Setembro 2010


As yields (taxas de remuneração) das obrigações do Tesouro portuguesas a 10 anos fixaram-se esta segunda-feira nos 6,42%, segundo a Bloomberg.

O novo nível das yields é um novo máximo, para Portugal, desde a adesão ao euro em 1999, ultrapassando os anteriores máximos de 6,39% a 20 de setembro e de 6,33% aquando da crise da zona euro a 6 de maio. O spread em relação aos juros das Bunds alemãs (que servem de referência) é, agora, de 4,15%, superior ao atingido em 20 de setembro que se situava nos 3,92%.

Recorde-se que as taxas médias de remuneração das obrigações do Tesouro português a 10 anos já saltaram de 4,171% na operação do IGCP a 10 de março para 6,2% na operação de 22 de setembro, na semana passada.

A Irlanda, também, viu hoje as yields dos seus títulos do Tesouro a 10 anos subirem para 6,57%, mantendo-se acima das portuguesas, e marcando novo máximo em relação aos 6,48% atingidos a 20 de setembro. O spread em relação aos juros das Bunds é de 4,30%. A situação irlandesa foi hoje penalizada pelo facto da agência de rating Moody’s ter baixado a notação do Anglo Irish Bank, o banco irlandês mais problemático, para Baa3 (na linha de fronteira para títulos considerados de alto risco, com estatuto de ‘lixo’ – junk bond – com alta probabilidade de incumprimento), segundo a Markit.

As probabilidades de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos voltaram a subir em relação aos valores de sexta-feira, com a Irlanda acima de 33% e Portugal perto dos 30%, valores que ainda estão abaixo dos máximos atingidos durante esta Grande Recessão: 34,24% para a Irlanda a 23 de setembro último e 32,63% para Portugal aquando da crise da zona euro de 6 de maio. Grécia, Irlanda e Portugal são os três países membros do euro que se mantém no TOP 10 de risco de bancarrota monitorizado pela CMA DataVision.

Dois anos depois da falência do Lehman Brothers a 15 de Setembro, continua a não haver nem sequer um consenso sobre as causas da Grande Recessão iniciada em 2007 e os analistas internacionais ouvidos numa mesa redonda virtual organizada pela janelanaweb.com [que pode ser lida em inglês aqui] acham que as reformas feitas foram tardias e correm até o risco de ser muito morosas na aplicação.
[Texto longo]

Dois anos depois do pânico financeiro de Setembro de 2008, a Grande Recessão continua a surpreender os que a julgaram “normal” dentro dos parâmetros dos últimos sessenta anos. Não duraria, certamente, se quer um ano, olhando à “média” das crises anteriores de que havia memória do pós-guerra, e rapidamente desenharia um “V”. Durou 18 meses, concluiu esta semana o comité de 7 sábios do National Bureau of Economic Research (NBER), que acabou de decretar que ela terá terminado em Junho de 2009 nos Estados Unidos, com o fito de encerrar o dossiê.

Mas a sua própria génese foi “estranha”. Passou quase “despercebida” em 2007. A crise económica terá começado em Dezembro desse ano, segundo o NBER, mas o mundo estava de olhos postos noutros sinais. Depois de um choque petrolífero que atingiu o clímax no verão de 2008, no meio de muita especulação de preços no crude, o governo americano e a Reserva Federal (FED) deixaram ir para a frente a declaração de falência da secular casa financeira Lehman Brothers em 15 de Setembro. Tudo se resumia a um problema com uns derivados financeiros desconhecidos – o subprime – que custaram à Lehman um “buraco” de 613 mil milhões de dólares. Na sequência, o setor financeiro mundial entrou numa onda de pânico.

A não repetição da mesma atitude política por parte do secretário do Tesouro americano Henry Paulson e do presidente da FED, Ben Bernanke, perante a situação da seguradora AIG, um colosso global, evitou o colapso total. Mas o tema “crise” passou a ser diário.

Causas sem consenso

A contabilidade provisória desta crise tem sido feita. As bolsas viriam a cair mais de 55%, em média, até Março de 2009 e “descobriu-se”, a posteriori, que o pico da euforia bolsista posterior ao crash anterior de 2000 e 2001 já havia sido em Outubro de 2007. De um pico de capitalização global bolsista de 63 biliões de dólares em Outubro de 2007 deu-se um trambolhão para um mínimo de 28 biliões em Março de 2009, segundo cálculos da Cumberland Advisors.

O Produto Interno Bruto mundial cairia de 0,8% em 2009 e o comércio internacional teria uma quebra muito significativa nesse ano, entre 11% e 12,3%, consoantes as entidades que a calcularam. A destruição de activos financeiros à escala mundial no período do embate foi de 35 biliões de euros, o equivalente a 60% do produto interno bruto mundial de 2009.

Contudo, “continua a não haver consenso sobre as causas desta Grande Recessão” é a opinião unânime de Peter Cohan, consultor financeiro de Boston, de David Caploe, economista-chefe do EconomyWatch de Singapura, e de Marc Coleman, editor em Dublin, ouvidos.

Coleman, a contracorrente, acha que o interruptor da crise foi o colapso do Bear Stearns em Março de 2008 e que a queda da Lehman foi “inevitável e desejável”. Caploe, por seu lado, insiste que os responsáveis deveriam ter “entendido que o caso Bear Stearns não era mais uma daquelas coisas que acontecem, mas o precursor de algo sistémico”.

Mas, passadas as dores, o crescimento deveria “retomar” o seu ritmo “habitual” pós-crises cíclicas económicas, além do mais em virtude dos pacotes e estratégias anticrise através das políticas orçamental e monetária que, só até final de 2009, somaram 10,5 biliões de euros. Em 2010 espera-se que a economia mundial cresça 4,6%, naturalmente à custa das novas economias industrializadas da Ásia e das economias emergentes (nomeadamente China e Índia).

As ovelhas negras são o alto desemprego persistente e o empobrecimento de largas faixas da população em países tipicamente de classe média.

Risco de trapalhada em 2011

Contudo, quando “se governa por analogia”, como diz Jean-Pisani-Ferry, diretor do Bruegel, um think tank europeu, o resultado desemboca “numa trapalhada”. As projecções da OCDE apontam, agora, para uma desaceleração em 2011 tanto no PIB mundial como no comércio internacional. A assimetria gritante de ritmos de crescimento entre, por um lado, uma boa parte dos países desenvolvidos e, por outro, os emergentes e mesmo outros desenvolvidos é crescente, o que fez regressar do baú da história económica o medo de uma recaída na recessão (double-dip, na designação em inglês) em muitas economias desenvolvidas com potencial de contágio global.

O “Livro Bege” da FED falou, recentemente, de “uma profusão de sinais de abrandamento em relação aos períodos anteriores” e a sondagem da semana passada do instituto alemão ZEW revela um índice negativo de expectativa dos investidores em relação ao andamento da economia alemã, o motor da União Europeia e da zona euro.

Alguns mais pessimistas admitem que os Estados Unidos e a Zona Euro imitem a síndrome japonesa, com uma anemia de 1% de crescimento médio decenal. Com um problema adicional no que toca a União Europeia, levantado por um manifesto de economistas franceses de inspiração Keynesiana este mês: o facto de, no conjunto, a União estar pouco aberta sobre o exterior. Os países membros da EU têm por principais clientes e concorrentes os “colegas”. Uma redução massiva de despesas públicas simultânea em conjugação com políticas mercantilistas dos mais abertos ao exterior pode gerar um efeito bola de neve, avisam esses economistas. Outra particularidade é o facto de a economia real europeia depender para o seu financiamento em 80% do sistema bancário – e não do mercado de capitais, como é o caso da americana.

Ao desenho optimista em “V” da crise mundial substitui-se o “W”. Os mais pessimistas agitam mesmo um cenário em “L”, ou seja uma longa cauda de depressão, apesar dos sábios do NBER acharem que já se procedeu à inversão de dinâmica, que já se ultrapassou o que, tecnicamente, se designa por trough (vala, em que se passa de um período de depressão para uma retoma económica).

O medo não largou o edifício

Revelando que a economia real não está “convicta” da luz ao fundo do túnel para breve, e que o mundo da finança continua mergulhado na especulação, os sinais estão à mostra.

“O medo não largou o edifício”, diz Peter Cohan. O sinal mais óbvio é o do preço da onça de ouro, que subiu 33% desde Janeiro de 2008 e se aproxima do recorde nominal de 1300 dólares, indicando o papel de refúgio deste metal precioso. A especulação nas outras commodities continua ao rubro provocando oscilações “selvagens” dos preços com impactos dramáticos de um sobe e desce que inflaciona, por vezes, o dia-a-dia dos consumidores (gerando inclusive revoltas contra a carestia de vida), e deflaciona, outras vezes, os rendimentos dos países produtores e exportadores. Como exemplo, o Banco Mundial referiu que a América Latina é um dos continentes vulneráveis a esta volatilidade: Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela recebem entre 10% e 49% dos seus rendimentos da venda de commodities agrícolas, metais e petróleo e gás.

No mercado dos derivados financeiros ligados à dívida soberana rebentou uma onda de especulação em torno do disparo das probabilidades de default (incumprimento) num horizonte de cinco anos, com particular destaque para cinco países da zona euro (os humoristicamente chamados de PIIGS) e outros três membros da União Europeia, a Hungria, Roménia e Letónia.

Terapia europeia falha

A intervenção do Fundo Monetário Internacional na Grécia à beira de default no fim de semana de 7 a 9 de maio, a criação do Fundo de Estabilização do euro, a divulgação dos testes de stresse dos 91 bancos europeus e o papel de “bombeiro” financeiro do Banco Central Europeu (BCE) deveriam ter “acalmado” a situação – mas isso não está a acontecer. As próprias formas do BCE actuar como financiador de último recurso são cada vez mais “criativas”, referia esta semana o Eurointelligence.

O problema de endividamento público excessivo em diversos países regressou, assim, à ribalta, bem como a tomada de consciência da diminuição drástica do “espaço orçamental”, ou seja da margem de manobra das políticas Keynesianas por via governamental, e da armadilha da taxa de juro de referência manipulada pelos Bancos Centrais, já na “cave” (em muitos casos com juros reais negativos), como referem, com ironia, alguns analistas.

Os longos períodos de adaptação do sistema financeiro permitidos pela legislação aprovada pelo Congresso americano e sugeridos também pelas orientações de Basileia III trazem um risco acrescido. “Caso o sistema bancário não seja regulado adequadamente, o capital financeiro move-se em ciclos de expansão e de contracção de 8 a 10 anos e um novo pode estar em gestação agora. Se as exigências de aplicação de diversos rácios de capital dos bancos se arrastarem entre 2015 e 2023, como se ouviu referir nas conclusões em Basileia, deveremos esperar um processo de expansão e colapso económico entre hoje a aquela data mais afastada”, diz-nos Peter Cohan, subindo o tom de preocupação.

Só, na semana passada, os ministros das Finanças discutiram um documento confidencial de 10 páginas apresentado pelo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e se decidiram por instituir um trio de agências de regulação e iniciar uma “coordenação das políticas orçamentais e económicas”.

Dois anos depois da falência do Lehman Brothers
[Balanço realizado pelos três analistas]
FEITO
. Reforma financeira aprovada pelo Congresso americano, nomeadamente prevendo colocar os derivados financeiros em mercados organizados
. Criação de três agências de regulação para o setor bancário, o segurador e os mercados bolsistas na União Europeia
. Admissão de uma “coordenação” das políticas orçamentais dos membros da zona euro, incluindo a introdução de um sistema prévio de revisão dos orçamentos, conhecido no jargão eurocrata por “semestre europeu”
. Pacote de medidas de aumento dos rácios de capital dos bancos conhecido por Basileia III, mas os prazos de aplicação poderão deitar a perder a sua eficácia

POR FAZER
. Resolução do problema dos bancos demasiado grandes para falir (TBTF, no acrónimo em inglês) e do risco moral
. A transparência do “capital silencioso” nas contas dos bancos
. O controlo apertado ou mesmo extinção (segundo alguns) da titularização
. Agências independentes de notação financeira, quer nos Estados Unidos, como na Europa

Comité de sábios do NBER decretou hoje publicamente que a Grande Recessão nos Estados Unidos iniciada em Dezembro de 2007 terminou em Junho de 2009. O maior período de declínio desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

O comité de 7 sábios, reunido ontem, através de teleconferência, a partir de Cambridge, Boston, decidiu que a recessão americana iniciada em Dezembro de 2007 terminou em Junho de 2009. Tecnicamente, definiram que o trough (vala, marcando o final de um período de declínio de vários indicadores e o início de uma retoma) ocorreu em Junho de 2009, apesar de 4 indicadores dos 10 usados apontarem para Outubro e Dezembro de 2009.

O comité de 7 sábios, presidido por James Poterba, do Massachusetts Institute of Technology, dá corpo ao Business Cycle Dating Committee do National Bureau of Economic Research (NBER), que concluiu, agora, que se tratou da recessão mais prolongada – 18 meses – desde a 2ª Guerra Mundial. Mais longa do que a de 1973-75 e a de 1981-1982. A média de duração das recessões entre 1945 e 2009 foi de 11 meses.

O comité decidiu, ainda, que Junho de 2009 marca o final da recessão, estando excluída uma recaída (o famoso double-dip) dentro do mesmo ciclo. “Qualquer declínio futuro da economia será uma nova recessão e não a continuação desta recessão que se iniciou em Dezembro de 2007”, lê-se no comunicado (sublinhado nosso).

Entre as recessões americanas registadas, e analisadas pelo NBER, a de maior duração foi a que ocorreu entre Outubro de 1873 e Março de 1879 (65 meses). Seguiram-se a Grande Depressão de Agosto de 1929 a Março de 1933 (43 meses) e a de Março de 1882 a Maio de 1885 (38 meses). Com 18 meses de duração ocorreram 6 (incluindo esta Grande Recessão).

O olhar dos investidores sobre a solvência a cinco anos de Portugal não é, ainda, tão grave quanto a apreciação que têm hoje sobre a Grécia (que conserva o 2º lugar no “clube” dos 10 mais e que é considerada como podendo entrar em default ou re-estruturação da dívida logo que termine o programa do FMI e o apoio de Bruxelas em 2013) ou sobre a Irlanda, que tem estado no foco das atenções, no último mês e meio, em virtude da situação do seu sistema bancário, tendo fixado novos máximos históricos para a sua probabilidade de default e para as yields dos títulos do Tesouro a 10 anos.

A discussão “aquece”, por isso, em torno da deterioração das condições de crédito ao Tesouro português nos mercados financeiros e à banca portuguesa, em larga medida, em 2010, sustentada pela concessão de empréstimos pelo Banco Central Europeu (o equivalente a 30% do PIB).

Incendeia-se o debate sobre a questão do défice público e do “ajustamento” orçamental (que poderá levar oito anos, a tomar em linha de conta um recente estudo da OCDE).

Mas olha-se, pouco, para os indicadores “estruturais”.

Mais preocupante do que Grécia e Irlanda

Ora, em alguns destes indicadores “estruturais” importantes, a situação portuguesa é muito mais preocupante do que a grega ou a irlandesa – pelo que a apreciação da situação conjuntural actual tem de ser temperada com esses dados mais desconfortáveis.

A posição de investimento internacional líquida em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) no final de 2009 era negativa (ou seja, a diferença entre o stock de investimento no exterior e o que o exterior detém no país é largamente deficitária) de 111,7% para Portugal contra 82,2% para a Grécia e 75,1% para a Irlanda.

Quanto ao défice externo em percentagem do PIB estimado para o final de 2010 poderá atingir os 8,6% contra 7% na Grécia. Em 2009, a Irlanda teve um défice externo de 2,9%, que poderá reduzir-se para metade este ano e voltar a um excedente em 2011, com 1,4%, segundo o Central Statistics Office (equivalente ao INE).

Na dívida externa total (privada e pública) líquida em relação ao PIB para o final de 2009, Portugal apresentava a percentagem mais elevada, de 88,6%, contra 82,5% no caso grego e 75,1% no caso irlandês.

Os indicadores usados para avaliar o “esforço” orçamental português mostram, também, que, em 2009, metade das receitas fiscais (num total de 30,7 mil milhões) seriam “absorvidas” pelas necessidades líquidas de financiamento (15,4 mil milhões) do orçamento de estado naquele ano e que o montante da dívida pública directa (125,9 mil milhões) no final daquele ano levaria mais de quatro anos de receitas fiscais a ser pago. Os juros a pagar anualmente pelo Estado em comparação com as receitas fiscais subiram de 13% em 2006 para 15% em 2009.

A especulação sobre o risco de incumprimento das dívidas soberanas da Grécia, Irlanda, e Portugal continua elevada o que deixa este trio de países prisioneiro no “clube” da bancarrota. As razões que têm levado os investidores a penalizar estes países são várias e têm nas últimas duas semanas estado em destaque. Apontam-se quatro pistas como hipóteses de discussão.

Portugal viu na sexta-feira (17/09) as yields das obrigações do tesouro a 10 anos subir para 6,09% e a Irlanda estabeleceu novo recorde com uma taxa de remuneração de 6.29%. A probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) mantém-se muito elevada na Grécia, acima de 51%, e está próxima dos 30% no caso da Irlanda e perto dos 27% no caso português, segundo o monitor da CMA DataVision. A Irlanda viu o preço dos credit default swaps (cds, um derivado financeiro que funciona como seguro contra o risco de incumprimento da dívida soberana) disparar, no fecho da semana, para 421,31 pontos base, um novo recorde.

O TOP 10 mundial deste risco, o clube dos países com maior probabilidade actual de incumprimento da dívida soberana num horizonte de cinco anos, continua a albergar em segundo lugar a Grécia, em sexto a Irlanda e em sétimo Portugal.

Entretanto, a onça de ouro, na sexta-feira, atingiu um novo máximo histórico no seu preço nominal, atingindo no mercado COMEX os 1275,60 dólares, o que é interpretado como uma caminhada até ao patamar dos 1300 dólares e um sinal da desconfiança sobre a solidez da retoma da economia mundial. O que, ainda, agrava mais a percepção dos investidores.

O que motiva, então, esta desconfiança resiliente?

Há quatro dimensões da gravidade da situação que ultimamente têm sido bem documentadas.

1º Tema #O BCE como bombeiro financeiro: no caso português em 2010 injectou 30% do nosso PIB na banca portuguesa

O financiamento líquido anual por parte do Banco Central Europeu (BCE) ao sistema bancário europeu continua a ser muito elevado. Em Julho de 2010, no caso português, era de 49,2 mil milhões de euros, o equivalente a 30% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2010, segundo dados da economista Cristina Casalinho, do Banco BPI.

A banca espanhola financiou-se no BCE, até Julho, em 130 mil milhões de euros quase tanto como a banca alemã, em 142,7 mil milhões. Mas os três países com maior nível de financiamento da banca por parte do BCE em percentagem do seu PIB foram a Irlanda (51,2%), a Grécia (38,4%) e Portugal (30%).

A banca irlandesa é a que mais tem estado dependente do BCE nos últimos três anos: 72,2% do seu PIB em meados de 2008, 66,1% em Julho de 2009 e 51,2% em Julho de 2010. No caso grego e português, a situação agravou-se em 2010. No caso português, a dependência do financiamento pelo BCE não passava de 3,8% em Julho do ano passado – uma viragem radical, portanto, em 2010. Ou seja, o financiamento da banca portuguesa junto do BCE multiplicou por quase 8 vezes e o peso no PIB decuplicou.

2º Tema: #Arranja-se dinheiro para financiar a dívida pública mas à custa de um disparo das yields.

A colocação da dívida pública tem-se feito à custa de um agravamento das yields (taxas de rendimento a pagar aos tomadores de títulos do Tesouro) e de uma diminuição cada vez mais sensível da relação entre a procura no leilão dos títulos e as propostas aceites (o designado rácio bid-to-cover).

No caso português, o IGCP, a agência que executa estas operações, já realizou, este ano, 18 colocações de Obrigações do Tesouro (OT, com maturidades entre 2012 e 2023) e 17 operações de Bilhetes do Tesouro (BT, só referindo as com maturidades em 2011) num total de 26,6 mil milhões de euros, ou seja 16,2% do PIB estimado para 2010 e mais de 30% da Despesa Total das Administrações Públicas prevista para este ano no Orçamento de Estado. Nas OT, o pico, este ano, das yields a 10 anos foi atingido, recentemente, em 8 de Setembro com uma taxa média elevada de 5,973% e o pico, este ano, das yields a 5 anos em 23 de Junho com uma taxa média elevada de 4,657%. Nos BTs com maturidades em 2011, o pico, este ano, das yields foi atingido, esta semana, em 15 de Setembro com uma taxa média elevada de 3,369%.

As necessidades líquidas de financiamento do orçamento de Estado entre 2009 e 2013 para o caso português estão estimadas em 53 mil milhões de euros, segundo a OCDE – em 2009 foram de 15,4 mil milhões e para 2010 estão estimados 13,8 mil milhões, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, na sua notificação sobre o procedimento dos défices excessivos. O maior volume de financiamento líquido para aquele período será necessário em Itália (367 mil milhões de euros), logo seguida de Espanha (com 333 mil milhões), da Grécia (com 81 mil milhões), da Irlanda (com 70 mil milhões) e, por fim, Portugal. Comparando duas economias similares no PIB, as necessidades líquidas de financiamento na Irlanda são superiores ao caso português.

3º Tema: #Há uma exposição à dívida soberana “escondida” nos banking books

A exposição total da banca europeia à dívida soberana dos países da União Europeia, e em particular ao conjunto de países que têm estado em foco na probabilidade de default num horizonte de cinco anos (Grécia, Irlanda, Portugal, Hungria, Espanha e Itália), é muito superior à que foi conhecida aquando da divulgação dos testes de stresse (que apenas se baseava na exposição existente no tecnicamente designado por trading book).

A diferença na exposição em toda a União, entre um critério (trading book) e o outro (banking book, incluindo todas as exposições), é de cerca de 1,3 biliões de euros, segundo uma avaliação de Adrian Blundell-Wignall e Patrick Slovik, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), num estudo recente intitulado “The EU Stress Test and Sovereign Debt Exposures”.

No caso da exposição da banca europeia à dívida soberana portuguesa, é uma diferença entre 7,8 mil milhões de euros e 37,4 mil milhões.

As exposições maiores à dívida portuguesa em termos de rácio entre a exposição e o capital Tier 1 localizam-se na Bélgica (9%) e na Alemanha (7%). A banca portuguesa, por seu lado, está mais exposta às dívidas soberanas da Grécia (9% de exposição em relação ao capital Tier 1) e Itália (6%). As exposições da banca portuguesa à dívida soberana dos outros quatro países do grupo denominado humoristicamente de PIIGS somam 4,1 mil milhões e estão, no entanto, teoricamente “garantidas” nos próximos três anos pela Facilidade de Estabilização Financeira Europeia (EFSF) que poderá emprestar aos países soberanos em apuros. Portugal não mostra exposição à dívida da Hungria, que está fora da zona euro.

O estudo dos técnicos da OCDE verificou ainda que a banca de cada país está fortemente exposta à dívida soberana do próprio país. O caso mais extremo é o da banca grega com 226% de exposição ao capital Tier 1, seguida de Itália com 157%, da Hungria com 133%, de Espanha com 113%, e a alguma distância de Portugal, com 69%, e muito mais da Irlanda, com apenas 26%.

4º Tema: # Os ajustamentos orçamentais vão ser longos e politicamente difíceis: no caso português 8 anos

Os ajustamentos orçamentais de correcção dos actuais rácios “malditos” (défice público e dívida pública face ao PIB) vão muito para além de 2013 e exigem cortes muito significativos no défice primário das contas públicas. O que requer capacidade política para esta prolongada austeridade e “ajuda” do crescimento económico. Dois vectores que inspiram muitas dúvidas a muitos analistas.

O estudo da OCDE já referido aponta que os ajustamentos necessários, “para se regressar aos níveis de dívida face ao PIB do ponto de partida de 2009”, exigiriam 13 anos no caso da Irlanda e um corte acumulado de 16% do PIB no défice primário, oito anos no caso da Grécia e um corte acumulado de 12,8%, oito anos no caso de Portugal e um corte acumulado de 11% e, finalmente, oito anos no caso de Espanha e um corte acumulado de 8%.

Ou seja, qualquer um destes ajustamentos – e em particular o irlandês – estende-se para além da vigência da EFSF, conclui o estudo da OCDE citado.

Uma análise do Barclays Capital sobre o caso específico da Irlanda, da autoria de Antonio Garcia Pascual e Piero Ghezzi, comentada no Financial Times de quinta-feira por Joseph Cotterill, referia que o ajustamento orçamental entre 2010 e 2014 no caso de Dublin implicaria um corte acumulado de 11,5% no PIB por parte do défice primário, no melhor cenário (visão optimista com um crescimento de longo prazo médio de 3%, que é esperado pelos analistas irlandeses), a 13,3%, no cenário “pessimista” (ou seja, um crescimento da economia do Tigre Celta “apenas” de 2%).

Ironicamente, Cotterill intitulava a sua crónica na coluna FT Alpaville de “A Rocha de O’Sísifo”, parodiando o célebre mito grego de Sísifo – segundo contava Homero, na ‘Odisseia’, os deuses tinham condenado o falecido rei de Corinto a empurrar uma rocha até ao cimo de uma montanha íngreme no inferno, mas antes que alcançasse o cume a pedra voltava a cair, em virtude do seu peso. E Sísifo voltava à estaca zero. Pelo que Cotterill recomenda: a Irlanda que recorra, quanto antes, à Facilidade Financeira europeia.

O ouro, considerado um valor de refúgio em tempo de recessões e incerteza, atingiu terça feira (14/09) novo máximo histórico, fechando nos 1269,70 dólares dólares por onça no COMEX e 1269,34 dólares no mercado spot.

O máximo histórico estava nos 1256,6 dólares alcançados a 18 de Junho passado. Durante o dia de terça feira a onça chegou a negociar nos 1274,75 dólares.

O ouro já valorizou 25,26% nos últimos doze meses, sendo o quinto maior aumento de preço entre as commodities, segundo a Trading Economics. À frente do ouro, o algodão que subiu 40,64%, o café que aumentou 32,2%, o gás natural que teve um aumento de 29,74% e o trigo com uma subida de 25,57%.

A psicologia de uma nova crise da dívida soberana em vários países da zona euro regressou esta semana, sobretudo com o agravamento da situação na Irlanda e com o Financial Times e o The Wall Street Journal deitando lenha para a fogueira. O risco de default não é provável a curto-prazo, mas muitos países europeus poderão não ter as almofadas para segurar a situação, diz Cinzia Alcidi, economista do think tank CEPS, de Bruxelas, numa entrevista, que pode ser lida, na integra, em inglês, aqui.

ENTREVISTA (Adaptação do original) ©JNR, 2010

P: Quase quatro meses depois da crise de maio na zona euro e pouco mais de um mês sobre a divulgação dos resultados dos testes de stresse aos bancos europeus – esta semana, aliás, colocados em causa -, o clima de crise reinstalou-se no mercado dos credit default swaps (derivados financeiros que funcionam como seguros contra o incumprimento da dívida). O que é que correu mal?
R: A actual crise da dívida soberana na Europa é basicamente uma crise no sistema bancário. A única excepção é provavelmente a Grécia, em que a questão central é a solvência do governo. No caso de Portugal e da Irlanda – e, também, de Espanha -, a meu ver, o problema central é a saúde – ou melhor a falta de saúde – do sistema bancário combinada com indicadores fundamentais económicos fracos. Alguns desses bancos são provavelmente insolventes. Até agora, os problemas do sistema bancário têm sido tratados como um problema de liquidez, injectando dinheiro ou garantias. Mas, agora, a almofada de garantias necessária é demasiado gigante para muitos países – alguns países, por seu lado, necessitarão de garantias.

Depois de 2013 a situação pode ser diferente

P: Há o risco de bancarrota ou de re-estruturação da dívida nos cinco países chamados humoristicamente de PIIGS?
R: Direi que não no curto-prazo. Nem no caso dos bancos, nem dos países. Mas a fotografia pode mudar no longo-prazo. O país com a maior probabilidade de uma re-estruturação da sua dívida soberana é a Grécia. De momento, Atenas beneficia de um acordo especial que, basicamente, exclui qualquer forma de default. Ora, depois de 2013, a situação pode ser diferente. Os mercados financeiros parecem acreditar no cenário de que a Grécia não será capaz de honrar os seus compromissos e que uma re-estruturação da dívida será inevitável – no momento em que tal plano [com o Fundo Monetário Internacional e Bruxelas] terminar.

P: Politicamente essa palavra “incumprimento” é proibida no discurso oficial?
R: O Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia têm uma posição muito clara contra o default (incumprimento) e a re-estruturação da dívida – uma nação soberana não pode cair em incumprimento. É, também, claro que o BCE está a desempenhar um papel central para evitar, ou pelo menos adiar, o default, injectando apoio financeiro sem limites nos bancos e intervindo no mercado de títulos do Tesouro.

P: E em relação aos bancos, a palavra maldita já é mais provável?
R: Os bancos, de facto, estão a viver uma situação muito tensa. Uma das lições da Grande Depressão durante os anos 1930 nos Estados Unidos foi a de evitar a falência de bancos. O caso da falência do Lehman Brothers há dois anos aí está para comprová-la, pela negativa, com a enorme disrupção de mercado que tivemos a seguir. Contudo, esta lição de evitar falências cria um ambiente do que chamamos de risco moral, um dos aspectos que, aliás, contribuiu para gerar as pré-condições desta crise. Penso que primeiro do que tudo há que colocar em funcionamento um sistema de resolução da crise bancária. Sabemos que as autoridades europeias estão a trabalhar activamente nessa frente. É absolutamente urgente e necessário. Reduzirá, sem dúvida, o risco moral, protegerá os cidadãos e contribuintes e garantirá a confiança nos bancos que a merecerem.

Muito difícil restaurar a confiança dos mercados financeiros

P: As yields (remunerações) dos títulos do Tesouro com maturidades a 10 anos estão muito altas nos casos da Irlanda e de Portugal – ainda a metade das para a Grécia e menos do que para a Hungria, mas muito altas, penalizando seriamente as condições de crédito e o esforço de cumprimento das obrigações da dívida. E isto sucede, apesar da intervenção de Bruxelas e do Banco Central Europeu (BCE). Como é que estes países podem inverter a situação?
R: Creio que é muito difícil restaurar a confiança dos mercados financeiros e regressar à situação anterior a esta crise da dívida. Isso pode levar anos – e os mercados financeiros não estão lá muito pacientes. Continuam muito nervosos. A minha impressão é que a incerteza sobre a situação real continua a desempenhar um papel importante. De facto, depois dos testes de stresse não deveríamos estar a assistir a isto. Nos países periféricos, os bancos estão a depender, quase completamente, do BCE como fonte de financiamento.

P: Mas essa dependência não é grave?
R: De facto, bancos gregos, portugueses e alguns irlandeses parecem não conseguir encontrar outros bancos que lhes emprestem no mercado interbancário. Por isso, o recurso ao BCE. A razão deve estar no facto de que os potenciais credores não acreditam na capacidade de pagamento do serviço de dívida por parte desses bancos com falta de liquidez.

P: Mas os testes de stresse não deveriam ter “limpo” essa questão?
R: O seu principal objectivo era exactamente clarificar a real situação de cada um e, reduzindo a incerteza, restaurar a função desse segmento do mercado interbancário. Alguns bancos poderão ser afastados do mercado financeiro porque há, de facto, um problema de solvência.

P: E como é que essa doença individual de alguns alastra a todo um país?
R: Quando todo o sistema bancário de um dado país vê vedado o acesso ao mercado interbancário, isso só pode significar que o pior cenário é “colado” a todo o país, sem distinções entre as diferentes entidades, e esta é a situação que temos quando a incerteza é elevada.

P: O clima ainda se toldou mais com os artigos publicados, recentemente, no Financial Times e no The Wall Street Journal…
R: Pois, os testes foram desacreditados esta semana na imprensa internacional, como tendo dado informação incompleta. As notícias levantaram questões sobre qual é a real exposição de alguns bancos. E o mercado financeiro reagiu, simplesmente, vendendo. Enquanto a volatilidade nos mercados for assim tão elevada, será difícil encontrar alguma normalidade.

Se o problema real é a insolvência, apenas injectar dinheiro não cura a doença

P: Mas para que serve, então, a intervenção conjugada de Bruxelas, do FMI e do BCE?
R: Tem de se ter em conta que essa intervenção, e também da EFSF (a Facilidade Europeia de Estabilização Financeira), destinam-se a resolver problemas de liquidez – o único aspecto sobre o qual actuam – e ganhar tempo esperando que os problemas encontrem uma solução. Sem dúvida que isto ajuda. Mas em alguns casos, seja um país ou um banco, se o problema real é a insolvência, apenas injectar dinheiro não cura a doença – só os sintomas e só por algum tempo.

P: E que implicações tem em tudo isto o cenário “invulgarmente incerto” sobre a economia no curto e médio-prazo, para usar as palavras de Bem Bernanke, o presidente da Reserva Federal americana?
R: É claro que o risco de uma recaída é algo concreto. Mas a meu ver esse double-dip não é o mais provável. Certamente que não vamos ver nos próximos anos o tipo de taxas de crescimento anteriores a 2008 em todos os países da OCDE, mas crescimento mesmo no meio de alguma confusão é o mais provável.

P: É o cenário que vê para a zona euro?
R: Particularmente na zona euro. Em média, espero crescimento positivo, mas baixo, e com a permanência durante algum tempo de uma enorme heterogeneidade entre o núcleo central e a periferia.

Vai ser preciso uma convergência na competitividade

P: O que é que isso implica?
R: Os países da zona euro necessitam de ajustamentos de fundo, tanto internamente como entre os próprios países, para absorver os excessos da última década em alguns casos, sobretudo as bolhas de consumo e no imobiliário. Vai ser preciso uma convergência na competitividade, o que poderá acontecer em larga medida através das forças de mercado.

P: Em que sentido?
R: No sentido de salários mais altos em alguns países – por exemplo, na Alemanha, com procura crescente e emprego. E em baixa noutros – queda da procura deverá empurrar para baixo os salários em Espanha, Grécia e Portugal. Estes processos podem ser lentos, e dolorosos. Mas são inevitáveis, neste momento.

O mapa do poder financeiro mundial mudou drasticamente desde o início da Grande Recessão – um ponto em que temos insistido. As potências emergentes começam a dominar os fluxos de investimento internacional como destinos de eleição e como investidores globais. Na Europa, Espanha e Polónia merecem atenção particular.

As quatro potências designadas pelo acrónimo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), juntamente com os Estados Unidos, são os cinco principais destinos de investimento directo no estrangeiro eleitos pelas transnacionais e pelas agências de promoção do investimento para 2010-2012, segundo uma sondagem da UNCTAD (acrónimo em inglês para Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) junto de mais de três centenas e meia de empresas transnacionais e agências de promoção e atracção de investimento.

Nos vinte principais destinos encontram-se cinco na zona euro (Reino Unido, em 7º, Alemanha, em 10º, Polónia em 12º, França em 14º e Espanha em 20º). O México (apesar da turbulência interna, é o 6º destino eleito), bem como o Vietname, Indonésia, Tailândia, Austrália e Malásia encontram-se entre os 15 primeiros destinos. Em África, o único destino escolhido, neste grupo de elite de 21 países nomeados, é a África do Sul. Na América Latina, de destacar, ainda, o Chile e o Peru.

A corrida às commodities

O papel das commodities exploradas em muitos destes países referidos como destinos de eleição é crucial nas estratégias das transnacionais. Aliás, os respondentes da sondagem consideraram o sector primário – principalmente as indústrias extractivas – como o alvo principal do investimento internacional nos próximos dois anos, a distância significativa do sector dos serviços e da indústria de transformação.

Por outro lado, na opinião daqueles protagonistas da internacionalização ouvidos pela UNCTAD, os dez principais investidores no mundo nos próximos dois anos serão os Estados Unidos, China, Alemanha, Reino Unido, França, Índia, Canadá, Espanha, Rússia e Itália – de sublinhar que o gigante asiático é considerado o número dois nas estratégias de projecção global. De chamar à atenção, ainda, para o papel crescente da Índia, Canadá, Espanha e Rússia.

Apesar de Espanha ser incluída nos chamados PIIGS, com situação crítica na zona euro em termos de dívida soberana e sistema bancário, a sua afirmação global é reconhecida, e avaliada com optimismo, pelas transnacionais.

Esta mudança geoeconómica relevante – no destino dos investimentos directos no estrangeiro e na subida da China a número dois nos emissores desse investimento – ocorreu após o pânico financeiro de 2008 e a aceleração da Grande Recessão que projectaram para a ribalta as potências emergentes, apesar de uma quebra de mais de 50% dos fluxos de investimento internacional em 2008 e 2009 e de o nível em meados de 2010 permanecer abaixo dos montantes anteriores à explosão recessiva. A UNCTAD só prevê que os fluxos de investimento internacional retomem o nível de 2007 – o patamar dos 2 biliões de dólares (triliões, na designação americana) – daqui a quatro anos.

Uma opinião relevante

O World Investment Prospects Survey 2010-2012, realizado por uma equipa daquele organismo das Nações Unidas, toma o pulso às estratégias de projecção externa de 236 transnacionais, mais de 1/3 das quais são hoje verdadeiramente globais, e 116 agências, um exercício que é feito desde 1995, como trabalho de casa para a publicação anual World Investment Report. A sondagem, agora divulgada, foi realizada entre Fevereiro e Maio, e ouviu, ainda, 30 peritos.

A opinião das mais de duas centenas de transnacionais é relevante, pois 72% desse universo projecta em 2012 ter mais de 50% das vendas a nível externo e quase 50% espera ter mais de metade dos seus investimentos e dos seus empregados fora das fronteiras nacionais. O optimismo dos entrevistados sobre 2011 aumentou em relação à opinião sobre 2009 e 2010 e é largamente maioritário para 2012.

Os resultados da sondagem revelam, ainda, que 68% não entraram num processo de desinvestimento e que preservaram a sua estrutura de projecção no estrangeiro, contrariando a ideia de um recuo na internacionalização durante a Grande Recessão em curso.