A entrada em força dos investidores financeiros nos contratos de futuros nos mercados de commodities (mercadorias) está a provocar, de novo, “oscilações selvagens” nos preços e introduziu um factor de volatilidade que o analista Nathan Martin considera “trágico” para a economia real. Estes investidores são designados por “não-comerciais”, por não estarem envolvidos no negócio físico, mas apenas em operações financeiras.

Tais movimentos são encabeçados por hedge funds e divisões de aplicações financeiras de grandes bancos usando ferramentas sofisticadas de negociação (designadas como high-frequency trading, plataformas de grande poder computacional), mas em que se envolve, também, por contágio, a arraia-miúda dos especuladores atraída pelo efeito megafone das notícias nos media.

“Esta volatilidade foi ampliada desde o advento dos exchange trade funds (ETF) e de outras formas de derivados baseados em commodities. A Reserva Federal, no caso americano, com a sua política monetária de taxa básica de juros próxima de zero, inundou-nos de uma liquidez massiva que se encaminhou para estes mercados. O caso da seca na Rússia, por exemplo, apenas acicata os investidores que andam sempre à cata de oportunidades para especular. Dá-se um efeito bola de neve, com cada vez mais gente de fora a entrar, o que amplia ainda mais estes movimentos”, explica Nathan Martin, responsável pelo blogue Nathan’s Economic Edge.

Efeito aterrador

Esta multidão de investidores e a sofisticação da especulação, diz-nos Martin, “tem literalmente um efeito aterrador no planeta, pois a principal característica é uma flutuação muito viva dos preços das matérias-primas alimentares”, uma área muito sensível no nível de vida das populações nos países pobres e emergentes, onde a agroflação (inflação por via da alta de preços dos produtos alimentares) tem um peso significativo no índice de preços. E prossegue: “Estas oscilações selvagens, sem dúvida, que são muito lucrativas para os metidos no negócio da economia do ‘papel’ financeiro, mas são devastadoras para a agricultura real e para o aumento da fome mundial”.

Os dois casos típicos mais recentes de “oscilações selvagens” ocorreram com o cacau (um processo de alta e quebra desde o início do ano, com picos em Janeiro, Março, Abril e Julho) e com o próprio barril de petróleo, com variações significativas dos preços nos dois sentidos. No caso do barril da variedade Brent, o petróleo de referência na Europa, depois de ter iniciado o mês acima de 81 dólares, com uma subida no primeiro dia de negociação de Agosto no mercado spot de quase 4% e de ter prosseguido a alta até próximo dos 83 dólares, iniciou um processo em ziguezague, estando, hoje nos 76 dólares.

Por outro lado, o que está a acontecer este mês com o trigo (o maior disparo entre todas as matérias-primas agrícolas, com um aumento de 25%), o açúcar, a soja e o cobre fez regressar o fantasma do que ocorreu no verão quente de 2008, quando várias commodities atingiram picos históricos, com destaque para o petróleo, o caso, então, mais mediatizado.

Na altura, a polémica estalou sobre as razões de tal disparo súbito no primeiro semestre de 2008, seguido depois por uma queda abrupta quando estalou o pânico financeiro e se iniciou a recessão económica e a quebra do comércio internacional.

Alun H. Thomas, especialista do Fundo Monetário Internacional, juntamente com Martin Muhleisen e Malika Pant, modelizou, recentemente, o comportamento das várias variáveis envolvidas no caso do preço do petróleo. O modelo, explicado em “Peaks, Spikes and Barrels: Modeling Sharp Movements in Oil Prices” (IMF Working Paper, WP/10/186, Agosto 2010) verificou que, para além de um impacto de longo prazo da procura, sobretudo por parte das variações do consumo dos países emergentes, e de variações na oferta, sobretudo por parte dos produtores não-alinhados na OPEP, ocorreu um facto novo recentemente (um tema que já abordámos, também, noutro artigo do diário de bordo da crise).

Sincronização de movimentos

Nota-se, a partir de 2007, uma sincronização entre as variações do preço real do petróleo (avaliado em direitos de saque especiais, a unidade monetária do FMI, para neutralizar as variações do câmbio do dólar) e as decisões dos investidores não-comerciais em termos de saldo líquido das suas posições longas em contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros em commodities). [Para os interessados, o estudo apresenta um painel de gráficos, na Figura 2 – “Oil Prices: Role of Fundamentals and Speculation”, na página 9, sendo o gráfico de referência para este comentário o sexto.]

O preço sobe vertiginosamente acompanhando, a partir de certa altura, o disparo da entrada em força dos especuladores e desce quando o saldo de posições longas baixa. Esta relação não se observou em situações anteriores. “Houve claramente uma mudança nos portefólios financeiros para um investimento massivo em commodities”, afirma Alun Thomas, corroborando a opinião de Nathan Martin.

Segundo dados do Barclay’s Capital Commodity Research, os activos financeiros em commodities sob gestão (AUM, na designação técnica em inglês) passaram de 70 mil milhões de dólares em 2005 para 270 mil milhões no segundo trimestre de 2008. Depois caíram a pique no segundo semestre de 2008 e voltaram a subir em 2009, situando-se no final desse ano nos 263 mil milhões, quase o mesmo do que no Verão quente do ano anterior. Em 2010 continuaram a subir para valores ainda mais altos tendo em Abril chegado próximo dos 294 mil milhões. No final do segundo semestre terão baixado para 292 mil milhões.

Segundo outros cálculos estariam nos 264 mil milhões no final do segundo semestre deste ano. Mesmo assim, o patamar em que se encontram continua a ser quase 4 vezes mais do que há cinco anos, apesar de longe do pico de 310 mil milhões no segundo trimestre de 2008.

No entanto, Alun Thomas explica que, desta vez, “não espera um padrão de disparo dos preços [como no primeiro semestre de 2008], mas um aumento gradual à medida que a economia mundial retome o crescimento”. Mas deixa um “se”: “É evidente que se houver uma repetição da recessão, o preço do petróleo pode oscilar de novo significativamente”.

O especialista estima, também, que a sincronização ocorrida entre os preços do petróleo e os movimentos dos especuladores “vá declinar”. “Na nossa análise, o saldo líquido dos contratos dos não-comerciais não é um determinante significativo dos preços do petróleo no longo prazo”, explica.

Geopolítica não influencia tanto quanto se pensa

Outra verificação curiosa do modelo destes técnicos do FMI, é que a geopolítica tem uma influência menor do que se costuma assinalar [como se pode ver no 5º gráfico da Figura 2 já referida]. Na verdade, a relação até é paradoxal a partir de 2002: “Usando um índice de risco geopolítico [do International Country Risk Guide], não encontramos nenhum prémio no preço quando os riscos aumentam. De facto, verificámos o oposto: o preço do petróleo aumenta quando o risco geopolítico desce”, diz Thomas. E explica porquê: “Os países da OPEP tendem a cumprir mais as quotas definidas, o que até gera uma pressão altista sobre os preços”. Uma situação manifestamente distinta da que ocorreu aquando dos choques petrolíferos dos anos 1970 e 1980.