Qui 9 Fev 2012
8 de fevereiro: Insólito — o efeito negativo de uma colocação sindicada de dívida em Espanha — diário de bordo 545
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Insólitos da criseainda sem comentários
Desde o início de fevereiro, como temos referido, o comportamento das yields (juros) das obrigações espanholas tem indicado uma subida em todos os prazos.
A 31 de janeiro, os juros das obrigações espanholas (OE) a 10 anos – que são usados como referência nas comparações entre países – estavam em 4,97%; ontem fecharam em 5,07% e hoje dispararam para 5,24% às 10H30, segundo dados da Bloomberg. Acabaram por fechar em 5,22%, representando uma variação diária de 3%.
O prémio de risco (spread) entre os juros da dívida espanhola a 10 anos e os juros dos Bunds – os títulos alemães, que servem de referência – com o mesmo vencimento subiram de 3,187 pontos percentuais a 31 de janeiro para 3,24 pontos percentuais no fecho de hoje.
Os analistas espanhóis referem o encurtar de distância entre Itália (que esteve sob maior stresse nos últimos meses) e Espanha. Os juros a 10 anos dos títulos italianos (BTP) fecharam em 5,58% e o prémio de risco da dívida italiana fechou em 3,60 pontos percentuais. A maior proximidade verifica-se sobretudo nos juros dos títulos com vencimentos a 2 e a 3 anos: 2,70% e 3,14% para as OE, e 2,97% e 3,44% para os BTP.
Face ao movimento geral de baixa do risco de incumprimento entre os “periféricos” da zona euro (com destaque para Portugal), apenas Grécia e Espanha foram exceção, segundo dados da CMA DataVision. A probabilidade de default da dívida espanhola subiu para 26,39%, enquanto o risco da dívida italiana desceu para 27,59% (o que levou à saída de Itália do “clube da bancarrota”, o TOP 10 dos países com maior risco de incumprimento).
Colocação sindicada de €4 mil milhões
O disparo de hoje, deteriorando a situação da dívida espanhola, deveu-se ao anúncio surpresa de que o Tesouro espanhol decidiu convocar pela manhã um grupo de bancos – Barclays Capital, BBVA, Deutsche Bank, Goldman Sachs, Santander e Société Générale – para uma colocação sindicada de ampliação da emissão de OE a 10 anos realizada em 19 de janeiro, quando arrecadou €3 mil milhões.
Trata-se de uma colocação com um cupão (taxa anual que se aplica ao valor nominal para apurar o montante do rendimento da obrigação) de 5,85% onde o Tesouro espanhol acabou por arrecadar €4 mil milhões, muito mais do que o previsto que variava num intervalo entre €2 mil e €3 mil milhões.
Estas colocações sindicadas dirigem-se a um pequeno grupo de bancos que recebem ordens diretas de investidores, que habitualmente não vêm aos leilões de dívida, às emissões de dívida pelo Tesouro no mercado primário. E, segundo dados do Tesouro, teve uma procura do dobro do arrecadado.
O Tesouro espanhol aproveitou, desde o início do ano, uma janela de oportunidade de descida dos juros da dívida fruto das disponibilidades de liquidez proporcionadas aos bancos pelo Banco Central Europeu através da linha LTRO a 3 anos. Madrid já colocou 25% das necessidades de financiamento de todo o ano. A estratégia de colocação desta emissão sindicada insere-se na mesma “pressa”, mas o cupão de quase 6% deu sinal negativo aos investidores.