Dezembro 2010


Os juros da dívida portuguesa a 10 anos estabilizaram, nesta última semana de 2010, nos 6,6% e a probabilidade de incumprimento estacionou perto dos 36%. Num ano, os juros portugueses subiram 62% e o risco projetou Portugal do 41º lugar para o 4º nesse ranking.

As yields (juros implícitos) das obrigações do Tesouro (OT) portuguesas a 10 anos no mercado secundário estacionaram nos 6,6% no fecho de 2010, segundo dados da Bloomberg. Mantiveram-se, com oscilações, nesse nível desde o início da semana. É o valor que servirá de ponto de partida para a apreciação da evolução no primeiro semestre de 2011 quando vai ter de ser refinanciada 2/3 da dívida soberana, com dois meses críticos, em abril e junho.

A probabilidade de default (incumprimento) da dívida soberana num horizonte de cinco anos desceu ligeiramente ao longo da semana, tendo fechado nos 35,83%, conservando o país o 4º lugar no “clube” dos de maior risco à escala mundial, logo a seguir à Irlanda, segundo o monitor da CMA DataVision que abrange mais de 80 países e estados.

A degradação das condições de crédito ao país ao longo do ano de 2010 foi impressionante – os juros implícitos no mercado secundário nas OT a 10 anos subiram 62%, com base nos dados da Bloomberg. Degradações de crédito mais graves ocorreram com a Grécia, onde os juros dispararam 116%, e com a Irlanda, onde os juros cresceram 87,5% durante este ano. Nestes últimos dois casos, os patamares dos juros elevaram-se a quase 13% e 9% respetivamente. Os dois países encontram-se “intervencionados” por Bruxelas e pelo Fundo Monetário Internacional.

De 41º para 4º

Na ótica da probabilidade de incumprimento, Portugal “saltou” do 41º lugar no final de 2009, com apenas 6,2% de risco, para o 4º lugar do “clube” dos 10 de maior risco mundial. Foi o segundo maior aumento, depois do grego (que passou de 10º para 1º). O nosso país entrou nesse “clube” restrito a 21 de abril. Saiu cinco vezes, depois, mas desde 24 de agosto que nunca mais abandonou o “clube”.

No final de 2009, o “clube” dos 10 mais do risco era formado pela Venezuela, Ucrânia, Argentina, Letónia, Islândia, Dubai, Lituânia, Roménia, Líbano e Grécia (que entrara no último trimestre do ano).

O panorama em final de 2010 é substancialmente distinto: a zona euro ocupa quatro lugares pela primeira vez na história daquele TOP 10 mundial e o estado americano do Illinois, o de risco mais elevado nos Estados Unidos, situa-se em 8ºlugar, sinalizando que a superpotência tem um conjunto de estados em muito má situação (além do Illinois, Califórnia, Michigão e New Jersey), para além do míni-crash que ocorreu no mercado dos títulos municipais (“Muni”) em novembro.

A lista de membros do “clube” é hoje constituída por Grécia, Venezuela, Irlanda, Portugal, Argentina, Paquistão, Ucrânia, estado do Illinois, Espanha e Dubai.

No corredor de acesso a este “clube” estavam, segundo o relatório da CMA DataVision para o 4º trimestre de 2010, os seguintes países: Hungria, Iraque, Vietname, Itália, Islândia, Líbano, Roménia, Bélgica, Letónia e Croácia.

As 5 piores performances em termos de agravamento do custo dos credit default swaps ocorreram com: Portugal (442,6%), Bélgica (308%), Irlanda (292%), Grécia (262%) e França (235%).

O impacto da Cimeira dos 27 em Bruxelas foi nulo. Risco de default e juros no mercado secundário continuam a subir nos países em apuros da zona euro. Várias commodities estão com disparos de preços. Café, esta semana, atingiu um valor que não se verificava há 13 anos.

A prenda natalícia da cimeira dos 27 em Bruxelas colocando no sapatinho um “mecanismo permanente de estabilidade” para funcionar a partir de fevereiro de 2013 não convenceu os mercados financeiros da dívida soberana.

No mercado secundário, as yields relativas aos títulos de dívida pública a 10 anos continuaram a subir ao longo da semana para o grupo de seis países da zona euro – Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica – sob observação dos investidores.

O maior aumento ocorreu na Irlanda exacerbado pela decisão na sexta-feira da agência de notação Moody’s de baixar brutalmente, de uma assentada, cinco níveis no rating da dívida do ex-Tigre Celta, descendo-a para o escalão dos “B” (desceu de Aa2 para Baa1, na nomenclatura daquela agência americana). Apesar da aprovação pela Dáil (Câmara Baixa do Parlamento de Dublin) do Memorando de Entendimento com Bruxelas e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e da economia ter voltado ao crescimento no terceiro trimestre do ano (ainda que modesto, na ordem dos 0,5%), a opinião dos investidores sobre o ex-Tigre Celta piorou.

As yields – ou juros implícitos no mercado secundário – ficaram, no fecho de sexta-feira, em 11,9% para os títulos gregos, 8,43% para os irlandeses, 6,46% para as obrigações do Tesouro portuguesas, 5,52% para as Obligaciones del Estado espanholas. 4,64% para as italianas e 3,99% para as belgas, segundo dados da Bloomberg.

Estas yields comparam com as dos Bunds alemães que se situam ligeiramente acima de 3%. A situação belga não é, ainda, de alarme vermelho, mas o país continua sem governo há seis meses, depois das eleições legislativas, e líderes separatistas afirmam que o “país é um estado falhado”.

Ora, apesar da declarada intervenção do Banco Central Europeu (BCE) adquirindo dívida irlandesa e portuguesa na sexta-feira, segundo foi noticiado pela Bloomberg, as yields não baixaram.

Granadas na Europa e nos Estados Unidos

No campo da dívida soberana, as atenções dos investidores começaram a dirigir-se para a evolução das yields dos Bunds, os títulos alemães, e dos títulos do Tesouro americanos. Olhando aos relativos a maturidades a dez anos, as yields subiram 26% desde julho no caso dos Bunds e 58,5% desde agosto no caso dos Estados Unidos.

Os juros implícitos relativos aos Bunds a dez anos fecharam em 3,03% esta semana e no caso americano em 3,33%. No caso americano, desde o anúncio pela Reserva Federal do segundo programa de “alívio quantitativo” (quantitative easing, QE) em principio de novembro, as yields subiram mais de 1/3 nas maturidades a dez anos e mais de 90% nas maturidades a 2 e 5 anos.

Muitos analistas falam já de duas “granadas” em campo aberto, a do QE2 americano e a da transformação do BCE em quase bad bank da dívida soberana dos países da zona euro em situação de pré-default. A atuação de bombeiro do BCE deriva do facto do eixo franco-alemão (que voltará a reunir nas primeiras semanas de janeiro) não permitir soluções de intervenção financeira mais sólida junto dos países em apuros, o que empurra o Banco Central e o seu presidente, o francês Jean-Claude Trichet, para uma situação de progressivo envolvimento nas dívidas soberanas que já soma cerca de €200 mil milhões. O que levou o BCE a aumentar esta semana o seu capital para quase o dobro, tentando atenuar o nível elevadíssimo de alavancagem. O próprio diretor do FMI (uma das partes envolvidas nos planos de intervenção da Grécia e Irlanda), o também francês Dominique Strauss-Khan (tido como candidato às eleições presidenciais francesas de 2012), criticou a lentidão dos 27.

Risco de default continua a aumentar

À exceção de Espanha, cuja probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos desceu ligeiramente, assistimos a um aumento significativo no risco grego – com guerrilha urbana a subir de tom em Atenas – e irlandês – marcado pela decisão da Moody’s acima referida e pela revelação, por um deputado, de que €15 mil milhões estarão por resolver no plano de re-estruturação da banca irlandesa aprovado esta semana no Dáil.

Fruto do agravamento da situação irlandesa, o país subiu para 3º lugar no TOP 10 mundial do risco monitorizado pela CMA DataVision. O risco português aumentou ligeiramente. Grécia (1º lugar), Irlanda (3º lugar), Portugal (6º lugar) e Espanha (9º lugar) mantêm-se nesse “clube” de maior risco.

Terceira prenda no sapatinho: preços das commodities a disparar

E como não há duas más noticias sem três, o comportamento dos preços da maioria das commodities continua a assustar os analistas destes mercados, ainda que a bolha financista que está a ocorrer nesse terreno esteja a ser altamente lucrativa para quem nela esteja a apostar.

Esta semana, o café atingiu um valor que já não se observava há 13 anos. Na sexta-feira subiu 4% no mercado de Nova Iorque. Também a cotação do açúcar subiu 4% nesse dia.

Segundo a Trading Economics, os maiores aumentos anuais de preço verificam-se pela seguinte ordem decrescente nas commodities agro-industriais: 57,25% para o algodão; 46,04% para o café; 26,57% para o açúcar; 18,84% para o milho; e 17,93% para a soja.

Nos metais, o rei do aumento é a prata com 42,64%, seguida da platina com 29,04% e do cobre com 18,84%. O ouro atingiu um pico histórico de 1413 dólares por onça a 3 de dezembro, mas aumentou menos em termos anuais: 14,94%.

Na energia, o barril do Brent (variedade de referência na Europa para o petróleo) subiu apenas 0,93% em termos anuais. O preço médio mensal do barril de Brent em novembro foi de 85,96 dólares, pouco acima dos 83,37 dólares verificados em janeiro. A cotação do barril de Brent na sexta-feira era de 91,40 dólares.

A decisão de criação de um “mecanismo europeu de estabilidade” a partir de fevereiro de 2013 não provocou desanuviamento na alta do risco de default e nos juros da dívida soberana dos seis países da zona euro em foco.

A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos no entender dos investidores nos mercados financeiros da dívida continua a aumentar hoje de manhã para os seis países em foco na zona euro: Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica. Os quatro primeiros são membros do “clube” dos 10 de maior risco mundial e dois deles – Grécia e Irlanda – estão já “intervencionados” pela Fundo Monetário Internacional (FMI) e por Bruxelas.

O risco grego aproxima-se hoje dos 55%, o irlandês subiu para mais de 39,7%, o português está nos 32,7%, o espanhol em mais de 24,5%, o italiano nos 16% e o belga aproxima-se do patamar do risco italiano, segundo o monitor da CMA DataVision hoje na abertura deste mercado.
Este sinal negativo já tinha sido dado ontem, previamente à cimeira.

Moody’s faz corte brutal no rating da Irlanda

Fruto da decisão da agência de notação Moody’s de realizar um corte de cinco níveis na notação da dívida irlandesa, baixando o rating de Aa2 para Baa1 e com perspectiva negativa, o Tigre Celta subiu hoje para o 3º lugar do TOP 10 mundial do risco. Um revés, apesar da aprovação por maioria pela Dáil (Câmara Baixa do Parlamento em Dublin) do Memorando de Entendimento com Bruxelas e o FMI e do Plano de re-estruturação do setor financeiro irlandês. Nem mesmo o facto da economia irlandesa no terceiro trimestre ter regressado a terreno positivo (o PIB cresceu 0,5%) convenceu a Moody’s a não dar este corte brutal. As yields (juros implícitos no mercado secundário) dos títulos irlandeses a 10 anos subiram logo pela manhã, segundo dados da Bloomberg.

Também os juros implícitos dos títulos gregos, espanhóis e belgas estão a subir em relação ao fecho de ontem, com os portugueses, gregos e italianos estacionários.

Soluções “minimalistas” não tranquilizam

A decisão de criação de um “mecanismo europeu de estabilidade” para vigorar a partir de fevereiro de 2013 tomada, ontem à noite, pela cimeira do Conselho Europeu de 27 membros da União Europeia não surtiu, ainda, efeito positivo nos mercados financeiros ligados à dívida soberana. O referido “mecanismo” substituirá a Facilidade Europeia de Estabilização Financeira, um veículo financeiro que expirará em Março de 2013 e a que recorreu, agora, a Irlanda. Uma alteração ligeira será feita no Tratado de Lisboa, referindo que ajuda será prestada a qualquer membro “se se verificar indispensável para assegurar a estabilidade da zona euro no seu conjunto”.

Também não entusiasmou a decisão tomada ontem pelo Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) de aumentar o seu capital subscrito pelos membros de 5,76 mil milhões para 10,76 mil milhões, quase para o dobro, através de transferências de capital dos bancos centrais membros (16 membros da zona euro e 11 não aderentes à zona euro) em três tranches, com a primeira a efetivar-se até 29 de dezembro (as outras duas serão concretizadas nos finais de 2011 e 2012). O capital subscrito pelo Banco de Portugal passará de €100,8 milhões para cerca de €188,4 milhões com uma primeira tranche de reforço na ordem dos €30 milhões.

Vários analistas tinham sublinhado que, face ao volume de aplicações realizadas pelo BCE que soma cerca de €200 mil milhões de títulos de dívida soberana de diversos países europeus, incluindo €72 mil milhões até à data só este ano, o Banco Central teria de proceder a um aumento do seu capital para “emagrecer” o rácio de alavancagem que, mesmo com o aumento agora decidido, se mantém próximo de 20. Alguns consideram mesmo que o BCE se está a transformar num bad bank da dívida soberana europeia, como acusou o líder da oposição alemã no Bundestag (Parlamento alemão) no debate realizado esta quarta-feira.

As dúvidas sobre a zona euro têm alimentado o aumento das yields relativas aos Bunds, os títulos alemães de referência na zona euro, que se têm mantido acima de 3%, um patamar típico da crise de maio, ainda que estejam longe dos picos em julho de 2007 e julho de 2008 quando atingiram 4,7%.

Granada do Quantitative Easing

Um outro aspeto preocupante no panorama da dívida soberana mundial é a recente evolução das yields relativas aos títulos do Tesouro americanos em várias maturidades, com destaque para os a 2 e 5 anos que subiram desde 3 de novembro mais de 90% e dos a 10 anos que subiram de 1/3 desde aquela data em que foi anunciada uma segunda vaga de “alivio quantitativo” (quantitative easing – QE, na designação americana) pela Reserva Federal americana (FED).

Os juros implícitos dos títulos do Tesouro americano abriram hoje nos 0,63% para maturidades a dois anos, em 2,01% nos para maturidades a cinco anos e em 3,41% para os com maturidade a 10 anos (um valor mais elevado do que no caso dos Bunds).

Este anúncio da FED de ir injetando 600 mil milhões de dólares está a provocar um receio generalizado de uma vaga de hot money nas bolhas dos países emergentes e na financeirização dos mercados de commodities.

Ora, como refere hoje o relatório do Banco de Inglaterra, este sobreaquecimento expõe os envolvidos a um risco sistémico em caso de “reviravolta” nas bolhas.

A Irlanda não consegue sair do 4º lugar no TOP 10 mundial do risco de default, apesar de aprovado o Orçamento de austeridade de 2011. Os investidores internacionais mantêm as dúvidas sobre a resolução do cancro bancário.

O “sim” ao essencial do Orçamento para 2011 pela Câmara Baixa (Dáil) do Parlamento irlandês não acalmou os mercados da dívida soberana. O Tigre Celta não consegue descer do 4º lugar no TOP 10 mundial do risco de default (incumprimento) e os juros implícitos da dívida soberana estão, de novo, acima de 8%. A probabilidade de incumprimento num horizonte de cinco anos, segundo os investidores neste mercado, fechou na sexta-feira acima da abertura no início da semana.

Na própria quinta-feira, quando o pacote de cortes sociais era aprovado por 80 contra 76 votos no Dáil, a agência de notação Fitch resolveu baixar a notação do Tigre Celta de A- para BBB+. O que este triplo B significa é que a notação baixou do nível A, onde ainda goza de alguma reputação, e apenas ficou a três níveis do estatuto de puro e simples “lixo”. O que separa, agora, a apreciação da dívida irlandesa da grega são apenas dois níveis – o que para a antiga economia de sucesso é uma afronta intolerável.

Encostados à parede

Um dos pontos mais sensíveis é o Memorando de Entendimento (MoU, no acrónimo em inglês) com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE). O governo de Dublin resolveu colocá-lo à discussão no Dáil na próxima quarta-feira, dia 15. Em virtude disso, o FMI adiou a sua decisão de aprovar o acordo com a Irlanda.

O MoU arrasta consigo um Plano até 2014 em que se inclui o esforço de corte orçamental de €6 mil milhões em 2011 – o âmago do orçamento agora aprovado no essencial – e um juro composto de 5,8% pelo acesso aos financiamentos de Bruxelas e do FMI. “Fomos excluídos dos mercados de capitais, não tínhamos outra saída. Fomos encostados à parede”, diz-nos Kevin O’Rourke, do Trinity College de Dublin e um dos economistas mais influentes. Mas, logo, faz eco dos protestos do Nobel Paul Krugman e do professor de Berkeley Barry Eichengreen que consideraram a imposição de tal nível de juros como um verdadeiro “Tratado de Versalhes” contra a ilha por parte de Bruxelas. “É uma exorbitância!”, indigna-se O’Rourke.

Entretanto, as dúvidas instalaram-se entre os investidores internacionais – e são várias, e de peso. A primeira diz respeito a saber se a execução do orçamento para 2011 está garantida, se novo governo, com nova coligação como as sondagens indicam, se instalar em Dublin, depois das eleições legislativas antecipadas previstas para o primeiro trimestre do próximo ano. “Os partidos de oposição já garantiram que não mexerão no orçamento de 2011, mas é claro que têm liberdade de desenhar o de 2012, em consultas, naturalmente, com o FMI e a UE”, garante John Fitz Gerald, presidente da Associação de Economistas Irlandeses e um dos especialistas do ESRI, The Economic and Social Research Institute, uma entidade independente criada em 1960.

A segunda dúvida é de médio prazo: poderá ser cumprido o Plano até 2014 em que assenta o MoU com Bruxelas e Washington, mesmo que passe no Parlamento na próxima quarta-feira. Um plano que exige uma redução brutal do défice público de Dublin dos atuais 32% para um limiar próximo dos 3% do PIB (um limiar que mereceu uma tolerância até 2015, no caso da Irlanda).

Mas há outra suspeita que é mais premente para os bolsos destes investidores: será que o próximo governo garantirá a proteção dos investidores seniores na dívida irlandesa. Uma conferência telefónica organizada, esta semana, pelo Deutsche Bank com membros da equipa da União Europeia que discutiu o MoU em Dublin dava conta de que essa proteção não poderia ser mexida, mesmo que o propósito do Partido Trabalhista de avançar com um novo regime sobre a falência dos bancos se venha a colocar em 2011. Mas os investidores não ficaram convencidos, tanto mais que um dos intervenientes desabafou que a capacidade de previsão sobre o que se vai passar “é limitada”

Gestão inteligente da dívida

Finalmente há a questão dos juros que serão impostos – um alerta para os países que, porventura, venham a bater à porta da EU/FMI a seguir.

Enquanto alguns se revoltam abertamente contra os 5,8%, John Fitz Gerald, no entanto, vê o acordo como uma oportunidade para uma “gestão inteligente da dívida”, e explica: “A disponibilidade de uso da Facilidade Europeia de Estabilização Financeira pode ser encarada como uma facilidade a descoberto, que não tem de ser necessariamente usada”.

Ou seja, no entendimento do especialista do ESRI, o acordo funciona como uma proteção que pode permitir ao governo regressar ao mercado de curto-prazo para se financiar a juros muito mais baixos, dando a garantia aos credores de que, em caso de necessidade, se poderá recorrer à facilidade europeia. “Por outro lado, os €20 mil milhões que o governo tem em cash poderão ser libertados e evitar que o governo tenha mesmo de pedir emprestado para se financiar em 2011, poupando 0,5% do PIB em pagamento de juros”, conclui.

O pecado irlandês

Hoje já começa a ser reconhecido que o governo irlandês cometeu um erro em relação à crise bancária, erro que, espera-se, outros não cumpram.

“Querer re-embolsar todos os credores dos bancos foi um erro enorme, que tornou o estado irlandês insolvente aos olhos dos mercados”, sublinha O’Rourke. No que é seguido por John Fitz Gerald: “Tinha de se fazer alguma coisa, como o ESRI sugeriu então, mas o que decidiram em termos de garantir tudo foi excessivo”. Em declarações ao Expresso, o Ministro da Economia da Islândia, o primeiro país a entrar em default logo em 2008, não se coíbe mesmo de dizer que a “solução islandesa” face aos credores estrangeiros dos bancos falidos foi a mais acertada, sobretudo no que toca à dívida subordinada que envolvia “lixo tóxico”. “Hoje muito mais gente concorda com o que fizemos na altura – os detentores de títulos devem sentir a dor do risco que assumiram”, afirmou-nos o ministro (num artigo a publicar sobre a Islândia).

A gravidade do problema financeiro irlandês pode ser medida pela situação antes da crise: os ativos dos bancos representavam 900% do PIB da ilha (um nível similar ao que ocorreu na Islândia) e a dívida externa dos bancos era superior a 600% do PIB (muito mais do que na Islândia). O que implicou um enorme subsídio de injeção de liquidez por parte do Banco Central Europeu e do Banco Central da Irlanda que já atingiu os 100% do PIB (mais de €160 mil milhões), segundo dados do Financial Times. “Apesar de isso não ser dito, a Irlanda está numa situação substancialmente pior do que a Grécia”, diz-nos Ricardo Cabral, professor da Universidade da Madeira, um especialista que tem acompanhado o evoluir da crise da dívida soberana na zona euro.

Mais grave ainda se tomarmos em conta que o “PIB fantasma” do Tigre Celta ronda os 20%, devido ao peso do International Financial Services Center que atrai “empresas fantasmas” interessadas em faturar com um nível baixo de imposto (12,5%), mais baixo inclusive que o de Singapura (17,5%), mas que não desenvolvem qualquer atividade de economia real.

A capital chinesa é uma cidade surpreendente. Os centros comerciais a cheirar a novo nas ruas nobres, como em Wangfujing, estão quase às moscas, mesmo as lojas mais visitadas têm mais empregados do que clientes.

O povo simples e a tal classe média, de telemóvel e que já passeia cães na rua, apinham-se nos mercados tradicionais, onde os preços já não são uma pechincha. Mesmo um estrangeiro que entre numa frutaria de bairro encontra um cacho de uvas ou de bananas a preços de Lisboa. A uma generalizada hiperinflação dos preços dos produtos básicos e das mezinhas medicinais tradicionais apenas escapam as padarias.

As grandes atrações para a classe média letrada não são a Praça Tianmen ou a Cidade Proibida – mas dois incríveis museus privados, o dos brinquedos de lata dos anos 60 ‘made in China’ do casal Zhang Yang e Zhang Zhan, num pequeno apartamento em Xitao Hutong, na cidade velha perto da Cidade Proibida, e o Museu Guanfu de antiguidades do mobiliário e artesanato chineses que a Revolução Cultural quase destruiu ou obrigou a enterrar e esconder no campo, mas que Ma Weidu colecionou desde os anos 80 e tem em exposição num amplo espaço em Jinzhan, num subúrbio.

Ao fim de semana, no átrio da sobrevivente velha igreja de S. José levantada em 1654 e reconstruída em 1904 pelos franceses – a que, também, chamam de catedral de Dongtang (catedral oriental) – na avenida comercial de Wangfujing não se podem perder dois espetáculos. Grupos de ex-guardas vermelhos, hoje nos seus 60 e 70, tocam e cantam canções dos tempos da Grande Revolução Cultural Proletária, com muitos espontâneos a saltar da assistência para agarrarem o microfone e exercitarem a voz adormecida há mais de quarenta anos. Ao lado, como se a música de fundo revolucionária não lhes aquecesse um milímetro da alma, jovens fanáticos do skate usam a parte direita do átrio para malabarismos com igual assistência entusiasmada ao longo de todo o dia. A cultura do skateboarding está em boom entre a juventude. Os principais fabricantes chineses para marcas estrangeiras encorajam-na com vista a criar um mercado doméstico de milhões.

E, ao final da tarde, não se pode perder a livraria-sensação, The Bookworm, onde se pode comer (último pedido às 11 da noite), assistir a um festival literário, ou a diversos happenings, por onde passam muitos livros da vanguarda literária chinesa. A 8 de dezembro decorria uma noite de tributo a John Lennon.

Para terminar com um sabor português, o chef em destaque é Ricardo Bizarro, um conimbricense, que está à frente do Vasco’s, um restaurante no Hotel Hilton, na zona de Wangfujing. Pratos típicos portugueses e macaenses são o seu ponto forte. O que é que distingue a sua cozinha? A arte de usar as especiarias, respondeu ele à revista Bejing This Month.

Cadernos de Viagem anteriores
(Coisas Vulgares para Passageiro Frequente)
Caderno de Viagem 3
Caderno de Viagem 2
Caderno de Viagem 1
Fora do caderno: Colaterais da Grande Recessão no Silicon Valley (Quatro postalitos da Bay Area de São Francisco – um estado falido, os desempregados e sem abrigo de bicicleta, os centros fantasma de pequenas cidades e o indicador dos parques de estacionamento.)

Vladimir Putin, o primeiro-ministro russo, numa deslocação recente à Alemanha para conversações com a chanceler Angela Merkel, propôs uma “zona de comércio livre” de Lisboa a Vladivostok. Puro cinismo de «diplomatease» ou uma opção estratégica com pernas para andar da ex-superpotência?

Uma nova zona de comércio livre euro-asiática de Lisboa a Vladivostok foi a “surpresa” com que o primeiro-ministro russo Vladimir Putin brindou os leitores do diário alemão Suddeutsche Zeitungdip, num editorial como convidado. “O resultado seria um mercado continental unificado valendo biliões de euros”, acenou o verdadeiro homem forte da Rússia, antes da sua visita de dois dias à Alemanha, no final de novembro, para conversações com a chanceler Angela Merkel e para ser a “estrela” de uma conferência organizada por aquele jornal.

Putin acenou com “alianças estratégicas” em setores vitais como a construção naval, aeronáutica e espacial, setor automóvel, energia nuclear, farmacêutica e tecnologias para a medicina. Chegou mesmo a falar de “uma política industrial comum” para “uma nova onda de industrialização do continente europeu”.

Esta “visão” futurista de Putin surge na sequência do acordo com a NATO obtido em Lisboa pelo presidente Dmitry Medvedev e depois da Rússia e a União Europeia (UE) terem chegado a acordo na eliminação de tarifas em relação a matérias-primas. Era um pré-requisito para que a EU abandone a sua oposição à entrada do gigante das Estepes na Organização Mundial do Comércio (OMC), eventualmente já em 2011, depois de 17 anos de espera. A 7 de dezembro o presidente russo assinou em Bruxelas o protocolo em que a União Europeia dá a sua “luz verde” à entrada da Rússia na OMC, depois dos Estados Unidos já o terem feito em setembro. Medvedev, na ocasião, falou de cultivar “o espírito novo entre a Rússia e a Europa”.

O que complica, no imediato, a “grande visão” de Putin? Nomeadamente o terceiro pacote europeu de energia que visa liberalizar este mercado e que exige maior transparência na distribuição e fornecimento de energia, o que é visto, pelos russos, como tendo como alvo a Gazprom, o gigante estatal russo do gás. Permanece como o escolho o facto de não estar, ainda, liberalizado o investimento direto estrangeiro na Rússia.
Na conferência, em resposta a perguntas da assistência, Putin chegou a responder que seria “muito possível” que “um dia” a Rússia participasse em uma nova solução entre o rublo e o euro, no âmbito de “uma zona monetária comum”. O objetivo político: “Temos de sair do monopólio excessivo do dólar como única divisa de reserva global”.

O risco de um Kuwait gigante

Os analistas interrogaram-se, logo, sobre o que estava por detrás desta súbita visão do Kremlin – mera música celestial de “diplomatease” para alemão e europeu ouvirem, ou uma necessidade real da Rússia de sair do dilema estratégico em que está colocada.

Esse dilema tem sido formulado de um modo simples: expandir o investimento internacional dos seus conglomerados (entrando em força na União Europeia) e modernizar-se através das tais alianças com as indústrias europeias, ou ficar dependente do preço das commodities da energia e da aliança com a China através da Organização de Cooperação de Xangai?

Os comentadores alemães acusaram, logo, Putin de ser um perito em “camaleonismo” político. Mas Matthias Luecke, do Kiel Institute for the World Economy, aponta para uma “leitura”, sem necessidade de recorrer a uma decifração kremlinologista de algo por de baixo da mesa: “Os russos devem ter concluído que o país necessita de parceiros fortes para além das ex-Repúblicas soviéticas se quer tornar-se uma potência moderna, em vez de um gigante Kuwait”.

No mesmo sentido vai Walter Laqueur, do Wiener Library Institute of Contemporary History, em Londres, que, em recente artigo na revista americana Foreign Affairs (edição de Novembro/Dezembro de 2010), se refere “Ao dilema da modernização de Moscovo” e se interroga se o Kremlin não estará preparando “uma nova política diplomática” consciente de que a “Eurásia é uma fantasia”.

A própria ideia de uma zona de comércio livre já foi estudada pela própria UE desde o final dos anos 1990. Luecke sublinha-nos que é “realista logo que a Rússia integre a OMC”. Ora esta integração não está garantida para breve, pois o Kremlin fez depender a sua adesão da entrada, também, da Bielorrússia e do Cazaquistão, países que poderão não estar preparados para tal.

Luecke recorda que, historicamente, a Rússia é um país “europeu”. A própria expansão asiática foi feita em termos de estratégia de uma potência imperial europeia dos séculos XVII a XIX, como bem o documenta o livro de John Darwin, ‘Depois de Tamerlão’ (Bloomsbury Press, 2009). O que a Rússia conseguiu, refere Darwin, foi “afastar” as outras grandes potências europeias “de todo o espaço euro-asiático a norte do Mar Negro desde 1710”.

Contudo, será certo que o Kremlin sempre jogará em vários tabuleiros. “Tecnicamente, a Rússia pode ter zonas de comércio livre também com os grandes países da Ásia, como a China ou a Índia. Politicamente, faz todo o sentido falar com todos”, conclui o especialista do Instituto de Kiel.

A proposta do próprio presidente do Eurogrupo, o primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Junker, e do ministro da Economia e das Finanças italiano, Giulio Tremonti, está a provocar aceso debate. A ideia de criação de um mercado de obrigações europeias foi lançada hoje de manhã no Financial Times.

Para os dois proponentes é urgente substituir o mecanismo em torno da Facilidade Europeia de Estabilização Financeira por uma Agência Europeia de gestão da Dívida (European Debt Agency) que emitisse obrigações europeias (e-bonds) até um montante global de 40% do produto interno bruto da União Europeia (PIB estimado para 2010 na ordem dos €16 biliões, superior ao dos EUA), ou seja até mais de €6 biliões (€6000 mil milhões), e de cada país em particular (no caso português seria até menos de €70 mil milhões).

Esta emissão permitiria aos estados membros trocar parte dos seus títulos nacionais (por exemplo, as Obrigações do Tesouro portuguesas, que, até final de Outubro, totalizavam mais de 100 mil milhões) pelas obrigações europeias.

Numa primeira etapa, os estados membros em situação de pré-default def poderiam financiar-se, pelo menos, até 50% da dívida e, em alguns casos, até 100%.

A proposta tem, naturalmente, num primeiro momento, a oposição alemã e de outros membros da zona euro que têm níveis de risco muito baixos (Finlândia, Áustria, Holanda).

Será o menor dos males para os alemães?

(Curta entrevista a Rolf Langhammer do Kiel Institute)

Como explica Rolf J.Langhammer , vice-presidente do Kiel Institute for the World Economy, a ideia teria duas repercussões negativas para os alemães.

Primeira: “O financiamento do próprio orçamento alemão ficaria mais caro, pois os juros dessas obrigações europeias seriam mais altos dos que os juros de remuneração dos ‘Bunds’ (títulos alemães). Isto tornaria o objetivo constitucional para 2016 [de um défice federal de 0,35% do PIB], adoptado em junho de 2009, mais difícil de atingir e quase de certeza que provocaria um caso em tribunal”.

Segunda: “As obrigações europeias aliviariam a pressão sobre os países prevaricadores, e bem poderia acontecer que os políticos desses países, para sobreviverem, caíssem, novamente, na tentação de adiar os ajustamentos – sem dúvida dolorosos – que são precisos”.

No entanto, Junker e Tremonti podem estar a jogar num facto – que é o menor dos males. Diz-nos Langhammer: “A proposta tem um ponto que não é mencionado explicitamente. A Alemanha vai ter de pagar a fatura de um modo ou de outro, pois teme o pior, sofrer mais ainda vendo a zona euro ir pelo cano abaixo. Aceitar a proposta das obrigações europeias poderá ser melhor do que o colapso. Mas, então, seria mais leal dizê-lo abertamente”.

Segundo cálculos do economista Ricardo Cabral, da Universidade da Madeira, o valor atual das Obrigações do Tesouro em curso já levou um “corte de cabelo”. Ricardo Cabral explica, também, a estratégia que seguiria, em entrevista (no final).

Na realidade, a re-estruturação da dívida soberana portuguesa já está em curso, silenciosamente, no mercado financeiro, sem qualquer default (incumprimento) formal assumido. O valor atual de mercado de todas as Obrigações do Tesouro (OT) com maturidades entre 2011 e 2037 já diminuiu mais de €10 mil milhões.

Estes mercados assumiram já um desconto – ou “corte de cabelo”, hair cut, na terminologia anglo-saxónica – de quase 10% em relação ao valor facial da dívida, concluiu Ricardo Cabral, professor na Universidade da Madeira, num estudo que realizou aos €103,5 mil milhões de OT existentes em stock até 31 de outubro. Em um dos casos, sublinha o especialista, essa desvalorização já ronda inclusive os 30%.

Na primeira metade de 2011 vence e tem de ser refinanciada dívida pública equivalente a 11,2% do PIB, mais de 19 mil milhões de euros, e, segundo Ricardo Cabral, é provável que “o défice do Estado obrigue a contrair dívida adicional no valor de 4% do PIB”.

Em vez de nos colocarmos nas mãos de Bruxelas e do FMI seria preferível “recomprar dívida ao longo dos próximos meses” e prosseguir com esse “corte de cabelo” silencioso, com essa re-estruturação da dívida, conclui o professor de economia.

Entrevista a Ricardo Cabral

«O Poder do BCE é hoje quase absoluto em relação aos países periféricos»

Ideia-chave para Portugal: «Precisamos de uma janela de 1 ano para implementar medidas (reduzir o défice comercial, implementar legislação, preparar o sistema bancário para o choque). E penso que a proposta que faço permitiria surpreender os mercados e ganhar alguma margem de manobra».

P: Como avalia as decisões tomadas esta semana pelo Banco Central Europeu (BCE) e anunciadas pelo seu presidente Jean-Claude Trichet, aplaudido, por muitos, como o ‘salvador’ da zona euro?

R: Julgo que a decisão mais importante foi a de prorrogar, até final de março de 2011, as operações de liquidez ilimitada a prazo de 3 meses para os bancos da zona euro. De resto, manteve as taxas de juro de referência, como se esperava. Foi, também, sem dúvida importante, a mensagem de Trichet, na Conferência de Imprensa, que, segundo o Financial Times, deu a entender que o BCE continuaria a intervir no mercado secundário de dívida pública. O mesmo jornal referia que o próprio dia da conferência em Frankfurt teria sido marcado por compras significativas de dívida pública portuguesa – no mercado secundário – e, em menor grau, de dívida irlandesa, por parte do BCE. O que resultou na substancial queda das yields a 10 anos da dívida nacional.

P: Mas é sustentável esse intervencionismo?

R: O posicionamento do BCE é enquadrável no que ele designa por “ambiguidade construtiva”. O princípio subjacente é que, ao deixar passar alguma incerteza sobre as suas ações futuras, reduz o risco moral (o que os anglo-saxónicos designam por moral hazard), ou seja desencorajaria os bancos e os governos a especular no sentido de que seriam salvos, em última análise, pelo BCE.

P: Essa incerteza é positiva?

R: O sistema bancário, sobretudo nos países com crise de dívida soberana, não pode planear as suas atividades se estiver sujeito a alterações de curto prazo sobre o volume de liquidez que pode pedir emprestado ao BCE. O sistema bancário português, por exemplo, tem de renovar liquidez equivalente a cerca de 30% do PIB nacional junto do BCE em intervalos muito curtos – a 7 dias (em operações de mercado aberto normais), a 1 mês e a 3 meses. Ora, nenhum banco gosta desta incerteza.

P: E o que resulta dessa “ambiguidade” do BCE gerando “incerteza” sistémica?

R: A reação normal dos bancos é procurar reduzir o crédito concedido, com as consequências para a economia real que são facilmente previsíveis. Além disso, essa incerteza está, aos poucos, a minar a confiança no sistema bancário por parte de empresas e de particulares, alguns dos quais estão a levantar ou a mover depósitos.

P: Ou seja, a condução pelo BCE, tão aplaudida pelos aflitos, é perniciosa?

R: De facto, não é a forma adequada de conduzir a segunda maior economia do mundo. O Conselho do BCE, que é independente, mas que não é democraticamente eleito, é, neste momento, a instituição mais poderosa da zona euro – muito mais poderosa inclusive do que o Conselho Europeu – composto pelos chefes de Estado ou de governo dos estados membros, bem como pelo seu presidente e pelo presidente da Comissão Europeia -, ou mesmo do que a chanceler alemã Angela Merkel. Por outro lado, a estratégia do BCE tem sido procurar compartimentar a crise país a país. O Banco central tem vindo a substituir-se aos credores privados (bancos internacionais), concedendo crédito aos bancos dos países “periféricos”, que ficam, deste modo, totalmente dependentes dele. O poder do BCE é quase absoluto em relação a estes países frágeis.

P: O que sugere, então, no caso português? Bater à porta de Bruxelas e do Fundo Monetário Internacional?

R: Eu acho que seria um erro grave recorrer à ajuda do FMI e da Facilidade Europeia (EFSF). Se o governo o vir a desejar fazer seria preferível re-estruturar a dívida primeiro e só depois pedir ajuda. Na primeira metade de 2011 vence dívida pública equivalente a 11,2% do PIB (cerca de €19.200 milhões). Além disso, é provável que, na mesma primeira metade, o défice orçamental obrigue a contrair, talvez, mais dívida no equivalente a 4% do PIB. Ou seja, entre rollover e nova dívida a contrair, estamos a falar de cerca de 15% do PIB só em financiamento e refinanciamento nos primeiros seis meses do próximo ano. O que eu sugiro, precisamente, é que, numa primeira fase, se concretize um processo de recompra de dívida, desde que a taxa de juro efetiva – isto é, a despesa com juros – seja menor do que a dívida substituída, de forma a conseguir uma poupança no montante da dívida e uma poupança nos juros despendidos. O reverso da medalha desta proposta é uma diminuição da maturidade da dívida.

P: Pode dar um exemplo?

R: A taxa de juros efetivamente paga pelo Estado nas obrigações do Tesouro que vencem em 2037 é de 6%, ou seja é inferior à yield (taxa de remuneração que funciona como juro implícito no mercado secundário). Se for possível ao Estado financiar-se a 5,3% no curto prazo, então é possível poupar 0,7% de juros sobre o novo empréstimo. Além disso, reduz-se a dívida existente num montante equivalente ao atual hair cut (“corte de cabelo”) nessas OT com maturidade em 2037, que é da ordem dos 31,4%.

P: Aliás, demonstrou, recentemente, que o mercado financeiro já procedeu a um desconto de quase 10% – a um “corte de cabelo” na nossa dívida em obrigações de Tesouro com maturidades entre 2011 e 2037. Como chegou a esse número?

R: Exatamente, o hair cut global nessas OT, até 19 de novembro, foi aproximadamente de 10% do seu valor facial, o que é equivalente a 6% do PIB.

P. Em suma, porque avança, agora, com essa sua proposta?

R: Porque estamos em uma situação em que precisamos de uma janela de 1 ano para implementar medidas (reduzir o défice comercial, implementar legislação, preparar o sistema bancário para o choque). E penso que a proposta que faço permitiria surpreender os mercados e ganhar alguma margem de manobra.

P: O “pacote” negociado para a Irlanda é um bom ou mau sinal para Portugal e outros que se possam seguir?

R: Uma ajuda a Portugal nas condições que foram impostas à Irlanda condenaria o nosso país a décadas de estagnação, empobrecimento e emigração massiva – uma evolução que não é sequer do interesse da zona euro. Vários economistas reputados, como Barry Eichengreen e Paul Krugman, já criticaram o pacote de ajuda à Irlanda que terá um juro composto de 5,8%, uma taxa que é claramente insustentável para aquela economia.

Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Eurppeu (BCE), atuou como uma espécie de Pai Natal para os governantes e bancos ibéricos. Resta saber se os mercados financeiros entram no espírito festivo até à quadra natalícia. As reações ao longo do dia de sexta-feira não são claras sobre a tendência futura.

A Península Ibérica foi derrotada em Zurique na candidatura ao Campeonato Mundial de 2018, mas Sócrates e Zapatero e os bancos dos dois países ganharam um balão de oxigénio em Frankfurt no mesmo dia.

Ao chegarem, na quinta-feira, à cidade argentina de Mar del Plata para a XX Cimeira Ibero-Americana, os dois governantes ibéricos suspiraram de alívio com esta prenda antecipada no sapatinho por parte do Pai Natal Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE.

Enquanto em Dublin os irlandeses digerem um acordo que lhes impôs um juro de 5,8% – já considerado pelo economista Barry Eichengreen como um violento “Tratado de Versalhes” para os contribuintes da Irlanda -, Lisboa e Madrid escaparam, por mais uma semana, à pressão de terem de ir bater à porta de Bruxelas e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os gabinetes dos dois ministros das Finanças, Teixeira dos Santos e Elena Salgado, têm mais algum tempo para entender como funciona o mecanismo de pedir apoio a Bruxelas e com que linhas se está a coser Dublin.
As linhas em Dublin, no entanto, não são as melhores. A oposição aos termos do acordo com Bruxelas está a gerar grande descontentamento. Não é sequer líquido que o orçamento para 2011 que vai a discussão no Parlamento no próximo dia 7, terça-feira, seja aprovado. E, mesmo que aprovado, e ainda que o acordo com Bruxelas e o FMI prossiga, não está adquirido que o novo governo que saia das eleições em fevereiro do próximo ano continue com a mesma política.

A discrição do BCE

Os mercados financeiros reagiram positivamente ao anúncio na quinta-feira de que o BCE continuará a emprestar dinheiro aos bancos em apuros a uma taxa de juro que poderá ficar abaixo do máximo previsto para a inflação em 2011 e que prosseguirá o programa, discreto, de compra no mercado secundário de dívida soberana dos países da zona euro sob ataque especulativo.

À mesma hora que Trichet falava para os jornalistas, volumosas ordens de aquisição no mercado secundário de dívida irlandesa e portuguesa estariam em curso, segundo a agência Eurointelligence. Não são conhecidos, ainda, oficialmente, os valores de todas as transações ocorridas entre 1 e 3 de dezembro. O valor total de transações ao abrigo do Securities Market Programme do BCE, decidido em maio, foi de €69 mil milhões, até 1 de dezembro.

A folga dada pelos investidores internacionais permitiu aos juros implícitos (yields) da dívida portuguesa a 10 anos caírem de 7,03% – acima do tal limiar vermelho referido pelo ministro Teixeira dos Santos – para 5,93% no fecho da semana, segundo dados da agência financeira Bloomberg. A probabilidade de incumprimento da dívida soberana portuguesa – uma forma de avaliar o sentimento dos investidores sobre a solvência do país num horizonte de cinco anos – baixou significativamente de mais de 37%, no começo da semana, para 30,8%, e o país desceu do 5º para o 7º lugar no “clube” dos dez com maior risco mundial, de acordo com o monitor da CMA DataVision.

Já a meio da semana não havia surtido efeito o aviso da agência de notação Standard & Poor’s de que tinha Portugal sob observação negativa – estimando inclusive uma recessão superior a 2% no próximo ano. Uma nota publicada milimetricamente no feriado relativo à Restauração da Independência em 1640 e na manhã em que o Instituto de Gestão da Tesouraria do Crédito Público lançava um leilão de bilhetes de Tesouro que arrecadaria €500 milhões a uma taxa média de 5,281%, superior à anterior operação em novembro.
No entanto, no final de sexta-feira, a probabilidade de incumprimento e os juros implícitos relativos a Portugal subiram em relação aos mínimos que haviam atingido no final da manhã, quando o risco chegou a estar abaixo de 30% e as yields abaixo de 5,9%. Sintoma de incerteza na evolução futura.

Também, os restantes países da zona euro em foco ultimamente (Irlanda, Portugal e Espanha) viram a pressão recuar, graças ao “bombeiro” de Frankfurt. A Irlanda, apesar do mal-estar interno crescente, viu o seu risco baixar de quase 41% para 37,5% e, por essa razão, desceu do 3º para o 4º lugar. Os juros implícitos desceram dos 9,2% – tendo atingido um pico de 9,35% no último dia de novembro – para 8,15%. No caso de Espanha, a probabilidade de default reduziu-se de mais de 26% para 22,7% e os juros implícitos desceram de 5,41% – tendo atingido um pico de 5,5% no dia 30 de novembro – para 5,05%, não tendo conseguido, no entanto, sair deste patamar nem do “clube” dos de maior risco mundial, descendo do penúltimo para o último lugar. A Espanha tem ainda uma colocação de Obrigações do Tesouro agendada para dia 16 de dezembro.

Cenários de fragmentação afastados

Também os cenários mais catastrofistas de uma fragmentação eminente da zona euro em dois “blocos” e do aperto final do cerco a um grupo alargado de membros mal comportados (Portugal, Espanha, Itália e Bélgica) para além da Grécia e da Irlanda, já intervencionadas, foram descartados. “Trichet fez o que tinha a fazer. Ele sabe que o contágio ameaça a própria existência da zona euro e mina a União Europeia. Aplaudo as suas decisões”, diz-nos David Kotok, presidente da Cumberland Advisors, que chamara a atenção, no início da semana, para o facto de estar em curso uma dinâmica “similar” à da crise asiática de 1997-1998. Kotok refere que o BCE deveria seguir a estratégia adotada em 1998 pela Reserva Federal americana face à crise asiática, que rapidamente alastrou globalmente. “Em situação de contágio, não há tempo. O tempo não está do nosso lado nestas alturas. Nestas ocasiões não se sabe onde o choque seguinte vai surgir. É como um cancro”, conclui.

Um alegado “Plano B” por parte dos líderes da União Europeia não chegou a ser tirado da gaveta.

Mas, para muitos economistas, o BCE deveria ter ido, já, mais longe. A agência Eurointelligence, por exemplo, reclamava uma estratégia de “monetarização” completa da dívida soberana dos países aflitos. Trichet, claramente, rejeitou esse caminho mais radical, mas sabe que as medidas em curso são temporárias. O problema político de fundo é a situação paradoxal, como ele referiu, durante a semana, no Comité de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu, de uma zona euro com “federação monetária” (com a mesma moeda), mas a que falta “uma quase-federação orçamental”. O “quase” continua por definir.

Um facto – um cenário – uma dúvida

Uma indefinição que, segundo alguns analistas, se avolumará face a um facto, um cenário e uma dúvida.

O facto – os seis países em foco ultimamente (os cinco PIIGS mais a Bélgica) terão de se financiar e refinanciar em 2011 em €730 mil milhões (em que Irlanda e Portugal são os países com necessidades mais pequenas de financiamento).

O cenário – de acordo com as estimativas da firma financeira francesa, a Natixis, nenhum dos seis atingirá o objetivo dos 3% do PIB no défice público. Será uma miragem. Os países com maior dificuldade de o atingirem serão a Irlanda, a Grécia e a Espanha. Não será, por acaso, que a Irlanda, a economia com maior dificuldade de realizar esse “emagrecimento”, ganhou, neste acordo com Bruxelas, uma extensão até 2015 do programa de ajustamento.

A dúvida – expressa na sexta-feira pela agência de notação Standard & Poor’s (S&P) de que o European Stability Mechanism, acordado para funcionar a partir de 2013, sobretudo por pressão do eixo franco-alemão, não terá filhos e enteados em caso de default futuro de países da zona euro, ou seja, em que haverá os credores preferenciais e os outros, os detentores não oficiais de títulos. Os enteados terão a “probabilidade” – interroga-se a S&P – de nem ver a totalidade do que lhes é devido nem em “devido tempo”. Ora isso irá enervar os investidores.

O ouro fechou ontem no mercado spot a valer 1413,43 dólares por onça, novo máximo histórico.

Os contratos de futuros deste metal precioso já se valorizaram cerca de 15% em relação a novembro do ano passado, segunda a TradingEconomics. A onça subiu de 1117,25 dólares por onça, em média, em janeiro, para 1364,90, em média, em novembro. Recorde-se que em finais de 1999 estava abaixo dos 260 dólares por onça em valores nominais. Desde o início da Grande Recessão em meados de 2007 saltou de um patamar de 700 dólares por onça para o dobro.

A subida de mais de 200 dólares por onça durante este ano deve-se, segundo os analistas, á pressão que a China está a fazer na procura deste metal precioso. Durante os primeiros dez meses deste ano, o gigante asiático importou 209,7 toneladas métricas.

O interesse da China pelo ouro está a aumentar devido à decisão política tomada em agosto de liberalizar este mercado de import-export, autorizando as entidades financeiras e os investidores individuais a transacionarem ouro.

Face à inflação de preços de ativos e de bens de consumo (sobretudo alimentares) na China, o ouro começou a ser encarado como um bom investimento. Esta semana inclusive foi aprovado o primeiro Fundo para investir em ouro no estrangeiro.

A China é o primeiro produtor mundial de ouro, com uma produção, até outubro, de 277 toneladas métricas, mais 8,8% do que no ano passado. Declarou, em setembro passado, deter 1054 toneladas de ouro em reservas, sendo o 6º país no ranking mundial – Portugal é o 14º com 382,5 toneladas.

Registe-se, no entanto, que a prata já se valorizou cerca de 43% e a platina 29% em relação a novembro do ano passado. A ‘bolha’ nestes dois metais preciosos é mais elevada do que no próprio metal amarelo que tem sido mais mediatizado.

Pela primeira vez desde final de outubro que os juros implícitos da dívida soberana não desciam abaixo dos 6%. O risco de default continua, também, em baixa em relação ao fecho de ontem.

As yields (taxas de remuneração da dívida que funcionam como juros implícitos no mercado secundário) para as Obrigações do Tesouro a 10 anos desceram, hoje, de manhã, abaixo do patamar dos 6%, pela primeira vez desde final de outubro, quando se começou a assistir ao disparo destes juros que chegaram acima dos 7% durante vários dias em novembro.

Os juros implícitos estão, de momento, nos 5,87%, segundo dados da Bloomberg, e a probabilidade de default (incumprimento da dívida) num horizonte até 2015 ronda os 31%, seis pontos percentuais abaixo do nível em que se encontrava no começo da semana, segundo dados do monitor da CMA DataVision.

O “bombeiro” de Frankfurt

Ainda que o risco não tenha subido, continua, no entanto, no patamar em que se fixou, ontem, depois das notícias de “alívio” vindas de Frankfurt de que o Banco Central Europeu (BCE) continuaria com os seus mecanismos extraordinários para financiar a banca europeia e para prosseguir, discretamente, no mercado secundário a aquisição de títulos de dívida soberana dos países mais aflitos da zona euro.

Segundo a agência Eurointelligence, à mesma hora em que o presidente do BCE falava aos jornalistas em Frankfurt, operadores no mercado secundário teriam colocado, em nome do sistema de bancos centrais europeus, grandes ordens de compra de dívida portuguesa e irlandesa na ordem dos €100 mil milhões de euros, um número gordo, superior ao total de compras feitas desde 9 de maio, que totalizaria os €67 mil milhões.

Fruto desse movimento de baixa, Portugal desceu do 5º lugar no TOP 10 mundial do risco de default, em que estava na segunda-feira, para 7º, a Irlanda desceu de 3º para 5º e a Espanha conseguiu sair hoje desse “clube”, onde andou durante a semana entre o 9º e o 10º lugar.

As yields no caso dos títulos a 10 anos desses dois países estão, também, a acompanhar a baixa. A Irlanda continua com juros abaixo dos 9% e a Espanha desceu do patamar dos 5%.

O índice iTraxx Europe Crossover – que dá uma ideia da “temperatura” da situação das empresas – para dívida a 10 anos baixou de 477,13 pontos base dia 1 de dezembro para 450,27 pontos base esta manhã. O que dá uma ideia do desanuviamento em curso.

Elevada incerteza no ouro e nas matérias-primas

No entretanto, parafraseando a expressão usada pelo BCE para caracterizar a economia no próximo ano, a “elevada incerteza” continua a fazer das suas. O ouro ontem quase alcançou, de novo, no valor de fecho, no mercado spot, os 1400 dólares por onça. Durante o dia ultrapassou esse patamar, mas acabou por fechar nos 1384,82 dólares. O anterior máximo de fecho, no mercado spot, está em 1409,48 dólares, atingido a 8 de novembro.

Além deste sintoma de desconfiança internacional sobre o andamento da economia mundial, o preço do barril de petróleo, da variedade Brent (que serve de referência na Europa), subiu acima dos 90 dólares, pela primeira vez desde a última semana de setembro de 2008.

No entanto, a inflação importada via disparo do preço das commodities não está a ser alimentada pelo crude (que em termos de variação anual até à data é ainda inferior a 1% no caso do Brent), mas por matérias-primas, como o algodão (que já subiu mais de 57%), pelo café (mais de 46%), pelo açúcar (mais de 26%), pelos cereais (mais de 25%), pelo cobre (cerca de 19%) e pela soja (quase 18%).

AS DECISÕES DO BCE (2 de dezembro)

Em conferência de imprensa, a partir de Frankfurt, Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, ladeado por Vitor Constâncio, vice-presidente, anunciou a manutenção da estratégia que tem sido seguida desde a crise da zona euro no princípio de maio.

O Conselho dos 22 governadores dos bancos centrais decidiu manter o consenso em três pontos capitais:
- não aumentar as taxas de juro diretoras; a taxa de juro aplicável às operações principais de refinanciamento mantém-se, desde maio de 2009, em 1% (claramente abaixo da previsão de inflação para 2010 que o BCE define numa banda entra 1,5% e 1,7%), a taxa de juro aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez permanece em 1,75% e a taxa de juro para a facilidade permanente de depósito continua em 0,25%;
- manter as suas operações de refinanciamento principais e especiais, até, pelo menos, 12 de Abril de 2011;
- prosseguir as suas operações de refinanciamento de longo prazo com datas para 26 de janeiro, 23 de fevereiro e 30 de março do próximo ano.

Estas medidas foram interpretadas como mantendo a boia de salvação para o sistema bancário europeu.
Sem entrar em detalhes, Trichet explicou, de viva voz, que o programa temporário de aquisição de dívida pública lançado em 9 de maio ao abrigo do Securities Markets Programme “segue o seu curso”. Desde aquela data, este programa já permitiu a aquisição de títulos de dívida soberana europeia num total de €67 mil milhões. Só na passada semana, teriam sido adquiridos 1,3 mil milhões, o dobro em relação a semanas anteriores. Este tipo de atuação mantém-se “discreto”.

Estranhas frases de prospectiva

Segundo o BCE o problema da inflação no médio-prazo continua “contido”, mas no campo macroeconómico mantém-se “uma incerteza elevada” e uma pressão negativa por duas vias: uma “relacionada com tensões em alguns segmentos dos mercados financeiros” com impacto em toda a economia da zona euro e outra através de inflação importada através do aumento dos preços de commodities (como o petróleo) ou do efeito de “pressões protecionistas e da possibilidade de uma correção desordenada dos desequilíbrios globais“.

O BCE insistiu, ainda, no prosseguimento pelos governos da zona euro em reformas estruturais, a par das estratégias de consolidação plurianuais. “Muitas reformas são particularmente necessárias naqueles países que sofreram uma perda de competitividade e que estão a sofrer de défices orçamentais e externos elevados”, prossegue a Nota Introdutória lida por Trichet, que aponta a necessidade de atuar sobre “a rigidez do mercado de trabalho” e de melhorar a competitividade do setor de serviços. Como cereja no topo do bolo, o BCE pretende que “todas estas reformas sejam suportadas por uma re-estruturação apropriada do setor bancário”.