Seg 5 Mar 2012
2 de março: o regresso da incerteza sobre os “PIIGS” e Espanha ultrapassa Itália — diário de bordo 558
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do riscoainda sem comentários
Acto I: Ainda as assinaturas no novo “compacto orçamental” estavam frescas e já a probabilidade de incumprimento num horizonte de cinco anos das dívidas soberanas dos designados “PIIGS” (acrónimo jocoso para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) e de França subia.
Segundo dados da CMA DataVision para o encerramento dos mercados da dívida na sexta-feira (2 de março), os riscos de default (incumprimento) dos “periféricos” da zona euro e de França – um dos países do “centro” e considerado um pilar do eixo franco-alemão – fechava a semana com valores mais altos do que os do fecho de quinta-feira.
A situação agravou-se mais acentuadamente nos casos da Irlanda e de Espanha. O risco de incumprimento da dívida irlandesa subiu na sexta-feira mais de um ponto percentual, apesar do visto dado pelo Fundo Monetário Internacional ao andamento do cumprimento do acordo do plano de resgate.
O referendo ao “compacto orçamental” (que o governo irlandês assinou na quinta-feira em Bruxelas) deverá realizar-se em maio ou junho, o que deixa uma nuvem de incerteza.
O risco irlandês subiu para 39,73% quando no final da semana passada era de 38,46%. A Irlanda mantém-se na 7ª posição do “clube da bancarrota” (o TOP 10 de países com mais alta probabilidade de incumprimento, segundo o monitor da CMA DataVision).
Semente de rebelião?
No caso de Espanha, o risco subiu um ponto percentual, colocando o país ibérico à beira do limiar de entrada no “clube da bancarrota”, cujo 10º lugar é ocupado pelo Líbano com um risco de default na ordem de 27,82%. O risco da dívida espanhola fechou esta sexta-feira em 27,40%. Deste modo, Espanha “ultrapassou” Itália, algo que não sucedia desde agosto do ano passado.
O governo espanhol viu-se obrigado a rever a meta de défice orçamental para 2012 fixada em anterior acordo com Bruxelas em 4,4% para 5,8% do PIB, em virtude dos riscos de agravamento da situação económica e social e de manifesto “irrealismo” da meta anterior.
Tal meta anterior era inclusive mais baixa do que o valor que está previsto para a Holanda este ano, segundo o Netherlands Bureau for Economic Policy Analysis, que deverá chegar aos 4,5% do PIB.
A Markit viu na posição do governo espanhol a “primeira semente de uma rebelião”. O jornal espanhol ABC titula em capa na edição de sábado: “Rajoy marca o seu território”. A agência Eurointelligence considerava, também, na sexta-feira, que o “compacto orçamental” já “estava em colapso em Espanha” logo com poucas horas de vida.
Situação grega e portuguesa agrava-se
O risco de incumprimento grego continua no corredor para os 100% (iminência de default). Hoje fechou em 96,68% e o custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento, acrónimo cds) disparou para mais de 24.000 pontos base, fixando novo recorde. Os “pontos à cabeça” (points upfront, que funcionam como um indicador do pagamento à cabeça necessário para um contrato de cds ser estabelecido) subiram para 75, numa escala de 1 a 100. Há uma semana, o custo dos cds era de menos de 14.000 pontos base e os “pontos à cabeça” estavam em 72.
O comportamento destes indicadores está marcado pelo andamento do processo de reestruturação parcial da dívida grega. O limite para o processo de aceitação da troca de títulos pelos credores privados está fixado nas 20h (hora de Atenas) da próxima quinta-feira dia 8 de março. Nessa ocasião se averiguará qual o grau de adesão dos credores privados (que detém €206 mil milhões em títulos soberanos) ao acordo proposto pelo executivo de Lucas Papademos. Segundo o jornal grego online Bankingnews, a adesão dos credores privados rondará os 68 a 72%.
Sinal da situação indefinida da Grécia, o segundo pacote de resgate só foi, na prática, parcialmente aprovado pela cimeira. Apenas €73,5 mil milhões foram aprovados – €35,5 mil milhões como “adoçantes” para os participantes no acordo de reestruturação; €23 mil milhões para a recapitalização dos bancos gregos na sequência do corte de cabelo no valor dos seus portefólios em títulos gregos; e mais €35 mil milhões para assegurar o acesso dos bancos gregos aos instrumentos de liquidez do Banco Central Europeu. O restante montante aguarda conclusão das 38 medidas “prévias” exigidas pela cimeira europeia.
No caso português, e apesar da aprovação pela troika do andamento do programa de resgate (ainda que tenham sido sublinhadas internacionalmente as declarações do novo representante do Fundo Monetário Internacional), o risco de incumprimento subiu de 60,81% há uma semana para 62,82% no fecho de hoje.
A Grécia continua a liderar o “clube da bancarrota” e Portugal encontra-se na segunda posição.
O risco de incumprimento da dívida italiana subiu para 26,5% e o de França para 13,64%.
Acto II: A semana foi penalizadora para a dívida portuguesa no mercado secundário. As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) fecharam, na sexta-feira, em alta em todas as maturidades em relação ao fecho do dia anterior e atingiram valores, também, superiores aos de há uma semana.
Os juros das OT a 2 anos que haviam fechado a semana passada em 12,92% subiram para 13,11% no fecho de sexta-feira (2 de março). Os juros das OT a 3 anos que haviam fechado em 15,18% há uma semana, fecharam agora em 16,51%. Os juros das OT a 5 anos que fecharam em 15,36% há uma semana, fecharam em 16,68% esta sexta-feira. No caso das OT a 6 anos, a evolução dos juros foi de 15,74% para 16,86%; e, no caso das OT a 10 anos, a variação foi de 12,77% para 13,81%, naquele período. O agravamento é claro em todos os prazos.
O prémio de risco em relação à dívida alemã subiu para 12 pontos percentuais no final de sexta-feira.
Estes valores estão, no entanto, abaixo dos máximos históricos ocorridos a 30 de janeiro.
Espanha “ultrapassa” Itália
O outro facto importante da semana tem a ver com Espanha. Os juros das obrigações espanholas (OE) no prazo a 10 anos igualaram hoje os juros dos títulos do Tesouro italiano (BTP), o que já não acontecia desde agosto do ano passado. Desde a agonia do governo Berlusconi, em Roma, que os juros dos BTP tinham ultrapassado os juros das OE, colocando Itália numa situação de maior stresse do que Espanha.
Os juros das OE a 10 anos fecharam hoje em 4,91%, valor idêntico ao dos juros dos BTP no mesmo prazo. Trata-se, no entanto, de um valor muito abaixo do limiar crítico dos 7%, pelo que a situação não é, ainda, de alarme.
A conclusão de que Espanha não conseguirá alcançar o objetivo do défice orçamental para 2012 (previsto por Bruxelas para baixar para 4,4% do PIB, mas que o governo de Mariano Rajoy “reviu” para 5,8%) tornou mais transparente para os investidores da dívida a situação difícil de Madrid. A recusa de Rajoy em enveredar por uma política de redução orçamental excessiva que agrave ainda mais a situação económica do país lançou hoje um primeiro sinal, segundo a Markit, de que poderemos estar a assistir a umas primeiras “sementes de rebelião” na zona euro.
Apesar dos bancos espanhóis terem injectado em janeiro €22,8 mil milhões na aquisição de obrigações espanholas, sendo o mais elevado movimento de aplicações na dívida soberana na zona euro por parte de bancos (superior aos €20,8 mil milhões no caso de Itália), a situação da dívida espanhola não viu os seus elementos fundamentais serem alterados. Os analistas atribuem essa injeção ao dinheiro emprestado aos bancos espanhóis no âmbito da linha de liquidez do Banco Central Europeu a 3 anos designada por LTRO, cuja primeira operação decorreu em dezembro. A segunda operação decorreu. agora, em 29 de fevereiro. No caso português, em janeiro, os bancos portugueses desinvestiram, em termos líquidos, das obrigações do Tesouro.