Uma investigação original de Francisco Lopes dos Santos, professor do ISEG, em Lisboa. Um debate fundamental. A conversa do sol, da excelente gastronomia, da longa História (com H maiúsculo, mesmo) e resiliência local, e do português “suave” dos costumes não chega. Como, também, não chega o voluntarismo tecnologista. Lopes do Santos tira o véu de cima de uma outra divergência da última década e de uma outra dinâmica de deslocalização.

[Resumo de um artigo publicado no semanário Expresso]

Ironicamente no período de euforia financista dos anos 2000, em que a “bolha” deveria ter bafejado todos, a convergência de economias não foi a tónica no seio da zona euro e Portugal foi uma das principais vítimas da assimetria gritante que se desenvolveu. Regularmente ouve-se falar da divergência no crescimento do produto per capita e na distância entre o crescimento real muito baixo ou estagnante e o potencial da economia.

Mas há uma outra divergência de que se tem falado menos – o fosso entre a rentabilidade dos capitais investidos em países como a Alemanha, França ou a Áustria e a rentabilidade nos casos de países como Portugal, Itália e Espanha. Essa diferença de rentabilidade situa-se, em média, nos 2% entre aqueles dois grupos de membros da zona euro e acentuou-se a partir de 2004.

“Uma diferença significativa que acaba por tornar muito mais oneroso investir nos países com mais baixa rentabilidade de capital. Isto acaba por ser uma questão estrutural, um facto objetivo. Para o mesmo negócio, no caso português, tem de se investir mais 20 a 25% em termos de ativos do que nos países do ‘centro’ europeu. É uma desvantagem comparativa enorme, visível mesmo antes do rebentar da crise mais recente “, diz Francisco Lopes dos Santos, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), de Lisboa, que fez o estudo da evolução dessas rentabilidades para 7 países (Alemanha, Áustria, Espanha, França. Itália e Portugal) entre 2002 e 2007, com base em dados divulgados pelo Banco de Portugal.

Carestia dos ativos

Lopes dos Santos baseou a sua investigação na ideia de “usar os indicadores típicos do mundo empresarial” na avaliação dos países e assentou a medição da rentabilidade do capital investido em cada um dos países numa análise de 30 setores, segundo a classificação das atividades económicas. Obteve, agregadamente, “corredores de rentabilidade” para cada país e uma análise mais fina em cada um dos trinta setores. “De um lado, a Alemanha, Áustria e França, com rentabilidades acima de 11%, e do outro, Espanha, Itália e Portugal, perto dos 9%”, sublinha o investigador. Conclui, que na zona euro, “a rentabilidade tem bandeira e hino” e que, em contraste, há uma doença de “carestia dos ativos”, paradoxalmente, nos países com menor poder de compra e com menor rendimento per capita.

O que esta divergência implica é que assistimos, durante aquele período, a uma deslocalização das indústrias que requerem mais investimento de capital. Tais indústrias “fugiram” de países onde os ativos são caros – como em Portugal – para, por exemplo, a Alemanha, sublinha Lopes dos Santos. “O custo de capital na periferia é não só onerado pelos custos logísticos, como pelos custos de intermediação em toda a cadeia de fornecedores que vão somando margens pelo caminho, até ao impacto dos custos internos, como a carga fiscal e parafiscal e as práticas administrativas do aparelho de estado, que prejudicam o investimento, bem como tudo o que onera o capital circulante, como dificuldades de cobrança”, sublinha o investigador do ISEG.

A outra deslocalização

O nosso país não foi, apenas, atingido pela deslocalização de setores de baixo valor em virtude da concorrência internacional da China e de outras economias emergentes, mas “apanhou” também com esta deslocalização de maior valor, menos falada, mas muito prejudicial para os países do “Sul” da Europa. “Sofreu o impacto destes fatores de decapitação”, diz o nosso interlocutor, com o “risco do tecido empresarial ser destruído e não renovado, pela fuga de inteligência e pela diminuição da capacidade empreendedora”. Por isso, as próprias “exceções” que sobrevivem “tornam-se alvos fáceis para aquisição por empresas dos países de maior rentabilidade, sofrendo, depois, re-estruturações no sentido de se tornarem sobretudo empresas comerciais e não industriais”.

Descendo ao nível dos setores, o estudo de Lopes dos Santos verificou que, mesmo indústrias que são tidas como ex libris português, como a madeira e cortiça, a pasta de papel, ou o vestuário têm rentabilidades de capital muito baixas. As situações menos desequilibradas encontram-se no setor automóvel, na produção de equipamentos elétricos e nos equipamentos informáticos.

Lopes dos Santos pode ser contactado em: