 7%”.

Acompanhando esta tendência altista nos juros dos títulos, a probabilidade de entrada em incumprimento de Espanha subiu para 36,15%, depois de ter fechado em 35,79% na sexta-feira passada e ter atingido um máximo histórico no preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de default) acima de 500 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. No final da semana passada fechou em 502,48 pontos base e hoje fechou em 510,58 pontos base.

O prémio de risco da dívida espanhola em relação à dívida alemã subiu para 4,35 pontos percentuais.

A alta dos juros e do risco em Espanha é secundada pela subida pelos juros das obrigações portuguesas (que fecharam em 12,68% no prazo a 10 anos) e dos títulos italianos (que fecharam em 5,59% no prazo a 10 anos). O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 10,96 pontos percentuais (sexta-feira fechara em 10,82) e o da dívida italiana para 3,88 pontos percentuais (sexta-feira fechara em 3,79).

O ministro da Economia do governo espanhol, Luís de Guindos, reuniu hoje em Paris com banqueiros franceses e amanhã segue para Dusseldorf e Frankfurt, para reuniões com entidades financeiras alemãs e com Mário Draghi, presidente do BCE.

O Tesouro espanhol lança esta semana dois leilões de dívida, um de bilhetes de Tesouro a 12 e 18 meses amanhã e outro de obrigações a 2 e a 10 anos na quinta-feira, duas emissões que vão ser seguidas de muito perto.

Acto II — 17 de abril — 1º leilão da semana em Madrid: O Tesouro espanhol colocou hoje de manhã cerca de 3,18 mil milhões de euros em bilhetes do Tesouro (BT) com prazos curtos, a 12 e a 18 meses. Os leilões tiveram forte procura, permitindo arrecadar mais do que os 3 mil milhões previstos, mas obrigou a pagar aos tomadores de dívida juros significativamente mais altos do que em operações anteriores similares.

O Tesouro emitiu 2,09 mil milhões de euros em BT a 12 meses com uma taxa média de remuneração de 2,623%, mais de 80% acima da taxa anterior que se situou em 1,418%. Em BT a 18 meses, emitiu 1,09 mil milhões de euros a uma taxa média de 3,11%, também mais de 80% acima da anterior que se situara em 1,711%.

O teste mais importante ocorrerá na quinta-feira quando o Tesouro realizará dois leilões de obrigações espanholas a 2 e a 10 anos.

Durante esta manhã, o risco de incumprimento da dívida espanhola desceu de 36,15% no fecho de ontem para 35,90% na abertura de hoje, segundo dados da CMA DataVision. Ao final da manhã, o risco desceu para 35,2% e Espanha saiu do “clube” dos candidatos à bancarrota, vendo o seu 10º lugar ser ocupado pelo Egito. A margem de diferença no risco entre os dois países é muito curta.

As yields (juros) das obrigações espanholas no mercado secundário também têm estado em baixa, depois de ontem os juros no prazo de 10 anos terem fechado acima de 6%. Ao final da manhã estão em 5,9%, segundo dados da Bloomberg.

Acto III: 19 de abril: 2º leilão de dívida em Madrid: O Tesouro espanhol conseguiu obter mais de 2,5 mil milhões de euros na emissão de obrigações espanholas a 2 e a 10 anos que lançou hoje em leilão no mercado primário da dívida soberana. O objetivo máximo era 2,5 mil milhões, pelo que foi ligeiramente ultrapassado, revelando uma procura mais elevada inclusive do que em operações anteriores. A agência financeira Markit considerou o leilão “sólido”.

No entanto, na emissão de obrigações a 10 anos, a mais importante, encarada como verdadeiro “teste”, o Tesouro espanhol teve de pagar uma taxa média de 5,743% pelos 1425 milhões de euros arrecadados. Esta taxa média é superior à de 5,403% na operação anterior. Os juros das obrigações espanholas a 10 anos no mercado secundário estavam, por ocasião do leilão, em 5,85%.

As quatro emissões realizadas esta semana, duas na segunda-feira a 12 e a 18 meses e duas na quinta-feira, a 2 e a 10 anos, revelam o mesmo padrão: conseguiram arrecadar as verbas previstas ou mesmo ultrapassá-las, mas os juros subiram em relações a operações anteriores similares, à exceção da emissão a 2 anos, em que o juro foi ligeiramente inferior.

Com estas operações, o Tesouro espanhol já conseguiu financiar-se em mais de 50% das suas necessidades para 2012.

A mão invisível por detrás desta procura é a linha de liquidez a três anos lançada, no final do ano passado, por Mário Draghi, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), que tem permitido aos bancos espanhóis comprar dívida soberana nas emissões lançadas pelo Tesouro e ainda ganhar alguma margem com a diferença entre os juros que paga ao BCE e os que recebe dos títulos adquiridos.

Recorde-se que a dívida espanhola esteve sob grande pressão na segunda-feira no mercado secundário quando os juros das obrigações a 10 anos fecharam acima de 6%, pela primeira vez desde o pico de 6,7% em novembro do ano passado.

Acto IV: 19 de abril — efeito do leilão de Madrid: As yields (juros) da dívida espanhola e italiana voltaram às subidas no mercado secundário. Os juros das obrigações espanholas a 10 anos fecharam hoje em 5,93%, reaproximando-se dos 6% (que foram atingidos na segunda-feira), e os dos títulos italianos aumentaram para 5,61%, segundo dados da Bloomberg. Também os juros das obrigações do tesouro francês (OAT) estão em alta em todas as maturidades. Os juros das OAT a 10 anos subiram acima de 3%.

O mercado secundário “respondeu” com uma viragem para a alta em relação aos leilões que hoje ocorreram de manhã em Madrid e Paris, apesar dos objetivos de colocação de dívida terem sido atingidos (mais de 2,5 mil milhões em obrigações espanholas a 2 e a 10 anos e cerca de 7 mil milhões de euros em obrigações francesas a 3, 5 e 6 anos). Segundo a agência financeira londrina Markit, “o leilão [de dívida espanhola] acabou por nada mudar na perceção do mercado sobre Espanha”. Em relação a França, a Markit sublinha os rumores que têm invadido o mercado antes das eleições presidênciais, cuja primeira volta decorre no próximo domingo.

Apenas as obrigações do Tesouro (OT) português escapam à onda altista. Todas as maturidades estão em baixa, prosseguindo a tendência verificada desde terça-feira. No caso dos juros das OT a 2 anos desceram do patamar dos 10%. Fecharam em 9,97%. No caso das OT a 10 anos, os juros desceram de 12,43%, no encerramento do mercado ontem, para 12,16% no fecho de hoje.

Acto V: 19 de abril — outros efeitos do leilão de Madrid e dos relatórios do FMI: Os leilões de dívida em Espanha e França não acalmaram os mercados financeiros ligados à dívida soberana da zona euro. Apesar dos montantes emitidos, as dúvidas dos investidores nas dívidas soberanas permanecem. Os últimos relatórios do Fundo Monetário Internacional – World Economic Outlook e Fiscal Monitor – não tranquilizaram os investidores nem os analistas sobre a performance da zona euro e em particular sobre diversos países membros que têm estado em foco nas última semanas.

Oito países da moeda única fecharam o dia com níveis de risco de incumprimento mais elevados – Grécia, Chipre, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, Bélgica e Áustria. Hoje só escapou a França que esteve em foco ontem, ao ter ultrapassado os 200 pontos base no preço dos credit default swaps (seguros contra o risco, cds no acrónimo), um pico de que baixou, depois de desmentidos vários rumores ligados às consequências das eleições presidenciais, cuja primeira volta se realiza no próximo sábado.

Portugal, apesar de uma descida nos juros das obrigações do Tesouro no mercado secundário, a que nos referimos noutro artigo como exceção do dia, viu o risco de incumprimento subir – fechou em 61,64%, ligeiramente acima do valor de ontem. Por outro lado, Espanha regressou ao “clube” dos 10 candidatos à bancarrota, à décima posição, com um risco de 35,61% e novamente com o preço dos cds acima de 500 pontos base, um limiar considerado crítico. O risco da dívida italiana também se agravou, com o preço dos cds a fechar acima de 460 pontos base e o risco a chegar a 33,28%.

Acto VI — 20 de abril: Semana salda-se positiva para Portugal – O prémio de risco da dívida portuguesa desceu para 10 pontos percentuais, quase um ponto percentual a menos do que no início da semana. Este prémio reflete a diferença entre as yields (juros) para as obrigações do Tesouro (OT) português e para os títulos alemães, os Bunds, a 10 anos, no mercado secundário. Esta melhoria refletiu a descida dos juros das OT a 10 anos: fecharam hoje em 11,73% contra 12,56% há uma semana, segundo dados da Bloomberg. Também os juros das OT a 2 anos tiveram uma melhoria descendo de 10,31% há uma semana para 9,88% no fecho de hoje.

A probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa também baixou: de 61,34% há uma semana para 59,60% no fecho de hoje, segundo dados da CMA DataVision. Contudo, Portugal mantém a terceira posição no “clube” dos candidatos a uma bancarrota, depois da Grécia (com mais de 90% de risco, que poderá ter um segundo default seletivo sobre uma pequena parte da dívida ainda não reestruturada) e do Chipre (com quase 63%). A distância dos níveis de risco entre Portugal e a Argentina – que ultimamente tem estado em foco em virtude da decisão de renacionalização da maioria do capital da YFP, a empresa de petróleos – que ocupa o quarto lugar naquele “clube” é de 9 pontos percentuais. Em relação ao nível de risco da Irlanda é, ainda, de quase 20 pontos percentuais.

Espanha e Itália continuam em foco

A semana foi negativa para outros dois países considerados da “periferia” da zona euro, Espanha e Itália. Foi a segunda semana aziaga para Espanha este ano. Há uma semana, o risco de incumprimento fixou um máximo histórico de 35,79% (em valor de fecho). Esta sexta-feira fechou em 35,64% e chegou a estar em mais de 36% na abertura. Na segunda-feira, o dia mais crítico desta semana, chegou a fechar em 36,15%. O país conserva o décimo lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota. O custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida, acrónimo cds) manteve-se durante a semana acima dos 500 pontos base, considerado um patamar crítico. Os juros das obrigações espanholas fecharam exta sexta-feira em 5,96%, ligeiramente abaixo dos 5,98% de há uma semana. Recorde-se que durante esta semana chegaram a fechar em 6,07%, na segunda-feira. Apesar dos leilões de dívida ocorridos esta semana – dois de curto prazo e dois de médio e longo prazo – alcançando os objetivos de colocação dos montantes, os investidores continuam com uma enorme desconfiança sobre o futuro da quarta economia da zona euro. O prémio de risco da dívida espanhola fechou em 4,25 pontos percentuais, um valor ligeiramente acima de o alcançado há uma semana.

O mesmo se passa com Itália. O risco de incumprimento fechou em 34,13% e os juros dos títulos italianos a 10 anos subiram para 5,66%. Há uma semana, estes juros haviam fechado em 5,52%. O prémio de risco subiu de 3,79 pontos percentuais para 3,95.

Durante a semana houve algum frenesim em torno de França. A pressão manteve-se sobre as obrigações do tesouro francês a 2 anos, cujos juros subiram de 0,59% no início da semana para 0,92% no fecho de sexta-feira. Nos restantes prazos, os juros desceram esta sexta-feira. E a probabilidade de incumprimento desceu também, com o custo dos cds a baixar ligeiramente do patamar dos 200 pontos base, com que fechou na quarta-feira, momento alto de vários rumores sobre eventuais consequências do voto do eleitorado nas eleições presidenciais que decorrem em duas voltas (a primeira no próximo domingo).