Dom 29 Abr 2012
A semana do 25 de abril: a prenda no meio dos cravos (o recuo significativo dos juros) — diário de bordo 600
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , criseainda sem comentários
Acto I — 23 e 24 de abril: Mantém-se a tendência de descida nos indicadores da situação da dívida portuguesa.
A semana abriu com o risco de incumprimento da dívida soberana num horizonte de cinco anos a situar-se nos 58%, segundo dados da CMA DataVision. Há uma semana estava ainda no patamar dos 60%. Trata-se de uma quebra substancial em relação ao pico de 30 de janeiro, quando o risco atingiu o seu máximo histórico de 73,32%. Contudo, o país mantém o terceiro lugar no “clube” dos 10 candidatos a um incumprimento, estando distanciado quase 20 pontos percentuais da Irlanda, que se situa na oitava posição.
No mercado secundário, as yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) continuam a tendência de baixa, notando-se, em particular, uma diminuição significativa na pressão sobre os prazos mais curtos da dívida
A semana começou com uma redução dos juros das OT a 2 anos que baixaram para 9,16%, segundo dados da Bloomberg. Há uma semana estavam no patamar dos 10%. A trajetória aponta para uma redução colossal em relação ao máximo de 21,06% a 30 de janeiro. Um comportamento similar ao que ocorreu com os juros dos títulos irlandeses que caíram de um máximo de 23,22% em 18 de julho de 2011 para 5% atualmente.
As OT a 10 anos fecharam ontem com os juros em 11,45%, já abaixo do patamar dos 12% em que se situavam há uma semana. Um valor já distante dos 17,39% de 30 de janeiro.
Acto II: A prenda do 25 de abril: A tendência de descida das yields (juros) para as obrigações do Tesouro (OT) português mantém-se desde terça-feira, apesar de oscilações intradiárias. O dia 25 de abril trouxe uma prenda. Os juros das OT a 2 anos desceram durante a manhã para 8,88%, segundo dados da Bloomberg. Esta descida abaixo do patamar dos 9% representou um recuo dos níveis de dívida a 2 anos para os valores de 1 de abril de 2011, cinco dias antes do pedido de resgate a Bruxelas por parte do anterior governo.
Mas os juros acabaram por fechar na quarta-feira em 9,11%, em valores similares aos da semana seguinte ao pedido de resgate a 6 de abril de 2011.
No entanto, a tendência de descida volta a verificar-se a 26 de abril, com os juros a descer, ao final da manhã, para 8,75%.
Refira-se que os juros das OT a 2 anos foram os mais pressionados, no mercado secundário desde o pedido de resgate, tendo chegado a um máximo de 21% em 30 de janeiro deste ano. No dia seguinte observou-se um ponto de inversão. Mais de um ano depois da intervenção da troika, o nível dos juros recuou para a situação anterior ao pedido de resgate.
Inversão do caminho grego
A escalada nos juros das OT a 2 anos no mês de janeiro de 2012 – um “salto” do patamar dos 12% para os 21% – significava que o risco do país entrar numa espiral de tipo grego no horizonte de 2012-2013 era muito elevado. Esse risco parece ter sido debelado.
Nos juros das OT a 10 anos, que, regra geral, servem de referência para comparações entre países, observa-se o mesmo padrão de comportamento. Tendo fechado em 11,49% na segunda-feira, desceram para 11,35% no encerramento do dia 25 de abril, e estão, ao final da manhã de quinta-feira, em 11,16%. A trajetória de descida tem-se observado desde 31 de janeiro deste ano, depois do pico em 17,33% no dia anterior.
Estes níveis continuam, no entanto, a ser muito elevados e não apontam, ainda, para a possibilidade do Tesouro português se financiar com juros comportáveis nestes prazos no mercado primário através de emissões de dívida. Dispõe, ainda, de 15 meses para manter este ritmo de descida.
Olhando ao caso irlandês, Dublin conseguiu descer os juros dos títulos de dívida a 2 anos de 23% em julho de 2011, quando atingiu o pico, para 4,92%, no fecho de hoje, e os juros dos títulos a 9 anos (dado que os juros a 10 anos não têm sido negociados no mercado secundário) de 15,5% para 6,9%, no mesmo período. Contudo, os analistas, incluindo o Fundo Monetário Internacional, não se cansam de sublinhar as diferenças estruturais entre Portugal e Irlanda.
Risco de bancarrota elevado mas em declínio
O mesmo padrão de descida se tem vindo a observar no risco de incumprimento da dívida soberana portuguesa num horizonte de cinco anos, avaliado pela CMA DataVision. Depois de uma aceleração em janeiro deste ano, chegando a um pico de 73,32%, a tendência de descida afirmou-se.
A probabilidade de entrada em bancarrota abriu esta quarta-feira em 58,10% e baixou, no fecho, para 56,84%, um nível que já não se observava desde setembro do ano passado. O preço dos credit default swaps (seguros contra a probabilidade de um evento de crédito) desceu abaixo dos 1000 pontos base, o que já não sucedia desde há 8 meses.
Esta inversão retirou Portugal do corredor que levaria o país a um trajeto similar ao grego, que “saltou” de níveis de risco de 70% em agosto de 2011 para 90% a partir de setembro desse ano, até que ocorreu a reestruturação parcial de dívida e um evento de crédito em março passado.
Há que sublinhar, no entanto, que, apesar da trajetória de descida do nível de risco no caso português, a probabilidade de incumprimento está quase 20 pontos percentuais acima da observada para a Irlanda. Portugal conserva o terceiro lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota, ainda que tenha vindo a distanciar-se de Chipre (cujo risco está acima de 62%).
Turbulência na Europa não contagia (por ora)
Apesar da turbulência que tem afetado nas últimas semanas os sentimentos dos investidores em relação às dívidas soberanas de Espanha e Itália e do duplo “choque” do colapso do governo holandês (a Holanda é um dos quatro países do euro que ainda mantém notação de triplo A) e da possibilidade de uma derrota de Nicolas Sarkozy em França a 6 de maio (na 2ª volta das eleições presidenciais), Portugal e Irlanda têm conseguido, por ora, neutralizar o “contágio” dos temores e dos rumores.
Note-se, no entanto, que a própria temperatura em relação aos juros da dívida e ao risco de incumprimento em relação a Espanha e Itália baixou desde ontem. Espanha conseguiu sair do “clube” dos candidatos à bancarrota, onde se posicionava em 10º lugar ainda na segunda-feira. Entretanto, os juros das obrigações espanholas a 10 anos desceram do patamar dos 6%.
O próprio temor de uma reviravolta política em França agravar o sentimento dos investidores em relação à dívida francesa não singrou. O risco de incumprimento de França baixou, com o custo dos credit default swaps (seguros contra a probabilidade de um evento de crédito) a descer do pico de 200 pontos base, e os juros das OAT – as obrigações do Tesouro francês – em queda acentuada, particularmente nos prazos a 2 e 3 anos.
Pode estar a ocorrer um compasso de espera até ao desfecho a 6 de maio das eleições presidenciais em França e das legislativas na Grécia. A 31 de maio decorrerá o referendo sobre o “compacto orçamental” na Irlanda. As mais recentes sondagens dão uma quebra de apoio à posição do governo irlandês de 50% para 30%, apesar da campanha de propaganda política a favor do “sim” orçada em 2,2 milhões de euros levada a cabo pelo governo de Dublin.
Acto III: 27 de abril: Ao final da manhã as yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português a dez anos – as que são usadas como referência nas comparações entre países – no mercado secundário baixaram, ao final da manhã, para 10,5%, um nível de juros que não se verificava desde junho do ano passado, segundo dados da Bloomberg. Estão ainda a dois pontos percentuais do nível de juros verificado a 6 de abril, aquando do pedido de resgate a Bruxelas por parte do anterior governo. Este nível está mais de três pontos percentuais acima da linha vermelha dos 7% (um patamar que conduziu à pressão para o pedido de resgate).
Também, na maturidade a dois anos, os juros das OT continuam em níveis abaixo de 9%, situando-se ao final da manhã em 8,72%. Este nível de juros é inferior ao verificado aquando do pedido de resgate, que se situava, então, em 8,99%. A primeira vez que se verificou um recuo deste tipo foi a 25 de abril.
Hoje as maiores descidas diárias nas yields estão a ocorrer nas OT com prazos a 3 e a 5 anos, que já estão abaixo da barreira dos 12%.
Os níveis de juros das OT portuguesas estão ainda muito acima dos verificados para os títulos irlandeses, que se situam em 4,95% no prazo a 2 anos e em 6,88% no prazo a 9 anos (os títulos a 10 anos não têm estado em negociação desde outubro do ano passado). Mesmo estes níveis são considerados “elevados” no último comunicado da troika sobre o andamento do programa de resgate irlandês, publicado ontem. A Irlanda teve um pico nos juros em todas as maturidades em 18 de julho de 2011.
Também no risco de incumprimento da dívida soberana, a tendência de descida se verifica. A probabilidade de default baixou para 57,30% e o preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) mantém-se abaixo dos 1000 pontos base. Refira-se, no entanto, que este nível de risco é muito elevado, continuando Portugal no terceiro lugar do “clube” dos candidatos à bancarrota, logo depois da Grécia e de Chipre. A diferença em relação ao risco da dívida irlandesa é de quase 20 pontos percentuais.
O stresse em Espanha e Itália, que se está a verificar hoje no mercado secundário e no mercado dos credit default swaps, não contagiou Portugal nem Irlanda. Os juros das obrigações espanholas a dez anos aproximam-se dos 6% e os relativos aos títulos do Tesouro italiano estão em 5,72%.
Acto IV: 27 de abril (fecho) O prémio de risco da dívida portuguesa desceu em sete dias de 10,02 pontos percentuais para 8,79 pontos percentuais, segundo dados da Bloomberg. Este prémio reflete a diferença entre os juros dos títulos alemães, os Bunds, no prazo a 10 anos, que servem de referência na zona euro, e os juros das obrigações do Tesouro no mercado secundário. O que significa um recuo para a situação de setembro do ano passado. O pico deste prémio de risco ocorreu em 30 de janeiro deste ano quando chegou a 15,6 pontos percentuais. Daí para cá a trajetória tem sido descendente.
Esta situação reflete o comportamento das yields (juros) das obrigações do Tesouro português no mercado secundário. Uma trajetória descendente em todas as maturidades da dívida.
As maiores descidas ocorreram nos últimos sete dias nos juros a três e a cinco anos, que baixaram do patamar dos 13% para os 11%.
A descida mais simbólica foi, no entanto, a ocorrida no prazo a dois anos. Tendo fechado em 9,88% há uma semana, desceu hoje para 8,77%, um nível inferior ao ocorrido a 6 de abril do ano passado, data em que o anterior governo anunciou o pedido de resgate a Bruxelas. Foi a 25 de abril que estes juros desceram abaixo dos verificados nessa data simbólica. Também os juros no prazo a dez anos tiveram uma baixa significativa, de 11,73% a 20 de abril para 10,49%, no fecho de hoje.
Esta descida projeta-se ainda na probabilidade de incumprimento da dívida (no risco de entrada em bancarrota) num horizonte de cinco anos, que caiu de 59,6% há uma semana para 55,71% no fecho de hoje, segundo dados da CMA DataVision. O país conserva, no entanto, a terceira posição no “clube” mundial dos candidatos a bancarrota. Mas verifica-se um afastamento dos níveis que poderiam conduzir a um evento de crédito e a uma reestruturação iminente da dívida como aconteceu com a Grécia. O pico do risco verificou-se a 30 de janeiro com um nível de 73,32%.