Ter 2 Ago 2011
À espera de um terramoto político em Itália — diário de bordo 303
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Entrevistas no calor do bail out , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Inteligência Económica[2] comentários
No dia em que os juros dos títulos do Tesouro italiano a 10 anos estão acima de 6% e o custo dos seguros financeiros contra o risco de bancarrota subiram para mais de 350 pontos base, Fabrizio Goria adverte para a possibilidade de uma situação de rutura política como em 1992
As yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro italiano nas maturidades a 10 anos subiram para 6,13%, segundo dados da Bloomberg. O preço dos credit default swaps, seguros financeiros contra o risco de bancarrota (default) dispararam para valores acima de 350 pontos base e a probabilidade de incumprimento está em 26,76%, segundo a CMA DataVision. O regulador italiano, a Consob, pediu esclarecimentos ao Deutsche Bank sobre venda de títulos do Tesouro italiano e correu o rumor em Roma e Milão de que o Departamento do Tesouro italiano vai cancelar todas as operações de leilões da dívida em agosto e setembro, o que foi prontamente desmentido.
Situação inimaginável há alguns meses atrás em uma das economias que fazem parte do “coração” da União Europeia e da zona euro.
A bolsa italiana afunda-se pelo segundo dia. O índice MIB fechou com uma quebra de 2,53%, depois de ontem ter fechado no vermelho com um crash de mais de 3%.
Reuniões de emergência
Entretanto, o ministro das Finanças italiano, Giulio Tremonti, reúne-se na quarta-feira com o presidente do Eurogrupo, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, um dos teóricos da “reestruturação suave” da Grécia. E o comissário europeu Olli Rehn deverá reunir-se com Tremonti ainda hoje. O cheiro a crise está no ar – apesar de Bruxelas já ter desmentido qualquer ideia de planos de resgate para Espanha, Itália e Chipre (outra bomba relógio no Mediterrâneo Oriental).
O que se passa com a Itália? Uma situação provável de véspera de um terramoto político, em que o fósforo pode ser a demissão do ministro das Finanças, afirma ao Expresso Fabrizio Goria, especialista financeiro do Linkiesta, um novo jornal financeiro italiano online, criado pelo ex-diretor geral do UniCredit, Alessandro Profumo, e por empreendedores e advogados.
Financial Times redige obituário de Berlusconi e Tremonti
Fabrizio ressalta o obituário político de hoje no influente jornal Financial Times em relação a Sílvio Berlusconi, o primeiro-ministro, e Giulio Tremonti. Para o especialista do Linkiesta, a situação atual de apodrecimento político na Itália faz-lhe recordar um episódio anterior – o período de 1992, de profunda crise política em Itália, de verdadeiro terramoto do tecido político com o processo Mani Pulite (Mãos Limpas). Paradoxalmente, a “limpeza” conduziu a um governo de transição de Giuliano Amato que teve de proceder a uma desvalorização da lira e um programa de austeridade que exerceu uma punção fiscal sobre as poupanças dos italianos, que abriria caminho à ascensão do primeiro governo de Berlusconi. Na altura o fósforo de toda esta situação foi o ataque de George Soros ao Banco de Inglaterra que teve repercussões em Itália.
A situação económica agrava os problemas. “A 5 de agosto, na próxima sexta-feira, vão ser divulgadas as estimativas para o crescimento do 2º trimestre deste ano. O crescimento italiano, nas duas últimas décadas, tem sido anémico, incapaz de ter competitividade na União Europeia”, sublinha Fabrizio Goria. Os dados do primeiro trimestre de 2011 foram dececionantes – um crescimento de 0,1% em relação ao último trimestre de 2010 e de 1,1% em termos anualizados. A Itália, desde os 3,75% de crescimento no ano 2000, não mais voltou a esse patamar. Depois de 2000, o ano de mais alto crescimento foi 2006 com 2%. Em 2008 e 2009, a Itália sofreu uma recessão profunda com uma quebra do PIB acumulada de 6,5%. Em 2010 entrou numa retoma fraca, de 1,3%.
Com estas fragilidades, a oitava economia do mundo e quarta da União Europeia, com mais de 2,5 biliões (2500 mil milhões) de dólares de Produto Interno Bruto (PIB), entrou no radar dos investidores e dos mercados da dívida. “A Itália apresenta o terceiro mais alto nível mundial de dívida pública em relação ao PIB, na ordem dos 120%, a seguir ao Japão e à Grécia. Isto é suficiente para explicar o apetite destes mercados”, refere-nos o especialista italiano. No entanto, 56% da dívida pública italiana está, ainda, na mão de residentes. “Os bancos italianos estão sob pressão em virtude das dívidas nos seus portefólios. Mas não penso que caminhemos para um default [sobre a dívida soberana]. A Itália é demasiado grande para ser resgatada. Não há interesse em deitar abaixo um dos países fundadores da União Europeia”, adianta Fabrizio Goria. No entanto, admite a possibilidade de uma situação financeira complicada a nível “doméstico”.
Cimeira de Bruxelas não acalmou mercados
Esta situação nos mercados da dívida que está a afetar Espanha e Itália em particular deriva do facto da última cimeira extraordinária da União Europeia em Bruxelas “não ter acalmado os investidores”, diz o especialista italiano, que prossegue: “O contágio a Espanha e Itália continua. A Europa perdeu uma oportunidade para se mostrar mais unida. A França e a Alemanha decidiram salvar os seus bancos e acabaram por dividir a Europa entre países do centro e países periféricos. A Europa revelou que não tem mecanismos de gestão de crise”. Ora, esta situação foi bem entendida pelos investidores internacionais.
A própria flexibilização do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) não foi convincente. “Parece-se mais com o TARP (Troubled Asset Relief Program)”, o mecanismo norte-americano de recolha de lixo tóxico do sistema financeiro até um valor de 700 mil milhões de dólares criado no final de 2008 pela Administração W. Bush. Fabrizio Goria é de opinião que o FEEF deveria ser recapitalizado até um montante de €2 biliões de euros (2000 mil milhões).
Agosto 3rd, 2011 at 7:15
[...] À espera de um terramoto político em Itália | Jorge Nascimento Rodrigues | Expresso | Geoscopio.tv English Edition by: JPO | [...]
Agosto 3rd, 2011 at 7:32
[...] Source: À espera de um terramoto político em Itália | Jorge Nascimento Rodrigues | Expresso | Geoscopio.tv English Edition by: JPO | LISwires [...]