Quase um mês passado sobre a divulgação otimista dos resultados dos testes de stresse ao sistema bancário europeu, quase todo o grupo designado por PIIGS viu as probabilidades de default a cinco anos subirem. A exceção foi Portugal até hoje de manhã. Nas yields houve um ganho generalizado, à exceção da Grécia, que bateu um recorde. A Irlanda reentrou hoje no TOP 10 mundial do default, atualizado diariamente pela CMA DataVision, e bateu o seu anterior recorde em probabilidade de default, chegando perto dos 23%.

Portugal, Irlanda, Itália e Espanha foram quinta-feira (19/08) os países com maior aumento diário de probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos, segundo o monitor da CMA Datavision que abrange mais de seis dezenas de países cujas dívidas são seguradas no mercado especulativo dos credit default swaps (cds).

Também a Grécia – que continua em 2º lugar no clube dos países com maior probabilidade de bancarrota num prazo de cinco anos – manteve a tendência altista que se tem manifestado desde 5 de agosto em todo o grupo dos PIIGS (acrónimo humorístico em inglês para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), com alguns ziguezagues.

Atenas bateu hoje o recorde nas yields (remunerações pagas pelos estados aos tomadores) das obrigações gregas a cinco anos, subindo para 11,56% – mais de 10 pontos percentuais acima das yields pagas aos tomadores das ‘Bunds’ alemãs, que servem de referência na zona euro.

Hoje, o mercado dos cds abriu, de novo, em alta para o grupo dos cinco da zona euro. No fecho da sessão de sexta-feira, a Grécia estava acima dos 52%, a Irlanda a subir, de novo, perto dos 23% (entrando de, novo, no TOP 10 mundial do risco de default) e Portugal acima dos 21%. A Espanha e a Itália, também, sobem, ainda que em patamares inferiores. Mantém-se uma sincronia de aumentos nos PIIGS.

A exceção portuguesa

Apesar do otimismo introduzido pela divulgação dos testes de stresse ao sistema bancário europeu em 23 de julho, praticamente um mês depois verifica-se que quase todo o grupo dos PIIGS viu as suas probabilidades de default subirem num horizonte de cinco anos.

As que mais subiram foram a grega e a irlandesa, o que conduziu o ‘tigre celta’ a ultrapassar Portugal desde 10 de agosto, tendo inclusive entrado no TOP 10 mundial do risco de default a 16 de agosto. Saiu, no entanto, desse clube logo no dia seguinte, mas reentrou hoje, estando já no 8º lugar. A exceção a este agravamento foi Portugal que manteve a probabilidade de default inalterada até hoje de manhã.

Os benefícios do otimismo introduzido pelos testes de stresse observam-se nas yields das obrigações emitidas por Portugal, Irlanda e Espanha que baixaram desde 23 de julho, com destaque, uma vez mais, para o Tesouro lisboeta que assistiu ao maior desagravamento. As yields de Obrigações do Tesouro português a 10 anos baixaram de 5,55% em 23 de julho para 5,18% na quinta-feira. A Irlanda viu as yields das suas obrigações subirem acima das portuguesas, estando com as suas condições de crédito mais agravadas. Na sexta-feira, as yields a 10 anos subiram para 5,22% no caso português e para 5,30% no caso irlandês.

Fora dos PIIGS, o país “intervencionado” pelo FMI desde 2008 que mais beneficiou com o otimismo dos testes de stresse foi a Hungria, apesar da mudança de governo. A probabilidade de default baixou em mais de 1 ponto percentual (retirando-a da fronteira do clube da bancarrota) e as yields das suas obrigações a 10 anos baixaram 0,78 pontos percentuais. As yields das obrigações húngaras mantêm-se, contudo, num patamar muito superior ao irlandês ou português. Fecharam a semana nos 6,62%.

Controvérsia sobre os testes de stresse

Três dias depois da divulgação pelo Banco Central Europeu dos testes de stresse a 91 bancos do sistema financeiro europeu, o Citi divulgou, a 26 de julho, os resultados de uma avaliação similar, ainda que com uma malha mais apertada.

Aplicando os mesmos critérios do BCE, o Citi divulgava 24 bancos em dificuldades em 2011, em vez de 9. Entre os 15 adicionais estavam 5 bancos gregos, mais Cajas e o Banco Pastor no nosso vizinho, e o Allied Irish Banks PLC, o banco com uma situação “tóxica” mais grave no ‘tigre celta’.

Apertando ainda mais a malha, considerando um teste na base de um rácio mais exigente do que o do BCE, o Citi revelava que 57 bancos dos 91 teriam dificuldades em 2011 em enfrentar um cenário de choque mantendo um rácio de capital superior a 6% (no equity Tier 1), e inclusive 23 mostravam um rácio negativo, ou seja um sinal de insolvência.

Neste teste mais exigente não passaria nenhum dos bancos portugueses, nem irlandeses nem gregos. No entanto, nenhum dos bancos portugueses estaria numa situação de insolvência. Em Espanha apenas quatro (BBX, Kutxa, Santander e Unicaja) passariam os testes, três (Intesa, Unicredit e UBI) na Itália e dois (OTP e FHB) na Hungria.

Como concluía a análise feita pelo blogue Calculated Risk, a situação do sistema bancário europeu é mais frágil no caso de um evento extremo do que aparentam os resultados divulgados pelo BCE. Algo que os investidores internacionais sabem.