É pouco provável esse cenário, respondem Iain Begg, professor da London School of Economics, e Friedrich Heinemann, do Centro Investigação Económica Europeia (ZEW) alemão. Seria um desastre que não interessa a ninguém na Europa.

O facto de hoje pela primeira vez o índice geral dos títulos soberanos da Europa Ocidental monitorizado pela Markit ter ultrapassado os 200 pontos base em termos de custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento da dívida) deixou os analistas alarmados.

Sinal deste mal-estar geral, e não só centrado nos quatro “periféricos” (Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha) que já são membros do “clube” dos de maior risco de default (incumprimento da dívida soberana) à escala mundial, foi outro facto relevante do dia de hoje – o disparo, durante a manhã, do risco da Itália, que ultrapassou os 250 pontos base e atingiu um risco superior a 21%, e da Bélgica, que se aproximou dos 200 pontos base e de um risco de cerca de 16%. O que dá uma imagem de um problema sistémico abrangendo uma enorme fatia da União Europeia atingindo dois países com peso crucial na zona euro, a Espanha (5º maior europeu e 9º à escala mundial em produto interno bruto) e Itália (4º maior europeu e 7º à escala mundial). Os analistas sublinham, ainda, o facto de que quer a Bélgica quer a Itália revelam problemas latentes de desagregação política.

Não admira, por isso, que esteja ao rubro o debate em torno do risco de fragmentação da zona euro em blocos ou mesmo de liquidação do euro e regresso às moedas nacionais nos seus 16 membros, à semelhança do que ocorre, por exemplo, com a maioria dos nórdicos, com o Reino Unido e com a Polónia.

O anterior presidente da poderosa Federação da Indústria Alemã (BDI) avançou com a ideia da divisão da zona euro em dois blocos, um dos do “norte” – ancorado na Alemanha, e abrangendo a Áustria, Holanda, eventualmente a Bélgica e a Finlândia – e outro com os do “sul”, cujo desenho não foi especificado. O cenário de dois blocos do euro foi difundido, também, pelo Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP).

Ouvimos sobre estes cenários dois especialistas em geografias europeias distintas – Iain Begg, investigador do Instituto Europeu da London School of Economics and Political Science, em Londres, no Reino Unido, que foi editor do Journal of Common Market Studies ligado ao estudo da integração europeia, e Friedrich Heinemann, chefe do departamento de Finanças Públicas do Centro de Investigação Económica Europeia (ZEW), em Manheim, e também professor na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Ambos concluíram sobre a “improbabilidade” de ambos os cenários – o de divisão em dois “blocos” ou o de abandono do euro

ENTREVISTA

P: Face ao engordar da crise da dívida soberana na zona euro, é inevitável a sua fragmentação?
Iain Begg: Pouco provável. Não consigo identificar nenhuma parte – exceto, talvez, os americanos – que, realmente, beneficiassem disso.
Friedrich Heinemann: Parece-me um cenário pouco provável. Temos uma crise de sustentabilidade da dívida pública e não exatamente uma crise da divisa europeia. Veja o caso dos Estados Unidos: vários estados americanos estão à beira da insolvência, como por exemplo a Califórnia, uma das maiores economias do mundo. A dívida pública americana, no seu conjunto, coloca sérias questões de insolvência a longo prazo. Mas ninguém sugeriria que se introduzisse um “dólar da costa ocidental” contra um “dólar da costa leste”.

P: Mas quais seriam as consequências se tal cenário se concretizasse?
Begg: As consequências disso seriam terríveis. Os países mais fracos sofreriam uma queda brutal nas suas novas moedas nacionais, o que empurraria para situações de hiperinflação e de provável colapso bancário. Por seu lado, os países mais fortes, como a Alemanha, arriscariam uma espiral de apreciação das suas divisas que os seus principais exportadores sentiriam como arrasadora.
Heinemann: A reintrodução de moedas nacionais na Europa que pertence à zona euro não é, de facto, do interesse de ninguém. Significaria, de imediato, falta de liquidez do lado dos países fracos, pois a sua dívida externa denominada em euros não poderia ser servida. Para os países fortes, como a Alemanha, sofreriam, de facto, muito com uma apreciação das moedas. Uma desintegração do euro e o retrocesso às moedas nacionais é um cenário “perdedor-perdedor”.

P: A ideia de uma zona euro com dois blocos é exequível?
Begg: Essa ideia de um bloco liderado pela Alemanha e outro pela França, para mim, é a menos provável. A França seria muito relutante a separar-se da Alemanha.
Heinemann: Não faz sentido algum.

P: Faz algum sentido atrair a Irlanda para a órbita da libra, como tem sido proposto por vozes da City de Londres no sentido de Dublin sair do euro?
Begg: Economicamente pode fazer algum sentido, mas os obstáculos políticos são gigantescos, dada a história irlandesa de todos conhecida. Além disso, não nos devemos esquecer que, mesmo do ponto de vista económico e financeiro, a Irlanda depende fortemente de investidores que acham que a pertença desse país à zona euro é um fator atraente.

P: Se a Espanha tiver de recorrer à Facilidade de Estabilização Financeira Europeia (EFSF), como aconteceu com a Irlanda na semana passada, isso marca o fim da zona euro como a conhecemos, ou os mecanismos financeiros existentes são suficientes para aguentar o choque?
Heinemann: Se necessário, a dimensão da Facilidade pode ser alargada para tratar do caso de Espanha. E, no longo prazo, as perspetivas de Espanha não são assim tão más. Por isso, parece-me razoável permitir a Espanha ter a liquidez até que possa regressar aos mercados de capitais.