Ter 10 Ago 2010
Os preços das commodities estão a enlouquecer, de novo? – diário de bordo 114
Por JNR na secção Choque petrolífero , Ciberardina na crise (do default) , crise , Geoprotagonistas , Gestão do risco , Globalização , Inteligência Económica , O novo capital financeiro[2] comentários
Este verão parece estar a incendiar, de novo, os preços de algumas commodities (mercadorias). Nada que se compare com a loucura do verão de 2008, mas os analistas destes mercados registam uma sucessão, novamente, de disparos de preços, sobretudo em algumas matérias-primas alimentares e metais industriais.
A tendência altista mais assinalável – mas mediaticamente menos falada – sucede no algodão e no café. Os contratos de futuros destas duas commodities estão, neste mês de Agosto, a atingir picos históricos em média mensal, valores que não se verificaram nem no Verão quente de 2008, aquando do choque inflacionário de preços. O algodão já aumentou 43% em relação a igual período do ano passado e o café mais de 24%.
[Pode seguir este mercado de commodities com base num painel global aqui]
Agroflação no horizonte?
O caso mais mediático é, no entanto, o do trigo – desde Julho que está em alta contínua, mas longe do preço atingido no pico em Março de 2008. O preço dos contratos de futuros disparou na Europa na semana passada, devido ao impacto de fenómenos extremos climáticos que afectaram as searas no Canadá (chuvadas torrenciais) e na Rússia (seca extrema, impacto dos incêndios e decisão do governo russo de fechar as exportações a partir de 15 de Agosto). O valor actual está acima da média mensal de 2008/2010 e o aumento em relação a igual período do ano passado é de quase 25%.
No entanto em 2010, já se assistiu a outros disparos. O preço do açúcar atingiu o seu pico histórico em Janeiro, mas, agora, o preço está abaixo dos valores de Dezembro de 2009. No entanto, este mês, já subiu mais de 12%. O cacau esteve, ultimamente, também, muito mediatizado, em virtude das operações no London International Financial Futures and Options Exchange (Liffe, uma divisão do NYSE Euronext) por parte de Anthony Ward do hedge fund Armajaro Asset Management LLP. Ward é conhecido pela alcunha de Mr. Chocfinger (gesto com o dedo médio). No entanto, o pico do preço dos contratos de futuros do cacau foi em Dezembro de 2009 e Janeiro de 2010, e não agora.
O cobre também está em alta, ainda que longe do pico em Julho de 2008. Já aumentou 22% em relação a igual período do ano passado e 11% já durante este mês. O preço actual dos contratos de futuro deste metal industrial está acima da média mensal de 2008 a 2010. Juntamente com o trigo, o açúcar e a soja, são as quatro commodities com maior crescimento nos últimos trinta dias.
O melhor indicador para avaliar a temperatura do que está a ocorrer nas matérias-primas agrícolas é o índice de preços alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), que disparou para 163 pontos em Junho, apenas 28 pontos abaixo do pico no Verão louco de 2008. Vários analistas já falam de “agroflação”, como vector fundamental de inflação com impacto nos custos de clusters alimentares e industriais fundamentais. Pão, café e cacau vão afectar a nossa mesa.
Finalmente, o preço do barril de petróleo voltou a situar-se acima dos 80 dólares nos contratos de futuros no NYMEX (New York Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros de commodities do mundo) e a média dos primeiros sete meses deste ano é já superior em 12% ao preço médio do ano anterior. Está, no entanto, ainda abaixo da média mensal entre 2008/2010 e tem revelado ultimamente oscilações muito pronunciadas -”oscilações selvagens”, assim designadas por alguns analistas – acima de 1%, com subidas seguidas de descidas, e vice-versa.
O Verão quente de 2008
O modelo extremado deste “choque” de preços ocorreu em Junho e Julho de há dois anos, antes do pânico financeiro que agravou a recessão. Recorde-se que o preço do barril de crude subiu acima dos 145 dólares, o arroz duplicou em menos de cinco meses e o cacau e a soja atingiram os seus máximos históricos.
A razão desta “anomalia” provocou – e ainda provoca – um debate animado entre os analistas e o mundo académico sobre as suas causas, depois de um interregno de “choques” durante mais de vinte anos. Essa “grande moderação” foi, subitamente, interrompida a partir de 2003. Os preços nominais das commodities ligadas à energia e aos metais aumentaram 230% até 2008; os preços das matérias-primas alimentares duplicaram.
As razões “estruturais” surgem logo à cabeça. O chamado pico do petróleo (ponto a partir do qual o crescimento da produção e da oferta mundial do crude desacelera) justificaria o novo choque petrolífero. As mudanças climáticas, com fenómenos extremos, provocam perdas substanciais na agricultura provocando uma segunda onda de choques nos preços das matérias-primas alimentares. O crescimento espectacular das economias emergentes e particularmente a voracidade da China por todo o tipo de commodities explicaria a fortíssima pressão pelo lado da procura mundial incendiando os preços. A mudança da dieta alimentar e a desertificação do mundo rural são, também, factores com efeito assinalável. A que se junta, finalmente, a geopolítica – a turbulência em regiões produtoras ou de importância logística para as commodities repercute-se imediatamente no estado de espírito dos investidores em futuros e dos compradores de mercadorias e matérias-primas.
O factor novo
Mas um estudo econométrico de John Baffes, economista sénior do Banco Mundial, e de Tassos Haniotis, alto funcionário da Direcção Geral para a Agricultura da Comissão Europeia, publicado na semana passada, veio chamar a atenção para factores “não tradicionais”.
Baffes e Haniotis avaliaram o papel desempenhado ultimamente por dois “isqueiros” da loucura dos preços das matérias-primas: a especulação financeira em todo o tipo de mercadorias e o “desvio” de produção agrícola para alimentar o sector dos biocombustíveis.
“O desvio provocado pela política em torno dos biocombustíveis desempenhou algum papel na alta de preços, mas muito inferior àquele que se pensou inicialmente”, referem os dois especialistas. No entanto, quanto ao caso da especulação financeira em commodities, eles julgam que este “novo factor” dos anos 2000 veio para ficar. “Tem um carácter permanente”, disse-nos John Baffes, que está em missão na Indonésia.
“A financeirização do mundo das matérias-primas foi o factor dominante no que sucedeu entre 2006 e 2008”, prossegue Baffes na entrevista que concedeu a partir da Indonésia, onde está em missão do Banco Mundial.
E juntou-lhe mais dois “detalhes” (ver entrevista rápida a John Baffes; a entrevista completa pode ser lida aqui no original em inglês) que vão marcar o comportamento do preço das matérias-primas nos próximos tempos: o cordão umbilical que as liga entre si, provocando reacções em cadeia nos preços, e a tendência para o acentuar das oscilações de preços.
O que complica o planeamento dos agentes económicos e a política dos governos.
ENTREVISTA RÁPIDA a JOHN BAFFES
P: A financeirização tomou conta também do mercado das matérias-primas nos últimos anos?
R: Talvez tenha sido o factor dominante. Creio ter sido o factor “novo” entre todos os que afectam os preços e que são conhecidos. Sem dúvida, que as tendências são basicamente afectadas pela procura e pela oferta, e sobretudo pela tecnologia e pelos níveis de vida. Mas o facto de as matérias-primas terem passado a ser usadas como veículos financeiros afectou algo essencial – a variação dos preços.
P: Essa variação – por vezes mesmo visível em oscilações ‘selvagens’ nos preços dentro de uma mesma semana – vai ser a tónica dominante do futuro?
R: Todas as evidências que recolhi no estudo realizado com Tassios Haniotis apontam para o facto de que as matérias-primas entraram num período de maior variação dos preços.
P: Os diversos grupos de matérias-primas estão hoje em dia profundamente interligados? Pode dizer-se que formam um ecossistema em termos de comportamento dos preços?
R: Esse é um ponto fundamental da investigação e do estudo que publicámos. Há ligações estreitas, óbvias, entre o grupo das matérias-primas energéticas e das alimentares. Além disso, à medida que o nível de vida aumente nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes será de esperar uma sincronia entre os preços de todas as matérias-primas baseadas em recursos (por exemplo, energia e metais).
Agosto 11th, 2010 at 0:06
Concordo em absoluto, quando eu posso transacionar uns contratos de futuros do crude sem que nunca a JPM me venha entregar uns barris aqui à porta de casa, esta o caminho aberto à “especulação”. O preço das commodities hoje em dia pouco resulta da oferta/procura, mas antes de técnicas financeiras puras. Há 3 meses consecutivos que importaçoes da china de cobre caem consecutivamente no entanto a cotação nao para de subir. Acrescento ainda e por razoes muitos pessoais, que estes picos de alta têm apenas um objectivo, evitar a entrada num período deflacionista onde GS, JPM e a própria FED têm o maior interesse.
Agosto 17th, 2010 at 12:05
[...] Alun H. Thomas, especialista do Fundo Monetário Internacional, juntamente com Martin Muhleisen e Malika Pant, modelizou, recentemente, o comportamento das várias variáveis envolvidas no caso do preço do petróleo. O modelo, explicado em “Peaks, Spikes and Barrels: Modeling Sharp Movements in Oil Prices” (IMF Working Paper, WP/10/186, Agosto 2010) verificou que, para além de um impacto de longo prazo da procura, sobretudo por parte das variações do consumo dos países emergentes, e de variações na oferta, sobretudo por parte dos produtores não-alinhados na OPEP, ocorreu um facto novo recentemente (um tema que já abordámos, também, noutro artigo do diário de bordo da crise). [...]