Janeiro 2011
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Sáb 29 Jan 2011
A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) nos seis países da zona euro sob observação dos mercados da dívida – Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica – aumentou ao longo da semana. Nem mesmo os discursos grandiloquentes sobre a defesa da zona euro em Davos no World Economic Forum apagaram esse facto da semana.
No caso de Portugal, o risco subiu de 31,38% para 32,9%, apesar de o país ter descido um degrau no “clube” dos de maior risco à escala mundial, por “mérito” da Argentina, que viu agravado o seu risco. Portugal desceu para 6º lugar e mantém uma distância de quase três pontos percentuais face ao país das Pampas, de acordo com o monitor de risco da CMA DataVision.
O panorama nas yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro no mercado secundário aponta no mesmo sentido – uma tendência de alta em todos os seis países da zona euro referidos.
Portugal fixa novos máximos
Apesar da atenção e das comparações serem, regra geral, centradas nas yields de títulos com maturidades a dez anos, o que está a ocorrer nos títulos a cinco anos é também revelador.
As subidas mais acentuadas nos juros de títulos a cinco e seis anos ocorreram, esta semana, com a Irlanda (neste caso, são títulos a seis anos) e Portugal, segundo dados da Bloomberg.
Mergulhada numa crise política que já levou à marcação de eleições legislativas antecipadas para fevereiro e com o receio cada vez mais explícito por parte dos investidores na dívida irlandesa de que o futuro governo em Dublin poderá rever as condições do acordo com Bruxelas e com o Fundo Monetário Internacional, os juros nas maturidades a cinco anos aproximam-se do patamar dos 9%, nível onde se situam os juros nas maturidades a dez anos.
No caso português, após as eleições presidenciais, os juros das Obrigações do Tesouro (OT) a cinco anos marcaram, sucessivamente, no mercado secundário, novos máximos (desde a adesão ao euro) durante três dias seguidos, alcançando o nível de 6,42% na quinta-feira, tendo arrefecido na sexta-feira, fechando em 6,32%.
Os juros dos títulos a dez anos tiveram uma subida mais significativa na Irlanda, Grécia e Espanha ao longo da semana. No caso da Grécia avoluma-se a ideia de que será o primeiro país da zona euro a iniciar um processo de re-estruturação e re-escalonamento da dívida com “cortes de cabelo” (hair cuts, na designação técnica) que afetarão os detentores de títulos. Por outro lado em Espanha, apesar do acordo laboral, os investidores temem o que possa estar alojado na longa cauda das Cajas, as caixas de poupança, o segmento financeiro tido como mais doente.
No entanto, foi Portugal que, uma vez mais, fixou novos máximos desde a adesão ao euro. A 26 de janeiro, os juros das OT a dez anos atingiram, em valores de fecho, os 7,13%. Ao longo desta semana, o nível de juros destas OT no mercado secundário estabeleceu-se, claramente, no corredor dos 7%, a linha vermelha fixada pelo ministro das Finanças português.
Outro sinal preocupante é o facto dos juros dos títulos alemães (Bunds) a dez anos se manterem desde 12 de janeiro acima de 3%.
Revolução de Jasmim assusta os investidores
Contudo, na quinta e sexta-feira os holofotes viraram-se para os efeitos da ‘Revolução de Jasmim’ com o avolumar da revolta popular no Egito e uma vaga de aumento do risco de default nos países com as mais importantes posições estratégicas na região sul do Mediterrâneo e Península Arábica.
A interrogação que se coloca é saber até que ponto estes acontecimentos levarão, temporariamente, os investidores nos mercados da dívida a aliviarem a pressão sobre os países da zona euro.
O Egito passou em poucos dias do 21º lugar no ranking da probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) para o “clube” dos dez de maior risco, depois do contágio da ‘Revolução de Jasmim’ tunisina chegar a todo o Magrebe e Machreq. Tendo entrado na quinta-feira para o 10º lugar, o país dos Faraós subiu sexta-feira para o 9º lugar, com um risco de incumprimento acima de 26%, segundo o monitor da CMA DataVision. Subiu quase três pontos percentuais e o nível de risco está muito próximo do risco do Dubai (que ocupa o 8º lugar e que é o membro árabe mais antigo do “clube”).
Mas, depois de um primeiro impacto no risco de Marrocos (quinta-feira foi o país com maior variação diária do risco, na ordem de 13%) e Egito, o contágio alastrou para um conjunto de países do Médio Oriente e do Mediterrâneo Oriental.
As maiores subidas no risco ocorreram na Arábia Saudita (um aumento de 46%!, o país-chave do petróleo do Médio Oriente e da OPEP), Israel (mais 17%, um país que poderá sofrer com a queda do regime de Mubarak no Cairo), Egito (mais 14,5%), Qatar (mais 14,8%), Bahrein (mais 11,6%), Abu Dhabi (mais 10,3%) e Turquia (mais 8,5%).
O Egito é, também, o elemento central na ligação do Mar Vermelho ao Mediterrâneo e o Canal do Suez é um dos chokepoints (ou passagens marítimas muito estreitas) fundamentais das rotas do petróleo e de mercadorias. Outro elemento estratégico no Egito é o oleoduto que liga o Suez ao Mediterrâneo. Mais de 35 mil navios transitam pelo Canal do Suez, 10% dos quais petroleiros. Outros exemplos de chokepoints são o estreito de Bab-El-Mandeb (que liga o Mar Vermelho ao Índico e assolado pela pirataria desde 2002), o de Ormuz (sempre em risco quando há conflitos com o Irão), o de Malaca, o canal do Panamá e os estreitos do Bósforo e Dardanelos que ligam o Mar Negro ao Mar Egeu.
O Suez surgiu na ribalta da geopolítica aquando do que ficou conhecido como Crise do Suez em 1956 e 1957. O presidente egípcio Nasser decidiu nacionalizar o Canal em julho de 1956, o que levou israelitas, franceses e ingleses a invadirem território egípcio. Na altura passavam pelo canal um milhão e meio de barris de crude por dia. A Europa dependia em 2/3 desses abastecimentos.
Sáb 29 Jan 2011
O Egito passou em poucos dias do 21º lugar no ranking da probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) para o “clube” dos dez de maior risco, depois do contágio da ‘Revolução de Jasmim’ tunisina chegar a todo o Magrebe. Tendo entrado ontem para o 10º lugar, o país dos Faraós subiu sexta-feira para o 9º lugar, com um risco de incumprimento acima de 26%, segundo o monitor da CMA DataVision. Subiu quase três pontos percentuais e o nível de risco está próximo do do Dubai (que ocupa o 8º lugar).
Mas, depois de um primeiro impacto no risco de Marrocos (quinta-feira foi o país com maior variação diária do risco, na ordem de 13%) e Egito, o contágio alastrou para um conjunto de países do Médio Oriente e do Mediterrâneo Oriental.
As maiores subidas no risco ocorreram na Arábia Saudita (um aumento de 46%!, o país-chave do petróleo do Médio Oriente e da OPEP), Israel (mais 17%, um país que poderá sofrer com a queda do regime de Mubarak no Cairo), Egito (mais 14,5%), Qatar (mais 14,8%), Bahrein (mais 11,6%), Abu Dhabi (mais 10,3%) e Turquia (mais 8,5%).
Qui 27 Jan 2011
O grupo francês de prospetiva estratégica LEAP/E2020 responde sim à pergunta, considerando que se desenha uma convergência de tendências negativas. Pode ocorrer “uma série de choques violentos”. Quatro ‘bolhas’ vão rebentar – saiba quais.
O ano de 2011 pode vir a ser um ano de convergência de várias tendências negativas gerando uma situação “implacável”, diz o grupo francês de prospetiva LEAP/E2020 (Laboratoire Européen d’Anticipation Politique/Europe 2020), no seu primeiro boletim confidencial do ano.
Este ambiente negativo prende-se com o sério risco de, durante o ano, rebentarem quatro “bolhas”: a dos preços das commodities onde já se fala de vários “choques” (alimentar, petrolífero, nos minerais estratégicos); a da especulação em torno das dívidas soberanas e das obrigações do Tesouro; a do imobiliário residencial e comercial em países onde o “dinheiro quente” continua a alimentar a sua expansão; e finalmente a dos balanços dos bancos globais onde se alojam “pelo menos 50% de ativos fantasmas”.
As bolhas nos ativos financeiros e não financeiros continuam a ser alimentadas pelo nível elevado de liquidez global que é gerado pelas políticas monetárias oficiais de “alívio quantitativo” (quantitative easing, dinheiro injetado pelos bancos centrais a juros abaixo da inflação) da Reserva Federal americana, do Banco de Inglaterra e do Banco do Japão, bem como por políticas similares que continuam em vigor na Europa e nas economias emergentes, refere o boletim.
Uma convergência destas, a concretizar-se, tem uma amplitude maior do que a turbulência que ocorreu durante a crise financeira de 2007/2008 e a Grande Recessão que se seguiu em 2009. O grupo francês associa-lhe, agora, uma “guerra de divisas” larvar entre as grandes potências.
Raiva contra o sistema
“O ano de 2011 será marcado por uma série de choques violentos”, diz o grupo francês. Há muitas sociedades que estão à beira de um ataque de nervos – qualquer rastilho pode disparar a “raiva contra o sistema”.
Segundo o LEAP, esta “raiva” é visível nas sociedades que integram o que ainda é considerado Terceiro Mundo e em particular em regimes ditatoriais e autocráticos. A pressão da carestia de vida nas camadas pobres e o desemprego crónico ou impossibilidade de mobilidade social, até em segmentos com qualificações, gera uma situação insustentável. Como se viu, recentemente, na ‘Revolução de Jasmim’ na Tunísia cujo efeito de contágio se começa a observar em todo o Magrebe, com particular destaque esta semana no Egito, com movimentações populares, derrocada da Bolsa no Cairo e disparo do risco de incumprimento da dívida soberana. O LEAP sublinha que, neste caso, há a possibilidade de uma vaga varrer os “satélites do Ocidente” em termos geopolíticos.
Mas não está latente só nesse mundo mais pobre. A mesma situação ocorre nos Estados Unidos com largas camadas da população que oscilam entre a nova pobreza e a raiva política aberta e na Europa em que os cidadãos ficaram ensanduichados entre o desemprego e o desmantelamento progressivo do estado social, diz o boletim.
O mesmo mal social também abrange as economias emergentes que vivem verdadeiros dilemas. O caso que poderá ter o maior impacto na economia mundial é a China que está entalada entre a hiperinflação em produtos sensíveis e a bolha imobiliária de um lado e a necessidade de manter a economia sobreaquecida para garantir emprego e manter a sensação de sucesso, por outro.
Em todos estes países crescem assimetrias gritantes, verdadeiras “bombas relógio” em montagem.
Impotência dos grandes
Um facto político novo junta-se nesta conjuntura, diz o boletim. Depois de mais de três anos sobre o início da crise financeira, ficou patente a “impotência dos principais atores geopolíticos”. Esboroaram-se a esperança e confiança iniciais na superpotência mesmo com uma liderança renovada, na Europa, na China e no G20.
“O mundo de 2008 foi apanhado de surpresa pelo violento impacto da crise, mas, paradoxalmente, o sistema internacional estava mais bem equipado para responder, na medida em que se centrava em torno de um líder indisputável”, refere o estudo. O que contrasta com a situação atual: “Em 2011 já não é esse o caso. Não só não há mais um líder desses, como a situação se agravou pelo facto de muitas sociedades estarem à beira de uma rutura económica e social”.
O estudo refere que a História é como uma mulher sexy de banda desenhada – dá um primeiro aviso (o que aconteceu com a crise financeira de 2008) antes de dar um chuto. “Estimamos que em 2011, ela dará o chuto”, conclui com ironia.
Qui 27 Jan 2011
Portugal voltou a marcar o dia (26 de janeiro) nas yields (juros implícitos) das Obrigações do Tesouro (OT) a cinco e a dez anos no mercado secundário.
Novos máximos desde a adesão ao euro foram quarta-feira (dia 26) alcançados: segundo dados da Bloomberg, os juros das OT com maturidades a cinco anos subiram para 6,34%, acima do fecho na terça-feira (dia 25) quando se alcançara o anterior máximo (6,32%); e os juros das OT a dez anos fixaram-se em 7,13%, destronando o anterior máximo de 7,1% alcançado a 7 de janeiro.
Portugal viu a sua probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos aumentar para 32,5%, acima do fecho de terça-feira, segundo dados do monitor de risco da CMA DataVision.
Para além de Portugal, a Grécia, Irlanda, Espanha e Alemanha viram os seus juros aumentar em relação a terça-feira.
A Grécia assistiu hoje a uma primeira entidade financeira, a seguradora austríaca Vienna Insurance Group, proceder voluntariamente a um “corte de cabelo” (hair cut) no valor dos títulos de dívida grega que possuía em carteira. O seu risco de default aumentou para mais de 52,5%, continuando a liderar o “clube” dos dez países com maior risco.
Na Irlanda, apesar da turbulência política, a Lei do Orçamento passou na Câmara de Representantes (Dáil) e seguiu para o Senado, mas a incerteza sobre o futuro governo e o que fará em relação ao Acordo com Bruxelas e com o Fundo Monetário Internacional continua a marcar a agenda. Em Espanha, o problema da recapitalização das Cajas, as caixas de poupanças, é a preocupação principal de curto prazo que está a criar nervosismo nos investidores na dívida soberana.
A Alemanha foi hoje o país cujo risco de default mais cresceu nos 80 países monitorizados pela CMA DataVision. Por seu lado, os juros dos títulos alemães, os Bunds, a dez anos aumentaram para 3,18%.
Sinal de preocupação o facto destes juros das Bunds se manterem acima dos 3% desde 12 de janeiro.
Bloomberg vaticina defaults e saídas do euro
No início do World Economic Forum, em Davos, a agência financeira Bloomberg divulgou a Bloomberg Global Poll uma sondagem a 1000 investidores, analistas e traders realizada entre 21 e 24 de janeiro.
O “choque” provocado pelos resultados foi imediato tanto mais que em Davos se discute o problema da crise da dívida soberana em países da zona euro: 75% dos respondentes declararam que a Grécia entrará em incumprimento até 2016 e 53% vaticinaram a mesma sorte para a Irlanda no mesmo período. Quanto a Portugal, o terceiro da lista de dores de cabeça, os inquiridos dividiram-se a meio.
Por outro lado, a sondagem revela que 59% prognosticou que um ou mais países da zona euro poderão abandonar a moeda única até 2016 no quadro de um agravamento da crise da sua dívida.
Dom 23 Jan 2011
É mais provável este ano um pânico no mercado da prata do que um novo choque petrolífero. O que poderá repetir cenas já vividas em 1979/1980. Com mudanças radicais impensáveis, diz Luís de Sousa, editor português do The Oil Drum.
Os media internacionais têm-se focalizado nas oscilações das cotações do barril de crude e no disparo dos preços na bomba de gasolina (que já atingiram novos máximos históricos como em Espanha na semana passada), bem como na alta dos preços das matérias-primas agrícolas e do impacto direto que tem tido no cabaz alimentar de largas massas da população, particularmente nos países pobres.
Contudo, para alguns analistas, o que está a ocorrer no mercado da prata deve ser seguido com particular atenção. Mesmo em termos de metais preciosos, as luzes da ribalta vão, em regra, para o ouro e a sua corrida para fixar novos máximos históricos em valor nominal. No entanto, o preço da prata, nos últimos doze meses, disparou 84%, enquanto o do ouro subiu menos de 30%.
A própria relação do preço do grama de ouro com o grama de prata “melhorou” a favor deste último metal precioso. De mais de 80 vezes para menos de 49, nos últimos três anos. A relação mais favorável para a prata, nos últimos trinta anos, ocorreu no começo dos anos 1980 quando o grama de ouro valia apenas 32 vezes o grama de prata, mesmo assim muito acima da “média histórica” de 15 gramas de prata para 1 grama de ouro.
A onça de prata subiu de 18 dólares no início do ano passado para quase 31 no final do ano e, agora, está abaixo de 27,5 dólares, depois de uma correção durante estas semanas de janeiro. Mesmo no final de 2010 estava longe do valor alcançado em janeiro de 1980 quanto atingiu os 48,70 dólares na sequência de um pânico nos mercados.
O cenário de 1979/1980
Para muitos analistas a tendência especulativa não vai abrandar. Para Luís de Sousa, editor português do The Oil Drum, poderá mesmo ocorrer um “pânico” a iniciar no mercado da prata, que conduza a um disparo extraordinário dos preços nos metais preciosos e depois, por arrasto, em todas as commodities. Algo similar ao que ocorreu no mercado da prata e depois do ouro em finais de 1979 e em 1980 e que, por razões geopolíticas da altura (ataque do Iraque ao Irão em setembro de 1980), acabou por convergir com um dos choques petrolíferos.
Segundo este especialista, “um primeiro aviso sério deu-se em abril de 2010, justamente nas semanas que se seguiram ao anúncio da criação da Facilidade Europeia de Estabilização Financeira, quando o bulhão da prata se esgotou no centro da Europa e muitos retalhistas colocaram limites às encomendas, impedindo o acesso à maioria dos investidores”.
Na realidade, sublinha o especialista português, o stock industrial de prata é extremamente baixo, o equivalente a um ano de extração – trata-se de um mercado profundamente distinto do mercado do ouro. Pelo que a oferta não está a responder à procura, e tem dificuldade em fazê-lo. “Ao contrário do que poderá estar a acontecer com outras commodities, o avanço do preço da prata tem sido causado unicamente pelo mercado físico do bulhão a retalho. Isto nota-se na pequena dimensão do mercado de títulos (futuros) quando comparado com outras commodities; o valor dos futuros abertos na prata é menos de um terço daquele no mercado do ouro. Mas tal torna-se sobretudo aparente na enorme diferença entre os valores do retalho e do mercado grossista, um fosso que hoje se situa em torno de 20%. Nos períodos em que o mercado de títulos grossista corrige em baixa, normalmente o preço do retalho mantém-se, alargando assim esta margem, num claro sinal de força da procura”.
Gatilho para mudança radical
Também o analista e investidor americano James Turk, editor do Free Gold Money Report, referiu esta semana o mesmo fenómeno atual de backwardation neste mercado da prata: “Quando isto acontece, o preço no mercado spot [para uma entrega próxima] é mais alto do que o preço no mercado de futuros [para uma entrega em data mais distante]. Isto acontece muito raramente no mercado de metais preciosos. Ora quando isto sucede, o preço tem de subir até ao ponto em que os detentores de metal físico se sentem ‘seduzidos’ para vender o metal e aceitar uma divisa nacional em troca”. Turk refere que o efeito desta situação “anómala” no mercado da prata poderá ser um evento disruptivo eminente – ele fala mesmo que “quando algo similar no passado aconteceu, o preço da prata disparou 40% em poucas semanas”.
No caso de um pânico deste tipo, os bancos centrais terão de intervir radicalmente. Mas os analistas não arriscam que políticas, então, poderão ser tomadas. “O pânico de 1980 foi um evento fraturante que provocou enormes mudanças, tanto económicas como geopolíticas. Os acontecimentos de 1979/1980 foram o gatilho de um processo de transição para um novo sistema económico e monetário”, conclui Luís de Sousa.
Entrevista curta com James Turk
«Daqui a 3 ou 4 anos creio que a relação entre o ouro e a prata estará abaixo dos 20»
P: A comunicação social está muito focalizada nas oscilações de preços no petróleo e no risco de explosões sociais derivadas do disparo dos preços alimentares. O risco no mercado da prata é mais grave?
R: Apesar de eu referir o risco de um evento no mercado da prata, o disparo nos preços alimentares é mais importante.
P: Relativamente ao pânico no mercado da prata, tem-no apontado como algo que pode ocorrer “em algumas semanas”. Tem na ideia o que aconteceu muito rapidamente em 1979 e 1980 e que afetou a economia global?
R: Sim. É exatamente o que eu penso. A inflação surge primeiro nos preços das commodities e depois como que fura para toda a economia. O enorme salto dos preços alimentares significa que há muita inflação a caminho.
P: Que consequências podem derivar desse pânico na prata?
R: Mais gente trocará divisas nacionais por commodities e outros ativos fortes.
P: A relação entre o ouro e a prata poderá regressar aos níveis médios históricos?
R: Daqui a 3 ou 4 anos creio que a relação entre o ouro e a prata estará abaixo dos 20 – ou seja 20 gramas de prata para 1 grama de ouro – e próximo da sua média histórica de 17.
Sáb 22 Jan 2011
Portugal acabou por ser “ultrapassado” pela Argentina no “clube” dos dez de maior risco à escala mundial, depois de uma semana com a probabilidade de incumprimento (default) da dívida soberana a baixar de quase 35% na segunda-feira para menos de 32% ao final de sexta-feira, segundo dados da CMA DataVision. Portugal desceu para 6º lugar, o que já não acontecia desde 20 de dezembro.
No entanto, a descida de lugar por parte de Portugal é, agora, mais difícil - tem mais de três pontos percentuais do que a Ucrânia no nível de risco.
O movimento de baixa do risco de default é comum ao conjunto dos seis países (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica) da zona euro sob observação pelos mercados da dívida durante esta semana. O ganhador da semana foi, uma vez mais, a Espanha, que conseguiu voltar a sair do “clube”.
Observam-se algumas oscilações no caso da Irlanda (que conserva o 4º lugar no referido clube), em virtude do agravamento da situação política, com eleições legislativas antecipadas para 11 de março, e do risco real do novo governo pretender uma revisão do acordo alcançado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e com Bruxelas, o que poderá gerar, então, uma nova crise na zona euro.
As posições no “clube” são as seguintes no final da semana, segundo o monitor da CMA DataVision: Grécia, Venezuela, Paquistão, Irlanda, Argentina, Portugal, Ucrânia, Dubai, Vietname (a surpresa da semana) e estado americano do Illinois.
Com a saída de Espanha do “clube”, os investidores começaram a direcionar a sua atenção para um outro país da União Europeia, não membro da zona euro, mas sob “intervenção” do FMI, a Hungria, que se encontra no sobe e desce de acesso a este ranking dos dez mais do risco, disputando a corrida com o Vietname, o Illinois e o Líbano.
Juros da dívida oscilam mas ficam abaixo dos 7%
Apesar do desanuviamento manifesto do risco de default, os juros implícitos no mercado secundário das Obrigações do Tesouro (OT) portuguesas a cinco e a dez anos têm manifestado sinais contraditórios.
As yields (juros implícitos) das OT a cinco anos, depois de um disparo na terça-feira para um novo máximo, desde a adesão ao euro, de 6,22%, inverteram a tendência altista e fecharam sexta-feira em 6,02%, segundo dados da Bloomberg.
As yields das OT a dez anos, apesar do “teste” na terça feira de níveis acima de 7,1%, mantêm um comportamento oscilante. Depois de terem fechado na quinta-feira em 6,83%, claramente abaixo dos 7,06% alcançados no dia anterior, oscilaram na sexta-feira entre 6,97% e 6,80%, acabando por fechar nos 6,88%.
Para além da situação dos seis países da zona euro sob observação e da Hungria (que apresenta juros acima de 7% no mercado secundário), os investidores têm manifestado a sua inquietação em relação à Alemanha: os juros dos Bunds (títulos alemães) a dez anos continuam acima de 3% e subiram para 3,18%, no fecho da semana.
Sáb 22 Jan 2011
O ano de 2010 elegeu novos campeões do aumento do risco e reviu a lista dos que pagam mais juros pela dívida soberana no planeta. Paquistão, Grécia, Irlanda, Portugal e Bélgica sobressaíram no pódio.
O ano de 2010 ficará marcado por um troféu ganho por Portugal, o de país cuja variação do agravamento da probabilidade de default (risco de incumprimento da dívida soberana) foi a mais alta. Ela disparou quase 443%. De 41º no ranking em finais de 2009 saltou para o “clube” dos dez mais do risco à escala mundial. Acabou 2010 em 4º lugar nesse TOP 10 com mais de 35% de risco., ou seja mais de 5 vezes do que no final do ano anterior.
Marcado logo ao início do ano como um dos dois países em “morte lenta” – nas palavras da agência de notação Moody’s -, Portugal sobreviveu a ser o número dois a bater à porta de Bruxelas e do Fundo Monetário Internacional, mas acabou por ver a escalada do seu risco ultrapassar de longe a Irlanda (292%) e a Grécia (262%).
Irlanda e Grécia foram os dois colegas da zona euro que acabaram “intervencionados” em 2010, um pelo descalabro e vigarice nas contas públicas herdadas do anterior governo da Nova Democracia em Atenas (que seria substituído em eleições antecipadas em outubro de 2009) e o outro pelo reconhecimento público de que o sistema financeiro de Dublin estava em insolvência depois da bolha dos anos 2000 alimentada pelo governo do Fiana Fáil.
Portugal e Bélgica em foco
Logo a seguir a Portugal situou-se a Bélgica com um aumento da probabilidade de default na ordem dos 308%. Relativamente apagado no palco do default no início do ano, o pequeno reino viu a apreciação do risco agravar-se em virtude da crise política interna, sem governo formado depois de eleições legislativas de junho, deixando os investidores na dívida belga perplexos face a um horizonte onde o separatismo dos Flamengos é real e em que a zona francófona da Valónia é cobiçada por Paris.
O TOP 5 em 2010 do aumento do risco tem como membros Portugal (443%), Bélgica (308%), Irlanda (292%), Grécia (262%) e França (cujo risco aumentou 235%), segundo dados da CMA DataVision. Apesar de mais resguardada dos holofotes da imprensa financeira mundial, a França foi uma das estrelas dos disparos de risco. É, por isso, um país a seguir com atenção.
Líderes dos juros no mercado secundário
O campeão em 2010 das subidas das yields (juros implícitos) dos títulos do Tesouro a dez anos foi a Grécia – os juros cresceram 6,7 pontos percentuais, segundo a TradingEconomics.
Seguiram-se no ranking da deterioração de crédito, a Irlanda (mais 4,2 pontos percentuais), Portugal (mais 2,5 pontos percentuais), o Paquistão (mais 1,6 pontos percentuais) e a Espanha (quase mais 1,5 pontos percentuais).
No caso dos membros da zona euro, trocado em euros a desembolsar, estes aumentos significam, por exemplo, para o caso português que por cada 100 milhões de euros de dívida colocada no final do ano, o Tesouro teve de desembolsar mais 2,5 milhões de euros do que no início do ano.
No entanto, no ranking dos países que pagaram em 2010 juros acima de 7% pela colocação de dívida com maturidade a 10 anos, Portugal acabou por evitar ingressar nesse “clube”. A lista era formada no final do ano pelos seguintes membros: Paquistão (14,25%), Grécia (12,47%), Irlanda (9,06%), África do Sul (8,16%), Hungria (7,95%), Índia (7,92%), Colômbia (7,69%) e Indonésia (7,61%), segundo dados da TradingEconomics.
Qui 20 Jan 2011
Depois de ter “testado” ontem pela manhã máximos nas yields (juros implícitos) das Obrigações do Tesouro (OT) portuguesas a cinco e dez anos no mercado secundário, a situação inverteu-se. Hoje, na abertura, o movimento de baixa continua, ainda que com alguma amplitude de variação.
No caso dos juros das OT a cinco anos no mercado secundário, depois do máximo, desde a adesão ao euro, atingido na terça-feira com um nível de 6,22%, o disparo desanuviou: fechou ontem em 6,15% e está em 6,10% esta manhã, segundo dados da Bloomberg.
Inversão similar ocorreu com os juros das OT a dez anos no mercado secundário, que “testaram” novos máximos superiores a 7,1% durante a manhã de ontem, mas depois baixaram para 7,06% no fecho e estão esta manhã nos 6,91%, abaixo da linha vermelha.
Este comportamento de desanuviamento tem sido mais acentuado na avaliação da probabilidade de default (incumprimento de dívida). Para o caso português, baixou claramente de quase 35% no início da semana para 33% agora, segundo dados da CMA DataVision. No entanto, o país conserva a quinta posição no TOP 10 mundial deste risco.
Espanha continua a tirar mais dividendos
O movimento de baixa do risco de default é extensível ao grupo de seis países da zona euro (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica) sob observação pelos investidores da dívida. O movimento mais significativo esta semana foi a saída, de novo, da Espanha desse TOP 10 mundial do risco, saída do “clube” que se efetivou ontem à tarde. A probabilidade de default da dívida de Madrid baixou de 23,4% para menos de 22% agora.
No entanto, em termos de comportamento das yields no mercado secundário, a situação é assimétrica no conjunto dos seis países referidos. Os juros para títulos a dez anos estão em baixa hoje de manhã para os casos da Grécia, Portugal e Espanha, mas estão em alta para a Irlanda (que hoje viu corrigida em baixa a projeção de crescimento para este ano, de 2,3% para 1,5%, e ontem assistiu à saída de quatro ministros do Governo – saúde, justiça, transportes e defesa) e Bélgica (que continua em crise política há sete meses).
O comportamento oscilante (com disparos seguidos de desanuviamentos) dos mercados da dívida soberana da zona euro estará a refletir duas forças de pressão: a tática alemã e as intervenções do Banco Central Europeu (BCE) no mercado secundário.
A “guerra” Merkel/Trichet
A agência Eurointelligence chama hoje a atenção para um dos motores das razões da tática da chanceler alemã – adiar o mais possível novas mudanças na estrutura e montante dos veículos financeiros para os resgates de países em pré-default e não admitir publicamente a necessidade de re-estruturações da dívida em alguns casos, como já se discutiu o caso da Grécia no último Ecofin (reunião dos 27 ministros das Finanças da União Europeia) desta semana.
Merkel estará a condicionar a gestão da crise ao calendário de sete eleições em estados da federação este ano. A primeira eleição decorre a 20 de fevereiro em Hamburgo (onde se rompeu a coligação entre a CDU e os Verdes), depois a 20 de março há eleições na Saxónia-Anhalt, a 27 de março em Baden-Wurttenberg (um estado que a coligação CDU/FDP, a mesma no governo federal, não pode perder) e Reno-Palatinado, a 22 de maio em Bremen, a 18 de setembro em Berlim e no último trimestre.
A contra-pressão a esta tática de adiamento é a atuação do BCE no mercado secundário comprando dívida soberana dos “periféricos” que, em geral, só se conhece a posteriori. A Reuters publicou um gráfico em que se observa um paralelismo entre as intervenções do banco central e o comportamento médio dos spreads das obrigações de cinco países (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália).
Um dos cisnes cinzentos (distinguem-se dos negros que são absolutamente imprevisíveis; estes são eventos inesperados mas previsíveis) que pode lançar ainda mais óleo para esta fogueira são as eleições na Irlanda, segundo Fred Goodwin, da Nomura. A desagregação política da atual coligação em Dublin liderada pelo Fianna Fáil é patente – ontem saíram quatro ministros do executivo. O partido apresenta apenas 14% das intenções de voto em sondagens, o mesmo que o partido mais radical, Sinn Féin.
A data das eleições acabou por ser marcada para 11 de março – um mês de emoções fortes para os mercados. As sondagens indicam que o Fianna Fáil sairá do governo e que provavelmente outro partido de centro-direita, o Fine Gael, assumirá o poder. Ora teme-se que o Fine Gael decida alterar o acordo com Bruxelas e o FMI e que, na sequência, dessa posição acabe por ser imposto um “corte de cabelo” (hair cut, na designação técnica) de 15% nos detentores seniores de obrigações da dívida irlandesa, o que desencadeará uma enxurrada de problemas na banca europeia, e será um rastilho para nova crise – a pagar pelos restantes quatro do grupo da zona euro em observação (Portugal, Espanha, Itália e Bélgica).
Qui 20 Jan 2011
Os assaltos quase diários a joalharias, o roubo de cobre por vezes em condições de risco iminente de vida e mesmo o roubo de vagões de milho, por exemplo, no México, são um sinal do aquecimento dos mercados destas mercadorias transacionadas em bolsas que têm empurrado os preços para uma alta nos últimos doze meses.
São três das commodities que a Morgan Stanley escolheu para o TOP 5 das mercadorias que vão estar em foco nas decisões dos investidores em 2011.
A lista começa pelo crude – considerada a mais “quente” pois há alguns analistas que apostam na repetição do padrão de disparo de preços de 2008, o que poderá não ocorrer -, e segue para o milho, soja (que alimenta a indústria do biodisel e os setores do óleo vegetal e das rações para animais), ouro (o mediático “valor de refúgio”) e o cobre.
Se olharmos à evolução, segundo dados da TradingEconomics, os principais disparos de preços foram em relação aos doze meses anteriores: algodão (91,55%), prata (83,91%, uma ebulição ainda maior do que no ouro, só que valendo por grama 48 vezes menos), café (76,90%), milho (42,71%), soja (37%), cobre (33,64%), trigo (31,72%), ouro (29,67%) e platina (29,04%).
Devido ao excesso global de liquidez, a financeirização destes mercados de commodities, e a especulação que daí advém em mercadorias de “papel”, é uma realidade a par das oscilações no mercado de oferta e procura, condicionado por variações na produção (como o pico de produção já atingido em certos casos), exportação (restrições) e consumo (comportamento sobretudo das economias emergentes), fatores climáticos (como secas e cheias, como observámos na Rússia e no Canadá no ano passado, e estamos a observar na Austrália agora com impacto mineiro), acidentes técnicos e eventos geopolíticos inesperados.
Se a especulação financeira e os ganhos para os países exportadores destas mercadorias são uma das faces da moeda, a outra é o aumento do crime em direcção às mercadorias ou às suas aplicações industriais, o empobrecimento de largas camadas da população (sobretudo pelo efeito do cabaz alimentar), em particular nos países mais pobres, e o encarecimento da fatura de muitos sectores empresariais com o risco de revoltas populares e setoriais e disrupções políticas.
Ter 18 Jan 2011
Os investidores internacionais manifestaram hoje nervosismo em relação aos Estados Unidos. O risco de default (incumprimento da dívida soberana) acabou com uma variação diária de 12,3%, a maior em 80 países monitorizados pela CMA DataVision.
Esta deterioração do crédito destaca-se do número dois nas subidas de hoje que foi a Suécia com uma variação do risco de 2,8%.
O risco de default americano é muito baixo e o rating do seu crédito é triplo A, o máximo. No entanto, tem manifestado um progressivo agravamento ao longo da Grande Recessão: de 2,9% em dezembro de 2009 para 3,6% em dezembro de 2010 e 4,33% hoje. Em termos de custo dos seus credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento) a subida, naquele período, foi de 34 pontos base para 41,5 e 49,85.
O risco americano mesmo comparado com o alemão é inferior. A Alemanha hoje tinha um risco de 5,26% e um custo dos seus cds de 60,59 pontos base.
O que soou hoje como alerta nos mercados da dívida é o facto daquela variação extraordinária no caso dos Estados Unidos.
Estados no corredor vermelho
Apesar do risco muito baixo da Federação americana, há um conjunto de estados que estão em situação de deterioração de crédito, com o Illinois a liderar, o estado que inclusive é membro do “clube” dos 10 de maior risco mundial, monitorizado pela CMA DataVision. Seguem-se, por ordem decrescente de preocupação mas no corredor vermelho, a Califórnia, Nova Iorque, Nova Jersey, Michigão, Nevada, Massachusetts e Ohio.
Outro sinal de alarme está a ser dado pelo comportamento das yields (juros implícitos) no mercado secundário dos títulos do Tesouro americanos que fecharam em 3,36%, acima do nível em que estiveram entre julho e novembro de 2010.
Apesar de, ainda, estarem distantes dos valores de junho e outubro de 2008, quando se situaram acima de 4%, e mesmo dos níveis acima de 3,5% em março, maio e outubro do ano passado, os analistas têm manifestado preocupação. Estas yields estão acima do nível dos Bunds (títulos públicos) alemães com a mesma maturidade que hoje fecharam em 3,11%, um valor também preocupante.
Finalmente, o comportamento das yields relativas às obrigações municipais a 30 anos (que têm também um rating de triplo A) tem estado sob observação. Hoje fecharam em 5,20% – o que compara com 4,38% há seis meses atrás.
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Seg 17 Jan 2011
Apesar dos mecanismos de financiamento montados por Bruxelas desde maio do ano passado e da intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI), os investidores internacionais continuam a considerar que a Grécia e a Irlanda correm o risco de entrar em incumprimento da dívida soberana num horizonte de cinco anos.
“Intervencionada” desde maio com uma almofada de financiamento de mais de 100 mil milhões de euros até 2013, Atenas viu a sua probabilidade de entrar em default (incumprimento) aumentar até ao início de janeiro deste ano. Os próprios juros da dívida no mercado secundário aumentaram de um dígito para dois e continuam acima de 11%.
Um padrão quase idêntico se verificou com Dublin, que apesar de dispor desde final de novembro de um plano de apoio financeiro de dois mecanismos da União Europeia (UE), de empréstimos bilaterais de três países fora da zona euro, e de tranches do FMI, viu o seu risco de incumprimento aumentar, a ponto de ter atingido um máximo na segunda-feira desta semana. Apenas nos juros implícitos da sua dívida, o efeito aparente do acordo com Bruxelas e o FMI se está a sentir. O nível de juros baixou quase um ponto percentual, do patamar dos 9% para os 8%, mesmo assim um nível elevadíssimo.
Os dois países continuam a ser membros do ‘clube’ dos 10 países com maior risco de incumprimento do mundo, com a Grécia inclusive liderando o grupo e a Irlanda considerada pior do que a Argentina e a Ucrânia.
Por isso, a interrogação é legítima: para que serviu, então, a entrada de Bruxelas e do FMI na gestão das contas desses países?
Esqueletos no armário
Ainda que seja cedo para avaliar esses efeitos, pois no caso de Atenas ainda não decorreu um ano de intervenção e quanto a Dublin mal começou, há um aviso que o próprio governador do Banco Central da Irlanda, Patrick Honohan, deixou na semana passada: “Os pacotes de ajuda não reduzem os problemas nem os riscos de cauda. Nem o FMI nem as facilidades da UE oferecem um seguro contra este tipo de riscos – são, apenas, emprestadores”.
O papel fundamental destes acordos, disse o governador, é político: “quebrar hesitações e acelerar a tomada de decisões difíceis”, leia-se programas de austeridade e neutralização da oposição política a esses rumos. Por ‘riscos de cauda’ entende-se o facto de os mercados financeiros temerem que as surpresas ainda não tenham acabado, que há mais “esqueletos no armário”, mesmo que aparentemente invisíveis, que poderão vir à tona nos próximos anos.
A própria baixa de juros no mercado secundário e o sobe-e-desce das probabilidades de incumprimento destes dois países – bem como de outros em risco na zona euro – deriva mais da intervenção do Banco Central Europeu (BCE) do que do resto. “No conjunto, as medidas tomadas não se revelam uma solução efetiva para o problema da insolvência, apenas adiam o dia do juízo final para algum momento no futuro. Este processo tem, ainda, a agravante de concentrar os riscos nas contas do BCE”, diz-nos o professor alemão Ansgar Belke, da Universidade de Duisburg-Essen, que, ainda, recentemente disse isto mesmo num relatório para a Comissão de Assuntos Económicos e Financeiros do Parlamento Europeu.
Cinzia Alcidi, do Center for European Policy Studies, um think tank de Bruxelas, afirma mesmo que o BCE corre o risco de “se tornar, de facto, um bad bank”, um banco do lixo existente na dívida soberana de países da zona euro.
Alcidi e Belke temem que os políticos da UE tardem em ter um plano B e que empurrem Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, para um beco sem saída, que já deve pesar mais de €180 mil milhões (cerca de €76,5 mil milhões através do programa de compra de dívida soberana e o resto em colaterais) de exposição à dívida dos ‘periféricos’.
Ganhar tempo
O essencial das intervenções ocorridas é ganhar tempo para que os governos lidem com os cancros já detetados, diz Cinzia Alcidi. Os pacotes de resgate permitem ao país ficar pelo menos até meados de 2013 numa espécie de ‘cerca’ protegida da necessidade de recorrer aos mercados financeiros sobretudo para emissões de dívida de médio e longo prazo.
No caso irlandês lida-se com a insolvência de um sistema financeiro em que pululam bancos-zombie, aludiu o próprio governador do banco central. A Irlanda foi uma espécie de Islândia em ponto grande. Mais de 40% do resgate financeiro destinam-se a sanear o sector financeiro irlandês. Esta chuva de euros vai a par com um programa de austeridade que se sentirá particularmente este ano, com um corte orçamental de €6 mil milhões. Muitos analistas duvidam que a economia irlandesa nos próximos três anos acompanhe os desejos oficiais (de um crescimento acima de 2%).
Kevin O’Rourke, professor no Trinity College, de Dublin, aponta um erro capital: “O problema irlandês é de solvência e está a ser tratado como sendo de liquidez”. A própria ‘limpeza’ do sector bancário, diz O’Rourke, “não está na direção certa”, e acrescenta secamente: “O primeiro ponto de uma tal agenda deveria ser impor cortes de cabelo (hair cuts) aos detentores de títulos desses bancos”.
Os analistas interrogam-se, ainda, como vai decorrer o programa de austeridade em 2012 e 2013 se o governo mudar, como tudo indica, nas próximas eleições legislativas antecipadas neste primeiro trimestre.
A Grécia, entretanto, já recebeu três tranches de financiamento (mais de €31 mil milhões), mas o panorama de recessão não larga o país. As previsões apontam para a continuação da quebra do produto nos próximos dois anos, o que atrapalha o ajustamento. No entanto, “o Governo anunciou que conseguiu já em 2010 contrair em 36,5% o seu orçamento central, o que ficou acima do objetivo acordado com a UE/FMI”, sublinha-nos Jens Bastian, investigador do think tank Eliamep de Atenas. Mas as receitas líquidas ficaram abaixo do acordado. “Os resultados são, por isso, mistos”, ri-se. E não deixa de sublinhar que o leilão de dívida de curto prazo ocorrido esta semana “correu bem”, com os estrangeiros a comprarem 37%.
O maior risco apontado para a Grécia é social – o de irrupções na sociedade grega, incluindo a guerrilha urbana, o que assusta os investidores internacionais, que, além de mais, ainda não se esqueceram da imagem de vigarice deixada pelo anterior governo de direita. Mas Jens Bastian tem esperança: “Uma nova camada de políticos está a emergir nas Finanças e nas câmaras das grandes cidades como Atenas e Salónica, que apostam em mais transparência, credibilidade e cuja afiliação às dinastias políticas tradicionais é limitada ou nula”.
Resultados após a intervenção
GRÉCIA
- Criação em 2 de maio da Facilidade Especial ‘mista’ UE/FMI até 2013 no valor de €110 mil milhões (€30 mil milhões do FMI)
- Três tranches de empréstimos já desbloqueadas em 2010 (€20 mil milhões em maio, 9 mil milhões em julho e 2,5 mil milhões em dezembro) a uma taxa média superior a 5%
- Défice orçamental em % do PIB em 2010 (previsão): -9,6%
- Dívida Pública Bruta em % do PIB em 2010 (previsão): 141%
- Previsão de recessões em 2010, 2011 e 2012; retoma ligeira só a partir de 2013
- Probabilidade de default disparou de 45% em 3 de maio para 53,85% em 14 de janeiro
-Continua a liderar o ‘clube’ dos 10 de maior risco de incumprimento à escala mundial
- Juros implícitos da dívida pública a 10 anos no mercado secundário dispararam de 8,5% em 3 de maio para 11,11% em 14 de janeiro
- Problemas principais: dificuldade em re-estabelecer credibilidade política em virtude de comportamento do governo anterior da Nova Democracia substituído em finais de 2009 e riscos elevados de conflitos sociais internos com irrupções de guerrilha urbana
- Defaults desde a independência (1829): 1843, 1860, 1893, 1932
IRLANDA
- Aprovação a 28 de novembro de 2010 do Plano de apoio da UE/FMI e de 3 países fora da zona euro até 2013 no valor de €67,5 mil milhões (a que acrescem as contribuições “internas” irlandesas de €10 mil milhões por parte do Fundo Nacional de Reserva de Pensões e €7,5 mil milhões de reservas de caixa da Agência de Gestão do Tesouro). Apoio da UE é retirado da Facilidade Europeia de Estabilização Financeira (veículo intergovernamental) e do Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (supranacional, que advém do orçamento da Comissão Europeia). A parte do FMI serão €22,5 mil milhões.
- 1ª tranche de empréstimo do FMI no valor de 5,8 mil milhões em dezembro de 2010 e 2ª tranche por parte das facilidades europeias no valor de €5 mil milhões em janeiro de 2011
- Défice orçamental em % do PIB em 2010 (previsão): 32,3% (incluindo a intervenção nos bancos)
- Dívida Pública em % do PIB em 2010 (previsão): 94%
- Recessão ligeira em 2010 (estimativa de -0,2%) e retoma económica a partir de 2011 a taxas de crescimento superiores a 2%
- Probabilidade de default subiu de 40,81% em 29 de novembro de 2010 para 42% a 14 de janeiro de 2011
- Irlanda desceu do 3º para o 4º lugar no “clube” dos 10 de maior risco de default à escala mundial
- Juros implícitos da dívida pública a 10 anos no mercado secundário desceram de 9,2% em 29 de novembro de 2010 para 8,33% em 14 de janeiro
- Principais problemas: insolvência do setor financeiro em virtude da bolha imobiliária dos anos 2000, risco das previsões de crescimento serem excessivamente otimistas e probabilidade de mudança de governo nas eleições legislativas antecipadas a realizar no primeiro trimestre de 2011
- Nunca teve defaults desde a independência (1916)
Seg 17 Jan 2011
[Texto Longo]
O Global Economic Prospects 2011 alerta para os malefícios do “dinheiro quente” e projeta uma desaceleração no crescimento da economia mundial. Teme os efeitos da alta de matérias primas alimentares e uma resolução “desordenada” da crise da dívida na zona euro.
[Pode comparar os riscos apontados pelo Banco Mundial com os Cisnes Negros de 2011)
Uma recaída na recessão – double-dip, na famosa expressão do economês em inglês – à escala global este ano é considerada improvável pelo relatório Global Economic Prospects (GEP) do Banco Mundial, publicado esta semana.
Mas a projeção daquela entidade internacional aponta para uma desaceleração do crescimento em 2011 à escala global, um dado fundamental para o painel de bordo dos exportadores e investidores.
De uma taxa real de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,9% em 2010, aponta-se para uma taxa mais reduzida, de 3,3%. Só em 2012, a desaceleração se inverte ainda que a taxa de crescimento prevista, de 3,6%, seja inferior à de 2010.
No comércio mundial, a desaceleração é quase para metade entre 2010 e 2011: de um crescimento de 15,7% (uma recuperação notável face à quebra brutal de 11% em 2009) para uma projeção mais moderada de 8,3%.
Onde vai arrefecer o crescimento
Esta realidade de desaceleração encobre, no entanto, uma assimetria de movimentos. Há um conjunto de países emergentes e desenvolvidos que vão desacelerar muito mais do que os restantes. À cabeça a Tailândia, seguindo-se o Brasil, Argentina e depois os países de alto rendimento per capita não pertencentes à OCDE. O “modelo exportador” destes países vai ressentir-se bem como a dinâmica dos seus mercados internos.
Os dois motores do crescimento entre as grandes potências mundiais, a China e a Índia, vão também arrefecer o crescimento – ainda que ficando acima do número mágico dos 8%. A China baixa de 10% em 2010 para 8,7% em 2011 e a Índia de 9,5% para 8,4%. São reduções da dinâmica de crescimento na ordem dos 12-13% inferiores ao arrefecimento entre 35% a 60% no grupo de países referido acima.
No conjunto dos países de altos rendimentos per capita (os ricos), a taxa de crescimento vai abrandar, também, de um nível estimado de 2,8% em 2010 para uma projeção de 2,4% este ano. A zona do mundo desenvolvido com crescimento mais sofrível é a zona euro, que descerá de um crescimento de 1,7% para 1,4%. No entanto, a maior quebra de dinâmica será no Japão que poderá descer abruptamente de 4,7% em 2010 para 1,4% este ano. O crescimento da economia americana deverá manter-se nos 2,8%.
Continua claro que o “motor” do crescimento mundial se situa nos países em desenvolvimento e emergentes.
O relatório faz uma simulação no caso de novas medidas de austeridade serem introduzidas no segundo trimestre de 2011, por força das circunstâncias. No caso de uma consolidação orçamental adicional de 1 ponto percentual do PIB e de uma redução de 2,5% no investimento, o impacto negativo no crescimento mundial será de 0,6 pontos percentuais no PIB em 2011 e de 0,9 pontos percentuais em 2012. Nos países de alto rendimento per capita (os ricos), o impacto será superior a essa “média”.
As bolhas que o “dinheiro quente” insufla
A outra grande preocupação do relatório é o “dinheiro quente” (hot money, na gíria financeira) que gera arriscados movimentos especulativos de curto prazo induzindo alta volatilidade, uma situação que provoca enormes estragos nas economias afetadas.
As bolhas nos ativos desenvolveram-se nos mercados emergentes quer nos títulos (mais 30%) como nas participações (42%) no ano passado. Segundo a Investment Management Association, do Reino Unido, os mercados emergentes foram os “mais populares para o dinheiro dos investidores dos fundos privados”. O fluxo de capitais privados para os países em desenvolvimento expandiu-se 44%, mas mesmo assim muito abaixo do pico em 2007.
No conjunto dos BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China -, a oferta de moeda cresceu 27% ao ano em 2010, e destacou-se no caso russo com um crescimento de 38%. Os preços do imobiliário em oito países da Ásia Oriental aumentaram 17% ao ano desde 2007.
Vários países em desenvolvimento dispõem, agora, de reservas superiores a 40% do seu PIB, com destaque para a Argélia e Líbano acima de 80% e Tailândia e China acima de 50%. Na Europa, a Roménia tem mais de 40%. “O custo de manter reservas tão elevadas pode ser alto – particularmente tendo em conta o risco das taxas de câmbio, sobretudo quando estão concentradas numa dada divisa” (como o dólar).
O Banco Mundial aponta o dedo “à política monetária nos países de alto rendimento per capita”, em virtude de taxas de juro muito baixas (em alguns casos, negativas, em termos reais) mantidas pelos bancos centrais destinadas a prevenir a deflação e a alegadamente favorecer a economia real desses países e a retoma económica. Este dinheiro barato tem gerado, no entanto, o que tecnicamente se designa por “carry-trade”: “os investidores pedem emprestado nos países com taxas de juro baixas e investem em países em desenvolvimento com taxas mais elevadas”, sublinha o relatório.
Alta nas commodities
O terceiro ponto de preocupação que o relatório do Banco Mundial aponta diz respeito à volatilidade nos mercados de commodities, com destaque para os metais industriais, os metais preciosos (sobretudo a prata) e para as matérias-primas alimentares.
O impacto desta alta – particularmente das alimentares – é já sensível nos preços ao consumo em muitos países em desenvolvimento e emergentes, com disparos hiperinflacionários, como tem sido noticiado na China.
O Banco Mundial alerta que, se esta alta prosseguir, “a pobreza pode intensificar-se” e os riscos de explosões sociais e políticas também.
Preocupação com o risco de default
A vaga de pré-defaults (incumprimentos da dívida soberana) em vários países da Europa que brotou em força em 2010 – quando se julgava ser um fenómeno “isolado” à pequena Islândia e depois à Grécia, fruto de vigarices de um governo que foi deposto em eleições – continua a preocupar o Banco Mundial. É mesmo o risco mais importante no curto prazo, sublinha o relatório, que teme “uma resolução desordenada” do problema.
Segundo as simulações do Banco Mundial, “um grande defaultC pode ter um impacto cumulativo que pode ir até -4,1% do PIB mundial, no caso de uma perda de confiança muito séria”.
O que ocorrer na Península Ibérica – Portugal e particularmente Espanha – terá particular impacto, diz o relatório, na América Latina, no Magrebe, no Médio Oriente e em África. “Aproximadamente, 11% dos depósitos na América Latina e Caraíbas estão em bancos espanhóis, enquanto os empréstimos por parte de bancos espanhóis representam 9% de todos os ativos bancários da região. Os bancos portugueses, por seu lado, desempenham um papel importante no Brasil e contam com 30% ou mais dos ativos em países africanos como Angola e Moçambique”, diz o relatório.
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