Maio 2011


Não houve “casamento” para um consenso alargado em Atenas na reunião de sexta-feira convocada pelo Presidente da República Karolos Papoulias.

O primeiro-ministro socialista Georgios Papandreou (líder do PASOK) não conseguiu convencer os restantes participantes para um apoio ao novo plano de austeridade de mais €6 mil milhões em cortes orçamentais e ao arranque efetivo do plano de privatizações que poderá somar até 2015 cerca de €50 mil milhões. Quem assistiu à reunião entre os partidos diz que o diálogo descambou em combate verbal em estilo de conversa de café ou blogoesfera.

Esta reunião de emergência seguiu-se à ameaça explícita feita por Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) poderá não autorizar até 29 de junho a transferência da 5ª tranche do plano de resgate (que totaliza €110 mil milhões), abrindo uma situação de default eminente. Essa recusa do FMI poderá vir na sequência do relatório que a missão técnica deverá divulgar esta semana.

Levantamentos em massa nos bancos

Soube-se, entretanto, que só na quinta e sexta-feiras da semana passada, os gregos levantaram €1,5 mil milhões dos bancos. O montante levantado em maio já totaliza €4 mil milhões. Em abril haviam saído dos bancos €2 mil milhões.

Um dos principais opositores ao plano do governo – exigido pela troika UE/BCE/FMI – é o partido de direita Nova Democracia que deixou o país numa situação de pré-bancarrota antes de perder as eleições para o PASOK em outubro de 2009. O novo governo ver-se-ia, depois, obrigado a assinar um plano de resgate em maio de 2010. A Nova Democracia exige, agora, cortes nos impostos que poderão enfraquecer ainda mais os cofres do fisco.

As forças à esquerda do governo, o KKE (partido comunista) e o SYRIZA (coligação esquerdista), bem como os sindicatos apostam no agravamento da situação estando previstas uma concentração popular a 4 de junho na praça central de Atenas e uma nova greve geral a 21 de junho.

O bolo das privatizações

Há, também, discordâncias sobre o plano de privatizações que, segundo Juergen Stark, membro da direcção do Banco Central Europeu, poderá valer €300 mil milhões, 6 vezes mais do que o planeado oficialmente. A primeira vaga deste plano abrange as participações do estado nos portos estratégicos gregos, aeroportos, caminhos de ferro, companhias de águas de Tessalónica e Atenas, hipódromos, empresas de telecomunicações e o banco postal. Um dos pontos difíceis de concretizar é a privatização das ilhas.

A Grécia pretende criar um fundo soberano com todos estes activos, mas em Bruxelas fala-se da criação de uma agência independente similar à que na Alemanha tratou da privatização dos ativos da parte leste do país depois da unificação. O comissário Olli Rehn confirmou hoje ao jornal alemão Der Spiegel essa sugestão de implementar o modelo alemão, colocada na semana passada pelo presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker. Além disso, Bruxelas pretende um envolvimento efetivo neste plano.

O governo de Atenas já afirmou, também, que o Tesouro não estará em condições de regressar em março de 2012 ao mercado financeiro para colocar dívida publica, pelo que uma extensão do actual plano de resgate ou um plano adicional (os valores referidos andam entre €30 mil milhões e 65 mil milhões) serão necessários, se não houver algum tipo de reestruturação da dívida grega que se estima que representará 158% do PIB no final deste ano.

A nova reunião do Eurogrupo (ministros da zona euro) está prevista para 20 de junho no Luxemburgo, nove dias antes da data em que a 5ª tranche do FMI para a Grécia deveria ser transferida para Atenas.

Jens Bastian: o fim de uma época

“Esta crise marca o fim de uma época, em que a Grécia era considerada um dos 25 países mais ricos do mundo. Mas o país perdeu a ‘europeização’ que outros fizeram e nunca chegou a fazer uma limpeza política como a Itália fez no final da era Craxi”, diz ao Expresso o economista Jens Bastian, de Atenas.

Mas as condições atuais de mudança não são as melhores: “A classe empresarial é um anão político e o estado permanece altamente clientelar. Mas o modelo colapsou”. “O enquadramento atual para uma solução é altamente irrealista. É necessário um quadro temporal mais realista para uma mudança sistémica”, acrescenta.

No entender de Bastian, a “limpeza do passado” é pouco provável que se faça, a adopção de medidas socialmente aceitáveis é problemática, e há falta de novas lideranças – apenas os novos presidentes de câmara de Atenas e Tessalónica são uma lufada de ar fresco. “Uma visão para o futuro, numa escala de 0 a 10, está entre 0 e 5″, ironiza.

A Irlanda poderá ter necessidade de um segundo “plano de resgate”, disse ontem o ministro irlandês dos Transportes Leo Varadka, do Fine Gael, ao jornal Sunday Times inglês.

Razão, nas suas próprias palavras: é pouco provável que a Irlanda consiga regressar aos mercados financeiros para emitir dívida em 2012 [conforme planeado no acordo com a troika EU/BCE/FMI] se os juros dos títulos da dívida se mantiverem aos níveis que estão atualmente no mercado secundário (mais de 11% nas maturidades a 10 anos e mais de 12% nas maturidades a 2 anos). E acrescentou: “talvez lá para 2013 seja possível, mas quem sabe”.
As duas opções

Segundo o jornal alemão Financial Times Deutschland de hoje os políticos irlandeses terão começado a discutir a necessidade de um programa adicional ao existente acordado com a troika em novembro de 2010 e este ministro foi o primeiro a admiti-lo publicamente. Ou a extensão do programa atual ou um novo resgate estarão em início de discussão nos meios políticos e governamentais irlandeses.

O debata acalorado sobre a situação americana regressou em força na blogoesfera dos académicos e nos media. O pessimismo regressou.

Facilitismo monetário e estagflação

Ronald McKinnon, da Universidade de Stanford, afirma, em coluna de opinião no The Wall Street Journal, que a economia da primeira potência mundial já entrou em estagflação, o palavrão de economês que significa que a economia vive uma mistura de estagnação económica com inflação e alto desemprego.

McKinnon salienta que o índice de preços dos produtos acabados – excluindo serviços e preços da habitação – aumentou 6,8% em abril e que o desemprego atingiu os 9%.

O professor de Standard alertou para um padrão similar ao dos anos 1970: “A estagflação derivou de uma política monetária facilitista conjugada com tentativas de desvalorizar o dólar, o que levou à saída massiva de dinheiro quente que desestabilizou os sistemas monetários dos parceiros comerciais da América. Ainda que a estagflação de hoje não seja idêntica, as parecenças são chocantes”.

Krugmam: uma terceira longa depressão

Por seu lado, Paul Krugman vai mesmo mais longe. “Temo que estejamos a viver a fase inicial de uma terceira depressão”, afirma o professor de Princeton, esta semana, na sua coluna “The Conscience of a Liberal” publicada no The New York Times.

O Nobel de Economia alvitra que poderemos estar a atravessar um período similar ao da longa depressão da segunda metade do século XIX, entremeado por alguns períodos de retoma que nunca conseguiram reparar o estrago inicial e que acabaram em recaídas.

Na segunda metade do séc. XIX, o PIB mundial contraiu quase 1% em 1876 e 1,1% em 1893, segundo dados do falecido Angus Maddison, quebras inferiores à grande maioria das recessões do século XX.

Em termos de “catálogo” histórico, viveu-se uma recessão global entre 1890-1893, a partir da crise financeira desencadeada pelo Baring Brothers na City londrina, segundo o estudo de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff (“This Time is Different”, Princeton University Press). Uma crise financeira importante nos países desenvolvidos ocorreu, também, em 1873, que teria um “eco” recessivo em 1876.

Muitos historiadores económicos insistem na observação do padrão de crises ocorrido entre 1870 e 1893 em termos de “benchmark” com a situação atual, mais do que na comparação, usual, entre o que ocorreu desde 2007 e a Grande Depressão de 1929/1933.

Krugmam cita o economista Brad DeLong, da Universidade de Berkeley, que escreveu, esta semana, um post sugestivamente intitulado: “Time to Panic”. A razão do pânico nos Estados Unidos: não houve fecho do fosso (entre o crescimento real efetivo e o crescimento potencial) nos últimos seis trimestres desde o final de 2009, depois de uma recuperação desde o pico da recessão em 2008.

A economia mundial vai crescer em 2011 apenas 3,1% e em 2012 um pouco mais, 3,5%, taxas de crescimento anuais inferiores ao crescimento verificado em 2010 que se terá cifrado em 3,6%.

O que esta sucessão significa é que a economia mundial vai abrandar. E pode até ficar muito mais abaixo: o crescimento pode sofrer reveses e descer abaixo de 2%! Quem o diz são as Nações Unidas, que divulgaram, esta semana que finda, o seu relatório sobre a situação e perspetivas para a economia mundial em 2011.

Este abrandamento é derivado de dois fatores: a permanência de problemas estruturais nas economias desenvolvidas que impedem uma descolagem económica efetiva e o abrandamento também nos países em desenvolvimento e economias emergentes que crescerão apenas 6% entre 2011 e 2012 abaixo dos 7% de 2010.

Um ponto percentual a menos no crescimento do mundo em desenvolvimento e emergente tem um efeito dominó no PIB mundial, pois desde o 4º trimestre de 2009 que essa parte do globo contribui com mais de 50% da expansão da economia mundial.

A ONU admite inclusive que uma nova recessão poderá bater à porta da Europa, Estados Unidos e Japão.

O risco de bancarrota da dívida portuguesa disparou de novo sexta-feira para níveis superiores a 44%, valores que já não se observavam desde final de março após a queda do governo, segundo dados da CMA DataVision.

Atingiu, no final da sessão na sexta-feira, o nível de 44,08% e o custo dos credit default swaps (cds, seguros financeiros contra o risco de incumprimento da dívida soberana) atingiu quase 794 pontos base. Portugal encontra-se, agora, no mesmo patamar do que o Paquistão que tem um nível de risco de 44,78%, e que é o número 3 no “clube da bancarrota”, que agrupa as 10 economias do mundo com maior probabilidade de entrarem em default num horizonte de 5 anos.

A situação portuguesa sofre o impacto do desenrolar da crise grega (o primeiro plano de resgate a ser colocado no terreno pela União Europeia e o FMI num país em que o governo até dispõe de uma maioria parlamentar) e reflecte a expectativa dos mercados financeiros sobre os resultados das eleições legislativas de 5 de junho próximo.

Como referência: a Espanha tem um custo dos cds na ordem dos 257 pontos base (e com quase 20% de risco encontra-se, de novo, às portas do “clube da bancarrota”, mas a distância em relação a Portugal é ainda muito significativa) e a Finlândia, que tem um nível de risco quase inexistente, tem um custo dos cds de 29,45 pontos base – um abismo a separar o Tejo dos mil lagos finlandeses.

A tendência altista no caso português acabou por não ficar isolada na parta da tarde de sexta-feira. As maiores variações do dia verificaram-se com a Bélgica e a Itália. O risco da Grécia (com nova crise política e o risco de não receber a tranche do empréstimo do FMI no final do mês de junho), Irlanda e Espanha voltaram a subir.

No “clube da bancarrota”, com base no monitor da CMA DataVision, a Grécia continua a liderar, distanciando-se da Venezuela (que está em 2º lugar), Portugal conserva o 4º lugar e a Irlanda o 5º. Mais nenhum país da zona euro permanece neste “clube”. A Espanha depois de lá ter estado entre 20 e 25 de maio – dançando entre o 9º e o 10º lugares -conseguiu regressar à soleira da porta de entrada. O Vietname ocupou-lhe o lugar.

A probabilidade de um incumprimento da dívida soberana na Grécia voltou a subir ontem (26 de maio), depois de um desanuviamento na quarta-feira e durante a manhã de quinta-feira. O risco de default na Grécia voltou a subir acima de 70%, segundo o monitor da CMA DataVision,

A tendência de subida também se está a verificar para Portugal e Irlanda, que conservam o 4º e 5º lugares no TOP 10 do risco mundial, liderado pela Grécia. O risco de default para a dívida portuguesa subiu para 43,90% e o da Irlanda para 43,50%, níveis muito superiores aos de 24 de maio quando a crise grega atingiu o pico com rumores de um “evento de crédito” até ao verão.

A Espanha continua a conseguir “descolar” deste grupo, continuando em queda o seu risco de default. Espanha saiu do grupo dos 10 de maior risco onde havia entrado no final da semana passada.

No entanto, nos juros da dívida no mercado secundário o aumento do risco na Grécia, Irlanda e Portugal ainda não se está a traduzir em subidas dos juros.

A sagesse política (risos) de Juncker

Os mercados voltaram a incendiar-se na tarde de quinta-feira com as declarações do presidente do Eurogrupo (reunião dos ministros de Finanças da zona euro), o primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker, de que a próxima tranche do Fundo Monetário Internacional (FMI) à Grécia, a quinta transferência de 3,3 mil milhões de euros a 29 de junho, poderia não ser desbloqueda se a avaliação do andamento do plano grego for negativa.

Nesse caso, teriam de ser os mecanismos financeiros da União Europeia a avançar com o financiamento para evitar a bancarrota grega antes do Verão. Uma alternativa que é encarada como politicamente problemática, dada uma oposição parlamentar crescente em países como a Alemanha, Holanda e Finlândia.

Juncker referiu que “tudo depende do relatório da troika[que tem estado em Atenas] que deverá ser divulgado na próxima semana”.

Esta “espera” enervou os investidores na dívida soberana e o custo dos credit default swaps (seguros financeiros contra o risco de incumprimento) voltaram a disparar para valores acima dos 1600 pontos base, algo que revela, como disse Otmar Issing, ex-director do Banco Central Europeu, que a situação grega “não é só de falta de liquidez, mas de insolvência”.

A China não tomou, ainda, posição formal de apoio a nenhum dos dois candidatos já afirmados ao lugar de diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), na sequência da resignação de Dominique Strauss-Kahn. A data limite de apresentação de candidaturas é 10 de junho.

Os dois candidatos já em presença são a ministra francesa Christine Lagarde – que se apresentou, quarta-feira, formalmente, e que conta com diversos apoios na União Europeia – e o governador do Banco Central do México, Agustín Carstens, que já pediu o apoio das economias emergentes em declarações ao Financial Times.

Negociação no G20

O Ministério dos Negócios Estrangeiros em Beijing declarou na quinta-feira (dia 26) que a decisão de nomeação do novo diretor-geral “deve ser tomada através de uma consulta democrática” entre os membros do G20 com o objetivo de se chegar a “uma seleção aberta, transparente e baseada no mérito”. No entanto, Beijing acrescentou que o FMI “deve representar mais amplamente os países dos mercados emergentes e refletir as mudanças na economia global”.

Uma declaração do grupo BRICS – que além dos anteriores BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) junta a África do Sul – exigiu a “adequada representação dos membros dos mercados emergentes e dos países em desenvolvimento na administração” do organismo internacional.

Também os Estados Unidos não tomaram, ainda, qualquer posição formal. A secretária de Estado americana Hillary Clinton disse ontem em Paris, onde se deslocou por ocasião do 50º aniversário da OCDE, que “oficiosamente, é favorável a que mulheres muito qualificadas e experientes possam dirigir grandes instituições como o FMI”. Mas, logo acrescentou, que “oficialmente” os EUA esperarão por 10 de junho para tomar uma posição.

Presume-se, por isso, uma negociação nos bastidores bem acalorada. A decisão que vier a ser tomada pelos membros da direcção do Fundo dará uma indicação sobre o estado atual da correlação de forças no organismo e o sentido da sua atuação no futuro.

O economista Jens Bastian, em Atenas, desenha os cenários em cima da mesa e estima probabilidades. A situação está ao rubro no plano político interno e o plano de resgate, que acabou por funcionar como “experiência piloto” na zona euro, está à beira do fracasso. Seguir a par e passo o processo de crise do resgate grego é fundamental para Portugal. O impacto das soluções que lá forem encontradas sentir-se-á em Portugal e na Irlanda.

Olhar de Atenas

A situação grega esteve ao rubro hoje. Os mercados da dívida deram o seu veredicto: o risco de default (incumprimento da dívida soberana grega) subiu de 67,43% na sexta-feira passada para um pico de 70,92% ontem à hora do almoço, e reabriu hoje em 70,57%, tendo fechado nos 68,99%, depois de um claro desanuviamento durante a tarde. A diferença em relação ao segundo país com maior probabilidade de bancarrota, a Venezuela de Hugo Chavez, é de mais de 16 pontos percentuais. Os juros relativos aos títulos gregos no mercado secundário a 2 anos estão, de novo, acima de 26%, níveis proibitivos para qualquer tentativa de ir ao mercado financiar-se no curto prazo.

A pressão europeia para que haja um consenso político alargado em relação ao 5º programa de austeridade em discussão em Atenas não está a conseguir ser concretizada. Antonis Samaras, o líder da Nova Democracia, partido de direita na oposição, pretende medidas mais radicais que as propostas pelo governo de Georges Papandreou. O partido de governo, PASOK, dispõe de maioria no Parlamento para fazer passar o 5º programa de austeridade, mas as pressões internacionais vão no sentido de um apoio alargado.

O novo Sísifo de Atenas

O que pode empurrar a Grécia para uma situação de beco sem saída, para mais com o risco de uma explosão social. O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung já considerou o primeiro-ministro Papandreou como o novo Sísifo da mitologia grega – de programa de austeridade em programa de austeridade, voltando sempre à estaca zero, com maior fadiga social e maior nervosismo nos mercados financeiros.

Para agravar esta tempestade, a Reuters noticia hoje que o Fundo Monetário Internacional (FMI) não libertará mais tranches do seu financiamento no âmbito do pacote de resgate à Grécia, se a União Europeia (UE) não assegurar uma solução tranquilizadora para 2012 com um financiamento adicional, tema que tem dividido os parceiros europeus e cuja decisão está a ser arrastada para o outono. O governo grego já avisou que sem essa próxima tranche, o estado grego ficará sem liquidez em julho, e um “evento de crédito”, um default de pagamentos, será imediato. O jornal financeiro holandês “Het Financieele Dagblad” noticia que a UE estaria, secretamente, a preparar uma solução de reescalonamento voluntário da dívida com os credores da Grécia – ou “reestruturação suave”, ou “re-profiling” como foi alcunhada, na semana passada, uma inovação linguística criada pelo presidente do Euro grupo, Jean-Claude Juncker.

Agências de rating encostam Europa à parede

Apesar da tentativa da UE em evitar provocar um default formal na Grécia, as agências de notação americanas já avisaram que interpretarão tal solução como um “evento de crédito”. A Moody’s é citada hoje pela Reuters nesse sentido. A Fitch, também, já declarou que mesmo que se organize uma extensão, ainda que voluntária (acordada com os credores), das maturidades da dívida grega, o evento será considerado um default. A Standard & Poor’s foi ainda mais contundente: qualquer mexida que reduza o valor atual da dívida será considerada um default.

Ouvimos o economista Jens Bastian, investigador da Fundação Eliamep, em Atenas, sobre os cenários que envolvem Atenas.

Cinco cenários

Cenário 1 – o cenário otimista: o governo consegue arrancar com o programa de privatizações (envolvendo €50 mil milhões) e transmitir a imagem de que o realizará até 2015. O atual primeiro-ministro e líder do PASOK, Papandreou, é reeleito em 2013, ano em que finda o pacote de resgate da UE/FMI, e o Tesouro grego regressa aos mercados financeiros para financiar a dívida a juros comportáveis.
A probabilidade deste cenário é, contudo, de alta improbabilidade.

Cenário 2 – default caótico: a Grécia revela-se incapaz de cumprir com as obrigações junto da troika (UE/FMI/BCE) ao longo deste período até 2015. Os custos de reputação no mercado financeiro são desastrosos. E também para a zona euro, em particular para o Banco Central Europeu, que, segundo o Financial Times, detém 20% da dívida grega que monta a €327 mil milhões. Todos os participantes no pacote de resgate à Grécia sofrerão perdas significativas. As consequências económicas e políticas para a zona euro são difíceis de imaginar.
A probabilidade deste cenário é alta, mas politicamente não é aceitável para o BCE, o FMI e vários governos da zona euro, que resistirão até ao limite a tal ocorrência.

Cenário 3 – cenário “intermédio”: a Grécia consegue pagar parte dos compromissos, avançando para uma reestruturação da dívida organizada administrativamente e ordeiramente, incluindo um “corte de cabelo” (hair cut, na designação técnica) na dívida existente na ordem dos 50% a 70%.
A probabilidade deste cenário é alta, com os especialistas e os economistas (hoje Nouriel Roubini defendeu a solução de reestruturação da dívida grega na sua coluna ) a apontarem para a sua necessidade, mas falta ainda o mecanismo político europeu de suporte que cubra o período que vai até 2013, quando o novo Mecanismo Europeu de Estabilização irá entrar em operação.

Cenário 4 – cenário iminente: fruto da pressão dos acontecimentos, inicia-se uma reestruturação rápida da dívida no horizonte dos próximos meses, em simultâneo com sucessos no plano das privatizações de ativos gregos. Esta convergência iria melhorar a reputação da Grécia nos mercados internacionais, permitindo ao Tesouro grego regressar em 2013 a esse financiamento.
A probabilidade é alta, mas há um grau de incerteza que se mantém sobre a dinâmica de privatizações. O presidente do Euro grupo, Jean-Claude Juncker, sugeriu, esta semana, que uma agência independente do governo tome conta do plano de privatizações, num modelo similar ao que ocorreu na Alemanha aquando da unificação.

Cenário 5 – contágio na zona euro: apesar de organizada ordeiramente (cenários 3 e 4), a reestruturação da dívida grega não consegue evitar o contágio junto dos outros dois países já sob intervenção da troika: Irlanda e Portugal. O impacto seria tal que Dublin e Lisboa teriam de proceder, também, simultaneamente, a reestruturações das suas dívidas soberanas. Este contágio provocaria alta instabilidade na zona euro.
A probabilidade deste cenário aponta para a necessidade de o encarar como uma possibilidade que não deve ser excluída.

O risco de um “evento de crédito” – termo técnico para um default formal da dívida – na Grécia levou terça-feira (23 de maio) ao rubro o nervosismo dos investidores na dívida soberana.

O custo dos credit default swaps (cds, seguros financeiros contra o risco de incumprimento de um título) disparou na manhã de terça-feira de menos de 1482 pontos base para 1641,92 pontos base e fechou em 1652,41 pontos base.

A probabilidade de incumprimento, medida pelo monitor da CMA DataVision, chutou o risco para um nível acima de 70,54%, um recorde histórico.

O segundo país com a maior probabilidade de bancarrota, a Venezuela de Hugo Chavez, apresenta uma probabilidade de 52,42%. Uma diferença de quase vinte pontos percentuais.

O agravamento da situação política interna (a Oposição não aprova o quinto programa de austeridade), o aviso pelo governo de Atenas que ficaria sem liquidez até antes do verão (se a troika não der luz verde à nova tranche do resgate) e o debate entre responsáveis políticos na praça pública europeia de uma possibilidade de uma reestruturação da dívida (maquilhada ou não) estão a incendiar a situação.

Este agravamento do risco de default ainda não se sente plenamente no mercado secundário, cujas yields (juros implícitos) das obrigações gregas em todas as maturidades se têm mantido esta manhã abaixo dos valores de fecho de segunda-feira. No caso das maturidades a dois anos, os juros desceram para menos de 26%.

Contágio a todo o vapor

A situação grega está, naturalmente, a “contagiar” os outros países da zona euro sob observação dos mercados, potenciando os próprios problemas internos de cada caso: Portugal, Irlanda, Itália e Bélgica. O grupo dos PIIGS (uma sigla irónica que regressou aos comentários e artigos dos especialistas) mais a Bélgica encontram-se entre os países cujo risco de incumprimento mais aumentou hoje durante a manhã, segundo o monitor da CMA DataVision.

A nível dos juros no mercado secundário, segundo a Bloomberg, os títulos mais pressionados foram os irlandeses e os portugueses. No caso português, a maturidade mais em foco é a relativa às obrigações do Tesouro a 3 anos, cujo juro, contudo, não chegou aos 12%. Os juros para os títulos irlandeses a 2 anos subiram para 12,14%.

A agência de notação de crédito chinesa Dagong desceu o rating da dívida inglesa de AA- para A+ com perspetiva negativa de revisão futura.

A Dagong Global Credit Rating Co, a principal agência de notação chinesa criada em 1994, acaba de diminuir a notação do Reino Unido de AA- para A+, segundo a agência de notícias chinesa Xinhua. Ainda que dentro do patamar dos “A”, onde o risco não é considerado especulativo, a agência de notação afirmou ser negativa a perspetiva de revisão futura.

A agência de Beijing alega que o défice orçamental do Reino Unido foi de 9,8% em 2010 e que, segundo as suas previsões, deverá ser de 9% em 2011, acima do objetivo oficial de 7,9%.
Para a Standard & Poor’s, o Reino Unido é, ainda, um dos países com triplo A (o rating máximo).

As razões chinesas

A agência explicou em comunicado que “os dados relativos ao Reino Unido indicam uma deterioração da capacidade do Reino Unido para cumprir o serviço de dívida, ao mesmo tempo que a inflação global, motivada por uma emissão excessiva de dólares americanos, também afetará o crescimento”. E prossegue: “O fardo da dívida inglesa deixa pouco espaço para que o governo possa usar políticas orçamentais e monetárias no sentido de fomentar e estimular a economia”. O comunicado acrescenta ainda um apontamento cirúrgico sobre o sistema financeiro britânico: “O sistema bancário inglês tem uma enorme exposição ao risco, que poderá gerar riscos para o governo”. Segundo estimativas da Dagong, cerca de 40% dos ativos do sistema bancário inglês, avaliados em 2 biliões de libras (€2,3 biliões), estarão expostos ao risco.

“No futuro, a União Europeia irá monitorizar o programa grego de privatizações tão estreitamente como se fossemos nós que o estivéssemos a implementar”, referiu hoje ao jornal alemão Der Spiegel o presidente do Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro), o primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker.

Juncker acrescentou que veria com bom grado que o governo grego colocasse o plano de privatizações nas mãos de uma “agência independente do governo, baseada no modelo da Treuhandanstalt”, a agência alemã, criada em 1990, que tratou da privatização de 8500 empresas da Alemanha de Leste depois da reunificação. Essa agência grega deveria inclusive ter peritos estrangeiros, acrescentou.

O plano de privatizações grego poderá valer €50 mil milhões.

Santiago Niño Becerra não se admira com o disparo no risco de default de Espanha desde sexta-feira. Em fevereiro prognosticou a chegada dos “Senhores do fato preto” da troika ainda este ano. “Espanha não pode pagar o que deve”.

Santiago Nino Becerra

A probabilidade de incumprimento da dívida soberana de Espanha tem estado em alta desde sexta-feira quando o país reingressou no “clube da bancarrota”, os dez do mundo com mais alto risco de default. Hoje subiu para o 9º lugar nesse ranking da CMA DataVision, mantendo-se com um risco acima de 21%.

Também no mercado secundário da dívida soberana, as yields (juros implícitos) das obrigações espanholas (OE) ferveram de manhã, tendo as relativas às maturidades a 10 anos atingido os 5,6%, segundo dados da Bloomberg. Durante a tarde, a alta arrefeceu, mas os níveis de juros fecharam em valores acima dos de sexta-feira. Os juros das OE a 10 anos mantêm-se acima de 5,5%.

Os analistas interrogam-se se o filme dos resgates se vai repetir. Santiago Niño Becerra, professor de economia na Universidade Ramon Llull, em Barcelona, prognosticou, em entrevista que nos concedeu em fevereiro, “que os senhores do fato preto” da troika aterrariam em Barajas ainda este ano.

Anestesiada para a dívida

Agora, face a esta nova tendência altista, o irreverente professor de Barcelona diz que “na realidade, Espanha já está intervencionada, tenham chegado ou não fisicamente os senhores do fato preto”. E, além, de intervencionada, está anestesiada. A campanha eleitoral para estas eleições regionais e municipais de 22 de maio passou ao lado destes problemas: “O problema da dívida soberana foi conscientemente marginalizado pelos partidos nesta campanha. Contudo, também, os votantes nada perguntaram aos partidos”.

O problema de Espanha é estruturalmente o mesmo que o dos outros já intervencionados na zona euro: insolvência, diz Niño Becerra. Uma opinião que contrasta com a do Nobel Paul Krugman que, ainda ontem, na sua coluna no The New York Times, “separou” Espanha do grupo dos outros três da zona euro já intervencionados.

“Espanha não pode pagar o que deve. Tem uma estrutura do produto interno bruto baseada em baixo valor acrescentado, produtividade reduzida e excesso de população ativa, e assim é impossível sair da situação em que está”, afirma para logo acrescentar: “Espanha tem uma estrutura económica absolutamente desequilibrada” para enfrentar o novo desafio dentro da Europa.

As próprias contas orçamentais das regiões espanholas são preocupantes. Apenas Catalunha, Madrid e Comunidade Valenciana têm um saldo positivo global, refere. Há regiões que, em contraste, têm situações aflitivas, como a Extremadura e as Astúrias.

O desafio, diz o professor de Barcelona, é a nova geometria variável da Europa. “mas não se trata da geometria variável entre países, como se tem dito, mas sim de clusters, inclusive transregionais e transnacionais”.

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