Março 2011


O efeito do corte de rating da República Portuguesa para um patamar próximo do estatuto de “dívida especulativa” reacendeu, de novo, a escalada dos juros dos títulos portugueses no mercado secundário, que havia abrandado ligeiramente ontem à tarde.

As yields (juros implícitos) das Obrigações do Tesouro (OT) a 5 anos abriram perto dos 8,5% no mercado secundário. E os juros relativos às maturidades a 3 anos já estão ligeiramente acima de 8%, segundo dados da Bloomberg.

Os próprios juros das OT a 2 anos “testam” os 7%, a famosa linha vermelha colocada pelo ministro das Finanças português para os juros das OT…a dez anos. Ao meio dia subiram aos 7%. É “oficial” – em todas as maturidades o “limiar” de Teixeira dos Santos foi ultrapassado.

O improvável acontece.

Nos mercados da dívida soberana a perceção da degradação da situação portuguesa num horizonte de 2 a 5 anos é manifesta. Neste momento, os juros dos títulos com maturidades a 5 anos estão acima do nível dos registados para a Irlanda e para a Hungria, países que estão sob intervenção do Fundo Monetário Internacional.

Recorde nos spreads

O spread(diferencial) entre os juros dos títulos portugueses nas quatro maturidades e os juros dos Bunds (titulos alemães), que servem de referência na zona euro, estão acima do nível crítico de 4,5 pontos percentuais.

O campeão no spread situa-se na maturidade a 3 anos em que o diferencial está acima de 6 pontos percentuais. No caso da maturidade a 5 anos está em 5,9 pontos percentuais e no caso da maturidade a 2 anos em 5,25 pontos percentuais. Mesmo nos juros a 10 anos o spread é já superior a 4,5 pontos percentuais.

A probabilidade de default (incumprimento) da dívida soberana portuguesa num horizonte de cinco anos elevou-se para 38,2%, segundo dados do monitor da CMA DataVision. Também, no custo dos credit default swaps (cds, no acrónimo em inglês) para a dívida portuguesa, o spread em relação ao custo dos cds para a dívida alemã está acima de 450 pontos base, o nível considerado crítico.

Irlanda com melhor rating que Portugal

A baixa de notação pela Standard & Poor’s (S&P) ocorreu já na madrugada de sexta-feira, colocando Portugal à distância de apenas dois níveis para a situação de “lixo” (em que se encontra a dívida soberana grega).

A S&P baixou o rating da República Portuguesa em dois níveis, de A- para BBB, apenas dois níveis acima do estatuto de “lixo” (que começa em BB+). A agência admite baixar em mais um nível a notação portuguesa, o que a colocará mesmo no limiar.

Neste momento, para a S&P, a notação da República Portuguesa é pior do que a relativa à Irlanda que ainda se conserva no patamar dos A.

As notações do grupo de países da zona euro sob observação são as seguintes, segundo a S&P: Bélgica AA+; Espanha AA; Itália A+; Irlanda A-; Portugal BBB; Grécia BB+.

No dia seguinte ao pedido de demissão do primeiro-ministro português e quando se adensam nuvens sobre os resultados que sairão da cimeira da União Europeia (UE) hoje e amanhã, as yields (juros implícitos) das Obrigações do Tesouro (OT) portuguesas no mercado secundário dispararam hoje na abertura, segundo dados da Bloomberg.

A maior subida está a verificar-se nos juros relativos às OT com maturidades a 3 anos que já subiram para 7,87%, um nível acima dos juros para as OT a dez anos, os mais mediáticos até há um mês atrás. Estes últimos situavam-se, esta manhã, nos 7,71%.

A segunda maior subida está a verificar-se nos juros relativos às OT com maturidades a 2 anos, que subiram para os 6,86%.

Finalmente, os juros das OT a 5 anos estão em 8,36%, continuando a escalada.

Cimeira toldada

Estas subidas estão a liderar os aumentos nas yields no conjunto do grupo dos países da zona euro em situação mais crítica conhecidos pelo acrónimo de PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Espanha e Grécia).

Segundo os analistas da Eurointelligence, a própria cimeira da União Europeia em Bruxelas, que se inicia hoje, está toldada não só pela crise política portuguesa, mas também pelo impasse na renegociação do Memorando de Entendimento com a Irlanda (que, recentemente, elegeu um novo governo de coligação), bem como pelas divergências internas notórias na Alemanha e a provável oposição da Finlândia (que vai a votos em abril) ao acordo que tem sido negociado durante este mês.

Depois do iene ter chegado a uma valorização recorde em que um dólar americano valia apenas 76,25 ienes, em virtude da crise provocada pelo terramoto/tsunami e pelo risco nuclear, os bancos centrais e os ministros das Finanças do G7 (grupo dos principais países desenvolvidos, formado por Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) decidiram na sexta-feira intervir no mercado de divisas com uma venda de 530 mil milhões de ienes (o equivalente a mais de €4,5 mil milhões), divulgou, hoje, o Banco do Japão (BoJ). A maior fatia da intervenção deve ter sido realizada pelo BoJ.

O câmbio de 76,25 ienes por cada dólar havia rompido o nível histórico de valorização do iene face ao dólar atingido em 1995, que se situara em 79,75 ienes.

Uma valorização súbita do iene apenas poderia agravar ainda mais o comportamento das exportações japonesas num contexto de grande incerteza sobre o impacto económico do terramoto/tsunami e da crise adicional provocada pela situação na central nuclear de Fukushima Dai-ichi. O Banco Mundial já previu que o efeito deste “cisne negro” empurre a economia japonesa para uma recessão no segundo trimestre deste ano. Uma valorização do iene poderia colocar em risco as expectativas de retoma no segundo semestre.
Desde 2000 que não havia “intervenções”

Trata-se da primeira intervenção coordenada no mercado de divisas em mais de uma década do Banco do Japão, da Reserva Federal americana, do Banco de Inglaterra, do Banco do Canadá e do Banco Central Europeu, segundo o próprio comunicado daquela reunião do G7. Esta venda foi inferior no entanto às especulações dos meios financeiros internacionais que apontavam para uma venda de 2 biliões de ienes, quase 4 vezes mais do que, realmente, sucedeu no final da semana passada.

Esta intervenção permitiu arrefecer a valorização do iene cujo câmbio se situa hoje em quase 81 ienes por cada dólar. Esta venda massiva permitirá amanhã – depois do período que medeia entre o início e o final da transação nos mercados de divisas e tendo em conta que ontem foi feriado no Japão – injetar 830 mil milhões de ienes (o equivalente a €7,2 mil milhões) “fresquinhos” no sistema bancário nipónico.

No final do mês, o ministro das Finanças japonês anunciará o montante global das intervenções no mercado de divisas ao longo de março. Em setembro do ano passado, o BoJ realizou uma operação em ienes muito superior para “arrefecer” a sua valorização envolvendo 12,2 biliões (o equivalente a €10,6 mil milhões), que não resultou, segundo os analistas.

A última vez que uma operação similar coordenada foi realizada nestes mercados pelo G7 aconteceu em setembro de 2000 e teve como destinatário o euro, travando a sua desvalorização excessiva face ao dólar, a pedido do Banco Central Europeu.

Franck Biancheri, o líder do movimento europeu Newroperans, vaticina que o ano de 2011 verá o surgimento no “lago” de mais um cisne negro: a double-dip-flation, na expressão em inglês que ele cunhou numa entrevista que me deu ao Expresso e que o jornal El Pais retomou este fim de semana. Ou seja, uma recaída (double-dip) na recessão (nos países desenvolvidos) com inflação.

Ao contrário do período típico de recessão em que a queda do produto se associa a uma deflação vertiginosa ou do período atípico dos anos 1970 em que a inflação se associou a estagnação económica, sobretudo nos Estados Unidos – o que levou à criação do neologismo estagflação (stagflation, no original) -, o ano de 2011 poderá assistir a uma recessão associada a carestia de vida.

O aeroporto internacional de Beijing subiu ao 2º lugar mundial em movimento de passageiros (internacionais e domésticos) em 2010, com 73 milhões, classificando-se logo a seguir a Atlanta, nos Estados Unidos, que lidera, folgadamente, com 89 milhões de passageiros, segundo o relatório preliminar de balanço anual divulgado pela Airports Council International.

O aeroporto da capital chinesa ultrapassou o aeroporto de Heathrow, em Londres, e o de Chicago, nos EUA. No grupo do topo, o aeroporto de Heathrow, em Londres, baixou da 2ª posição para a 4ª, com um decréscimo de passageiros em 2010.

No TOP 15 de tráfego de passageiros (internacionais e domésticos), os EUA dominam com 6 aeroportos (Atlanta, Chicago, Los Angeles, Dallas, Denver e JFK de Nova Iorque). A Europa conta com Heathrow (Londres), em 4º lugar, Charles-de-Gaulle (em Paris) em 7º, Frankfurt em 9º, Madrid em 12º e Amesterdão em 15º. A Ásia conta com 3 aeroportos (Beijing, Tóquio e Hong Kong) e o Médio Oriente com o aeroporto do Dubai.

Os cinco aeroportos que mais viram crescer o seu tráfego de passageiros no ano passado estiveram localizados na Ásia e Médio Oriente: Xangai, que liderou, com um crescimento de 27%, seguido de Jacarta, a capital indonésia, com um aumento de 18%, Dubai, Beijing e Singapura.
Hong Kong lidera na carga

Na carga aérea, Hong Kong lidera, seguido de Memphis (Estados Unidos), Xangai (China), Incheon (Coreia do Sul) e Anchorage (no Alasca). Os aeroportos do Pacífico dominam claramente o grupo de topo na carga aérea. Na Europa, o aeroporto com maior movimento de carga é o de Charles-de-Gaulle, em Paris, que se posiciona em 6º lugar, logo seguido de Frankfurt, na Alemanha.

O número de passageiros – em voos domésticos e internacionais – atingiu, no ano passado, 4,6 mil milhões, ou seja o equivalente a 67% da população mundial, implicando um aumento de 6,3% em relação ao ano anterior.

Quanto ao movimento em voos internacionais (não inclui os voos domésticos), este relatório preliminar, baseado em 906 aeroportos, revelou um crescimento de 7,5% no tráfego de passageiros internacionais e de 20,5% na carga internacional em 2010. O número de passageiros internacionais atingiu, no ano passado, cerca de 2 mil milhões, ou seja o equivalente a 29% da população mundial. Mais de metade destes passageiros internacionais passam por aeroportos europeus.

O relatório definitivo será publicado em julho, com base nos movimentos de 1300 aeroportos em todo o mundo.

Depois de uma semana “negra” em que as yields (juros implícitos) das obrigações do Tesouro (OT) a cinco anos atingiram na sexta-feira 7,41% no mercado secundário, a abertura segunda-feira deste mercado mantém a mesma tendência de alta. Os juros a cinco anos estiveram esta manhã a um nível recorde de 7,59%, segundo dados da Bloomberg. Um verdadeiro disparo face a uma abertura em 7,42%. Ao final do dia fecharam em 7,57%.

No caso dos juros a dez anos, fecharam próximos de 7,56%, ligeiramente acima do máximo ocorrido a 28 de fevereiro (7,55%).

A tendência está a ser claramente para os juros a cinco anos “testarem” níveis acima dos juros a dez anos, como ocorreu na Grécia, caso o Banco Central Europeu não intervenha.
Aproximação entre juros a 5 e a 10 anos

Apesar de oscilações, os juros das OT a cinco e dez anos caminham para se consolidarem no patamar entre 7,5%-8%, juros muito elevados já superiores aos da Hungria (que está “intervencionada” pelo Fundo Monetário Internacional). Bruxelas e o FMI intervieram na Irlanda a 22 de novembro de 2010 com os juros a cinco anos nos 7,35% e os juros a dez anos nos 8,1%.

Os juros a cinco anos das OT portuguesas ultrapassaram já um spread (diferença) crítico de 4,5 pontos percentuais em relação aos juros de referência dos Bunds (títulos) alemães.

No fecho da sessão, os juros das OT a cinco anos mantêm-se acima dos juros das OT a dez anos.

Nos três países da zona euro mais em foco esta segunda-feira – Grécia, Irlanda e Portugal -, os juros das OT portuguesas a 10 anos no mercado secundário foram os que mais subiram hoje. Em relação aos juros a 5 anos, os que mais subiram foram os gregos logo seguidos pelos portugueses.

Como referência comparativa, os juros a cinco anos no caso da Grécia fecharam em 14,16% (próximo do máximo de 14,17% atingido em 7 de janeiro passado) e os da Irlanda (neste caso a seis anos) no patamar dos 8%. A dez anos, os juros no caso grego estão em 12,33% (abaixo dos juros a cinco anos) e no caso irlandês em 9,42%.

Risco de default em alta

Também no indicador da probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) baseado no comportamento do custo dos credit defaullt swaps (acrónimo cds, seguros financeiros contra risco de default) a cinco anos, Portugal abriu em alta, acima de 34%, segundo dados da CMA DataVision.

O spread (diferença) entre o custo dos cds portugueses e dos cds alemães aproxima-se do diferencial crítico de 450 pontos base.

Este movimento de alta é extensível à Grécia (rumores crescentes da necessidade de um processo de re-estruturação da dívida, com a agência de notação Moody’s a baixar hoje o rating de “lixo” em três níveis, de Ba1 para B1, e mantendo a previsão negativa ), Irlanda (anúncio ontem da coligação de bloco central entre Fine Gael e Trabalhistas colocando na agenda a renegociação do acordo com Bruxelas e o FMI) e Espanha (dúvidas crescentes sobre o processo de recapitalização das Cajas de Ahorros).

Grécia e Portugal estiveram entre os oito países cujo risco mais aumentou hoje, segundo o monitor da CMA DataVision que cobre 80 países.

As yields (juros implícitos) das obrigações do Tesouro (OT) a cinco anos fecharam na sexta-feira no mercado secundário em 7,41%, já num patamar próximo do nível dos juros das OT a dez anos (que, por seu lado, fechou em 7,48%), segundo dados da Bloomberg.

O valor atingido nos juros a cinco anos é um novo máximo histórico desde a adesão ao euro. O disparo nestes juros é muito expressivo: de um nível de 5,67% em 31 de dezembro de 2010 para os 7,41% actuais.

O spread (diferença) com os juros dos Bunds (títulos alemães) a cinco anos já ultrapassa o nível crítico dos 4,5 pontos percentuais.

Os juros a cinco anos marcaram dois máximos durante esta semana, a 28 de fevereiro (7,34%) e no final da semana (7,41%). No caso dos juros a dez anos, o máximo atingido a 25 de fevereiro (7,55%) não foi destronado esta semana , tendo-se assistido, neste caso, a uma ligeira baixa de 7,51% para 7,48%.

Desde 23 de fevereiro que os juros das OT portuguesas a cinco e a dez anos ultrapassaram os juros dos titulos da Hungria, país não pertencente à zona euro que está “intervencionado” pelo Fundo Monetário Internacional.

Dois dias consecutivos a subir no risco

Em termos de probabilidade de default (incumprimento da divida soberana) num horizonte de cinco anos, Portugal foi sexta-feira, pelo segundo dia consecutivo, o líder no crescimento deste risco, segundo o monitor da CMA DataVision que abarca mais de 80 países.

O risco aumentou de 32,93% no início da semana (28 de fevereiro) para 33,81% na sexta-feira (4 de março). O país conserva o 6º lugar no TOP 10 mundial do risco de default.

Apesar da reunião em Berlim entre o primeiro-ministro português e a chanceler alemã no dia 2 deste mês, o mercado secundário da dívida soberana não acalmou em relação a Portugal.

Também para a Grécia foi uma semana “negra”: o risco de default subiu de 55,32% para 56,56%. A Grécia continua a liderar o TOP 10 mundial deste risco, onde, também, está presente a Irlanda, na quarta posição, com 38,38% de risco.

A ideia fundamental do organizador do Forum dos Economistas Alemães é que os países da zona euro em apuros devem primeiro declarar default e proceder a uma re-estruturação da sua dívida soberana, em vez de se meterem no mecanismo de resgate proposto por Bruxelas onde o crédito é caro. De seguida não deve haver um bail-out, mas um processo controlado de default em que os detentores de títulos devem partilhar também uma parte – pelo menos “pequena” – das perdas.

Bernd Lucke, professor do Departamento de Economia da Universidade de Hamburgo, é um dos principais signatários do documento contra a orientação em curso na zona euro para a resolução das crises de dívida soberana que foi subscrita por 189 economistas alemães e publicada no jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung em final de fevereiro.

O Forum dos Economistas alemães tem mais de 300 aderentes oriundos do ensino da economia. Discutem e votam sobre temas de interesse nacional e europeu. A questão da crise da dívida foi o primeiro tópico, cujo documento foi votado por mais de 90% dos participantes.

P: O que diria ao primeiro-ministro português que se encontrou em Berlim com a chanceler Merkel?

R: Aconselharia a não se abrigar na facilidade de resgate. O crédito aí é caro. A melhor coisa para acalmar os mercados acerca de Portugal e conseguir fazer baixar os juros é uma vontade credível de cortar nas despesas públicas e fomentar a concorrência e a produtividade.

P: Acha que os resultados das eleições na Irlanda apontando para um governo que pretenderá renegociar o acordo com Bruxelas e o Fundo Monetário Internacional terão um impacto real nas discussões em curso dentro da zona euro?

R: Eu acho que as exigências irlandesas para uma renegociação da taxa de juro aumentarão um pouco o ceticismo público em relação à facilidade europeia de resgate – mas sublinho “um pouco”.

P: A principal ideia do vosso documento é que, primeiro, os países da zona euro em apuros devem entrar em default e re-estruturar a dívida? Só depois deveriam entrar num processo de resgate com apoio dos outros membros da zona euro?

R: Não é bem isso. Está certo que pretendemos que os países insolventes entrem em default e re-estruturem a sua dívida. Mas, depois disso, não deve haver um bail-out. O que recomendamos é que a União Europeia providencie crédito ao país depois de declarar default, pois provavelmente ficará cortado dos mercados de capitais internacionais por algum tempo depois desse evento.

P: Mas se ocorrer uma vaga de contágio a países como a Espanha, Itália e Bélgica, qual deve ser a estratégia da zona euro?

R: Se houver esse contágio, então estaremos num grande sarilho. A questão é, por isso, como prevenir esse contágio. Neste caso, temos basicamente a mesma abordagem que a facilidade de resgate: limitar as perdas dos detentores de títulos. O que sugerimos é um processo de default controlado, em que a União Europeia surge a assumir uma parte significativa das perdas para evitar uma nova crise financeira. Mas, ao contrário da facilidade de resgate, não pretendemos passar todo o risco para o contribuinte. Achamos que os detentores de títulos devem partilhar, pelo menos, uma pequena parte do fardo.

P: O que espera deste vosso primeiro documento público?

R: Dada a cobertura nacional e internacional que teve, esperamos que os políticos tenham ouvido a nossa mensagem.

O indicador da FAO atingiu 236 pontos no final de fevereiro, o mais alto desde o início do índice em 1990. Aumentou 34% desde fevereiro de 2010.

O índice de preços de bens alimentares criado em 1990 pela Organização das nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (acrónimo FAO) atingiu no final de fevereiro o seu máximo histórico em termos nominais e reais. Atingiu os 236 pontos quando há doze meses estava em 176 pontos e quando foi criado, em janeiro de 1990, andava pelos 90 pontos.

O disparo deste índice ocorreu desde outubro do ano passado quando ultrapassou a barreira dos 200 pontos e o anterior pico de junho de 2008. Entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2011 o índice aumentou 34% e desde janeiro 2,2%.

O índice global da FAO mede a variação mensal nos preços internacionais de um cabaz de commodities ligadas ao setor alimentar, abrangendo cinco grupos de índices (cereais, carne, laticínios, óleos e açúcar). Os que mais subiram em fevereiro foram os laticínios e os cereais e o que declinou foi o açúcar.

Em termos de preços nos mercados de commodities agrícolas, os maiores aumentos nos últimos doze meses foram: 109,71% no café; 77,51% no milho; 61,91% no trigo; 47,93% na soja; 24,75% no cacau; 17,55% no açúcar; e 7,59% no arroz.

O cartel dos exportadores de petróleo pode usar a sua capacidade excedentária e a Europa pode recorrer à sua reserva estratégica para amenizar os efeitos de uma interrupção brutal dos fornecimentos de petróleo em virtude da guerra civil na Líbia, dizem os especialistas, na maioria árabes, ouvidos. Mas a folga esgota-se em 2013, diz a Morgan Stanley. O impacto negativo no crescimento da zona euro (onde nos inserimos) se o barril chegar aos 120 dólares de preço médio anual será na ordem de 0,3 pontos percentuais já este ano, segundo a Ernst & Young.

IDEIAS CENTRAIS
. Cada 20 dólares de aumento do preço do barril de crude implica 1 ponto percentual de quebra no PIB, segundo FMI
. Com o barril a 120 dólares, o “corte” no PIB da zona euro será de 0,3 pontos percentuais em 2011 e 0,4 pontos percentuais em 2012, segundo Ernst & Young
. Com o barril a 120 dólares, a inflação em 2011 poderá chegar aos 3% na zona euro
. China decide “arrefecer” o crescimento no quinquénio, diz o seu primeiro-ministro
. OPEP tem capacidade por utilizar por enquanto para enfrentar rutura líbia
. Morgan Stanley diz que essa “folga” se esgota em 2013
. Espera-se que prémio de risco geopolítico continue a influenciar o preço do crude enquanto durar o dominó árabe
. Especulação “deslocou-se” das commodities agrícolas para o petróleo
. Situação será muito grave se o dominó árabe tocar Arábia Saudita e Argélia

Especialistas ouvidos: Toufic El Asmar (FAO); David Kotok (Cumberland Advisors); Hatem Elrefaei (Universidade Ain Shams, do Cairo); Mamdouh Salameh (Banco Mundial e UNIDO); Luís de Sousa (The Oild Drum).

[TEXTO LONGO]
Com os preços dos futuros do barril de Brent a atingir desde 1 de fevereiro valores acima de 100 dólares voltou à ribalta o risco de um choque petrolífero semelhante ao de 2008. Hoje, os futuros para abril desta variedade negociada em Londres – considerada a referência mundial – estão acima de 116 dólares.
Para muitos analistas, esta alta é derivada do pânico motivado pelo dominó recente de levantamentos populares na região do Magrebe e do Médio Oriente.

O que incendeia a especulação neste mercado. “Os especuladores saíram do mercado das commodities agrícolas e viraram-se, agora, para alternativas, como o petróleo”, diz-nos Toufic El Asmar, consultor em segurança alimentar da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e da Organização Meteorológica Mundial e especialista da ASPO, a organização internacional de estudo do pico do petróleo e do gás.

Impacto no crescimento: 1% por cada 20 dólares de aumento

Se os técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) estiverem certos, um aumento de 10 dólares no valor nominal do preço do barril de ouro negro poderá equivaler a uma contração de meio ponto percentual no crescimento económico durante dois anos. Ora desde início de janeiro, o barril de Brent já se valorizou em mais de vinte dólares. O impacto negativo poderá, assim, chegar a 1 ponto percentual nas economias com alta vulnerabilidade a estas importações.

O suficiente para obrigar a um “arrefecimento” menos suave (como pode acontecer na China, o motor atual do crescimento mundial), ou passar de crescimento a estagnação, de crescimento medíocre a recessão ou, no pior dos cenários, a um agravamento da contração da economia.

Nos Estados Unidos já se fala mesmo do regresso da “estagflação” típica dos anos 1970 quando dois choques petrolíferos abalaram o mundo. No caso de Portugal que revela uma vulnerabilidade média ao petróleo em termos de segurança energética, um problema mais grave poderá derivar da sua alta vulnerabilidade em termos de gás natural, segundo um estudo desta semana de técnicos do FMI.

O comissário europeu para os assuntos económicos e monetários, Olli Rehn, já referiu que a estimativa para a inflação na zona euro foi revista em alta para 2,2%, com base em estimativas de um preço médio anual do barril de crude nos 100 dólares. Não foi admitida, ainda, qualquer repercussão na estimativa de crescimento anual da zona euro, que foi inclusive aumentada para 1,6%.

No entanto, a Ernst & Young divulgou, esta semana, o seu Eurozone Economic Forecast onde estima que um preço médio anual de 120 dólares por barril implicará uma quebra no PIB de 0,3 pontos percentuais em 2011 e de 0,4 pontos percentuais em 2012. Segundo o mesmo estudo, a inflação poderá chegar, este ano, a 3% naquela hipótese de preço médio.

Entretanto na China, num chat na Internet, o primeiro-ministro Wen Jiabao admitiu uma redução do crescimento anual da economia para uma média de 7% a 8% para o próximo quinquénio, abaixo das médias recentes.

Cisne negro aparece no Lago Mediterrânico

Entre os analistas não há dúvidas de que o prémio de risco geopolítico está a “dirigir” estas subidas nos mercados do crude (tal como no dos metais preciosos). A surpresa não veio do tradicional conflito entre Israel e os seus vizinhos ou do risco de confronto ocidental com o Irão, mas de um ‘cisne negro’ adormecido – o levantamento popular contra os regimes da região do Magrebe ao Médio Oriente.

A secretária de Estado americana Hillary Clinton avisou que “uma tempestade perfeita” poderia cair sobre a região do Mediterrâneo Sul e do Médio Oriente depois do alastramento da ‘Revolução de Jasmim’ tunisina ao Egito. “Isto é muito grande – e pode tornar-se imenso”, diz-nos David Kotok, presidente da Cumberland Advisors, uma firma de consultoria financeira internacional. A ideia de um “dominó árabe” começou a gerar o pânico entre os investidores e algumas potências.

Os americanos estão preocupados com as suas posições na região – por exemplo, o risco de terem de sair a curto prazo da base naval estratégica de Juffair, no Bahrein, ou de perderem a influência no Egito com implicações sobre o controlo do canal do Suez ou a zona de “amortecimento” do Sinai, como nos refere Hatem Elrefaei, professor na Universidade Ain Shams, do Cairo.

O mundo dependente do petróleo e gás daquela região teme uma interrupção abrupta nos fornecimentos, sobretudo se o coração for atingido pela movida popular – como o gás da Argélia (7,8% da exportação mundial) ou do Qatar (também 7,8% da exportação mundial) ou o petróleo da Arábia Saudita (19,1% da exportação mundial), o líder da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Sobre a Arábia Saudita, a especulação política nunca parou, em virtude do problema da sucessão estar em cima da mesa. Na semana passada, Al-Walled, um sobrinho do rei, publicou no The New York Times um sério aviso: “A não ser que os governos árabes adotem políticas radicalmente diferentes, os seus países sofrerão muito provavelmente mais agitação política e civil”.

A alta finança reza, por seu lado, para que o centro financeiro do Bahrein não vacile – o pequeno arquipélago é o doce lar de muitos milhares de milhões de dólares de fundos.

“Não estou ainda convencido que o dominó em curso possa atingir em cheio os grandes exportadores de petróleo e gás do Médio Oriente e do Magrebe. Mas pode acontecer”, diz-nos Toufic El Asmar.

Os mercados da dívida soberana revelam, no entanto, enorme nervosismo em relação a toda aquela região. O risco de default tem disparado desde o início do ano para mais de uma dezena de países, com particular destaque nestas duas últimas semanas para o Dubai (que está em 8º lugar no TOP 10 mundial desse risco, segundo o monitor da CMA DataVision), Iraque (que está em 9º lugar no mesmo “clube”), Líbano e Egito (que têm andado numa dança de entra-e-sai naquele “clube”) e Bahrein (que tem liderado as subidas de risco em várias sessões). Mas não tem poupado, também, Marrocos, Tunísia e mesmo Israel, Arábia Saudita, Qatar e Abu Dhabi.

Para a Europa, os acontecimentos na Líbia são mais relevantes, sublinha Luís de Sousa, editor do The Oil Drum. “O petróleo líbio tem sido exportado quase exclusivamente para a Europa e a Turquia. A Itália, Espanha e Alemanha são os principais parceiros comerciais por parte da União Europeia. A Itália, em particular, por força do seu estatuto de potência ex-colonizadora, importa quase 40% do seu consumo de petróleo daquele país e dispõe de um gasoduto que vem da Líbia para a Sicília. Também, Espanha, Grécia e Portugal (15% das importações portuguesas) importam da Líbia, que exporta parte desse petróleo já refinado ou pré-refinado”, refere aquele especialista.

Água na fervura
No entanto, os especialistas ouvidos pelo Expresso deitaram alguma água na fervura, mesmo face ao fecho geral de portos na Líbia e à retirada massiva de trabalhadores estrangeiros do país, com destaque para os 36 mil chineses, a maior operação de evacuação feita no estrangeiro jamais realizada pelo governo chinês.

O risco de uma crise no Suez foi muito empolado, aquando do auge da queda de Mubarak. “Foi um fantasma na cabeça dos especuladores”, diz-nos Hatem Elrefaei. A própria ideia de dominó tem de ser moderada: “O processo não é idêntico em toda a região”, acrescenta o especialista egípcio. Admite que a Argélia – cerca de 8% da exportação mundial de gás – possa ser uma das próximas peças, mas não crê que haja condições para um fenómeno similar na Arábia Saudita.

A OPEP poderá neutralizar um cenário de total rutura na Líbia, diz-nos, por seu lado, Mamdouh Salameh, perito do Banco Mundial e da UNIDO. “As exportações líbias podem ser substituídas pela OPEP no curto prazo até que a situação normalize. A organização tem um milhão de barris diários de capacidade por utilizar. Seja qual for o regime, a Líbia regressará à exportação de petróleo”, afirma aquele especialista em petróleos. Luís de Sousa, por seu lado, refere que “a Europa poderá lidar, no imediato com a situação usando a sua reserva estratégica que garante abastecimento por 90 dias”.

Como quadro geral, “mesmo com a mudança de regimes na região, os acordos existentes entre importadores e exportadores não deverão ser modificados ou anulados”, diz Toufic El Asmar. “Mas, talvez, o que poderá mudar são as condições das trocas comerciais e a distribuição dos rendimentos das populações. Mas é cedo para fazer prognósticos”, acrescenta.

Alta veio para ficar

No entanto, a alta do preço do ouro negro veio para ficar. “A OPEP, por um breve período, pode substituir as falhas, mas no longo prazo não pode conter o aumento do preço, pois a sua folga é pequena”, diz Salameh.

El Asmar, por seu lado, refere que há uma mudança estrutural a que muitos governos têm dado pouca atenção: “Alguns fatores não são levados em conta pelos governos como o aumento exponencial da população mundial e o aquecimento global. Estes fatores alteraram a procura e a oferta das principais commodities, sobretudo das alimentares e do petróleo”. E faz uma relação com o atual dominó árabe: “Se reparar todas estas atuais crises no Magrebe e Médio Oriente se iniciaram com um aumento dos preços dos produtos alimentares”.

A Morgan Stanley reforçou esta semana a ideia de que a alta veio para ficar ao publicar uma estimativa da situação até 2013, ano em que a folga atual se evaporará.

O metal precioso amarelo fixou hoje novo máximo ao ultrapassar o anterior recorde de 3 de janeiro. A especulação motivada pelo dominó político árabe e as alterações de estratégia das grandes economias emergentes estão a marcar este mercado.

A onça de ouro fechou hoje no mercado spot em 1433,62 dólares, um novo recorde. O anterior máximo histórico havia ocorrido a 3 de janeiro deste ano quando a onça atingiu os 1422,60 dólares. Nos últimos doze meses valorizou-se 27%, segundo a TradingEconomics.

Também a prata, como temos referido, tem estado em alta. Hoje atingiu os 34,66 dólares por onça. A valorização deste metal precioso foi espetacular na ordem de 104%.

Febre na China

Esta alta do preço dos metais preciosos em tempos de receio de regresso à recessão, de riscos de hiperinflação em várias economias e de instabilidade geopolítica elevada é atribuída a um sinal de “refúgio” por parte dos investidores.

Uma das economias em que se está a assistir a uma verdadeira “corrida” ao ouro é na China. Os riscos de hiperinflação têm levado os chineses a verdadeiras enchentes das joalharias nos centros comerciais de Beijing. O maior espaço comercial de joalharia em Beijing, o Beijing Caibai, revelou que as vendas de ouro e de joalharia cresceram 70% nos últimos doze meses. Filas enormes têm-se formado fora das lojas. A febre do ouro é massiva na maior economia emergente do mundo.

Por outro lado, o dominó político árabe incendeia a especulação nestes mercados.

Ouro abala dólar

Mas esta alta dos metais preciosos é, também, indicação que o domínio do dólar como divisa internacional vai atravessar um período de contestação crescente, como refere ao Expresso Franck Biancheri, diretor do Laboratório de Antecipação Política de Paris.

Com este disparo do ouro e da prata, as grandes potências emergentes poderão alimentar o desejo de diversificação. “Há que observar a China em particular. Tem enormes reservas em dólares e a sua preocupação crescente com a solvabilidade dos Estados Unidos pode provocar um movimento claro de diversificação, e a alternativa lógica são os metais preciosos”, sublinha-nos James Turk, editor do Free Gold Money Report.

O especialista do Centro de Competência em Ciências Sociais do Funchal comenta a carta aberta dos economistas alemães e reafirma a necessidade de uma estratégia de re-estruturação da dívida portuguesa. Sugere que o endividamento externo líquido do país deveria baixar de 85,3% do PIB (no final de 2010, segundo dados do Banco de Portugal) para o patamar dos 25%. Como fazê-lo? Com 3 movimentos: a) “corte de cabelo” (hair cut) do valor facial da dívida; b) redução da taxa de juro de remuneração da dívida; c) reescalonamento da dívida, com extensão da sua maturidade.

Um grupo de 189 economistas alemães publicou a 24 de fevereiro uma carta aberta no jornal “Frankfurter Allgemeine Zeitung” contra a linha de flexibilização do sistema de “resgate” (Facilidade Europeia de Estabilização Financeira, EFSF, no acrónimo em inglês, FEEF, em português) e afirmando que os países com crise da dívida soberana devem avançar, primeiro, para um processo de insolvência e de re-estruturação.

Esta carta aberta – entretanto criticada por diversos economistas internacionais em virtude de algumas imprecisões – levanta questões fundamentais que merecem ser discutidas. Segundo Ricardo Cabral, professor da Universidade da Madeira, doutorado em Economia pela Universidade da Carolina do Sul, “com algumas ressalvas, esta carta aberta é a proposta mais razoável e construtiva das que têm sido discutidas publicamente na Alemanha”. Este economista já se havia pronunciado, em entrevistas anteriores, no sentido de que Portugal está sobre-endividado ao exterior e que a re-estruturação de dívida externa será inevitável. Opiniões similares têm ocorrido sobre os casos grego e irlandês.

Ricardo Cabral chama a atenção para o momento particular que a zona euro atravessa e que se repercutirá nas várias cimeiras que vão ocorrer este mês, a começar pela reunião extraordinária do próximo dia 11. “Esta não é uma negociação normal. É uma negociação entre países credores e países devedores com um valor económico sem precedente na história da Zona Euro e possivelmente na história da União Europeia”, afirmou ao Expresso.

Pontos principais da carta aberta alemã

A carta aberta aponta para 6 pontos principais:

1. Se vier a ser necessário tornar permanente e expandir o financiamento disponível da FEEF de forma a poder ajudar a Irlanda, Portugal e Espanha, então é porque estes estados estão perante não uma crise de liquidez mas de solvência. Deste modo, a alteração da FEEF proposta por vários países e economistas criaria os incentivos errados;
2. Qualquer estratégia de longo prazo para resolver a crise deve incluir uma opção associada à declaração de falência e de re-estruturação de dívida soberana, e deve impor perdas aos credores do sector privado;
3. Deve ser definida a redução de dívida máxima (i.e., o “haircut” máximo) que será imposta na re-estruturação da dívida soberana de forma a evitar o pânico nos mercados e posteriormente deve ser concedido crédito externo ao país, condicionado à implementação de reformas estruturais muito exigentes.
4. Dado que a análise e discussão públicas da opção de declaração de falência não é possível devido ao impacto nos mercados, e sendo de esperar que os líderes políticos dos países sobre-endividados tentariam adiar uma tal decisão, talvez seja preferível que a decisão de declarar falência seja feita por uma instituição independente, como por exemplo o Fundo Monetário Internacional (FMI) .
5. Não se deve adiar ou procurar evitar a declaração de falência de estados soberanos utilizando o Banco Central Europeu (BCE) para comprar dívida soberana destes estados.
6. A declaração de falência é preferível à assunção de dívida pela União Europeia (através das alterações propostas à FEEF), que resultaria em impostos e/ou taxas de inflação mais elevadas. Exige-se ainda que o governo alemão prepare sem demoras um detalhado plano de falência e re-estruturação de dívida para Estados membros da Zona Euro, para poder reagir, como Plano B, se o atual pacote de resgate falhar.

Entrevista com Ricardo Cabral por Jorge Nascimento Rodrigues

«É preferível que o país declare falência e reestruture a dívida cada 120 anos (no nosso caso, a última foi em 1890) do que a cada dez anos.»

Ouvimos Ricardo Cabral sobre os pontos em que manifesta a sua discordância em relação à proposta dos economistas alemães.

P: Acha indispensável uma declaração formal de insolvência por parte de um estado em crise de default, sabendo-se as repercussões que essa situação geraria nos mercados da dívida?

R: Embora concorde com a essência do argumento da carta aberta dos economistas alemães, penso que poderia ser analisada a opção de re-estruturar a dívida sem uma declaração formal de falência, nomeadamente através de alterações da Lei Quadro da Dívida Pública e de negociações com os parceiros europeus e com os credores.

P: E como vê esse processo de re-estruturação da dívida soberana?

R: Deve ser o país em situação difícil, através dos seus representantes legais, a definir o montante total de redução de dívida (o tal haircut, “corte de cabelo” do valor da dívida), naturalmente, após negociação com os parceiros europeus, o FMI e os representantes dos credores. Essa redução de dívida deverá contemplar, a meu ver, a re-estruturação de dívida do setor privado, nomeadamente do setor bancário. A carta aberta alemã é omissa em relação à re-estruturação de dívida do setor privado, que constitui mais de metade do endividamento externo líquido no caso português.

P: Qual é o nível de endividamento externo sustentável que deveria orientar esse processo de re-estruturação?

R: Em primeiro lugar, a re-estruturação da dívida externa privada e pública deveria ser muito significativa para que possa surtir efeito. Uma re-estruturação de dívida externa pequena não resolve nada. A literatura académica sugere que o nível de endividamento externo sustentável é muito inferior ao endividamento externo atual de Portugal e, por isso, a re-estruturação de dívida deveria ser feita de forma a assegurar que o endividamento externo líquido do país – onde incluo o endividamento público e o privado – passasse a ser inferior a 25% do PIB. Com base nos dados disponíveis do Banco de Portugal, esse endividamento era de 85,3% do PIB no final de 2010, segundo dados do Banco de Portugal. Refiro-me a endividamento líquido, não ao endividamento bruto que, de acordo com dados do FMI, era de 233% do PIB no terceiro trimestre de 2010, cerca de €400 mil milhões.

P: Como é que essa redução poderia ser realizada?

R: Através da redução das taxas de juro, do alargamento da maturidade e da redução do valor facial da dívida existente. Também deveriam ser re-estruturadas as mais significativas obrigações financeiras futuras do Estado, nomeadamente, os contratos associados às PPP (parcerias público privadas).

P: Mas uma redução de 60 pontos percentuais não seria muito radical e impraticável?

R: A literatura académica (Reinhart et al. 2003, Manasse and Roubini 2009) sugere que o limite superior sustentável para o endividamento externo bruto andará à volta de 40%-50% do PIB. Dado que o país terá um défice comercial muito elevado nos primeiros anos após a re-estruturação, a dívida externa iria continuar a crescer. É também provável que o PIB caísse substancialmente no primeiro ano a seguir à re-estruturação de dívida (tal como aconteceu na Argentina). Por último, novo financiamento externo seria obtido a taxas de juro muito elevadas no inicio (e.g., acima de 10%). Ou seja, nos primeiros anos a seguir à re-estruturação, o endividamento externo tenderia a crescer. Além disso, na minha opinião divida externa ao nível de 40% do PIB ainda deixa os países demasiado sobre-endividados. Para evitar reincidência e nova reestruturação de dívida após poucos anos, é necessário fazer uma re-estruturação de dívida significativa logo da primeira vez, por isso sugiro um nível de divida externa liquida abaixo dos 25% do PIB. É preferível que o país declare falência e reestruture a dívida cada 120 anos (no nosso caso, a última foi em 1890) do que a cada dez anos.

P: Porque se refere ao endividamento líquido externo e não ao endividamento bruto externo, o indicador que habitualmente se discute?

R:O endividamento líquido é mais relevante porque as economias da zona euro estão muito interligadas. Por isso, os valores da dívida bruta são muito elevados e não refletem adequadamente a capacidade dos residentes em honrar as suas obrigações financeiras face ao exterior.

P: Pode dar um exemplo?

R: Os bancos nacionais recebem juros pelos activos que detém no exterior. Podem, depois, utilizar esse rendimento para pagar juros das suas obrigações financeiras face aos bancos estrangeiros. Podem inclusive vender parte desses activos para amortizar parte da sua dívida no exterior.

P: A primeira palavra para o processo de re-estruturação deve ser dada pelo FMI?

R: Embora concorde com o preâmbulo dos autores da carta aberta, penso que deve ser o país, e não o FMI, a tomar a decisão sobre se se deve re-estruturar a dívida soberana.

P: E qual deve ser o comportamento do BCE?

R: Ao contrário dos autores da carta aberta, penso que o BCE só deveria poder comprar e aceitar como colateral (garantia) dívida pública dos estados membros. Em contraste com o que tem vindo a ocorrer desde a criação do euro, não deveria ser permitido ao BCE a aquisição ou a utilização como colateral de dívida privada, porque essas operações são, na minha opinião, uma das principais causas dos desequilíbrios externos existentes na zona euro e, por conseguinte, uma das principais causas da crise de dívida soberana.

P: Como vê as divergências em curso no seio da zona euro e da União Europeia sobre as soluções para esta crise da dívida?

R: Acho que é natural e salutar que ocorram diferenças de opiniões e divergências sobre o rumo a tomar. Contudo, o impasse atual é agravado pelos enormes conflitos de interesse entre os estados membros. Esta não é uma negociação normal. É uma negociação entre países credores e países devedores com um valor económico sem precedente na história da Zona Euro e possivelmente na história da União Europeia. Portanto, é difícil chegar a um consenso que seja do interesse da Zona Euro e da União Europeia no seu todo, solução que requer a cooperação de todos os estados membros. Ao invés, o que observamos, na minha opinião, são estratégias e posições negociais menos transparentes e pouco colegiais de forma a condicionar e influenciar o resultado do futuro acordo em benefício de alguns estados membros, nomeadamente dos grandes credores.

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