Setembro 2011
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Dom 25 Set 2011
À ESPERA DA REUNIÂO DO G20 DE 4 DE NOVEMBRO
Apesar da reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington DC ter assinalado “os perigos que a economia global enfrenta” nesta “fase perigosa”, e da sua diretora-geral, a francesa Christine Lagarde, se ter desdobrado em apelos à ação imediata face ao que designou por “momento-chave e momento de escolha”, o comunicado final, de concreto, oferece pouco.
O comunicado aplaude uma nova ferramenta de observação dos riscos mundiais, o Consolidated Multilateral Surveillance Report, e o objetivo de proceder a uma reformulação das quotas de participação dos membros do Fundo em janeiro de 2014 – um ponto sensível para as grandes potências emergentes.
Não há muito tempo (Lagarde)
O FMI defende-se, sublinhando que estes encontros anuais, não são momentos de deliberação, mas de discussão e para formar um consenso. Por isso, espera que “nas próximas semanas” – pois, como foi referido por Lagarde e outros, não “há muito tempo” – os principais protagonistas se sintam à volta da mesa e avancem com ações de cooperação face aos problemas.
A bola estará, por isso, também, nas mãos do G20 – o grupo das principais potências desenvolvidas e emergentes -, mas a resolução que os ministros das Finanças deste grupo tomaram ontem, também, foi orfã de medidas.
Relaxamento da política monetária (â atenção dos bancos centrais)
No entanto quer Christine Lagarde, como o português António Borges, chefe do Departamento Europeu do FMI, sublinharam que sugeram às economias desenvolvidas uma “mudança com nuances” na política monetária face aos riscos que hoje se correm. “Esta política deve ser menos focada na inflação”, pois há menos riscos de um surto inflacionário, o que torna possível “ter uma política monetária mais expansionista”. Em suma, algum relaxamento na política monetária.
Um dos tópicos foi a crise da dívida da zona euro, tendo o comunicado da reunião repetido a necessidade de “implementação” das decisões da cimeira europeia de 21 de julho.
Christine Lagarde tinha dito ontem, na sua intervenção de abertura da reunião, que “os problemas podem ser, em larga medida, económicos, mas as soluções são largamente políticas”. A questão continua em aberto, ainda que a diretora-geral do fundo tenha tentado convencer os presentes de que o FMI poderia ser “um facilitador”.
António Borges realizou uma conferência de imprensa, em que anunciou que divulgará a 5 de outubro, em Bruxelas, o relatório sobre a Europa. O prato forte da conferência seria, no entanto, a Grécia.
O secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, havia assustado a assistência agitando “uma ameaça de suspensão de pagamentos em cascata, de pânicos bancários e de um risco catastrófico”. Por seu lado, o ministro das Finanças britânico, George Osborne, foi, ainda, mais contundente: “Têm seis semanas para resolver a crise”. O prazo de seis semanas tem a ver com a cimeira do G20 em Cannes, a 4 de novembro.
Hipotético default grego tem custo pequeno
Referindo-se à Grécia o chefe do Departamento Europeu do FMI disse: “A ideia de que basta entrar em default e os problemas se resolvem está muito longe da verdade”. Nem mesmo o incumprimento será a varinha mágica.
No entanto, o responsável do FMI desdramatizou o que chamou de questão “hipotética”: “O impacto dos problemas associados à Grécia é pequeno. Os bancos europeus não terão assim tanto problema como as pessoas por vezes pensam, e poderão absorver quaisquer perdas relacionadas com a Grécia”. O problema, frisou Borges, é o que acontecerá ao “resto da Europa”. Contágio é a palavra maldita.
O problema da Grécia, repetiu Borges, é “uma certa falta de implementação das medidas já desenhadas”. Os gregos têm de persistir no caminho traçado pelo FMI, “de outro modo, eu penso que a alternativa é realmente catastrófica para eles”.
Aviso aos gregos e aos credores privados
A implementação pelo governo grego do programa é inclusive decisiva para a questão da reestruturação parcial da dívida que está a ser negociada com credores privados – o que, na linguagem da troika, foi designado por “envolvimento do sector privado” (que tem inclusive um acrónimo em inglês, PSI). “[O programa com os credores privados] deverá avançar no outono. Contudo, a nossa posição é que nunca deverá ser posto em prática, a não ser que estejamos confiantes de que a Grécia está de regresso ao bom caminho, pois não vamos criar uma série de garantias e apoio aos investidores para depois termos a Grécia ainda num problema bem maior uns meses mais tarde”. E repetiu: “Portanto, só avança se estivermos confiantes que a Grécia está no bom caminho. Só, assim, esse programa faz sentido”.
Borges contrastou com o caso grego o que considera “exemplos de sucesso” recentes de intervenção do FMI, como a Islândia e a Letónia (que deverá terminar o programa até final do ano) e, até certo ponto, a Irlanda.
Separou, depois, Espanha e Itália da situação na Grécia e Portugal. Elogiou as medidas “na direção certa” em Espanha e sublinhou o maior desapontamento com o caso muito preocupante de Itália, em que o anterior dinamismo desta economia se “perdeu devido a obstáculos substanciais e barreiras ao crescimento, que terão de ser removidas”.
É a política, seus estúpidos!
Christine Lagarde tinha dito ontem, na sua intervenção de abertura da reunião, que “os problemas podem ser, em larga medida, económicos, mas as soluções são largamente políticas”.
Dom 25 Set 2011
TRÊS APONTAMENTOS sobre a conferência de imprensa de António Borges, o português que é chefe do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional, depois da reunião deste organismo em Washington DC durante dois dias (23 e 24 de setembro).
1- António Borges e a “Rogue Island” (Financial Times dixit): Ainda que não se referindo diretamente ao caso da Madeira, o chefe do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI), considerou muito preocupante o que se descobriu. Não só pela dimensão, mas também pelo que revelou de falta de controlo.
A par do risco de default da Grécia, o tema da dívida oculta da Madeira esteve presente na conferência de imprensa dada, hoje, em Washington DC pelo português António Borges, chefe do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Em resposta a uma pergunta, Borges respondeu com veemência: “No caso de Portugal, as surpresas foram muito grandes, muito, muito grandes, e isso é um problema preocupante, não só pela sua dimensão, mas porque reflete uma falta de controlo, o que é muito, muito inquietante”.
Nesta “surpresa”, o chefe do Departamento Europeu do FMI, vê uma oportunidade: “Isto permite, agora, ao governo colocar a situação em pratos limpos, e dizer: ‘Não vamos tolerar mais isto, e, a partir de agora, isto não se repetirá’. E, se este for o resultado, então, terá sido um grande passo na direção certa”.
António Borges deu uma conferência de imprensa sobre o tema da Europa na sequência da reunião do FMI realizada em Washington DC, nos EUA, ontem e hoje.
2- António Borges e a ideia peregrina de um segundo pacote de resgate a Portugal: O chefe do Departamento Europeu do FMI sublinhou em conferência de imprensa em Washington DC que os portugueses têm de meter na cabeça que os fundos que vêm do exterior não são ilimitados. E que mais dinheiro de resgate é mais dívida para pagar nos três anos seguintes.
“Nós [FMI] sempre desenvolvemos programas que sejam apropriados, mas sempre procurando que sejam o mais pequenos [em termos financeiros] possíveis, porque o programa [de resgate] implica sempre mais dívida. Estes países já estão altamente endividados. Por isso, sobrecarregá-los ainda com mais dívida não é boa ideia”, disse António Borges, o chefe do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI), em resposta a uma pergunta sobre se Portugal necessitaria de um financiamento adicional, de um segundo plano de resgate.
E, mais adiante, sublinharia: “Por isso não é essa a questão. A questão é que, no essencial, deveremos ter um financiamento o mais pequeno possível para superar as difiduldades de curto prazo. O foco real deve ser colocado nas políticas para restaurar o acesso ao mercado o mais rapidamente possível. E é isso que toda a gente em Portugal deve ter na ideia – não nenhum montante de dinheiro ilimitado que vem de fora para resolver os problemas. Foi isso que, em primeiro lugar, levou Portugal para uma situação de sarilho, por isso, o programa deve ser limitado”.
3- António Borges & as privatizações: O tema do que os BRICS (acrónimo para o grupo de grandes potências formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) podem fazer pela Europa em crise de dívida foi muito badalado na reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) que decorreu ontem e hoje em Washington DC, nos Estados Unidos.
Na conferência de imprensa, após a reunião, realizada pelo português António Borges, o chefe do Departamento Europeu do FMI, referiu-se explicitamente ao caso português. “Sobre o que os BRICS podem fazer ou não por Portugal, há um exemplo óbvio de como os BRICS podem ajudar. Portugal tem um plano de privatizações em curso, que muito apoiamos, e que poderá ter um grande impacto na eficiência da economia. Nós compreendemos que as empresas brasileiras utilizem esta oportunidade para entrarem na Europa, e se isso acontecer, creio que será muito, muito bem vindo”.
BRICS são “conservadores prudentes”
Antes António Borges tinha explicado a forma de atuar dos BRICS, para quebrar algumas ilusões em voga, sobre a vinda destes “salvadores” à zona euro, tirar os aflitos de apuros, ilusão que foi muito alimentada, recentemente, pelos italianos.
“Na realidade estes países [os BRICS], ainda que sejam muito ricos em termos de capital acumulado, são, também, muito conservadores, e não gostam de gastar mal o seu dinheiro. Por enquanto, consideram que os títulos do Tesouro norte-americano são os activos mais seguros, por isso estão a investir desproporcionadamente neles”, afirmou Borges.
Por isso “ainda não aconteceu” o interesse pelos títulos soberanos europeus dos países em apuros. “E não aconteceu porque estes países são prudentes, muito, muito prudentes, na realidade, são investidores muito cautelosos”.
Olhos no “ativos reais” e não em “papeis”
Para os atrair, o único caminho, frisou Borges, é “criar as condições que os levem a considerar que é no seu próprio interesse investirem na Europa, e é por isso que talvez requeira mais esforços”.
Resumindo a sua explicação sobre a estratégia dos BRICS, António Borges concluiu: “Dito isto, uma área onde se pode esperar que estes países sejam arrojados é a da aquisição de ativos , de ativos reais, de empresas, por vezes, o que eles consideram empresas estratégicas”.
Sex 23 Set 2011
[NOVA VERSÃO Da 1ª parte do ANTERIOR ARTIGO - depois do fecho do mercado da dívida]
O clube da bancarrota está com mexidas internas significativas. A Irlanda desceu do 5º para o 6º lugar e a Espanha saiu do grupo, segundo dados do monitor da CMA DataVision para o meio da tarde.
O grupo de 10 países com maiores níveis de risco de default num horizonte de 5 anos albergava até hoje ao final da tarde cinco membros da zona euro – Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha. Um G5 – agora passou a G4.
A evolução tem sido assimétrica ultimamente. Grécia, Portugal e Itália mantêm tendências altistas, deteriorando a sua situação de crédito, e conservam as suas posições no TOP 10, enquanto a Irlanda e Espanha têm descido, observando-se uma melhoria na apreciação da sua situação de crédito.
A Irlanda passou da 4ª posição para a 5ª a 15 de setembro e hoje desceu mais um degrau. Fechou com um risco de 50,34%. As yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) dos títulos irlandeses têm-se distanciado significativamente das relativas às obrigações do Tesouro português. Hoje, no fecho, o fosso era claro: 9,13% para os juros dos títulos irlandeses a 2 anos e 17,69% para os das obrigações portuguesas; 8,74% para os juros dos títulos irlandeses a 10 anos e 11,83% para os das obrigações portuguesas com a mesma maturidade.
No caso de Espanha, a queda do risco de default do país tem sido consistente. Começou por ser ultrapassada pela Itália na segunda quinzena de Agosto e hoje saiu do TOP 10 com menos de 31%.
Acabou por ser ultrapassada pela Croácia, que ficou em 10º lugar com 31,03%, e pela Hungria que subiu para a 9ª posição, com 31,47% de risco. A subida da Croácia faz parte de um movimento de alta do risco dos países da Europa de Leste e Balcãs – a Hungria esteve na 10ª posição até ocupar hoje o lugar da Espanha, e as probabilidades de incumprimento por parte da Roménia (28,31%) e Rússia (19,95%) também subiram hoje.
Sex 23 Set 2011
O clube da bancarrota está com mexidas internas significativas. A Irlanda desceu do 5º para o 6º lugar e a Espanha da 9ª para a 10ª posição, segundo dados do monitor da CMA DataVision para o meio da tarde.
O grupo de 10 países com maiores níveis de risco de default num horizonte de 5 anos alberga cinco membros da zona euro – Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha.
A evolução tem sido assimétrica ultimamente. Grécia, Portugal e Itália mantêm tendências altistas, deteriorando a sua situação de crédito, e conservam as suas posições no TOP 10, enquanto a Irlanda e Espanha têm descido, observando-se uma melhoria na apreciação da sua situação de crédito.
A Irlanda passou da 4ª posição para a 5ª a 15 de setembro e hoje desceu mais um degrau. As yields (juros implícitos, uma medida de rendibilidade) dos títulos irlandeses têm-se distanciado significativamente das relativas às obrigações do Tesouro português. Hoje, no fecho, o fosso era claro: 9,13% para os juros dos títulos irlandeses a 2 anos e 17,69% para os das obrigações portuguesas; 8,74% para os juros dos títulos irlandeses a 10 anos e 11,83% para os das obrigações portuguesas com a mesma maturidade.
No caso de Espanha, a queda do risco de default do país tem sido consistente. Começou por ser ultrapassada pela Itália e hoje desceu para o último lugar do TOP 10 com 31,83%. Acabou por ser ultrapassada pela Croácia, que entrou diretamente para o 9º lugarm com 32% de risco. A subida da Croácia faz parte de um movimento de alta do risco dos países da Europa de Leste e Balcãs – a Hungria esteve na 10ª posição até ser desalojada agora à tarde pela Espanha, e as probabilidades de incumprimento por parte da Roménia (28,43%) e Rússia (19,92%) também subiram hoje.
Os cenários de Atenas
A perceção da situação grega continua a deteriorar-se, apesar de um risco de default da dívida soberana só se voltar a colocar em dezembro. A probabilidade de incumprimento está no patamar dos 93%, abaixo dos níveis recordes de 12 de setembro (perto dos 98% e com mais de 7500 pontos base de custo dos credit default swaps – cds) que apontavam para um default iminente. Mas os designados “pontos à cabeça” (uma penalização nos contratos de cds que obriga a uma pagamento à cabeça) não têm parado de subir – de 58,78 pontos a 16 de setembro, quando começaram a ser referidos pela CMA DataVision, para 61,9 pontos, hoje.
O governo em Atenas já equaciona vários cenários. O ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos, segundo o jornal grego Ta Nea, teria apresentado aos parlamentares do PASOK três cenários possíveis sobre o futuro próximo da Grécia:
- um cenário benigno, em que o segundo pacote de resgate da troika avança e a re-estruturação da dívida dos credores privados se fica por um corte de cabelo de 20% no valor facial da dívida; recorde-se que, em julho, o lóbi dos credores privados tinha apontado para uma perda de 21% nos títulos com maturidades até 2020;
- um segundo cenário, o segundo “melhor”, em que o segundo plano de resgate não vai avante e Atenas tem de fazer uma re-estruturação da dívida, ainda que de modo “ordeiro”, com um corte de cabelo de 50% no valor facial;
- e, finalmente, um terceiro cenário, catastrófico, ao estilo argentino de dezembro de 2001, com um evento de crédito “desordenado” e de efeitos incontroláveis internos e externos.
Portugal não descola do 2º lugar
Refira-se, a finalizar, que Portugal não consegue “descolar” do 2º lugar no clube da bancarrota, logo a seguir à Grécia, ainda que a uma distância significativa.
Durante a semana, o risco de default para a dívida soberana portuguesa subiu de 60,21% para 64,14% e as yields das obrigações do Tesouro a 2 anos – maturidade onde se tem notado o maior stresse – passaram de 16,17% para 17,69%. Todas as maturidades viram os juros subir.
Sex 23 Set 2011
“Os BRICS estão disponíveis para considerar, se necessário, dar apoio, através do Fundo Monetário Internacional, ou de outras instituições financeiras internacionais, para se enfrentar os desafios à estabilidade financeira internacional”, disseram ontem em Washington DC os ministros das Finanças e os presidentes dos bancos centrais das cinco potências que formam o grupo conhecido pelo acrónimo que reúne o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O apoio, no entanto, dependerá “das circunstâncias individuais de cada país”.
Medo de um “salto qualitativo”
Na agenda da reunião deste grupo de economias emergentes, que se realizou à margem das reuniões do FMI e do Banco Mundial que estão a decorrer na capital federal norte-americana, esteve a questão da crise da dívida europeia. “Existe o real perigo de que a crise da dívida soberana, que não está a ser solucionada, se possa transformar numa nova crise financeira”, advertiu Guido Mantega, o ministro da Fazenda (Finanças) do Brasil. O tema “Grécia” foi citado explicitamente por Mantega.
O ministro brasileiro afirmou, também, que ” se está vivendo um agravamento da crise nos últimos meses”, o que requer que se “impeça que se dê um salto qualitativo, alcançando um nível mais grave”.
Ação conjugada e não cada um por si
O enfoque na importância de uma ação conjugada do grupo através do FMI e de instituições internacionais revela a importância que os BRICS dão ao reforço geopolítico da sua posição dentro destes organismos internacionais e à estratégia de funcionarem como uma “frente” nos fóruns internacionais, como o G20. Os BRICS insistem no reforço do seu poder de voto dentro do FMI. Contudo, a próxima revisão de quotas só está agendada oficialmente para janeiro de 2014 – daqui a mais de dois anos e três meses, o que, nos tempos que correm, é uma eternidade.
Conjugação de esforços a que é dada, aparentemente, mais importância do que à ação isolada de cada uma destas potências em relação a cada país em apuros em concreto. Esta perspetiva de ação coletiva por parte do grupo foi sublinhada, em particular, pelo governador do Banco Popular da China (o banco central), Zhou Xiaochuan.
Salvação imediata posta de lado
A perspetiva de “salvação imediata” e “em força” dos “periféricos” da zona euro, através de uma ação massiva no mercado secundário dos títulos do Tesouro ou nos leilões de dívida, parece, também, ter levado um balde de água fria. Ações pontuais continuarão a existir, mas serão marginais, segundo frisaram fontes chinesas à Voz da América.
A proposta do Brasil de agirem diretamente na Europa, inclusive no mercado secundário da dívida ou em instrumentos financeiros europeus potenciais, como as euro-obrigações, foi arrefecida pelos outros quatro parceiros. Guido Mantega tinha falado na possibilidade do seu país alocar 10 mil milhões de dólares para uma intervenção na zona euro.
Mas o ímpeto brasileiro foi travado, afirmou, ontem, o ministro das Finanças da África do Sul, Pravin Gordhan. “Não fomos tão longe”, disse à Reuters. O vice-ministro das Finanças russo, Sergei Storchak, citado também pela Reuters, comentou: “Todos temos diferentes formas de tomar decisões, não podemos sindicar o nosso dinheiro”.
Sex 23 Set 2011
A agência Moody’s acaba de cortar a notação da dívida de longo prazo da Madeira de B1 para B3.
Estes níveis são já abrangidos pela classificação de “lixo”, que para a Moody’s começa na nota de Ba1.
As notas de B1 e B3 apontam para uma situação ainda mais gravosa, de dívida muito especulativa, com claro risco de default técnico.
A descida para B3 coloca a Região Autónoma da Madeira – considerada pelo Financial Times como uma “rogue island” – na fronteira da classificação de default iminente, que começa com a nota de Caa1, quando esta é atribuída às dívidas soberanas.
Recorde-se que a Moody’s a 5 de julho baixou a notação da República Portuguesa de Baa1 para Ba2, que já é nível de “lixo”. Essa notação está 4 níveis acima do rating agora atribuído à Madeira.
Irrealismo do ajustamento levará a novo corte
A decisão da Moody’s vem na sequência do que já é conhecido nos blogues financeiros internacionais como “Madeira Gate”.
A agência de notação frisa que continua a analisar a situação para possível corte futuro. Ora, basta o corte de mais um nível para a dívida de longo prazo da ilha cair no primeiro domínio de default, a nota Caa1.
Um futuro corte poderá ocorrer se a agência considerar “irrealista” o plano de ajustamento em estudo com o Governo da República.
Dívida vale 5 vezes o rendimento anual da Madeira
As razões, aludidas pela Moody’s, prendem-se à “deficiente governação e gestão da região, tal como à fraca execução do orçamento”, postas a nu pela revelação oficial das “graves irregularidades”, que somam, segundo a agência, 195% do rendimento anual da região.
A “absorção” destas responsabilidades deverá levar “vários anos”, sublinha a agência no seu comunicado emitido a partir de Madrid já na madrugada de 23 de setembro.
Avaliando a actual situação da dívida madeirense, a Moody’s prevê que a dívida líquida direta e indireta deverá, no final de 2011, representar 5 vezes o rendimento anual da região. Ou seja, um montante superior a €4,5 mil milhões. O presidente do Governo Regional da Madeira admitiu, hoje, em entrevista à RTP-Madeira, que essa dívida poderá rondar os €5 mil milhões. “O que representa um aumento substancial em relação ao nível já elevado de cerca de 380% do rendimento anual da região atingido no final de 2009″, diz o comunicado da agência.
Sex 23 Set 2011
A “Operação Twist” de mudança do perfil do portefólio de títulos do Tesouro da Reserva Federal (banco central) norte-americana está a alcançar um dos seus objetivos – o de empurrar as yields (taxas de rendibilidade) dos títulos norte-americanos e alemães (Bunds) a 10 anos para mínimos históricos, mas desencadeou, desde quarta-feira à noite, uma onda de crash bolsista.
As yields dos títulos do Tesouro americano a 10 anos caíram hoje para 1,72%, um novo mínimo histórico, e no caso dos Bunds com a mesma maturidade para 1,67%, também, um novo mínimo. Sao níveis impressionantemente baixos.
Sector financeiro já perdeu 10% esta semana
Mas a decisão do banco central, liderado por Ben Bernanke, provocou hoje uma onda de crash nas bolsas mundiais, que se saldou por uma quebra de 4,487%. O sector financeiro foi ainda mais penalizado, com uma quebra, à escala mundial, de 4,978%.
Em termos acumulados, desde o início da semana, o índice global das bolsas (MSCI All-Countries World Index, que abrange as bolsas de 45 países) caiu 7,87% e o índice específico para o sector financeiro cotado (MSCI ACWI Financials) teve uma derrocada de 10%, segundo dados da Bloomberg.
O agravamento da dinâmica de crash bolsista é nítido a partir de serem conhecidas as deliberações da equipa de Ben Bernanke.
O vermelho começou por marcar ontem o fecho de Wall Street, mas a onda cresceu e atingiu com força as bolsas asiáticas, que fecharam hoje no vermelho, com destaque para o Hang Seng (da bolsa de Hong Kong) e o BCE Sensex 30 (da bolsa indiana), que caíram mais de 4%. No caso do índice indiano foi a maior queda diária nos últimos dois anos. O MSCI Asia Apex 50 fechou com uma quebra de 5,12%.
Na Europa, 16 bolsas fecharam com quebras superiores a 4%, entre elas as mais importantes, como Londres, Frankfurt, Paris, Milão e Madrid. O índice CAC 40, da bolsa de Paris, e o PSI 20, em Lisboa, fecharam com quebras superiores a 5% e três bolsas chegaram inclusive a cair mais de 6%, no caso da Áustria, Polónia e Rússia. O índice Bloomberg European 500 fechou com uma queda de 4,64%.
Na abertura de Wall Street, os índices Dow Jones e S&P 500 caíram mais de 2,5% e acabaram por fechar com quebras de 3,51% e 3,19% respetivamente. O índice das tecnológicas, o Nasdaq, caiu 3,25%.
Itália esteve acima de 550 pontos base
Mas o impacto não se deu apenas nas bolsas. O mercado secundário da dívida soberana foi atingido por uma revoada de deterioração da situação de crédito de grandes economias da zona euro – com destaque para a Itália, que galgou pela manhã os 550 pontos base de preço dos credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento), a França que está acima de 200 pontos base, a Bélgica próxima de 300 pontos base, e a própria Alemanha ultrapassou a barreira dos 100 pontos base.
O nível de 500 pontos base – agora ultrapassado pela Itália – é considerado um ponto de viragem, como ocorreu para a Grécia, Irlanda e Portugal.
A acalmia relativa em relação à Grécia – que recomeça as negociações para a semana com a troika e cujo risco de default da dívida soberana está adiado para dezembro -, foi largamente compensada pelo stresse na Itália.
O risco de default da dívida de Roma fechou em 37,78% e o custo dos cds situou-se em 533,04 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. A 21 de julho, o custo dos cds para a dívida italiana era de 250,94 pontos base, quase metade, e a probabilidade de incumprimento era inferior a 20%.
O stresse alastrou a Portugal – cujo risco fechou hoje em 63,91% -, à Espanha (com o risco em 31,97%), à Bélgica (cujo risco subiu para 23,2%), à França (com o risco em 16,5%) e mesmo à Alemanha, que tem um risco muito baixo, de 9,2%, mas que aofreu uma pressão significativa hoje.
Alto stresse na banca mundial
No mercado dos cds, 17 dos principais bancos do mundo subiram mais de 5% no preço desses seguros contra o risco.
Segundo dados da CMA DataVision, a lista alberga por ordem decrescente de aumento do preço dos cds: Morgan Stanley (+13,25%); Crédit Agricole (+12,83%); Australia an New Zealand Bank (+12,31%); Standard Chartered (+10,01%); Goldman Sachs (+9,98%); Nomura Securities (+9,65%); JP Morgan (+8,39%); Barclays (+8,34%); UniCredit (+8,27%); Wells Fargo (+8,02%); Deutsche Bank (+7,88%); Bank of Scotland (+7,80); Bank of America (+7,67%); Mitsubishi UFJ (+6,40%); ING (+5,84%); Lloyds (+5,63%) e Royal Bank of Scotland (+5,48%).
As três situações mais graves neste conjunto de bancos, em termos de custo dos cds, são o UniCredit italiano com 510 pontos base, o Morgan Stanley com 402,54 pontos base e o Bank of America com 402,44 pontos base, estes dois últimos dos EUA.
Sex 23 Set 2011
A banca portuguesa está sobretudo exposta a Espanha, num montante de €27,4 mil milhões, ou seja 19,5% do total de €140,61 mil milhões de exposição da banca portuguesa aos 30 países analisados pelo Banco Internacional de Pagamentos (BIS no acrónimo em inglês) no seu Quaterly Review de setembro .
Por outro lado, os principais credores bancários a Portugal são espanhóis, envolvendo €88,47 mil milhões, ou seja 41,5% do total de 212,74 mil milhões de créditos bancários a Portugal.
O cordão umbilical ibérico é manifesto. O agravamento da crise da dívida soberana e dos privados em qualquer um dos países tem um efeito “sistémico” peninsular.
No entanto, a banca portuguesa tem outras exposições importantes. O segundo maior destino é a Polónia, com €15,36 mil milhões. Segue-se a Holanda com €12,69 mil milhões e depois a Grécia com €10,24 mil milhões. A “sensibilidade” à crise grega representa 7,3% do total.
A banca portuguesa tem depois posições no Brasil (€9,7 mil milhões), nas praças offshore (€9 mil milhões, em que 3,7 mil milhões se situam nas Ilhas Caimão), nos EUA (€6 mil milhões), Moçambique (€3,49 mil milhões) e Angola (€3,45 mil milhões).
No que respeita aos credores bancários de Portugal, ainda segundo o relatório do BIS, depois da banca espanhola, segue-se, a alguma distância, a alemã (€38,86 mil milhões), a francesa (€28,34 mil milhões) e o Reino Unido (€26,60 mil milhões).
O relatório do BIS refere, ainda, que a situação líquida da banca portuguesa em termos de ativos e de responsabilidades é negativa, em €29,3 mil milhões.
Sex 23 Set 2011
A Reserva Federal (Fed) desapontou ontem muita gente que esperava algo mais do que uma “operação twist” de venda de títulos do Tesouro de curto prazo, a 3 anos ou menos, para a compra de títulos do Tesouro de longo prazo, com maturidades entre 6 a 30 anos. Uma operação de alteração do perfil do portefólio de títulos que deverá desenrolar-se até final de junho de 2012, num montante de 400 mil milhões de dólares (cerca de €396 mil milhões).
Foi um balde de agua fria nos investidores que esperaram, até ao último minuto, um terceiro programa de “alívio quantitativo” (quantitative easing, em inglês, QE no acrónimo), ainda que o banco central vá tentar replicar alguns dos efeitos do QE no plano de reciclagem de dívidas hipotecárias que, também, anunciou ontem. Esta dupla frente de combate, contra o risco de double-dip (recaída na recessão) nos EUA, já mereceu o baptismo de double-twist por parte do Financial Times.
Bem Bernanke, o presidente da Fed, foi ao baú da história da Fed buscar esta inovação dos anos 1960, uma operação que continua a suscitar paixões e ódios.
De falhanço de uma ingenuidade de Tobin…
O twist foi uma dança muito popular nos anos 1960 inspirada no rock and rol. Ela inspirou o Nobel James Tobin e a Reserva Federal numa operação que seria anunciada pelo, então, recém-eleito presidente John Kennedy em fevereiro de 1961. Kennedy tinha sido empossado no mês anterior.
O objetivo da Operação Twist original foi de baixar as taxas de juro de longo prazo e manter ou subir as de curto prazo num período em que os Estados Unidos viviam o final de uma recessão de 10 meses, provocando, como na dança provocatória, um “twisting”, uma contorção, na curva das yields. A baixa das taxas de longo prazo suscitaria maior propensão ao investimento interno e a manutenção ou subida das de curto prazo atrairia o investimento estrangeiro.
A quebra nas taxas de longo prazo provocaria, no ponto de viragem de saída da recessão, um encorajamento do investimento empresarial e no imobiliário nos Estados Unidos. Além disso, estancaria a hemorragia de ouro para a Europa, que não estava em recessão. Na altura, o valor do dólar estava fixado ao equivalente em ouro.
A operação seria abandonada em 1965 e acabou por ser encarada como um falhanço, depois da investigação realizada pelos economistas Franco Modigliani (Prémio Nobel de 1985) e Richard Sutch. Os dois autores publicaram o balanço na American Economics Review (edição de maio de 1966), com o título “Inovações na Política de Taxa de Juro”.
O próprio presidente da Fed, de então, William McChesney Martin, terá comentado, mais tarde, que a ideia de Tobin fora “irremediavelmente ingénua”.
Durante esta operação nos anos 1960, a Reserva Federal comprou 8,8 mil milhões de dólares de títulos do Tesouro (1,5 mil milhões em obrigações com prazos superiores a 5 anos e 7,3 mil milhões em bilhetes do Tesouro entre 1 a 5 anos de maturidade), o que representava, na altura, 1,7% do PIB – a atual operação de Bernanke envolvendo 400 mil milhões de dólares representará 2,6% do PIB estimado para 2011.
… a um efeito macroeconómico efetivo
No entanto, um economista do Banco da Reserva Federal de São Francisco, Eric Swanson, estimou, recentemente, que a operação dos anos 1960 teve impacto efetivo nas yields dos títulos do Tesouro de longo prazo, na ordem dos 15 pontos base, o que seria equivalente, em termos macroeconómicos, a uma operação de descida surpresa da taxa de referência (fed funds rate) na ordem dos 100 pontos base. A avaliação feita por Modigliani e Sutch teria sido errada. O título do artigo de Swanson era sugestivo: “Let’s Twist Again ” (publicado em 14 de março de 2011).
A ideia, agora, é contorcer as taxas de juro de longo prazo para níveis próximos das de curto prazo, de modo a incentivar o investimento num contexto de risco de recaída na recessão. O analista Peter Cohan espera que a contorção da dança de Bernanke não seja excessiva e que não haja inversão da curva, com as taxas de curto prazo mais altas do que as de longo prazo, “o que empurraria a economia americana diretamente para a recessão”.
O efeito no mercado secundário da dívida americana foi imediato. As yields para os títulos do Tesouro a 10 anos caíram, quarta-feira, para um mínimo histórico de 1,8576%, uma quebra durante o dia de 4,2%. O mesmo sucedeu com os títulos a 20 anos, que fecharam em 2,69%, um mínimo histórico desde que estes títulos foram reintroduzidos em 1993.
Na abertura de quinta-feira, as yields dos títulos do Tesouro americanos a 10 anos prosseguiam a queda, abrindo em 1,828%. A rendibilidade dos títulos de curto prazo estava em 0,10% para o prazo de 1 ano, 0,19% para 2 anos, e 0,61% para 3 anos.
Sex 23 Set 2011
A Grécia, a Itália e as divergências internas no Banco Central Europeu acabaram por ficar em segundo plano. Os Estados Unidos subiram à ribalta durante a tarde e noite de quarta-feira.
O final da reunião da Reserva Federal (banco central norte-americano), presidida por Ben Bernanke, e a decisão da agência de notação Moody’s (dominada pelo grupo de Warren Buffett) de cortar o rating da dívida de longo prazo do Bank of America e do Wells Fargo e de baixar a notação da dívida de curto prazo do Citigroup provocaram um choque em Wall Street nas últimas horas de negociação.
Os índices bolsistas tiveram um míni-crash. O Dow Jones desceu 2,49% e o S&P 500 baixou 2,94%. Na Times Square, o Nasdaq quebrou 2%.
A descida em Wall Street acabou por influenciar o balanço global nas bolsas mundiais, face a situações “mistas” (com índices no vermelho e outros no verde) na Ásia e na Europa. No entanto, alguns índices europeus e asiáticos já apontavam para o vermelho como cor dominante na quarta-feira. O MSCI Asia Apex 50 caiu 0,33% e, na Europa, o sentimento negativo foi mais forte – o Euro Stoxx 50 baixou 1,96% e o Bloomberg Europe 500 desceu 1,69%.
O índice global de bolsas, o MSCI AC World Index caiu 2%. O sector financeiro à escala mundial sofreu mais – o MSCI AC World Index Financials baixou 2,448%.
Verdades duras cada vez mais claras
Os investidores envolvidos nos mercados financeiros norte-americanos constataram hoje três factos:
- A Moody’s procedeu aos cortes das notações de três grandes de Wall Street, porque considera que não vai haver mais margem de manobra nos EUA para resgates de grandes bancos – os tais “demasiado grandes para falir” (TBTF, no acrónimo em inglês), que foram salvos aquando do início da crise financeira em 2008, têm hoje menos probabilidade de que isso aconteça. A era dos grandes resgates não se repetirá, sentenciou a agência de notação;
- A Reserva Federal (Fed) desapontou muita gente que esperava algo mais do que uma “operação twist” de venda de títulos do Tesouro de curto prazo, a 3 anos ou menos, para a compra de títulos do Tesouro de longo prazo, com maturidades entre 6 a 30 anos, uma operação que deverá desenrolar-se até final de junho de 2012, num montante de 400 mil milhões de dólares; um balde de agua fria nos investidores que esperaram, até ao último minuto, um terceiro programa de “alívio quantitativo” (quantitative easing, em inglês, QE no acrónimo), ainda que o banco central vá tentar replicar alguns dos efeitos do QE no plano de reciclagem de dívidas hipotecárias que, também, anunciou; esta operação em duas frentes já foi baptizada pelo Financial Times como double-twist;
- A Fed confirmou as verdades duras sobre a conjuntura económica e financeira norte-americana que já o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) desta semana sublinhava. O economista-chefe do FMI falou de 38% de probabilidade da economia norte-americana entrar em recessão e o relatório sublinhava que aumentaram bruscamente as tensões nos mercados globais financeiros. A Fed, com outra linguagem, disse o mesmo no seu comunicado.
Qua 21 Set 2011
As yields (juros implícitos, um indicador de rendibilidade) das obrigações do Tesouro (OT) português continuam a tendência altista no mercado secundário, refletindo a deterioração da situação de crédito do país.
As yields relativas às OT a 2 anos fecharam em 17,48% e as relativas às OT a 10 anos subiram para 11,67%, ambas acima do valor de fecho de ontem, segundo dados da Bloomberg. É de sublinhar que continua a ser manifesta a diferença entre as yields das OT e as relativas aos títulos irlandeses – para as duas maturidades referidas, fecharam em 9,37% e 8,67%.
Analisando por outro ângulo estes níveis de rendibilidade já altos (ainda que muito distantes dos gregos) das OT no mercado secundário, verificamos que os papéis portugueses estão a ser avaliados já com “cortes de cabelo”, dependendo das maturidades. Por exemplo, uma obrigação de longo prazo vencendo em março de 2021 apresentava hoje um preço atual de 56% em relação ao seu valor facial. Uma outra, de menor prazo, vencendo em outubro de 2013 revelava hoje um preço atual de 81,22% em relação ao seu valor facial.
A par do fator “interno” recente que foi batizado pelo Financial Times como “Rogue Island” (o problema das contas da Região Autónoma da Madeira), a conjuntura “exógena” é dominante em termos de sincronia “sistémica” da crise de dívida dos países “periféricos” da zona euro. Ou seja, o efeito de “contágio” não abranda.
O fator exógeno
1- Grécia “adiada”
A Grécia continua a dominar a conjuntura. A agência de notação de crédito Fitch declarou ontem que “espera que a Grécia entre em default, mas que não sairá do euro”. A troika deu, entretanto, mais uns dias ao governo em Atenas; regressa na próxima semana para prosseguir a análise da situação e decidir se desbloqueia a tranche de €8 mil milhões em outubro.
Tem-se referido a iminência de um evento de incumprimento por parte do país. E o risco de default aponta para probabilidades já acima de 90%. No entanto, o risco imediato, a partir de meados de outubro, não é um default externo (que desencadeie um vendaval nos mercados da dívida soberana), mas uma rutura interna de pagamentos. A Grécia só volta a ter de pagar dívida pública em dezembro. Esta semana honrou €769 mil milhões no cupão de duas grandes emissões de obrigações com maturidades em 2037 e 2040.
Alguns títulos gregos a 12 meses apontavam hoje para uma rendibilidade (yields) de mais de 230% com um preço de 56%, o que significa um corte de cabelo implícito de 44% em relação ao valor facial. Outros rondavam o valor médio que está acima de 125% e apontavam para um valor atual de menos de 50% do valor facial.
2- Itália: o “elefante” enlouquecido na piazza
A decisão da agência de notação Standard & Poor’s de cortar o rating da Itália desencadeou um processo de disparo do preço dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida soberana), que fecharam ontem em 511 pontos base, segundo a Mark it. O limiar dos 500 pontos é tido – de acordo com a experiência da Grécia, Irlanda e Portugal – um ponto de viragem na deterioração da situação de crédito.
As yields dos títulos do Tesouro italiano (BTP) abriram hoje em alta e as relativas aos BTP a 10 anos prosseguem a escalada no patamar dos 5% – fecharam em 5,76%.
A situação de Itália abala profundamente a zona euro, se prosseguir esta escalada. Os analistas falam de “um elefante enlouquecido numa piazza (praça) cheia de gente”, algo pior do que um elefante numa loja de porcelanas.
3- Divergências no BCE podem agudizar-se
Enquanto, por um lado, a agência Fitch não vê outra solução senão a intervenção ativa no imediato do Banco Central Europeu (BCE) no mercado secundário, o Bundesbank iniciou hoje tentativas de formar uma “coligação informal” de bancos centrais contra a estratégia seguida por Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE.
Segundo o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, o Bundesbank teria convidado vários banqueiros centrais para uma reunião em Eltville, sobre o Reno, citando que Yves Mersch, do Luxemburgo, e Klaas Knot, da Holanda, teriam aceitado estar presentes.
4- FMI fala de probabilidades de recessão
Jorg Decressin, conselheiro sénior do Departamento de Investigação do Fundo Monetário Internacional (FMI), declarou ontem, na conferência de imprensa liderada por Olivier Blanchard, o diretor do departamento, que há 38% de probabilidades dos EUA entrarem em recessão. Para o Reino Unido – o centro financeiro mundial mais importante em termos sistémicos – essa probabilidade desceria para 17%. Estas probabilidades baseiam-se num estudo econométrico sobre coincidências históricas entre derrocadas bolsistas e recessões.
Esta semana, Michelle Mayer, do Bank of America Merrill Lynch, afirmou que se “a crise na Europa escalar, poderá ser o choque que empurra a economia americana para a recessão”. E Franck Biancheri, do gabinete de prospectiva europeu LEAP, afirmou que o fogo vai pegar nos dois centros globais financeiros, Wall Street e City londrina, mais cedo do que se julga.
O economista francês do FMI não se coibiu de dizer que a economia mundial entrou “numa perigosa nova fase”, palavras fortes que são interpretadas como pressão para as grandes potências que estarão presentes nas reuniões do FMI, do Banco Mundial e do G20 em Washington DC no final desta semana serem influenciadas pela estratégia “interventiva” que tem sido defendida pela francesa Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo.
Apesar de a recessão poder não estar na esquina, o FMI reviu em baixa as suas previsões. O crescimento mundial para 2011 e 2012 não irá além dos 4% – a anterior previsão de junho apontava para 4,3% e 4,5% respetivamente. Neste abrandamento, os países desenvolvidos terão o crescimento reduzido para 1,6% em 2011 (com os EUA, a maior economia do mundo, a crescer, apenas, 1,5%, contra os 2,5% da previsão anterior). As próprias economias emergentes crescerão 6,4% em 2011, em vez dos 6,6% previstos anteriormente.
Para a zona euro, Blanchard referiu a previsão de um crescimento de 1,6% em 2011 e ainda menor em 2012, apenas 1,1% – as anteriores previsões apontavam para 2% e 1,7% respetivamente. Um balde de água fria sobre as expectativas de que a zona euro tenha no seu conjunto um crescimento que permita a alavancagem dos países “periféricos” em crise de dívida.
O economista-chefe do FMI repetiu, também, os avisos de Lagarde de que será necessário um processo de recapitalização bancária “especialmente na Europa”.
O relatório do FMI divulgado esta semana, intitulado “Global Financial Stability Report”, estima que o risco dos bancos, em vários países europeus, face às dívidas soberanas aumentou em €204 mil milhões desde o começo do 2010. A repartição desse aumento foi a seguinte: €71 mil milhões para o os bancos italianos; €56 mil milhões para os bancos gregos; €44 mil milhões para os bancos espanhóis; €17 mil milhões para os bancos portugueses; 9 mil milhões para os bancos belgas; e €7 mil milhões para os bancos irlandeses.
O FMI clarifica, no entanto, que não se trata de uma “medida das necessidades de capital dos bancos, mas sim de uma aproximação ao aumento do risco à dívida soberana vivido pelos bancos nos últimos dois anos”.
Qua 21 Set 2011
A Índia organiza a 22 de setembro em Washington DC uma cimeira dos ministros das Finanças dos seis países agrupados debaixo do acrónimo BRICS – para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A África do Sul foi recentemente adicionada. Concertação de estratégias em relação ao Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, G20m guerra de divisas e crise da zona euro estarão, certamente, em discussão.
Segundo o ministro das Finanças indiano, Pranab Mukherjee, a cimeira discutirá um relatório a apresentar por Nova Delhi sobre “o papel dos BRICS na economia global”.
O Brasil anunciou que poderá disponibilizar 10 mil milhões de dólares (mais de €7 mil milhões) para investir na dívida dos “periféricos” da zona euro.
Na semana passada, o Institute of International Finance (o lóbi financeiro agrupando 400 bancos de todo o mundo), que está negociando, por parte de credores privados, a reestruturação da dívida grega com Atenas, afirmou que fez diligências junto dos BRICS para que participassem com um empréstimo de 20 mil milhões numa solução do problema.
Recorde-se, ainda, que a China colocou, recentemente, condições à Europa para a sua intervenção no mercado da dívida da zona euro. No Fórum de Verão de Davos que se realizou em Dalian, na China, o primeiro ministro chinês “sugeriu” aos europeus que antecipassem o reconhecimento do seu país como uma “economia de mercado”, no âmbito do que isso implica segundo as regras da Organização Mundial do Comércio.
Entretanto, o governo brasileiro colocou um pedido oficial na Organização Mundial do Comércio para que este organismo sedeado em Genebra avalie a legitimidade dos governos criarem barreiras alfandegárias como compensação face a valorizações excessivas das suas moedas.
A Índia recebeu, esta semana, a boa notícia de que as previsões do Fundo Monetário Internacional apontam para que tenha ultrapassado o Japão este ano em PIB, passando a 3ª economia do mundo, depois dos EUA e da China (se não se contar a União Europeia como uma só entidade). A Índia deverá atingir, no final do ano, um PIB de 4448 mil milhões de dólares (4,448 biliões de dólares) e o Japão de 4418 mil milhões (4,418 biliões de dólares).
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