Geoscopio.tv e LISwires.com e iniciam uma colaboração estratégica sobre informação económica e financeira, geoeconomia e geopolítica em língua portuguesa e inglesa com interesse para leitores especializados. Os links são http://geoscopio.tv e http://LISwires.com. Jorge Nascimento Rodrigues (editor de janelanaweb.com e geoscopio.tv e colaborador do semanário Expresso em Portugal) e João Proença Oliveira (editor de @dedraGrip e @euroGrip) são os responsáveis por esta parceria.
Junho 2011
Sex 17 Jun 2011
Sex 17 Jun 2011
Irlanda abre frente contra BCE — diário de bordo 229
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económica , O novo capital financeiroainda sem comentários
Numa entrevista dada na quarta-feira (dia 15 de junho) ao canal de televisão RTE, o ministro das Finanças do novo governo irlandês – de coligação entre o Fine Gael e os trabalhistas – afirmou que os credores seniores do Anglo-Irish Bank Corp e da Irish Nationwide Building Society poderão ter de “partilhar” o fardo de resgate destes dois bancos.
Essa questão teria sido discutida em reunião com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em Dublin. Os analistas interpretaram estas palavras como a abertura de uma nova frente de guerra dentro da zona euro contra o Banco Central Europeu (BCE), que se opõe frontalmente a qualquer hipótese do género.
“Pensamos que o contribuinte irlandês não tem de saldar o que se tornou um investimento especulativo”, disse Michael Noonan, que alega que o FMI teria “compreendido totalmente” a posição irlandesa.
Já foi injetada uma soma de €34,7 mil milhões nos dois bancos no decurso dos últimos dois anos.
Entretanto, um porta-voz do ministério das Finanças esclareceu hoje que Noonan se referia a casos de investidores seniores “não seguros e sem garantias”, que envolveriam €3,8 mil milhões, segundo a Bloomberg, e o vice-primeiro-ministro Eamon Gilmore garantiu que o governo em Dublin nunca atuará “unilateralmente” sem discutir o assunto com o BCE.
No aniversário hoje dos primeiros 100 dias do novo governo de coligação em Dublin, estas declarações de ontem lançaram mais achas para a fogueira dentro da zona euro, já a braços com a crise grega e com as divergências manifestas para a resolver.
Sex 17 Jun 2011
Juros de OT portuguesas acima de 14% — diário de bordo 228
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do riscoainda sem comentários
Prosseguiu na quinta-feira (16 de junho) a escalada dos juros das obrigações do Tesouro (OT) portuguesas. Os juros das OT a 3 anos fecharam, pela primeira vez, acima de 14%, e as maturidades a 2 encerraram o dia acima de 13%, segundo dados da Bloomberg. Também os juros das OT a 5 anos se aproximam dos 13%, tendo fechado em 12,85%. São novos máximos desde a adesão de Portugal ao euro.
O risco de incumprimento da dívida portuguesa subiu hoje pela primeira vez acima de 49%, tendo a meio da manhã atingido os 49.9%, e fechado em 49,42%, segundo o monitor de risco da CMA DataVision.
Grécia com risco de “cenário de acidente”
Com o agravamento da crise política grega e o adiamento de decisões sobre o segundo plano de resgate a Atenas – com o comissário europeu para os assuntos económicos Olli Rehn a admitir o deslizar do assunto para julho e o jornal alemão Suddeutsche Zeitung a falar de adiamento até ao outono -, a probabilidade de default do país está em perto de 80%. Havia fechado ontem em 76,87% e no início do mês estava em 70,14%.
O custo dos seguros contra o incumprimento da dívida – os denominados credit default swaps (cds) – viveram uma escalada ao longo do dia estando agora em mais de 2230 pontos base, um valor histórico, mais de 2100 pontos acima do custo dos cds para a Alemanha, que servem de referência na zona euro.
Em virtude deste diferencial brutal, os juros dos títulos gregos refletem esta situação escaldante no mercado secundário – as yields (juros implícitos) nas maturidades a 2 e 3 anos estão acima de 29%. A maior pressão exerceu-se sobre as maturidades a 2 anos, cujo nível de juros para manter dívida grega a este prazo fechou nos 29,69%.
O sentimento de que um “cenário de acidente [financeiro]” com um default descontrolado em Atenas pode ocorrer levou o Financial Times a referir hoje que alguns fundos estão a apostar nessa previsão, investindo em cds a 12 meses.
Forte pressão sobre a Irlanda
No entanto, o país que sofreu a maior pressão sobre os juros durante toda a tarde foi a Irlanda. Os juros dos títulos irlandeses a 2 anos no mercado secundário subiram para 12,95%, face a 12,10% no fecho de ontem.
O risco de default subiu de 47,26% ontem para 48,93% agora no fecho. Esta escalada derivou do impacto das afirmações do ministro das Finanças Michael Noonan pretendendo vir a envolver nos resgates financeiros os credores seniores de dois bancos irlandeses, conforme já noticiámos.
Espanha mantém-se no “clube” da bancarrota
Também os juros das obrigações espanholas (OE) no mercado secundário mantiveram a tendência de alta ao longo do dia em relação ao fecho de quarta-feira. Os juros das OE a 10 anos fecharam em 5,66%, quando no início do mês estavam em 5,29%.
Uma colocação pelo Tesoro de España de obrigações espanholas a 8 e 15 anos foi interpretada como não tendo corrido da melhor forma pelos analistas da Eurointelligence.
O risco de default de Espanha subiu hoje para 22,71%, conservando o país o 9º lugar no TOP 10 mundial deste risco. Neste “clube” estão a Grécia (que lidera destacada), Portugal em 3º lugar e a Irlanda em 4º.
Empatar até setembro?
Os mercados aguardam, agora, os resultados da cimeira entre Merkel e Sarkozy amanhã e da reunião do Eurogrupo no domingo.
No entanto, o comissário europeu dos assuntos económicos e monetários, o finlandês Olli Rehn, disse hoje que o tema do segundo plano de resgate para a Grécia poderá ser adiado da reunião de domingo (19 de junho) do Eurogrupo para a próxima reunião a 11 de julho.
O que se espera é que nas reuniões de 19 e 20 de junho seja desbloqueada a quinta tranche do plano inicial de resgate a Atenas. O montante desta tranche será na ordem dos €18 mil milhões (em vez dos 12 mil milhões previstos inicialmente) de modo à Grécia poder aguentar até setembro por uma decisão europeia sobre o segundo plano de resgate.
Olli Rehn esclareceu que com este plano em “dois passos” – desbloquear a tranche em julho e discutir o compromisso sobre o segundo plano de resgate em setembro – combinado com o Fundo Monetário Internacional se evitaria “um cenário de acidente”.
Qua 15 Jun 2011
Falhado o Plano A para a Grécia, não faltam “planos B”
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económica , sem seccao[2] comentários
O impasse é a nota dominante nas negociações no seio da União Europeia – e particularmente dentro da zona euro – sobre o novo plano de resgate para a Grécia. Uma solução de compromisso deverá ser tentada por Angela Merkel e Nicolas Sarkozi, o “diretório” da zona euro, na sexta-feira, a que se seguirá uma reunião do Eurogrupo no domingo. T
Compromisso tanto mais necessário já que os mercados financeiros estão ao rubro – o risco de default da Grécia subiu hoje para quase 77%, o de Portugal para quase 48% e o da Irlanda para mais de 47,5%, novos recordes. Espanha “sente” o contágio com um risco próximo de 22%, ainda que muito distante da situação dos outros três. Os juros das obrigações do Tesouro portuguesas a 3 anos dispararam para 13,59% e os dos títulos gregos com a mesma maturidade para 28,40%.
Uma coisa parece certa: o “plano A”, a estratégia de resgate gizada em maio do ano passado e transposta para o MoU (memorando de entendimento) da troika com Atenas, é considerada um fracasso. Em virtude desta constatação, dirigentes da zona euro começaram a falar na necessidade de adicionar um segundo pacote de resgate (um segundo empréstimo a somar aos € 110 mil milhões iniciais) com novas condições associadas. Entre as novas condições a ideia de um “envolvimento dos privados” nesse segundo pacote.
Plano B: o re-profiling com “envolvimento dos privados”
Assim surgiu o Plano B: o “envolvimento dos privados” traduzir-se-ia por uma troca de títulos gregos que vençam e que estejam na mão de bancos, fundos de pensões e seguradoras por novos títulos com um novo prazo de mais sete anos. Ou seja, com essa aceitação de um reescalonamento dos prazos da dívida, os privados ajudariam a Grécia em cerca de €30 mil milhões, segundo as estimativas. Jean-Claude Juncker, o primeiro-ministro luxemburguês e presidente do Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro), chamou-lhe em maio um re-profiling (um termo inexistente no léxico dos mercados financeiros e das agências de notação) da dívida e os alemães, pela voz do ministro das Finanças Wolfgang Schauble, tornaram este Plano B em doutrina oficial de “reestruturação suave”. Holandeses e austríacos apoiam esta solução, atendendo à justificação política de que não só os “contribuintes europeus deverão ser envolvidos na fatura, mas também os investidores privados”.
Mas esta solução tem colhido a oposição das agências de rating (que consideram tal mecanismo um evento de crédito seletivo, como o deixou bem claro recentemente a Standard & Poor’s, que calcula um “corte de cabelo” associado de 50 a 70% do valor facial dos investimentos dos privados), do Banco Central Europeu (BCE), da Comissão Europeia e da França, o segundo pilar do “diretório” europeu. A Moody’s avisou claramente os franceses que a notação dos seus principais bancos seria afetada dada a exposição à dívida grega e um relatório confidencial da Comissão Europeia apontava para um custo adicional desse re-profiling na ordem dos €20 mil milhões só para recapitalizar a banca grega.
Face a esta oposição, os alemães e Juncker procuram um compromisso. Steffen Kampeter, secretário de Estado de Schauble, disse ontem explicitamente que “não faremos nada que vá explicitamente contra a opinião do BCE”.
Plano C: Adaptar a Iniciativa de Viena
Pelo que os protagonistas procuram um Plano C. Uma das ideias que eventualmente poderia obter consenso seria uma solução do tipo da “Iniciativa de Viena”. Mario Draghi, o indigitado presidente do BCE depois do final do mandato de Jean-Claude Trichet em novembro, inclinou-se para esta solução como uma plataforma negociável. O comissário Olli Rehn, finlandês, falou, também, no mesmo sentido: “um acordo na base da Iniciativa de Viena, em que os bancos prolongam a duração dos seus empréstimos [à Grécia] de maneira voluntária”, ou seja uma recondução voluntária das dívidas gregas que cheguem ao seu término (ao rollover) por parte dos credores privados.
A “Iniciativa de Viena”, denominada European Bank Coordination Initiative, dirigiu-se a cinco países do leste europeu – Bósnia, Hungria, Letónia, Roménia e Sérvia – e propunha que os bancos transfronteiriços europeus e outras entidades expostas à dívida destes países conservassem a sua exposição, e não debandassem. A iniciativa foi lançada em janeiro de 2009 e pretendia evitar os erros do que ocorrera em crises da dívida nos anos 1990. Foi um programa conjunto do BERD- Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Europeu de Investimento, do Banco Mundial e da União Europeia, com o Banco Central Europeu como observador.
Curiosamente, por imposição dos finlandeses, essa condição acabou por ficar em letra de forma no MoU do plano de resgate a Portugal: “As autoridades portuguesas deverão encorajar os investidores privados a manterem a sua exposição global numa base voluntária”. Foi a primeira vez que se colocou uma condição destas nos resgates aos países da zona euro, salientam os analistas. E cuja substância pode ser mais do que simbólica – como se está a ver agora.
Este plano parece ter recebido um sinal positivo por parte da agência de notação Fitch. Segundo o Financial Times Deutschland, a Fitch admitiu dia 15 de junho que, no caso de uma solução similar à Iniciativa de Viena, se possa limitar a baixar o rating para “default restrito”, mas não descendo a notação da dívida grega de longo prazo de CCC para níveis abaixo. Isto permitiria ao BCE continuar a aceitar os títulos gregos como colateral.
Plano D: Reestruturação com filhos e enteados
Mas as propostas não se ficam por aqui. Um Plano D foi apresentado esta semana por Sony Kapoor, diretor do think tank europeu Re-Define, num comentário no Financial Times a uma análise de Nouriel Roubini sobre a probabilidade de uma reestruturação em breve da dívida grega e de outros membros da zona euro.
Kapoor pensa que uma re-estruturação é inevitável e que é preferível, agora, do que em meados de 2013, como politicamente parece ser tentador, adiando por ora o problema. Mas coloca um conjunto de condições que passam pela “diferenciação dos vários grupos de credores” – em que os credores oriundos do BCE (detém 13,8% da dívida total grega), dos veículos financeiros europeus (detém 15,5%) e dos bancos gregos (detêm 14,7%) deveriam ser tratados “preferencialmente”.
No fundo, o fardo deveria ser concentrado nos credores privados externos, nomeadamente os bancos franceses e alemães (os dois grupos de bancos devem deter €28 mil milhões numa dívida total de 341 mil milhões, ou seja pouco mais de 8%), que Kapoor acha que aguentariam o embate. O “corte de cabelo” (hair cut, no jargão financeiro) provável será na ordem dos 50% desses investimentos feitos por bancos e outros investidores privados institucionais. Mas é preferível, agora, do que depois de julho de 2013, altura em que o “corte de cabelo” deverá andar na ordem dos 75%, diz Kappor.
Para evitar o contágio aos outros, Kapoor sugere que seja introduzida no Mecanismo Europeu de Estabilização a funcionar depois de meados de 2013 uma cláusula que permita este tipo de reestruturação quando o peso da dívida pública no PIB for superior a 120% e quando o peso do serviço de dívida no PIB ultrapassar os 6%. O que, por ora, deixaria de fora, diz Kapoor, a Irlanda e Portugal.
Plano E: Eurobonds quando o tempo for oportuno
A ideia de eurobonds (e-bonds) como um novo instrumento europeu de dívida voltou a surgir esta semana no Parlamento Europeu quando o indigitado presidente do BCE, Mario Draghi, interrogado sobre o assunto, respondeu que se trata de “algo completamente legítimo de se pensar logo que haja uma união mais estreita”. Draghi acentuou que tal união é “um pré-requisito para uma divida partilhada”. Mas o banqueiro central italiano logo acrescentou que “por ora, a zona euro deverá reforçar as suas regras em vez de pensar em instituições adicionais ou mesmo em orçamentos partilhados”.
A proposta dos eurobonds foi avançada a 5 de dezembro do ano passado no Financial Times por Jean-Claude Juncker e pelo ministro de Economia e Finanças italiano Giulio Tremonti na sequência da ideia de criar uma Agência de Dívida Europeia que substituísse a Facilidade Europeia de Estabilização Financeira em 2013. O novo instrumento de dívida deveria ir substituindo progressivamente as dívidas nacionais dos estados membros da zona euro e permitiria criar um mercado de títulos, em dimensão e em liquidez, similar ao norte-americano.
A proposta foi, no entanto, imediatamente rejeitada pela chanceler Merkel e pelo presidente Sarkozy. Alguns analistas comentaram que se tratava de uma boa proposta provavelmente ainda fora do tempo. Resta saber se a crise grega a recolocará na agenda.
Plano F: Simulação de um “Jubileu” da dívida soberana na Europa
O professor inglês Anthony Evans e os colegas da Europe Business School (ESCP), em Paris, lançaram em maio como simulador para os seus estudantes a solução de um “jubileu” da dívida soberana , através de um processo de liquidação mútua das dívidas entre os membros da União Europeia, por exemplo de um modo bilateral ou mesmo tripartido.
Segundo a simulação de Evans, a dívida soberana dos 8 países estudados (Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, França, Grécia, Portugal e Reino Unido) poderia ser reduzida em 64% através do cancelamento cruzado das dívidas, baixando a dívida total em relação ao PIB de 40,47% para 14,58%. Seis países – Alemanha, Irlanda, Itália, Espanha, França e Reino Unido – poderiam eliminar 50% da dívida existente. A rede de cruzamentos de dívida (valores em dólares) foi publicada pelo The New York Times recentemente.
No caso português, a simulação dos cruzamentos implicaria uma redução de mais de 1/3 da dívida.
Esta simulação tem granjeado enorme interesse na blogosesfera económica.
Ter 14 Jun 2011
O dia em que os juros das OT a 3 anos chegaram aos 13% — diário de bordo 227
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económicaainda sem comentários
Os juros das obrigações do Tesouro (OT) portuguesas com prazos de 3 anos ultrapassaram no mercado secundário da dívida ao final da manhã os 13%. Acabaram por fechar nos 13,14%, um novo máximo desde a adesão ao euro, segundo dados da Bloomberg.
O disparo destes juros das OT a 3 anos é elucidativo do que ocorreu com a dívida portuguesa desde abril, quando ainda se situavam nos 6%. Basta ver o gráfico da Bloomberg aqui publicado.
Mas os juros que mais subiram em variação diária foram os relativos às OT a 2 anos que fecharam em 12,09%, já estando acima dos juros dos títulos irlandeses (que fecharam em 11,93%). Também os juros das OT a 5 anos estão acima de 12%, tendo fechado em 12,25%. Os juros das OT a 10 anos fecharam em alta em 10,75%.
Seg 13 Jun 2011
Eurogrupo vai iniciar negociação da solução para a crise grega — diário de bordo 226
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económicaainda sem comentários
Uma reunião especial dos ministros das Finanças da zona euro acaba de ser convocada para amanhã (14 de junho) à tarde, a que se seguirá uma reunião informal do Ecofin (ministros das Finanças dos 27 membros da União Europeia) à noite. O Eurogrupo, presidido pelo primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker, vai iniciar uma maratona para “amaciar” as divergências sobre a crise grega, sobre as condições anexas para a aprovação de um segundo pacote de resgate para Atenas. Juncker já havia anunciado que um grupo de trabalho iria procurar limar as posições opostas entre o BCE, por um lado, e ele próprio e os alemães, por outro.
Juncker e os alemães defendem uma “reestruturação suave” para a dívida soberana grega, implicando uma troca de títulos “voluntária” por parte dos credores privados (bancos e fundos) estendendo o prazo por mais sete anos. Foi Juncker que a 17 de maio avançou com a ideia de uma reestruturação a que chamou de re-profiling.
O Banco Central Europeu (BCE) opõe-se a qualquer reestruturação que desencadeie nos mercados financeiros um “evento de crédito”. Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, reafirmou hoje a sua linha de “nem evento de crédito, nem default seletivo”.
A reunião de ministros das Finanças da União Europeia (Ecofin) está convocada para dia 20 de junho e a cimeira dos 27 membros da União para dias 23 e 24 de junho.
Mais uma acha para a fogueira foi lançada ao final da tarde pela agência Standard & Poor’s relativamente à notação da dívida de longo prazo da Grécia e a Associação do mercado de derivados resolveu considerar o plano de reestruturação da dívida junior do banco irlandês AIB como “evento de crédito”.
S&P passa dívida grega para nível à beira de default
Entretanto, a agência de rating Standard & Poor’s baixou a notação da Grécia de B para CCC. Na notação B, a agência já considerava a dívida grega como “especulativa” (vulgo: lixo) mas apontava para um risco futuro de incumprimento. Com a notação CCC – o primeiro escalão nos C – fala-se já de risco muito claro de default.
No comunicado emitido pela agência fala-se de uma probabilidade muito significativa de ocorrerem “um ou mais defaults“. A agência manifesta, assim, a convicção de que os planos em curso para a Grécia no seio da zona euro têm uma alta probabilidade de gerar um evento de crédito.
A S&P fala de uma situação de incumprimento de facto se os planos em curso para uma reestruturação “suave” forem concretizados. Nesse caso, escreve a agência, a situação passa a “default selectivo” e a baixa de rating será automática de CCC para D (em default).
Segundo a agência, a taxa de recuperação do valor investido na dívida grega deverá variar entre 30 a 50% do valor facial.
Evento de crédito em banco irlandês
Entretanto, um comité de Credit Derivatives Determinations da ISDA (International Swaps and Derivatives Association) já declarou que as operações de reestruturação de dívida em curso no banco irlandês AIB (Allied Irish Banks) prefiguram um “evento de crédito” (o termo do jargão financeiro para um default).
O organismo do mercado de derivados financeiros considerou um default as decisões tomadas a 9 de junho pelo AIB de suspender o pagamento dos juros e estender os prazos de grande parte da dívida junior. As perdas destes investidores poderão chegar até aos 90% do valor dos seus títulos e os analistas em Dublin falam de €2 mil milhões envolvidos nessas perdas. Uma oferta de “pegar ou largar” está a decorrer hoje até à meia noite hora de Nova Iorque. Esta declaração desencadeará um processo de pagamento dos credit default swaps associados ao risco de default da dívida do AIB, num montante que a BBC inglesa estima em cerca de €350 milhões, um volume que não se espera que desencadeie uma situação de stresse financeiro neste sector de derivados.
Seg 13 Jun 2011
Mercado secundário da dívida penalizou hoje fortemente Portugal — diário de bordo 225
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económicaainda sem comentários
O mercado secundário da dívida soberana penalizou hoje fortemente as obrigações do Tesouro (OT) portuguesas. Os juros das OT foram os que verificaram maiores subidas diárias entre os títulos dos quatro países da zona euro que fazem parte do TOP 10 de países com maior risco de default.
A maior pressão exerceu-se sobre os juros das OT a 3 anos que tiveram uma variação de quase 7%. Acabaram por se fixar nos 12,93%, segundo dados da Bloomberg. Também os juros das OT a 2 anos subiram significativamente, com uma variação diária de quase 4%, subindo para 11,88%. Com variações mais pequenas, os juros das OT a 5 anos subiram para 12,23% e os das OT a 10 anos para 10,67%.
Os juros dos títulos da dívida grega, irlandesa e espanhola também subiram, mas com variações diárias mais baixas. Os juros dos títulos gregos a 2 e a 3 anos estão acima de 26%, em virtude do impasse na resolução da crise grega (que começará a ser discutida amanhã no Eurogrupo) e da baixa de rating anunciada pela agência S&P ao final da tarde, admitindo que um default selectivo tem alta probabilidade de ocorrer.
O risco de default, segundo dados da CMA DataVision, fixou-se, às 20H30, nos seguintes níveis: 73,5% para a Grécia (que lidera o “clube” da bancarrota), 47,28% para Portugal (em 3º lugar nessa lista), 46,21% para a Irlanda (em 4º lugar) e 21,51% para Espanha (em 9º lugar).
Dom 12 Jun 2011
Cartel da OPEP poderá cindir-se?
Por JNR na secção Choque petrolífero , crise , Energia , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económicaainda sem comentários
A Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) arrisca uma cisão, segundo alguns analistas do mercado petrolífero. “Foi uma das piores reuniões que já tivemos”, exclamou o ministro dos petróleos da Arábia Saudita Ali al-Naimi, considerado o mais poderoso ministro do crude, à saída da cimeira do cartel em Viena na passada quarta-feira (8 de junho).
A reunião durou cinco horas em que se formaram dois blocos. De um lado a Arábia Saudita (o maior exportador mundial) que pretendia um aumento de 1,5 milhões de barris por dia na produção do cartel, apoiada pelo Koweit, o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos – seus vizinhos próximos -, e do outro, abertamente contra, a Argélia, Equador, Venezuela, Irão, Iraque e Líbia (em guerra civil), segundo declarações de Ali al-Naimi. Não foi feita referência à Nigéria (o 6º maior exportador de crude).
Obstinada oposição
Ali al-Naimi foi muito explícito sobre a divisão interna: “Passei três horas a tentar convencê-los [da necessidade do aumento da produção]. Nos meus 16 anos como ministro dos petróleos nunca vi uma posição tão obstinada [de oposição]“.
O secretário-geral do cartel, o líbio Abdulá Salem el-Badri, anunciou, no final da cimeira, que “infelizmente não foi possível alcançar um consenso para aumentar a produção” e referiu que o assunto voltará a ser analisado na próxima reunião se realizará em 14 de dezembro.
A pressão para o aumento da produção do cartel deriva do facto da China se ter tornado em 2010 o maior consumidor de energia, ultrapassando os Estados Unidos, sendo agora a referência mundial. Acresce que o risco de apagões na China durante o verão irá obrigar Beijing a aumentar o uso dos geradores a diesel, o que pressionará o consumo de petróleo.
A grande dicotomia no mundo
A economia mundial tem vindo a assistir a um acentuar da dicotomia entre os países membros da OCDE (considerados desenvolvidos) e as economias emergentes. A assimetria na taxa de crescimento económico é agora evidente entre os dois mundos. O aumento do fosso entre a produção e o consumo mundiais de petróleo influencia naturalmente o disparo dos preços, potenciando ainda mais a sua volatilidade provocada pela especulação financeira, como aumenta os riscos geopolíticos de disputa pelas zonas produtoras ou com reservas.
A Arábia Saudita pretendia aumentar a produção do cartel em 1,5 milhões de barris por dia, passando dos 28,8 milhões registados em abril para 30,3 milhões. A procura para os crudes da OPEP situar-se-á em média nos 29,9 milhões em 2011, segundo o Monthly Oil Market Report da OPEP deste mês.
Em virtude do impasse em Viena, Riade afirmou ir aumentar unilateralmente pelo menos 500 mil barris por dia. Mas isso não se traduzirá necessariamente num aumento da produção de petróleo saudita nesse número de barris, e muito menos na exportação. Segundo a Reuters, só metade desse aumento na realidade será destinado à produção de petróleo, pois a outra metade será consumida pelas centrais elétricas a diesel em virtude do disparo do consumo de energia nesta época de picos de calor na península arábica.
«Mandem os clientes, não se preocupem com os volumes»
Os números sobre a produção saudita e o seu designío de aumento não são unânimes. O jornal saudita al-Hayat dizia na sexta-feira que o reino pretenderia passar dos 8,8 milhões de barris por dia (mbd) em maio para 10 milhões em julho. O país já não extraía tal montante de barris desde há uma década. O último pico foi em julho de 2008 quando produziu 9,7 mbd. O ministro saudita disse em Viena, respondendo a uma pergunta, que “mandem os clientes, não de preocupem com os volumes”.
A produção mundial, desde o rebentar do conflito na Líbia, baixou 1,7 milhões de barris por dia, em que 82% dessa quebra se atribui à guerra civil naquele país do Magrebe. O petróleo líbio é difícil de substituir dado ser de uma variedade de alta qualidade, afirma Rembrandt Koppelaar, editor do The Oil Drum. Em contraste, a procura mundial deverá crescer 1,4 milhões de barris por dia (mbd), um aumento, no entanto, inferior ao de 2010 (que foi de 2,1 mbd).
Quem poderá beneficiar
O cartel agrupa 12 membros – Arábia Saudita, Argélia, Angola, Equador, Emiratos Árabes Unidos, Irão, Iraque, Koweit, Líbia, Nigéria, Qatar e Venezuela. Detém quase 80% das reservas mundiais do ouro negro e dominam mais de 40% da produção mundial. Nos 10 maiores exportadores do mundo ocupam 6 posições (Arábia Saudita, que lidera, Irão, Koweit, Nigéria, Venezuela e Iraque). Apesar de a Rússia ser o maior produtor mundial (com mais de 10 milhões de barris diários), a Arábia Saudita é o maior exportador (com cerca de 9 milhões de barris por dia).
Um enfraquecimento da OPEP, ou eventual cisão nesta organização criada em Bagdade em 1960, poderá beneficiar o poder do maior produtor do mundo e segundo maior exportador, a Rússia.
A OPEP usa um preço médio para o barril de petróleo com base num cabaz de 7 variedades de crude (“Blend do Saara” da Argélia, “Minas” da Indonésia, “Bonny Light” da Nigéria, “Arab Light” da Arábia Saudita, “Fateh” do Dubai, “Tia Juana Light” da Venezuela, e “Istmo” do México, um país que não pertence ao cartel, mas que é o 7º produtor mundial). Este preço subiu de uma média de 74,45 dólares em 2010 para 106,55 dólares em 2011 até à data. Na última semana, em que decorreu a cimeira de Viena, este preço médio subiu de 110,52 dólares para 111,53 dólares.
Este preço do cabaz da OPEP é mais baixo do que o preço do barril de Brent, usado como referência na Europa. O Brent fechou a semana em baixa com um valor de 118,78 dólares por barril, mas subiu 2,5% durante a semana e 49,5% nos últimos doze meses, segundo dados da TradingEconomics.
Os 10 maiores produtores mundiais são os seguintes: Rússia, Arábia Saudita, Estados Unidos, Irão, China, Canadá, México, Emiratos Árabes Unidos, Brasil e Koweit. Os 10 maiores exportadores são: Arábia Saudita, Rússia, Estados Unidos, Irão, Koweit, Nigéria, Venezuela, Noruega, Canadá e Iraque.
Sex 10 Jun 2011
Ecofin dia 20 em risco de ser um flop — diário de bordo 224
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económicaainda sem comentários
As divergências sobre as condições a colocar à Grécia no âmbito de um segundo pacote de resgate estalaram publicamente com ruído esta semana.
O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble, em carta aos seus colegas europeus defendeu a ideia de envolvimento dos credores privados (bancos e fundos) da dívida grega no esforço de refinanciamento grego. A proposta seria conseguir €30 mil milhões numa troca de títulos que alargasse a maturidade em mais 7 anos. No fim de semana de 11-12 de junho, Jean-Claude Juncker veio reafirmar a sua proposta de 17 de maio sobre o re-profiling ou reestruturação “suave”.
BCE: Monsieur Trichet dit NON
Mas o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, ripostou claramente com um “não” . “Nem evento de crédito, nem default selectivo”, disse em conferência de imprensa em Frankfurt por ocasião da divulgação da decisão de não mexer nas taxas de juro. Interrogado pelos jornalistas foi taxativo: “Não é certamente a nossa intenção [fazer o roll over dos títulos gregos detidos pelo BCE]“.
Ser ou não ser “voluntário”
A iniciativa de troca voluntária de títulos poderia desencadear um evento do tipo da falência do Lehman Brothers em 2008. Trichet insistiu, por isso, no caminho dos resgates com alternativas ao envolvimento dos credores privados, como, por exemplo, a aceleração das privatizações e a atração de investimento direto estrangeiro.
Fitch & Moody’s – say NO
O presidente do BCE tem do seu lado o seu sucessor Mario Draghi, os franceses e as agências de rating.
A Fitch disse que um re-profiling nas circunstâncias atuais não seria “voluntário” e que baixaria, por isso, a notação da dívida grega. Ameaçou, ainda, que “revisitaria” as notações dos outros países periféricos, pois uma reestruturação “suave” – como vem defendendo o presidente do Eurogrupo e parece ser agora doutrina oficial alemã – num país membro da zona euro seria interpretada como mudança de política da União Europeia. A Moody’s e a Standard & Poor’s reforçaram esta posição.
O comissário europeu Olli Rehn, por seu lado, sugeriu a ideia de se adaptar a “Iniciativa de Viena” usada no leste europeu, que envolveu uma participação voluntária dos credores. O Memorando de Entendimento português já contém essa disposição. Por seu lado, António Borges, diretor do FMI para a Europa, identificou um valor potencial de ativos gregos privatizáveis que chegaria aos €200 mil milhões, muito acima dos €30 mil milhões programados. Uma das ideias em curso é que o novo empréstimo seja colateralizado com esses ativos.
A agência Eurointelligence arrisca que, com divergências tão claras, um acordo na reunião do Ecofin de 20 de junho sobre o segundo pacote de resgate à Grécia poderá estar em causa. O que implicaria uma pesada noitada na cimeira europeia de 23 e 24 de junho e negociações duras para um compromisso.
Janela estreita de compromisso
Para preparar o terreno de negociação, o ministro alemão Wolfgang Schauble anunciou que um grupo de trabalho dentro do Eurogrupo, com a participação da troika, irá tentar encontrar “uma janela estreita” entre as posições alemãs e a negativa do BCE.
O ministro belga das Finanças, Didier Reynders, veio deitar água na fervura: “É possível organizar uma participação dos credores privados num base voluntária. Nesse caso, a Alemanha poderá concordar”.
O que está em jogo é um pacote adicional de €120 mil milhões envolvendo €60 mil milhões de empréstimos da troika para o período de 2012 a 2014. Na totalidade, a Grécia disporia de €180 mil milhões, pois há um saldo de €57 mil milhões por usar do primeiro pacote lançado em maio de 2010.
O relatório da troika divulgado esta semana pelo Der Spiegel traça um balanço negativo da aplicação do plano de maio de 2010: a Grécia terá uma recessão de 3,8% este ano (depois de uma contração de 4,5% em 2010); o défice orçamental permanecerá próximo do valor do ano passado (10,5% do PIB); a dívida pública atingirá um pico em 2012/2013; o desemprego chegou aos 16,2% com 42,5% de desempregados na população jovem; o Tesouro grego não conseguirá financiar-se no mercado em 2012, conforme inicialmente estava previsto no acordo do primeiro resgate, o que agora é considerado “um cenário muito remoto”.
E conclui muito claramente: “O próximo pagamento [a 5ª tranche do plano de resgate de maio de 2010 que envolveu €110 mil milhões] não poderá ser feito antes que a situação de subfinanciamento seja resolvida”.
As condições políticas colocadas pela troika para um consenso alargado, também, não se concretizaram. O líder Antonis Samaras, da Nova Democracia (o partido no governo até 2009 que deixou por herança uma situação de pré-bancarrota), continua a não dar o “sim” ao plano de austeridade, reclamando cortes nos impostos, o que o próprio relatório da troika considera “irrealista” e “incompatível com os objetivos do programa de ajustamento”. Em Atenas corre o rumor de que o governo do PASOK (socialistas) poderá amaciar as posições da oposição de direita cedendo a algumas reivindicações num novo pacote de impostos em setembro.
Recorde-se que os estatutos do FMI proíbem qualquer empréstimo se houver dúvidas de que o país possa entrar em default num horizonte de 12 meses.
Plano de austeridade grego
O governo de Atenas colocou no Parlamento uma proposta de Plano de Austeridade e de Privatizações para 2012 a 2015 que suscita inclusive oposição interna dentro do PASOK e a reclamação de remodelação, nomeadamente do ministro das Finanças, uma das peças-chave do atual primeiro-ministro. No campo da Função Pública, o corte passará por uma redução de 150 funcionários num total de 700 mil, e será adotada a regra de contratar 1 novo funcionário por cada 10 que saiam.
O pacotão de impostos implica: um imposto extraordinário sobre os rendimentos de 2 a 4% com efeitos retroativos aos de 2010; o imposto sobre imóveis passar a vigorar acima de um património avaliado em €200 mil euros; um imposto especial sobre veículos de alta cilindrada; o aumento do IVA para a restauração no sentido de aplicação da taxa máxima.
Jens Bastian: 5 áreas de prioridade
Para o economista da Fundação Eliamep em Atenas, o atual quadro assinado em maio de 2010 revelou-se “irrealista na substância e excessivamente otimista na previsão do regresso da Grécia aos mercados em 2012″. Por isso propõe 5 áreas de revisão no Memorando de Entendimento (MoU):
- Ajustamentos que aliviem o fardo da dívida, evitando uma reestruturação desordenada;
- Um compromisso por parte das empresas de que o aumento dos lucros privados deverá ser reinvestido;
- Apoio à exportação em todas as vertentes (a nível fiscal; crédito de financiamento; regulamentação da inovação);
- Um “Plano Hércules” por parte dos fundos europeus, com uma suspensão temporária da obrigatoriedade das comparticipações nacionais, e com apoio adicional do Banco Europeu de Investimento;
- Acordos dentro do veículo financeiro europeu FEEF (EFSF, no acrónimo em inglês, para Fundo Europeu de Estabilização Financeira) para dar mais tempo à Grécia para conseguir colocar a dívida numa trajetória sustentável.
Sex 10 Jun 2011
Semana negra para os PIGS – diário de bordo 223
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económicaainda sem comentários
As divergências no seio da zona euro sobre a resolução para a crise grega tornaram a semana que finda num verdadeiro pesadelo para os quatro países da zona euro (jocosamente designados por PIGS, o acrónimo em inglês) sob observação dos mercados da dívida.
A Grécia terminou com um risco de default próximo de 73%, Portugal galgou o patamar dos 46% (no próprio dia de Portugal), a Irlanda subiu para um nível de 45% e Espanha regressou ao 9º lugar no “clube” da bancarrota com quase 21% de probabilidade de incumprimento.
Os juros dos títulos públicos estiveram em alta no mercado secundário. Os mais pressionados foram os juros dos títulos gregos a 3 anos que subiram acima de 26%, dos títulos gregos a 2 anos que chegaram perto dos 26%, das obrigações do Tesouro (OT) portuguesas a 3 anos que ultrapassaram os 12%, das OT a 10 anos que chegaram aos 10,43%, dos títulos irlandeses a 2 anos que atingiram os 11,76% e das obrigações espanholas a 10 anos que subiram para 5.47%, segundo dados da Bloomberg.
Os investidores na dívida destes países temem que nenhum consenso seja obtido na próxima reunião do Ecofin dia 20 de junho e na cimeira da União Europeia nos dias 23 e 24, e que a questão da resolução da crise grega se arraste com um cenário de default cada vez mais provável no horizonte. Ou seja, o risco de um fracasso do plano de resgate de Atenas pela troika que, na ideia dos investidores, poderá ser o percursor de uma vaga em cadeia nos outros países já “intervencionados” pela UE/BCE/FMI.
Entretanto, a Moody’s colocou ontem 7 bancos portugueses em lista de espera para uma possível revisão em baixa da notação e foi feito um pedido de informação a um Credit Derivatives Determinations Committee da ISDA (International Swaps and Derivatives Association) sobre se o Allied Irish Banks entrou em situação de “evento de crédito”.
Sex 10 Jun 2011
Missão Impossível: reduzir a dívida pública para os níveis de Maastricht
Por JNR na secção Ciberardina na crise (do default) , crise , Gestão do risco , Inteligência Económicaainda sem comentários
Portugal teria de crescer ao ano 8% para conseguir em 2020 atingir um nível de dívida pública em relação ao PIB de 60% como o exige o Tratado de Maastricht. A estimativa foi feita por Christophe Donay, estratega-chefe da Pictet & Cie, um banco de gestão de fortunas sediado em Genebra, na Suíça.
Tomando em linha de conta uma média decenal mais “realista” de 2% – diz o especialista suíço – Portugal levaria entre 15 a 20 anos a conseguir alcançar tal objetivo.
Mas há situações piores. A mais dramática é a da Grécia. Para conseguir o objetivo de Maastricht em 2020 teria de crescer 21% ao ano! Dada a manifesta fantasia que tal cenário se revela, Atenas levará 45 anos a atingir aquele objetivo. A Irlanda e a Itália levariam 30 anos.
Numa situação menos dramática que a portuguesa, mas mesmo assim exigindo taxas de crescimento anual acima de 5% estariam o Canadá, Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha e Reino Unido.
Conclusão: o pressuposto de que os membros da zona euro periféricos hoje em apuros e até o núcleo duro da União Europeia conseguirão cumprir o objetivo de Maastricht através de uma estratégia de crescimento é uma fantasia.
Donay sugere que no caso da Grécia se avance para um default parcial.
Sex 10 Jun 2011
FMI: Espanha “forçada” a votar contra Lagarde
Por JNR na secção crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , História Económica , Inteligência Económicaainda sem comentários
O candidato mexicano ao lugar de diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) deixado vago por Dominique Strauss-Kahn conta com o apoio de 12 países latino-americanos e de Espanha.
Agustín Carstens, o governador do Banco Central do México e ex-funcionário do FMI, apresentou-se hoje como o candidato deste bloco latino-americano contra Christine Lagarde, a ministra da Economia francesa, que recolhe vários apoios na Europa e é dada como favorita ao lugar, e contra Grigory Marshenko, governador do Banco Central do Kazaquistão e tido como “figurante” nesta peleja. Os media franceses alcunham este terceiro candidato de “ovni”, alegando que nem mesmo o presidente russo Dimitri Medvedev o apoiaria. Marshenko viria a desistir ainda antes do final do dia.
Como Espanha integra no FMI um grupo em que estão representados também o México, a Venezuela e outros países da América Central, acabará por votar solidariamente com a decisão deste grupo, e não necessariamente pela sua preferência que, segundo a ministra espanhola de Economia Elena Salgado, seria a candidata francesa.
Votos importantes como o dos Estados Unidos, Japão, Brasil, Índia e China ainda não são oficialmente conhecidos para esta votação que decorrerá a 30 de junho.
