Portugal manteve esta semana a tendência de descida nas yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) no mercado secundário e na probabilidade de incumprimento da dívida soberana (risco de default).

Tal como o mercado secundário da dívida e o mercado dos seguros contra o risco de incumprimento (credit default swaps, acrónimo cds) sinalizaram um disparo no final de janeiro, agora sinalizam uma dissociação do andamento do processo grego e inclusive uma evolução a contra corrente do que sucede com outros “periféricos” da zona euro.

O trilho irlandês ou o trilho grego?

As interrogações que ficam são estas: a dissociação vai consolidar-se, afastando Portugal definitivamente do trilho grego? Iremos assistir a um processo de melhoria similar ao que ocorreu com a Irlanda a partir de 18 de julho de 2011?

No caso irlandês verificou-se uma descida brutal que levou os juros a 9 anos a cair dos picos de então em 15,51% para os 7% atuais (mesmo assim um nível ainda considerado insustentável para a dívida de longo prazo).

No mesmo período em que a Irlanda operou aquela melhoria, o risco português de entrada em incumprimento da sua dívida soberana subiu de 65% a 18 de julho de 2011 para um máximo de 73,32% em 30 de janeiro de 2012 e de 12,67% para um máximo de 17,39% nos juros das obrigações do Tesouro a 10 anos naquele mesmo período.

A quebra muito recente nos níveis de juros é significativa, se tomarmos para comparação os máximos de 30 de janeiro. Os juros das OT a 2 anos desceram de 21% no final do mês passado para 14,48% no fecho de hoje; os das OT a 3 anos de 24,5% para 15,89%; os das OT a 5 anos de 22,87% para 15,75%; os das OT a 6 anos de 22,87% para 15,85%; e os das OT a 10 anos de 17,39% para 12,48%, segundo dados da Bloomberg. O nível dos juros está hoje sensivelmente numa posição similar à do período entre agosto e novembro de 2011.

Fruto desta melhoria da situação de crédito, o prémio de risco (o spread entre os juros das OT e os juros dos Bunds, os títulos alemães, no prazo a 10 anos) baixou de 11,49 pontos percentuais para 10,57 pontos percentuais.

O mesmo movimento de descida se verificou na probabilidade de incumprimento (risco de default) da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos. Fechou a semana em 61,46%, segundo dados da CMA DataVision. Há sete dias fechara em 65,14%. A 30 de janeiro atingira o máximo de 73,32%. Descida similar no que é designado por “pontos à cabeça” (points upfront, uma medida do pagamento à cabeça de quem recorre à compra de cds) – de 43 pontos no pico a 30 de janeiro para 33,5 hoje. Em termos de comparação, os “pontos à cabeça” para os cds da dívida grega estão em 65 pontos.

Apesar desta descida, o risco de default da dívida portuguesa continua a colocar Portugal em segundo lugar, logo a seguir à Grécia (com um risco de 86,5%), no TOP 10 dos países com maior probabilidade de incumprimento (“clube da bancarrota”). A distância do risco português em relação ao risco da dívida paquistanesa é de mais de 15 pontos percentuais, e em relação ao risco irlandês há um fosso de quase 23 pontos percentuais.

Foco em Espanha e na Itália

O caso de Espanha foi sinalizado ao longo da semana. Os juros das obrigações espanholas (OE) subiram hoje muito acentuadamente nos prazos a 2 e a 3 anos. A evolução dos vários prazos foi a seguinte entre sexta-feira da semana passada e o fecho hoje: de 2,58% para 2,85% nos juros de OE a 2 anos; de 3,04% para 3,3% no caso a 3 anos; de 3,65% para 3,94% no caso a 5 anos; e de 4,99% para 5,3% no caso a 10 anos.

Um dos aspetos que tem sido sublinhado é a “aproximação” da situação espanhola à italiana. No prémio de risco é muito visível no fecho de hoje: 3,4 pontos percentuais para o caso de Espanha e 3,7 pontos percentuais para o caso de Itália.

A distância entre os dois países alargou-se hoje, porque os juros dos títulos do Tesouro italiano (BTP) também subiram, particularmente nos prazos a 2 e a 3 anos, tal como aconteceu com as OE. De qualquer modo, apesar deste stresse, os juros dos BTP a 10 anos estão longe do limiar crítico dos 7% – fecharam hoje em 5,46%. Acrescente-se que o movimento de subida atingiu esta sexta-feira, também, a Bélgica, a França e a Hungria (que não é membro da zona euro).

A Itália conserva o 10º lugar no referido TOP 10 com um risco de 28,7%, enquanto Espanha se mantém fora.

Mais um dia de stresse nos grandes bancos

Dez bancos mundiais estiverem hoje sob stresse no mercado dos cds ligados às suas dívidas, com subidas superiores a 5% no preço daqueles derivados financeiros. Ontem haviam sido cinco.

A situação de maior subida ocorreu com o Royal Bank of Scotland, com uma variação de mais de 12% no preço dos cds para a sua dívida. Seguiram-se, com variações diárias de dois dígitos, o Deutsche Bank e o Bank of Scotland.

Com variações em alta no preço dos cds entre 5% e 9,6% estiveram hoje, por ordem decrescente da variação, o Lloyds, Santander, Barclays, Goldman Sachs, Crédit Agricole, Unicredit e Bank of America.