O anúncio caiu como uma bomba na Ásia na segunda-feira. O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao disse no primeiro dia da reunião anual Congresso Nacional do Povo (equivalente ao Parlamento, na estrutura de estado da China) que a meta de crescimento para 2012 ficará nos 7,5%, pela primeira vez abaixo do teto do “baoba” (o mágico número 8).

A revisão em baixa da taxa de crescimento do PIB provocou um efeito de stresse imediato nos activos ligados aos sectores de commodities, cuja dinâmica está hoje fortemente dependente das importações chinesas. Os países dependentes da exportação para a China terão de reavaliar a sua estratégia.
Bolsas quebram

Segundo dados da Bloomberg, as bolsas mundiais (índice MSCI World) caíram na segunda-feira 0,61% e a capitalização bolsista do sector financeiro (índice MSCI World Financials) diminuiu 0,8%. Mas o maior impacto ocorreu com a capitalização bolsista dos produtores de commodities (índice World Commodity Producers) que desceu 1,04%.

Este anúncio surge no meio de uma controvérsia que está a dominar os media chineses em torno dos benefícios e dos malefícios do que é designado, por alguns, como “capitalismo de Estado”, bem como sobre o “modelo” de crescimento do futuro, mantendo a matriz exportadora até ao limite ou enveredando por uma estratégia mais equilibrada.

Esta reunião anual do Congresso Nacional assume importância por se realizar seis meses antes do Congresso do Partido Comunista da China em outubro, onde se procederá a uma mudança significativa no topo dos quadros dirigentes.

Um relatório do Banco Mundial sobre a China em 2030, publicado na semana passada, trouxe algumas achas para o debate interno. Pela primeira vez o Banco Mundial produziu um estudo em conjunto com o Centro de Investigação e Desenvolvimento (CID) do Conselho de Estado da China (o conselho de ministros). Nas 468 páginas, o relatório alerta para que a China evite ficar prisioneira de uma armadilha, a de “um país de rendimento médio”. Esta armadilha conduziria a China para uma tendência de abrandamento da economia no longo prazo. O Banco Mundial e o CID propõem estratégias para que a China se transforme no horizonte de 2030 em uma “sociedade de alto rendimento” (per capita).

Seis estratégias para evitar uma armadilha

“O relatório recomenda seis estratégias para os próximos vinte anos, diz-nos Xu Hongcai, professor de Finanças na Universidade de Pequim e diretor no China Center for International Economic Exchanges, um dos grupos de reflexão (think tanks) mais importantes do país. “A primeira estratégia é repensar o papel do Estado e do sector privado par encorajar mais concorrência na economia. A segunda, é encorajar a inovação e adotar um sistema aberto de inovação com ligações à investigação global e às redes de desenvolvimento. A terceira, é dar atenção ao desenvolvimento ‘verde’, como uma enorme oportunidade de crescimento. A quarta, é promover a igualdade de oportunidades e a proteção social. A quinta, fortalecer o sistema fiscal e melhorar a sustentatibilidade orçamental. Finalmente, assegurar que a China continua a sua integração nos mercados globais”. Segundo o especialista chinês, o momento atual é o indicado para acelerar estas reformas.

Uma corrente dentro da China insiste na importância de prosseguir as reformas face a um lóbi poderoso que se consolidou. “A política da taxa de juro real negativa foi implementada nos últimos dois anos com resultados na depreciação das poupanças. As empresas detidas pelo estado agarraram lucros de monopólio gigantes, mas pagaram dividendos escassos. Além do mais, os rendimentos da população civil não acompanharam o passo do crescimento económico”, conclui Xu Hongcai, em declarações ao Expresso no primeiro dia de abertura do Congresso Nacional Popular.

Os media privados apontam o dedo claramente ao “capitalismo de Estado”. “Há duas escolas de pensamento na China a propósito do capitalismo de Estado”, afirma Hu Shuli, a reitora da Escola de Comunicação e Design da Universidade de Sun Yat-sen, em Cantão, e editora do semanário “Century Weekly”, do grupo de media Caixin, que esta ex-guarda vermelha dos anos 1960 criou com um grupo de investidores em 2010. O artigo foi publicado em inglês no South China Morning Post, que se publica em Hong Kong.

A força motriz da China

As duas linhas de pensamento, segundo Hu Shuli, são claras. “Um grupo de académicos discorda que o capitalismo de Estado seja a razão para os sucessos da economia chinesa. A força motriz foi a dinâmica de mercado desencadeada por 30 anos de reformas rurais, pelo crescimento do sector privado, e pela política de abertura, de globalização”, refere a editora chinesa.

O grupo oposto à prossecução da dinâmica dos últimos 30 anos desenvolveu-se nos últimos dez anos: “A China assistiu a um renascimento do capitalismo de estado como parcela de um desenvolvimento muito amplo do mercado. Mas não pode ser a corrente dominante e não pode ser a meta”. E, mais adiante: “A evidência empírica mostra repetidamente que o capitalismo de Estado é menos eficiente do que o capital privado”. “Se não for efetivamente controlado, o capitalismo de Estado da China pode tornar-se um capitalismo de compadrio”, prossegue Hu Shuli, que conclui com veemência. “Trata-se de grupos de interesse especiais que atuam como actores de mercado e a sua presença distorce o mercado. (…) O capitalismo de Estado deve ser forçado a sair das indústrias competitivas. (…) Se o nosso passo reformista continuar atrás da expansão do capital estatal, começaremos, em breve, a ouvir falar não do crescimento, mas da crise, do capitalismo de Estado”.