Outubro 2010


Ben Davies, especialista financeiro em Londres, adverte que há o risco das grandes potências usarem as divisas como arma de política. E avisa, essa atitude pode desaguar no campo militar.
[Artigo longo]

A longa cauda desta Grande Recessão não para de surpreender. Mesmo depois de decretado o fim da recessão económica propriamente dita, o mundo foi sacudido por um novo tipo de crise, o da dívida soberana de várias economias desenvolvidas. E, ainda esta última crise vai no adro, já espreita uma outra, mais perigosa, pois coloca potencialmente em confronto direto grandes potências num jogo de soma nula no comércio mundial e no sistema monetário internacional: a guerra de divisas.

O primeiro a deixar o aviso público de que “ela rebentou” foi Guido Mantega, o ministro das Finanças do Brasil, secundado, esta semana, por Dominique Strauss-Kahn, o chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), que a classificou de “uma perigosa dinâmica”. Por seu lado, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, disse que se deveria evitar “repetir os mesmos erros dos anos 1930”.

O tema esteve na agenda da reunião ao pequeno-almoço de sexta-feira dos ministros das Finanças do grupo mais alargado do G20 e no jantar mais restrito dos do G7, nesse mesmo dia, na embaixada do Canadá, por ocasião do encontro semestral do FMI e do Banco Mundial em Washington DC.

O comunicado desta 22ª reunião do Comité Monetário e Financeiro Internacional e do Conselho de governadores do Fundo Monetário Internacional reafirmou a “rejeição do protecionismo sob todas as formas” e a necessidade de “uma resposta coordenada à crise”, o que foi interpretado por alguns analistas internacionais como um incentivo ao armistício na guerra das divisas até à próxima cimeira do G20 na Coreia do Sul já em Novembro. O FMI só voltará a reunir em abril de 2011.

A reunião insistiu, também, na necessidade de “concluir a ronda de negociações de Doha” promovida pela Organização Mundial do Comércio, tendo em conta a aproximação de 2013, ano limite para a eliminação dos subsídios às exportações agrícolas.

Risco geopolítico

“Se as nações deixarem de comunicar nos assuntos de comércio internacional, os ressentimentos podem facilmente terminar em ações militares”, diz Ben Davies, diretor geral e cofundador da financeira londrina Hinde Capital, numa entrevista que pode ser lida na íntegra em inglês.

Davies considera os recentes movimentos de manipulação de divisas – com destaque para a desvalorização abrupta do dólar americano em 13% em relação a um cabaz de moedas desde meados de junho, para a operação no mês passado em relação ao iene japonês, algo que o governo nipónico não fazia há seis anos, e para as novas decisões do Brasil no campo do controlo de capitais e de compra de milhares de milhões de dólares no mercado – como “um verdadeiro tremor de terra”.

Como justificação para a intervenção, as autoridades americanas e de algumas instituições internacionais alegam que a China não valoriza mais diligentemente a sua moeda, o renminbi, que, apenas, se apreciou em 2,3% desde junho em relação ao dólar. Curiosamente, na sexta-feira, o câmbio do renminbi foi fixado em 6,683 por dólar, um máximo desde 2005. Desde essa data, a moeda chinesa valorizou-se em 22%.

O problema agrava-se, refere Davies, porque a Reserva Federal (FED) e o Banco do Japão estão a adicionar um plano de agressiva injeção de massa monetária – que dá pelo nome técnico de quantitative easing (QE) – a que também se associa o Banco de Inglaterra (que manteve inclusive o montante deste tipo de intervenção em 200 mil milhões de libras, cerca de €230 mil milhões). O Banco do Japão anunciou um programa de QE de 60 mil milhões de dólares (mais de 43 mil milhões de euros) – 70% dos quais em dívida pública.

O Banco Central Europeu tem, até à data, resistido a uma tal política, ainda que o esteja a fazer “indiretamente”, diz Davies, através de uma política “de quase-subsídios aos orçamentos dos governos”. O BCE tem, também recusado “alinhar” neste clima de guerra de divisas.

O fim de Bretton-Woods II

A questão de fundo, no entanto, é a aproximação do fim de um era, que alguns alcunharam de “Bretton Woods II”, um sistema específico de relação umbilical entre o dólar e o renminbi em vigor desde 1995. “Sim, os chineses querem sair desta relação, mas querem fazê-lo nos seus termos e dentro da sua agenda. A China, sejamos claro, acabará por enveredar por um processo de liberalização da sua divisa. Ela sabe que para consolidar a sua dominância como superpotência terá de ter um sistema flexível”, refere o financeiro, que acrescenta: “A China tem de diversificar e de criar relações bilaterais fortes com outras nações, particularmente as que dispõem de recursos em matérias-primas e mercadorias. A China não se pode dar ao luxo de ser uma potência isolacionista”.

Entretanto, Beijing tem vindo a dar passos no sentido de internacionalizar a sua divisa criando acordos de swap com a Rússia e o Brasil e estabelecendo um primeiro centro offshore para a sua divisa em Hong Kong, recorda o nosso entrevistado. Em 19 de junho decidiu, também, criar um novo quadro político que permitirá a maior flexibilização da política cambial apontando para uma valorização gradual da divisa, recordou, esta semana, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet.

No entanto, os passos da China serão, sempre, cautelosos. Como referia um editorial do Global Times, um jornal oficioso chinês em inglês: “Na valorização do yuan (renminbi), os Estados Unidos têm pouco a ganhar e a China tem a sua estabilidade social e económica em jogo”.

O governador do Banco Popular da China, banco central, Zhou Xiaochuan, reafirmou, aliás, em Washington DC, que a política cambial de Beijing será sempre “gradualista” e não uma “terapia de choque”.

O presidente do grupo dos ministros das Finanças da zona Euro, Jean-Claude Juncker, acenou à China com o isco de um areópago diferente para a discussão do problema das divisas, um novo G8 ou G9 (se se considerar a Rússia no lote), com a China associada ao G7. Uma sugestão pouco provável de aceitar por Beijing interessada no papel de pressão que as restantes potências emergentes desempenham no G20.

No próximo ano vamos assistir a uma desaceleração do crescimento económico em várias zonas do globo. O comércio mundial vai desacelerar ainda mais do que o produto. A Europa vai concentrar o foco das atenções. São conclusões do relatório do FMI.

Em 2011, a economia mundial vai desacelerar o crescimento de 4,8% para 4,2%, um abrandamento de 12,5%, segundo o World Economic Outlook (WEO), divulgado, ontem, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

O FMI coloca de lado a possibilidade de um double-dip, ou seja de uma recaída global na recessão (com um decréscimo do produto mundial, como ocorreu em 2009), mas a leitura das estimativas divulgadas revela que o abrandamento do crescimento vai ser particularmente agudo no Brasil e nos “tigres asiáticos”, com uma desaceleração de 45% e de 42% respetivamente. No caso dos “tigres” (Hong Kong, Coreia do Sul, Taiwan e Singapura), o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) desce de 7,8% este ano para 4,5% e no caso do Brasil de 7,5% para 4,1%.

Efeito no comércio mundial

Todas as regiões do mundo assistem a uma desaceleração do crescimento do PIB, incluindo os países que puxam hoje em dia pela economia mundial, a China e a Índia, que baixarão um patamar. A China passará de 10,5% este ano para 9,6% e a Índia de 9,7% para 8,4%.

Mas mais grave será o efeito desta desaceleração do crescimento no comércio internacional. Ainda que esteja colocada de lado a possibilidade de uma contração deste (como ocorreu em 2009), o comércio mundial vai desacelerar 39%, baixando de uma taxa de expansão de 11,4% este ano para 7% em 2011. O que gerará um efeito de contágio global nos fluxos de exportação e importação, devidos à elevada integração atual das cadeias de fornecimento e dos hubs logísticos.

Europa no foco de atenção

Com particular acuidade na região em que nos situamos (a União Europeia e a zona Euro), os níveis mais baixos de crescimento mundial vão concentrar-se precisamente na Europa. A zona Euro assistirá a um abrandamento do crescimento de 1,7% este ano para 1,5% em 2011 e com dois países no arco da recessão: precisamente Portugal (-1,4%, se contabilizado o efeito do pacote de austeridade) e Grécia (-2,6%).

A Europa vai concentrar o foco das atenções em virtude de uma conjugação negativa de tendências, que o relatório analisa:
a) o facto de ser a zona do mundo com nível de crescimento mais baixo;
b) a gravidade do problema da dívida soberana com 9 países da União Europeia com probabilidades de default num horizonte de cinco anos superiores hoje a 18%;
c) altos níveis de desemprego no mundo;
d) dependência extrema do sistema bancário dos financiamentos do Banco Central Europeu e com uma larga exposição aos riscos de dívida soberana;
e) necessidades elevadas de refinanciamento das dívidas soberanas que chegam à maturidade entre outubro de 2010 e dezembro de 2011, com cinco países (Grécia, Itália, Bélgica, França e Portugal) com volumes acima dos 20% do PIB e outros três com níveis entre 15% e 20% (Espanha, Holanda e Irlanda); e
f) atraso no sistema de integração europeu de “estabilidade financeira”.

Ramalhete adicional de problemas globais

O WEO foca, em termos globais, a manutenção de um conjunto de problemas que tornam a economia mundial “vulnerável a riscos”, destacando:
- a continuação de um clima de volatilidade nos mercados;
- o risco soberano (com o foco atual na União Europeia);
- problemas no financiamento bancário (vai ser necessário refinanciar nos próximos 24 meses cerca de 4 biliões de dólares);
- uma reforma financeira inacabada e, segundo alguns, muito débil;
- o aumento do desemprego e o impacto na instabilidade social;
- a não descolagem do mercado imobiliário (com um risco inclusive de um agravamento nos Estados Unidos); – a diminuição dos estímulos keynesianos;
- e o canal de contágio das consolidações orçamentais em simultâneo em várias partes do mundo.

Ben Davies, da Hinde Capital, uma firma financeira londrina, em entrevista que publicaremos mais tarde, adiciona, ainda, o risco de, em 2011, assistirmos a uma conjugação da escalada de “guerras de divisas” com o reforço de políticas monetárias de quantitative easing (aumento da massa monetária) por parte da tríade, Reserva Federal, Banco do Japão e Banco de Inglaterra, agravando os desequilíbrios mundiais e aumentando o nível de protecionismo.

Segundo as estimativas do FMI. o défice externo em 2011 baixará ligeiramente mas manter-se-á em 9,2% do Produto Interno Bruto. O nível mais elevado em 32 países da Europa analisados pelo World Economic Outlook (Capítulo 2).

A radiografia portuguesa para 2011, ontem apresentada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) no seu World Economic Outlook, revela a conjugação de três tendências negativas particularmente preocupantes:

a) O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) passará de positivo em 2010 para estagnado (0%) ou sofrerá uma contração de 1,4% re-entrando em recessão (se forem tomadas em linha de conta as medidas anunciadas no último pacote de austeridade); a confirmar-se este cenário pessimista, apenas dois países na Europa apresentarão recessões: Grécia (-2,6%) e Portugal (-1,4%); a Espanha conseguirá passar de uma situação de recessão, este ano, para um crescimento ligeiramente positivo (0,7%);

b) O défice externo português melhora ligeiramente de 10% do PIB em 2010 para 9,2%; será o mais elevado em 33 países europeus monitorizados pelo FMI; a Grécia que, em 2010, apresentou um défice externo de 10,8% do PIB conseguirá reduzi-lo mais acentuadamente para 7,7%;

c) O desemprego em Portugal aumentará de 10,7% em 2010 para 10,9% (ainda sem contabilizar os efeitos do pacote de austeridade); neste campo, apesar do agravamento, continuaremos muito abaixo de Espanha (19,3%), Países Bálticos (acima de 16%), Grécia (14,6%), Irlanda (13%) e Eslováquia (12,7%).

Esta conjuntura portuguesa em 2011 ocorrerá num ano em que poderá observar-se uma outra conjugação de diversas tendências mundiais com efeitos negativos, atendendo ao que refere o ‘World Economic Outlook’ (Capítulo 1), e que abordaremos em outro artigo.

Em síntese, segundo o FMI, observa-se: 1) a possibilidade de uma concentração de vulnerabilidades na zona euro e na União Europeia que transformam esta região no foco de atenção; 2) uma desaceleração do crescimento da economia mundial, com destaque para o Brasil e os “tigres asiáticos”; 3) um impacto ainda mais grave na desaceleração do aumento do comércio mundial; e 4) a continuação de um grave problema no sistema bancário mundial, que enfrentará um novo período de necessidades de refinanciamento de dívidas que chegam à maturidade nos próximos 24 meses na ordem de 4 biliões de dólares.

“A zona Euro está entulhada num passivo horrendo que vai muito para além das dívidas nacionais de que se tem falado” e o mesmo acontece para o Reino Unido e os Estados Unidos, refere, em exclusivo ao Expresso, Ben Davies, CEO e cofundador da Hinde Capital, uma firma de gestão de investimentos, sediada em Londres, a funcionar desde 2007.

O nível de responsabilidades reais dos designados pejorativamente por PIGS (acrónimo para Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) é muito superior ao que se julga – no caso português o valor líquido real negativo do governo é de 600% do PIB, atendendo a um estudo recente da Morgan Stanley Research, uma firma financeira global, na sua primeira edição de ‘Sovereign Subjects’.

Mas a situação portuguesa nem é a pior – a Grécia atinge 1500% do PIB, a Irlanda 1400%, a Espanha mais de 1000%, o Reino Unido 1000% e o Estado federal dos EUA 800%. Portugal e França encontram-se em patamares similares, de 600%, e a Alemanha nos 500%.

Situação insustentável

“Trata-se de uma situação insustentável. Os problemas na Europa estão, apenas, a começar, e este problema não é, apenas, dos PIGS, nem da zona euro – é global, no Ocidente. No caso da zona Euro, os países membros têm a condicionante de não dispor da vantagem imediata da desvalorização da moeda e os países da periferia da zona euro apenas conseguirão um ajustamento através de preços e salários mais baixos, para serem competitivos”, refere Davies. E acrescenta: “Mas até poderão ser os mais felizardos, pois o desejo político de manter o euro é muito forte”, o que poderá levar o Banco Central Europeu (BCE) a enveredar “pela criação de moeda de modo a desvalorizar o valor das dívidas em relação à inflação”.

O BCE resiste à tentação dessa deriva “de monetização plena” da dívida, “mas suspeito que acabará por não ter outra opção”, diz Davies. “Contudo, o BCE está já envolvido efetivamente num esquema de quase subsidiação orçamental dos governos da zona euro”, através da aquisição de títulos do Tesouro junto da banca, ainda que o banco central alegue que “esterilizou” essas compras, o que o leva a alegar que não se trata de política monetária idêntica ao quantitative easing da Reserva Federal americana. O quantitative easing é uma política monetária de último recurso quando as taxas de juro estão já perto de 0%, e os bancos centrais decidem aumentar a oferta de moeda.

No caso português, o financiamento através do BCE subia a 49,1 mil milhões no final de agosto, ou seja 29,5% do PIB estimado para este ano. No caso irlandês e grego era superior em termos absolutos e relativos face ao PIB.

Segundo referia, esta semana, o Financial Times Deutschland, as aquisições de títulos públicos por parte do BCE já representam 14% de toda a dívida soberana desses países, tornando o banco central a força dominante nesse mercado da dívida na zona euro.

Uma avaliação da situação líquida diferente

Ben Davies socorreu-se do estudo recente da Morgan, da autoria de Arnuad Mares (“Ask Not Wheter Governments Will Default, but how”) que aponta para uma avaliação da situação líquida de um dado país que vai para além da contabilização tradicional da dívida em relação ao PIB (seja a dívida pública, seja a dívida externa total, privada e pública), a qual não “captura” um largo espetro de responsabilidades que são, também, dívida. As estimativas da Morgan, agora realizadas, apontam para a inclusão de três indicadores – a dívida bruta face ao PIB, o défice estrutural e as estimativas dos encargos para as contas públicas do envelhecimento populacional.

O estudo da Morgan aconselha, ainda, o uso de um outro indicador, o da dívida pública em relação às receitas estatais. Nesse caso, para 2009, os EUA estão acima de 350%, a Grécia acima de 310%, a Irlanda nos 248%, a Itália nos 187,5%, Portugal nos 184,5%, o Reino Unido nos 169,2% e Espanha nos 153,2%. Ou seja, no caso português, seriam necessários quase dois anos de receitas (idênticas às de 2009) para pagar a dívida pública. Mas há situações manifestamente piores.

A Morgan conclui que a discussão não é tanto se os governos entrarão em situação de incumprimento (de default), mas sim como o farão e avisa os credores das dívidas soberanas, os detentores de títulos do Tesouro, que deverão preparar-se para uma “era de opressão financeira”, uma alternativa ao default puro e simples. O que já aconteceu no passado, recorda a Morgan, que dá exemplos históricos. Tal “opressão” poderá ocorrer pela imposição de taxas de remuneração reais dos títulos negativas ou artificialmente baixas, pelo pagamento da dívida através de divisas desvalorizadas, e pela “distorção dos preços da dívida a favor dos governos”, enumera a Morgan.

Há uma ideia generalizada na comunidade científica independente que o máximo de produção global anual do crude já foi atingido. Entrámos num “planalto oscilante”, diz o especialista português Luís de Sousa.

Versão disponível em inglês.

O “pico” do petróleo deixou de ser um tema fraturante. As projeções sobre o ano ou quinquénio ou década em que a produção global de crude começaria a declinar “já fazem parte da História”, sublinha Luís de Sousa, membro da ASPO-Portugal (Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás) e colaborador do blogue The Oil Drum, em declarações ao Expresso. “Há uma ideia generalizada de que já se está a viver esse período de pico. Prevê-lo já não é relevante”, acrescenta.

Segundo este especialista, a esmagadora maioria dos principais modelos matemáticos e contabilísticos de produção do petróleo usados por entidades independentes da indústria petrolífera apontam para um máximo num intervalo de cerca de uma década centrado entre 2008 e 2010, num intervalo de produção entre 78 e 85 milhões de barris diários.

Luís de Sousa sublinha que “desde 2005, a produção mundial de líquidos fósseis tem-se situado entre 80 e 82 milhões de barris por dia em clara consonância com aqueles modelos”, mas aquele patamar “tem sido assegurado pelo aumento dos líquidos associados ao gás natural, estando a produção do crude propriamente dito em quebra desde esse ano”.

Diplomacia do petróleo

No entanto, o “pico” voltou, agora, à ribalta por causa de um relatório secreto do grupo de estudos futuristas do Centro alemão para a Transformação das Forças Armadas, um think tank militar que trabalha para o Ministério da Defesa de Berlim. O estudo prospetivo a 30 anos foi divulgado pelo jornal Der Spiegel e provocou consternação nos menos habituados ao tema e às suas implicações geopolíticas, particularmente para a Europa.

O relatório tem uma nota de alarme: “a escassez vai afetar toda a gente” e “aumentos do preço do crude colocam um risco sistémico, não só para os sistemas de transporte, mas igualmente para todos os outros subsistemas”. E deixou um recado: “É vital assegurar o acesso ao petróleo”, pois num horizonte até 2040 vamos assistir a “uma mudança no panorama da segurança internacional com novos riscos – como o do transporte dos combustíveis – e novos atores num possível conflito em torno da distribuição de um recurso crescentemente escasso”.

O relatório alemão conclui que “o mercado livre, de oferta e procura, do crude deverá reduzir-se” e que a diplomacia do petróleo vai disparar face à sua geopolitização.

Planalto ondulante

A escassez crescente de que falam os alemães está ligada a “uma quase rigidez no aumento da produção, que se fixou em uma banda de variação que se formou desde 2004”, sublinha Luís de Sousa. Essa “banda” de variação é, por muitos especialistas, designada, com alguma piada, por “planalto ondulante”. Ou seja, nesse planalto, as variações de produção oscilam, como uma onda, de ano para ano, independentemente das variações de preços. A crise atual, cujo fim continua a gerar polémica, “irá provavelmente prolongar este período ondulante, achatando um pouco o que, de outro modo, seria um pico proeminente”.

Mais importante do que o próprio pico ou planalto de produção é o volume de petróleo disponível no mercado internacional, ou seja o que é comercializado depois do consumo pelos produtores. “O máximo foi atingido em 2005, com 44 milhões de barris diários (mbd), registando-se, desde então, uma queda lenta, mas irreversível”, diz o especialista da ASPO. Atualmente está nos 42 mbd e em 2020 deverá ser inferior a 35 mbd. Luís de Sousa acrescenta, ainda, que na disputa por esse petróleo disponível nos mercados internacionais vai fazer sentir-se “a transferência de consumo dos países que formam a OCDE [países desenvolvidos] para os emergentes – se em 1990, metade do petróleo produzido era consumido na OCDE, hoje essa fração é de cerca de 1/3”. O mercado mundial sofreu uma reviravolta.

Esta situação “estrutural”, de longo prazo, derivada da tendencial escassez desta commodity e do crescimento dos riscos geopolíticos (inclusive o de navegação nos estreitos estratégicos por todo o mundo) é agravada, nos últimos anos, pelo que se designou por ‘financeirização’ do mercado de futuros do crude, com a entrada dos especuladores financeiros alcunhados de “refinadores de Wall Street” que compram e vendem “barris de papel”, criando uma perturbação adicional nos preços do mercado com oscilações, por vezes, “selvagens”.

Sofrimento para os dependentes

Um dos grupos, na OCDE, que mais vai sofrer com a contração do petróleo disponível, é o formado pelos mais dependentes desta energia no seu mix energético, sublinha Luís de Sousa. “Há que notar um detalhe – os países com maiores dificuldades vão ser precisamente os designados PIIGS, que têm uma dependência superior a 45%, com destaque para a Grécia, com 58%, Irlanda e Portugal com 55%, Espanha com 48% e Itália com 46%, face a uma União Europeia com uma média de 37%. Se juntarmos os quatro países que têm uma dependência superior à média europeia mas abaixo dos 45%, ficamos com um mapa completo da zona de maior impacto do “planalto ondulante”, onde há que adicionar aos PIIGS, a Áustria (44%), Holanda (42%), Bélgica (41%) e Dinamarca (39%).

O ponto fraco dos cinco países mais vulneráveis da zona euro (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália) é o setor do transporte, particularmente o rodoviário “derivado da localização geográfica, de planeamento urbano e nacional inapropriado, ou de ambas as causas”, diz Luís de Sousa. A promoção das opções marítima e ferroviária é sublinhada por este especialista, não bastando a modernização da infraestrutura elétrica ou a promoção de outras fontes de energia.

HISTÓRICO
O comportamento do Brent em 2010

A variedade de referência na Europa do crude é designada por Brent. Devido à desvalorização do dólar desde junho (11,3% face ao euro, e 7,3% só durante o mês de setembro), o preço do barril de Brent voltou a valores acima dos 80 dólares desde 29 de setembro, e encontra-se já acima da média dos primeiros nove meses de 2010, que se situa nos 78,27 dólares. O mês de outubro abriu com o Brent cotando-se nos 83,40 dólares, uma subida diária de mais de 2%.

O ano tem assistido a variações, por vezes “selvagens”, do preço do barril, dentro de uma banda entre um máximo de 94 dólares e um mínimo de 68 dólares, ambos em maio. O mês com a média mais baixa foi maio, com 74,12 dólares por barril de Brent, e o mês com a média mais alta foi o imediatamente anterior, abril, com 84,58 dólares, o que revela bem a amplitude das variações e o impacto aos ziguezagues nos orçamentos dos exportadores petrolíferos e na balança comercial nos dependentes crónicos do crude.

O preço do barril de Brent está, no entanto, ainda muito longe do máximo ocorrido em junho de 2008 quando atingiu uma média mensal de 134,02. Entre março e setembro de 2008 o Brent cotou-se mensalmente acima de 100 dólares por barril, tendo quebrado, depois do desencadear do pânico financeiro a seguir à falência do Lehman Brothers e do início da Grande Recessão, para 76,72 dólares em outubro, 57,44 em novembro e 42,04 em dezembro daquele ano. Atingiu um mínimo de 39,26 em fevereiro de 2009 no auge da quebra do produto mundial e do comércio internacional. No último trimestre de 2009 já havia regressado a cotações mensais acima de 75 dólares.

O ouro atingiu em setembro novos máximos históricos com o preço acima dos 1300 dólares e o algodão, café e cobre continuam com subidas entre 30 e 70% em relação a 2009.

O mês de setembro fechou com a onça de ouro no mercado spot nos 1306,52 dólares e segundo a Bloomberg nos 1309,6 dólares, novo máximo histórico em termos nominais. O ouro já se valorizou 32% em relação a setembro do ano passado e desde janeiro deste ano já subiu 17%.

O ouro é uma das cinco commodities que mais têm aumentado em termos anuais. Em relação a setembro do ano passado, os preços do algodão subiram 70,59%, o café 49%, a prata 35,12%, o cobre 34,35% e o ouro 32,05%.

Em virtude da desvalorização do dólar e da persistência da incerteza sobre o final da Grande Recessão, os preços das commodities estratégicas – metais preciosos, matérias-primas agro-industriais e metais industriais – têm aumentado acima dos 30%.

No caso do petróleo, o barril de crude, na variedade Brent (de referência na Europa), apresenta um preço médio este ano de 82,04 dólares, tendo o preço médio de setembro, 79,01 dólares, estado abaixo. No entanto, o Brent encontra-se, atualmente, acima dos 80 dólares por barril. No último dia de setembro, o preço subiu 1,69%, situando-se em 81,42 dólares por barril de Brent. Esta variedade regressou acima dos 80 dólares por barril em 29 de setembro. Os máximos do barril de Brent este ano atingiram-se em maio com um preço médio de 94 dólares.

A valorização do euro face ao dólar foi de 11,3% desde janeiro e só em setembro aumentou 7,3%. A desvalorização do dólar repercute-se, inversamente, no preço das commodities cotadas em dólares.

Por outro lado, os metais preciosos – ouro e prata – continuam a ser considerados como valores “refúgio” em tempo de incerteza económica e a alta do seu preço é fruto, também, de movimentos especulativos, que não se restringem a estes metais.

Os movimentos especulativos são generalizados a diversas commodities, desde que estes mercados sofreram um processo de financeirização, ou seja do envolvimento de investidores à procura de ganhos na variação de preços e que nada têm a ver com o negócio setorial específico de cada matéria-prima ou mercadoria.

No dia seguinte (30 setembro) ao anúncio do pacote de austeridade português, o risco de default da dívida soberana desceu e os juros da dívida também. Mas Portugal não saiu do 7º lugar do TOP 10 de risco mundial.

A probabilidade de default da dívida soberana portuguesa desceu quinta-feira (30 de setembro) dois pontos percentuais no dia seguinte ao anúncio do novo pacote de austeridade português, segundo o monitor da CMA DataVision.

E os juros da dívida pública (yields) das obrigações do Tesouro a 10 anos emagreceram 2,6% em relação ao dia anterior, baixando de 6,47% para 6,3%. Foi este o primeiro impacto, positivo, do anúncio das medidas em Lisboa nestes mercados financeiros ligados à dívida soberana.

Apesar da baixa, a probabilidade de incumprimento num horizonte de cinco anos, segundo a perceção dos investidores no mercado de credit default swaps (derivados financeiros que funcionam como um seguro contra o risco de incumprimento de uma dívida), continuava quinta-feira acima de 30% e a posição portuguesa no TOP 10 mundial de risco de bancarrota não se alterou – continuou na 7ª posição.

Spreads baixam

Os juros da dívida pública portuguesa a 10 anos manifestaram, de facto, um movimento de baixa e o spread (diferença) em relação aos juros da dívida pública alemã (em relação às yields das Bunds, os títulos alemães, que servem de referência na zona euro) diminuiu situando-se, agora, nos 4,02%, beneficiando, também, de uma subida das yields alemãs.

As medidas anunciadas em Lisboa inverteram a tendência altista na probabilidade de default e nos juros da dívida pública que se vinha observando no mês de setembro e que conduzira a novos máximos nos juros da dívida pública desde a adesão ao euro, com um pico das yields a 10 anos, a 28 de setembro (durante esta semana), em 6,51%. Também, a probabilidade de default se aproximou, em 28 de setembro último do máximo atingido a 6 de maio.

Esta inversão é entendida como tendo adiado o momento crítico de necessidade de recurso ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF). No entanto, segundo o economista Ricardo Cabral, professor da Universidade da Madeira e especialista do think tankeuropeu Vox.eu, em entrevista ao Expresso, que será publicada na edição de sábado (2 de outubro), os níveis atuais de juros da dívida pública são insustentáveis. No caso português, o economista coloca o limiar no patamar dos 5%, que já foi ultrapassado desde Junho nas obrigações do Tesouro a 10 anos.

Tigre Celta mantém dianteira

Portugal continua a manter uma distância “confortável” em relação à situação mais grave da Irlanda. O ‘Tigre Celta’ continua em 5º lugar no TOP 10 mundial do risco e os juros da dívida pública a 10 anos continuam acima de 6,5%. No entanto, a tendência altista de setembro foi, também, invertida.

Apesar do anúncio quinta-feira do custo global “colossal” (nas próprias palavras do ministro das Finanças irlandês) de salvação do setor financeiro, os juros da dívida pública a 10 anos emagreceram ontem 1,9%, baixando de 6,7% para 6,57%. A probabilidade de default baixou meio ponto percentual em relação a quarta-feira, estando, agora, perto dos 33%.

O Governador do Banco Central da Irlanda anunciou ontem que o custo global da intervenção no Anglo Irish Bank e na National Building Society somará cerca de €35 mil milhões, mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) irlandês. As contas revelam que já foram injetados €25,6 mil milhões. Segundo os analistas irlandeses, este “fardo” de “limpeza” do setor financeiro – um dos mais afetados pelo rebentar da ‘bolha’ imobiliária – implicará um disparo, jamais visto, do défice público em relação ao PIB, que passará este ano de uma estimativa oficial, agora revista, de 11,9% para 32%!

O ministro das Finanças irlandês admitiu, ontem, que a previsão do défice público para 2011 seja ainda na ordem dos dois dígitos, mas manteve o objetivo de fazer descer o défice para os 3% do PIB em 2014, uma contração brutal em três anos (2012 e 2014)em que poucos analistas internacionais acreditam. O Governador do Banco Central colocou de lado a hipótese de recurso de Dublin ao EFSF.

Apesar desta situação financeira muito grave, a Irlanda mantém um excedente na balança comercial, que em final de julho era da ordem dos €4,2 mil milhões, fruto do seu dinamismo nas exportações de alto valor acrescentado – uma situação radicalmente distinta do défice crónico que Portugal apresenta.