O consumo de cereais no mundo vai crescer em mais de 45 milhões de toneladas métricas, mas a produção vai diminuir nesta campanha 2010 e 2011 em 13,7 milhões, segundo dados ontem divulgados pelo World Agricultural Supply and Demand Estimates (WASDE) do Departamento de Agricultura (equivalente a Ministério) do governo dos Estados Unidos.

O resultado vai ser um ‘buraco’ de 32,48 milhões de toneladas métricas entre o consumo (que crescerá 2 % em relação a 2009 e 2010) e a produção (que se contrairá em 0,6% em relação à campanha de 2009 e 2010) e uma redução dos stocks finais na mesma quantidade. O que não aconteceu na campanha cerealífera anterior de 2009 e 2010, em que houve um excedente de 26,8 milhões de toneladas métricas.

O principal contribuinte para o ‘buraco’ vai ser o trigo, que verá a produção reduzir-se em 15,3 milhões de toneladas métricas.

A produção mundial de cereais para 2010/2011 deverá atingir 2.212,8 milhões de toneladas métricas e o consumo 2.245,28 milhões. Os stocks finais projectados deverão ser de 444,32 milhões de toneladas métricas.

O resultado será a agroflação [inflação por via dos preços das commodities agrícolas]?, interrogam-se os analistas.

Trigo é o caso mais grave

Muitos dos cereais têm registado uma alta de preços durante 2010, como já referimos no post anterior (diário de bordo 114). O caso mais em destaque é o trigo, com uma variação do preço em relação ao mês anterior de 35,05% (a mais alta em todas as categorias de mercadorias) e de cerca de 25% em termos anuais (a mais alta nos cereais e a segunda mais alta, depois do algodão, nas matérias-primas agrícolas).

O preço deste cereal, além do impacto da especulação financeira generalizada nas commodities, está a sofrer a pressão das secas e das cheias nos países principais produtores e particularmente as reduções projectadas de produção de 8 milhões de toneladas na Rússia, de 4 milhões na União Europeia, 3 milhões na Ucrânia e 2 milhões no Cazaquistão para a campanha de 2010/2011. A produção diminuirá, também, na Argélia, Brasil, Uruguai, Bielorrússia e Croácia. Em compensação, a Índia, Estados Unidos, Austrália e Uzbequistão vão ter aumentos de produção.

A Rússia, o terceiro produtor mundial de trigo, afectado profundamente pelas secas (que já destruíram ¼ da superfície cerealífera do país) e incêndios, decidiu a partir de domingo e até final do ano proibir as exportações deste cereal.