Julho 2011


O mercado secundário da dívida soberana esteve hoje focalizado em Espanha e na Itália. As yields (juros implícitos) das obrigações (OE) espanholas e dos títulos italianos foram as que mais aumentaram hoje na zona euro, segundo dados da Bloomberg.

O facto mais marcante foi a subida dos juros das OE a 10 anos, de novo, para um nível acima de 6%. Os juros dos títulos italianos para a mesma maturidade subiram para 5,66%.

Exceção portuguesa

Portugal acabou por ser uma exceção no grupo dos seis países da zona euro sob observação (Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália e Bélgica). Foi o único em que os juros baixaram em relação ao fecho de sexta-feira. Os juros dos títulos irlandeses a 10 anos já estão 1 ponto percentual acima dos portugueses para a mesma maturidade.

Ricardo Cabral fez as contas sobre o real impacto da “oferta” de reestruturação de parte da dívida grega com “envolvimento do sector privado” – PSI, o acrónimo que se tornou corrente na linguagem de Bruxelas.

A cimeira europeia de quinta-feira passada (21 de julho) acalmou os analistas e os políticos. Os analistas acreditaram, de imediato, que o default iminente grego tinha sido afastado. Os políticos dos três países resgatados sublinharam, efusivamente, a baixa das taxas de juro dos empréstimos da FEEF (Facilidade Europeia de Estabilização Financeira) e o reescalonamento dos prazos de pagamento (de 7,5 para entre 15 e 30 anos).

Também a referência a um “Plano Marshall” – uma expressão que desapareceu do comunicado final – de realocação de fundos estruturais para a Grécia foi bem recebida.

Já os mercados da dívida começaram logo pela tarde de sexta-feira a duvidar da euforia e inverteram as tendências de descida nas yields dos títulos públicos no mercado secundário e nas probabilidades de incumprimento das dívidas soberanas de vários países da zona euro, conforme o Expresso noticiou na sexta-feira.

A novidade da reestruturação seletiva

Uma das novidades da cimeira de Bruxelas foi a inclusão de uma reestruturação da dívida grega em mão de credores privados, assumida como “solução excecional e única para a Grécia”.

Ricardo Cabral, economista e professor da Universidade da Madeira, fez as contas sobre a solução de reestruturação seletiva da dívida para a Grécia e concluiu que “a proposta de reestruturação [pelos credores privados], ao contrário do que argumenta o The Institute of International Finance (IIF), é muito benéfica para os credores, porquanto, de acordo com estimativas que efetuei, não reduz o valor atual da dívida grega [em mão de privados] em 21% (haircut, “corte de cabelo”, na gíria) como alegado pelo IIF, antes o aumenta significativamente. Os credores internacionais não só não perdem como ainda ganham”.

A proposta de reestruturação da parte privada foi preparada pelo IIF, uma associação internacional privada de instituições do setor financeiro (bancos, companhias seguradoras, etc), e envolve €135 mil milhões de dívida soberana grega que vencerá entre 2011 e 2020.

Nas contas de Ricardo Cabral, se “se assumir uma taxa de desconto de cerca de 4,5%, que é mais razoável do que a escolhida pelo IIF [que é do dobro, 9%], o valor atual da dívida grega em mão de privados aumenta cerca de 130% – para €157 mil milhões – em relação ao valor a que estava a ser transacionada no mercado secundário antes da cimeira da semana passada (cerca de €67 mil milhões)”. O economista refere, ainda, que “nessa altura, a dívida grega estava a ser transacionada com um desconto significativo, porque os mercados assumiam que ocorreria uma reestruturação de dívida”.

Expetativa de ganho de 130%

E prossegue: “O que a minha estimativa indica é que quem comprou dívida grega pouco antes da cimeira europeia tem, após o acordo de reestruturação de dívida do IIF, uma expetativa de ganho, no longo prazo, de cerca de 130%. Mas, mesmo um investidor que tenha adquirido a dívida aquando da sua emissão pelo governo grego também fica a ganhar porque a divida emitida pela Grécia com um valor facial de €135 mil milhões passa, após o referido acordo, a ter um valor atual de €157 mil milhões, ou seja, mais 16%”.

“A taxa de juro paga pela Grécia para os €135 mil milhões de dívida que será reestruturada sobe para um patamar entre 5.4% e 6.4%. Essa taxa de juro é o resultado da taxa de juro paga pela Grécia aos investidores privados (entre 4% e 5%) mais 36% da taxa de juro de 3,5% paga à FEEF para adquirir os novos instrumentos de dívida de rating AAA para utilizar como colateral para os credores”, acrescenta o economista.

Mesmo se se utilizar a metodologia do IIF, e se assumir a taxa de 9%, escolhida pelo instituto, o valor atual da dívida grega diminui somente 7,4% e não 21%, conclui o professor da Universidade da Madeira.

A agência de notação Moody’s (onde Warren Buffet é o principal investidor) baixou uma vez mais o rating da dívida grega.

A notação dada pela Moody’s baixou de Caa1 (que equivale à notação de CCC já atribuída pela Standard & Poor’s e a Fitch) para Ca (que equivale à notação de CC, que a S&P e a Fitch ainda não atribuíram).

“Ca” (ou CC) significa, nas avaliações técnicas, “liquidez muito duvidosa e default (incumprimento) frequente”.

Este nível fica apenas a dois degraus da notação de default (D). Pelo meio fica, apenas, a notação C.

A agência declarou, ainda, que a probabilidade de uma troca de acções prejudicando os credores (uma distressed exchange, ou DE, na linguagem técnica), e portanto de um default dos títulos gregos, é “virtualmente de 100%”.

Perspetiva “em desenvolvimento”

No entanto, o comunicado da agência, publicado em Sidney, deixa algum otimismo, admitindo que as decisões da cimeira permitem à Grécia uma janela de oportunidade para estabilizar a situação.

Por isso, a agência, em vez das tradicionais “positiva” ou “negativa” na perspectiva futura de notação, usou, desta vez, a palavra “em desenvolvimento”.

I – UMA CONVERSA PELA MANHÃ COM… OREGÃO: Mark Thoma fala de resultado “incerto” quando toda a gente esperava o milagre no domingo.

“Este ambiente tribunício é de esperar até ao último minuto. Ainda que eu espere que venham a reconhecer o grau com que têm estado a brincar com o fogo”, diz-nos Mark Thoma, um dos economistas norte-americanos mais ativos na blogoesfera, autor do blogue Economist’s View. “Se chegarem a um acordo antes da data limite, e mostrarem alguma inclinação para o desenvolvimento de um plano de redução do défice com perspetiva de longo prazo, tudo acabará em bem. Mas esse resultado não é certo – como eu antes julgava”, acrescenta o professor de Economia da Universidade do Oregão, na costa do Pacífico dos Estados Unidos.

A América – e o mundo – ficou perplexa com a súbita viragem da discussão académica e nos media. Do risco de recaída na recessão (double-dip, na expressão do economês anglo-saxónico) e dos efeitos – negativos ou positivos – das políticas de “alívio quantitativo” (quantitative easing, no original em inglês) prosseguidas pela Reserva Federal (Fed, banco central) passámos para a crise do teto de endividamento. Pela primeira vez a palavra demoníaca do default (incumprimento) da dívida soberana subiu ao palco e deixou de ser tabu discutir que até a maior potência do mundo pode entrar em bancarrota, mesmo que temporariamente e parcialmente.

O panorama mudou em maio, depois do teto de endividamento autorizado ter sido alcançado. E, em vez de um procedimento de “rotina” para o aumentar – como aconteceu dezenas de vezes anteriormente -, tornou-se num campo de batalha.

Polarização ideológica

A questão veio ao de cima recentemente, diz Mark Thoma, naturalmente como um efeito de cauda da crise financeira e da recessão de 2008-2009. “A recessão causou uma queda enorme dos rendimentos e por isso dos impostos. E também implicou um aumento nos gastos com serviços sociais. Muito do défice recente derivou de uma economia em más condições”, explica o economista-bloguer, que prossegue para o terreno político: “Mas isso foi usado para mobilizar o público para os objetivos ideológicos do GOP (acrónimo para Grand Old Party, o Partido Republicano) de um governo mais pequeno através de redução de gastos. Em suma, o problema foi agravado pela recessão, e depois explorado por motivos políticos”.

Ora é o calendário político que está a aquecer o tema. “Este assunto não é novo. É o mais recente reflexo da polarização ideológica entre os dois partidos [Republicano e Democrata]. Esta polarização tem estado a ser alimentada há já algum tempo”.

Recorde-se que na sexta-feira, romperam-se as negociações entre o speaker da Câmara dos Representantes (equivalente a presidente do Parlamento, terceira fígura do Estado americano), o líder Republicano John Boehner, e o presidente Obama por uma divergência de 40 mil milhões de dólares anuais a obter em receitas federais adicionais propostas por Obama – 1% da despesa federal atual. Os 400 mil milhões adicionais propostos por Obama na reunião na Casa Branca representam apenas 10% da plataforma encontrada para cortar 3 biliões (3000 mil milhões) a 3,5 biliões (3500 mil milhões) de dólares em dez anos.

Quem é Mark Thoma

Mark Thoma é um macroeconomista e especialista em econometria do Departamento de Economia da Universidade do Oregão, em Eugene, no estado norte-americano do Oregão, na costa do Pacífico, e que faz fronteira com o Canadá.

A sua investigação académica tem-se centrado nos efeitos da política monetária na economia e na modelação de ciclos económicos e políticos. É colunista no The Fiscal Times, uma publicação que considera o presidente Obama “moderadamente conservador” na prática.

II -FRANCK, EM PARIS, DIZ-ME QUE NÂO HAVERÁ ACORDO

Ainda não há acordo, este domingo, em Washington para o aumento do teto de endividamento.

Realizou-se, entretanto, uma reunião na Casa Branca entre o Presidente e os líderes democratas do Senado e do Congresso, Reid e Pelosi, que se realizou entre as 18h e as 19h locais.

O speaker da Câmara de Representantes, o Republicano John Boehner, disse que não apresentará nenhum plano hoje (domingo). Talvez amanhã (2ª feira) à tarde apresente alguma proposta na Câmara dos Representantes. Já declarou que “com este presidente não há hipótese de acordo amplo”.

A competição entre propostas de um lado e de outro vai marcar este período de aproximação à data limite, refere-nos Franck Biancheri, responsável do laboratório de prospectiva francês LEAP 2020, que se mantém muito pessimista sobre os resultados da luta política na América. O LEAP previu este desenrolar da situação nos Estados Unidos – em contraste com alguma capacidade política de entendimento pelo eixo franco-alemão no caso da crise na zona euro.

Vai ser um fim-de-semana “quente”. O presidente Obama reuniu na Casa Branca este sábado (23 de julho)com os lideres Republicanos e Democratas do Congresso durante, apenas, 50 minutos. Não houve fumo branco e as negociações vão prosseguir.

A sequência de acontecimentos a menos de seis dias do limite de 2 de agosto é impressionante. De rumores de entendimento entre Obama e os Republicanos passou-se a um rompimento na sexta-feira.

Foi, de facto, um Presidente claramente frustrado com os Republicanos que surgiu na sexta feira ao final da tarde (hora de Washington) na 3ª conferência de imprensa em duas semanas em torno do tema do momento na América: o risco de um default (incumprimento) na maior economia do mundo nas primeiras semanas de agosto se o teto de endividamento federal não for aumentado na próxima semana.

O pânico de 2ª feira em Wall Street

Apesar do corte de negociações na sexta-feira por parte do speaker Republicano John Boehner, o presidente norte-americano repetiu “We will not default” (Não entraremos em incumprimento), mas alertou que os “mercados reabrirão na segunda-feira” e que as agências de notação de risco poderão não esperar por tantos jogos políticos.

Alguns media da área de negócios titularam, logo, depois da conferência de Obama: “Será que os mercados entrarão em crash na segunda-feira?”. O fantasma de Wall Street caindo a pique regressou.

Até há pouco tempo atrás a grande discussão nos Estados Unidos girava em torno da possibilidade de um double-dip (recaída na recessão) e dos efeitos – benéficos ou negativos – dos dois programas de “alívio quantitativo” prosseguidos pela Reserva Federal. Subitamente, surgiu a partir de meados de maio o tema do teto de endividamento e a palavra tabu “default” subiu à cena nos Estados Unidos, a economia do mundo onde seria suposto tal nunca acontecer.

Republicanos prisioneiros de grupo radical

“Coloquem a política de lado apenas por um minuto”, apelou Obama que convocou para o dia seguinte uma reunião dos quatro líderes do Congresso – o próprio Boehner, que é o speaker (equivalente a presidente do Parlamento) da Câmara de Representantes, a líder democrata da minoria na Câmara, Nancy Pelosi, o líder da maioria democrata do Senado Harry Reid e o líder republicano da minoria do Senado Mitchel McConnell. Não foi referido se seria convocado o líder da maioria republicana da Câmara, Eric Cantor.

O presidente declarou que recuou até ao limite – inclusive no que já não era aceitável pelos democratas – nas negociações com Boehner, admitindo não aumentar impostos (mas sim aumentar a receita apenas alargando a base tributária e eliminando ‘buracos’) e aceitando cortar inclusive em programas de saúde e na segurança social. Obama salientou que havia dado o “sim” a um compromisso que ia para além da própria proposta do “grupo dos seis” – senadores democratas e republicanos que avançaram com uma plataforma bipartidária. Mas que Boehner não aceitou e que inclusive não respondeu a um telefonema do presidente, o que alguns analistas interpretaram como uma quebra no próprio relacionamento pessoal dos dois políticos – recorde-se que o speaker é o terceiro na hierarquia americana, depois do presidente e do vice-presidente.

A interpretação política dada por Obama sobre este rompimento por parte de Boehner é o facto do republicano estar prisioneiro de um grupo de pressão radical interno para quem “um default não é sequer problema”.

Um dos congressista americanos que advoga abertamente o “default agora” é o republicano Ron Paul, candidato às presidenciais de 2012 e um dos mais acérrimos inimigos da Reserva Federal (banco central) e das suas políticas. Paul, em artigo publicado na sexta-feira na Bloomberg, afirmou “é preferível que seja mais cedo do que mais tarde” e com uma crise bem pior.

Bola de gelatina

O speaker, em resposta, meia hora depois, argumentou que o corte de negociações derivou do presidente, no último minuto, ter pedido mais 400 mil milhões de dólares em aumentos de impostos para além dos 800 mil milhões já acordados, que seriam obtidos através da reforma do sistema tributário. Acusou o presidente de não se ater a compromissos anteriores. Boehner disse ainda que “como pequeno empresário que fora sabia bem como mais impostos fazem mal”. E que não recuaria nesse ponto.

“Negociar com a Casa Branca é como negociar com uma bola de gelatina”, comentou Boehner, que se concentrará, agora, em procurar um entendimento no Senado, onde o plano republicano foi chumbado, depois de ter sido aprovado na Câmara de Representantes. O Senado tem maioria democrata e a Câmara maioria republicana.

Boehner, no entanto, sublinhou que estaria presente na reunião de sábado convocada pelo presidente e que “não acredita que o relacionamento [entre os dois] tenha ficado estragado em definitivo”.

Alguns analistas sugeriram que os Republicanos aceitassem um acordo mínimo que permitisse no curto prazo uma extensão por algumas semanas – falou-se em 4 a 6 semanas – do teto de endividamento federal. Boehner respondeu, na conferência de imprensa que deu, que não aceitaria essa possibilidade. Mais uma porta que se fechou.

Plano B – Obama sobe 2,5 biliões

Surge, assim, a possibilidade de um Plano B – o próprio presidente aumentar o teto de endividamento, caso necessário. “Tomarei a responsabilidade. Fá-lo-ei. Não vamos alimentar este jogo”, disse, enfaticamente, o presidente. Poderá aumentá-lo em 2,5 biliões de dólares (2500 mil milhões de dólares).

Continua a apontar-se quarta-feira (27 de julho) como o dia D para uma resolução legal, ainda que a Barclays Capital tenha adiantado que o limite de 2 de agosto poderá ser estendido.

Vários analistas referiram que este ambiente político confirmará as dúvidas das agências de rating que suspeitam que o sistema político americano não tem atualmente capacidade em lidar com o problema da dívida pública e do défice orçamental numa perspetiva de longo prazo, mesmo que chegue a uma solução de mais um aumento do teto da dívida até 2 de agosto.

Radiografia breve

Os dados fundamentais de enquadramento desta discussão são os seguintes:

- défice federal em % do PIB estimado para final de 2011: 10,91%;

- dívida pública (bruta) estimada para final de 2011: 102,63% do PIB;

- teto de endividamento já atingido em maio de 2011: 14,3 biliões de dólares (14.300 mil milhões de dólares), 95% do PIB americano para este ano ;

- responsabilidades líquidas dos Estados Unidos: 200 biliões de dólares (200.000 mil milhões de dólares), 13 vezes o PIB americano;

- lista de subidas do teto desde … 1919.

Gráfico

A verdade sobre os cortes de despesas e aumento de impostos (gráfico do WP)

“É essencial, depois de um possível default [restrito na Grécia], implementar, rapidamente, novos planos de resgate para Portugal e Irlanda para garantir aos investidores que a Grécia é a única exceção de fato”, afirma Alessandro Giovannini, do Center for European Policy Studies (CEPS), um think tank sediado em Bruxelas.

O investigador sublinhou-nos que esses pacotes adicionais aos dois países deveriam ser prioritários, apesar da Irlanda e Portugal terem níveis de dívida em relação ao Produto Interno Bruto inferiores aos da Grécia e de em Lisboa e em Dublin se estar “a implementar adequadamente” os planos da troika. “Fazer isto, agora, em conjugação com a solução para a Grécia, fortaleceria a confiança dos mercados”, sublinha.

Sem “envolvimento de privados”

No entanto, Alessandro Giovannini acentua que nestes dois novos planos não deveria haver envolvimento dos credores privados (agora designados pelo acrónimo inglês PSI) em nenhuma reestruturação, mesmo restrita, da dívida soberana, dentro da linha do que foi afirmado na cimeira europeia como sendo uma solução “excecional e única” para a Grécia.

“Com a atual tendência dos spreads, é pouco provável que Portugal consiga reentrar no mercado em 2013 para comprar €10 mil milhões. Por isso torna-se politicamente – mais do que financeiramente – importante oferecer um novo plano para os restantes países periféricos com problemas”, diz o investigador. O total previsto, no caso português, para ir ao mercado até 2014 é da ordem de €26 mil milhões em títulos a médio e longo prazo.

Alessandro Giovannini com Cinzia Alcidi e Daniel Gros, do CEPS, publicaram, recentemente, um artigo comparando a evolução da crise da dívida na Argentina com a da Grécia, ainda que se interrogassem em título: “A História repete-se: do default argentino à tragédia grega?”.

O cafézinho de Merkel, Sarkozy e Papandreou parece não estar a surtir o efeito desejado. Hoje assistiram-se a duas reviravoltas da parte da tarde – os juros da dívida voltaram à tendência de subida e as probabilidades de bancarrota dos “periféricos” também. Algo surpreendente para quem já havia esgotado o stock de champanhe e os foguetes.

O cafezinho de Merkel (foto Reuters)

Ainda é cedo para concluir se se trata de uma “oscilação selvagem” temporária, filha da volatilidade, ou se está a ocorrer uma viragem no “sentimento” dos investidores nas dívidas soberanas da zona euro indicando que as resoluções da cimeira europeia de ontem não os convenceram da solidez dos instrumentos financeiros colocados em campo e do caráter “excecional e único” da estratégia seguida para a Grécia.

Fecho no mercado secundário: yields invertem tendência

As yields (juros implícitos) das obrigações espanholas (OE) e dos títulos do Tesouro italiano e belga, em todas as maturidades, voltaram à tendência de subida. Os juros das OE a 10 anos reaproximam-se do caminho dos 6%, e fecharam em 5,77%, e no caso italiano, para a mesma maturidade, em 5,41%, segundo dados da Bloomberg.

No caso dos títulos dos três países já resgatados pela troika – Grécia, Portugal e Irlanda -, os juros prosseguiram uma descida colossal até à tarde, quando ocorreu uma travagem ou mesmo uma inversão da tendência. As maiores descidas diárias de juros verificaram-se nos títulos a 3 e a 2 anos da Grécia e nos títulos a 2 anos da Irlanda. Os juros para os títulos irlandeses a 10 anos continuam acima dos portugueses.

Os juros das obrigações do Tesouro portuguesas fecharam em 15,39% nas maturidades a 2 anos, 16,51% nas a 3 anos, 15,40% nas a 5 anos e 10,95% nas a 10 anos. Apesar da inversão da tendência durante a tarde de hoje, são níveis muito distantes dos picos atingidos na 2ª feira, o que mantém a melhoria das condições de crédito para o país.

Este comportamento das yields dos títulos públicos nos seis países da zona euro referidos está em conformidade com o que ocorreu, também, no mercado dos credit default swaps (cds), com uma reviravolta nos riscos de default à tarde, a que já nos referimos.

Em compensação, os juros relativos aos Bunds, títulos alemães, e aos títulos do Tesouro americanos e franceses inverteram a tendência de subida.

A diminuição dos juros dos Bunds implicou o aumento do spread em relação aos juros dos seis países sob observação, o que se repercute, logo, no custo dos cds e no risco de incumprimento.

Risco de incumprimento – mesmo padrão de inversão

Inverteu-se, à tarde, a tendência de descida acentuada do risco de default nos 6 países da zona euro sob observação dos mercados da dívida – Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália e Bélgica – segundo dados do meio da tarde da CMA DataVision.

A Irlanda voltou ao 3º lugar do “clube” da bancarrota (grupo dos 10 países com risco de incumprimento mais elevado) e a Espanha ao 8º, depois de terem descido durante a manhã para o 4º lugar e a 10ª posição, respetivamente.

O aumento do risco no caso italiano – que subiu de 17,6% para 20,15% no espaço de poucas horas – ainda não foi suficiente para que o país europeu reentre no “clube” desalojando o Vietname.

O risco de default da Grécia subiu para 74%, depois de ter descido para 71,68%; o de Portugal para 54,05%, depois de ter estado em 50,9%; o da Irlanda para 52,65%, depois de ter chegado aos 49%; o de Espanha para 23,85%, depois de ter estado em 21,5%; o de Itália subiu para 20,15%, depois de ter descido para 17,6%; o da Bélgica subiu para 13,63%, depois de ter estado em 12,53%.

A novidade, agora, é que a alta nos “periféricos” é acompanhada pela subida do risco de incumprimento na França e na Alemanha – ainda que o patamar da probabilidade de default nestas economias seja dos mais baixos do mundo. Estes dois países do núcleo duro, juntamente com a Bélgica e a Itália, são os que maiores subidas diárias estão a apresentar hoje no conjunto de 80 países seguidos pelo monitor da CMA DataVision. A França voltou a galgar o patamar dos 100 pontos base no custo dos credit default swaps associados à sua dívida soberana.

A uma semana da América poder entrar, pela segunda vez na sua história, em default temporário, o líder Republicano da Câmara dos Representantes apontou a próxima 4ª feira como o dia D da decisão sobre a subida do teto de endividamento federal e disse que este fim de semana será quente em Washington.

O speaker (equivalente à presidência do Parlamento) da Câmara dos Representantes, o Republicano John Boehner, afirmou hoje, numa reunião à porta fechada de congressistas republicanos, que os legisladores terão de resolver o problema do teto de endividamento do governo federal na quarta-feira, apenas 3 dias úteis antes do dia – 2 de agosto – em que os EUA poderão entrar em default temporário.

Para poder haver uma votação na próxima quarta-feira, será necessário ter alguma proposta colocada na 2ª feira na Câmara dos Representantes. Algum acordo terá de ser negociado nas próximas 48 horas. O Politico.com adianta que o presidente Obama gostaria ainda hoje de anunciar algum enquadramento para o acordo.

Um fim de semana quente

O Senado dos Estados Unidos, de maioria democrata, bloqueou hoje o plano republicano conhecido por “Cut, Cap & Balance” que havia sido aprovado na Câmara de Representantes no dia 19 de julho pela maioria republicana.

Boehner afirmou que, apesar das reuniões realizadas com o presidente Obama, em que ele próprio participou juntamente com o líder da maioria republicana, Eric Cantor, nenhum acordo foi ainda obtido com a Casa Branca. “[Os dois lados] não estão próximos de um acordo”, frisou publicamente, e acrescentou: “Vai ser um fim de semana quente”.

Mas até pode haver uma folga de mais uma semana.

O Barclays Capital (BarCap) estima, agora, que o limite possa ser 10 de agosto e não dia 2. O grupo de investigação em Taxas de Juro do BarCap admite que os pressupostos que apontavam para dia 2 poderão ter sido alterados pelo facto de que “as receitas do Tesouro foram mais altas do que o previsto”. Segundo o BarCap, “na semana passada, as entradas foram 14 mil milhões de dólares superiores e as saídas mil milhões mais baixas”.

Posições em confronto

A “Cut, Cap & Balance” agora chumbada no Senado pretendia fixar em 18% do PIB o teto de despesa federal. A despesa federal (estimativa 2011) é de 25,32% do PIB, em que as principais rubricas são Defesa: 6,4%; Saúde: 5,85%; Pensões: 5,26%; Segurança social: 3,29%; Juros: 2%.

O Presidente Obama endossou dia 19 de julho a proposta do designado grupo dos seis (também conhecida como proposta Conrad, do nome do senador democrata Ken Conrad), de senadores republicanos e democratas, para um plano de corte de 3,6 a 3,7 biliões de dólares na despesa ao longo de uma década combinado com um aumento de impostos e com a autorização do aumento do teto de endividamento em 2011. Um montante de 500 mil milhões será para cortar de imediato. Aponta um objectivo de reduzir a dívida pública do nível atual, superior a 100% do PIB, para 70% do PIB em 2021.

A agência de notação de risco do grupo francês afirma que colocará a dívida helénica no escalão de default quando a operação de reestruturação proposta pelos credores privados terminar. O precedente será incorporado na análise futura da situação da Irlanda e Portugal.

Apesar de considerar a resolução global da cimeira europeia de ontem como “um passo positivo e importante”, a agência de notação Fitch (maioritariamente do grupo financeiro francês Fimalac) declarou em comunicado hoje de manhã emitido em Londres que “colocará a notação da dívida soberana grega (o emitente) em default restrito e que aplicará notações de default a todos os títulos do governo grego na data em que se concluir o período de oferta da proposta de troca de dívida”.

A Fitch refere-se à proposta avançada pelo Institute for International Finance e referida na resolução da cimeira europeia de ontem, que implica uma reestruturação parcial da dívida grega em mãos de credores privados.

Evento de Default

Essa operação é, segundo os critérios da agência, “um evento de default restrito (DR)”, que implica “uma perda de 20%” para os detentores privados de títulos a vencer que sejam trocados por novos títulos “em termos que serão piores do que os contratuais originais”.

Contudo, a agência acha que “a redução dos juros e a extensão das maturidades [decididas pela cimeira europeia] oferecem potencialmente à Grécia uma janela de oportunidade para reconquistar uma situação de solvência, apesar dos desafios formidáveis que enfrenta”, afirmou David Riley, o chefe da divisão de Ratings Soberanos da agência.

Após a conclusão da operação de troca de títulos em mãos de privados, a agência procederá a novas notações. “As novas notações provavelmente estarão num grau especulativo baixo”, acrescenta o comunicado.

Dois avisos

A Fitch considera que a resolução da cimeira “alivia” a pressão de curto prazo que os mercados estavam a exercer sobre os perfis de crédito de uma série de países da zona euro.

“Contudo, até que haja uma retoma ampla e sustentável na região, aliada a um processo de redução dos défices orçamentais excessivos e de reformas estruturais para melhorar o potencial de crescimento de longo prazo, não poderão ser descartados mais episódios de volatilidade no mercado financeiro e persistirá a pressão de corte nas notações das dívidas soberanas“, acrescenta o comunicado como um primeiro aviso. (sublinhado nosso)

Tomando em linha de conta o precedente de “envolvimento do sector privado” (PSI, no acrónimo em inglês que começa a fazer escola), a Fitch regista que se tratará de “uma solução excecional e única” para o caso grego, mas avisa que “se as economias e contas públicas da Irlanda e de Portugal não se encontrarem firmemente num caminho sustentável até 2013, quando os dois países necessitarão de aceder de novo ao mercado de financiamento de médio prazo, o precedente potencial do PSI no pacote grego será incorporado na avaliação da Fitch para os riscos dos detentores [de dívida dos dois países] e refletir-se-á nas opções e ações de notação”. (sublinhado nosso)

O Institute for International Finance divulgou a “oferta” de reestruturação “voluntária” da dívida grega por parte de um grupo de instituições financeiras privadas. Serão 54 mil milhões entre meados de 2011 e meados de 2014. Aguarda-se a reação das agências de notação.

Um grupo importante de credores privados da dívida grega – designados, agora, na linguagem eurocrata pelo novo acrónimo PSI (private sector involvement) – divulgou, através do Institute of International Finance (IIF), um lóbi global de banqueiros, a sua proposta de “oferta financeira” à Grécia, no âmbito da estratégia definida quinta-feira pela cimeira europeia.

A reestruturação desta parte da dívida grega implicará uma “contribuição de €54 mil milhões de meados de 2011 a meados de 2014 e, no total, um valor de €135 mil milhões entre meados de 2011 e o final de 2020″, lê-se no comunicado divulgado pelo IIF.

A chanceler alemã Angela Merkel falou de “€106 mil milhões até 2020″ e o presidente francês Nicolas Sarkozy em €135 mil milhões a “30 anos”. Segundo o comunicado final da cimeira europeia, fala-se de “uma contribuição líquida do sector privado estimada em €37 mil milhões” para o período de 2011 a 2014, a que se junta um programa de recompra de títulos no valor de “€12,6 mil milhões, dando um total de €50 mil milhões”. Acrescenta, ainda, em nota o comunicado que “para o período de 2011 a 2019, a contribuição líquida total do envolvimento do sector privado é estimada em €106 mil milhões”.

Os banqueiros oferecem, ainda, à Grécia uma “melhoria significativa do perfil da maturidade da dívida grega, aumentando a média das maturidades de 6 para 11 anos”. Ou seja, há um re-escalonamento global que permitirá a extensão de mais 4 anos em média para o vencimento dos títulos.

21% de perda de valor líquido

Este programa de reestruturação e reescalonamento de parte da dívida grega desdobra-se em quatro instrumentos financeiros; dois deles de troca de títulos com uma maturidade de 30 anos; e outros dois de troca de títulos com um desconto que implicará uma redução da dívida grega em €13,5 mil milhões. Segundo, ainda, o comunicado do IIF, os quatro instrumentos resultarão numa perda do valor líquido presente de 21% baseada numa taxa de desconto de 9%.

Dentro da linha de comunicação definida pela cimeira europeia no sentido de convencer os mercados da dívida soberana de que se trata de uma estratégia especificamente para a Grécia, que não fará escola para outros casos nem será repetida para o próprio caso grego, o IIF também afirma que se trata de uma “oferta única tendo em conta as circunstâncias excecionais da Grécia”. O comunicado da cimeira explicita que “todos os outros países membros do euro reafirmaram solenemente a sua determinação inflexível para honrar totalmente” as dívidas soberanas em cada caso.

As 30 entidades que assinaram esta “oferta” incluem 5 bancos e seguradoras alemãs (Allianz, Munich Re, Deutsche Bank, Commerzbank e Bayer LB), 5 bancos gregos e um cipriota, 3 bancos e seguradoras francesas (BNP Paribas, AXA e Société Générale), 3 entidades suíças (Swiss Re, Zurich Financial e Crédit Suisse), 2 entidades italianas (Generali e Intesa SanPaolo), 2 bancos do Reino Unido (HSBC e Standard Chartered), e mais 9 países (Bélgica, Canadá, Coreia do Sul, Espanha, Holanda, Koweit, Peru, Suécia, Turquia) com uma entidade envolvida. A Espanha participa através do BBVA.

Trichet e Comissão Europeia: o discurso da excecionalidade do envolvimento privado

O responsável do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, em conferência de imprensa após a cimeira europeia, considerou o envolvimento privado como “excecional”, “voluntário” e desenhado “unicamente” para a Grécia. Ou seja, esta solução é pensada como não sendo “automática” para outros casos.

Declarações que visam suavizar junto das agências de notação de risco o reconhecimento em Bruxelas de uma reestruturação seletiva. Trichet sublinhou, ainda, que não haverá qualquer modelo similar em relação aos créditos de entidades públicas, que o presidente do banco central espera que sejam “total e integralmente honrados”, ideia que repetiu pelo menos duas vezes.

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, questionado se a estratégia definida pela cimeira de envolver credores privados é ou não um evento de default parcial, não respondeu à pergunta, lendo o articulado do comunicado em que se escreve “decidimos apoiar um novo programa para a Grécia e, com o Fundo Monetário Internacional e a contribuição voluntária do sector privado, cobrir totalmente o buraco de financiamento”.

Depois do terramoto na segunda-feira nos juros das obrigações públicas e nas probabilidades de bancarrota da dívida dos seis países da zona euro sob observação dos mercados financeiros, o padrão de quarta-feira é similar ao que já se verificou no dia anterior – o mercado secundário está nervoso em torno dos títulos do núcleo duro da economia ocidental: Alemanha, França e Estados Unidos.

Uma vez mais, as yields (juros implícitos) dos Bunds, títulos alemães (que servem de referência na zona euro), dos títulos do Tesouro da República Francesa e dos títulos do Tesouro norte-americanos fecharam em alta com variações elevadas, enquanto nos seis “periféricos” (Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália e Bélgica) prosseguiu uma tendência geral de desanuviamento, com escassas exceções, segundo dados da Bloomberg.

Os juros que mais subiram os dos Bunds com maturidades a 2 e a 3 anos e os dos títulos do Tesouro americanos a 2 e a 30 anos.

No radar dos investidores

Compreende-se que a Alemanha e os Estados Unidos estejam no radar dos investidores – a estratégia da chanceler Angela Merkel na questão das reestruturações das dívidas dos países insolventes e no papel futuro das facilidades financeiras europeias já existentes é um elemento central no andamento da crise da dívida na zona euro; e o stresse em torno do aumento do teto de endividamento federal norte-americano até 2 de agosto é outro ponto de convulsão actualmente.

A chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Nicolas Sarkozy encontraram-se esta quarta-feira num G2 europeu, já habitual, para concertarem posições para a reunião do Eurogrupo de quinta-feira. As indicações dadas, depois do jantar que também juntou Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, vão no sentido de um entendimento para a reunião do Eurogrupo quinta-feira em Bruxelas.

O Presidente Obama reuniu na Casa Branca ao final da tarde de quarta-feira (hora de Washington DC) com os líderes Republicanos, depois de ter endossado na terça-feira uma proposta do “grupo dos seis” formado por senadores republicanos e democratas.

A França entrou, também, para o radar – um relatório secreto de um assessor do presidente Sarkozy terá deixado o Eliseu em choque. A França não está mais blindada contra ataques especulativos nem contra um efeito em rede de contágio nos “periféricos”, concluía o estudo.

Juros das OT prosseguem baixa

Os juros das obrigações do Tesouro portuguesas (OT) em todas as maturidades prosseguiram a tendência de descida. O mesmo sucedeu com a probabilidade de default da dívida portuguesa.

Os juros das OT a 3 anos – os mais elevados – desceram do patamar dos 20%, fechando em 19,08%.

O risco de incumprimento da dívida portuguesa baixou de um pico de 64,78% na segunda-feira para 61,12%, no fecho de quarta-feira, segundo dados da CMA DataVision.

Os mercados da dívida assistiram hoje a mais uma reviravolta: a saída da Itália do “clube” da bancarrota ao final da manhã para reingressar à noite para a 10ª posição.

Se o problema da subida do teto de endividamento federal falhar até 2 de agosto, a agência de rating Fitch (do Fitch Group controlado em 60% pela holding francesa Fimalac de Marc de Lacharrière) colocará a notação da dívida soberana norte-americana em observação negativa, segundo o “Credit Outlook” semestral publicado hoje em Londres e Nova Iorque.

No entanto, a agência não prevê que isso venha a acontecer: “Na opinião da Fitch, um acordo sobre o teto de endividamento acabará por ser encontrado e o governo dos EUA realizará os pagamentos na totalidade e a tempo”.

“Os Estados Unidos arriscam a sua própria governação e uma crise da dívida soberana” com toda esta polémica sobre o teto de endividamento. Contudo, tranquilizando os investidores, a agência considera “remota” a possibilidade de um default.

Mas a notação triplo A dos EUA está ameaçada se as contas públicas não forem postas em ordem. Esse é um desafio que está para além da luta política de curto prazo sobre o teto de endividamento.

Dois avisos claros

Os avisos da Fitch são muito óbvios.

O primeiro é que a “excecionalidade” no grupo do triplo A poderá acabar.

Os Estados Unidos estão a beneficiar de um estatuto de exceção no quadro dos países classificados com notação de triplo A (menos de 20 países). São o país com o défice governamental mais elevado – que a Fitch estima fixar-se em 10% do PIB em 2011 – “entre os países com notação triplo A”. São, também, o país com a dívida pública “mais elevada neste grupo de pares [com triplo A]” – a Fitch estima que essa dívida atingirá 100% em 2012.

Por que razão, então, a Ficth não corta o rating dos EUA? A resposta é dada, logo a seguir: o estatuto de triplo A deriva do facto da “flexibilidade e do dinamismo” da economia americana e da “flexibilidade especial financeira que advém do papel do dólar como divisa de reserva predominante no mundo”.

Mas isso tem um limite de tolerância. “Até o governo dos Estados Unidos enfrenta um constrangimento orçamental durável. O falhanço na redução do défice orçamental e na estabilização da dívida pública poderá, eventualmente, erodir a confiança” no estatuto de triplo A da sua dívida.

Há, depois, um segundo aviso, que é extensível a outros pesos pesados dos países desenvolvidos. “Mesmo países com uma ‘soberania monetária’ forte enfrentam constrangimentos orçamentais persistentes e um falhanço na estabilização das finanças públicas pressionará cortes na notação no médio prazo”, diz o relatório da Fitch.

Três grandes países nessa condição – Estados Unidos, Reino Unido e Japão – enfrentam “desafios formidáveis”.

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