Janeiro 2012


Foi uma subida muito significativa num só dia – um agravamento da probabilidade de incumprimento de quase três pontos percentuais num horizonte de cinco anos. Este risco fechara na sexta-feira passada em 70,53% e ascendeu segunda-feira a 73,32%, segundo dados da CMA DataVision, com base nas variações que ocorrem no mercado dos seguros a 5 anos contra o risco de incumprimento, designados por credit default swaps (acrónimo cds).

O custo destes cds ultrapassou segunda-feira a barreira dos 1500 pontos base, tendo fechado em 1554,69 pontos base. A Grécia galgou essa barreira dos 1500 pontos em 27 de abril de 2011 e ultrapassou o nível de 70% de risco em 24 de maio do ano passado.

A 30 de dezembro de 2011, o risco de default português estava em 60,86% e o custo dos cds em 1081,82 pontos base. Em final de maio do ano passado – mês em que foi assinado o memorando de entendimento com a troika para o resgate a Portugal – o risco era de 43,82% e o custo dos cds era de 699,36 pontos base.

Uma diferença que se encurta, um fosso que se amplia

Ainda que, em termos de custo dos cds, o fosso entre a Grécia e Portugal seja grande – 5428,77 pontos base contra 1554,69 -, a diferença no nível de risco tem encurtado significativamente: está a pouco mais de dez pontos percentuais, entre 73,32% para o caso português e 83,52% para o caso grego.

Se, por um lado, a diferença se tem encurtado face à Grécia – o primeiro país da zona euro a ser resgatado -, por outro tem-se ampliado face à Irlanda – o segundo país a ser resgatado. O risco da dívida portuguesa é 1,8 vezes superior ao caso da Irlanda.

Um outro indicador que começou este mês a ser divulgado pela agência de informação financeira Markit é o que diz respeito aos “pontos à cabeça” (points upfront, na designação original em inglês) que dizem respeito aos cds relacionados com a dívida soberana portuguesa, que variam numa escala de 1 a 100. Tendo iniciado na semana passada com 39 pontos, subiu esta segunda-feira para 41 (no caso grego estão em 64 pontos). Como sublinha o The Wall Street Journal este indicador está reservado para “investimentos particularmente arriscados”. No caso grego, os pontos à cabeça começaram a ser publicados pela Markit desde setembro, como temos referido.

Esta segunda-feira observou-se uma subida generalizada do risco para a Irlanda, Itália, Espanha, Bélgica, França e Áustria, tal como para Portugal e Grécia. Portugal liderou hoje as subidas.

O mercado dos cds para os bancos esteve também muito agitado. Oito bancos importantes na Europa tiveram variações do custo dos cds a 5 anos associados à sua dívida superiores a 5%. E quatro, de entre eles, tiveram variações superiores a 10%. A liderar as subidas o Crédit Agricole francês, seguido do Deutsch BanK alemão, do Barclays britânico e do Santander espanhol.

Máximos históricos nos juros no mercado secundário

Nas yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português no mercado secundário, as subidas abrangeram todas as maturidades, com variações diárias de dois dígitos, com destaque para os juros a 2 anos que tiveram um aumento hoje de 22,3%, segundo dados da Bloomberg.

Os juros das OT com prazos de 2, 3, 5 e 6 anos estão já acima do patamar dos 20%, com destaque para os juros a 3 anos que fecharam em 24,48%. Os juros a 10 anos fecharam em 17,39%. Em todas estas maturidades se fixaram novos máximos históricos desde a adesão ao euro.

Segundo a Markit, citando traders do mercado secundário, o Banco Central Europeu teria estado esta segunda-feira muito ativo comprando títulos da dívida portuguesa através do seu programa SMP. Contudo, não foi visível o impacto desta intervenção nas yields, que fixaram novos máximos.

O jornal Financial Times divulgou esta madrugada um documento que contém as duas condições fundamentais para o segundo pacote de resgate à Grécia passar no Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças dos membros da zona euro) e ter o visto positivo da troika, com vista à sua implementação. O documento estará a circular entre os ministros das Finanças dos membros da zona euro. Na próxima segunda-feira reúne uma cimeira europeia informal.

A primeira é que os rendimentos do estado grego deem total prioridade ao pagamento futuro do serviço da dívida. E a segunda que o parlamento grego transfira a soberania sobre o orçamento do país. O documento apelida as condições para este segundo Memorando de Entendimento (MoU, no acrónimo em inglês) como “elementos de inovação institucional”. E conclui: “Só se e quando forem implementadas, o novo programa poderá começar”. O documento pretende que as duas condições, classificadas como “mecanismo de vigilância”, passem a documento legal, “de preferência através de uma emenda constitucional”. As exigências são atribuídas a um diktat da Alemanha.

A primeira condição dita que os rendimentos do estado são para ser usados prioritariamente para pagar o serviço futuro da dívida contraída junto dos emprestadores internacionais (a troika) e dos credores privados que assinarem o acordo de reestruturação da dívida. “Só o remanescente poderá ser usado para financiar os gastos primários”, escreve-se. O objetivo da medida: “a eliminação de facto da possibilidade de incumprimento”, ou do uso da ameaça política de incumprimento por parte do governo grego. O documento exige que o Parlamento grego apoie esta exigência e que a torne lei.

A segunda condição é que o ajustamento, – a consolidação orçamental – seja controlado por novas disposições, em que a sua soberania é transferida para “o nível europeu por um certo período de tempo”. Para o efeito um “comissário do orçamento” será nomeado pelo Eurogrupo, com poderes para vetar decisões e assegurar que é cumprida a prioridade estabelecida na primeira condição.

Deitar gasolina para a fogueira

Vários analistas estão a interpretar estas exigências como um encostar à parede do governo e do parlamento gregos e um convite a este membro da zona euro sair da moeda única, além de outras eventuais consequências políticas.

A divulgação deste documento surge no momento em que as negociações entre Atenas e os credores privados da dívida ainda prosseguem, em virtude de um braço de ferro entre as exigências da última reunião do Eurogrupo de segunda-feira passada e os limites até à data aceitáveis pelos credores privados, e em que as reuniões entre a troika e o governo de Atenas sobre o andamento do cumprimento do Memorando de Entendimento chegaram a uma rotura na sexta-feira em torno de dois pontos politicamente sensíveis: o corte do salário mínimo (que é de €863 por mês, se o valor anual for dividido por 12 meses), alegando que é “mais alto do que em Portugal [€566*] e em Espanha [€748]“, e a eliminação de dois subsídios equivalentes a mais dois salários anuais no sector privado. Segundo o jornal grego Kathimerini, a troika teria inclusive rejeitado as propostas alternativas feitas pelos sindicatos e pelas patronais gregas.

Nota:* Na mesma lógica de valor mensal se o valor anual for dividido por 12 meses. O salário mínimo em Portugal é de €485 mas multiplicado por 14 meses.

Agenda grega

A Grécia tem um momento crítico em março quando vencem €14,5 mil milhões da dívida. Para evitar um evento de crédito nesse momento, o acordo com os credores privados deverá ser firmado antes de 15 de fevereiro, disse ontem o ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos.

O primeiro-ministro grego, o “tecnocrata” Lucas Papademus, reúne ainda sábado com a troika e no domingo com os líderes políticos que suportam a coligação tripartida que deu forma ao governo. Segunda-feira reúne-se em Bruxelas a cimeira europeia informal. As negociações sobre o acordo de reestruturação da dívida prosseguem na próxima semana. Eleições legislativas estão previstas para abril.

Nas últimas duas semanas, a probabilidade de incumprimento (risco de default) da dívida portuguesa não tem parado, desde que galgou o patamar dos 65% a 17 de janeiro.

A meio da manhã de sexta-feira, o risco de default num horizonte de cinco anos atingiu um pico de 70,9%, segundo os dados intercalares da CMA DataVision. No novo relatório da situação, ao final da manhã, o risco descera ligeiramente para 70,47% e chegara mesmo a um mínimo de 69,90%, para voltar a subir e fechar em 70,53%.

A continuação das negociações em torno da reestruturação parcial da dívida grega, ainda sem acordo, e a decisão da agência Fitch de proceder ao corte de notação de cinco países da zona euro, entre eles Itália e Espanha, duas grandes economias “periféricas”, pesou no clima de final do dia no mercado dos credit default swaps (cds).

A título de exemplo, a Grécia, que atravessa uma situação de alto risco de um evento de crédito (eventualmente um default selectivo),está com a probabilidade de incumprimento em 82,51%, apenas cerca de 12 pontos percentuais acima.

O fosso em relação à Irlanda, o terceiro país da zona euro com um plano de resgate, é, agora, de quase trinta pontos percentuais. Ou seja, a diferença entre o segundo lugar para Portugal no TOP 10 da bancarrota e um sétimo lugar para a Irlanda. A Grécia, naturalmente, continua a liderar esse “clube”.

Pela primeira vez, o custo dos credit default swaps a 5 anos- seguros contra o risco de incumprimento, conhecidos pelo acrónimo cds – esteve a meio da manhã acima de 1450 pontos base. Ao final da manhã, desceu ligeiramente para 1436,17 pontos base e viria a fechar o dia em 1436,87 pontos base. O que significa que por cada 10 milhões de dólares segurados contra o risco de default, o tomador do seguro tem de pagar cerca de 1,44 milhões de dólares de prémio.

Em sete dias o que a Grécia percorreu em um mês

A evolução ao longo de janeiro é elucidativa: o risco de incumprimento fechou o primeiro dia de negociação do ano com 60,6% e 1075 pontos base de custo dos cds e ontem fechou com 68,69% de risco e 1365,30 pontos base.

A Grécia galgou a barreira dos 65% a 18 de abril de 2011 e o patamar dos 70% foi atingido a 24 de maio do mesmo ano. O que a Grécia fez em um mês, Portugal percorreu em sete dias úteis.

Pela primeira vez, a agência de informação financeira Markit, refere que os cds para a dívida portuguesa a 5 anos já estão a receber cotações em “pontos à cabeça” (points upfront, na designação técnica), ou seja, o tomador de um cds tem de pagar à cabeça um certo valor em função de uma escala que vai de 0 a 100. Nessa escala, segundo a Markit, os cds soberanos estavam com uma cotação de 39 pontos à cabeça, enquanto a Grécia estava com 63,1.

As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português fixaram hoje novos máximos históricos desde a adesão ao euro nos prazos a 3, a 5 e a 10 anos, segundo dados da Bloomberg. Os juros subiram em todas as maturidades, e no prazo a 6 anos ficaram ligeiramente abaixo do máximo fixado ontem.

Os juros das OT a 3 anos atingiram pela primeira vez os 21%, fechando em 21,11%, acima do máximo anterior de 20,9% de 18 de julho do ano passado. O stresse nestes prazos menores está de novo a afirmar-se. No caso das OT a 2 anos, os juros subiram para 17,18%, ainda a alguma distância do máximo de 20,36% em 18 de julho do ano passado.

Quanto aos juros das OT a 5 anos fixaram um novo máximo em 19,82%. O caso mais emblemático ocorreu hoje com os juros das OT a 10 anos, que, em geral, servem de referência para comparações – pela primeira vez fecharam acima da barreira dos 15%, em 15,22%. A 2 de janeiro, no primeiro dia de negociação do ano, fecharam em 13,36%.

Já depois do fecho do mercado secundário da dívida na sexta-feira (27 de janeiro), a agência de notação Fitch anunciou o corte de rating de cinco países da zona euro e a colocação em perspetiva negativa (ou seja 50% de probabilidade de haver novo corte num horizonte de dois anos) de seis países da moeda única.

Apesar dos cortes de notação nenhum dos cinco países foi colocado em situação de dívida especulativa (vulgo junk status, o que costuma ser traduzido por “lixo”) – o Chipre escapou a descer para esse nível, passando de BBB para BBB- e a Irlanda não levou nenhum corte, mantendo-se em BBB+.

Itália e Espanha em foco

A Espanha desceu de escalão, do duplo A para o A simples, mais especificamente de AA- para A, uma quebra de dois níveis. No caso de Itália, a baixa foi, também, de dois níveis dentro do escalão A – Roma viu a notação da dívida passar de A+ para A-.

As razões para estes dois cortes mais importantes prendem-se à dinâmica da dívida em Itália e às perspetivas negativas económicas e orçamentais de Espanha.

Estes dois casos – Espanha e Itália – indiciam que o stresse no mercado secundário vai ampliar-se, podendo vir a exigir ainda mais atenção do Banco Central Europeu através do seu programa de aquisição de títulos soberanos aflitos, conhecido pela sigla SMP. O que deixará menos margem de manobra para acudir a outros fogos.

A Fitch cortou, ainda, a notação da Bélgica de AA+ para AA e da Eslovénia de AA- para A (neste caso com descida de escalão do duplo A para o A simples).

A agência de notação, dominada por um grupo financeiro francês, decidiu colocar em perspetiva negativa os seis países acima referidos.

Episódios de volatilidade severa vão continuar

A Fitch analisa o contexto global da zona euro mencionando que a sua apreciação se aplica também a França (que ainda mantém o triplo A, na classificação desta agência) e a Portugal (que está classificado com BB+, já em terreno de dívida especulativa).

Diz a agência: “Na ausência de maior clareza sobre a estrutura final de uma zona euro reformada no fundamental, a abordagem gradualista, adotada pelos políticos [europeus] em relação à reforma sistémica, continuará a ser pontuada por episódios de volatilidade financeira severa, acarretando um custo económico e financeiro que provoca uma erosão na qualidade de crédito das dívidas soberanas. Significa, também, que uma ‘fragmentação’ da zona euro não pode ser totalmente colocada de parte, ainda que, na opinião da Fitch, o risco de uma eventualidade dessas continue diminuto”.

A agência não mexeu na classificação de triplo A da Alemanha, Áustria, Finlândia, França, Holanda e Luxemburgo, deixando os suportes do Fundo Europeu de Estabilização Europeia intactos. Ao contrário do que fez a 13 de janeiro a Standard% Poor’s que cortou o triplo A a França e Áustria.

Acto I matinal: As yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) português estão em alta em todas as maturidades no mercado secundário. Nos prazos de 5, 6 e 10 anos já fixaram máximos intradiários. Veremos como fecham ao final do dia.

Os juros das OT a 6 anos (este prazo é a maturidade média da dívida soberana) atingiram um máximo, situando-se em 20,1%, segundo dados da Bloomberg, ao final da manhã.

Também, ao final da manhã, os juros das OT a 5 anos estão em máximos, ao atingirem 19,63%, e os juros das OT a 10 anos subiram para 14,98%, um novo máximo.

Os juros das OT a 3 anos subiram ao final da manhã para 20,85%, aproximando-se do máximo de 20,95% atingido em meados de julho de 2011.

Acto II: A probabilidade de incumprimento (default) da dívida portuguesa continua a bater recordes – subiu, ao final da manhã, segundo o balanço das 12H30 da CMA DataVision, para 67,69%, e ao final da tarde disparou para 69,4%. Acabaria por fechar em 68,69%, um novo máximo em valor de fecho, no último balanço do dia daquela agência de informação financeira. Na quarta-feira fechara em 67,05%.

Portugal liderou quinta-feira as subidas no indicador de probabilidade de default em mais de oito dezenas de países monitorizados pela CMA DataVision.

O custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida a 5 anos) atingiu um pico de 1390,37 pontos base ao final da tarde, e acabou por fechar em 1365,30 pontos base, um novo máximo de fecho.

Depois de ter ultrapassado esta semana a barreira dos 1300 pontos base – que fez notícia nos media financeiros mundiais -, o custo dos cds aproxima-se, agora, de novo patamar.

No mercado secundário da dívida, as yields (juros) das obrigações do Tesouro fixaram novos máximos nos prazos a 5, a 6 e a 10 anos, com valores de fecho de 19,45%, 20,37% e 14,8% respetivamente, segundo dados da Bloomberg.

Dublin surpreendeu quarta-feira (25 de janeiro) os mercados com o anúncio de uma oferta de troca de títulos soberanos a 2 anos no âmbito de uma dívida de €11,8 mil milhões que vence em janeiro de 2014. Os novos títulos têm a maturidade alargada para fevereiro de 2015. O Tesouro irlandês folgaria as costas um ano e um mês.

A National Treasury Management Agency (NTMA), que gere a dívida soberana, conseguiu convencer os detentores destes títulos num montante de €3,5 mil milhões. Dublin já não ia ao mercado da dívida desde setembro de 2010. A NTMA considerou positivo o facto de que 1/3 dos detentores dos títulos, em termos de valor, tenha aceitado a troca.

Os mercados da dívida encararam este resultado positivamente, diz a agência de informação financeira Markit. A probabilidade de default do ex-tigre celta baixou para 41,5% quinta-feira de manhã (no início da semana estava em 43%) e o custo de segurar contra o risco de incumprimento baixou para 620 pontos base, o nível mais baixo desde maio do ano passado.

O que o Tesouro irlandês propôs aos credores foi trocar títulos com prazo a 2 anos, que terminavam no começo de 2014, com um cupão de 4%, por novos títulos com prazo um ano depois com um cupão mais elevado, de 4,5%.

Um modo pouco ortodoxo, diz Constantin Gurdgiev (Trinity College)

“Não se trata de uma reestruturação de dívida. É um modo pouco ortodoxo de estender uma maturidade para evitar algo fundamental em 2014: um pico de títulos a vencer. Com a troca, empurram uma parte da maturidade para 2015″, diz-nos Constantin Gurdgiev, professor no Trinity College, em Dublin.

O contexto da manobra é simples, explica Gurdgiev: “A Irlanda verá o pacote de resgate da troika terminar no final de 2013 e enfrenta logo no ano seguinte e em 2016 vencimentos de dívida em montantes elevados. Como nada garante que a Irlanda consiga ir ao mercado nessa altura, realizou esta operação”. E conclui: “A meu ver é um sinal de que o governo irlandês está cada vez mais ciente de que em 2014 não terá a vida fácil em obter financiamentos no mercado”.

Os economistas irlandeses esperam pelos resultados da análise de sustentabilidade da dívida soberana do país realizada regularmente pelo Fundo Monetário Internacional, que deverá ser divulgada dentro de algumas semanas.

Por mais paradoxal que pareça, o país que está à beira de uma bancarrota externa, a Grécia, tinha uma dívida total que era, apenas, 267% do seu produto interno bruto (PIB) em meados do ano passado. O que é quase uma ninharia comparada com 663% do PIB para o caso da Irlanda e 507% para o Reino Unido, segundo uma comparação entre oito países da União Europeia, realizada pelo McKinsey Global Institute (MGI) no seu recente relatório “Debt and deleveraging”, publicado este mês.

A dívida total portuguesa era de 356% do PIB e, neste grupo de oito, ficou em 4.º lugar, depois da Irlanda, Reino Unido e Espanha (com 363% do PIB). Em melhor posição do que Portugal, ficaram França (com 346%), Itália (com 314%), Alemanha (com 278%) e Grécia (com 267%).

Por dívida total entende-se a dívida de famílias, empresas, entidades financeiras e governo. Os dados referem-se ao segundo trimestre de 2011 e, no caso português, irlandês e italiano, ao primeiro trimestre do ano passado.

No caso da Grécia, o elo mais fraco da zona euro que conduziu ao trilho da bancarrota externa, é a dívida pública, que representava 132% do PIB, mais do que a italiana que pesava 111% ou a francesa que pesava 90%. Nesta comparação, a dívida pública portuguesa pesava 79%.

Os dois países com a situação mais grave em termos de endividamento das entidades financeiras em relação à riqueza criada no país são a Irlanda e o Reino Unido.

As entidades financeiras irlandesas deviam 259% do PIB e as britânicas 219% do PIB. No caso das portuguesas a dívida é apenas de 55% do PIB. A melhor situação é a grega (7%).

No caso do endividamento das empresas, as duas piores situações são a irlandesa, com 194% do PIB, e a espanhola, com 134%. Nesta divisão do endividamento, Portugal vem logo em terceiro lugar, com a dívida das empresas a pesar 128%. A melhor situação é a alemã (49%).

Finalmente, no campo do endividamento das famílias, a pior situação é, uma vez mais, a irlandesa, com 124% do PIB, logo seguida do Reino Unido, com 98%, e de Portugal, com 94%. As melhores situações são as de Itália (apenas 45% do PIB) e de França (48%), com uma riqueza líquida das famílias sólida a nível europeu.

A título de exemplo, realizando uma comparação com o estudo anterior da consultora (publicado em janeiro de 2010), verificamos movimentos interessantes em três casos simbólicos para os quais há dados comparáveis em dois momentos distintos desta crise em curso. Em Itália o peso do endividamento do governo aumentou dois pontos percentuais do PIB e o das famílias quatro pontos percentuais; nos outros segmentos houve desalavancagem. Em Espanha, apenas aumentou o peso do endividamento do governo, em 15 pontos percentuais do PIB. No Reino Unido, aumentou 22 pontos percentuais do PIB o endividamento do governo e 25 pontos percentuais o endividamento das entidades financeiras.

Em resumo, sobre Portugal, avaliando a relação com a riqueza criada anualmente, nesta amostra de oito países “periféricos” e do “centro” da União Europeia: 4.º na dívida total; 3.º na dívida das empresas; 3º na dívida nas famílias; 7.º na dívida pública; 7.º na dívida das entidades financeiras. Comparativamente, as situações mais graves são ao nível das empresas e das famílias. Deduz-se que são os “segmentos” onde a desalavancagem vai ser mais violenta.

O estudo do MGI pretende avaliar o esforço de desalavancagem da dívida total em dez países do mundo (Japão, com o maior peso da dívida no PIB, neste grupo, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Canadá, por ordem decrescente de peso da dívida no PIB).

O ministro das Finanças nipónico anunciou hoje em Tóquio que, pela primeira vez desde 1980, a terceira maior economia do mundo fechou 2011 com um défice equivalente a cerca de €25 mil milhões.

Os efeitos do tremor de terra e do tsunami sobre a produção, a exportação (automóveis desceram 10,6% e eletrónica 14,2%) e o fornecimento de energia com base no nuclear, bem como a valorização do iene (9,2% em relação ao dólar) e o aumento do preço do petróleo (21,3%) são os responsáveis por este mau resultado. A valorização do iene tem provocado, também, a deslocalização da produção para outros pontos do globo.

Em 1980, o défice comercial japonês atingiu um recorde, até hoje não superado – 2,6 biliões de ienes; em 2011 foi de 2, 49 biliões. Em 2010, o Japão teve um excedente de 6,63 biliões de ienes.

O défice comercial com a China, o principal parceiro comercial, foi 5 vezes superior ao de 2010.

A taxa de juro de referência norte-americana (fed funds rate) fixada pela Reserva Federal (Fed, banco central) deverá manter-se “excecionalmente baixa” inclusive durante 2014.

Ben Bernanke, o presidente da Fed, decidiu estender esta estratégia monetária “altamente acomodativa” para além de meados de 2013, como inicialmente estava previsto. Apesar de reconhecer, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião, que a “capacidade [da Fed] para prever a 3 ou 4 anos é obviamente limitada”.

Anunciou a decisão hoje em Washington na sequência da reunião do Federal Open Market Committee. Apenas uma voz se levantou contra a explicitação do período – o presidente do Banco da Reserva Federal de Richmond, Jeffrey Lacker.

QE 3 “em cima da mesa”

A atual taxa de juro de referência situa-se entre 0% e 0,25%, em termos nominais, o que significa que, em termos reais, a taxa é negativa. Ou seja, a Fed empresta dinheiro, perdendo em termos reais, pois a previsão para a inflação ronda os 2%. Bernanke reconheceu, na conferência de imprensa, que esta estratégia de juros nominais próximos de 0% “prejudica os aforradores”.

Bernanke sinaliza aos investidores internacionais que a política de dinheiro barato se manterá num horizonte de quase três anos.

O presidente da Fed admitiu, ainda, que a opção por aquisição de títulos do Tesouro, o que tem sido designado de “alívio quantitativo” (já com dois programas) ou QE, no acrónimo em inglês, “está em cima da mesa”, caso a situação o exija.

Wall Street reagiu positivamente. Os índices Dow Jones e S&P 500 entraram em terreno positivo.

A previsão para o crescimento nos Estados Unidos em 2012 aponta, agora, para um intervalo entre 2,2% e 2,7%, uma ligeira revisão do anterior intervalo que apontava para 2,5%-2,9%.

Vento contrário sopra da Europa

Ben Bernanke, na conferência de imprensa que decorreu depois da reunião da Fed, declarou que tem observado “noticias encorajadoras na economia”, mas que não está preparado “para declarar que já entrámos numa nova fase mais forte”.

A razão principal: o “vento contrário” que sopra da Europa.

Por mais paradoxal que pareça, o país que está à beira de uma bancarrota externa, a Grécia, tinha uma dívida total que era, apenas, 267% do seu produto interno bruto (PIB) em meados do ano passado. O que é quase uma ninharia comparada com 663% do PIB para o caso da Irlanda e 507% para o Reino Unido, segundo uma comparação entre oito países da União Europeia, realizada pelo McKinsey Global Institute (MGI) no seu recente relatório “Debt and deleveraging”, publicado este mês.

A dívida total portuguesa era de 356% do PIB e, neste grupo de oito, ficou em 4º lugar, depois da Irlanda, Reino Unido e Espanha (com 363% do PIB). Em melhor posição do que Portugal, ficaram França (com 346%), Itália (com 314%), Alemanha (com 278%) e Grécia (com 267%).

Por dívida total entende-se a dívida de famílias, empresas, entidades financeiras e governo. Os dados referem-se ao segundo trimestre de 2011 e, no caso português, irlandês e italiano, ao primeiro trimestre do ano passado.

No caso da Grécia, o elo mais fraco da zona euro que conduziu ao trilho da bancarrota externa, é a dívida pública, que representava 132% do PIB, mais do que a italiana que pesava 111% ou a francesa que pesava 90%. Nesta comparação, a dívida pública portuguesa pesava 79%.

Os dois países com a situação mais grave em termos de endividamento das entidades financeiras em relação à riqueza criada no país são a Irlanda e o Reino Unido.

As entidades financeiras irlandesas deviam 259% do PIB e as britânicas 219% do PIB. No caso das portuguesas a dívida é apenas de 55% do PIB. A melhor situação é a grega (7%).

No caso do endividamento das empresas, as duas piores situações são a irlandesa, com 194% do PIB, e a espanhola, com 134%. Nesta divisão do endividamento, Portugal vem logo em terceiro lugar, com a dívida das empresas a pesar 128%. A melhor situação é a alemã (49%).

Finalmente, no campo do endividamento das famílias, a pior situação é, uma vez mais, a irlandesa, com 124% do PIB, logo seguida do Reino Unido, com 98%, e de Portugal, com 94%. As melhores situações são as de Itália (apenas 45% do PIB) e de França (48%), com uma riqueza líquida das famílias sólida a nível europeu.

A título de exemplo, realizando uma comparação com o estudo anterior da consultora (publicado em janeiro de 2010), verificamos movimentos interessantes em três casos simbólicos para os quais há dados comparáveis em dois momentos distintos desta crise em curso. Em Itália o peso do endividamento do governo aumentou dois pontos percentuais do PIB e o das famílias quatro pontos percentuais; nos outros segmentos houve desalavancagem. Em Espanha, apenas aumentou o peso do endividamento do governo, em 15 pontos percentuais do PIB. No Reino Unido, aumentou 22 pontos percentuais do PIB o endividamento do governo e 25 pontos percentuais o endividamento das entidades financeiras.

Em resumo, sobre Portugal, avaliando a relação com a riqueza criada anualmente, nesta amostra de oito países “periféricos” e do “centro” da União Europeia: 4.º na dívida total; 3.º na dívida das empresas; 3º na dívida nas famílias; 7.º na dívida pública; 7.º na dívida das entidades financeiras. Comparativamente, as situações mais graves são ao nível das empresas e das famílias. Deduz-se que são os “segmentos” onde a desalavancagem vai ser mais violenta.

O estudo do MGI pretende avaliar o esforço de desalavancagem da dívida total em dez países do mundo (Japão, com o maior peso da dívida no PIB, neste grupo, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha, Austrália e Canadá, por ordem decrescente de peso da dívida no PIB).

A probabilidade de incumprimento da dívida soberana atingiu quarta-feira, no fecho do mercado, 67,05%, um novo máximo. O custo dos seguros contra o risco de default fechou, pela primeira vez, acima dos 1300 pontos base. O que foi noticia mundial em tudo quanto é sítio.

A evolução do risco de incumprimento da dívida soberana ao longo do dia de quarta-feira (25 de janeiro) já apontava para que se atingisse um novo máximo.

No fecho do mercado da dívida, a probabilidade de incumprimento acabou por atingir os 67,05%, segundo dados da CMA DataVision. Na terça-feira havia fechado em 66,78%, o anterior máximo.

O custo dos seguros contra o risco de incumprimento – os designados credit default swaps, cds – da dívida portuguesa a 5 anos ultrapassou, pela primeira vez, ao final da manhã os 1300 pontos base, e acabou por fechar em 1304,86%. Aumentou 21% entre 3 de janeiro e hoje. A ultrapassagem do limiar dos 1300 pontos base foi hoje notícia em todos os principais media financeiros do mundo.

O que este número dos 1300 pontos base significa é que ronda os 1,3 milhões de dólares o prémio anual para segurar, contra um default, dívida soberana portuguesa a 5 anos no valor de 10 milhões de dólares.
Aflição de crédito

Recorde-se que, este mês, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa já fixou novos máximos nos dias 16, 18, 19, 24 e 25. O limiar dos 66% foi ultrapassado durante o dia 18 de janeiro e o limiar dos 67% esta quarta-feira (25 de janeiro). No caso grego, o limiar dos 66% e dos 1300 pontos base foi atingido a 18 de abril de 2011.

Neste frenesim de janeiro acumulam-se vários factos – desde o corte de notação da dívida portuguesa para nível especulativo pela Standard & Poor’s, ao recente artigo do Wall Street Journal sobre a probabilidade do Tesouro português não conseguir regressar ao mercado de dívida em 2013, até às próprias palavras do chefe da Confederação da Indústria Portuguesa apontando para a necessidade de um pacote adicional de €30 mil milhões em declarações na quarta-feira à Reuters.

Segundo a agência financeira Markit, em relação à dívida portuguesa há já “vários dealers [deste mercado dos cds] que, em vez [dos pontos base] do spread [como referido acima], estão a cotar [a dívida] em pontos à cabeça (points upfront)”, o que já vem acontecendo com os cds para a dívida grega desde setembro de 2011. Cotar com “pontos à cabeça” implica obrigar a pagamentos à cabeça nos contratos de cds por parte dos compradores deste tipo de seguros financeiros. Esta cotação à cabeça surge quando os spreads credultrapassam limiares muito altos. “O que é um indicador típico de aflição de crédito”, diz a Markit.

O movimento altista de hoje abrangeu, ainda, a Itália, que fechou com um risco de incumprimento de 31,77%, ligeiramente acima do valor de fecho de terça-feira, e Espanha que fechou em 27,88%, também ligeiramente acima do valor do dia anterior.

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