Julho 2010


Numa comparação dos pacotes de austeridade para ajustar os orçamentos na União Europeia, o académico italiano Paolo Manasse (que entrevistei para o tema da “arqueologia” dos defaults) considera Lisboa, Bruxelas e Londres os mais “virtuosos”. Pelo menos nas promessas de ajustamento. Restará, depois, ver a concretização.
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Portugal tem o plano de ajustamento mais “virtuoso”, quase dois pontos percentuais do produto interno bruto acima do esforço de um hipotético país “médio” que iniciasse um plano de ajustamento em 2009 em condições de dados económicos fundamentais similares, se excluirmos do modelo de benchmark a Grécia que está sob intervenção do FMI e de Bruxelas. O que é surpreendente. Mais “virtuoso” mesmo do que a Espanha ou a Itália. E é logo seguido da Bélgica, que, no dizer do exercício de comparação, “excede, também, em disciplina, provavelmente para tentar, com todas as suas forças, não acabar no clube dos PIIGS”.

Se a Grécia for incluída na construção do modelo para as medidas de 2010-2015, os mais “virtuosos” são a Bélgica e o Reino Unido, logo seguido de Espanha e Portugal.

O exercício foi feito pelo académico Paolo Manasse, professor de Economia da Universidade de Bolonha, e publicado no La Voce Info, bem como no seu blogue pessoal (Black-of-the-envelope Economics), com um título bem sugestivo: “Virtuosos e Preguiçosos nos cortes do orçamento”. “[O caso português] é, sem dúvida, o ajustamento mais ambicioso, se excluirmos a Grécia da construção do modelo. A minha comparação analisa os cortes nos orçamentos que estão planeados. Resta ver se os governos, depois, cumprem o que prometem”, diz-nos Paolo Manasse, professor de Economia na Universidade de Bolonha.

Entre os “virtuosos” encontram-se, ainda, a Holanda, a Alemanha e a Grécia. Entre os “preguiçosos” contam-se o super-preguiçoso, a Itália, e dois mais moderados, a Áustria e a Eslováquia. A Irlanda não conta, dado ter efectuado os cortes orçamentais antes de 2010, refere o estudo.

O artigo de Manasse dirige-se ao público italiano e procura mostrar que o esforço de ajustamento planeado para 2011-2013 pelo governo de Silvio Berlusconi na ordem de €62 mil milhões em cortes na manovra finanziaria para esse triénio (e aprovado hoje pelos deputados da Câmara Baixa do Parlamento por 321 contra 270 votos e 4 abstenções) está abaixo do que deveria ser “para estar em linha com o esforço de consolidação europeu”. Necessitaria de um reforço de cortes em mais 2,4 a 2,7% pontos percentuais do PIB até 2015, diz Paolo Manasse.

A probabilidade de default (incumprimento) da dívida soberana portuguesa reduziu-se em mais de 25% desde o princípio de julho. Os juros a pagar aos detentores de obrigações do tesouro estão abaixo de 4% a 5 anos e quase nos 5% a 10 anos. Mas continua alguma volatilidade nos movimentos intra-diários.

Nos quatro PIGS (designação humorística para o grupo da zona euro formado por Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), a probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) que mais desceu foi a relativa a Espanha, logo seguida da relacionada com Portugal. Desde 1 dejulho houve uma redução de 28,6% no caso da espanhola e de 25,5% no caso da portuguesa, de acordo com o monitor da CMA DataVision.

A probabilidade de default da dívida soberana portuguesa baixou de 23,20% em 1 de julho para 17,29% no fecho de ontem (28/07). O ponto mais baixo (17,16%) ocorreu ao final da manhã do dia 27 de julho, mas logo voltou a subir com oscilações. Como, aliás, está a acontecer hoje nesta sessão da manhã.

O risco português saiu do TOP 10 mundial da bancarrota em final de junho e baixou para menos de 20% desde 26 de julho, na segunda-feira seguinte ao anúncio dos resultados dos testes de stresse dos 91 bancos europeus, que não incluíram em situação crítica nenhum dos bancos portugueses testados. O último pico da probabilidade de default relativa à dívida soberana portuguesa havia ocorrido aquando da crise na zona euro de 6 de maio (32,63%).

O movimento de “emagrecimento” deste risco foi sincronizado ao grupo dos PIGS desde 1 de julho. Desceu 20,9% no caso da Irlanda e 14% no caso da Grécia (que continua, no entanto, em segundo lugar no TOP 10 mundial com uma probabilidade de default superior a 45%). A Espanha já se situa nos 14,63% de probabilidade de incumprimento e a Irlanda nos 16,21%.

Apesar desta onda de baixa, continuam a verificar-se oscilações intra-diárias.
A pressão dos especuladores continua a sentir-se na Europa em relação à Roménia (apesar de uma redução de 15% na probabilidade de default desde 1 de Julho), que continua em 9º lugar no TOP 10 mundial, à Letónia e à Islândia. Estes dois últimos países trocam amiúde de posições entre si ou com o estado da Califórnia (que está agora em 10º lugar no TOP 10).

Movimento similar nas yields

A diminuição significativa do stresse sobre a dívida soberana de Portugal, Espanha e Irlanda, foi acompanhada desde 1 de julho por um movimento similar de descida das taxas de rendimento a pagar aos detentores de obrigações públicas a 5 e a 10 anos. Portugal viu a yield a 5 anos baixar para menos de 4% e a referente a 10 anos para quase 5%. Depois da Grécia (acima dos 10%) e da Hungria (acima dos 7%; mas este país não pertence à zona euro), são as yields mais elevadas.

As yields a pagar pelo Tesouro português aos financiadores internacionais baixaram em 0,39 pontos percentuais quer para as obrigações a 5 anos como para as a 10 anos. A título meramente ilustrativo, no caso dos 14 mil milhões de euros de necessidade de financiamento por parte do Estado português estimada para 2010, essa redução das yields significaria uma poupança de 54,6 milhões de euros.

Desde 1 de julho, a maior descida das yields a 5 anos ocorreu com as obrigações gregas que passaram de 11,03% para 10,61%. A maior descida das yields a 10 anos deu-se com as obrigações irlandesas que passaram de 5,4% para 4,98%.

A Roménia está no último lugar do clube mundial dos dez países mais aflitos em termos de probabilidade de bancarrota. Ocupa a posição portuguesa desde 30 de Junho, apesar dos seus indicadores financeiros básicos serem inclusive menos gravosos do que os portugueses. A instabilidade governativa ameaçou a execução do acordo com o FMI.

Uma exposição sobre Vlad III Bassarab (ou Vlad Tepes), um sanguinário príncipe do século XV da Transilvânia mais conhecido por Conde Drácula, abriu no Museu Nacional de Arte em Bucareste ao mesmo tempo que o país atravessava um clima político e financeiro de grande agitação.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) atrasou por uns dias no final de Junho o desbloqueamento da quinta tranche de financiamento à Roménia, ao abrigo do acordo assinado no ano passado e que envolve um montante global de ajuda na ordem dos 14 mil milhões de euros.

Durante uma semana, o nervosismo atingiu o clímax com 913 milhões de euros “parqueados” no FMI à espera que a instável coligação que suporta o governo do primeiro-ministro democrata-liberal Emil Boc se decidisse a começar a aplicar os pontos mais duros do plano de austeridade combinado com o FMI, como nos sublinhou o especialista financeiro Dragos Cabat, de 43 anos, director da Financial View Consulting e articulista no Financiarul(ver entrevista no final).

Este compasso de espera – e a própria ameaça de que o governo poderia cair e recriar uma situação de vazio de poder executivo como aconteceu no ano passado durante quatro meses – foi o suficiente para fazer disparar o custo dos credit default swaps (cds, seguros sobre o incumprimento da dívida soberana romena num horizonte de cinco anos) e a probabilidade de default.

Turbulência política

A Roménia acabou no final de Junho por desalojar Portugal no décimo lugar do “clube” mundial dos dez países com risco mais elevado de incumprimento e tem-se mantido nessa posição, num jogo de sobe e desce, com a Islândia (o primeiro país a entrar em quase-default em Outubro de 2008).

A pátria de Drácula mantém, segundo o monitor da CMA DataVision, uma probabilidade de default superior a 22%, dois pontos percentuais acima da portuguesa e um pouco mais de um ponto percentual acima da probabilidade para a Hungria que, na última semana, viu, de novo, a sua situação de risco agravar-se.

A substituição de Portugal naquele “clube” ocorreu, apesar dos indicadores críticos romenos, em termos de défice público e da exposição externa em percentagem do Produto Interno Bruto, quer em 2009 como estimados para 2010, serem menos gravosos do que os portugueses. No entanto, a Roménia terá hoje uma produtividade equivalente a pouco mais de 1/3 da portuguesa e corre o risco de continuar em recessão este ano.

Emil Boc acabou por decidir o aumento do IVA de 19% para 24% a partir de 1 de Julho, mesmo contra a voz do Presidente da República, e iniciou cortes radicais nos salários e complementos na função pública que vão entre 25% e 50% (em alguns casos, como o dos diplomatas), que deverão gerar um Verão quente de contestação pelos sindicatos do sector. Numa outra medida simbólica, o governo reduziu as secretarias de Estado de 57 para 32 e despediu um vice-presidente em cada grande município do país. Difícil será a implementação de um corte de 15% nas pensões, uma outra exigência do plano do FMI, como nos sublinha Dragos Cabat. O Tribunal Constitucional reprovou tal pretensão, que valeria 1 ponto percentual de redução da despesa pública no PIB.

Olhar português

A situação da Roménia desperta a atenção em Portugal em virtude de muitos gabinetes de consultoria e de empresas ligadas a infra-estruturas estarem a desenvolver actividade, em muitos casos em projectos até 2012 ao abrigo dos 20 mil milhões de euros de fundos estruturais concedidos por Bruxelas. Os portugueses aproveitaram várias vantagens: a imagem de Portugal como pequeno país detentor de conhecimento na transição para a União Europeia e a proximidade da língua.

“A fase dos fundos europeus para a transição da Roménia para a União Europeia está a virar a página”, diz-nos Paulo Pedroso, ex-ministro, que está a liderar uma equipa internacional de assistência técnica à autoridade romena de gestão do Fundo Social Europeu. Mas isso não significa o fim da oportunidade: “Os consultores que conhecerem o mercado têm boas hipóteses de apoiar investidores portugueses ou mesmo de continuara a apoiar entidades romenas”. Opinião que é corroborada por Pedro das Neves, da I.Zone Knowledge Systems, que participa num dos 10 projectos para a Roménia considerados estratégicos pela Comissão Europeia.

Entrevista rápida a Dragos Cabat

P: Porque razão a Roménia subitamente apareceu no radar dos especuladores?
R: Por causa do medo ao contágio. Além disso, tivemos um problema com a aprovação do Plano de Austeridade, o que levou ao adiamento da tranche do FMI durante algum tempo.

P: Como está o clima social? Similar ao da Grécia?
R: Globalmente, indiferente. Mas há interesses políticos que são suportados pelos sindicatos. Isso poderá gerar agitação social proximamente.

P: A Roménia tem condições para entrar em transição para o euro em 2012 e vir a usar a moeda única em 2015?
R: Isso será provavelmente adiado de 2 a 3 anos. A Roménia tem poucas possibilidades de cumprir com os critérios de Maastricht nos próximos três anos.

NÚMEROS
. Roménia com o dobro da população portuguesa produz 70% do PIB português
. PIB por habitante em paridade de poder de compra na Roménia é 49% do português
. Défice público em % do PIB da Roménia estimado para 2010 é inferior ao português (6,8% no caso romeno e 8,3% no caso português)
. Défice externo romeno em % do PIB estimado para 2010 é inferior ao português (6,8% no caso romeno e 7,9% no caso português)
. Dívida externa bruta em % do PIB em 2009 foi de 56,5% contra 225% no caso português
. Projecções sobre o PIB romeno para 2010 variam entre uma recessão de 2,5% e uma situação de estagnação

Restaurar o crescimento é uma questão central para a zona euro, recorda o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a “saúde” económica da zona da moeda única, divulgado dia 21 de Julho.

A Europa tem estado confrontada com um crescimento anémico e, face à Grande Depressão, ficou entalada na sua margem de manobra Keynesiana com um disparo do défice público em relação ao produto (PIB), que passou de uma média de 65% em 2007 para cerca de 90% agora. Uma situação de stresse das finanças públicas que bloqueia as pulsões para o activismo do Estado. Um quebra-cabeças.

Agora e imediata

Mas o FMI é claro: “Na sua discussão do relatório, os directores [do FMI, um comité executivo de 24 membros] sublinharam que o problema de há muito de um crescimento anémico tem de ser tratado agora. O crescimento não é só importante em si, mas também essencial para afastar as preocupações com a dívida pública”, escreve-se no relatório, que acrescenta: “A acção deve ser imediata e não, apenas, limitada aos países com desequilíbrios excessivos. Deve ser desencadeada por toda a zona euro para gerar confiança, mostrar coesão e melhorar as perspectivas globais de investimento e crescimento”.

Recorde-se que a perspectiva de “crescimento anémico” na zona euro baseia-se em estimativas de aumento do produto interno da região em 1% em 2010 e 1,3% em 2011, no cenário optimista do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgado no World Economic Outlook de 7 de Julho . É a pior situação à escala mundial. No cenário pessimista do FMI, o “corte” na estimativa para 2011 pode ser da ordem de 3,5 pontos percentuais – ou seja, assistiríamos ao regresso da recessão na zona euro. Neste relatório de 21 de Julho, o FMI admite inclusive uma “possibilidade distinta” de “um período prolongado de estagnação” nesta zona.

Apesar do comunicado do FMI, na sua linguagem técnica habitual, colocar em paralelo o restauro da confiança com base no resultado dos testes de stresse ao sistema bancário europeu (91 bancos) que será divulgado amanhã, na sustentabilidade orçamental, na saída da ratoeira de um crescimento anémico e na necessidade de uma “governação económica” reforçada em toda a zona euro, fica implícito que as duas palavras “agora” e “imediata” relativas ao problema estrutural do crescimento são fulcrais.

Selectivos e amigos da procura

As recomendações de disciplina orçamental têm em conta a questão do crescimento. O relatório refere que os cortes na despesa pública devem ser “selectivos” e “amigos da procura o mais possível”. A redução das distorções no sistema fiscal deve ser tida em conta – “por exemplo, alargando a base de incidência dos impostos ou mudando a sua estrutura”.

Devido à assimetria de problemas relativos à crise da dívida soberana, o FMI recomenda que mais autoridade política no campo orçamental seja transferida para o nível da zona euro, por exemplo fixando limites para o défice e incentivando a que, a nível de cada país, regras locais reflitam estes limites.

O FMI insiste em que a zona euro deverá aumentar o seu nível de “governança económica” e que ,em diversas áreas, deverá procurar “um certo grau de harmonização”, como nos impostos sobre o trabalho, na protecção do emprego, nos sistemas de subsídios ao desemprego, e também na convergência quanto às regulamentações de mercado.

A exposição da banca portuguesa a Espanha, Grécia, Irlanda e Itália era de 53 mil milhões de dólares no final de 2009. O equivalente a 23% do PIB desse ano. Mais de metade dessa exposição era relativa a Espanha. Trocado por miúdos: se houver gripe suína nos outros “colegas” do grupo, os créditos que a banca portuguesa tem a haver entram em choque. E vice-versa. É uma teia bem tecida.

A exposição agregada da banca portuguesa a “residentes” no grupo mais frágil da zona euro, denominado humoristicamente por PIIGS (acrónimo em inglês para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), totalizava 53 mil milhões de dólares, em valores consolidados, no final de Dezembro de 2009, segundo dados do Bank for International Settlements (BIS), recorda, esta semana, o relatório do Fundo Monetário Internacional sobre a “saúde” da economia da zona euro.

Esse montante equivalia a 23% do nosso produto interno bruto (PIB), um valor relativo elevado só ultrapassado pela banca da Irlanda, cuja exposição aos outros PIIGS correspondia a 91 mil milhões de dólares, ou seja 40% do seu PIB. O peso da exposição dos bancos espanhóis ou italianos aos outros PIIGS era de 10% e 3% do PIB respectivamente. O relatório do FMI não fornece dados da exposição da banca grega.

A maior fatia da exposição da banca portuguesa aos outros PIIGS dirige-se a Espanha (55% do total), seguida da Grécia (19%) e da Irlanda (16%). Por seu lado, os bancos estrangeiros mais expostos a Portugal são os espanhóis que contam com 36% do total da exposição estrangeira a Portugal. O que revela um cordão umbilical de exposição entre os dois sistemas financeiros. Na lista de exposição a Portugal seguem-se, depois, a alguma distância, os bancos alemães (19,7%) e os franceses (18,9%).

A exposição da banca estrangeira a Portugal somava, no final de 2009, 238 mil milhões de dólares, mais do que a exposição da banca estrangeira à Grécia (que somava 199 mil milhões).

A banca mais exposta aos PIIGS era a francesa (quase 900 mil milhões de dólares, o equivalente ao PIB do México que foi, em 2009, a 14ª economia do mundo), seguida da alemã (mais de 700 mil milhões de dólares). Compreende-se, por isso, a “sensibilidade” da banca francesa e alemã ao que se passa no grupo com maiores probabilidades de default dentro da zona euro.

O país do grupo dos PIIGS com maior exposição da banca estrangeira, no ano passado, foi a Itália (1 bilião de dólares em valores consolidados).

Se a banca portuguesa estava mais exposta a Espanha, e a espanhola a Portugal, a banca irlandesa estava exposta sobretudo a Itália, e a italiana a Espanha. Uma malha bem tecida, em que um resfriado em qualquer um dos PIIGS se repercute em cadeia. No caso da Irlanda, a banca estrangeira mais exposta é, naturalmente, a do vizinho inglês.

Nota: Nos “residentes” incluem-se os sectores bancário e não bancário privados e o público. Por “exposição” entende-se créditos sobre residentes daqueles países.
Fonte: FMI, Country Report 10/221, 22 de Julho de 2010, Economic Health Check, Parte B, página 6, quadro “Bank Exposures to Selected Countries”, Dezembro de 2009.

A expressão inglesa «double-dip», ou recaída na recessão depois de uma tímida retoma, voltou a aquecer os debates na comunidade internacional dos economistas e dos analistas. A fractura nas opiniões é manifesta.

Os sinais dados pela realidade são manifestamente contraditórios. Os “bons números” surgem nos noticiários de abertura, mas logo os “maus números” enchem os títulos de última hora.

O crescimento mundial deverá ficar acima de 4,5% garantiu o Fundo Monetário Internacional (FMI) na semana passada no seu World Economic Outlook Update. Espera-se que o comércio internacional aumente entre 9 e 10%. E consta que há mais de 3,3 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica) de “excedentes” à roda do mundo “parqueados” à espera de boas aplicações.

Mas o nervosismo dos mercados bolsistas – com dias de derrocada frequentes no passado Junho – e dos mercados de derivados, a crise da dívida soberana em diversos países da Europa, um quase escondido cenário mais “pessimista” do FMI temendo uma recessão na Europa e quase estagnação nos Estados Unidos em 2011, as dúvidas sobre o que irá ocorrer com as “bolhas” e a mudança de modelo económico na China e o disparo na cotação do ouro (com a onç a manter-se acima de 1200 dólares) engolem rapidamente a metade “simpática” dos títulos optimistas dos noticiários.

O pessimismo reforçou-se, inesperadamente, com a divulgação em Julho de novas previsões pela Reserva Federal americana (FED), que agravaram as anteriores, divulgadas em Abril. Clima de dúvida que se adensou, a 21 de Julho, com duas palavras fatais do testemunho do presidente da Reserva Federal, Bem Bernanke, perante o Congresso americano falando de um crescimento «extraordinariamente incerto». [As bolsas americanas sentiram, de imediato, o choque. O Dow Jones e o Nasdaq caíram mais de 1% a 21 de Julho.]

O desemprego na América manter-se-á entre 9,2% e 9,5% da população activa em 2010 e ainda poderá andar nos 8,3% a 8,7% no próximo ano e nos 7,1% a 7,5% em 2012. Também, o crescimento americano será inferior ao que era previsto: entre 3% a 3,5% este ano, em vez dos 3,2% a 3,7%, e entre os 3,5% a 4,2% em 2011, abaixo dos 4,5% previstos anteriormente.

Apesar de estarmos a falar de diferenças de décimas, estas revisões pela FED foram como um verdadeiro balde de água fria que teve imediata repercussão (negativa) nas bolsas mundiais.

Medo mata mais

A nível da discussão mais técnica, a última tentação pessimista responde pela expressão inglesa double-dip – ou seja, recaída na recessão, depois de um período de retoma a seguir à primeira fase mais dramática e prolongada de depressão. Não é, ainda, uma constatação, mas um temor.

Os números do FMI afastam essa hipótese para 2010 (4,6% de crescimento mundial, 3,3% de crescimento nos Estados Unidos, 6,7% nos tigres asiáticos, 6,8% de crescimento nos países emergentes e 1% na zona euro, o “ciclista” junto ao carro-vassoura). Mas, em períodos de crise, a psicologia mata mais do que os números finais de um semestre.

Os curiosos pela história económica das grandes crises recordam, agora, o caso anterior de 1937-1938, quatro anos depois do fim oficial da Grande Depressão. A previsão pessimista é que algo similar possa ocorrer agora, para os mais pessimistas, já neste segundo semestre de 2010.

Fomos ouvir, por isso, cinco economistas separados por fusos horários diferentes e com filiações no pensamento económico distintas. O resultado é diversificado – a comunidade de economistas e analistas está literalmente fracturada.

Encontrámos nas respostas três campos de opinião. [As respostas integrais poderão ser lidas na versão em inglês aqui]

O pecado da finança

Comecemos pelo campo do “sim” – a recaída é um risco sério, mesmo que seja difícil predizer a data de concretização. Para a professora Carlota Perez, reconhecida especialista mundial em revoluções tecnológicas e ciclos económicos, uma recaída recessiva estará sempre no horizonte enquanto os decisores mundiais “não entenderem que esta crise não é um acidente que se consegue resolver apenas com mais política monetária e regulação, mas sim um corte estrutural que exige uma separação radical entre o mundo da finança e o da economia real”.

Por seu lado, o investigador americano Mark J. Lundeen, que no site Gold Eagle tem estado a fazer uma comparação diária entre a evolução desta Grande Recessão, desde o seu começo em 2007, e a Grande Depressão dos anos 1930, é mais pessimista: “A questão não é se vai haver ou não uma recaída – ela é inevitável. Mas quanto tempo durará e quanto mais sofrerá o mundo até que os decisores comecem a discutir como liquidar a «má» dívida que nos envolveu nestes últimos 40 anos”. Lundeen é pelo fim das fianças aos prevaricadores, e pela sua bancarrota (incluindo as dívidas soberanas que devem ser reescalonadas ou reestruturadas), mesmo que isso resulte numa situação de deflação massiva – é preferível isso, diz ele, “à hiper-inflação e aos caos económico e geopolítico que resultará inevitavelmente das actuais políticas”.

Política monetária é a salvação

Pelo “não” está o gestor de fundos Bill Whiterell, economista-chefe global da Cumberland Advisors que a partir da Florida aconselha aplicações financeiras em todo o mundo. “Isso é de todo improvável!”, exclama, e acrescenta: “mesmo nas economias desenvolvidas”. “Não prevemos que esta desaceleração a meio do ciclo se deteriore ao ponto de se transformar numa recessão, quer neste segundo semestre como no próximo ano”, diz-nos. Confia que “as políticas monetárias continuarão a «acomodar-se» quer nos EUA como na zona euro ou no Japão. Provavelmente as taxas de juro de curto prazo manter-se-ão próximas de zero nos próximos doze meses”.

Um terceiro campo recusa o “sim” e o “não” à pergunta. Em suma, não se pode falar de recaída – já que nem sequer se saiu da recessão iniciada em 2007 no mundo industrializado, argumenta-se. “Não se pode falar de double-dip, quando ainda nem saímos do single-dip. Penso que temos continuado a estar numa situação consistentemente negativa. Sou muito céptico, em particular, em relação aos números oficiais americanos – cuja realidade é bem pior do que os números divulgados”, ironiza David Caploe, economista-político chefe do EconomyWatch, em Singapura.

Um “L” em vez de um “W”

Continuando com a ironia, Caploe rejeita um desenho em “W” para a evolução desta crise que uma recaída traria. O que vai ocorrer, vaticina, é um longo “L_______________________________________”, em que a “cauda” pode ser muito comprida. O tamanho desta “cauda” depende da China. O analista de Singapura considera que os governantes chineses têm actuado com inteligência face à crise, mas “resta ver como um grupo aparentemente coeso como este conseguirá enfrentar um militantismo sindical crescente que tornou o anterior modelo económico obsoleto”.

O consultor e autor americano Peter Cohan recorda que nem o organismo americano que oficialmente data o começo e o fim das recessões, o National Bureau of Economic Research, decretou, ainda, o fim da recessão para os Estados Unidos. Pelo que prefere não falar de nova recessão. Cohan admite, em breve, uma desaceleração económica “mas não tão má que se transforme em crescimento negativo”. Esta desaceleração poderá advir do que se vai passar na Europa: “Não ficarei de todo surpreendido que o crescimento mais lento – ou mesmo declínio económico – ocorra na Europa, devido aos efeitos da consolidação orçamental”.

CINCO DESTAQUES (de conversas bem mais longas)

#“Se os chineses conseguirem evitar o colapso das suas bolhas imobiliárias merecem uma medalha” – Carlota Perez
#“A nível global, ao fim de quarenta anos, chegámos a um ponto em que os nossos activos se transformaram em passivo. É insustentável” – Mark J. Lundeen
#“Excepto para os membros altamente endividados do Club Med na zona euro, políticas de austeridade significativas no curto prazo não são desejáveis com uma retoma mundial permanecendo tão fraca” – Bill Witherell
#“Os chineses, pelo menos, parecem ter um plano – algo que sinceramente não vejo nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão” – David Caploe
#“O medo de um colapso na zona euro é suficiente para motivar a redução dos défices. Mas resta ver se uma dose massiva de euro-thatcherismo gerará prosperidade” – Peter Cohan

Portugal está na fronteira para a classificação de BBB, segundo a Dagong Credit Rating, sedeada em Beijing, que surpreendeu, ontem, os analistas ao dar classificação de AA e outlook negativo aos Estados Unidos e AA- e outlook negativo ao Reino Unido.

A Dagong Global Credit Rating, sedeada no distrito de Chaoyang, em Beijing, divulgou ontem, pela primeira vez, um relatório sobre a situação de crédito soberano em 50 países, que perfazem 90% do produto mundial. Portugal surge na 29ª posição com uma notação de A- (similar à atribuída pela Standard & Poor’s) e com outlook (perspectiva) negativo.

O nosso país e a Itália estão na fronteira da notação para a classificação de BBB. O relatório sublinha que estes países poderão enfrentar riscos de refinanciamento e de pagamento da dívida dada a vulnerabilidade a “um choque interno ou externo súbito e relativamente grande”.

A surpresa nas notações

A agência de rating chinesa surpreendeu os mercados internacionais ao dar notação de AA (e não triplo A, a nota máxima) e com outlook negativo aos Estados Unidos, colocando inclusive a superpotência na fronteira para a notação abaixo, e ainda pior ao Reino Unido com AA- e outlook negativo, quer em termos de moeda local como em divisas estrangeiras. Também outros membros do G7 recebem a notação de AA- e com outlook negativo, como o Japão e a França.

Há, de facto, uma diferença de fundo entre as notações da Dagong e das três agências mais conhecidas (Moody’s, Fitch e S&P, apelidadas de “big three“): enquanto as agências norte-americanas dão notação de triplo A a mais de 10 países, a agência chinesa é menos generosa, nomeadamente em quatro casos mais significativos (que incluem os EUA, Japão, Reino Unido e Alemanha).

Apenas cinco países recebem a notação de triplo A (a mais alta em termos de solvência e sustentabilidade de longo prazo) e com outlook estável quer na avaliação global do nível de crédito em termos de moeda local como em divisas estrangeiras: Noruega (a liderar), Dinamarca, Luxemburgo, Suíça e Singapura. A Austrália e a Nova Zelândia têm a notação de AAA em termos de moeda local e de AA+ (uma notação abaixo) em divisas estrangeiras. A Alemanha, a referência para a zona euro e a União Europeia, não está neste grupo de sete do topo.

Mais generosa nos emergentes

Na notação da Dagong, a China tem notação AA+ e outlook estável em termos de moeda local, tal como a Alemanha, mas em termos de divisas estrangeiras tem notação máxima de AAA, acima da alemã, da canadiana ou da holandesa, os companheiros neste segundo grupo.

O relatório admite, no entanto, que em relação a países como a China (com AA+), Arábia Saudita e Coreia do Sul (ambas com AA) há problemas derivados “do ajustamento das estruturas económicas ou risco geopolítico derivado de problemas práticos”. A notação atribuída à China é mais elevada do que a atribuída pela Moody’s (A1), S&P (A+) e Fitch (AA-).

Piores notações dadas a Espanha, Grécia e Roménia

No conjunto dos PIGS (acrónimo pejorativo para o grupo da zona euro formado por Portugal, Itália, Grécia e Espanha – a Irlanda não foi incluída na análise pela agência de rating chinesa), a Dagong atribui notação de A e com outlook negativo à Espanha (mais baixa do que as atribuídas pelas agências de notação americanas), de A- com outlook negativo a Itália e Portugal, e de BB com outlook estável à Grécia (mais baixa, também, do que a atribuída pelas outras três agências).

Entre os países de Leste da União Europeia que têm estado em foco, a agência de rating chinesa atribui a notação de BBB com outlook negativo à Hungria e de BB+ com outlook negativo à Roménia (mais baixa do que a atribuída pelas agências norte-americanas) – países que estão em pior situação do que Portugal ou Itália.

Estas notações mais baixas em relação a Espanha, Grécia e Roménia significam que a Oriente alguns elos mais fracos da zona euro e da União Europeia são vistos mais negativamente do que em Nova Iorque pelas três agências de rating internacionais mais poderosas.

Relativamente aos companheiros da China no grupo designado por BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China), a Dagong atribui notação A com outlook estável à Rússia, A- com outlook estável ao Brasil e BBB com outlook estável à Índia, o país em pior situação de avaliação de crédito neste grupo. Nos três casos, a atribuição dada pela agência chinesa é superior às atribuídas pelas três rating norte-americanas.

A Dagong foi criada em 1994 para atribuir notação à dívida das empresas chinesas. Alega ser privada e que a sua metodologia não está imbuída de apreciações ideológicas. É, no entanto, apoiada oficialmente. O próprio anúncio do relatório sobre a notação dos 50 países foi feito ontem na sede da agência de notícias Xinhua. Trata-se de um sinal – mais um – da estratégia de projecção externa da China.

Classificações comparadas para Portugal

Dagong: A-;
Moody’s: Aa2 (até 12/07/2010); A1 (a partir de 13/07/2010);
S&P: A-;
Fitch: AA-

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O FMI prevê para o próximo ano um crescimento mundial umas décimas abaixo do estimado para este ano mas a desaceleração no comércio internacional rondará quase 3 pontos percentuais. A zona euro será o último do pelotão em matéria de crescimento e, no cenário mais pessimista, poderá reentrar, mesmo, em recessão. Um alerta para os governos da zona euro colocarem as barbas de molho. Para o cidadão comum: prepare-se, 2011 vai vir com brinde: novo choque.

O crescimento mundial deverá rondar os 4,3% e o comércio internacional crescerá 6,3% em volume no próximo ano – este é o cenário “de referência” apresentado esta semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Não são números desencorajadores, depois da recessão na produção mundial (quase 1%) e da quebra espetacular de 11,3% nas exportações e importações em 2009, o ano negro da Grande Recessão que tocou a economia mundial desde 2007. O FMI, no documento sobre “Perspectivas da Economia Mundial” (World Economic Outlook Update), divulgado esta semana, não dá guarida ao receio de uma recaída na recessão (com crescimento negativo do produto mundial, contracção) no próximo ano, mas admite um ligeiro arrefecimento, mais pronunciado no comércio mundial.

As estimativas do FMI para 2011 revelam que o crescimento mundial irá desacelerar três décimas em relação ao estimado para 2010 e que o comércio internacional verá a sua dinâmica anual baixar de 9% para 6,3%.

Mas, na parte final do documento, admite-se um cenário “mais pessimista” (de que falaremos adiante) em 2011 que reduziria a taxa de crescimento em 39% em relação à estimada para 2010. Este cenário “mais pessimista” implicaria que a zona euro entrasse no próximo ano em recessão (em vez de 1,3% de crescimento médio, cairia abruptamente para 2,2% de contracção) e os EUA crescessem apenas 0,4%.

Num documento mais recente, sobre a “saúde” da economia da zona euro [Economic Health Check, 21 de Julho de 2010], o FMI admitia, ainda, outra “possibilidade distinta”, a de “um período prolongado de estagnação”. (Pág.9 do relatório). O que reflecte bem a “incerteza” nas equipas do Fundo.

Ben Bernanke, no seu testemunho sobre política monetária perante o Congresso americano, no mesmo dia, falaria no mesmo tom sobre o futuro do crescimento americano: “extraordinariamente incerto” (unusually uncertain), duas palavras fatais que logo deitaram abaixo naquela tarde o Dow Jones e o Nasdaq.

A liga dos campeões

A liga dos campeões do crescimento continuará em 2011 a ser formada pelos países emergentes asiáticos, com destaque para a China e a Índia, verdadeiras “locomotivas” do produto mundial. O crescimento médio anual deste grupo situar-se-á nos 8,5%, quase duas vezes mais que a média mundial, mas sete décimas abaixo do crescimento estimado para 2010. Em 2011 a China voltará a ser o campeão incontestado com um crescimento na ordem dos 9,6%, logo seguida da Índia com 8,4%. Um ligeiro arrefecimento de quase 1 ponto percentual na China e de 1 ponto percentual na Índia. Alguns analistas vêm neste ligeiro abrandamento um exercício de soft-landing de duas economias consideradas sobreaquecidas.

No entanto, o papel indiscutível dos emergentes da Ásia como motores do crescimento mundial é indiscutível. O FMI estima que, até 2012, a China represente 34% desse crescimento anual – compare-se com a contribuição da zona euro que não ultrapassará os 3%.

Mas onde o arrefecimento da dinâmica vai ser mais acentuado é no grupo dos países que o FMI designa como “novas economias industrializadas da Ásia” – os famosos “tigres” asiáticos (Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan) – que “descerão” de um crescimento médio de 6,7% em 2010 para 4,7% e no Brasil, que verá a sua taxa de crescimento descer de 7,1% em 2010 para 4,7% no ano seguinte.

Papel secundário do G7

O papel secundário do G7 (o grupo geopolítico obsoleto reunindo as sete maiores economias do mundo) é visível nas taxas de crescimento estimadas para 2010 e 2011. Os EUA crescerão 3,3% em 2010 e descerão para 2,9% no ano seguinte, abaixo da média mundial. A zona euro melhorará ligeiramente, mas não passará de um crescimento de 1,3% em 2011, o comportamento mais medíocre no Planeta, que conduz o FMI a apontar a região como o elo mais fraco da economia mundial.

Elo mais fraco onde os “choques financeiros” e a desconfiança dos investidores internacionais são mais sentidos em virtude do risco de defaults em série em países mais frágeis da zona euro (os denominados PIGS, designação pejorativa para Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) e em parte do bloco de Leste (Roménia, Bulgária, Hungria) e Báltico (Letónia, Lituânia) aderente da União Europeia. Também a situação envolvente em países como a Ucrânia (com uma alta probabilidade de default; tal como a Grécia no TOP 5 do risco mundial) e na Croácia não tranquilizam a Europa. Em 2011, o grupo de cinco países denominados PIIGS (que inclui, além dos quatro referidos anteriormente, mais a Itália) apresentará 380 mil milhões de euros em necessidades de refinanciamento face a dívidas soberanas que vencem, segundo o “Global Financial Stability Report” do FMI, publicado este mês.

O Japão descerá de 2,4% para 1,8%. O Reino Unido será o país do G7 com a maior subida – de 1,2% em 2010 para 2,1% no ano seguinte.

Cenário mais pessimista foi simulado

O problema do “elo mais fraco” – a Europa – é abordado pelo FMI que admite que “as projecções que elaborou incorporam um efeito negativo modesto [provocado pelas tensões financeiras] sobre o crescimento na zona euro”. O termo “modesto” é um eufemismo para evidenciar que este exercício do FMI está envolto “num contexto de incerteza”.
Aliás, mais adiante, o documento de Perspectivas admite “um cenário mais pessimista” derivado da deterioração da situação nos mercados financeiros.

Uma simulação realizada pelo modelo de projecções do FMI (Global Projection Model), tomando em linha de conta uma situação de contágio negativo nos mercados financeiros, derivado da deterioração na zona euro, aponta para um “corte” de 1,5 pontos percentuais na projecção do crescimento mundial para 2011. Ou seja, em vez de 4,3%, o aumento da produção mundial seria corrigido em baixa para 2,8%, um crescimento muito “modesto”. A simulação não apresenta o impacto no comércio internacional que será muito maior.

Brinde para a zona euro em 2011?

O caso da zona euro seria o mais dramático em 2011 neste cenário – a correcção do crescimento seria na ordem dos 3,5 pontos percentuais, o que provocaria uma reviravolta na situação económica: de um crescimento fraco de 1,3% para uma contracção de 2,2%, menor do que a recessão de 2009 (o produto da zona euro caiu 4,1%), mas digna de ser apelidada de um verdadeiro double-dip (recaída na recessão).

Portugal conseguiu, no final do segundo trimestre, sair do grupo dos 10 países e estados com maior probabilidade de default (incumprimento da dívida soberana) num horizonte de cinco anos na percepção dos investidores no mercado dos credit default swaps (cds).

Também a Espanha e a Irlanda viram o seu risco diminuir para níveis abaixo dos 20%, afastando os dois países da probabilidade de entrada no “clube” dos 10 de maior risco. No entanto, estes três países da zona euro mantêm-se no grupo mais alargado dos 20 de maior risco, segundo o relatório de balanço do segundo trimestre realizado pela CMA Datavision e divulgado esta manhã em Londres.

O último lugar desse TOP 10 foi ocupado pela Roménia e países como a Letónia e a Bulgária encontram-se em posições muito próximas. A “frente de Leste” da União Europeia emergiu como o pólo de especulação mais recente no mercado dos cds.

Foco da crise da dívida continua a ser a UE

A União Europeia (UE) continua a ser o hub e foco da crise global da dívida soberana, com a Grécia mantendo o segundo mais alto nível de probabilidade de default num horizonte de cinco anos, segundo o balanço do segundo trimestre realizado pela CMA DataVision, com base no seu monitor de risco abrangendo 70 países em oito “regiões” (Estados Unidos e Reino Unido; Europa Ocidental; Europa emergente; Escandinávia, América Latina e do Sul, Médio Oriente e África, Australásia e Ásia).

As maiores deteriorações de crédito à escala mundial durante o segundo trimestre localizaram-se integralmente na zona euro, tendo a probabilidade de default da Grécia aumentado 190%, a da Bélgica 168,5%, a da Espanha 129,2% e a de Portugal 127,3%. Durante este trimestre, a Espanha e Portugal atingiram os seus máximos históricos aquando da crise da zona euro a 6 de Maio, a Itália a 4 de Junho e a Grécia a 24 de Junho, quando alcançou um nível recorde do custo dos cds relativos à dívida de Atenas na ordem dos 1126,85 pontos base e 68,68% de probabilidade de default a cinco anos.

A Grécia continua a ser olhada pelos grandes investidores como candidata ao default num horizonte de cinco anos, ou a um reescalonamento ou reestruturação da sua dívida nos tempos próximos, apesar da intervenção directa do Fundo Monetário Internacional e de Bruxelas.

Os cinco países de maior risco mundial durante o segundo trimestre foram a Venezuela, Grécia, Argentina, Paquistão e Ucrânia, com probabilidades de default superiores a 35%. Os cinco países mais seguros foram a Noruega, Finlândia, Estados Unidos, Dinamarca e Suécia, com a probabilidade de default inferior a 4%.