Outubro 2011


Enquanto se notou durante a tarde, no mercado secundário da dívida, uma inversão da tendência de subida nas yields (juros implícitos) das obrigações espanholas e dos títulos do Tesouro italiano e belga, o contrário sucedeu com os títulos alemães (Bunds), austríacos, franceses e portugueses.

Em particular, as yields dos Bunds tiveram hoje uma variação de subida na ordem dos 12% para as maturidades a 2 e 3 anos e na ordem dos 10% nas maturidades a 5 anos, segundo dados da Bloomberg. As yields dos Bunds a 10 anos subiram 5%. São variações muito significativas em todas as maturidades depois de na quinta-feira terem descido mais de 4%.

Situação portuguesa piora

Em relação ao início da semana, as yields das obrigações do Tesouro português subiram em todas as maturidades: de 17,26% para 17,92% nos prazos a 2 anos; de 16,57% para 17,26% nos prazos a 3 anos; de 14,49% para 15,20% nos prazos a 5 anos; e de 11,79% para 12,20% nos prazos a 10 anos.

A dívida pública grega que fechou em 2010 no nível de 142,8% do produto interno bruto (PIB) e que poderá atingir os 157,7% no final deste ano deverá chegar aos 181%, em 2012, caso a dinâmica atual se mantenha, segundo uma análise “estritamente confidencial” para o relatório da troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) que superintende o plano de resgate ao país.

O documento, ainda não publicado, foi produzido depois da análise das contas gregas no âmbito da autorização para a transferência da uma nova tranche de 8 mil milhões. Uma transferência que continua por fazer em virtude de uma postura de “falcão” do Banco Central Europeu, exigindo vagas sucessivas de medidas de austeridade num contexto de agravamento recessivo e de crise política e social. Entretanto, o Eurogrupo, reunido hoje à tarde em Bruxelas, deu luz verde à parte europeia (de €5,8 mil milhões) da transferência para Atenas.

O relatório, citado hoje pelo jornal Financial Times, refere que esta nova previsão do nível de dívida soberana no final do próximo ano está quase 15 pontos percentuais acima dos cálculos feitos em julho, que apontavam para 166,1% do PIB, e que constam nas previsões do Banco Central Europeu, no recente Occasional Paper nº 132, publicado na semana passada.

Envolvimento privado “mais ambicioso”

O documento refere que este agravamento das previsões se deve a três atrasos e uma bomba mais recente: o atraso na retoma (a Grécia deverá continuar em recessão em 2012, com uma previsão da queda do PIB em 2%, depois de uma queda provável de 5% em 2011), na consolidação orçamental (deverá haver este ano um desvio das metas no défice na ordem de €1,4 a 2 mil milhões) e no plano de privatizações (que estaria atrasado pelo menos 3 meses), bem como o impacto que vai ter a recapitalização da banca.

Com este disparo, a dívida pública grega distanciar-se-ia ainda mais, em 2012, dos níveis que serão atingidos pela Itália (previsão de 119,9% do PIB), Irlanda (117,9%) e Portugal (107,4%).

Face a este disparo, a troika recomendaria, por isso, a necessidade de inverter essa dinâmica, propondo uma reestruturação da dívida aos credores privados (o que tem sido designado de “envolvimento do sector privado”, conhecido pelo acrónimo PSI do inglês) “mais ambiciosa”.

Segundo um gráfico que está a correr a blogosfera, alegadamente extraído do referido relatório ainda confidencial, uma reestruturação parcial da dívida aos privados na ordem de 50% permitiria diminuir a dívida pública para 120% em 2020 e ligeiramente acima de 100% em 2030. Se o “corte de cabelo” (hair cut, na gíria técnica) for de 60%, esse nível poderá descer para 110% em 2020 e menos de 100% uma década depois.

Ainda segundo o Financial Times, um “corte de cabelo” de 60% permitiria manter o segundo pacote de resgate à Grécia – já aprovado na cimeira europeia de 21 de julho – no montante inicialmente previsto de €109 mil milhões. Mas se o corte for apenas de 50%, o pacote de resgate terá de subir para €114 mil milhões. Segundo o jornal britânico, o Banco Central Europeu opõe-se à divulgação destes cenários.

Refira-se que os credores privados detêm 65,4% da dívida soberana – 21% dos títulos de dívida nas mãos dos bancos gregos e cipriotas, 8% em mãos de instituições gregas não bancárias e fundos de pensões locais, e 36,4% em credores privados estrangeiros. Ao todo €226,5 mil milhões. A troika detém 34% da dívida soberana. Mas não admite reestruturar a dívida de que é credora. Até à data, apenas mexeu na taxa de juros e nos prazos.

O mercado secundário da dívida abriu hoje com as yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) dos títulos soberanos de todos os “periféricos” – Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha – em alta, agregando, também, a Bélgica e a França, segundo dados da Bloomberg.

Em destaque o caso das yields dos títulos do Tesouro italiano a 10 anos que se mantêm a subir acima da linha laranja dos 6%, que ontem ultrapassaram. As yields das obrigações espanholas a 10 anos estão, também, a subir no patamar dos 5%, tendo aberto em 5,53%.

No caso português, as yields das obrigações do Tesouro estão também em alta, tendo aberto com os seguintes valores: 17,9% para as OT a 2 anos; 17,2% para as OT a 3 anos; 15,09% para as OT a 5 anos; e 12,16% para as OT a 10 anos.

A probabilidade de incumprimento da dívida soberana – uma avaliação feita pela CMA DataVision sobre o risco de default num horizonte de cinco anos – abriu em alta nos cinco “periféricos” da zona euro.

Risco de default português acima de 62%

O risco de default português está, de novo, acima de 62% e a probabilidade de incumprimento para a Irlanda aproxima-se dos 50% (apesar do relatório positivo da troika sobre a aplicação do plano de ajustamento por Dublin, divulgado ontem). A pressão sobre Itália continua e Espanha voltou a re-entrar, hoje, no “clube da bancarrota” para o 10º lugar, desalojando, de novo, a Croácia.

O entra-e-sai de Espanha neste TOP 10 do risco mundial é um sinal claro dos problemas atravessados pelo país vizinho, à espera de eleições. Espanha havia saído do “clube” a 22 de setembro e reentrou a 18 de outubro, tendo saído de novo ao final desse dia.

O “clube da bancarrota” conta, agora, com cinco membros do euro: Grécia, que lidera com 91% de risco, Portugal em segundo lugar com 62%, Irlanda na 6ª posição com 49,5%, Itália no 8º lugar, com 33,1%, e Espanha no último, com 28,8%. Ao “clube” pertence, ainda, a Hungria, membro da União Europeia, mas não da moeda única. A Hungria está na 9ª posição, com 31,3%.

A Bélgica – que tem sido o sexto em linha no stresse da zona euro – já ultrapassou ontem o nível dos 300 pontos base no preço dos credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento), valor em que se mantem hoje na abertura. A diferença com Espanha é de menos de 90 pontos base. Em termos de yields há, ainda, uma separação de 5 pontos percentuais entre os dois países.

Merkozy enerva os mercados

Os mercados financeiros estão cansados dos ziguezagues da chanceler Merkel, pressionada fortemente pelo Parlamento em Berlim, e do presidente Sarkozy. O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble, garantiu que “há um acordo total” entre Berlim e Paris, mas, segundo o jornal francês Le Figaro, citando fontes que presenciaram o encontro dos dois dirigentes, a “atmosfera era glacial, apenas interrompida pelo anúncio do nascimento da filha” do casal presidencial francês.

Os investidores estão hipersensíveis ao adiamento sucessivo de decisões pela União Europeia e a zona euro. Desde quarta-feira que se têm sucedido notícias sobre cimeiras entre os dois líderes da zona euro, sobre desacordos sobre os pontos críticos e sobre a realização da cimeira europeia de domingo.

Ontem as bolsas mundiais caíram quase 1% e o sector financeiro cotado em bolsa quebrou um pouco mais, cerca de 1,3%. Os principais contributos negativos foram das bolsas europeias e asiáticas. No mercado dos credit default swaps ligados à dívida privada, três bancos viram o custo dos seus cds subir acima de 5% – o Santander, o Bank of America e o Crédit Agricole.

No último comunicado conjunto de Merkel e Sarkozy – um duo já cognominado de Merkozy – aponta-se para uma cimeira adicional, “o mais tardar”, a 26 de outubro (próxima quarta-feira). O folhetim terá de terminar, de alguma forma, até à cimeira do G20 que decorrerá em Cannes, em França, a 3 e 4 de novembro.

O aviso dos ministros das Finanças e banqueiros centrais do G20 foi claro – ou os europeus põem em ordem a casa ou entra em força o Fundo Monetário Internacional como garante que as crises europeias – da dívida soberana, bancária e económica – não contagiam o mundo e o empurram para nova recessão global e pânico financeiro generalizado.

Hoje inicia-se em Bruxelas, ao final da tarde, a reunião do Eurogrupo (ministros das Finanças da zona euro) seguindo-se até domingo uma série de encontros. Uma nova cimeira entre Merkel e Sarkozy deverá ocorrer no sábado.

A França poderá perder o seu estatuto de triplo A (o máximo) e os “periféricos” (com exceção da Grécia que já está classificada em situação de default eminente ou inevitável, com a notação de CCC) poderão ter cortes adicionais das suas notações de crédito, segundo um relatório da agência de rating Standard & Poor’s (S&P, do grupo norte-americano McGraw-Hill) divulgado já ao final da noite de quinta-feira.

A descida da notação da França, caso ocorresse, significaria um rude golpe no Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) que se baseia na notação de triplo A de seis membros da zona euro (Alemanha, França,Holanda, Finlândia, Luxemburgo e Áustria) para se financiar a juros baixos. Note-se que, além da França, a Áustria tem, também, ultimamente, estado em stresse nos mercados da dívida soberana.

Portugal: S&P pode copiar Moody’s

Isso significará para o caso português a possibilidade da S&P seguir, uns meses depois, a Moody’s (pertencente ao grupo de Warren Buffett) e baixar a notação da dívida portuguesa já para o nível de “especulativa”, vulgarmente conhecida por “lixo”. A atual notação portuguesa, dada pela S&P, é de BBB-, mesmo na fronteira com o estatuto de “lixo” (junk status, na designação técnica), que começa em BB+. A atual notação dada pela Moody’s à dívida portuguesa é de Ba2 (equivalente a BB, na escala da S&P).

Os dois cenários estudados pela S&P apontam para dois riscos. No primeiro cenário, a probabilidade de uma estagnação económica na zona euro ou mesmo de uma recaída na recessão. E no segundo cenário, um choque adicional de um disparo dos juros da dívida soberana.

A recapitalização dos bancos da zona euro somaria um fator adicional de stresse, que segundo o estudo da S&P apontaria para €115 mil milhões a €130 mil milhões, consoante os cenários. Os números que têm sido apontados por outras entidades variam entre €85 mil milhões (valor mínimo que estaria a ser discutido entre a chanceler Merkel e o presidente Sarkozy ultimamente) e €275 mil milhões.

Avisos a França

Estes fatores de pressão poderão conduzir à descida da notação de França. Recentemente a Moody’s avisou que poderia, nos próximos três meses, rever a previsão de revisão da notação deste país de “estável” para “negativa”, o que seria um primeiro rombo na credibilidade creditícia do segundo pilar do atual G2 que comanda a zona euro.

Recentemente, a S&P cortou a notação de Espanha para AA- (decisão tomada em 13 de outubro) e de Itália para A (decisão tomada em 19 de setembro). A Irlanda também viu o seu rating ser cortado para BBB+ (dois níveis acima da notação para Portugal).

Olhando para a classificação dos países que têm estado sob stresse, as notações dadas pela S&P são as seguintes por ordem decrescente de gravidade: CCC para Grécia (nível de default eminente ou inevitável); BBB- para Portugal (um nível acima de “lixo”); BBB+ para a Irlanda; A para Itália; AA- para Espanha; AA+ para Bélgica; triplo A para a França e Áustria.

O que ontem (18 de outubro) era um movimento centrado em França e na Áustria, como referimos, alastrou hoje à Alemanha.

As yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) dos títulos soberanos destes três países no mercado secundário estão com variações diárias de subida significativas, com particular destaque para os Bunds – os títulos alemães, que servem de referência na zona euro – com variações acima de 5% em todas as maturidades e para os títulos austríacos com variações superiores a 3% em todas as maturidades, segundo dados da Bloomberg.

Também as yields relativas às obrigações espanholas (OE) e aos títulos do Tesouro italiano (BTP) continuam em alta em todas as maturidades. As yields dos BTP a 10 anos estão em 5,9%, aproximando-se do patamar de alerta dos 6%. As yields das OE com a mesma maturidade subiram para 5,39%.

Este movimento de alta no núcleo duro das principais economias da zona euro, e em particular no seu G2 (Alemanha e França), reflete a incerteza nos mercados financeiros sobre os reais resultados que serão obtidos na cimeira europeia do próximo domingo.

A notícia de ontem do jornal inglês The Guardian – publicada pelas 19h30 de Londres – falando da possibilidade de uma alavancagem do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) para quase o quíntuplo do seu valor (cerca de €2 biliões) ajudou ontem ao fecho positivo de Wall Street e a um balanço positivo, à reta, das bolsas mundiais (que ganharam pouco mais de 0,2%). Hoje continua a influenciar as bolsas europeias e asiáticas que estão no positivo. No entanto, as declarações hoje do ministro das Finanças alemão ao Financial Times Deutschland de que a Alemanha não concordaria com uma alavancagem do FEEF superior a €1 bilião, lançaram, de novo, a confusão entre os investidores.

Prosseguem, também, informações contraditórias sobre outros dois pontos sensíveis da cimeira de domingo: o nível de “corte de cabelo” a aplicar aos títulos de dívida grega na posse de credores privados e a dimensão da recapitalização da banca europeia

O aumento das yields dos Bunds alemães tem, no entanto, o efeito de baixar os spreads – os diferenciais – entre os níveis de juro da dívida dos outros países da zona euro em stresse e o referencial alemão.

Em relação aos três países da zona euro com planos de resgate da troika, continua a tendência de aumento dos juros da dívida soberana no mercado secundário, com destaque para variações mais acentuadas no caso da Irlanda, cuja imagem de “bom aluno” dos MoU (memorandos de entendimento dos planos de resgate) começa a empalidecer.

O disparo nas yields (juros implícitos) dos títulos soberanos franceses e austríacos foi surpreendente esta terça-feira (18 de outubro) no mercado secundário da dívida soberana, segundo dados da Bloomberg. As subidas diárias nestes dois casos foram as mais elevadas no grupo de países da zona euro.

As yields dos títulos franceses e austríacos a 2 anos e dos títulos franceses a 3 anos subiram mais de 7% ao longo do dia. Os títulos franceses a 5 anos e os títulos austríacos a 3 anos subiram mais de 4% durante o dia. O movimento de alta foi extensivo a todos os títulos em todas as maturidades destas duas dividas soberanas.

Estes juros estão a níveis muito baixos se comparados com os dos países resgatados pela troika e mesmo em relação aos das obrigações espanholas ou dos titulos italianos e belgas. Por exemplo, as yields dos títulos franceses a 2 anos fecharam em 1,31% e as relativas aos títulos austríacos com a mesma maturidade em 1,11%. O que compara com 2,76% para os títulos belgas, 3,88% para os das obrigações espanholas, 4,41% dos títulos italianos, 7,70% dos títulos irlandeses, 17,51% das obrigações do Tesouro português e uns incríveis 76,45% dos títulos gregos.

Máximo no diferencial com os Bunds

Segundo a Credit Writedowns, o diferencial, nos casos de França e da Áustria, em relação às yields dos títulos alemães (Bunds) com maturidades a 10 anos atingiu hoje o máximo desde janeiro de 2009 no mercado secundário.

O aviso dado ontem pela Moody’s de que poderá modificar a sua previsão de “estável” para negativa veio chamar à atenção para as fragilidades da França, o segundo pilar do atual G2 que governa a zona euro, a que alguns já alcunham de “Merkozy”.

Segundo a Credit Writedowns, “a França tem uma situação de crédito mais fraca do que os Estados Unidos, e, por isso, pensamos que as agências [de notação] terão de reavaliar o rating de triplo A. O movimento recente da Moody’s de cortar a notação de alguns bancos franceses, em virtude da alta exposição à Grécia, foi por nós encarado como um aviso, a que se seguirão, no futuro, pressões sobre a dívida soberana”.

Por outro lado, o que ocorreu com o banco Erste Group é apenas a ponta do icebergue da fragilidade da Áustria – um país com notação triplo A de crédito – em relação à situação que se tem vindo a agravar nos países do ex-leste europeu ligados financeiramente a Viena.

Espanha, Itália e Bélgica em stresse

O dia foi, também, marcado pela continuação do movimento de alta das yields dos títulos espanhóis, italianos e belgas.

As yields dos títulos italianos a 10 anos subiram para 5,87% aproximando-se do patamar de risco dos 6%; os juros relativos às obrigações espanholas com a mesma maturidade subiram para 5,36%; e, no caso, dos títulos belgas a 10 anos ascenderam a 4,46%, cada vez mais próximo do máximo de agosto, de 4,49%.

Para muitos analistas, a Bélgica – que continua com um governo de gestão há mais de um ano – é o próximo a poder ser associado aos “periféricos” pelos mercados financeiros.

Hoje (18 de outubro) foi a vez da agência Moody’s baixar a notação de crédito da dívida soberana de Espanha do anterior nível de Aa2 para A1 com previsão negativa. Este nível é inferior ao que foi atribuído pela Standard & Poor’s na semana passada (que desceu a notação de Espanha para AA-). Ainda que a Moody’s considere que o risco de default é remoto, o potencial de contágio e as debilidades internas são elevadas.

Por outro lado, a Standard & Poor’ cortou a notação de 24 bancos e grupos financeiros italianos.

Nos outros três países “periféricos” já com planos de resgate da troika, os juros dispararam nos títulos gregos a 12 meses (que se situam em 179,98%, o que aponta para níveis de “corte de cabelo” – hair cut, na linguagem técnica – do valor na ordem dos 60%), e aumentaram mais significativamente nas obrigações portuguesas a 2 anos (que estão em 17,51%, com alguns destes títulos a negociar com “cortes de cabelo” na ordem de 20 a 30%) e nos títulos irlandeses a 3 e 5 anos.

Depois do otimismo da semana passada, regressaram as dúvidas sobre os potenciais resultados da cimeira europeia do próximo domingo, sobretudo depois das frases de ontem de responsáveis alemães baixando significativamente as expetativas.

A primeira vítima, entre as dívidas soberanas da zona euro, foi hoje a Espanha, que regressou ao 10º lugar no “clube da bancarrota”, grupo dos 10 países com mais elevada probabilidade de entrar em incumprimento (risco de default). Tendo saído do “clube” a 22 de setembro, nas vésperas da reunião anual do Fundo Monetário Internacional, desalojou hoje a Croácia desta última posição, segundo dados da CMA DataVision.

GIIPS voltam a estar juntos

O “clube de bancarrota” volta a albergar cinco membros da zona euro – Grécia, que lidera, Portugal em segundo lugar, Irlanda na 6ª posição, Itália no 8º lugar e agora Espanha na última posição. Os GIIPS – como, agora, se designam – voltam a estar juntos.

O efeito da onda de choque das palavras alemãs já se estendeu também à Bélgica e à França. Estes dois países estão hoje entre o grupo com maior subida diária do seu risco de default. O risco da Bélgica subiu de 22,8% ontem no fecho para 23,67% hoje na abertura; o risco de França de 14,7% para 15,57%, no mesmo período.

Moody’s avisa França

A agência de notação Moody’s avisou ontem, à noite, a França de que analisará a evolução da economia e das finanças francesas nos próximos três meses podendo vir a alterar a perspetiva (outlook) de “estável” para negativa, o que poderia ser uma antecâmara de um corte na notação de triplo A (a máxima), um rating que a agência confirmou na semana passada.

Depois de uma descida ontem da probabilidade de incumprimento por parte da Grécia, Portugal, Irlanda e Itália, hoje assistimos a uma inversão dessa tendência, com o risco dos quatro países a subir.

À noite, a Espanha voltaria a sair do “clube”.

As bolsas da Ásia haviam fechado hoje (17 de outubro) no positivo com as 50 principais empresas cotadas a subir a capitalização em 2%. Mas eis que a Europa acordou e algumas frases do ministro das Finanças alemão e do porta-voz da chanceler Ângela Merkel foram suficientes para matar o “otimismo” que permeou os investidores internacionais convencidos que a 23 de outubro – no próximo domingo – sairá fumo branco da cimeira europeia.

Wolfgang Schauble fez baixar drasticamente as expectativas sobre a cimeira de domingo falando de “irrealismo” na resolução da crise em 8 dias. Já Ângela Merkel havia dito, na semana passada, que “não há milagres”. O seu porta-voz, Steffen Seibert, disse hoje que a cimeira de domingo “permitirá aos europeus progredir de maneira sensível em direção a uma resolução da crise da dívida, mas não a resolverá de um golpe”.

Face ao ultimato da reunião de ministros das Finanças e banqueiros centrais do G20, estas frases podem ser um sinal de que os alemães ou estão a fazer pressão pública sobre os franceses (o seu parceiro no G2 que governa a zona euro) com vista às reuniões do Eurogrupo de 21 de outubro e do Ecofin do dia seguinte, ou estão a sinalizar o interesse por uma solução “mínima”, sem grandes rasgos.
Frases alemãs valem 1% de quebra nas bolsas

O resultado das frases alemãs foi um movimento de quebra generalizada nas bolsas europeias com o EuroStoxx 50 a cair 1,68% e o Bloomberg European 500 a descer 1,05%. Em Wall Street o balde de água frio germânico foi ainda mais pernicioso – com os principais índices a serem atacados pelo “urso”: o índice Dow Jones quebrou 2,13%, o S&P 500 caiu 1,94% e o Nasdaq teve uma queda de 1,98%.

O saldo diário final das palavras alemãs foi uma quebra bolsista mundial de 1%. A nível do sector financeiro, a quebra de capitalização nas bolsas mundiais foi superior, de 1,2%.

No mercado secundário da dívida soberana, o efeito foi sentido em quatro países da zona euro que têm estado mais “sensíveis” ultimamente às frases, aos rumores e aos adiamentos: Irlanda, Itália, Espanha e Bélgica. As yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) dos títulos soberanos destes 4 países prosseguiram com a tendência de subida. No caso dos títulos italianos a 10 anos, fecharam com uma yield de 5,8% e as obrigações espanholas com a mesma maturidade atingiram uma yield de 5,32%. Os dois países continuam com as yields destes títulos a subir no patamar dos 5% – e não a descer, como deveria ser o resultado das intervenções do Banco Central Europeu no mercado secundário. Os títulos belgas a 10 anos, por seu lado, viram a yield fechar em 4,45%, já próximo do máximo de 4,5% de agosto.
Bancos americanos de novo na berlinda

No mercado dos credit default swaps (cds), os mais penalizados foram, hoje, de novo, 5 bancos norte-americanos.

O maior aumento de preço dos cds (ou seja o encarecimento dos seguros contra o risco de incumprimento) ocorreu com o Morgan Stanley e o Wells Fargo, com subidas superiores a 8%. Seguiram-se a Goldman Sachs, a JPMorgan e o Bank of America, com subidas entre 5,9% e 7,7%.

Os ministros das Finanças e banqueiros centrais do G20 colocaram o tema “crise europeia” à cabeça do comunicado de 8 pontos no final da reunião de Paris no sábado passado (15 de outubro). O G20 é o grupo mundial que abarca as principais potências desenvolvidas e emergentes e que praticamente eclipsou da cena geopolítica mundial o G7 (o grupo formado pelos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá, a que se juntara em anos recentes a Rússia).

No segundo ponto do comunicado, o G20 dá uma oportunidade à zona euro até à cimeira europeia de 23 de outubro (próximo domingo) para apresentar “um plano abrangente” que lide “decisivamente” com os “desafios em curso”. A Reuters titulou mesmo um seu despacho, no sábado, com palavras muito diretas: “G20 diz à zona euro para resolver a crise da dívida em 8 dias”.

No fundo, os ministros e banqueiros centrais do resto dos 20 esperam que os europeus “implementem” as decisões tomadas a 21 de julho na cimeira europeia que ficou célebre pelo alargamento das funções do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), em que repousam as esperanças de conseguir evitar “contágios” (leia-se empurrar Itália e Espanha para o remoinho dos mercados financeiros até final do ano, evitar que a Bélgica se queime e a França e a Áustria percam a notação de crédito de triplo A e entrem em plano inclinado).

A oportunidade geopolítica do FMI

Se a cimeira falhar – recorde-se que Ângela Merkel disse, recentemente, que “não há soluções milagrosas” -, uma parte importante do G20 pretende dar ao Fundo Monetário Internacional (FMI) um papel liderante em todo este processo. A sua diretora-geral, Christine Lagarde, já o havia sugerido, na última reunião do FMI em 23 e 24 de setembro em Washington DC. Alguns gurus defendem o reforço do papel do FMI – como Raghuram Rajan, professor de Finanças na Booth School da Universidade de Chicago, num artigo sindicado publicado na edição deste sábado do Expresso.

O FMI, se a oportunidade ocorrer, aproveitará o momento, o que significará mais uma machadada no peso geopolítico da Europa. A favor deste protagonismo do FMI estão já, naturalmente, as potências emergentes – contra, por ora, os EUA, a Alemanha, a Austrália e o Canadá, segundo referiram a Reuters e a Eurointelligence.

Um papel acrescido do FMI implicaria mais fundos e para tal as potências emergentes pretendem ver concluída a reforma das quotas dentro da instituição decidida em 2010 e o alargamento do “cabaz” de divisas (por ora restringido ao dólar, euro, iene e libra) que suporta a moeda virtual do FMI, os direitos especiais de saque (SDR, no acrónimo em inglês), ainda que essa revisão esteja só prevista para 2015.

Tendo em consideração o caldeirão de contradições que é a Europa (entre os seus membros, entre dignitários das instituições europeias, entre a banca privada e os políticos, entre os banqueiros centrais entre si e com os políticos, entre eleitorados com interesses contraditórios em pequenos e grandes países) e o tempo que leva a concretizar decisões (a das novas funções do FEEF levou 3 meses até à recente votação parlamentar em Bratislava, na Eslováquia, a última dos 27 membros da UE), o comunicado do G20 apela ao FMI para considerar “novas formas de fornecer, caso a caso, liquidez de curto prazo para os países enfrentando choque exógenos, incluindo sistémicos” e apresentar propostas concretas na cimeira do G20 em Cannes em 3 e 4 de novembro.

Christine Lagarde afirmou, este fim de semana, que o FMI tem um leque de opções à sua disposição, e que tem dinheiro para tal. Uma das opções é uma linha de crédito flexível, uma facilidade financeiro criada em março de 2009. O México, Polónia e Colômbia recorreram a ela. Outro instrumento é a linha de crédito de precaução, que poderá permitir a um país beneficiar até 1000% da sua quota no FMI.

Sistema bancário em alerta vermelho

O outro ponto crítico que o G20 abordou foi a questão da situação do sistema bancário. A probabilidade elevada de um default seletivo da Grécia até final do ano e de uma cascata de efeitos sobre os investidores privados internacionais (sem contar neste rol os bancos gregos e cipriotas, a troika formada pelo BCE, FMI, União Europeia e os empréstimos europeus bilaterais) assusta os mercados financeiros.

Os investidores privados internacionais detêm 36,4% da dívida grega – €125,9 mil milhões. Este fim de semana alvitrou-se que o presidente do Deutsche Bank. Josef Ackermann, que é também presidente do lóbi bancário mundial Institute for International Finance, estaria a negociar um “corte de cabelo” (hair cut, na designação técnica) de 50% da dívida grega aos privados.

O processo poderá, depois, colocar em linha a reestruturação seletiva de outras dívidas soberanas e desencadear vários eventos de crédito no mercado dos credit default swaps (cds) e de financiamento das dívidas soberanas, bem como no sistema bancário mundial exposto às dívidas soberanas europeias. A “cauda longa” desta exposição é desconhecida e – como o Dexia franco-belga e o Erste Group austríaco revelam – pode ser muito mais “gorda” do que se julga.

No entanto, a exposição líquida atual (dados de 30 de setembro) em contratos de cds de instituições financeiras expostas à dívida grega é baixa, de cerca de 3,74 mil milhões de dólares, inferior ao caso irlandês que é de 4,18 mil milhões e ao português que é de 5,56 mil milhões, segundo dados da Depository Trust and Clearing Corporation. As exposições líquidas às dívidas soberanas belga e austríaca são superiores a 6 mil milhões em cada caso. Os valores líquidos com significado dizem respeito a Itália (mais de 21,5 mil milhões) e Espanha (mais de 17 mil milhões).

Por tudo isso, o G20 pretende que “os bancos estejam adequadamente capitalizados e tenham acesso suficiente a financiamentos para lidar com os riscos atuais”. Um dos planos aguardados é, naturalmente, o de recapitalização da banca europeia, cujos cálculos variam entre €192-228 mil milhões (segundo um estudo de Constantin Gurdgiev, professor do Trinity College em Dublin, referido ao Expresso) e €275 mil milhões, segundo contas do Morgan Stanley divulgadas pelo Financial Times.

Mas o G20 não se fica por essa intervenção de curto prazo – reclamada, desde setembro, por Christine Lagarde. Aponta a questão crítica da “reforma do sector financeiro”, em que dois pontos são referidos: os mercados de derivados e a redução dos riscos colocados pelas instituições financeiras consideradas “sistemicamente importantes” (mais um acrónimo inventado, o dos SIFIs – systemically important financial institutions). Entre as medidas que poderão desagradar ainda mais aos banqueiros privados está um adicional de 1 a 2,5% para além dos 7% de rácio de capital mínimo a exigir aos bancos de grande dimensão. O que, no concreto, significará “grande banco” está em discussão – fala-se em 28 bancos nesse rol mundial, mas o G20 poderá aumentar o número para 50, segundo a Reuters. A lista deverá ser apresentada pelo Financial Stability Board, presidido por Mario Draghi (que a partir de 1 de novembro assumirá a presidência do Banco Central Europeu), ainda antes da cimeira do G20.

Ainda recentemente, a agência de notação Fitch referia a vulnerabilidade dos modelos de negócio dos bancos que designou como “bancos globais universais”.

O temor do triple-dip

Finalmente, o G20 aborda o problema dos desequilíbrios mundiais na ótica que o economista John Maynard Keynes colocava há décadas atrás. Uma estratégia decisiva contra a crise financeira e económica não pode ser colocada só nos ombros dos países com défices comerciais e orçamentais, etiquetados como os maus da fita, ou porque importam em demasia ou porque se endividam de mais.

Os países avançados e emergentes com excedentes nas suas balanças têm de entrar em campo, frisa, claramente, o comunicado dos ministros das Finanças e banqueiros do G20. De contrário, corremos o risco do que o Lorde Robert Skidelsky, o guardião inglês da memória de Keynes, já batizou de triple-dip – uma dupla recaída, numa nova recessão nos países desenvolvidos (o que tem sido batizado de double-dip) associada a um regresso ao pânico financeiro.

Apesar dos esforços públicos dos líderes europeus no marketing político internacional, apontando para um pacote de resoluções da crise das dívidas soberanas na zona euro até às próximas cimeiras de 23 de outubro (europeia) e do G20, a perceção negativa por parte dos investidores nos mercados financeiros da dívida continuou a aumentar para o grupo dos 5 “periféricos” (agora batizados com o acrónimo, em inglês, de GIIPS – para Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha).

Pacote de austeridade em Lisboa não desce risco

No que toca a Portugal, o risco de incumprimento agravou-se de 61,83% a 3 de outubro para 62,39% no fecho desta semana. Tendo havido uma melhoria entre 3 e 10 de outubro, o risco voltou às subidas, de 61,19% para 62,39%, entre 10 e 14 de outubro.

A perceção dos investidores no mercado dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) ligados à dívida soberana sobre Portugal continua em plano inclinado. O pacote de austeridade anunciado em Lisboa para o Orçamento de 2012 não teve qualquer efeito positivo nem na probabilidade de incumprimento, nem nas yields das obrigações do Tesouro no mercado secundário.

À tendência negativa sobre os GIIPS juntou-se uma “novidade” – a entrada, em força, na geografia do stresse da zona euro da Bélgica, França e Áustria. À indefinição política na Bélgica, com a continuação da negociação de formação do governo (a mais longa atualmente no mundo), juntou-se o caso do banco Dexia que chamuscou, também, a França, um país com notação de crédito de triplo A e tido como o segundo pilar do G2 que hoje governa a zona euro. A Áustria, outro país da moeda única ainda com notação de triplo A, foi abalada pela crise do banco Erste, a que alguns designaram de “segundo Dexia”.

A Bélgica subiu para o patamar de risco de incumprimento acima de 23%, a França aproximou-se dos 15% e a Áustria dos 14%. Estão, ainda, longe do bilhete de entrada no “clube da bancarrota” (os 10 países do mundo com maior risco de incumprimento) que exige mais de 29% de risco, o atual nível da Croácia. Apesar do agravamento do risco para Espanha, o nível de probabilidade de incumprimento ainda está abaixo dos 29%.

Irlanda e Espanha pioram

O agravamento da perceção do risco nos “periféricos” acarretou duas “más” notícias – o bom comportamento da Irlanda como “aluno exemplar” da troika arrisca-se a ir por água abaixo, e os esforços de Espanha para sair da ribalta do stresse (tendo entrado no mês de Outubro sem regressar ao “clube da bancarrota”) foram estragados pelas agências de notação Standard & Poor’s e Fitch nos últimos dias. A Irlanda subiu do 7º para o 6º lugar no “clube da bancarrota” e a Espanha viu o seu risco de incumprimento regressar às subidas a partir de 10 de outubro, segundo dados da CMA DataVision.

Curiosamente, apenas a Itália, em virtude da capacidade de sobrevivência do governo chefiado por Sílvio Berlusconi, conseguiu “descer” no risco de default, entre 3 e 14 de outubro, tendo baixado do 9º para o 8º lugar no “clube da bancarrota”.

Juros não param de subir

O movimento das yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) dos títulos soberanos no mercado secundário da dívida em sete dos países referidos – Grécia, Portugal, Irlanda, Itália, Espanha, Bélgica e França) – reflete, também, um padrão similar ao que tem sucedido na probabilidade de incumprimento.

Olhando para os títulos soberanos a 10 anos, verificamos um agravamento generalizado, comparando com o início do mês, segundo dados da Bloomberg. Os juros para os títulos gregos estão perto de 24%, e para as obrigações do Tesouro português subiram para 11,64%. A Irlanda deixou de negociar títulos a 10 anos no dia 11 de outubro – as yields subiram de 7,76% a 3 de outubro para 8,21% a 11 de outubro.

No caso de Itália e Espanha, onde os analistas têm referido uma intervenção do Banco Central Europeu, as yields dos títulos do Tesouro italiano (BTP) e das obrigações espanholas (OE) a 10 anos têm prosseguido a sua subida no patamar dos 5% – passaram de 5,54% a 3 de outubro para 5,80% a 14 de outubro no caso dos BTP, e de 5,12% para 5,24% no mesmo período para o caso das OE.

As yields dos títulos belgas a 10 anos subiram de 4,07% para 4,40% esta semana, estando a aproximar-se do máximo de 4,5% em agosto. No caso de França, os juros subiram de 2,87% para 3,13% no mesmo período.

A Standard & Poor’s (S&P) cortou quinta-feira ao final da noite a notação de risco de Espanha do nível AA para AA-, ainda que mantendo o rating da dívida espanhola de longo prazo num patamar de quase sem risco de default. A agência mantém a notação em perspetiva negativa.

Este movimento da S&P segue-se a um similar da agência Fitch na sexta-feira passada, que baixara a notação da divida espanhola de longo prazo de AA+ para AA-. A classificação pelas duas agências está, agora, alinhada.

Do grupo dos países referidos como periféricos, a Espanha é, ainda, o país com melhor notação de crédito.

As razões para esta decisão da S&P são resumidas num parágrafo: “Apesar de sinais de resiliência no comportamento da economia durante 2011, consideramos que aumentaram os riscos em relação às perspetivas de crescimento de Espanha, devido ao alto desemprego, às condições financeiras apertadas, ao ainda alto nível de dívida privada, e ao provável abrandamento do crescimento nos principais parceiros comerciais de Espanha”.

Importante, ainda, a adenda seguinte: “O perfil financeiro do sistema bancário espanhol enfraquecerá ainda mais, na nossa opinião, com o stock de activos problemáticos a crescer ainda mais”.

Recorde-se que, esta semana, as duas agências – S&P e Fitch – tinham penalizado de forma massiva a banca espanhola. A S&P havia cortado a nota a 10 entidades e a Fitch a seis. A S&P cortou ainda na nota global da banca espanhola, passando-a do nível 3 para 4, numa escala de 1 a 10, em que o nível é 1 é sinónimo de máxima solidez.
Vulnerabilidade na dívida de curto prazo

Numa das apreciações técnicas expostas no comunicado da agência refere-se os constrangimentos derivados do peso da dívida externa de curto prazo. “A posição de investimento internacional líquida é negativa, estimada em 94% do PIB no 2º trimestre de 2001. Uma componente chave é de dívida externa de curto prazo, de cerca de 50% do PIB nesse mesmo trimestre. O sector financeiro e monetário espanhol pesa um pouco mais de 50% do total da dívida externa no final daquele trimestre, e 57% dessa parcela é de curto praz. Isto deixa a economia muito vulnerável a mudanças súbitas nas condições financeiras externas”.

Não admira, por isso, que a Espanha tenha sido, quinta-feira, o país com o maior crescimento da probabilidade de incumprimento da sua dívida no monitor de risco de default da CMA DataVision. No fecho do mercado secundário da dívida, ao final da tarde de quinta-feira, as yields (juros implíitos, uma medida de rendibilidade) das obrigações espanholas a 10 anos haviam subido para 5,20%.
Comparações na zona euro

No grupo dos GIIPS (acrónimo em inglês para Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha), a pior notação de crédito dada pela S&P é a da Grécia que está em CC (situação de eminência de default) e a melhor a de Espanha, com a notação de AA-.

As notações para o grupo são as seguintes, da pior para a melhor notação: CC para a Grécia; BBB- para Portugal (similar à da Hungria); BBB+ para Irlanda; A para Itália; AA- para Espanha.

Os outros três países afetados ultimamente pela subida de risco – Bélgica, França e Áustria – têm as seguintes notações: AA+, para o primeiro país, e triplo A (a melhor classificação da escala) para os dois restantes.

Como referência, o Reino Unido e a Alemanha conservam a notação de triplo A, os EUA baixaram para AA+ (idêntica à da Bélgica) e a China mantém-se em AA- (idêntica à de Espanha).

Na zona euro, os países com notação triplo A são: Alemanha; Finlândia; França; Holanda e Luxemburgo.

Sete países da zona euro estiveram hoje em foco no mercado da dívida. A probabilidade de incumprimento subiu mais de 1 ponto percentual nos casos da Irlanda, a variação mais elevada (de cerca de 1,7%), Espanha (com uma variação próxima à do ex-Tigre Celta), Itália e Portugal, segundo dados da CMA DataVision. A que se seguiram, depois, os aumentos do risco de default para a Áustria, Bélgica e França.

Ao anterior grupo dos GIIPS (acrónimo que substituiu os PIIGS) juntou-se a Bélgica e mais recentemente a Áustria e a França. As próximas semanas dirão se o grupo com variações sincronizadas do risco de default, ainda que em patamares distintos, se alargou efetivamente, recolhendo no seu seio novos residentes.

Em virtude do agravamento da situação irlandesa e italiana, o ex-Tigre Celta subiu, hoje, para o 6º lugar no “clube da bancarrota” e a Itália passou ontem para o 8º lugar do mesmo “clube”, liderado pela Grécia, e onde Portugal ocupa a 2ª posição.

A situação da Grécia é excecional. A sua probabilidade de default é superior a 91%, mas as variações diárias deste risco têm sido pequenas, oscilando em torno deste patamar. Os investidores nos credit default swaps (cds, seguros contra risco de incumprimento) já têm em linha de conta a probabilidade de um elevado “corte de cabelo” da dívida deste país, com uma provável situação de default seletivo da dívida em mãos de credores privados. O mês crítico é apontado como sendo o de dezembro, mas ainda está por entregar a Atenas a tranche do plano de resgate que deveria ter sido creditada em setembro.
Juros penalizam Itália, Espanha e Bélgica

O mercado secundário da dívida refletiu, também, este agravamento da perceção de risco, sobretudo nos casos de Itália, Espanha e Bélgica.

Com a queda muito acentuada das yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) relativas aos títulos alemães – os Bunds -, o fosso colossal entre os juros da dívida da Alemanha e do grupo dos GIIPS+Bélgica alargou-se, ainda, mais hoje.

Referindo, a título de exemplo, as yields para os títulos soberanos a 10 anos, a sequência era a seguinte hoje no fecho do mercado: 23,97% para os títulos helénicos (abaixo do valor de fecho de quarta-feira); 11,59% para as obrigações do Tesouro português (acima do valor de fecho de quarta-feira); 5,21% para as obrigações espanholas (acima do valor de fecho de quarta-feira); 5,82% para os títulos do Tesouro italiano (acima do valor de fecho de quarta-feira); 4,33% para os títulos belgas (acima do valor de fecho de quarta-feira; o máximo, neste caso, foi atingido em agosto com um nível de 4,5%); e 2,11% para os Bunds (uma descida em relação ao fecho de quarta-feira).
O íman alemão

As yields dos Bunds servem de referência na zona euro. O seu nível muito baixo indica um risco de default da dívida fraco e uma atração dos investidores por essas aplicações ainda consideradas “seguras”.

Segundo um estudo do Greenberg Center for Geoeconomic Studies, hoje divulgado pelo Council on Foreign Relations, a banca alemã tornou-se, também, um íman para depósitos oriundos do grupo formando pela Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha nos últimos dois anos. “Depósitos estão a fugir dos PIGS e a voar para a Alemanha”, diz o estudo aqui publicado .

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