Julho 2011


Teaser of an article published at Vox.org by Ricardo Cabral
[Assistant Professor at the University of Madeira and CEEAplA researcher | Contributor for Vox]
Complete version from LISWIRES/JPO

«On 21 July 2011, the Council of the EU agreed to a second bailout for Greece. The deal was predicated on “private-sector involvement” (PSI) voluntar. This column explores what this actually means. It estimates that the haircut for private bondholders may well be one-third of the figure initially proposed. It stresses that such uncertainties could spell more trouble for Greece and Europe as a whole.

The Council of the EU agreed on 21 July 2011 to a second bailout for Greece (Council 2011). This deal is predicated on “private-sector involvement”. The Council seems to have implicitly endorsed a form of private-sector involvement made by a private institution – the Institute of International Finance.

The proposal consists in a voluntary debt restructuring with a bond-exchange menu with four options (IIF 2011). The Institute indicated the exchange will result in a 21% “haircut” or reduction in the net present value of an estimated €135 billion of Greece’s sovereign debt that matures between 2011 and 2020.

Two recent press columns, Nascimento-Rodrigues (2011) and Dixon (2011), argue that this will likely result in an increase – not a reduction – in Greece’s indebtedness.

This column uses one of the exchange options to replicate and explain the issues with the Institute of International Finance haircut estimate. It argues that a much lower post-exchange discount rate should be used and that in such a case the net present value of Greece’s debt subject to the exchange offer would actually increase.»

Read more at: http://liswires.com/archives/715

Sábado e domingo vão ser quentes politicamente em Washington DC. As duas propostas em confronto – a lei “Republicana” da Câmara de Representantes (plano Boehner) chumbada no Senado e o plano “Democrata” do Senado (proposta Reid).

Recapitulando o que se passou na 6ª feira (texto atualizado de post anterior)

A nova proposta Republicana apresentada por John Boehner na Câmara dos Representantes em Washington DC foi aprovada por 218 votos contra 210.

A proposta Republicana não conseguiu congregar o voto favorável de 22 Republicanos, na maioria membros da fação radical apoiada pelo Tea Party e alguns conservadores veteranos, que a acharam muito moderada em termos de cortes orçamentais.

A proposta Republicana, agora lei de “Controlo Orçamental”, corta 917 mil milhões de dólares em gastos federais nos próximos 10 anos e permite o aumento do teto de endividamento num plano “faseado”. O seu impacto global até 2021 é de um corte orçamental de 1,1 biliões de dólares (1100 mil milhões).

A lei permite de imediato o aumento do teto em 400 mil milhões de dólares a que se seguirá um segundo aumento até final do ano de mais 500 mil milhões.

Pré-aviso de guerra política em fevereiro de 2012

As restantes necessidades para 2012, na ordem de mais 1,6 biliões de dólares (1600 mil milhões), estão condicionadas pela nova orientação de obrigar a uma emenda constitucional no sentido de um orçamento equilibrado. Uma emenda constitucional exige uma votação de 2/3 na Câmara de Representantes e no Senado e ser aprovada pelos Estados da federação — algo que se afigura irrealista. Essa emenda teria de ocorrer antes da nova subida do teto de dívida em Fevereiro do próximo ano.

O ano de 2012 é um ano de campanha eleitoral acesa com eleições em novembro para a presidência.

A lei aprovada na Câmara seguiu para o Senado onde foi chumbada por 59 votos contra e 41 a favor.

O que se segue?

O Senado vai iniciar a discussão da proposta apresentada pelo líder Democrata Harry Reid (endossada pelo Presidente Obama) ainda esta noite em Washington DC, mas a sua votação só deverá mais tarde. O Senado reabriu sábado às 13 horas (hora local de Washington DC) e decidiu adiar a votação para as 13h (hora local) de domingo.

O Plano Reid tem duas diferenças fundamentais com o Plano Boehner:

- avança com um corte de despesas mais elevado para o período 2012 a 2021;

- e impede o processo de aprovação de aumentos do teto de dívida em “duas fases” (uma agora e outra em fevereiro), realizando uma operação de aumento do teto até março de 2013 em 2,7 biliões de dólares (2700 mil milhões) de uma só vez, agora, impedindo a politização do assunto, de novo, para o ano – ano de eleições presidenciais.

O corte de despesas previsto pelo Plano Reid é de 2,2 biliões de dólares (2200 mil milhões), pois inclui explicitamente uma redução do esforço em “operações de contingência no estrangeiro” (guerras, como a do Afeganistão e a do Iraque) em 1 bilião de dólares (1000 mil milhões).

Na Câmara dos Representantes, os Republicanos levaram o plano de Reid para uma votação ainda sábado, onde foi rejeitado por 246 votos contra 173 a favor. Curiosamente, uma dúzia de deputados Democratas votaram com os Republicanos.

Um fim de semana quente com votações finais que se poderão arrastar para segunda e terça feira.

O limite “oficial” deste jogo político está marcado para o final de terça-feira, dia 2 de agosto – o dia D, quando tecnicamente se alega que o Tesouro americano entrará em default de pagamentos, tendo de proceder a uma definição de prioridades a partir de 3 de agosto. Alguns analistas dizem que o limite real poderá ser a 10 de agosto.

Peter Cohan, em Boston, considera que há “5% de probabilidades de Obama assinar qualquer coisa a 2 de agosto”.

Duas curiosidades da charada política americana

- Na 6ª feira, 22 Republicanos da facção Tea Party e Conservadores seniores não aprovaram na Câmara de Representantes a própria proposta Republicana (na 2ª versão) do speaker Boehner;

- No sábado, 12 Democratas não apoiaram na Câmara de Representantes o plano do senador Democrata Reid que havia sido aprovado no Senado.

Com a crise do teto da dívida federal em Washington, a divulgação dos dados de uma economia norte-americana anémica e a continuação da crise da dívida na zona euro, o refúgio no metal precioso amarelo continua com os preços da onça a baterem recordes.

No fecho da semana foi fixado novo máximo do preço da onça em 1631,2 dólares.

O aumento do preço nos últimos 30 dias é de 6,85%; nos últimos seis meses é de 20,96%; e nos últimos 5 anos valorizou 154,24%.

A atenção tem estado do outro lado do Atlântico com a crise da subida do teto da dívida federal dos Estados Unidos e com o risco de um incumprimento temporário já em agosto. O que tem colocado em segundo plano a crise da dívida nos seis membros da zona euro sob observação dos mercados financeiros (Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, Itália e Bélgica).

Uma semana depois da cimeira extraordinária de Bruxelas de 21 de julho, a turbulência no mercado secundário dos títulos do Tesouro dos seis países é geral, como vamos observar com base em dados da Bloomberg para as yields desses títulos.

Os dois no centro do furacão: Espanha e Itália

A semana assistiu sobretudo a uma focalização dos mercados da dívida na situação de Espanha e de Itália, em que as yields (juros implícitos) das obrigações espanholas (OE) e dos títulos italianos (BTP) se mantiverem em alta em todas as maturidades.

Olhando para o caso dos títulos a 2 e a 10 anos, verifica-se claramente essa subida entre o dia seguinte (22 de julho) à cimeira de Bruxelas e o final do mês. Os juros a 2 anos das OE passaram de 3,87% para 4,29%. No caso dos BTP a 2 anos, de 3,65% para 4,38% – um aumento ainda maior do que no caso espanhol e que coloca estes juros acima inclusive dos relativos às OE. Quanto aos juros das OE a 10 anos passaram de 5,77% para 6,08%, naquele período. Sublinhe-se o facto dos juros a 10 anos fecharem acima dos 6%. No caso dos juros dos BTP a 10 anos subiram de 5,41% para 5,87%.

A primeira conclusão é que o “contágio” não foi travado e o nervosismo dos mercados está agora concentrado nos dois “elefantes” na loja de porcelanas.

Portugal e Irlanda: regresso às subidas nos juros

Estes dois países foram em parte da semana os principais beneficiários da cimeira de Bruxelas. Os juros entraram ou continuaram uma tendência de baixa ao longo da semana. Até que a situação se alterou hoje com os juros dos títulos dos dois países a subirem em todas as maturidades.

No entanto, os juros ainda estão abaixo dos valores de 22 de julho, o dia seguinte à cimeira. No caso português, os juros das obrigações do Tesouro (OT) a 2 anos baixaram de 15,39% para 14,59% entre 22 de julho e o final do mês; e os juros das OT a 10 anos desceram de 10,95% para 10,85%. Quanto à Irlanda, os juros dos títulos irlandeses (IGB) a 2 anos desceram de 15,11% para 14,37% e os a 10 anos de 11,89% para 10,86%.

Segunda conclusão: o “saldo” da semana é ainda favorável para estes dois países.

Grécia: o fim do estado de graça

Atenas sentiu um alívio inicial com as decisões da cimeira de Bruxelas de que foi a principal beneficiária quer com um segundo pacote de resgate, como com um plano de reestruturação parcial da dívida por parte de credores privados, que começou a ser negociado este semana.

Os juros dos títulos gregos (GGB) começaram por descer substancialmente dos máximos atingidos antes da cimeira, mas esta tendência foi invertida desde quinta-feira. Os juros a 2 anos voltaram a níveis acima de 30%.

A subida dos juros acabou por ser significativa: os juros das GGB a 2 anos saltaram de 27,63% em 22 de julho para 32,85% no final do mês; e os juros das GGB a 10 anos de 14,69% para 14,83%, um aumento mais ligeiro.

Terceira conclusão: o estado de graça de Atenas terminou.

Bélgica não escapa

A Bélgica foi o último dos seis a “sentir” o mesmo nervosismo dos mercados da dívida, ainda que em menor grau.

Apesar de estar num nível de juros muito abaixo, a evolução não engana: de 2,64% para 2,75% nos juros dos títulos belgas (BGB) a 2 anos; e de 4,27% para 4,38% nos BGB a 10 anos.

Quarta conclusão: nem o reino que é campeão no mundo como o estado sem governo após eleições há mais tempo, escapou ao “sentimento” negativo dos investidores.

1º Acto: A meio da manhã em Washington, faltavam 85 horas para o dia D (2 de agosto), o presidente Obama regressou às televisões para falar da crise do teto da dívida dos Estados Unidos. Foi a terceira vez que o fez desde o rompimento das negociações com o líder Republicano John Boehner na sexta-feira dia 22 de julho (o dia a seguir à cimeira europeia de Bruxelas).

A guerra de telefones, tweets e emails

A sua principal mensagem política resumiu-se a uma frase: “Telefonem, mandem um email, ou tweetem”. Obama apelou uma vez mais à pressão do eleitorado sobre os congressistas, em particular sobre os republicanos, no sentido de um compromisso ser obtido este fim de semana. Segundo o Business Insider, poucos minutos depois os circuitos telefónicos do Capitólio já estavam no limite da sua capacidade.

“A hora do compromisso é agora”, repetiu o presidente. “Há imensos caminhos para sairmos desta confusão. Mas estamos praticamente a ficar sem tempo”, exortou Obama, para explicar que “é possível um plano comum que possa ser apoiado pelas duas partes [Republicanos e Democratas], e que não seja de apenas uma fação”.

Já temos estatísticas para a guerra no tweeter. Até às 5 da tarde (hora de Washington) – a votação na Câmara dos Representantes começaria pouco depois -, a hashtag “compromise” [compromisso] foi usada mais de 22 mil vezes e atingiu 36 milhões de utilizadores. O Presidente foi mencionada 28 mil vezes. Segundo a NM Incite, 40% das menções ao presidente e 28% das referências ao “compromisso” foram positivas. Contra, respetivamente, 13% e 12%.

O presidente americano fez um derradeiro apelo no momento em que o líder dos Republicanos deu a entender que irá recolocar hoje para votação na Câmara de Representantes a sua proposta de cortes orçamentais, que havia sido adiada nos últimos dois dias, em virtude da própria rebelião dentro dos Republicanos. Obama, no entanto, considerou-a como sem futuro – pois debater-se-á com a oposição da maioria do Senado, onde dominam os Democratas.

2º Acto: Más notícias da frente económica

A manhã começou com um ramalhete de más notícias que enervou as bolsas.

Os resultados oficiais do crescimento da economia americana no segundo trimestre de 2011 apontam para uma retoma medíocre – apenas 1,3% de crescimento anualizado, contra as expetativas dos painéis de economistas que apontavam para um crescimento de 1,8%. O consumo interno continuou a comportar-se anemicamente (aumentou 0,1%).

Pior ainda, segundo os analistas, o crescimento do produto interno bruto (PIB) para o primeiro trimestre do ano foi revisto em baixa de 1,9% para… 0,4%.

Excluindo os períodos de recessão (com quebra do PIB), este é o pior semestre de crescimento desde 1979.

Segundo o Bureau of Economic Analysis, o PIB americano está, ainda, abaixo do valor para o 4º trimestre de 2007, antes da crise financeira se desenvolver.

Por outro lado, soube-se que, na última semana, as grandes empresas e bancos retiraram 37,5 mil milhões de dólares dos portefólios dos fundos conhecidos pela designação de money market funds que investem normalmente em títulos considerados “seguros” como os do Tesouro americano – o que parece que para muita gente já não é. Foi a maior “fuga” semanal este ano.

3º Acto: Wall Street mete-se na guerra.

Segundo a Reuters, 20 dos mais importantes intervenientes em Wall Street reuniram de emergência na Reserva Federal de Nova Iorque, a convite da secretaria do Tesouro americano. O menu versou a evolução do debate no Congresso sobre o aumento do teto da dívida e as possibilidades de um incumprimento da dívida norte-americana. Estiveram presentes funcionários do banco central e da secretária de Estado do Tesouro.

Um porta-voz do Tesouro afirmou que “houve um consenso geral entre os participantes de que o Congresso deve agir o mais rapidamente possível no sentido de aumentar o teto da dívida por um período de tempo o mais longo possível para retirar a nuvem de incerteza que paira sobre a economia”, segundo cita a Reuters

Recorde-se que a estratégia dos Republicanos na Câmara dos Representantes tem sido a de procurar condicionar a Administração Obama a aprovações “por fases” do aumento do teto da dívida, repetindo a crise da dívida eventualmente ainda este ano uma vez mais e ao longo do próximo, ano de eleições presidenciais em novembro. O que está a deixar os investidores à beira de um ataque de nervos.

A Reserva Federal estará a preparar um guia para o sistema bancário no caso do Congresso falhar o aumento do teto da dívida, noticia, por seu lado, a Bloomberg.

4º Acto: Boehner consegue maioria na Câmara

A nova proposta Republicana apresentada por John Boehner na Câmara dos Representantes foi aprovada por 218 votos contra 210. A proposta não conseguiu congregar o voto favorável de 22 Republicanos.

A proposta Republicana, agora lei de “Controlo Orçamental”, corta 917 mil milhões de dólares em gastos federais nos próximos 10 anos e permite o aumento do teto de endividamento num plano “faseado”.

A lei permite de imediato o aumento do teto em 400 mil milhões de dólares a que se seguirá um segundo aumento até final do ano de mais 500 mil milhões.
Pré-aviso de guerra política em fevereiro de 2012

As restantes necessidades para 2012, na ordem de mais 1,6 biliões de dólares (1600 mil milhões), estão condicionadas pela nova orientação de obrigar a uma emenda constitucional no sentido de um orçamento equilibrado. O que terá de ocorrer antes da nova subida do teto de dívida em Fevereiro do próximo ano.

O ano de 2012 é um ano de campanha eleitoral acesa com eleições em novembro para a presidência.

A lei aprovada na Câmara seguiu para o Senado onde foi chumbada por 59 votos contra 41 a favor.

O que se segue?

O Senado vai iniciar a discussão da proposta apresentada pelo líder Democrata Harry Reid (endossada pelo Presidente Obama) ainda esta noite (sexta-feira ainda em Washington), mas a sua votação só deverá ocorrer ao final de sábado ou mesmo no domingo.

Na Câmara dos Representantes, os Republicanos levarão o plano de Reid para uma votação ainda sábado, onde deverá ser rejeitado pela maioria Republicana.

Um fim de semana quente.

À meia-noite de 2 de agosto termina o prazo “oficial” do aumento do teto de endividamento e o governo federal dos Estados Unidos passará a funcionar como um carro com “o depósito na reserva”, avisou ontem o secretário de imprensa da Casa Branca, Jay Carney. Não se sabe se conseguirá chegar à bomba de gasolina mais próxima em Washington dado o impasse político no Congresso.

Os analistas dividem-se na questão de determinar, com rigor, se o verdadeiro dia D é já a 2 de agosto, na próxima terça-feira, ou apenas dia 10, na semana seguinte, como alvitrou o The New York Times, com base nas estimativas do Bipartisan Policy Center.

De qualquer modo, o primeiro vencimento de bilhetes do Tesouro, com prazos curtos, ocorre na próxima quinta-feira, a 4 de agosto, num montante de 30 mil milhões de dólares (cerca de €21 mil milhões). Os seguintes a 11, 18 e 25 de agosto.

Por seu lado, os títulos do Tesouro, com prazos maiores, vencem a 15 e 31 do mês. A 15 de agosto estarão em jogo 31,2 mil milhões de dólares em juros e 26,6 mil milhões em amortizações.

No conjunto do mês de agosto vencerão 500 mil milhões de dólares (cerca de €347 mil milhões), mais de duas vezes o produto interno bruto de Portugal no ano passado. Daquele montante, 375 mil milhões de dólares são em maturidades a 1 ano e 90 mil milhões de dólares a longo prazo, segundo o Bipartisan Policy Center, que avisou para esta bomba relógio a 28 de junho.

Os mercados da dívida continuaram a estar esta quinta-feira (28 de julho) focalizados em Espanha e na Itália e observou-se o regresso da Grécia à ribalta, indicando que o estado de graça em que o governo helénico esteve desde a cimeira europeia de Bruxelas de dia 21 de julho pode ter chegado ao fim.

A probabilidade de incumprimento da dívida de Espanha e da Itália continuou a subir hoje. O risco de default para Espanha está em 26,24% e o da Itália em 23,31%, segundo dados da CMA DataVision. Conservam ambos as suas posições no “clube” da bancarrota (grupo dos 10 com mais alto nível desse risco) em 8º e 9º lugares respetivamente. Os juros das obrigações espanholas (OE) e dos títulos italianos continuaram a subir no mercado secundário, com os juros das OE a 10 anos a manterem-se acima de 6%.

O Tesouro italiano colocou hoje €8 mil milhões, mas a taxa média de remuneração dos detentores dos títulos italianos a 10 anos emitidos subiu de 4,94%, há um mês atrás, para 5,77% na operação de hoje.

A Grécia voltou, pela negativa, à ribalta com os juros a 2 e a 3 anos em alta acentuada. No caso dos títulos gregos a 2 anos os juros fixaram-se acima de 30%. A bolsa de Atenas foi a que mais caiu hoje na zona euro, com uma quebra de 2% do índice FTSE/ASE 20.

Iniciaram-se hoje as negociações entre o governo helénico e o lóbi de banqueiros internacionais privados do Institute of International Finance que avançou com a proposta de reestruturação de €135 mil milhões da dívida grega (38% da dívida total). O ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos, insinuou que a China poderá ser um país fora da zona euro a funcionar como um outro pilar de financiamento das operações de recompra da dívida grega no mercado secundário. Trata-se de desenvolvimentos cujo desfecho é ainda desconhecido.

O facto do dia foi a descida da Irlanda para a 4ª posição no “clube” da bancarrota, tendo sido ultrapassada pela Venezuela. O ex-tigre Celta está a conseguir “descolar” da proximidade de Portugal. O risco de default da dívida irlandesa é, agora, 6 pontos percentuais mais baixo do que o para a dívida portuguesa e em termos de custo dos credit default swaps (seguros financeiros contra o risco de incumprimento) há uma diferença de mais de 150 pontos base.

Por essa razão, as yields (juros implícitos) dos títulos irlandeses desceram muito mais do que as relativas às obrigações do Tesouro portuguesas (OT). Os juros das maturidades a 2 e a 10 anos dos títulos irlandeses estão abaixo dos para as mesmas maturidades das OT. Neste momento, os juros das OT a 2 anos estão em 14,29% e das OT a 10 anos em 10,84%, enquanto que para os títulos irlandeses os juros são respetivamente 13,71% e 10,57%. segundo dados da Bloomberg.

Portugal, Irlanda e Bélgica foram a 27 de julho a exceção no seio do grupo dos países “periféricos” da zona euro sob observação dos mercados da dívida. No caso de Portugal, essa evolução a contracorrente já se tem estado a verificar desde 19 de julho e acentuou-se depois da cimeira europeia de 21 de julho.

O foco dos mercados tem estado centrado, desde a cimeira europeia de Bruxelas e depois do rompimento de negociações entre Obama e os Republicanos na Casa Branca, em Espanha, Itália e nos Estados Unidos.
Grécia regressa às subidas

A Grécia regressou hoje a uma tendência de alta em todas as maturidades, com os juros dos títulos gregos a 2 anos a voltarem a fechar acima de 30%, segundo dados da Bloomberg. O efeito da cimeira europeia parece estar a esfumar-se mesmo para o alegado principal beneficiado das decisões tomadas.

Entretanto, a agência de notação de risco Standard & Poor’s alinhou a classificação da dívida grega pela notação já dada pela Moody’s; cortou hoje a notação de CCC para CC, um nível considerado de “liquidez muito duvidosa e com defaults frequentes”.

Um evento de crédito na Grécia ocorrerá quando se proceder à primeira operação de reestruturação da dívida por parte de credores privados nos próximos vencimentos de dívida. O Institute of International Finance inicia a 28 de julho em Atenas conversações sobre esta reestruturação.

Por isso, no mercado dos credir default swaps (cds, seguros contra risco de incumprimento da dívida) o nível de risco de default (incumprimento) subiu em relação ao fecho de ontem, segundo dados da CMA DataVision. Situando-se em 76,3% está, no entanto, longe dos picos anteriores à cimeira europeia de Bruxelas quando o default era considerado iminente, com níveis de risco acima de 88%.

Exceção portuguesa: descida consistente dos juros

Comparando com os picos dos juros das obrigações do Tesouro portuguesas (OT) alcançados entre 11 e 18 de julho, a descida é colossal e tem sido consistente, segundo dados da Bloomberg.

De um pico de 20,36% nos juros das OT a 2 anos em 18 de julho passou-se para 14,54% no fecho de hoje. De um máximo de 20,95% – o juro mais elevado no conjunto das maturidades – nos juros das OT a 3 anos naquele mesmo dia desceu-se, agora, para 15,78%. Nos juros das OT a 5 anos a descida foi de um máximo de 17,45% em 15 de julho para 14,84% hoje. Quanto aos juros das OT a 10 anos – outrora os mais mediáticos -, a quebra foi de 13,38% em 11 de julho para 10,87% hoje.

Os juros das OT a 2 e 10 anos estão em níveis mais baixos do que os juros dos títulos irlandeses, que hoje também foram uma exceção no conjunto dos “periféricos” da zona euro.

A nível dos juros no mercado secundário, Portugal tem sido, até à data, o maior beneficiário desde a cimeira de Bruxelas.

No entanto, o nível de risco de incumprimento da dívida portuguesa esteve, de novo, em alta com o custo dos cds a ultrapassar os 1000 pontos base ao final da tarde, segundo dados da CMA DataVision. Ao final da noite baixou desse patamar. Com o risco de incumprimento em 55,46% está longe do pico de 64,78% de 18 de julho, com quase 1300 pontos base de custo dos cds.

“Nervosismo” nos casos de Espanha e Itália

Os juros das obrigações espanholas (OE) e dos títulos italianos continuaram a tendência de subida. No entanto, a dinâmica de agravamento abrandou à tarde. Os juros das OE a 10 anos que haviam estado, de novo, acima de 6% esta manhã, acabaram por fechar em 5,98%. No caso dos títulos italianos fecharam em 5,76%, acima dos 5,63% de terça-feira.

Fruto desta pressão nos mercados, a probabilidade de incumprimento da dívida espanhola subiu para 25,41% e a da dívida italiana para 22,21%. Durante a tarde, a Itália acabou por galgar mais um degrau no “clube” da bancarrota (grupo dos 10 países com mais alto nível de risco de incumprimento no mundo), subindo para o 9º lugar, logo abaixo de Espanha, mas ao final da noite desceu, de novo, para o último lugar (que neste caso é uma promoção).

O “clube” da bancarrota mantém 5 países da zona euro: Grécia, na liderança, Portugal em 2º lugar, Irlanda em 3º, Espanha em 8º e Itália em 10º.

Caso do dia 27 de julho: um disparo nos juros dos títulos do Tesouro americano a 2 anos

A incerteza politica em Washington sobre o desfecho da subida do teto de endividamento está a gerar um enorme nervosismo nos mercados. O risco de default dos Estados Unidos subiu de 4,99% para 5,26%, sendo, de novo, o líder no crescimento diário entre 80 países monitorizados pela CMA DataVision. Liderança que se verifica pelo segundo dia esta semana.

Nas yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro americano, o disparo diário nas maturidades a 2 anos foi colossal, na ordem dos 14%, ainda que o nível destes juros seja muito baixo (subiu de 0,4% para 0,44%). Também nas outras maturidades se verificaram subidas dos juros, com os relativos aos títulos de mais longo prazo (a 30 anos) a fecharem em 4,29%, muito acima dos juros dos Bunds, os títulos alemães, para a mesma maturidade (que fecharam a descer para os 3,36%), segundo dados da Bloomberg.

1º Aviso: A Moody’s avisou os fundos financeiros conhecidos pela designação de money market funds (MMF, no acrónimo) que estão sujeitos a “um risco crescente” associado ao perfil de crédito da dívida soberana dos Estados Unidos que se está degradando.

O anúncio da agência de notação de Warren Buffett surgiu num contexto de agravamento do risco nos indicadores do mercado da dívida: os Estados Unidos foram o país do mundo que revelou ontem (26 de julho) o maior aumento da probabilidade de incumprimento da sua dívida soberana, que num só dia passou de 4,76% para 4,90%. Hoje, continua a subir e está em 5,30%, segundo dados da CMA DataVision. É, de novo, o país cuja probabilidade de default mais sobe no conjunto dos 80 países monitorizados por aquela empresa. O que foi acompanhado por um disparo de 14% nas yields (juros implícitos) dos Títulos do Tesouro a 2 anos no mercado secundário. Todas as maturidades viram os juros subir.

Soube-se, ainda, que os Estados Unidos foram o país em que o valor líquido dos credit defaults swaps (cds, seguros financeiros contra risco de incumprimento) mais subiu no último mês, o dobro da subida no caso de Itália, o campeão no valor líquido de cds.

A notação de triplo A desta dívida, recorda a agência, foi colocada em revisão para “possível corte” em virtude da “incerteza” em torno do clima político em Washington, onde prossegue a discussão do aumento do teto de endividamento federal e se aproxima a data limite de agosto – seja 2 ou 10 do próximo mês – para uma solução.

Esta situação provoca “riscos diretos e indiretos”. Os diretos incluem a possibilidade de “não pagamento de juros e de amortizações por um curto período de tempo de títulos governamentais” que vençam em agosto – ou seja o que se tem designado por default temporário – e a degradação da qualidade dos portefólios dos MMF que estejam expostos à dívida americana.

Os riscos indiretos advêm da emergência de um clima de pânico financeiro – expressão que a Moody’s, naturalmente, não utiliza no comunicado. Na linguagem da agência, esses riscos tomam a forma da “possibilidade de que uma volatilidade de mercado crescente influencie o comportamento dos investidores, aumentando a atividade de resgate e pressionando a liquidez em todo o sector”.

A Moody’s considera que os fundos poderão revelar uma “boa resiliência” a um corte da notação da dívida norte-americana de triplo A para Aa1 (na terminologia da classificação da Moody’s; na classificação da Standard & Poor’s equivale a AA+), mas já poderão sofrer impactos negativos mais sérios no caso de um corte para Aa2 (na classificação da S&P equivale a AA).

2º Aviso: O Chicago Mercantile Exchange (CME), do grupo que gere a praça de derivados, enviou uma circular em que comunica a nova política sobre “cortes de cabelo nos colaterais” a partir do fecho do mercado na próxima 5ª feira, dia 28 de julho.

Os aumentos dos hair-cuts (“cortes de cabelo”) começam pelos bilhetes do Tesouro americanos que estavam isentos desse corte e que passam agora a ver aplicado um hair cut de 0,5%. Nos títulos do Tesouro a médio e longo prazo o corte aumenta 1 ponto percentual em cada caso.

O CME decidiu, ainda, aumentar em 0,5 pontos percentuais o corte relativo aos bilhetes e títulos do Tesouro da Alemanha, Canadá, França, Suécia e Reino Unido.

Com o risco de uma baixa da notação da dívida norte-americana e de um efeito sistémico global, o CME decide aumentar os custos para quem pede emprestado tornando os títulos do Tesouro mais caros no uso como colaterais.

Um estudo do banco JPMorgan Chase estima que uma baixa de notação da dívida americana em agosto – eventualmente para AA – poderá implicar uma subida de 0,7 pontos percentuais nas yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro, o que representaria mais 100 mil milhões de dólares nos custos de financiamento.

David Beers, um dos responsáveis da Standard & Poor’s que participará numa eventual decisão de baixar a notação dos Estados Unidos, declarou hoje à noite que um corte no rating para AA significaria um aumento de 0,25% a 0,5% na taxa directora da Reserva Federal.

26 de JULHO: Faltam 150 horas para o dia D – 2 de agosto – avisa o relógio da contagem decrescente colocado pelo Business Insider. O impasse político sobre a subida do teto de endividamento federal norte-americano continua a provocar estragos, ainda que limitados.

Pelo segundo dia útil, depois do anúncio público do rompimento entre Obama e os Republicanos, que Wall Street fecha no vermelho. Ontem o índice Dow Jones caiu 0,7% e hoje voltou a cair 0,73%.

Onde o impacto desse impasse mais se sentiu foi na variação da probabilidade de incumprimento da dívida soberana americana – no risco de default. Hoje foi o país do mundo com maior variação diária, superior a 3%. Esse risco passou de 4,5%, antes do rompimento político, para 4,90% hoje, segundo dados da CMA DataVision. É, naturalmente, um risco muito baixo, inferior inclusive ao da dívida alemã que está em 5,35% ou da dívida francesa que está mais acima, em 9,77%. Mas a variação no caso americano assinala o nervosismo nos mercados da dívida.

O dólar continuou a desvalorizar-se face ao euro (que vale, agora, 1,45 dólares), ao iene e ao franco suíço.

Refletindo o clima pessimista sobre a gestão da crise da dívida americana, o preço do ouro prossegue a sua subida. Está no mercado spot esta noite a negociar acima de 1619 dólares por onça, acima do valor de fecho de ontem e fixando novo máximo histórico. Nos últimos 30 dias, o ouro valorizou 6%.
Plano Republicano de “duas fases” poderá cair amanhã

O plano desenhado pelo speaker John Boehner, líder Republicano e presidente da Câmara de Representantes, poderá não passar amanhã (28 de julho) na votação.

Vários grupos Republicanos, por razões distintas, se têm oposto à estratégia em “duas fases” definida por Boehner para manter “capturado” o tema do teto de endividamento ao longo deste ano e de 2012, ano de eleições presidenciais. Grupos como o Club for Growth e a Heritage Foundation opuseram-se publicamente. Outros grupos da facção do Tea Party opõem-se exigindo uma atitude mais radical face a Obama.

A proposta de controlo orçamental dos Republicanos foi avaliada hoje pela Comissão do Congresso para o Orçamento, o Congressional Budget Office (conhecido pelo acrónimo CBO), que concluiu que ela implicará, apenas, um corte do défice orçamental federal em 1,1 biliões (1100 mil milhões) entre 2012 e 2021; 85% dos cortes incidirão sobre gastos discricionários. Um porta voz de Boehner afirmou, entretanto, que a proposta irá ser alterada no sentido de ser conforme ao compromisso de mais cortes na despesa.

O senador democrata Harry Reid, líder da maioria no Senado, espera que a proposta de Boehner caia para avançar com a sua plataforma de compromisso que o presidente Obama já endossou e que Reid julga que, com algumas modificações, possa captar apoio Republicano e encostar Boehner às cordas.
Os olhos estão, agora, colocados no dia de amanhã. Particularmente, os dos investidores que detém os títulos da dívida americana (31,5% do seu valor é detido por estrangeiros), de Wall Street e das agências de notação de risco – que já ameaçaram baixar, pela primeira vez, o rating dos Estados Unidos da notação máxima de triplo A.

27 de julho: Segundo o The New York Times a data de 2 de agosto pode não ser o limite dos limites na questão do aumento do teto de endividamento federal norte-americano.

A folga viria de receitas de impostos e mais engenharia financeira por parte do secretário do Tesouro Tomothy Geithner que permitiria continuar a pagar as contas mais uns dias depois da linha vermelha de 2 de agosto.

O consenso que surge entre analistas é que a folga poderá estender-se até 10 de agosto. O que daria alguma margem de manobra adicional ao presidente Obama e aos dois partidos no Congresso para chegarem a um compromisso.
Dois problemas a atrapalhar

Contudo, há dois problemas que “atrapalham” esta janela de oportunidade.

O primeiro é saber qual vai ser a atitude das agências de notação de risco. Ainda hoje, um alto responsável da Standard & Poor’s reiterou que a proposta Republicana ainda de pé, de prolongar o debate sobre o teto pelo ano eleitoral de 2012, não é encarada positivamente e que pode ser mais um argumento para a apreciação negativa da evolução da situação americana.
O segundo é o facto de que há leilão de dívida de curto prazo num montante de 87 mil milhões de dólares nas próximas segunda e terça-feira, dias 1 e 2 de agosto, e que na semana seguinte há um leilão de colocação de dívida de longo prazo.

26 julho- Parte II: 1º Adiamento de votação

Os Republicanos viram-se obrigados a adiar a votação, prevista para 27 de julho na Câmara de Representantes, da sua proposta de cortes na despesa federal (mais pequenos do que as fações radicais do Tea Party exigem) e de aumento do teto de envidamento federal em “duas fases” (arrastando um segundo aumento para o decurso do ano eleitoral de 2012).

A noticia foi divulgada pelo “The New York Times” que, entretanto, também alvitrou que os congressistas americanos disporão de mais dias, para além de 2 de agosto, para negociar as propostas em confronto. A nova linha vermelha parece ser 10 de agosto.

Entretanto os meios financeiros começam a perder a paciência com o que alguns analistas já chamam ironicamente de “default voluntário” auto-imposto pelos políticos de Washington.

Com o risco de uma baixa da notação da dívida norte-americana e de um efeito sistémico global, o Chicago Mercantile Exchange, do grupo que gere a praça de derivados, decidiu aumentar os custos para quem pede emprestado tornando os títulos do Tesouro norte-americanos mais caros no uso como colaterais, como o Expresso já noticiou.

Entretanto a Moody’s (a agência de notação de risco de Warren Buffett) avisou os seus clientes que a situação política em Washington ameaça o pagamento de juros ou de amoritizações por “um período curto de tempo” de títulos do Tesouro que vençam em agosto, o que se tem designado por “default temporário”. A agência de notação de risco avisa, ainda, que se vão agravar as condições de crédito para os fundos que estejam expostos à dívida soberana dos Estados Unidos.

27 de julho: 2º Adiamento: Faltam 125 horas para o dia D, a data de 2 de agosto, lê-se no relógio de contagem decrescente colocado no portal do Business Insider. O impasse continua.

Depois de ter adiado a aprovação para hoje (27 de julho) da proposta de controlo orçamental na Câmara de Representantes, o líder Republicano John Boehner apresentou nova proposta que corta 917 mil milhões em gastos federais entre 2012 e 2021, com os cortes mais substanciais, acima de 100 mil milhões, a partir de 2018.

Em contrapartida, autoriza o aumento do teto de endividamento federal em apenas 900 mil milhões, o que manifestamente significa que nova discussão do aumento do teto se colocará no horizonte até final do ano. Este arrastamento do processo tem sido criticado frontalmente pelos meios financeiros que vêm neste processo de crise política cíclica a marca de uma probabilidade de um default da dívida americana sempre que a discussão regressa a Washington. Ou seja, a incerteza continuará. E a incerteza é o pior inimigo para os mercados financeiros.

Os 51 senadores democratas e mais 2 independentes já declararam ir votar contra no Senado a solução Republicana, mesmo que esta passe na Câmara de Representantes ainda esta semana.

A proposta acabou por não ser votada a 27 de julho e passou para 28.

Com as posições dos dois partidos do espectro político norte-americano em rota de colisão e com a campanha eleitoral presidencial de 2012 já no horizonte, o presidente Obama dirigiu-se, de novo, ao país dia 25 à noite (hora local, madrugada de dia 26 de julho na Europa, manhã na Ásia). A segunda vez em quatro dias. Desta vez, de um modo solene.

Obama: Povo americano não pode ser “dano colateral”

A tónica central da sua intervenção de 15 minutos foi apelar a uma mobilização geral do seu eleitorado – e mesmo de republicanos – para pressionar o Congresso a chegar a um compromisso esta semana. “Um compromisso que eu possa assinar nos próximos dias”. “Compromisso não é palavra suja”. “Não podemos permitir que o povo americano se torne um dano colateral da guerra política em Washington”.

O Presidente repetiu o argumento central contra a estratégia dos Republicanos, que pretendem manter bem vivo o assunto do aumento do teto de endividamento durante a campanha eleitoral do próximo ano. “Um perigo ainda maior – o de daqui a seis meses se repetir o mesmo jogo”, frisou Obama.

Boehner: não há mais cheques em branco

Num ambiente de guerra mediática mano-a-mano, o speaker Republicano respondeu ao Presidente minutos depois, a partir do Capitólio. Repetiu diversas vezes a sua condição de “pequeno empresário do Ohio” para repetir a mensagem simples dos Republicanos: os dias de despesismo público terminaram. “É preciso mudar a trajectória orçamental”, disse John Boehner, para enfatizar: “O Presidente há seis meses pediu um cheque branco, agora quer outro – mas não o vai ter”.

Como comentaram alguns analistas, os dois políticos falam como que em “universos paralelos”. Mas, nos bastidores continua a tentar-se um compromisso, dizem outros. No entanto, o clima geral é que aquilo que parecia uma improbabilidade fantasista de Cassandras das desgraças, começa a ser “concebível” – o cisne cinzento de um default nas próximas semanas na ainda maior economia e primeira potência mundial.

Radiografia feita pelo FMI

O contexto da economia americana foi exposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) na sua análise anual da economia deste país publicada esta semana.

O crescimento do Produto Interno Bruto em 2011 e 2012 crescerá a valores abaixo do verificado para 2010.

A taxa de desemprego não descerá do patamar dos 8% este ano e no próximo.

O défice orçamental federal ainda será de 9,3% no final de 2011 e 7,6% em 2012, se o esforço de correcção for mantido.

A dívida pública bruta subirá para 99% no final deste ano e 103,2% no final de 2012.

O défice da balança comercial aumentará em 2011 e descerá ligeiramente em 2012.

Os EUA continuarão a valer-se da balança de invisíveis cujo saldo positivo continuará a crescer.

Outros números de algibeira sobre os EUA:

PIB estimado: 14,8 biliões (14800 mil milhões; bilião sempre equivalente a milhão de milhão, ou trillion em inglês)

Dívida soberana: 14,5 biliões — 98% do PIB

Dívida total (incluindo famílias e empresas): 54,9 biliões — 270% do PIB; 3,7 vezes

Dívida na mão de estrangeiros: 4,58 biliões — 31,5% da dívida soberana

Défice federal à data: 1,4 biliões

Gastos federais: 3,6 biliões — 24% do PIB

Gastos totais (federais, estaduais e locais): 6,9 biliões — 46,8% do PIB

Responsabilidades dos EUA não financiadas: 114,8 biliões — 676% do PIB; 7,7 vezes

Fonte: http://www.usdebtclock.org/

Com as posições dos dois partidos do espectro político norte-americano em rota de colisão, o presidente Obama vai dirigir-se, de novo, ao país pelas 21h locais (2h de dia 26 em Portugal). A segunda vez em quatro dias.

Na sexta-feira passada foi um presidente frustrado que informou o país de que houvera um rompimento nas negociações políticas na Casa Branca com os Republicanos e que lançou mais uma tentativa de entendimento para o fim de semana, que também falharia.

Há expetativa sobre qual será a postura de Obama hoje. A Casa Branca, entretanto, considerou razoável a proposta democrata que pretende impedir a estratégia republicana de negociação de uma segunda fase do aumento do teto de endividamento ao longo do ano eleitoral de 2012, processo que mantém o risco de default a pairar no ar.

Estragos limitados

Apesar dos investidores internacionais continuarem, na generalidade, convencidos de que um compromisso acabará por ser obtido antes da data crítica de 2 de agosto, o risco de um pânico financeiro paira no ar.

Tal pânico acabou por não se concretizar na abertura das bolsas asiáticas ainda era domingo nos Estados Unidos, nem, depois, na Europa ou em Wall Street. As perdas foram ainda limitadas.

A maioria das principais bolsas acabaram por fechar com quedas inferiores a 1%. Uma das primeiras a abrir (ainda era domingo nos Estados Unidos), a de Tóquio, acabou por fechar com uma quebra no índice Nikkei 225 de apenas 0,81%. A maior queda asiática foi a do índice chinês CSI 300 que quebrou 3,25%, mas os analistas atribuem a factores “locais” o mini-crash. Na Europa, as quedas foram inferiores a 1%, com exceção de Itália (com o MIB a cair 2,48%) e de Espanha (com o Ibex 35 a descer 1,92%), mas os analistas atribuem estas quedas ao efeito específico da crise da divida na zona euro – Itália e Espanha estiveram sob forte ataque hoje por parte dos mercados da dívida. Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones caiu 0,7% e o S&P 500 0,56%.

No mercado spot do ouro, começou por haver um disparo na abertura do mercado em Sidney (ainda era domingo nos EUA) de 1608 dólares por onça até a um pico de 1622,99. Depois a subida moderou e a onça de ouro negociou em Nova Iorque em 1614,28 dólares, mesmo assim um novo máximo histórico, face ao anterior fecho de sexta-feira em 1601,50.

O trambolhão no dólar que se esperava também não se concretizou. Depois de estar a cair com algum significado face ao franco suíço e ao iene japonês, na abertura na Ásia, acabou por moderar a desvalorização. As desvalorizações face àquelas duas moedas foram, apenas, de 0,03%, no fecho. O euro fechou em valorização muito ligeira, valendo 1,4378 dólares. Chegou a abrir em 1,44 dólares.

Incerteza – palavra-chave

Como nos referiu o economista Mark Thoma, o resultado de tudo isto continua “incerto”. “Muitos investidores continuam na esperança que eu próprio alimentei até recentemente. Agora tenho as minhas duvidas. O Congresso não vai ser tão estúpido, ou será que vai ser?”, confidenciou-nos o professor da Universidade de Oregão e bloguer do Economist’s View.

Propostas divergentes

Segundo a Reuters, as duas propostas divergentes em confronto sobre o problema do teto de endividamento são as seguintes:

-O líder democrata do senado Harry Reid desenhou uma proposta de cortes de 2,7 biliões de dólares (2700 mil milhões de dólares) para a próxima década contra uma subida do teto de endividamento atual no mesmo montante até 2013, incluindo o período eleitoral de 2012, culminando em eleições presidenciais em novembro. A proposta democrata pretende eliminar a possibilidade de continuar a pairar durante o período eleitoral que se avizinha “uma nuvem de um incumprimento possível ao longo de 2012″, referiu a Casa Branca num comunicado endossando esta proposta como “razoável”;

-O speaker Boehner pretende um processo em duas fases, com uma primeira autorização imediata de subida do teto de endividamento num montante de 1 bilião de dólares (1000 mil milhões de dólares) com um montante de 1,2 biliões (1200 mil milhões) em cortes nos próximos dez anos, e uma segunda fase depois de fevereiro ou março de 2012 coincidindo com a dinâmica do ano eleitoral. A Markit, firma financeira londrina do mercado dos derivados, comentou esta tarde que “esta política poderá muito bem terminar pelos Estados Unidos perderem a sua notação de triplo A”.

Caso não haja possibilidade de convergência, está na mesa como último recurso uma proposta do senador Republicano McConnell que funcionaria como uma válvula de segurança autorizando o presidente Obama a aumentar o teto de endividamento em três vezes até às eleições de novembro de 2012.

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